Opiniões

Paula Vigneron — Pelos cantos

 

Atafona, fim de tarde de 16/01/18 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

A fotografia era o único registro que havia sobrado. Antônia aparecia sorrindo. Um bom observador notaria diferenças entre aquele sorriso e o que estava em destaque na foto ao lado, que tinha mais de cinco anos. Vivacidade. Leveza. Tudo o que, nos tempos finais, havia deixado para trás. Cícero apegara-se à imagem como se fosse uma extensão de seu corpo. A ideia da última memória o perseguia desde que Antônia o deixara, sem aviso prévio e palavras sobre o futuro caminho. Apenas saíra, levando as malas e um retrato do marido e filhos. Ele acordou e, ao procurá-la pela casa, encontrou um bilhete próximo à cafeteira:

“Não sairia sem preparar o seu desjejum, arrumando a mesa de acordo com suas ininteligíveis vontades. Afinal, foi para isso que servi durante os vinte anos em que ficamos juntos. Pedidos e mais pedidos desmedidos. Mas você se esqueceu de olhar para o lado. E eu, Cícero?”

O recado o deixou confuso. Como ela é capaz de enxergá-lo de maneira tão insensível? Vivera intensamente o casamento, dando a ela mais do que podia.

“Coisas materiais, amigo, eu também posso dar à sua mulher. E a atenção que ela sempre busca? Alguém, um dia, pode oferecer a ela. E aí, meu irmão, você vai perder”, alertou-o Milton, companheiro de trabalho desde a juventude.

“Não. Eu dei tudo. Dei atenção, carinho e ouvidos quando ela precisava. Onde errei?”, questionou. O silêncio da manhã o incomodou. A esta hora, a casa começava a borbulhar com os passos de Antônia misturados ao som de sua voz vazia de frases interessantes.

“Mas essa era a minha rotina. A vida a que eu estava acostumado. E agora?”

Andou pela cozinha. Continuava a pensar na possibilidade de ela ter lhe pregado uma peça. Desde o começo do relacionamento, brincava de assustá-lo. Ele sabia que Antônia gostava, mas não conseguia se lembrar de um momento específico. Brincadeiras existiam, principalmente nos primeiros meses.

“Você se recorda da viagem à cachoeira? Eu escorreguei, e você quase morreu de rir. Quando viu que me machuquei, foi me socorrer, com remorso.”

“Não. Não consigo encontrar essas histórias na minha memória.”

Desde a partida de Antônia, cada dia deixado para trás levava mais um trejeito dela de sua mente. Cícero sabia que ela adorava cozinhar e escutar música, mas não ouvia mais os sons que ecoaram pela casa durante dias e noites; semanas, meses e anos. Apenas o movimento da boca estava registrado em sua retina. E uma boca que não tinha voz.

Ele correu ao quarto e tocou na foto. Precisava se certificar da existência de uma realidade em que a mulher ainda transitava. Confirmou sua suspeita e voltou à cozinha. Tomava apenas um café com leite e seguia para trabalhar. Mas, por ser sábado, não sabia bem o que fazer depois de acordar. A esta hora, ela estaria cozinhando com o pequeno aparelho de som sintonizado em uma estação de rádio qualquer, enquanto interpretava a composição da vez. Embora soubesse que o estilo musical favorito de sua esposa era MPB, não havia memorizado, em vinte anos, as canções de que ela mais gostava.

As mãos ágeis seguiam o ritmo dos instrumentos. Como eram seus dedos? Cícero correu, novamente, para olhar o retrato. O que desejava não havia sido registrado pela máquina. Acabara de perder, definitivamente, mais uma parte de Antônia. Buscava, em todos os recônditos da memória, os traços dela, mas eles desapareciam pouco a pouco. Desta vez, carregou a foto em seu bolso.

Seguiu em direção à sala. Ligou a televisão e parou em um canal desconhecido. Um casal vendia joias, contando os benefícios do uso de um produto de primeira linha.

“Quando puder, você me dá um assim?”, perguntou Antônia, em uma tarde de descanso.

Os dois estavam acompanhando a programação da emissora. Ele não respondeu. Ficou em silêncio, seguindo o rito de convívio em sua casa. Os filhos, adultos, viviam em outros bairros. Haviam dito à mãe que não suportavam o descaso.

“Descaso é a mente torta de vocês”, respondeu, tarde demais, Cícero. Assim como Antônia, eles não estavam ali para ouvi-lo. Teria sido mesmo um marido catastrófico como queriam fazê-lo acreditar? Não, não. Cultivava detalhes da história dos dois.

Por minutos, pegou-se tentando reviver o primeiro beijo. O pedido de namoro. A viagem ao Rio de Janeiro. O passeio pelas praias. O casamento. O nascimento do primeiro filho. Todas as imagens haviam se transformado em frases que construíam precariamente sua trajetória. Não conseguia ver o filme da vida sobre o qual todos falavam. Sua memória era um amontoado de palavras perdidas.

“Bobagem!”, e retornou à cozinha. Três meses se passaram desde que Antônia se despedira definitivamente dele. Cícero, no entanto, sabia que ela voltaria. “É só uma ridícula maneira de tentar chamar a minha atenção. Ela fazia isso sempre. Costumava ir ao salão para ficar bonita e atrair meu desejo”, comentou, sozinho, enquanto planejava o almoço do dia. Apertou o cabo de uma panela. A força equivalia à necessidade de se lembrar dela nos dias em que se arrumava. Como era? Como ficava? Qual era o cheiro, o gosto, o tato?

Fechou a geladeira, desistindo de comer àquela hora. Seu estômago estava embrulhado com as lembranças espaçadas. Nem as cenas de sexo passavam diante de seus olhos. Só os fatos eram narrados em sua cabeça por uma voz desconhecida. Seria a de Antônia? Sentou-se à mesa. Estiveram ali, quinze anos antes, para comprar a casa. O corretor de imóveis, um homem de cabelos brancos, ainda dividia o espaço com um Cícero agora envelhecido. Mas, ao lado dele, Antônia deixara de existir. Recorreu à fotografia. Não reconhecia mais o rosto da esposa; da mulher com quem dividira bons dias e noites; daquela que escolheu para construir uma vida.

Ainda com os dedos fechados sobre a foto, refez o percurso para o quarto. Ele estava impregnado dela. Em todos os cantos, havia um pertence esquecido. Brincos, anéis, papéis de cartas, que estiveram em orelhas, mãos e entre dedos hoje desfeitos. A quem pertenciam? Deitou-se. O coração apertado reforçava a ideia do retorno de Antônia. Mas quem era Antônia? Fechou os olhos, invocando pernas, peitos, quadris, rosto. Falas, frases. Tons. Cabelos. Pretos, brancos? Olhares, escolhas. Falhas, acertos. Pés, unhas, sorriso. Os dentes. Eram tortos? Alinhados? Eram?

Puxou o cobertor, ajeitou os travesseiros. Trechos de cenas desconexas passavam por sua cabeça. Posicionou-se. Respirou fundo para aquietar pensamentos e coração. Inspirava, expirava. Expirava, inspirava. Aprendera com alguma colega de trabalho que a técnica poderia ser essencial em momentos de tensão. O rosto dela, agora, dominava a sua mente. Seria dela ou de sua mulher? Virou de lado na cama. À sua frente, o espectro de Antônia o observava adormecer.

 

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