Opiniões

Guiomar Valdez — Eleições 2018: quando veremos face a face?

 

 

Tenho acompanhado e aprendido neste espaço as opiniões e debates sobre as eleições 2018, em especial, os que tratam da corrida presidencial. Muito qualificado o que vem se apresentando, onde as diversas interpretações se apresentam de uma forma plural e legítima (importante registrar que não há ‘pensamento único’, pode existir pensamento hegemônico, ok?!). Gosto disso. Reflete o debate geral no país, incluindo, óbvio, as diferenças, e, às vezes, visíveis incompatibilidades das ‘leituras’ do mundo e atitudes afins, no trato com o Fato e o Conhecimento (com letra maiúscula mesmo!). Isso é riquíssimo, bem mediado, como é, para exercitar a frágil Democracia em que vivemos. Continuemos assim! Nestes tempos onde a intransigência com o diferente se agudiza, paciência, paciência histórica, é do que precisamos e muito!

Também é sobre Política e corrida presidencial 2018 que me expresso hoje, apenas apontando um aspecto que vem sendo secundarizado, às vezes, negligenciado nessas discussões: o entrelaçamento entre a crise econômica mundial que persiste e se aprofunda há 10 anos, a nossa crise política que estabeleço como proposta de marco inicial o ano de 2013, seu primeiro resultado com consistência o ano do impeachment da presidenta Dilma (2016) e as eleições gerais desse ano. Muitas análises podemos encontrar sobre estes temas, mas, para mim, infelizmente, de maneira isolada. Penso que se articularmos esses temas com o cuidado necessário, sem fundamentalismos e histerias, podemos, inclusive, clarear o contexto conjuntural, nos dando uma visão para além do curtíssimo prazo; um olhar, inclusive, que nos faça compreender nossos interesses, sejam individuais ou coletivos.

Um entendimento que deveria já ser comum, é de que as crises do nosso sistema socioeconômico deixaram de ser cíclicas para ser crônicas. Ou seja, não existe mais ‘remédio’ para as crises. O desafio é aprendermos a viver com ela (acho que quem nasceu a partir da segunda metade dos anos de 1970, a primeira palavra que falou foi ‘crise’, e, não mamãe e papai) ou construir um outro sistema socioeconômico (mas isso é um outro assunto…).

Fato é que vivemos hoje apenas a ilusão de um desenvolvimento/crescimento ‘auto-sustentável’. Na prática, é vã qualquer tentativa de controle daquilo que é incontrolável. Os ciclos ‘virtuosos’, quando acontecem, estão cada vez mais escassos. As inspirações keynesianas estão impossíveis de se aplicarem, como num passado recente. As liberais, ou, sejamos sinceros, as neoliberais – ‘hayekianas/friedmianas’ — estão batendo cabeças, aterrorizadas com o pesadelo das suas soluções que não resolvem a tendência à queda de lucros dos momentos de superacumulação, de um capital hegemônico que deixou de ser ‘produtivo’, para se lambuzar no monetarismo-especulativo. É fato a desindustrialização!

Ora, eu sei que fica muito confuso traduzir esta crise econômica, esta crônica situação para a dimensão política, para as relações de poder, institucionalizadas ou não. Mais difícil ainda, traduzi-la para a dimensão cultural e particular/privada. Porém, eu engatinho neste esforço. E, nesse caminho, relação política-economia, é imprescindível o papel do Estado. Ele é essencial para o funcionamento da economia capitalista — seja para institucionalizar a ordem política, econômica e cultural necessárias à acumulação, seja para atuar em momentos das crises cíclicas.

Nesse vaivém (acumulação acontecendo satisfatoriamente ou a queda da taxa de lucros), é quando se apresentam mais claramente as discussões do ‘tamanho’ do Estado: pequeno/grande. Raramente se pergunta pequeno ou grande para quê? Para quem? Certo é que o Estado é um protagonista insubstituível das ações/medidas necessárias à ordem empresarial/burguesa. É certo também, a história demonstra, que a ‘conta’ maior, em tempos de crise, vem sendo paga pelos trabalhadores em sua quase totalidade de segmentos.

Pois bem, o entrelaçamento Economia<<>>Política na História Contemporânea chega sob os auspícios do Liberalismo, que projeta e busca realizar uma Democracia que não atente contra à ordem vigente da dimensão socioeconômica e seus pressupostos filosóficos/ideológicos. A História, em especial, do século XX, tem em abundância exemplos de que quando a economia/acumulação entra em crise, a Democracia Liberal também sofre seus revezes, suas flexibilizações e/ou rupturas, afinal, Liberdade, Igualdade, Direitos, etc, podem ser proclamados, podem ser constitucionalizados.

Mas, diante da crise material, tudo é passível de ser relativizado! Isso acontece porque os espaços institucionalizados da Democracia construída historicamente tem a hegemonia do bloco de poder (reunião de frações da classe dominante/empresarial) de quem domina a economia. A variação no tempo se dá nas frações que compõem, não na classe. De uma maneira geral, as frações políticas de esquerda, enquanto classe, ainda pouco conseguiu historicamente se constituir em ‘bloco’.

Daí porque em tempos de crise econômica/acumulação, transborda a crise política/crise orgânica do bloco de poder, o impasse, as alianças, em busca da sobrevivência, em busca de uma forma de saída da crise que não desmorone a classe ou o sistema socioeconômico vigente. Normalmente ficamos confusos porque essas frações nem sempre se entendem no como administrar a crise, gerando uma concorrência orgânica/interna, um ‘salve-se o meu setor’, que me faz lembrar de uma frase significativa da política partidária do Segundo Reinado: “nada mais conservador do que um liberal no poder; nada mais liberal do que um conservador na oposição”.

No Brasil, o Partido dos Trabalhadores no poder não representou um bloco de esquerda, por favor. E, para mim, infelizmente. A ‘Carta aos Brasileiros’ de 2002 e os seus mandatos até 2016, representou o símbolo de um novo arranjo na hegemonia do bloco de poder, repetindo a reunião de frações da classe dominante/empresarial, em tempos de crise socioeconômica mundial crônica! Ao passar a ‘marolinha’ por volta de 2009/2010, os sinais do ‘tsunami’ começam a chegar, tornando impossível a continuidade da conciliação que ‘servia a quase todos’; tornando impossível conter as antigas e novas insatisfações… esta é uma possível leitura do ano de 2013.

Aparentemente caótica, as manifestações, o surgimento de novos movimentos sociais, da ação informativa e mobilizadora das redes sociais, apresenta o que ficou abafado, contido, engolido a seco, da ‘conciliação política’. Não apenas dela, mas das ideias políticas que estavam nos porões autoritários aparentemente adormecidas. Tudo sai dos armários!

A crise econômica chegou arrasadora e assumida, no momento dos dois últimos governos do PT. O que aparentava para nós nas eleições de 2014? Mais uma disputa partidária entre PT x PSDB. Não, foi muito mais que isso! Foi a expressão de uma crise política, sem mais a mediação conciliatória, diante da avassaladora crise sistêmica! A ilusória pretensão do Lulismo de que havia encontrado a ‘fórmula da harmonia social’, caiu por terra. Serviu mesmo, do ponto de vista do bloco de poder hegemônico, para salvaguardar seus interesses. Agora, não serve mais, mesmo tomando medidas de ajustes econômicos e políticos antipopulares!

O impeachment de 2016 e seus desdobramentos para o lulopetismo veio significar o fim da ‘conciliação’, como também, um momento da disputa dentro do bloco hegemônico de poder (industrial, agrário, financeiro, exportador, comercial, etc, etc) buscando saídas para administrar politicamente a crise, um acerto de contas dentro do próprio Estado das frações empresariais/burguesas. É preciso dar respostas econômicas à crise no âmbito político! É preciso manter a ordem, mesmo que a Democracia seja relativizada, desestabilizada.

A dimensão jurídica dessa Democracia tem sido protagonista neste novo arranjo, por exemplo. As forças estão sendo acumuladas desde então. O clima para a tese do descontrole está dado: desemprego, corrosão salarial, péssimos serviços públicos em todas as áreas, violência social exacerbada e a institucionalizada também, perdas de direitos, insegurança social se generalizando.

As Eleições Gerais de 2018 estão contidas nessa conjuntura política que expressa a crise estrutural no Brasil. As candidaturas stricto-sensu de centro-direita e de direita e seus fisiologismos são os possíveis vitoriosos. Não é o que eu quero ou desejo viver no meu país novamente! Considerando que o processo de acumulação não se move pela ética humanitária e recordando que em tempos de crise sistêmica-estrutural a Democracia Liberal pode ser solapada, até a extrema direita tem espaço, dependendo apenas da análise do grande capital e suas inseguranças políticas para a saída da crise. Para mim seria um pesadelo vivenciar o fardo desse possível tempo histórico! Por não entrelaçarmos Economia<<>>Política, vemos em ‘parte’, e, às vezes, em pedacinhos minúsculos dessas partes. Quando veremos ‘face a face’?

 

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