Opiniões

Nos discursos de posse, Bolsonaro ainda ecoa tuítes de campanha

 

Enquanto os seguranças de verdade correm ao lado do Rolls Royce presidencial, o filho Carlos Bolsonaro posa confortável de segurança do pai Jair (Foto: Andre Penner – AP)

 

A eleição presidencial foi definida em 28 de outubro. Mas o presidente eleito Jair Bolsonaro tomou posse hoje com dois discursos de campanha. Falou para quem se presta a chamá-lo de “mito”. Não ao conjunto de um país dividido, que deve acirrar suas cisões após as palavras do seu novo mandatário.

Primeiro no Congresso Nacional, quando tomou posse de fato, Bolsonaro falou contra a “submissão ideológica” e a “idelogia de gênero”, e em defesa da “tradição judaico-cristã”. A colagem de tuítes de campanha pareceu agradar o presidente estadunidense, Donald Trump, que tuitou: “ótimo discurso de posse — Os EUA estão com você”.

As palavras fortes de Bolsonaro se manteriam no discurso seguinte, no parlatório do Palácio do Planalto, já com a faixa presidencial passada por Michel Temer. Após um deslumbrado pronunciamento em libras da primeira-dama Michelle Bolsonaro, o novo presidente falou ao Brasil em “se libertar do socialismo (…) e do politicamente correto”.

Bolsonaro havia recebido uma bandeira brasileira do seu ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni. Ao final do discurso do parlatório, ela foi erguida pelo presidente e seu vice, general Hamilton Mourão. O capitão, então, encerrou: “Essa é nossa bandeira, que jamais será vermelha. Só será vermelha se for preciso nosso sangue para mantê-la verde e amarela”.

O fato de Bolsonaro ter desfilado no Rolls Royce presidencial, ao lado da esposa e do filho Carlos Bolsonaro, foi também emblemático. Vereador carioca, ele foi responsável pela campanha agressiva do pai nas redes sociais, nas quais é também conhecido como “Carlinhos Moleira Mole”. A presença do filho mais destrambelhado do presidente pareceu anunciar o tom beligerante dos discursos de posse.

O fato das bancadas do PT e seu satélite Psol terem se ausentado da cerimônia de posse presidencial, não ajuda a unificar o país. E, em seus discursos, Bolsonaro evidenciou: a fogueira em que ardem 209,3 milhões de brasileiros também continuará a ser atiçada por quem assumiu hoje o governo federal, após 16 anos de hegemonia petista — incluindo Temer, eleito por quem votou em Dilma Rousseff.

Noves fora o jogo para a galera, o Brasil iniciou hoje seu jogo jogado. Durará no mínimo quatro anos. Mas sobre ele Bolsonaro só falou quando, ao listar os muitos desafios do seu governo, ressaltou na fala ao Congresso: “Esses desafios só serão resolvidos mediante um verdadeiro pacto nacional entre a sociedade e os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, na busca de novos caminhos para um novo Brasil”.

Bolsonaro foi legitimamente eleito presidente no segundo turno, com 57,7 milhões de votos. Todavia, 47 milhões votaram no petista Fernando Haddad, enquanto 42,3 milhões não escolheram nenhum dos dois. Para esta maiora de 89,3 milhões de brasileiros, as palavras dos discursos da posse de hoje deixam qualquer pacto com a sociedade mais distante. Com o Legislativo e o Judiciário, logo saberemos.

 

Com a faixa presidencial passada por Michel Temer, Bolsonaro aponta para ela, antes de apontar aos seus eleitores (Foto: Sergio Moraes – Reuters)

 

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