Opiniões

Declaração de voto a presidente e governador

 

A dois dias da eleição, penso ser a hora de declarar meus votos neste domingo (28).

A presidente, farei opção inédita desde minha primeira eleição, em 1989: anularei o voto. Quem alegar que com isso delegarei minha decisão a outro: concordo! Mas, qualquer que seja, não será a minha decisão. Estou com o velho Otto Von Bismarck: “política é a arte do possível”. Mas não vejo possibilidade de votar em Jair Bolsonaro (PSL) ou Fernando Haddad (PT).

Não sou capaz de dar a anuência do meu voto ao defensor de um torturador condenado, capaz de negar a existência da ditadura militar, preconceituoso com as minorias, contrário à equidade salarial entre os gêneros, estatista convertido em liberal para fins eleitoreiros, que ameaça publicamente seus opositores políticos com exílio ou cadeia, pregador de “Deus acima de todos” e da resolução dos problemas laicos do país à bala.

Tampouco darei meu voto a um gestor público rejeitado no primeiro turno em sua tentativa de reeleição, que não é dono dos próprios votos e tem que buscá-los na porta da cadeia, por um partido que enfiou o Brasil na pior recessão econômica da sua história, cercado de protagonistas do maior escândalo de corrupção da Terra, que tem como projeto de governo o controle da imprensa, da Justiça, do Ministério Público e dos Tribunais de Contas.

Se o eleito me supreender e fizer um governo com respeito à Constituição e à democracia, que promova as reformas necessárias ao país, apoie o combate à corrupção e apresente alguma melhora nas situações calamitosas da economia e da segurança pública, me submeterei à realidade. Não tenho compromisso com o erro, só com minha consciência.

 

 

A governador, votarei em Eduardo Paes (DEM). Ele não foi minha opção no primeiro turno, como também não foi Wilson Witzel (PSC). Mas entre o que já sabia do ex-prefeito do Rio, fico com sua experiência como administrador. À parte qualquer crítica, quem frequenta a capital do Estado pode perceber claramente as melhorias físicas na cidade após a sua administração.

Pesa contra Paes sua ligação íntima com o ex-governador Sérgio Cabral (MDB), que agora alega ter sido meramente institucional. Além da delação do seu ex-secretário de Obras Alexandre Pinto sobre recebimento de propina. Em contrapartida, Witzel celebrou a destruição da placa da ex-vereadora assassinada Marielle Franco (Psol), ensinou como juiz aos colegas de toga a acumular gratificação e tem ligações no mínimo suspeitas com o advogado Luiz Carlos Cavalcanti Azenha, preso ao tentar dar fuga ao traficante Nem da Rocinha.

Se Paes tem (ou teve) o apoio de Cabral, Witzel tem o dos líderes evangélicos, incluindo o atual prefeito do Rio, Marcelo Crivella (PRB). Nada contra os evangélicos, cuja leitura teológica respeito, assim como sua valorização sociológica ao êxito profissional e econômico do indivíduo. Mas considero luciferina a promiscuidade entre política e religião, que trata eleitor como gado.

Apoio por apoio, Cabral está preso. Livre, Crivella faz péssimo governo na capital. Eleger Paes, embora difícil pela grande vantagem de Witzel, seria saudável ao equilíbrio político do Estado.

 

Instituto Paraná registra Jair Bolsonaro 60,6% a 39,4% Fernando Haddad

 

 

Instituto que registrou antes de todos o avanço final de Jair Bolsonaro (PSL) no primeiro turno, o Paraná acabou de soltar sua última pesquisa presidencial à eleição deste domingo (28): Bolsonaro tem 60,6% dos votos válidos, com 39,4% para Fernando Haddad (PT).

Os números são bem diferentes dos apresentados ontem pela Datafolha, onde o capitão ficou com 56% dos votos válidos, contra 44% do petista. Se pelo Datafolha a diferença de Bolsonaro para Haddad é de 13 milhões de votos, na Paraná essa vantagem chega a 18 milhões de eleitores. A dois dias do pleito, são números praticamente impossíveis de serem virados.

Confira a análise da pesquisa aqui.

 

Decisão arbitrária da Justiça Eleitoral associa Bolsonaro ao fascismo

 

Justica Eleitoral associou Bolsonaro ao fascismo para determinar retirada de faixa da Faculdade de Direito da UFF

 

O respeito às determinações judiciais é um dos pilares da democracia. Mas não há como se respeitar a decisão da juíza Maria Aparecida da Costa Bastos, da 199ª Zona Eleitoral (Niterói), que mandou tirar a faixa “Direito UFF Antifacista” da fachada da Faculdade de Direito da universidade. O motivo? Segundo a magistrada, seria propaganda negativa contra o candidato a presidente Jair Bolsonaro (PSL).

Além de autoritária, a decisão é dissociada de lógica. Como não havia menção na faixa a Bolsonaro, ao seu número ou partido, a magistrada simplesmente concluiu que “fascista” é sinônimo de Bolsonaro. Difícil saber se mesmo Mussolini ou Hitler tiveram tamanha pretensão. Fulanização à parte, pode se discutir o que é fascismo, não que é obrigação do estado democrático de direito se opor a ele. Obrigação reforçada para alunos de Direito — como a juíza foi um dia e talvez devesse voltar a ser.

Sou defensor da operação Lava Jato, embora crítico aos seus excessos. Entre eles, o fato do juiz Sérgio Moro ter levantando em 1º de outubro, a seis dias do 1º turno, o sigilo de uma delação de Antonio Palocci feita em abril. Recusada pelo Ministério Público e desconsiderada pelo próprio Moro no julgamento da ação penal, a delação foi divulgada com o claro objetivo político de prejudicar o PT nas urnas. E a crítica não é por simpatia ao PT, a Lula ou Haddad, mas por consciência: o que a Justiça faz com eles, pode fazer comigo.

Isso posto, se fosse alvo de uma decisão arbitrária e estúpida como a da Justiça Eleitoral de Niterói, cidade onde nasci, responderia à excelentíssima juíza: DANE-SE! E assumiria as consequências pelo desacato a uma autoridade cujo abuso não me submeto como cidadão, além da desobediência civil ao Estado policialesco e burro que estamos nos tornando.

 

Leia aqui a matéria completa

 

Ainda longe, Haddad e Paes nunca ficaram tão perto de Bolsonaro e Witzel

 

 

Charge do José Renato publicada hoje (26) na Folha

 

 

Menor diferença do 2º turno

Jair Bolsonaro (PSL) e Wilson Witzel (PSC) ainda são favoritos para se elegerem, respectivamente, presidente e governador nas eleições deste domingo (28). Mas, a dois dias das urnas, a mesma vantagem 12 pontos dos líderes é a menor que eles tiveram em todo o segundo turno. Se Fernando Haddad (PT) e Eduardo Paes (DEM) têm muito pouco tempo para tirar essa diferença ainda significativa, eles nunca estiveram tão perto dos seus adversários. Feitas na quarta (24) e quinta (25) as pesquisas Datafolha aos Palácios do Planalto e Guanabara indicam o mesmo placar nas intenções de votos válidos: 56% a 44%.

 

Conhecimento negativo

Para governador do Rio, a Datafolha de ontem repetiu os mesmos números na intenção dos votos válidos da pesquisa Ibope: Witzel 56% a 44% Paes. Na consulta presidencial deste instituto, a vantagem de Bolsonaro foi maior: 57% contra 43% de Haddad. Mas, em relação à Datafolha, é uma diferença mínima nas intenções de votos dos dois candidatos. Ao analisar a pesquisa Ibope a governador, esta coluna alertou (aqui) na quarta (24): “Solenemente ignorado pelo eleitorado fluminense até surpreender e atropelar nos últimos dias antes do primeiro turno, Witzel parece perder votos a cada dia que se torna mais conhecido”.

 

Witzel monta em Bolsonaro

Ciente do perigo de se tornar um cavalo paraguaio, Witzel conseguiu autorização para voltar a subir na sela da popularidade dos Bolsonaro. Flávio Bolsonaro (PSL) foi o campeão de votos no Estado do Rio em sua eleição a senador. E o fato dele ter participado da campanha do ex-juiz federal foi considerado fundamental para a arrancada deste na reta final das urnas de 7 de outubro. No segundo turno, Jair tinha imposto a neutralidade ao filho na eleição a governador. Mas ontem Flávio voltou atrás: “Não há porque eu não autorizar o uso de minha imagem por aqueles (Witzel) que estão pedindo voto para presidente em Jair Bolsonaro”.

 

O fator evangélico

Além do apoio do clã Bolsonaro, que vai veicular massivamente até domingo, o ex-juiz tem sua principal força eleitoral no voto evangélico. Como o Ponto Final também revelou na quarta: “nos últimos dias antes do primeiro turno, várias lideranças evangélicas fluminenses estavam na dúvida entre apoiar Witzel ou Indio da Costa (PSD). Ao fecharem pelo primeiro, dispararam mensagens de apoio no WhatsApp. Ontem (23), a revista Veja noticiou que a campanha de Witzel recebeu doação de R$ 20 mil do empresário Roberto Nishimura. Ele é dono da empresa Sinape, que tem contrato com a Prefeitura do Rio, comandada por Marcelo Crivella (PRB)”.

 

Preço do autoritarismo

Quanto à queda do líder na corrida presidencial, o diretor do Datafolha, Mauro Paulino, a creditou ontem aos “arroubos autoritários” de Jair. Antes da pesquisa Datafolha, a coluna já tinha feito esse mesmo diagnóstico: “parece ser um susto dado pelo eleitor a quem já se considera com a mão na faixa presidencial. E que, por isto, tem cometido excessos. No domingo (21), em manifestação de apoio na av. Paulista, um vídeo do capitão foi transmitido ao vivo em telão. Nele fez várias ameaças preocupantes à democracia: ‘(…) a faxina agora será muito mais ampla (…) Ou vão para fora, ou vão para a cadeia. Esses marginais vermelhos serão varridos da nossa pátria (…) Será uma limpeza nunca visto (sic) na história do Brasil’”.

 

Desculpas pedidas

Como a popularidade e o autoritarismo parecem andar juntos nos Bolsonaro, o chefe do clã foi também atingido pelas besteiras ditas por seu outro filho, Eduardo (PSL/SP), deputado federal mais votado do Brasil. O Ponto Final também as registrou: “No mesmo domingo, circulou pelas redes sociais um vídeo gravado em julho por Eduardo (…) Nele, ameaçou: ‘Se quiser fechar o STF, você não manda nem um jipe, cara, você manda um soldado e um cabo (…) O que que é o STF, cara? (…) Se você prender um ministro do STF, você acha que vai ter uma manifestação popular?’. Na segunda (22), no Jornal Nacional, Jair se desculpou pelo filho”.

 

Desculpas negadas

As desculpas pelo filho, que não pediu por suas próprias palavras, não foram aceitas por todos os eleitores de Bolsonaro. Alguns deles, inclusive, fizeram o que se julgava até aqui impossível: migraram para Haddad. É uma parte pequena, insuficiente para mudar o rumo da eleição. Mas foi emblemático. Desde que se lançou a presidente, o capitão sempre liderou nos mais ricos. E foi neles sua maior perda. Nos que ganham mais de 10 salários mínimos, ele caiu de 67% a 61% das intenções de voto, enquanto Haddad cresceu de 24% a 32%. É gente antipetista que passou a enxergar um mal maior. E, mesmo tendo dinheiro, desistiu de pagar o preço.

 

Publicado hoje (26) na Folha da Manhã

 

Chances reais de Paes e a ficção e a realidade entre Haddad e Bolsonaro

 

 

Paes passa Witzel na capital

O dia de ontem não teve novas pesquisas. A mais recente foi a Ibope divulgada na noite de terça (23). Nela, Eduardo Paes (DEM) conseguiu diminuir em oito pontos sua grande desvantagem para Wilson Witzel (PSC), ainda favorito na corrida a governador do Rio. Na quarta (24), a pesquisa foi revelada em detalhes. Paes conseguiu virar o jogo na capital. Entre os eleitores que governou, o ex-prefeito do Rio agora tem 52% nas intenções de votos válidos, contra 48% do ex-juiz federal. A vantagem de Witzel ainda é grande nos votos válidos da periferia do Rio: 60% a 40%. E mais ainda no interior do Estado: 61% a 39%.

 

A força de Fátima

Paes era considerado fora do jogo após passar ao segundo turno com apenas 19,56% dos votos, contra impressionantes 41,28% de Witzel. Mas, na nova pesquisa Ibope, o candidato do DEM conseguiu diminuir essa diferença para 12 pontos: 44% a 56%. Se conseguir a virada até o domingo (28), o que é improvável, será ainda mais surpreendente do que a arrancada do ex-juiz nos últimos dias antes do primeiro turno. Mas para isso precisará do trabalho de prefeitos aliados do interior fluminense. Na região, apenas Fátima Pacheco (Pode) conseguiu dar a vitória a Paes. Em Quissamã, ele teve 32,6% dos votos, contra 26,5% de Witzel.

 

Carla e Rafael

A força eleitoral da prefeita quissamaense não foi demonstrada por seus colegas de municípios vizinhos. Em São João da Barra, Carla Machado (PP) passou raspando, mas não impediu a vitória local de Witzel: 30,6% no primeiro turno, contra 29% de Paes. O vareio, contudo, foi nas urnas de Campos. Mesmo governado por Rafael Diniz (PPS), aliado de primeira hora de Comte Bittencourt (PPS), vice na chapa de Paes, o município mais importante da região deu 38,6% de seus votos a governador para o ex-juiz, com apenas 18,8% ao ex-prefeito do Rio. Isso mesmo depois de Paes chamar Campos, em entrevista (aqui) à Folha, de “segunda capital do Estado”.

 

Macaé de Aluizio

Em Macaé, outro município considerado polo na região, a “coça” de Witzel foi ainda maior: 38,2% dos votos, contra 16% de Paes. Mas, ao que consta, o prefeito Dr. Aluizio não apoiou ninguém a governador. Circula nos bastidores que ele estaria desiludido com a política e teria deixado o MDB, ainda sem nova legenda. Seu apoio na eleição de 7 de outubro teria se resumido ao delegado de Polícia Federal Felício Laterça (PSL). Mas este acabou eleito deputado federal muito mais pela onda de Jair Bolsonaro (PSL), do que por influência do prefeito macaense.

 

Efeito “Sadim”

Dr. Aluizio enfrenta problemas na Câmara Municipal. Líder da oposição, Maxwell Vaz (SD) luta para implantar a CPI da Saúde em Macaé. A coisa é pior pelo fato de o prefeito ser médico. Ao que parece, seu diagnóstico não foi correto, sobretudo na escolha de certos assessores. Na mídia regional, se submeteu a quem antes criticava abertamente por chantageá-lo. É o mesmo tipo de “apoio” caça-níqueis que já afundou o ex-prefeito de Campos Alexandre Mocaiber, além de Caio Vianna (PDT), derrotado nas urnas para deputado federal. Pelo toque de Midas às avessas, é o tipo de profissional mais conhecido no meio jornalístico como “Sadim”.

 

Mano Brown

Enquanto a disputa ao governador se desenvolve em suas nuances regionais, a presidencial teve mais uma confissão pública de derrota do PT. Desta vez, ainda mais constrangedora do que Cid Gomes já havia feito em Fortaleza, no dia 16. Na noite de terça (23), sob os Arcos da Lapa do Rio e diante de Fernando Haddad, o rapper Mano Brow admitiu: “Tem, sei lá, quase 30 milhões de votos para alcançar aí. Não temos nem expectativa nenhuma para alcançar, para diminuir essa margem. (…) Se, em algum momento, a comunicação do pessoal daqui falhou, vai pagar o preço (…) Se não tá conseguindo falar a língua do povo, vai perder mesmo”.

 

Ficção e realidade

Ainda na ressaca da noite anterior, o dia de ontem trouxe mais constrangimento à campanha de Haddad. A perícia policial sobre a suástica nazista marcada no ventre de uma gaúcha de 19 anos, atribuída a eleitores de Bolsonaro, indicou automutilação. Já sobre a realidade, ontem o jornalista Elio Gaspari escreveu: “Bolsonaro já prometeu mais de uma dezena de providências que dependem de reformas constitucionais. Elas precisam do voto de três quintos da Câmara e do Senado (…) o PSL não os tem. Como pretende consegui-los, é outra história. Admitindo que os consiga, será o jogo jogado (…) Se não conseguir, vem aí uma crise anunciada”.

 

Publicado hoje (25) na Folha da Manhã

 

Elio Gaspari — Quem não quis afundar o país no AI-5 ecoa para 2019

 

 

 

Elio Gaspari, jornalista e escritor

“Não quero ter parte nisso”

Por Elio Gaspari

 

Na noite de domingo o Brasil terá escolhido um novo presidente da República. O resultado virá da vontade dos eleitores e, seja qual for o voto que se tenha dado, cada um deles terá parte no que vier a acontecer. Milhões de pessoas que votaram em Dilma Rousseff ou em Aécio Neves tiveram motivos para se arrepender mas, como hoje, era um ou outro. O arrependimento acompanhou também os eleitores de Fernando Collor em 1989 e de Jânio Quadros em 1960. Nenhum deles elegeu-se sugerindo medidas que pudessem prenunciar uma ameaça às instituições democráticas.

O caso agora é outro. O deputado Eduardo Bolsonaro tratou de uma situação hipotética de conflito com o Supremo Tribunal Federal e disse que bastariam um cabo e um soldado para fechá-lo. Um general da reserva, eleito deputado federal pelo PSL depois de ocupar a Secretaria de Segurança de Natal, defendeu o impeachment e a prisão de ministros do Supremo: “Não tem negociação com quem se vendeu.” Antes dele, um general da reserva que disputaria sem sucesso um cargo eletivo disse que “Corte que muda de decisão para beneficiar criminoso não é Corte, é quadrilha”.

O general Hamilton Mourão, também da reserva e candidato a vice-presidente na chapa de Bolsonaro, elaborou sobre o mecanismo do “autogolpe”. Noutra digressão, mencionou as virtudes de uma Constituição redigida por sábios e ratificada num plebiscito. Jair Bolsonaro prometeu o fim do “ativismo” e anunciou que “os marginais vermelhos serão banidos da nossa pátria”. Como?

Essas foram afirmações de candidatos, feitas em diferentes contextos, às vezes partindo de situações hipotéticas. Não se deve esquecer que o deputado petista Wadih Damous, numa argumentação que nada teve a ver com a retórica bolsonarista, já sugeriu “fechar o Supremo Tribunal Federal” para criar uma Corte Constitucional. O doutor foi um dos marqueses da OAB.

Bolsonaro já prometeu mais de uma dezena de providências que dependem de reformas constitucionais. Elas precisam do voto de três quintos da Câmara e do Senado. Serão necessários 308 dos 513 deputados e 49 dos 81 senadores. Mesmo tendo formado a segunda maior bancada da Câmara, o PSL não os tem. Como pretende consegui-los, é outra história. Admitindo que os consiga, será o jogo jogado, e a vida seguirá. Se não conseguir, vem aí uma crise anunciada.

O eleitor ficou entre a cruz e a caldeirinha. Até o dia da posse, tudo será encanto e sedução. Como ensinou Marco Maciel, “as consequências vêm depois”. A essência da questão está na parte que caberá a cada um quando elas chegarem.

Marechal Cordeiro de Farias

Há casos em que o cidadão tem que traçar a linha que não atravessará. No dia 29 de maio de 1966, o marechal Cordeiro de Farias entrou no gabinete do presidente Castelo Branco. Ele acabara de capitular diante da candidatura do ministro da Guerra, Artur da Costa e Silva, e Cordeiro era o seu ministro do Interior. Aos 65 anos, estivera em todas as encrencas militares da primeira metade do século, da Coluna Prestes à deposição de João Goulart. Como general, comandou a Artilharia Divisionária da FEB na Itália.

No encontro, Cordeiro disse ao presidente: “Você é generoso com o Costa e Silva, eu sou justo. Você sabe que ele vai afundar o país, pois é incapaz, e eu não quero ter parte nisso.”

Cordeiro deixou o ministério e foi para casa. Costa e Silva assumiu em 1967 e afundou o país em 1968, baixando o Ato Institucional nº 5.

Numa manhã de agosto de 1976, em cena emocionante, o velho marechal entrou, de bengala, no saguão onde se velava o corpo de Juscelino Kubitschek. Doze anos antes, havia votado pela sua cassação, mas não teve parte na ascensão de Costa e Silva.

 

Publicado aqui em O Globo

 

Hugo Borsani — Idas e voltas do populismo na América Latina até Bolsonaro

 

Bolsonaro levado pelos braços do povo em Juiz de Fora (Foto de Fábio Motta – Estadão)

 

Hugo Borsani, uruguaio, doutor em ciência política e professor da Uenf

Bolsonaro, o último populista latino-americano

Por Hugo Borsani

 

Salvo uma reviravolta política extraordinária de última hora, o mais provável é que Jair Bolsonaro será eleito presidente do Brasil no domingo, dia 28 de outubro. Mas independentemente de ele se converter ou não em presidente do maior país da América Latina, estaremos diante de um fenômeno político singular na região.

Essa singularidade, no entanto, não se deve às características populistas, já que o populismo esteve sempre presente ao longo da atribulada história latino-americana.

Apesar da falta de precisão desse conceito, há consenso relativo com relação aos clássicos populismos das décadas de 1930 e 1940, como os de Perón na Argentina, Vargas no Brasil e Cárdenas no México, entre outros, com posições ambíguas entre direita e esquerda, e em alguns casos próximas do fascismo europeu.

Mais tarde chegaram os populismos “neoliberais” da década de 1990, representados por Menem na Argentina, Fujimori no Peru ou Collor no Brasil.

E a terceira onda viria das mãos do populismo da “esquerda bolivariana” do início do século 21, representada por Hugo Chávez, Nicolás Maduro, Evo Morales e Rafael Correa, aos quais se poderia associar o neoperonismo de Cristina Kirchner.

O discurso antissistema de Bolsonaro, muito crítico aos partidos, aos políticos e às formas tradicionais de fazer política, presente na maioria dos populismos latino-americanos, é uma das principais características que permite caracterizá-lo como tal.

A isso é preciso somar uma projeção como salvador da pátria contra a corrupção, a delinquência e a estagnação econômica, e um discurso divisor da sociedade em grupos antagônicos: os cidadãos honestos “de bem” contra a elite política corrupta (fundamentalmente a esquerda, mas também o centro e a centro-direita).

Cabe acrescentar que o discurso de uma sociedade polarizada em dois grupos antagônicos, característico do populismo em todas as eras, foi usado em repetidas ocasiões pelo ex-presidente Lula, durante seus governos. De fato, o ex-presidente do Brasil é considerado por alguns analistas como representante do “neopopulismo”, ou do “populismo de baixa intensidade”.

Bolsonaro, que serviu 27 anos como deputado federal, está longe de ser um outsider na política, ainda que se apresente assim. Mas embora muitos dos líderes populistas latino-americano tenham irrompido na política como outsiders, a exemplo de Chávez, Fujimori, Morales e Correa, não foi esse o caso de Menem ou Cristina Kirchner, e tampouco o de Getúlio Vargas ou Cárdenas, que já tinham experiência na política antes de chegar ao poder.

A baixa apreensão dos valores democráticos por Bolsonaro, que já declarou que “nada se resolve com o voto” ou que “as minorias devem se curvar às maiorias”, tampouco é única. A tentativa de golpe liderada por Hugo Chávez em 1992 contra o governo de Carlos Andrés Pérez foi um indicador inconfundível de escasso apego às instituições democráticas, da parte do futuro presidente venezuelano.

O “autogolpe” de Fujimori (1992) exemplificou sua ausência de comprometimento com a democracia, ainda que isso tivesse se tornado evidente desde o momento em que iniciou seu governo. Por outro  lado, choques com o Poder Judiciário, ou sua cooptação, foram frequentes em grande parte dos populismos da região.

A singularidade do populismo de Bolsonaro está na combinação de uma proposta econômica marcadamente liberal a uma postura de extrema direita no espectro político. O liberalismo econômico de Bolsonaro é algo a que ele aderiu recentemente, depois de quase 30 anos de um discurso de perfil nacionalista e estatizante. Essa mudança pareceu responder mais a uma estratégia eleitoral que lhe valeu o apoio da maioria dos empresários que a uma convicção pessoal, no entanto.

Menem e Fujimori também foram líderes populistas associados a políticas econômicas liberais. Mas os dois mostraram sua adesão a essas posições depois de assumirem a presidência, porque haviam chegado ao poder com discursos econômicos ambíguos. O principal slogan de campanha de Menem era “a revolução produtiva”, sem especificar que tipo de medidas seriam aplicadas. Ademais, o histórico de seu partido, o Partido Peronista, não levava a prever a virada liberal e privatizadora que ele por fim empreendeu.

Fujimori, por outro lado, era desconhecido até poucas semanas antes do primeiro turno da eleição presidencial peruana de 1990, e pouco se sabia de suas propostas econômicas. Mas sua imagem cresceu no segundo turno, onde enfrentou as posições liberais e pró-mercado do adversário, o escritor Mario Vargas Llosa, o que tampouco levava a imaginar sua adesão posterior ao neoliberalismo.

Bolsonaro mudará de posição quando assumir o governo? Não sabemos. O único populista com propostas econômicas liberais já desde a campanha eleitoral foi seu compatriota Fernando Collor de Mello, eleito para a presidência do Brasil em 1989 (e destituído em 1992).

Não obstante ser o candidato da direita naquela eleição, Collor não era representante da extrema direita. Bolsonaro, de sua parte, expressou admiração pelo regime militar instaurado em 1964, apelou constantemente por políticas “linha dura”, quer que a população se arme para combater a delinquência, e se mostrou favorável à tortura.

Por isso, na falta de similares latino-americano, “Trump dos trópicos”, como já foi chamado, ou Duterte do Ocidente (em alusão ao atual presidente filipino), parecem ser descrições adequadas para o mais recente representante do populismo latino-americano.

 

Publicado aqui na Folha de São Paulo

 

Ibope: excessos de Bolsonaro e contradições de Witzel acendem alerta

 

 

Charge do José Renato publicada hoje (24) na Folha

 

 

Bolsonaro e Witzel: sinal amarelo

Segundo as pesquisas Ibope divulgadas ontem, o cenário já foi mais favorável a Jair Bolsonaro (PSL) e, sobretudo, a Wilson Witzel (PSC). Mas os dois ainda continuam favoritos às disputas dos Palácios do Planalto e Guanabara. Bolsonaro tem 57% dos votos válidos, contra 43% de Fernando Haddad (PT). O ex-capitão do Exército oscilou negativamente dois pontos e o petista cresceu dois. Já diferença entre Witzel e Eduardo Paes (DEM) diminui significativamente. O ex-juiz federal perdeu quatro pontos e agora tem 56% dos votos válidos. Por sua vez, Paes cresceu outros quatro e agora tem 44%.

 

Ex-juiz sangra

Sejam os 14 pontos de Bolsonaro sobre Haddad, ou os 12 entre Witzel e Paes, são diferenças muito difíceis de serem tiradas. Sobretudo quando lembrado que, a partir de hoje, são só quatro dias até a eleição do próximo domingo (28). Mas enquanto os dois presidenciáveis ficaram apenas nas oscilações dentro da margem de erro, Paes foi muito além dela para diminuir em oito pontos os 20 que antes o separavam do ex-juiz federal. Solenemente ignorado pelo eleitorado fluminense até surpreender e atropelar nos últimos dias antes do primeiro turno, Witzel parece perder votos a cada dia que se torna mais conhecido.

 

Fator evangélico no RJ

O ex-juiz federal é candidato a governador pelo PSC, partido presidido nacionalmente pelo Pastor Everaldo, derrotado ao Senado em 7 de outubro. A coluna teve acesso a informações de que, nos últimos dias antes do primeiro turno, várias lideranças evangélicas fluminenses estariam na dúvida entre apoiar Witzel ou Indio da Costa (PSD). Ao fecharem pelo primeiro, dispararam mensagens de apoio no WhatsApp. Ontem, a revista Veja revelou a campanha de Witzel recebeu doação de R$ 20 mil do empresário Roberto Nishimura. Ele é dono da empresa Sinape, que tem contrato com a Prefeitura do Rio, comandada por Marcelo Crivella (PRB).

 

Paes vivo e susto em Bolsonaro

Se tem poucos dias para explorar as contradições de Witzel, o Ibope mostrou que Paes ainda está vivo. Já a leve queda de Bolsonaro parece ser um susto dado pelo eleitor a quem já se considera com a mão na faixa presidencial. E que, por isto, têm cometido excessos. No domingo, em manifestação de apoio na av. Paulista, um vídeo do capitão foi transmitido ao vivo em telão. Nele fez várias ameaças preocupantes à democracia: “(…) a faxina agora será muito mais ampla (…) Ou vão para fora, ou vão para a cadeia. Esses marginais vermelhos serão varridos da nossa pátria (…) Será uma limpeza nunca visto (sic) na história do Brasil”.

 

Fogo amigo

No mesmo domingo, circulou pelas redes sociais um vídeo gravado em julho por Eduardo Bolsonaro (PSL/SP), eleito em 7 de outubro deputado federal mais votado do Brasil. Nele, ameaçou: “Se quiser fechar o STF, você não manda nem um jipe, cara, você manda um soldado e um cabo (…) O que que é o STF, cara? (…) Se você prender um ministro do STF, você acha que vai ter uma manifestação popular?”. Na segunda (22), no Jornal Nacional, Jair se desculpou pelo filho: “ele reconheceu o seu erro, pediu desculpas. Eu também, em nome dele, peço desculpas ao Poder Judiciário”.

 

Fogo cruzado

No mesmo dia 22, circulou um vídeo do obscuro coronel da reserva do Exército Carlos Alves de Lima. Ele chamou a presidente do TSE, ministra Rosa Weber, de “salafrária” e “corrupta”, por ela ter aceito investigar a denúncia do PT pela produção de fake news a favor de Bolsonaro e contra Haddad. É o tom que vem subindo dos dois lados, desde o primeiro turno, quando o ex-ministro José Dirceu declarou: “é preciso tirar todos os poderes do Supremo”. Advogado de Lula e deputado federal com reeleição rejeitada nas urnas, o petista Wadih Damous já tinha pregado no Facebook há cerca de quatro meses: “Tem de fechar o Supremo Tribunal Federal”.

 

Personagem patético

Depois que seu vídeo sobre o Supremo viralizou nas redes sociais, Eduardo Bolsonaro também usou o Facebook para tentar se retratar: “Se alguém defender que o STF precisa ser fechado, de fato essa pessoa precisa de um psiquiatra”. Pelo que foi regurgitado nos vídeos gravados pelo coronel bolsonarista, com ofensas e ameaças contra várias autoridades e instituições do país, parece mesmo ser o caso. Repreendido em nota oficial do Exército, ele será investigado pelo Ministério Público Militar, assim como pela Polícia Federal. Decano do STF, o ministro Celso de Mello se referiu ao militar como “personagem patético”.

 

Publicado hoje (24) na Folha da Manhã

 

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