Opiniões

Artigo do domingo — Do meu tio e filho mais velho do meu pai

 

“Hoje executarei meus versos

na flauta de minhas próprias vértebras”

(Vladímir Maiakóvski)

 

Luiz Edmundo Barbosa

Vértebras

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Era um fim de tarde no verão de 2011, em Atafona. Eu e Neivaldo Paes Soares estávamos bebendo e conversando em seu bar e residência, na antiga casa de barco da família Aquino. Ficava diante da foz do rio Paraíba do Sul, numa faixa de areia que hoje é fundo de mar. Não lembro muito bem como o papo evoluiu ao questionamento dele: eu não conseguiria ir e voltar nadando do Pontal à ilha da Convivência.

No escambo entre provocações, propus:

— E se eu for e voltar a nado? Vale aquela vértebra de baleia? — disse, apontando para um dos tantos objetos de decoração do seu bar e residência, entre boias de embarcações, cascos de tartaruga marinha e arcadas de tubarão crispadas de dentes.

Com o sol se pondo, a água estava ainda mais fria. E a maré vazante puxava ao oceano quem ignorasse os caminhos líquidos para contornar a boca da barra. Diante dos desafios vencidos em braçadas lentas, antes mesmo de chegar à Convivência, os efeitos do álcool foram suplantados pela adrenalina que agora corria no sangue — como o rio ao mar.

Da ilha, no Pontal deixado do outro lado da foz do rio, Neivaldo em pé e agora distante me olhava. Acenei e descansei um pouco, antes de mergulhar nas águas para iniciar o caminho de volta. Ao chegar, noite quase caída, a vértebra de baleia era minha. Antes de conquistá-la, já tinha lhe dado destino: presentearia meu tio Luiz Edmundo Barbosa, irmão caçula do meu pai, que viria se hospedar na minha casa em Atafona, dali a alguns dias, durante o carnaval.

Tio Luiz gostou do presente. E creio que ainda mais da história em que aquela vértebra gigante se encaixava. Demonstrações de coragem física eram admiradas entre os Barbosa. Acho que era assim desde que o primeiro deles, na virada entre os sécs. XIX e XX, decidiu sair do vilarejo de Paredes de Coura, no norte de Portugal, para fincar raízes no Norte Fluminense.

Meu bisavô paterno, Dionísio Barbosa era um português de dois metros de altura, que gostava de misturar feijão à sopa e de dizer: “calma que o Brasil é nosso”. Seu filho e meu avô, Domingos Barbosa, o Capitão, batizou de Dionísio seu primeiro filho, irmão mais velho de Aluysio e Luiz Edmundo.

Apesar de filho temporão, foi Luiz quem assumiu o papel de referência patriarcal da família, após a morte de Capitão. Desde quando seus irmãos mais velhos, Aluysio e Dionísio, ainda eram vivos. Como estes permaneceram em Campos, enquanto o resto da família migrou a Niterói, foi lá que o caçula cuidou zelosamente das suas irmãs, Anna Maria e Heloísa, assim como da mãe, Myrthes, a Binuca, minha avó.

Independente do gênero e da cidade, os cinco filhos de Binuca e Capitão foram protagonistas em suas áreas. Dionísio e Aluysio, respectivamente, no comércio e no jornalismo de Campos. Assim como Anna Maria e Heloísa, ou Dudu e Isinha, no magistério. A primeira educou gerações no Abel, colégio mais tradicional de Niterói, enquanto a segunda teve uma brilhante carreira docente na UFRJ. Por sua vez, atravessando a Baía de Guanaraba diariamente para trabalhar no Rio, Luiz se tornaria um dos principais advogados tributaristas do país.

Cercado das mulheres da família, Luiz teria outras. Suas filhas Fernando e Manuela nasceram do primeiro casamento com Maria Alice. Contrairia matrimônio mais duas vezes, primeiro com Cristina e depois com Regina, paixão de adolescência em Campos que o destino uniu décadas depois em Niterói. Todas, assim como as suas irmãs, minhas tias, estavam no seu velório e enterro, na última quinta.

Como seu irmão, Aluysio, Luiz demonstrou grande coragem física na luta contra o câncer.

Naquele último verão que ele passou na minha casa em Atafona, caminhávamos juntos pela praia numa manhã. Ao passarmos pelo Pontal, apresentei Luiz a Neivaldo. Este disse não conhecê-lo, mas após eu informar se tratar do irmão do meu pai, complementou:

— Agora eu sei quem é você!

Ao que tio Luiz emendou de bate pronto:

— Agora eu também sei quem é você! — disse ele a Neivaldo, enquanto eu ria e pensava como aqueles dois homens, mesmo tão diferentes, eram tão semelhantes na marra.

Lembro de uma noite de carnaval em que estávamos na casa de amigos. Eu e Luiz nos distanciamos do grupo na sala e conversávamos na varanda, ao sopro suave do vento nordeste. De repente, entra um sujeito solitário e cambaleante de bebida pelo portão.

Com um copo de cerveja na mão, servi outro e disse a tio Luiz: “vou resolver”.

Caminhei até o homem, o cumprimentei e lhe ofereci o copo extra de cerveja. Ele aceitou com uma expressão de gratidão que nunca esquecerei. Brindamos, bebemos e o anônimo se despediu, levando o copo e saindo da casa com a mesma naturalidade com que tinha entrado.

Após o vulto do visitante desaparecer trôpego e feliz pela noite, voltei a Luiz Edmundo, que observava tudo da varanda, e lhe disse: “ele só queria um pouco de carinho”.

No brilho de orgulho nos olhos dele, pude testemunhar que, acima da coragem física, os Barbosa admiravam a humanidade de todos nós.

Com o endosso do meu tio, espécie de filho mais velho do meu pai, a quem ele só chamava de Azinho, concluí naquela noite de carnaval em Atafona: a fraternidade são nossas vértebras.

 

Publicado hoje (02) na Folha da Manhã

 

Este post tem 5 comentários

  1. Família para mim é tudo! Belo texto!

  2. Uma história trazida pelo vento nordeste virtual e bem contada quanto, é pra chover no canto dos olhos.
    Muito boa a narrativa e o conteúdo.

  3. Muito bacana esse relato. Recordar é viver…Saudades dessa época em Atafona e muito carinho pela familia de Dr. Aluysio Abreu Barbosa

  4. Espetacular!!!

    Incrível e admirável encontrar forças para transformar lembranças em honrosa homenagem!!!

  5. Que texto lindo!
    Parabéns!

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