Opiniões

Pesquisas apontam vitória de Bolsonaro e Witzel. Supremo é ameaçado

 

 

Charge do José Renato publicada hoje (18) na Folha da Manhã

 

 

Bolsonaro e Witzel atropelam

Em todas as pesquisas do segundo turno, as eleições a presidente da República e governador do Rio parecem estar definidas. Por larga margem de vantagem, os vencedores seriam respectivamente Jair Bolsonaro (PSL) e Wilson Witzel (PSC). Na consulta Paraná divulgada ontem, Bolsonaro teve 60,9% dos votos válidos, contra 39,1% de Fernando Haddad (PT). Pelo mesmo instituto, a vantagem de Witzel foi ainda maior na disputa ao Palácio Guanabara: 67,8% contra 32,2% de Eduardo Paes (DEM). Também ontem, o Ibope ratificou a dianteira do ex-juiz federal sobre Paes, por margem menor, mas ainda larga: 60% a 40%.

 

Mais intenções de voto

Sobretudo no primeiro turno presidencial, o instituto Paraná foi o que mais acertou o resultado das urnas. Em sua nova pesquisa de ontem, Bolsonaro apareceu com 21,8 pontos percentuais à frente Haddad. É mais do que os 16 e 18 pontos que, respectivamente, as pesquisas anteriores Datafolha e Ibope deram de vantagem ao capitão no segundo turno. Nele, as duas primeiras consultas a governador do Rio foram a Paraná e a Ibope de ontem. Na primeira, a vantagem de Witzel sobre Paes foi de impressionantes 35,6 pontos. No segundo, a diferença favorável ao ex-juiz foi de 20 pontos.

 

Menos rejeição

Independente da diferença dos números, as vantagens de Bolsonaro e Witzel nas intenções de voto parecem grandes demais para serem revertidas. Para isso, o que conta é a rejeição. Pela Paraná, Bolsonaro apareceu com 38% no índice negativo, contra 55,2% de Haddad. No mesmo instituto, Witzel teve 27,2% de rejeição, contra 56,4% de Paes. No Ibope, o ex-juiz teve apenas 18% de eleitores declarando que não votariam nele de jeito nenhum. É menos da metade dos 48% do seu concorrente. A 10 dias da urna, com grande inferioridade nos votos e dificuldade bem maior de conseguir novos, a matemática parece muito complicada para Haddad e Paes.

 

Famas

Bolsonaro se tornou famoso desde que pregava contra a democracia e pela guerra civil, nos anos 1990. Witzel só se tornou conhecido após chegar à frente nas urnas do último dia 7. Ele teve 41,28% dos votos válidos, contra 19,56% de Paes. Ao liderar as urnas do primeiro turno, o ex-juiz desmentiu os institutos de pesquisa que hoje apontam a sua vitória e a do seu candidato a presidente, no dia 28. Witzel teve uma arrancada na reta final nunca antes vista na história política fluminense, após ter o apoio de Flávio Bolsonaro (PSL). Eleito senador no RJ com quase a soma dos votos dos dois primeiros colocados a governador, Flávio é filho de Jair.

 

Teflon

Jair aconselhou os filhos a ficarem neutros em seus Estados. Se Flávio foi o campeão de votos no Rio ao Senado, Eduardo Bolsonaro (PSL) foi o deputado federal mais votado em São Paulo. Ainda que sem apoio oficial do chefe do clã, seu teflon a críticas parece ter sido herdado por Witzel. Após o primeiro turno, foi revelado que ele participou do ato que arrancou a placa em homenagem à vereadora carioca assassinada Marielle Franco (Psol), na Cinelândia. Também veio a público um vídeo em que, ainda juiz, ele ensinava aos colegas de toga como driblar a Justiça para receber gratificação de acúmulo. E, segundo as pesquisas, nada grudou nele.

 

Do capitão ao general

Bolsonaro se tornou conhecido como capitão da reserva do Exército muito antes de ser o fenômeno destas eleições. Witzel também já foi oficial dos Fuzileiros Navais. Ontem, um colega de ambos nas Forças Armadas, alçado à política na mesma onda, se tornou notícia. Eleito deputado federal pelo PSL no Rio Grande do Norte, o general da reserva Eliéser Girão Monteiro Filho não esperou tomar posse para pregar o impeachment e a prisão de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo ele, por “soltarem corruptos” e se venderem “ao mecanismo”, em referência à popular série da Netflix sobre a operação Lava Jato.

 

“Cadelas no cio”

Inegável que ministros como Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski e Marco Aurélio Mello, além do próprio presidente do STF, Dias Toffoli, revoltam a população pela generosidade com políticos e empresários acusados de corrupção. Mas foram legitimamente alçados à mais alta Corte do país. Podem até sofrer impeachment e prisão, como se deu respectivamente com os ex-presidentes Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva. Mas pelo rito da lei, não pelos latidos daqueles que Ciro Gomes (PDT) chamou de “cadelas no cio”, definição do dramaturgo alemão Betolt Brecht. Caso contrário, o termo fascista deixa de ser retórica petista.

 

Publicado hoje (18) na Folha da Manhã

 

Começam estudos da Uerj para desobstruir a foz do Paraíba em Atafona

 

Foz do Paraíba no Pontal de Atafona, 01/02/16 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

O primeiro passo para a desobstrução da foz do Paraíba do Sul, no Pontal de Atafona, está sendo dado. Esta semana começaram os estudos de uma equipe da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) no local. Depois de concluída a análise, uma empresa será definida pelo governo estadual, provavelmente por licitação, para fazer e e executar o projeto. Ele será custeado por verbas de compensação ambiental referente ao Terminal Sul do Porto do Açu. Pelo menos desde 2014, com o assoreamento da foz do rio, os pescadores de Atafona enfrentam grandes dificuldades para sair e voltar do mar.

Confira o vídeo dos estudos da equipe da Uerj no Pontal de Atafona:

 

 

Elio Gaspari — Bolsonaro e os esquadrões da morte das Filipinas ao Brasil

Jair Bolsonaro em visita ontem (16) à sede do Bope (Foto: Reprodução Facebook)
Elio Gaspari, jornalista e escritor

Caveira

Por Elio Gaspari

 

Comparar Jair Bolsonaro a Donald Trump pode ser até chique, mas é o mesmo que viver na Barra da Tijuca pensando que se está em Miami. A alma da retórica do capitão está bem mais longe, nas Filipinas. Seu presidente chama-se Rodrigo Duterte, prometeu reformas econômicas e celebrizou-se pela política de combate à criminalidade, sobretudo ao tráfico de drogas.

Visitando o quartel do Batalhão de Operações Especiais da PM do Rio, Bolsonaro disse à tropa que “podem ter certeza, chegando (à Presidência), teremos um dos nossos lá em Brasília”. Em seguida, deu o grito de guerra da corporação: “Caveira!”

Comparado com Duterte, Bolsonaro é uma freira, pois o presidente filipino vai além: “Hitler matou três milhões de judeus. Temos três milhões de viciados, eu gostaria de matá-los.” Está cumprindo. Em dois anos de governo, morreram 4.500 pessoas, segundo as estatísticas oficiais, e 12 mil, segundo organizações da sociedade civil.

Como Bolsonaro e Donald Trump, Duterte manipula sua incontinência verbal. Põe na roda a mãe de quem lhe desagrada, do Papa ao presidente Barack Obama. Quando uma missionária australiana foi morta e estuprada, ele disse que lastimava o crime porque ela “era tão bonita, foi um desperdício”. Em alguns casos, desculpou-se.

Aos 75 anos, tem o cabelo curto e negro de tintura, gosta de andar de motocicleta, teve um divórcio agreste, propala sua virilidade e as virtudes da pílula azul. Ele diz que “meu único pecado são os assassinatos extrajudiciais”.

O nome desse jogo é “Esquadrão da Morte”, coisa conhecida nas Filipinas e no Brasil. O de cá brilhou durante o governo de Juscelino Kubitschek, glamourizado pela imprensa com o nome de “Homens de Ouro”. Chefiava a polícia do Rio de Janeiro o general Amaury Kruel. Anos depois, seus colegas de tropa disseminavam histórias comprometedoras sobre sua honorabilidade. Mais tarde, surgiu a Scuderie Le Cocq, cujo símbolo era uma caveira. Seu presidente era o detetive Euclides Nascimento. Em 1971, ele comandava também uma quadrilha de contrabandistas à qual anexou-se o capitão Ailton Guimarães Jorge, com subalternos que estiveram lotados no DOI do I Exército. Em São Paulo, a estrela do “Esquadrão” era o delegado Sérgio Fleury, o matador de Carlos Marighella. As patrulhas de Fleury, como as de Duterte, penduravam cartazes em traficantes mortos. Faltava dizer que eram bandidos de quadrilhas rivais.

Se “execuções extrajudiciais” fossem remédio, o Brasil seria uma Dinamarca. Em 1970, uma pesquisa realizada no Rio e em São Paulo mostrou que 46% dos entrevistados estavam a favor do “Esquadrão”.

Há uns 20 anos, quando surgiram as primeiras milícias nas cidades brasileiras, houve quem achasse que elas eram remédio contra o crime. Passou o tempo, e os problemas agora são dois: o crime e as milícias. A ideia do combate aos bandidos partindo da suposição de que “direitos humanos” não devem ser confundidos com “direitos dos manos” (palavras de Jair Bolsonaro) pode estatizar algumas “boas” milícias.

Em dezembro de 1993, quando a polícia colombiana botou para quebrar no combate aos bandidos e conseguiu matar o traficante Pablo Escobar, símbolo do narcotráfico latino-americano, os louros da vitória foram para o presidente César Gaviria. Conhecendo a questão da violência e do tráfico, no ano passado ele escreveu um artigo intitulado “O presidente Duterte está repetindo meus erros”.

O filipino respondeu: “Isso só seria possível se eu fosse um idiota, como você”.

A popularidade de Duterte está em 75%. Vive-se melhor na Colômbia.

 

Publicado aqui na Folha de São Paulo

 

Artigo do domingo — De onde surgiu Bolsonaro?

 

 

Gustavo Bertoche, doutor em filosofia e professor da Unig

De onde surgiu Bolsonaro?

Por Gustavo Bertoche(*)

 

Desculpem os amigos, mas não é de um “machismo”, de uma “homofobia” ou de um “racismo” do brasileiro. A imensa maioria dos eleitores do candidato do PSL não é machista, racista, homofóbica nem defende a tortura. A maioria deles nem mesmo é bolsonarista.

O Bolsonaro surgiu daqui mesmo, do campo das esquerdas. Surgiu da nossa incapacidade de fazer a necessária autocrítica. Surgiu da recusa em conversar com o outro lado. Surgiu da insistência na ação estratégica em detrimento da ação comunicativa, o que nos levou a demonizar, sem tentar compreender, os que pensam e sentem de modo diferente.

É, inclusive, o que estamos fazendo agora. O meu Facebook e o meu WhatsApp estão cheios de ataques aos “fascistas”, àqueles que têm “mãos cheias de sangue”, que são “machistas”, “homofóbicos”, “racistas”. Só que o eleitor médio do Bolsonaro não é nada disso nem se identifica com essas pechas. As mulheres votaram mais no Bolsonaro do que no Haddad. Os negros votaram mais no Bolsonaro do que no Haddad. Uma quantidade enorme de gays votou no Bolsonaro.

Amigos, estamos errando o alvo. O problema não é o eleitor do Bolsonaro. Somos nós, do grande campo das esquerdas.

O eleitor não votou no Bolsonaro PORQUE ele disse coisas detestáveis. Ele votou no Bolsonaro APESAR disso.

O voto no Bolsonaro, não nos iludamos, não foi o voto na direita: foi o voto anti-esquerda, foi o voto anti-sistema, foi o voto anti-corrupção. Na cabeça de muita gente (aqui e nos EUA, nas últimas eleições), o sistema, a corrupção e a esquerda estão ligados. O voto deles aqui foi o mesmo voto que elegeu o Trump lá. E os pecados da esquerda de lá são os pecados da esquerda daqui.

O Bolsonaro teve os votos que teve porque nós evitamos, a todo custo, olhar para os nossos erros e mudar a forma de fazer política. Ficamos presos a nomes intocáveis, mesmo quando demonstraram sua falibilidade. Adotamos o método mais podre de conquistar maioria no congresso e nas assembleias legislativas, por termos preferido o poder à virtude. Corrompemos a mídia com anúncios de empresas estatais até o ponto em que elas passaram a depender do Estado. E expulsamos, ou levamos ao ostracismo, todas as vozes críticas dentro da esquerda.

O que fizemos com o Cristóvão Buarque?

O que fizemos com o Gabeira?

O que fizemos com a Marina?

O que fizemos com o Hélio Bicudo?

O que fizemos com tantos outros menores do que eles?

Os que não concordavam com a nossa vaca sagrada, os que criticavam os métodos das cúpulas partidárias, foram calados ou tiveram que abandonar a esquerda para continuar tendo voz.

Enquanto isso, enganávamo-nos com os sucessos eleitorais, e nos tornamos um movimento da elite política. Perdemos a capacidade de nos comunicar com o povo, com as classes médias, com o cidadão que trabalha 10h por dia, e passamos a nos iludir com a crença na ideia de que toda mobilização popular deve ser estruturada de cima para baixo.

A própria decisão de lançar o Lula e o Haddad como candidatos mostra que não aprendemos nada com nossos erros — ou, o que é pior, que nem percebemos que estamos errando, e colocamos a culpa nos outros. Onde estão as convenções partidárias lindas dos anos 80? Onde estão as correntes e tendências lançando contra-pré-candidatos? Onde estão os debates internos? Quando foi que o partido passou a ter um dono?

Em suma: as esquerdas envelheceram, enriqueceram e se esqueceram de suas origens.

O que nos restou foi a criação de slogans que repetimos e repetimos até que passamos a acreditar neles. Só que esses slogans não pegam no povo, porque não correspondem ao que o povo vivencia. Não adianta chamar o eleitor do Bolsonaro de racista, quando esse eleitor é negro e decidiu que não vota nunca mais no PT. Não adianta falar que mulher não vota no Bolsonaro para a mulher que decidiu não votar no PT de jeito nenhum.

Não, amigos, o Brasil não tem 47% de machistas, homofóbicos e racistas. Nós chamarmos os eleitores do Bolsonaro disso tudo não vai resolver nada, porque o xingamento não vai pegar. O eleitor médio do cara não é nada disso. Ele só não quer mais que o país seja governado por um partido que tem um dono.

E não, não está havendo uma disputa entre barbárie e civilização. O bárbaro não disputa eleições. (Ah, o Hitler disputou etc. Você já leu o Mein Kampf? Eu já. Está tudo lá, já em 1925. Desculpe, amigo, mas piadas e frases imbecis NÃO SÃO o Mein Kampf. Onde está a sua capacidade hermenêutica?).

Está havendo uma onda Bolsonaro, mas poderia ser uma onda de qualquer outro candidato anti-PT. Eu suspeito que o Bolsonaro só surfa nessa onda sozinho porque é o mais antipetista de todos.

E a culpa dessa onda ter surgido é nossa, exclusivamente nossa. Não somente é nossa, como continuará sendo até que consigamos fazer uma verdadeira autocrítica e trazer de volta para nosso campo (e para os nossos partidos) uma prática verdadeiramente democrática, que é algo que perdemos há mais de vinte anos. Falamos tanto na defesa da democracia, mas não praticamos a democracia em nossa própria casa. Será que nós esquecemos o seu significado e transformamos também a democracia em um mero slogan político, em que o que é nosso é automaticamente democrático e o que é do outro é automaticamente fascista?

É hora de utilizar menos as vísceras e mais o cérebro, amigos. E slogans falam à bile, não à razão.

 

(*) Doutor em filosofia e professor da Universidade Iguaçu (Unig)

 

Publicado hoje (14) na Folha da Manhã

 

Alerta ao naufrágio da esquerda com o PT e à violência de Bolsonaro

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Considerado um dos maiores intelectuais de Campos, o historiador ambiental Aristides Soffiati seria o que a bipolaridade política do país hoje classifica de “isentão”. A referência se dá a todos aqueles que não submetem aos dogmas dos dois candidatos que disputam o segundo turno da eleição presidencial: Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT). Alheio ao fundamentalismo político, Soffiati aposta na sobrevivência da Constituição de 1988 e faz críticas contundentes ao simplismo de Bolsonaro e Wilson Witzel (PSC), candidato a governador do Rio. Para ele, antes mesmo do resultado final, os dois “já estão estimulando atos violentos”. Mas é igualmente crítico ao outro lado: “A vaidade de Lula e do PT poderá levar toda a centro-esquerda ao naufrágio”.

 

 

Folha da Manhã – Como historiador, entende que o Brasil da Nova República, construído após a ditadura militar (1964/85), acabou? O que estamos colocando no lugar?

Aristides Soffiati – Wladimir Safatle (filósofo da USP) sustenta, no seu último livro, que a Nova República e o lulopetismo se esgotaram. Não vejo o fim da Nova República só porque um candidato de direita ameaça chegar ao governo. Isso faz parte da democracia. Havendo respeito à Constituição, a Nova República continua. Nada, na Constituição, estabelece que a polarização partidária se restringe ao PSDB e ao PT. Se a Constituição for rasgada, podemos falar de outra era. Nesse caso sim, cabe rebelar-se.

 

Folha – Após o compromisso com a Constituição assumido por Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) no Jornal Nacional, no dia seguinte (08) ao primeiro turno, a Carta Magna de 1988 deve ser a único sobrevivente da transição democrática?

Soffiati – Ela pode sofrer emendas, mas não substituída por outra. A Constituição é a maior garantia da república e da democracia. Só uma legítima Assembleia Constituinte pode substituí-la, e o clima político do momento não é nada favorável para a substituição.

 

Folha – No discurso em que promulgou a Constituição, há 30 anos, o ex-deputado federal Ulysses Guimarães fez duas observações assertivas: “Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo” e “Não roubar, não deixar roubar, pôr na cadeia quem roube”. Porém, o segundo turno presidencial será disputado por um candidato que diz que a ditadura militar no Brasil não existiu, contra outro que tem como seu principal cabo eleitoral um político preso por corrupção. O brasileiro ficou surdo ao longo das três últimas décadas?

Soffiati – De fato, declarações e atos como esses mostram que a democracia no Brasil ainda é frágil. Ainda estamos construindo uma civilização democrática. Não basta ter uma constituição. É preciso uma cultura constitucional. A sociedade brasileira é conservadora. Ela condena a grande corrupção, mas não a pequena, praticada cotidianamente até pelos pobres. A maioria das pessoas parece não abominar declarações e ações autoritárias e ditatórias desde que seus interesses particulares sejam preservados.

 

Folha – Do processo de redemocratização do Brasil, o único líder ainda protagonista na política nacional, mesmo preso desde 7 de abril, é Lula. Chegou a hora de deixá-lo para trás, ou as urnas de 7 de abril dominadas pelo antilulismo já fizeram isso?

Soffiati – Não podemos reduzir a esquerda brasileira ao PT. Ela é mais ampla. Quanto ao PT, percebo que o partido passou a confiar muito em si com quatro vitórias para a presidência da república. Lula passou a ser uma liderança carismática em detrimento da prudência. Aos petistas, em grande escala, pareceu que Lula seria eterno. A lucidez de alguns de seus membros não foi levada em conta. As críticas foram repelidas com ira. Agora, o PT corre o risco de perder a eleição, com ameaça para a democracia. Vejo que o PT colocou o partido acima da democracia.

 

Folha – Impressiona como pessoas inteligentes ainda se negam a reconhecer os erros da esquerda. Foi assim no Mensalão, no maior escândalo de corrupção da Terra eviscerado pela Lava Jato, na maior recessão econômica da história do país criada pelo governo Dilma, no impeachment da presidente, na condenação e prisão de Lula por corrupção e, agora, com a derrota fragorosa nas urnas. A esquerda vai morrer sem fazer autocrítica?

Soffiati – A crítica e a autocrítica têm sido feitas por alguns integrantes do partido, como Jacques Wagner, por exemplo, por democratas mais afastados do partido, como Rui Fausto. Contudo, o PT tem dado mais ouvidos a conselheiros nocivos. Certos nomes são danosos ao PT, como José Dirceu e Gleisi Hoffmann. Espero que, vencedor ou derrotado, o PT faça uma avaliação da sua trajetória e que assuma a posição de uma centro-esquerda responsável. Mas, para os democratas autênticos, como Ciro Gomes e Marina Silva, o PT não merece o apoio deles, já que ambos conhecem as manobras. Ciro e Marina não deram o apoio que o PT esperava. Não acho que a falta de apoio de ambos resulte de ressentimentos, mas de perceberem que as práticas do PT não são tão democráticas como o partido propala.

 

Folha – Todas as pesquisas indicavam que Ciro seria o nome mais consistente da esquerda para enfrentar Bolsonaro no segundo turno. Ex-governador da Bahia que se elegeu senador no dia 7, Jaques Wagner foi o único que ousou questionar Lula, tentando a composição do PT como vice na chapa de Ciro. O cearense era “bola da vez” da esquerda? Foi o medo de Lula em apoiar alguém com luz própria que definiu Haddad?

Soffiati – Esse é um grave equívoco do PT: julgar que só ele representa a democracia. As pesquisas mostraram que Ciro Gomes era o candidato mais habilitado a derrotar Bolsonaro no segundo turno. Contudo, Gleisi Hoffmann deu uma declaração infeliz sobre Ciro, como se ele fosse inimigo da democracia. Haddad assumiu a candidatura depois de muita manobra frustrada do PT para lançar Lula como candidato. Haddad perdeu um tempo precioso, além de não conseguir se descolar de Lula. Agora, o PT faz manobras de última hora para que o carro não caia no precipício, como afastar Haddad de Lula, usar as cores da bandeira brasileira e adotar um discurso moderado. Avalio que uma chapa bipartidária, com Ciro como candidato a presidente e Haddad como vice, convenceria mais o eleitor. Sei de votantes em Ciro que agora apoiam Bolsonaro. A vaidade de Lula e do PT poderá levar toda a centro-esquerda ao naufrágio.

 

Folha – Em relação às redes sociais, é inegável o protagonismo da tecnologia nos protestos das “Jornadas de Junho” de 2013, nas manifestações pelo impeachment de Dilma em 2015 e 2016, e na cruzada contra as artes e artistas do país a partir da exposição do Queermuseu de 2017. A direita brasileira aprendeu antes a nova forma de mobilização popular? A esquerda ficou anacrônica nos meios?

Soffiati – Os dois lados sabem usar as redes sociais, mas a direita as emprega com mais eficiência, inclusive de forma alarmista e falsa. Mas no Face tenho encontrado mais petistas usando o meio que os bolsonarianos. Pena que se valem sempre de frases feitas.

 

Folha – Se mostra sua força nas redes sociais, nelas a direita também evidencia sua boçalidade. Chegou-se a absurdos vexatórios como pretender ensinar a história da Alemanha aos alemães, o cristianismo ao Papa, o liberalismo econômico à revista The Economist e até o significado da letra da música “Another Brik in The Wall” ao seu próprio compositor, o inglês Roger Waters. Umberto Eco estava certo: “as redes sociais deram voz aos imbecis”?

Soffiati – Eco explicou numa crônica que as redes sociais permitiram que os imbecis propalassem sua voz. Ele disse que os imbecis também merecem falar. Pior que o imbecil genuíno é o intelectual que se comporta como imbecil. No atual momento brasileiro, é melhor ficar calado ou fazer declarações ponderadas. Letras de Waters, anteriores às eleições brasileiras de 2018 tem sido criticadas como se fossem escritas para o PT ou como se fossem dirigidas a Bolsonaro. Ora, Waters critica qualquer forma de autoritarismo, à direita ou à esquerda há muito tempo. Não tem cabimento descontextualizá-las.

 

Folha – Por outro lado, a desinteligência e a arrogância da esquerda deram sua demonstração mais recente na introdução das cores pátrias verde, amarelo e azul na campanha de Haddad, no segundo turno, que abandonou o vermelho do PT e até a imagem de Lula. Na manifestação do “#EleNão” na praça São Salvador, em 29 de setembro, o único manifestante que apareceu com uma bandeira do Brasil foi confundido com simpatizante de Bolsonaro. Ressentida pelo apoio de camisa amarela ao impeachment de Dilma, a esquerda deixou as cores nacionais à direita. E, com a bandeira, deixou junto o país. É possível recuperá-lo até o dia 28?

Soffiati – Parece que lembraram da bandeira do Brasil tarde demais. Ela e o hino são de todos. O PT deixou a Bolsonaro o discurso em favor da restauração dos símbolos nacionais. Não tenho bandeira. Esse discurso não me atinge. Mas, com um discurso simplista, Bolsonaro chega à população. De quem é a responsabilidade pela ascensão de Bolsonaro? A sua competência ou o descrédito da população? O PT terá coragem de afirmar que a população é despolitizada? Se o povo tem sempre razão num discurso populista de esquerda, então deve-se reconhecer que o povo acertou em dar a vitória a Bolsonaro. No final das contas, a população está interessada na segurança física e econômica.

 

Folha – Desde o dia da eleição, casos de violência por intolerância política se espalharam por todo o Brasil. O mais grave foi o assassinato do mestre capoeirista Romualdo Rosário da Costa, de 63 anos, conhecido como Moa do Katendê, morto com 12 facadas nas costas por um simpatizante de Bolsonaro. Apesar de também ter sido alvo de uma facada desferida por um ex-militante do Psol, Bolsonaro tem muito apoio nas Polícias nas Forças Armadas. Corremos o risco da conflagração? O discurso de ódio contra as minorias pode gerar sua perseguição?

Soffiati – Tenho medo que a vitória de um dos lados seja entendida como aval tácito para deflagrar mais ódio e perseguições. Isso aconteceu com a vitória de Allende por seus próprios eleitores. Pergunto como será o dia seguinte da eleição de segundo turno. Bolsonaro conseguirá impedir a violência triunfalista de seus eleitores? O PT já formulou um plano B democrático? Li num jornal português que os gays deixarão o país. Se a tática for essa, não ficará ninguém para resistir.

 

Folha – Bolsonaro já disse que quer ter um ministro da Educação “que expulse a filosofia de Paulo Freire” das escolas brasileiras. Se isso se concretizar, dificilmente será sem resistência do magistério. Casos polêmicos recentes, como a fiscalização da Justiça Eleitoral de Campos sobre UFF e IFF, podem ser um tubo de ensaio do que está para acontecer em todo o país?

Soffiati – Temo que Bolsonaro inicie um processo de privatização das universidades públicas, absorva o ministério da Cultura pelo ministério da Educação, junte os Ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente. Depende dele essas iniciativas. Não há educação sem partido. Ou ela é crítica ou é conformista e reacionária. Anuncia-se que um representante da UDR, que eu julgava extinta, será indicado para Agricultura e Meio Ambiente. Bolsonaro quer ser um Trump subdesenvolvido, tirando o Brasil do Acordo de Paris e buscando uma soberania não mais admissível num mundo globalizado. O PT nunca deu a devida importância à área ambiental, ainda considerada uma questão menor. Espero muita movimentação da sociedade com a vitória de Bolsonaro.

 

Folha – Após receber o apoio da família Bolsonaro em sua campanha, o ex-juiz federal e candidato a governador Wilson Witzel (PSC) surpreendeu a todos, com uma arrancada fulminante no primeiro turno, sendo considerado o favorito no segundo contra Eduardo Paes (DEM). Witzel fala abertamente em “abater” qualquer suspeito de portar um fuzil, prática que no último dia 18 levou PMs a assassinarem a tiros um trabalhador na comunidade do Chapéu Mangueira, no Rio, que estava com um guarda-chuva. Se o ex-juiz vencer, o que esperar?

Soffiati – Eu só conhecia Bolsonaro por suas posições reacionárias. Só recentemente, ouvi falar em Witzel. Acho que ambos não têm valor intrínseco. Nenhum dos dois tem experiência no poder executivo. Eles estão aproveitando o contexto atual de violência e corrupção para avançar com um discurso simplório, mas convincente. Antes mesmo do resultado final, eles já estão estimulando atos violentos. Temo situações piores se ele vencer. Espero que o Judiciário e os setores esclarecidos da sociedade estabeleçam limites.

 

Folha – Wladmir Garotinho (PRP) foi eleito deputado federal, ao contrário de Marcão Gomes (PR), prejudicado pela força da legenda dos candidatos do PSL de Bolsonaro. Com a vitória do filho de Anthony Garotinho (PRP) e a derrota do aliado de Rafael Diniz (PPS), como devemos caminhar das urnas de 2018 às de 2020, a prefeito de Campos?

Soffiati – Mais que Lula, Garotinho consegue dar nó em pingo d’água. Embora afastado da eleição e, por enquanto, da prisão, ele conseguiu eleger dois filhos. Garotinho sabe tumultuar, mas ainda tem influência na política. Mais de uma vez, declarei que Rafael deve fazer frente a Garotinho com ações que cheguem com clareza ao povo. Garotinho sabe fazer isso muito bem, mesmo por intermédio de outros. Prevejo que um de seus filhos seja candidato a prefeito em 2020

 

Página 2 da edição de hoje (14) da Folha

 

Publicado hoje (14) na Folha da Manhã

 

Campanha de Haddad tenta se pintar do Brasil que cedeu a Bolsonaro

Desde ontem era possível notar nas redes sociais que parte dos anúncios de campanha de Haddad trocou o vermelho do PT pelas cores nacionais: verde, amarelo e azul. Hoje, foi anunciado que, com a entrada de Jaques Wagner na campanha, até a imagem e o nome de Lula foram retirados da propaganda petista no segundo turno.

Wagner é ex-governador da Bahia, pela qual se elegeu senador no dia 7. A votação que ele deu a Haddad no Estado foi a principal causa para Bolsonaro não ter liquidado a fatura ainda no primeiro turno. Antes, o líder baiano havia sido a única voz do PT que ousou questinoar os ditames Lula, ao buscar a aliança do partido com a vice na chapa de Ciro Gomes.

As manifestações femininas do “#EleNão” de 29 de setembro levaram muitas cores às ruas e praças do país, mas nenhum verde, amarelo ou azul. Na Praça São Salvador, o único manifestante que apereceu com uma bandeira do Brasil chegou a ser confundido com eleitor de Bolsonaro — que aumentou consideravelmente seu voto entre as mulheres após o evento.

Por arrogância, ressentimento e desinteligência, a oposição a Bolsonaro abriu mão das cores da bandeira nacional para os militantes do capitão. E, segundo as urnas revelaram, deixaram junto o Brasil. Mesmo que Haddad agora consiga reunir o apoio de Ciro, Marina Silva e Fernando Henrique Cardoso, tudo indica que é tarde demais para recuperar o país. O caminho parece bem mais longo que o próximo dia 28. E certamente mais difícil.

Na dúvida, a pesquisa Datafolha hoje divulgou (aqui) sua primeira pesquisa para o segundo turno presidencial. Contabilizados os votos válidos, deu: Bolsonaro 58% x 42% Haddad.

 

Elio Gaspari — O rancor produzido pela onipotência virou veneno

 

Elio Gaspari, jornalista e escritor

Jaques Wagner entra em campo

Por Elio Gaspari

 

Fernando Haddad e o comissariado petista querem costurar uma “frente democrática” para derrotar Jair Bolsonaro e puseram em campo o ex-ministro e ex-governador da Bahia, Jaques Wagner. Se conseguirem, no mínimo, levantam o nível da campanha.

Wagner é competente e seu desempenho na Bahia comprova isso. Governou o estado de 2007 a 2015, elegeu o sucessor que, por sua vez, acaba de se reeleger. Se lhe faltasse credencial, no início do ano defendia uma chapa com Ciro Gomes e Haddad na vice. Foi atropelado pelo oráculo de Curitiba, recolheu-se e foi tratar de sua campanha para o Senado.

As duas principais pontas dessa costura são Ciro Gomes e Fernando Henrique Cardoso. Ciro tem um capital eleitoral e já disse que “ele não”. Ainda falta que entre na campanha de Haddad. Ele seria um corpo estranho no estilo que Haddad apresentou no primeiro turno. A questão será saber em que tipo de campanha e de propostas cabem os dois.

Só o tempo dirá onde o PT estava com a cabeça quando atropelou-o e, sobretudo, quando Dilma Rousseff descumpriu a palavra dada ao irmão de Ciro, que lhe oferecia uma cadeira de senadora pelo Ceará. Roberto Mangabeira Unger, velho amigo dos Gomes, já conversou com Haddad.

A ponta de Fernando Henrique Cardoso é mais delicada. Ele está fechado em copas, numa dupla negativa: “Não concordo com o reacionarismo cultural e o descompromisso institucional de uns vitoriosos e tampouco com a corrupção sistêmica e com o apoio ao arbítrio na Venezuela e em outros países”. Para tirá-lo dessa posição será necessária muita conversa. Mesmo assim, FHC sabe o peso biográfico de um eventual silêncio. São duas costuras possíveis para Jaques Wagner.

Uma parte do fenômeno Bolsonaro saiu do rancor petista, da eternizada adoração oracular a Lula e, sobretudo, da resistência dos comissários à autocrítica. Muitas pessoas podem até votar em Haddad, mas se o preço for defender a moralidade petista no balcão de uma lanchonete acabam votando no capitão. O rancor produzido pela onipotência virou veneno e ainda está lá.

Mesmo depois do massacre de domingo, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, disse o seguinte: “Nós vamos fazer um chamamento a todos os democratas. (…) Não temos restrição, se as pessoas tiverem noção do que está em jogo no Brasil e defenderem a democracia têm que estar nessa caminhada.”

Quem a ouvisse acreditaria que falava a uma plateia de militantes. “Têm que estar”, por que, cara pálida? A causa democrática não precisa do toque de clarim do PT, é justo o contrário.

A ideia segundo a qual o programa do PT precisa apenas de ajustes é suicida. Quem propõe uma frente democrática não fala essa língua, até porque felizmente os comissários já jogaram no mar a proposta de uma Constituinte. A maior frente já construída na política brasileira foi a das Diretas-Já, de 1984. Nela entrou até Tancredo Neves que, com fina percepção, a considerava “necessária, porém lírica”.

Na sua fala ao Jornal Nacional, Jair Bolsonaro desautorizou a sugestão de Constituinte de sábios e a referência ao “autogolpe” de seu vice Hamilton (e não Augusto) Mourão. Fica combinado assim. Faltou esclarecer o significado de uma frase na sua saudação de domingo: “Vamos botar um ponto final em todos os ativismos do Brasil”.

Sem ativistas não há democracia. Não existiriam o PT, nem o PRTB de Levy Fidelix com seu aerotrem. Bolsonaro também precisa de um filtro moderador, mas talvez a banda golpista de seu eleitorado nem o queira.

 

Publicado hoje (aqui) na Folha de São Paulo

 

Juristas de Campos analisam ameaça de Witzel de prender Paes

 

 

Compromisso com a Constituição

No dia seguinte ao primeiro turno, os candidatos a presidente Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) tranquilizaram quem teme pelo país, independente do vencedor do segundo turno. Ao Jornal Nacional, ambos garantiram o compromisso com a Constituição Brasileira, que tentarão reformar apenas pelo recurso nela previsto das emendas. As dúvidas eram pertinentes, após o general Hamilton Mourão (PRTB), vice de Bolsonaro, declarar que uma nova Constituição poderia ser feita sem a participação de representantes eleitos. Sem contar o projeto de governo do PT, que previa uma nova Constituinte, só agora descartada por Haddad.

 

“Traidor da pátria”

Ainda vai demorar para que se compreenda o grito de “basta” do eleitor no domingo. À espera do seu último ato, esta eleição talvez signifique o fim do Brasil da Nova República, construído a duras penas após a ditadura militar (1964/85). Último líder daquele período ainda na ativa na política nacional, mesmo preso desde 7 de abril, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) parece sido superado por quem melhor soube encarnar o anti-Lula: Bolsonaro. Mas, acima dos personagens, o roteiro da Constituição precisa ser preservado. Como setenciou o ex-deputado Ulysses Guimarães ao promulgá-la há 30 anos: “traidor da Constituição é traidor da pátria”.

 

Facadas

O problema parece ser a queda das máscaras com a vitória esmagadora do antipetismo nas urnas. E o rosto deformado que isso revela. Em Salvador, na madrugada de segunda, o mestre capoeirista Romualdo Rosário da Costa, de 63 anos, foi morto com 12 facadas pelas costas. O motivo? Ele disse ao seu assassino, o barbeiro Paulo Sérgio Ferreira de Santana, que era contrário a Bolsonaro. À exceção do desfecho, como diferenciar o crime bárbaro da facada que o próprio Bolsonaro levou no abdômen, enquanto era carregado por seus militantes nas ruas de Juiz de Fora, desferida covardemente pelo ex-militante do Psol Adélio Bispo de Oliveira?

 

Bolsonaro e Witzel

O país caminha em limite tênue entre o contraditório, fundamental à democracia, e a violência. Na demanda de equilíbrio, não ajuda a declaração dada ontem por Bolsonaro, que voltou a chamar Haddad de “canalha”. Muito menos o ex-juiz federal Wilson Witzel (PSC), que ontem ameaçou dar voz de prisão a Eduardo Paes (DEM), seu adversário no segundo turno a governador do Rio, caso este utilize nos debates o que julga serem fake news. Bolsonaro teve a lupa nacional sobre si desde que se revelou presidenciável competitivo, há um ano. Witzel, que cresceu espantosamente nos últimos dias antes da urna, só agora está no foco.

 

Delegado resolve

Sobre a ameaça do ex-magistrado, que Paes considerou autoritarismo, a coluna ouviu ontem alguns juristas. Para o promotor estadual Victor Queiroz, a decisão caberia ao delegado de Polícia ao qual o caso fosse encaminhado: “O crime de injúria visando à propaganda eleitoral está previsto no artigo 326 do Código Eleitoral. Há também o crime de injúria genérico, previsto no artigo 140 do Código Penal. Tratam-se de delitos de menor potencial ofensivo. É o delegado de Polícia quem vai deliberar sobre a lavratura do termo circunstanciado ou do auto de prisão em flagrante, e não o agente policial ou o cidadão que optou por conduzir o autor do fato”.

 

Carteirada antidemocrática

Advogado do Grupo Folha, João Paulo Granja chamou a ameaça de Witzel de “carteirada”: “Em relação ao recente vídeo onde o candidato Wilson Witzel afirma que promoverá a prisão do também candidato Eduardo Paes, caso venha a ser injuriado no debate. Trata-se de grosseiro equívoco jurídico, provavelmente derivado do acirramento da disputa eleitoral para o governo do nosso Estado. Inexiste prisão em flagrante delito em crime de menor potencial ofensivo, como no caso. É certo, ademais, que Witzel não mais ocupa qualquer cargo público, conferindo cores mais fortes à antidemocrática e ilegal ‘carteirada’ prometida”.

 

Desvestir a toga

Advogado criminal, Felipe Drumond analisou a ameaça como representante da OAB-Campos: “A prisão em flagrante seria de difícil implementação por se tratar de crime de menor potencial ofensivo. A lei veda o auto de prisão em flagrante se o acusado se comprometer a comparecer à Justiça, mas autoriza que seja conduzido coercitivamente à delegacia. A menção, por Paes, de fatos classificados por Witzel como ofensivos não seria suficiente para prisão. Em debates políticos, é comum que eventos desonrosos sejam mencionados com a intenção de informar o eleitor”. Favorito como candidato, Witzel precisa desvestir a toga. E descalçar o salto.

 

Publicado hoje (10) na Folha da Manhã

 

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