Opiniões

Artigo do domingo — Tão longe, tão perto: 2020 além de Rafael e Wladimir

 

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Muita gente em Campos se surpreendeu com o resultado das eleições municipais de 2016. Não por um jovem vereador de oposição de único mandato, Rafael Diniz (PPS), ter vencido a eleição a prefeito. Mas por tê-lo feito ainda no primeiro turno, em todas as zonas eleitorais do município.

 

Comemoração da vitória de Rafael no primeiro turno de 2016

 

Mas se o inesperado fez uma surpresa em 2016, o que dizer das eleições de 2018? Após chegar perto de também vencer o pleito presidencial no primeiro turno, Jair Bolsonaro (PSL) derrotou Fernando Haddad (PT) por mais de 10 milhões de votos de diferença no segundo. Bateu a maior força eleitoral do país nos 14 anos anteriores.

 

Antes da conclusão do segundo turno, em 2018, Bolsonaro estava certo da vitória

 

A vitória final do capitão sobre o professor era prevista em todas as pesquisas. Só que elas foram solenemente ignoradas pela arrogância de quem votou em Haddad no primeiro turno, tirou do segundo Ciro Gomes (PDT) e, com ele, a única chance real da esquerda em eleger o presidente. Da cadeia, Lula sabotou o cearense, ungiu Haddad seu poste da vez e, mãos entrelaçadas com o antipetismo, determinou a eleição de Bolsonaro.

Se esse roteiro estava escrito de antemão, a surpresa foi como o tsunami do anti-establishment se espraiou também nas eleições ao Congresso Nacional. Sua renovação foi a maior na história da Nova República (1985/2018). Na Câmara Federal, 52,54% dos deputados eleitos foram caras novas. No Senado o número chegou a 81,19%.

O PSL tinha eleito apenas um deputado federal em 2014. Em 2018, ano que passou a servir de legenda à candidatura presidencial vitoriosa de Bolsonaro, o partido elegeu 52 deputados e a segunda maior bancada da Câmara.

Do Planalto Central à planície goitacá, os reflexos foram sentidos. A acachapante votação de Bolsonaro no Estado do Rio puxou os candidatos do seu partido, que conquistou 12 mandatos de deputado federal, o último com 31.788 votos. Candidato do governo Rafael Diniz ao mesmo cargo, o vereador Marcão Gomes (PR) acabou ficando de fora, mesmo com quase 41 mil votos.

Mas nenhuma eleição abriu precedente tão inesperado quanto a de Wilson Witzel a governador. Concorrendo pelo PSC, legenda anterior de Bolsonaro, o desconhecido ex-juiz federal saiu de um quinto lugar nas pesquisas da semana do primeiro turno, para nele terminar em primeiro, com mais do dobro da votação do segundo, Eduardo Paes (DEM). A quem venceu no turno final com a expressiva diferença de quase 20%.

 

 

Baseado nesse histórico recente, quem achava conhecer algo de eleição, deve colocar as barbas de molho para 2020. Se vivêssemos em condições normais de temperatura e pressão, Rafael Diniz e Wladimir Garotinho (PRP) sairiam na frente.

Rafael sempre contará com o “peso da máquina”. Mas ele tende a importar cada vez menos, sobretudo com o rigor que a Justiça Eleitoral demonstrou, em 2016, em operações como a Chequinho. Mesmo que esta, mais os sucessivos problemas jurídicos de Anthony Garotinho (PRP), tenham deixado o prefeito governar Campos praticamente sem oposição, não há indício de que sua aprovação seja boa.

Sem nenhuma pesquisa de opinião divulgada para dar critério estatístico ao sentimento popular do campista, a impressão que parece dominante é a da frustração — talvez até por conta da enorme expectativa gerada pela eleição consagradora de dois anos atrás.

Nos dois anos que ainda terá pela frente, uma mudança de 180º é necessária para dar uma cara à gestão Diniz. Se esta permanecer apenas a do ajuste das finanças municipais arrasadas pelos Garotinho, é pouco. E ficaria à mercê de qualquer parecer desfavorável de um Tribunal de Contas do Estado saneado. Cujas análises serão votadas, em 2019, por uma Câmara Municipal que poderia contar com edis insatisfeitos, na exata proporção dos secretários municipais assanhados com a possibilidade da vereança em 2020.

 

Ocupa TB sob vigilância da Guarda Municipal do governo Rosinha em 2016

 

Por sua vez, principal nome da oposição à Prefeitura daqui a dois anos, Wladimir vem tentando, junto ao pai, se aproximar de Witzel. Até emplacaram nomes do seu grupo no novo governo estadual, como Patrícia Cordeiro. Sua desastrosa passagem na presidência da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), no governo Rosinha Garotinho (hoje, Patri), levou os artistas de Campos a ocuparem o Teatro de Bolso em 2016, acintosamente fechado desde 2014.

Ao contrário de Marcão, Wladimir se elegeu deputado federal. Graças à proporcionalidade, não aos votos de cada um. O filho do casal Garotinho teve menos eleitores em 2018 do que o ainda presidente da Câmara Municipal: 39.398 a 40.901. Ainda que, em Campos, tenha ficado um pouco na frente: 30.795 a 29.044. Mas se tudo indica que há insatisfação popular com o governo Rafael, nada mostra que tenha diminuído a imensa rejeição aos Garotinho entre os campistas.

Mesmo ao eleitor hoje mais arrependido por ter votado em Rafael em 2016, está também cristalizado o arrependimento pelo desperdício do auge do recebimento dos royalties do petróleo. Foram 28 anos que Garotinho e seu grupo comandaram o município. Quase três décadas em que a cidade e seu futuro foram usados, sem pudor, como trampolim para um projeto personalista de poder. O resultado foi a decadência do personagem. E a de Campos.

Olhado deste final de 2018, o pleito a prefeito de 2020 parece aberto a alternativas. Mas isso está tão longe quanto um filme de Wim Wenders. E é papo para outro texto.

 

Publicado hoje (16) na Folha da Manhã

 

Este post tem 5 comentários

  1. Quase 3 decadas de despudor ,sim Senhor .Uma vida .
    Parabéns pelo texto.Muito bom
    Voto distrital já .Só assim para impedirmos este descalabro

  2. Três décadas sob a soberania e reinado dos Garotinhos, péssimas gestões, obras desnecessárias, gastos excessivos abusivos e vergonhosos.
    E aí o q fez o Rafael Diniz com sua jovialidade e com credibilidade dos campistas???
    NADA!!
    Da surpresa da Vitória a hipocrisia e incompetência de um governante medíocre e apagado.
    E nunca mais os mesmos. Espero.

  3. Não precisa de outro texto, mas sei que teram outros pra ajudar, rafael diniz perde pra wladmir nas proximas eleições, infelizmente. Até pudim, o poste, ganha de rafael. Porque com garotinho estava ruim, mas rafael diniz conseguiu chegar ao péssimo… eee Campos…

  4. Só esqueceram de mencionar o nome que virá forte com o apoio de Bolsonaro: GIL VIANNA
    AGUARDEM

  5. Aloísio, seu texto além de primoroso, fala de uma verdade incontestável.
    2020, promete transitar entre a decepção de uma bombástica eleição de livramento e a expectativa de resgate de um município, que por suas tradições históricas e emergências atuais, merece governantes que o tirem do estracismo e o remetam à realidade futurista do séc XXI, que já está em curso. ABS.

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