Opiniões

Paula Vigneron — Tempo

 

Catacumbas da Catedral de Lima, Peru, 02/11/14 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

Fechou o caderno.

A capa estava surrada. Escurecida. As beiradas, encardidas. Quanto tempo havia demorado para perceber? O que restou das letras prateadas não formava mais o seu nome. Eram traços quase imperceptíveis, desgastados pelos dias e pelo excesso de manuseio. Abrira-o e fechara-o tantas vezes nos últimos anos que as impressões digitais pareciam se fundir em desenhos irreconhecíveis. Ou seria apenas ele?

Olhava-o com admiração e pesar. Cada página daquele caderno havia sido escrita com cuidado e delicadeza mesclados à solidão, por vezes. Em outras, havia uma ponta de raiva inconformada com os caminhos que aquelas palavras insistiam em seguir. Mas ele sabia. Não era possível mudar o destino. Nem mesmo os planos prévios que se alteravam para levá-lo a vias desconhecidas. Rabiscava. Apagava. Tentava reescrever. Mas nada o obedecia. Sentia o tempo escoar enquanto analisava cada detalhe daquele objeto. Para quê?

Abriu.

O menino percorria as páginas e, na 15, se encontrava com o adolescente. Rebelde. Engraçado. Certeiro. Na 18, o jovem acenava, ainda perdido por ter crescido tão de repente. Um homem encenava dar as caras na 21, mas era mais visível na 25. Ou 26. Na 30, talvez. A 40 trazia os fios grisalhos que substituíram o garoto em sua face. Para onde caminhava entre as folhas amareladas?

As primeiras letras mal desenhadas com auxílio de dedos amigos. Um acerto ali. Outro acento aqui. Reticências, pontos, travessões. Travessuras. Linhas mais elaboradas divididas com tantas que traçaram também o seu caminho. E o desviaram em certos capítulos. Retomada a tinta, buscava aperfeiçoar, cada vez mais, os seus percursos. Confusos. Havia páginas com começo, mas sem meio ou fim. Em outras, o fim explicava o começo. O meio esquecido. Um final solto. Um sentido perdido.

Fechou.

Nestas horas, sentia-se covarde. Reler certos momentos era como inundar-se de memórias nem sempre positivas. E confrontá-las levava-o a se deparar com pequenos monstros escondidos entre hifens e elipses. Pontos e vírgulas. Vírgulas sem pontos. Pronomes. Passados presentes. Mas sentia a necessidade de insistir um pouco mais. Poderia encontrar uma forma de lapidar e reelaborar para conferir outro estilo à estrutura.

Abriu, mais uma vez.

Tocou as páginas com nostalgia.

“Vazios”, pensou.

Fechou.

“Talvez as folhas amareladas ainda conservem espaços.”

Tocou a capa, que parecia mais surrada agora.

Afastou as mãos.

Abriu.

“Ainda falta um ponto, quem sabe?”

Olhares. Toques. Outros. Pesares. Medos. Ele. Amores. Lembranças. Sorrisos-lágrimas-fome-brigas-risos-paz-dias-horas-minutos-segundos-o tempo. Mãos suadas. Um ponto. O resto. O tempo ecoando em tics-tacs. Ele. O tempo. Nele, o tempo. Dele, o tempo. Quanto. Quando. Em quanto? Enquanto.

 

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