Opiniões

Artigo do domingo — Brasil, qual é o nome do teu sócio?

 

 

Suponha, leitor, que alguém considere Luiz Inácio Lula da Silva, Jair Bolsonaro e Anthony Garotinho políticos populistas. Lula e Bolsonaro, faces opostas da mesma moeda cunhada ao ferro do dogma e ao fogo da paixão; enquanto Garotinho, um troco da metade do valor.

Seria juízo por certo distinto do que fazem os numerosos seguidores dos três líderes políticos. Mesmo que não seja feito sem reconhecer, entre outras qualidades, a genialidade política do petista, o senso de oportunidade do ex-capitão do Exército e a determinação do radialista.

Suponha ainda que esse alguém seja defensor do Judiciário, do Ministério Público e da imprensa. E que veja nas críticas às três instituições o reflexo nítido da bipolaridade dos críticos. Como enxerga, na cara de cada representante das três esferas legislativas, o rosto sem maquiagem de quem votou para ser — e é — representado.

Ainda assim, e se esse alguém também encarasse os últimos acontecimentos com Lula, Garotinho e Bolsonaro à luz da razão? E visse na censura prévia do ministro do STF Luiz Fux à entrevista do ex-presidente à Folha de São Paulo um exercício desvelado e deslavado de autoritarismo?

Base do Iluminismo, da democracia representativa, da separação dos poderes e da não supressão do direito do indivíduo entre eles, onde colocar a batida máxima de Voltaire: “posso não concordar com uma palavra do que diz, mas lutarei até a morte pelo seu direito de dizer”? Data vênia, máxima vênia, onde rezar sua missa de corpo presente?

Pode ser que esse alguém não tenha questionado a condenação de Garotinho, na 4ª Vara Criminal Federal do Rio, como chefe de quadrilha armada por sua atuação no governo estadual Rosinha. Não questionou em 18 de agosto de 2010, quando saiu a sentença. Nem quando o filme “Tropa de Elite 2”, baseado naqueles bárbaros crimes de Estado, foi lançado.

Mas talvez até o Eremildo, idiota criado pelo jornalista Elio Gaspari, indagasse: por que o TRF-2 só julgou e confirmou a condenação em 4 de setembro de 2018? Passados mais de oito anos da decisão de primeira instância, o que mudou na celeridade da segunda, além das urnas a governador do mês seguinte?

Adiante dos motivos aparentemente insondáveis da Justiça, e se esse alguém também encarasse o último extremo da grande mídia brasileira? Mais precisamente, a veiculação da matéria sobre a separação de Bolsonaro da sua ex-esposa Ana Cristina Valle, que estava sob segredo de Justiça na 2ª Vara de Família da Barra da Tijuca.

No limite muitas vezes tênue entre interesse público e interesse do público, fica cada vez mais difícil saber qual é o observado pela imprensa. Mas expor as vísceras de uma separação litigiosa com disputa de bens e guarda de filho, sem prova de nenhum crime que não acusações passionais sepultadas pelo tempo, deveria referenciar alguma fronteira ética.

Independente do resultado da agrimensura, serve para resguardar a vida pessoal de quem fez a matéria e de quem a leu. Nem mais, nem menos do que a de um candidato a presidente líder em todas as pesquisas a pouco mais de uma semana da eleição.

Não gostar de Lula, Bolsonaro e Garotinho é um direito. E, convenhamos, os três deram e dão motivos para isso. Mas até onde são capazes de ir a Justiça e a imprensa com quem elas não gostam, ou não gostamos nós, é a medida a ser adotada com cada cidadão que gere contragosto — inclusive conosco.

Goste-se ou não de futebol, quem assistiria a uma partida em que juiz, bandeirinhas, VAR, comissões técnicas, gandulas, maqueiros e crônica esportiva passassem a ser protagonistas sobre os jogadores do campo? Sejam estes craques, ou pernas de pau enganadores, ao gosto das torcidas.

Quando Judiciário, Ministério Público e imprensa avançam sobre seus papeis institucionais, dão liberdade a outros entes para também fazê-lo. Para quem ainda não percebeu, as Forças Armadas, humilhadas em uma intervenção desastrosa do governo Temer na Segurança do Rio, voltaram a entrar no campo civil. E tinham abandonado esse jogo por W.O. desde 1985.

De volta ao nosso hipotético alguém do início deste texto, a sete dias da eleição, ele é o sujeito que despertou à realidade do seu país afunilada entre Bolsonaro e Haddad. E com uma única opção concreta para ainda tentar fugir da polarização e buscar o centro: Ciro Gomes.

Diante do cearense como derradeira alternativa ao equilíbrio nacional, o dilema remete à máxima de outro filósofo, que revelava a verdade pelo humor. Foi Marx — o Groucho, não o Karl — quem disse: “nunca faria parte de um clube que me aceitasse como sócio”.

 

Publicado hoje (30) na Folha da Manhã

 

Este post tem 6 comentários

  1. Um prostíbulo tem mais decência e respeito às normas do que o Supremo Tribunal Federal.

    O ministro Luiz Fux, numa decisão inteiramente contrária à jurisprudência da Corte, e ocupando ocasionalmente o cargo de presidente, cassa a decisão do Ministro Ricardo Lewandowski de autorizar uma entrevista do ex-presidente Lula a um veículo de comunicação.

    A própria PGR já havia dito que não iria recorrer da decisão de Lewandowski ao pleno em homenagem à liberdade de expressão. A decisão de Fux é uma armadilha para Toffoli, que estava em São Paulo. Se Toffoli, na segunda, cassar a decisão de Fux, a partir de terça será descrito como a representação do PT no STF.

    Se não cassar a decisão, perde inteiramente sua capacidade política de exercer em sua plenitude a presidência do STF.

  2. OFF LUX
    A força da gravidade não pode ser vista, mas o efeito dela sobre os corpos sim.

    Esse axioma também é válido para a energia. Contida em cada partícula que compõe a matéria visível, a energia é invisível.

    Luiz Fux proibiu Lula de dar entrevista para não beneficiar Fernando Haddad.

    As redes de TV não transmitiram as manifestações #EleNão para não prejudicar a campanha de Jair Bolsonaro.

    Encarcerar ou silenciar a gravidade é impossível. Aprisionar a energia é algo muito perigoso, pois isso aumenta exponencialmente o efeito de sua liberação. As bombas atômicas comprovam empiricamente esse fato.

    O princípio que orientou Fux e as redes de TV foi o mesmo: a predominância do poder sobre o Direito e da câmera sobre a notícia. O sentimento que orientou ambas negações (do direito da imprensa escrita entrevistar Lula e do direito dos telespectadores de ver as manifestações) não foi a esperança de fazer o novo presidente e sim o medo de que o novo presidente será feito contra a vontade do Ministro do STF e dos barões da mídia.

    Fux é orgulhoso e ingênuo.

    Ele ainda não aprendeu que uma decisão judicial nunca é capaz de conferir ou de retira a importância política de alguém.

    Todas as vezes que tentaram interferir no processo político na última década, as redes de TV esqueceram um detalhe importante: a existência da internet.

  3. Fux cometeu as seguintes irregularidades:

    1- Não existe hierarquia jurisdicional entre os Ministro do STF. Não cabe suspensão de liminar contra decisão de Ministro do STF.

    2- Fux tomou a decisão na qualidade de presidente interino do STF. Ocorre que o presidente do STF, Dias Toffoli, está no Brasil. Jamais poderia ter sido substituído pelo vice.

    3- Logo, Fux fraudou um instrumento processual para modificar uma decisão do STF. Tornou-se passível de impeachment.

    4- Instaurou a censura prévia no país, condenada pelo plenário na ADPf 130. A própria Procuradora Geral da República Raquel Dodge soltou uma nota dizendo que não iria recorrer em nome da liberdade de imprensa.

    5- Aceitou um pedido do partido Novo, que não tem legitimidade para propor. Suspensão de Liminar só pode ser proposta por entidade de direito público. Há uma exceção para entidade privada que estiver realizando serviço público – uma concessionária, por exemplo. O Novo não tem representação no Congresso Nacional. Não pode sequer ajuizar ação direta de inconstitucionalidade.

  4. Não sou expert, mas gostaria de ter o Ciro como presidente. Adorei o texto.

  5. Essa é a eleição do “NÃO VOTO NESSE DE FORMA ALGUMA”.

    Eu estava na dúvida em quem não votar. NÃO ESTOU MAIS.

    Edir Macedo anuncia no Facebook apoio a Bolsonaro(https://br.noticias.yahoo.com/edir-macedo-anuncia-no-facebook-apoio-bolsonaro-180912169.html)

    Igreja Universal manteve rede internacional de adoções ilegais, diz TV portuguesa

    Mães acusam Edir Macedo de tráfico de crianças(http://www.diarioonline.com.br/noticias/brasil/noticia-472219-maes-acusam-edir-macedo-e-iurd-de-trafico-de-criancas.html)

    Eu estava na dúvida em quem não votar. NÃO ESTOU MAIS.

  6. Oportuno, inteligente e reflexivo texto, mas estou apreensivo com as eleições. Há todo foco na escolha presidencial, pouco se fala na outra parte importante que temos que nos preocupar, o Senado e as Câmaras. Se não bastasse, ainda há aqueles candidatos que conseguiram se candidatar novamente, mesmo com o seu “histórico” nem sempre tão correto quanto deveria. Que tratemos de refletir, de avaliar, de pelo menos levantar o rol de candidatos, anotar seus números. E para finalizar: __Se queremos inclusive um STF melhor, temos que escolher com cuidado os políticos, porque são eles que fazem a sabatina e já sabemos o que ocorre quando escolhem mal.

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