Opiniões

Crônica do domingo — No botequim, Brasil de Bolsonaro a Luzia

 

“Essa cortina de silêncio encobre dezenas de milhares de anos de história. Esses longos milênios podem muito bem ter testemunhado guerras e revoluções, movimentos religiosos arrebatadores, teorias filosóficas elaboradas, obras artísticas incomparáveis. Os caçadores-coletores podem ter tido seus Napoleões governando impérios da metade do tamanho de Luxemburgo; Beethovens dotados, carentes de orquestras sinfônicas, mas capazes de levar as pessoas às lágrimas com o som de suas flautas de bambu; e profetas carismáticos que revelavam as palavras de um carvalho da região em vez das de um deus criador universal.”

(Historiador Yuval Noah Harari, em “Sapiens — Uma breve história da humanidade”)

 

 

 

Brasil de Bolsonaro a Luzia

 

— Não tem jeito. Bolsonaro já está posando para foto no hospital imitando arma com as mãos. E ainda tem gente que prega compaixão — esbravejou Júlio, antes de molhar a garganta com o primeiro gole de cerveja gelada.

— Temos que olhar isso sem paixão, não com — questionou Aníbal, enquanto pousava seu copo menos cheio à mesa do botequim.

— Que diabos quer dizer com isso?

— Simples: até levar a facada no bucho, Bolsonaro tinha cerca de 20% das intenções de voto, correto?

— Sim. E daí?

— E daí que são 30 milhões de pessoas que já tinham decidido votar no candidato que imita arma com a mão. Sem paixão, se vê que é a garantia de Bolsonaro pra estar no segundo turno. Daí ele repetir o gesto na primeira oportunidade. Mas a questão principal não é essa.

— E qual seria?

— É a rejeição. Se segurar ou crescer esses 20%, Bolsonaro está no segundo turno. Mas, uma vez lá, não vence com 44% de rejeição. É consenso no mundo todo: nenhum candidato com 35% de rejeição vence eleição em dois turnos. É por isso que Bolsonaro, passada a arrebentação, morre na praia com Ciro, com Marina ou com Alckmin.

— Pelas pesquisas, Bolsonaro só teria chance se fosse para o segundo turno com Haddad.

— Como Haddad só tem chance no segundo turno se for com Bolsonaro. Lula conta com isso. Por isso a propaganda do PT não disse uma vírgula sobre Bolsonaro. Por isso Janaína Paschoal falou, na convenção dele, que os bolsominions eram o PT ao contrário. E são. Para os dois, política é só paixão. Não há razão. É religião: Lula e Bolsonaro são Deus ou o Diabo.

— E quem vota no Ciro e defende o Lula? Tem eleitor mais irracional? Vota em um candidato e defende quem mais trabalhou para prejudicá-lo. Acende uma vela pra Deus e outra pro Diabo.

— Sou obrigado a concordar. Mesmo da cadeia, Lula serviu a cabeça de Marília Arraes na bandeja ao PSB em Pernambuco. Pra ferrar o Ciro, mandou às favas o legado de Miguel Arraes. Ciro só não falou ainda o que pensa de verdade sobre Lula porque precisa dos votos dele. Se chegar lá, quem espera indulto em Curitiba e governo de esquerda no Brasil pode ter surpresa.

— Governo de esquerda com Kátia Abreu relativizando trabalho escravo em defesa do agronegócio, é coisa de doido. Ou “viagem lisérgica”, como Ciro chamou a insistência do PT com Lula.

— No Brasil tem de tudo. Tem quem acreditou que Marielle era namorada de traficante e ligada ao Comando Vermelho. Tem quem agora acredita que a facada foi fake. É por serem endeusados e demonizados que Bolsonaro e Lula geram os maiores delírios. E rejeições.

— Mesmo se Bolsonaro crescer nas intenções de voto depois da facada, ele já tinha o suficiente antes dela para estar no segundo turno. Só que perde fácil no final para qualquer adversário que não for Haddad. Como você disse, é a rejeição.

— E se a facada também diminuir a rejeição? Aí, Bolsonaro deixaria de ser cavalo paraguaio.

—  Como seria possível?

— O Brasil que foi dormir pedindo a renúncia de Getúlio achava possível acordar querendo linchar Lacerda?

— Mas ali quem sofreu o atentado na rua Tonelero foi o Lacerda.

— Foi. Aí o Getúlio se matou e virou o jogo no emocional do povo. Se facada no bucho vai valer igual a tiro no peito, só o tempo vai dizer. Na segunda, o Datafolha solta pesquisa e sinaliza. É a primeira depois de Juiz de Fora. Tá todo mundo, inclusive os candidatos, aguardando.

— O Alckmin teve até que suspender a propaganda da bala depois da facada.

— Da bala e da grosseria com mulher, que estavam dando certo para aumentar a rejeição de Bolsonaro. Só que ele e Alckmin disputam o mesmo eleitor. O antipetismo cresceu muito no Brasil. Mas não o bastante para colocar dois candidatos no segundo turno.

— Falando de mulher, e a Marina? Ela foi a única até aqui que enquadrou Bolsonaro, no debate da Rede TV.

— Marina e Eduardo Jorge talvez sejam as melhores pessoas entre os candidatos a presidente e vice. São íntegros, republicanos e não têm intenção de se perpetuarem no poder. Mas um governo deles poderia ser igual ao de Roberto Saturnino na Prefeitura do Rio. Era um homem honesto, íntegro e cheio de boa intencão. E fez uma péssima administração.

— O petista de seita também é ressentido com a Marina, depois que ela apoiou o Aécio em 2014 e o impeachment de Dilma.

— Marina não tinha o que fazer, depois da maneira odienta que Dilma, Lula e o PT trataram ela na campanha de 2014. E o fato de ter sofrido isso, depois da morte do Eduardo Campos, indica bem o que Bolsonaro vai voltar a sofrer logo, logo. Antes mesmo da ferida na barriga cicatrizar.

— Rapaz, nem falamos do Museu Nacional. Diz aí: o Psol tem culpa ou não?

— Vai além do aparelhamento partidário pela reitoria da UFRJ. O crânio da Luzia era do ser humano mais antigo da América do Sul. Tinha 13 mil anos e foi consumido pelo fogo. Era uma tragédia anunciada e ninguém fez nada. O que isso quer dizer?

— Que era velho pra caramba?

— Pois é. Ela viveu e morreu aqui uns 10 mil anos antes de Cristo andar pela Terra. E seu crânio chegou até nós, mas não chegará a quem vier depois. O que isso quer dizer?

— Sei lá. Que diabos isso quer dizer?

— Que, em 130 séculos, nós somos o pior tipo de ser humano que já passou por aqui, no que chamamos de Brasil. E não tem ninguém inocente. Nem eu, nem você, nem a família com as crianças na mesa ao lado, nem o garçom — sentenciou Aníbal, enquanto sinalizava com as mãos para pedir outra cerveja.

 

Publicado hoje (09) na Folha da Manhã

 

Este post tem 6 comentários

  1. Eu estou com Bolsonaro esse papo de rejeição não é verdade, essas pesquisas são todas compradas para tentar virar o jogo.Bandidos podem fazer qualquer gestos com as mãos que são coitadinhos

    1. Caro Cesar,

      Todas as pesquisas apontam que Bolsonaro é um candidato forte no primeiro turno e fácil de ser batido no segundo por qualquer adversário, à exceção de Haddad. Diante desta realidade, o voto é livre. Como o choro.

      Grato pela participação!

      Aluysio

  2. Até a Folha da Manhã com esse papinho de rejeição. Pelo visto também tem rabo preso com o governo como a rede globo. Após a vitória no primeiro turno vou vir aqui pra relembrar esse comentário imparcial que postou acima a qual o Sr.escreve que o voto é livre como também o choro. O sonho de voces é que nossa bandeira seja vermelha. Mas isso NUNCA acontecerá!

    1. Caro Wagner,

      No mundo real, após a facada, Bolsonaro foi de 26% a 30% na pesquisa FSN/BTG retratada na postagem acima. Marina, após o acidente aéreo que matou Eduardo Campos em 2014, assumiu a candidatura dele com 7% nas pesquisas. E pulou na seguinte a 24%. Mesmo crescendo bem menos que ela, após tragédia semelhante, não creio que Bolsonaro também acabará fora do segundo turno. Mas a inexistência deste parece ser algo que não acontecerá. Ainda assim, o voto e o choro têm bandeira branca.

      Grato pela chance do debate!

      Aluysio

  3. Mais uma reportagem tendenciosa …
    A verdade é que está crescendo constantemente nas pesquisas, e a esquerda está de tremendo toda kkkkkk
    Bolsonaro 2018 !!!!

    1. Caro Luciano,

      Na tendência que a crônica prevê, Bolsonaro cresceu nas intenções de voto após a facada. Na postagem acima desta, consta que, na pesquisa FSN/BTG, ele passou de 26% a 30%.

      Grato pela partcipação!

      Aluysio

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