Opiniões

Gustavo Alejandro Oviedo — É melhor já ir refletindo

 

 

“Um táxi vazio chegou a Downing Street, e dele desceu Attlee”. Com essa frase genial, Winston Churchill desprezou o seu rival político, o laborista Clement Attlee, que o tinha sucedido como primeiro-ministro em 1945 e que, aos olhos de Winston, era evidentemente uma insignificância de pessoa.

A boutade me veio à cabeça após ler a entrevista que o jornal O Globo fez com o candidato a presidente Jair Bolsonaro. Nela, o deputado confessa não ter a menor ideia da política econômica que terá o seu eventual governo. A cada pergunta relacionada com a área, Bolsonaro manda perguntar para o Paulo Guedes, o seu assessor econômico. Tentando ser engraçado, responde “pergunta no Posto Ipiranga”.

A insignificância de Bolsonaro deriva de seu desinteresse com qualquer assunto que não seja segurança pública. O candidato parece não apenas não saber nada sobre assunto algum, mas também fazer questão de se manter na ignorância. Apenas de uma coisa tem certeza: bandido bom é bandido morto.

Há 27 anos que Bolsonaro é deputado federal, e na maioria das vezes em que teve que se posicionar sobre algum projeto de lei votou a favor do corporativismo, do populismo econômico e do fisiologismo. Agora defende o liberalismo de Paulo Guedes, que em teoria se opõe a tudo o que Bolsonaro apoiou até ontem.

No domingo passado, o Partido Social Liberal (PSL) homologou a candidatura de Bolsonaro a presidente da República, sem ter conseguido coligar com nenhuma outra legenda. No evento, o candidato ironizou o acordo que Gerardo Alckmin costurou com o chamado ‘Centrão’ (a ‘direita fisiológica’, como bem a definiu Idelber Avelar) ao dizer que agradecia ao tucano por ter ficado com “a nata do que há de pior do Brasil”. Apenas duas semanas atrás, numa outra entrevista, tinha se orgulhado em dizer que 40% do Centrão o apoiava. Se o Lula reconheceu alguma vez ser uma metamorfose ambulante, Bolsonaro deveria se catalogar como uma incoerência móvel.

E, no entanto, o capitão-deputado tem mais ou menos um quarto da intenção de voto a nível nacional, dependendo da pesquisa. No estado do Rio de Janeiro, deixa o Lula em segundo lugar.

É preciso entender: não é que Bolsonaro tenha chances de ir ao segundo turno apesar das barbaridades e das incoerências que diz, mas graças a elas. A sua fortaleza reside em manifestar declarações que os políticos tradicionais não se animam a dizer. O pior que poderia fazer para sua candidatura é contratar um marqueteiro que venha a lhe aparar os excessos. O eleitorado (ou grande parte dele) está cheio de políticos de boa lábia, mas incapazes de compreender suas necessidades — e hoje, infelizmente, uma das preocupações que o cidadão tem é a de não morrer na volta do trabalho.

Bolsonaro representa a falência da política brasileira, assim como Chavez  representou a venezuelana, o Trump a norte americana, e Hitler a alemã do pós-guerra. São filhos, por parte de pai, da indiferença e do desprezo das elites governantes, e por parte de mãe do ressentimento de um povo. Em condições sociais normais um país nunca elegeria sujeitos pitorescos, despreparados, psicopatas ou fanfarrões para dirigir o seu destino. Bolsonaro pode parecer uma atrocidade, mas em verdade é o sinal de febre de um país doente.

 

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