Opiniões

Acadêmicos de Campos analisam governos Bolsonaro, Witzel e Rafael

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

Se o meio universitário, desde a campanha eleitoral de 2018, é criticado por Jair Bolsonaro (PSL) e parte de seus eleitores como celeiro de formação de radicais de esquerda, o equilíbrio foi o tom das respostas desta entrevista com a socióloga e antropóloga Fernanda Huguenin, o cientista político Hamilton Garcia e o historiador Arthur Soffiati. Eles não se limitaram a analisar a orientação intelectual e as propostas do governo federal, mas também suas expectativas sobre o novo governador do Estado do Rio, Wilson Witzel (PSC), até chegar a Campos, onde o prefeito Rafael Diniz (PPS) inicia a segunda metade da sua administração. No plano municipal, os três acadêmicos projetaram perspectivas ao pleito de 2020.

 

Fernanda Huguenin, Hamilton Garcia e Arthur Soffiati (Montagem de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Folha da Manhã – Como avalia o pouco mais de um mês do governo Jair Bolsonaro?

Fernanda Huguenin – Qualquer análise requer um pouco mais de tempo. Janeiro foi um mês de transição entre o discurso de campanha e a complexidade da vida real. Estamos num momento de liminaridade, que sempre é vivenciado com tensões latentes ou explícitas. Houve muitos desencontros nos discursos, sobretudo nas propostas de Reforma da Previdência e nas relações internacionais, mas qualquer avaliação incipiente pode ser precipitada.

Hamilton Garcia – O governo começa apresentando um perfil programático, como seria de se esperar e como era demandado pela sociedade, mas ainda é cedo para saber que ganhos oferecerá em termos administrativos-executivos.

Arthur Soffiati – Existem três forças com propostas relativamente distintas no governo dele: o neoliberalismo, que não está interessado na questão dos costumes; os conservadores, que se interessa demais por esta questão; e os militares, que manifestam uma tendência nacionalista, mas que estão se comportando de forma surpreendente moderada. Essas três forças precisam se alinhar, o que considero difícil.

 

Folha – Revelações do Coaf e MP-RJ levantaram suspeita da prática de “racahadinha” do hoje senador Flávio Bolsonaro (PSL), quando era deputado estadual, além da sua ligação com a milícia “Escritório do Crime”, cujo chefe teve a mãe e a esposa empregadas na Alerj pelo filho 01 do presidente. É a mesma milícia suspeita da execução da vereadora carioca Marielle Franco (Psol). E, na quarta (06), a Procuradoria Geral da República recebeu as investigações da PF sobre Flávio por lavagem de dinheiro. Caiu o discurso moralista do bolsonarismo?

Soffiati – Se não caiu de todo, começa a cair. O mais grave em Flávio Bolsonaro é a apologia declarada das milícias em discurso na Assembleia Legislativa do RJ. Tanto o pai quanto o filho foram autênticos enquanto parlamentares federal e estadual. Agora, precisam passar como bons moços, mas o passado de ambos mostre o que realmente pensam.

Fernanda – O discurso moralista do bolsonarismo sempre foi seletivo. Afinal, por princípios éticos, quem defende o fim da corrupção não deveria receber auxílio-moradia tendo apartamento próprio na capital federal. A moralidade à brasileira funciona com dois pesos e duas medidas. O eleitor que quer o fim da corrupção é o mesmo que sonega impostos e opera “jeitinhos” no dia a dia. Mas devemos aguardar a apuração total dos fatos com a garantia de ampla defesa ao senador.

Hamilton – Não, o discurso moralista vai se apoiar agora nas medidas legais e práticas que prometem reverter o quadro de anomia da segurança e da administração pública. Nestes terrenos há muito o que se fazer, ocupando toda a agenda. Ademais, as ligações perigosas da família Bolsonaro, não suas práticas obscuras, eram do conhecimento de seus eleitores mais fiéis e por eles chanceladas, de modo que os prejuízos tendem a ter menor impacto do que o esperado.

 

Folha – A negação da realidade é uma teoria elaborada por Sigmund Freud, pai da psicanálise, e sua fiha Anna, que consiste na defesa contra realidades externas que ameaçam o ego. Há outra maneira de entender o que ocorreu com os lulopetistas diante do Mensalão e do Petrolão, ou o que ocorre agora com os bolsonaristas? Estes são “petistas de sinal trocado” como definiu a Janaina Paschoal, deputada estadual eleita em SP pelo PSL de Bolsonaro?

Hamilton – Os sectários de qualquer ideologia são sempre negacionistas naquilo que ofendem seus princípios e valores. Mas não é desta doença que sofrem os estados-maiores do PT e do PSL, que me parecem mais próximos do cálculo político racional: eles apostam as fichas em narrativas que têm boa acolhida em seus nichos sociais, como se viu nas eleições passadas. O erro do PT foi se autocentrar, deixando-se levar por seu “id” sem a devida mediação do “superego”.

Soffiati – De fato, em ambos os lados existe fanatismo por não querer enfrentar a realidade. É freudiano mesmo. Daí a polaridade. O fanatismo leva à simplificação da realidade tanto à direita quanto à esquerda. Democracia e fanatismo não combinam. Democracia exige diálogo e tolerância. Nenhum dos dois lados representa o mal absoluto, mas também não representa o equilíbrio e a compreensão de que ninguém governa como quer, o que seria ditadura; mas como pode.

Fernanda – A corrupção sistêmica funciona para a manutenção do poder. A esquerda brasileira precisa assumir que o projeto de conciliação de classes do lulopetismo constituiu um presidencialismo de coalizão disposto a negociar além das ideias. O modus operandi de Bolsonaro parece se diferenciar do “toma lá, da cá” partidário, mas as votações das reformas no Congresso vão exigir uma grande articulação que, dependendo do apego governista ao poder, pode vir a ceder às “tenebrosas transações” da Lava Jato tucana e petista.

 

Folha – Na condição de professor(a), como fazer uma avaliação isenta de um governo federal que ataca o magistério brasileiro desde a campanha eleitoral?

Fernanda – O pressuposto mínimo para avaliar as ações do governo federal é o do total desconhecimento da realidade da sala de aula. Não acredito em avaliação isenta. Todos temos um lugar de fala. A criminalização dos professores, como a censura prevista no projeto “Escola Sem Partido”, está associada ao desmonte da educação pública de qualidade, pois enquanto a sociedade se preocupa com o “kit gay”, os recursos vêm diminuindo desde a PEC que estabeleceu o teto dos gastos públicos. Não existe educação de qualidade sem investimento.

Hamilton – Não creio que haja ataque dessa amplitude, mas a segmentos específicos identificados com o petismo. Claro que na base da sociedade há sempre o discurso anti-intelectual, afinal os trabalhadores braçais têm uma compreensão limitada sobre o trabalho abstrato, tanto por falha escolar, como por deficiências encontradas nos próprios meios intelectuais. Entre elas, a soberba e a indiferença com o mundo tangível. Mas não creio que este sentimento vá se transformar em política de governo, a não ser que o professorado se deixe levar pela “resistência” petista.

Soffiati – Não há como fazer avaliação isenta de nenhum governo. Vivi 40 anos em sala de aula e posso declarar o seguinte: no ensino público, o professor é admitido por concurso e precisa se aprimorar com cursos de aperfeiçoamento. Há exceções que confirmam a regra. Se pretendemos uma educação de qualidade, o ensino não pode ser de todo privatizado porque, quando olhamos para o ensino particular, verificamos que não há interesse em concurso e aprimoramento. Pouquíssimas universidades particulares, como as PUCs, por exemplo, primam pela qualidade no ensino. Não podemos pensar que somos os EUA, onde as universidades são privadas. Precisaremos do Estado, por bastante tempo, no ensino. A segunda questão é que o chamado marxismo cultural é, na verdade, uma abordagem crítica da realidade que já tem longa tradição e não é sempre militante ou partidarizada. O conservadorismo desejado pelo ministro da Educação apenas substitui uma linha de análise por outra. E esta outra tem uma fraca massa crítica atrás de si.

 

Folha – Na mensagem ao novo Congresso, lida na segunda (04) pela deputada federal Soraya Santos (PR/RJ), o presidente voltou a mirar no ensino do país, afirmando que “muitas vezes” ele foi transformado em “espaço de doutrinação ideológica”. O problema da escola brasileira está em formar “comunistas”, ou não conseguir ensinar o que são marxismo e liberalismo, assim como o domínio mínimo da língua portuguesa e das operações matemáticas básicas?

Soffiati – Devemos reconhecer que o marxismo apresentou uma teoria crítica da realidade e que pauta os livros didáticos. Não sei como substituir, por exemplo, a explicação da expansão marítima europeia como fruto dos interesses mercantis por uma em que valorize o desejo de levar o cristianismo romano a outros povos e salvar suas almas. Não sei também como substituir o evolucionismo darwinista pelo criacionismo. Em ambos os casos, o conhecimento sofreria um grande retrocesso. Em lugar dos “muitas vezes” do discurso, prefiro “muitas vozes” no ensino, mas vozes bem fundamentadas.

Fernanda – Qualquer diagnóstico unívoco sobre os problemas do sistema educacional brasileiro será leviano. O investimento, sem dúvida, é o maior deles, porque atinge diretamente a infraestrutura das escolas e os salários dos professores. No entanto, há outros fatores como a falta de boa gestão, o desgaste dos componentes curriculares e até o anacronismo pedagógico diante de gerações nativas digitais. A fantasia de que os alunos são “doutrinados” não passa de cortina de fumaça para questões estruturais.

Hamilton – Na concepção deles, “comunista” é um sujeito mal formado, portanto, supõem que, para produzi-los, seja necessário sabotar o ensino propedêutico em proveito de suas “doutrinas exóticas”. Na verdade, não só não existe esta concatenação, como ao contrário, no século passado, o comunista era o indivíduo mais bem formado de nossa sociedade em sua respectiva classe, formando uma contraelite intelectual. Hoje, é verdade, esta marca foi atenuada pela massificação perversa da esquerda promovida pelo PT, mas não se pode culpar a esquerda pelo nosso desastre educacional, embora o PT tenha fracassado em fazer as reformas estruturais do país; dentre elas a educacional.

 

Folha – Considerado “guru” do bolsonarismo, o filósofo e ex-astrólogo Olavo de Carvalho já questionou publicamente até o heliocentrismo. Partiu dele a indicação do ministro da Educação, o colombiano Ricardo Vélez Rodríguez, que causou polêmica ao chamar os brasileiros de “canibais”, em entrevista à Veja. Ao Valor Econômico ele chegou a afirmar que as universidades “devem ficar reservadas para uma elite intelectual”. O que esperar além do retorno das aulas de moral e cívica?

Hamilton – O objetivo das universidades é formar uma elite intelectual meritocrática, independente da origem social dos estudantes, e isto não deve estar associado a nenhuma classe social e sim ao esforço/talento individual para se mergulhar no universo particularíssimo do abstracionismo filosófico-científico. Dito isso, é preciso localizar o ideólogo Olavo de Carvalho como um outsider que, não obstante o feroz antigramscismo, pratica, de fato, a seu modo, a “filosofia da práxis”, que é como Gramsci se referia ao materialismo-histórico em seu esforço de romper com a separação institucionalizada entre o pensar científico-filosófico e o agir tecnológico-político. Amiúde, Carvalho define sua filosofia como viva e pulsante, em oposição à morta e anódina, que ele associa também ao tradicionalismo conservador. Quanto ao ministro da Educação, para além dos tropeços, é preciso ver como encaminhará a meta de reverter a má qualidade do nosso ensino básico.

Soffiati – Reintroduzir a disciplina moral e cívica representa, a meu ver, um retrocesso, pois o conteúdo dela continua sendo repassado de forma mais discreta nos ensinos fundamental e médio. Por outro lado, nas universidades, não haveria a mínima possibilidade de tratar as ciências humanas à luz do que escreve Olavo de Carvalho, cujo pensamento é declaradamente conservador e anticientífico. Existem autores liberais e conservadores já estudados na universidade, como Raymond Aron, Max Weber e Durkheim. Um professor bem formado e equilibrado não ignora a contribuição de estruturalismo e de tantas outras correntes de pensamento que o ministro Vélez joga no mesmo saco como marxismo cultural. Existe um conservadorismo sério estudado nas universidades.

Fernanda – Eu não teria nenhum problema em dar aula de moral e cívica. A questão não é o quê se ensina, mas como se ensina. Uma aula, por exemplo, sobre o Hino Nacional poderia partir do questionamento sobre quem foram as pessoas que “ouviram do Ipiranga às margens plácidas” o tal “brado retumbante”. É preciso instigar a imaginação. Uma análise crítica dos símbolos nacionais pode nos remeter a discussões sobre acontecimentos atuais, como as lágrimas do senador Flávio Bolsonaro sendo enxugadas com a bandeira do Brasil. Mas creio que a proposta do ministro da educação esteja mais afinada com outros valores, como o colonialismo europeu e norte-americano,  o conservadorismo dos costumes e o elitismo acadêmico.

 

Folha – Outra indicação de Olavo, o chanceler Ernesto Araújo disse acreditar numa nova Cruzada do Ocidente cristão liderada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, como reencarnação do rei português D. Sebastião. Por sua posição em relação à crise na Venezuela, ele já estaria sido posto sob tutela dos ministros militares, segundo anunciou a Folha de São Paulo no dia 3. É correto supor que os generais serão o equilíbrio no governo do capitão?

Fernanda – Penso que o governo Bolsonaro é visto pelos militares como uma oportunidade histórica de apagar a memória que restou da ditadura (1964/1985). Particularmente, nada tenho contra militares, mas repudio o militarismo, sobretudo quando usado internamente. O decreto nº 9690/2019 assinado pelo vice-presidente, o general Mourão, é um exemplo de retrocesso por fragilizar a LAI (Lei de Acesso à Informação). Se o governo quer combater a corrupção, deve garantir a transparência.

Hamilton – Sem sombra de dúvida, pois as Forças Armadas agem como instituição unificada no âmbito do Estado. Mas serão também parte na luta interna do Governo, pois também fazem parte da governança ao nível dos ministérios. O Ernesto Araújo é expressão de uma nova direita que, a exemplo dos EUA, revaloriza o nacional-industrialismo em detrimento do global-financismo, que em todas as épocas. Desde a Holanda, passando pela Inglaterra, como nos ensinou Giovanni Arrighi, foi a expressão macroeconômica da decadência de todas as potências capitalistas.

Soffiati – Fui amigo de dois almirantes que não gostavam da linha representada por Bolsonaro. Eles não eram marxistas, mas não teriam lugar num universo ultraconservador. Como já falei, a ala militar do governo Bolsonaro é a que vem mostrando maior equilíbrio. Ela revela um pragmatismo que não vejo nas duas outras alas. Um bom governo precisa ter uma dose de pragmatismo. O ministro Ernesto Araújo é motivo de chacota entre os intelectuais com sua proposta de unir a cristandade numa cruzada contra os não cristãos. E confuso. Ele chegou a propor uma aliança entre EUA, Rússia e Brasil em nome da cristandade. Podemos ensinar suas ideias medievais nas universidades? O conhecimento dele não tem consistência. E os militares dentro e fora do governo não endossam seu pensamento. De fato, é preciso controlar e limitar o ministro que, na minha opinião, é forte candidato a deixar o governo.

 

Folha – Para muitos historiadores, o Estado brasileiro, como o conhecemos, foi montado por Getúlio Vargas. Sofreu tentativas de modernização com Juscelino Kubistchek e Fernando Henrique Cardoso, presidente que aasumiu tentar “desmontar a Era Vargas”. Diminuir o Estado é objetivo de Jair Bolsonaro e parece ser o desejo da população. Economicamente, é uma necessidade? De novo, como avaliar isso isentamente sendo servidor(a) público(a)?

Soffiati – Não ignoro que vivemos num mundo capitalista e que a onda do momento é o chamado neoliberalismo, o que significa lançar às forças do mercado quase toda a estrutura estatal. Creio que isso vai acontecer no governo Bolsonaro. Entendo que certos setores não podem ficar sem a proteção do mercado. Aliás, Collor de Melo era também bastante neoliberal e deu no que deu. Mesmo os maiores representantes do mercado no exterior já disseram que uma política veloz de privatização no Brasil poderia se caótica.

Fernanda – É salutar que haja a desburocratização e o desaparelhamento político do Estado, e que os impostos sejam reduzidos ou mesmo extintos onde for possível. A questão é que o Capital deseja a diminuição do Estado quando o mercado está funcionando bem e os lucros estão em alta. Quando a economia sofre reveses ou entra em crise, é ao próprio Estado que empresas e bancos pedem socorro, como aconteceu em 2008. Não sou mais servidora pública, mas entendo que há atualmente um discurso enviesado que coloca na conta do funcionalismo o déficit previdenciário.

Hamilton – O intelectual não pode pensar o mundo a partir do seu umbigo. É certo, nos ensinou Marx, que vemos o mundo a partir de um lugar por meio do instrumental abstrato da teorias. Mas, se almejamos ver além, devemos fazê-lo, nos ensinou Weber, por meio de um acertado manejo deste instrumental: a neutralidade axiológica, que Marx, inspirado em Hegel, chamava de objetividade. Sendo assim, a primeira coisa a observar é que não se trata apenas de “diminuir o Estado”, mas, principalmente, de racionalizá-lo, e isto vem sendo conseguido por partes, o que me parece ser o responsável pela crise atual. Em todos os períodos mencionados, inclusive no Regime Militar, estabeleceu-se pactos de convivência com o neopatrimonialismo que custaram a própria eficiência da modernização que se pretendia. É o preço que pagamos pela tradição do “lento, gradual e seguro”.

 

Folha – A vitória de Davi Alcolumbre (DEM/AP) à presidência do Senado foi também do governo Bolsonaro, sobretudo do seu principal articulador político, o ministro da Casa Civil Onyx Lorenzoni (DEM/RS). Derrotar Renan Calheiros (MDB/AL) foi o tiro de misericórdia no consórcio PT/PMDB, que governou o país nos últimos 16 anos?

Hamilton – O “consórcio” nada mais é que a expressão da dominação neopatrimonial sobre o Estado em sua versão mais ampla, “social”. Sua derrota eleitoral não significou o golpe definitivo na dominação neopatrimonial porque ela não só se espraia por toda a Federação. Como também está presente em outros blocos políticos, inclusive no seio da própria coalizão de direita que se sagrou vitoriosa. Esta luta de novo será uma luta árdua e longa, sem garantia de resultados, na dependência de como a crise e a mobilização social será capaz de neutralizar e golpear as forças do atraso neopatrimonial.

Soffiati – Entendo que a derrota de Renan foi um tiro na velha política, que é anterior ao PT e à qual, em grande parte, o PT aderiu. Mas não aposto, na minha prudência, que essa tradição, já antiga e muito arraigada, despareça. Para um historiador, quatro anos representam um tempo muito curto para efetuar mudanças profundas.

Fernanda – As esquerdas brasileiras precisam fazer a autocrítica se quiserem voltar ao poder. Como disse o Mano Brow: “volta pra base e vai procurar entender”. Não acredito em superioridade moral nem à esquerda, nem à direita. A aliança PSL/DEM pode ser tão perversa quanto foi a do PT/PMDB. A alternância do poder é necessária para a democracia. O problema é que há séculos no Brasil tudo muda para continuar igual e, às vezes, pra piorar.

 

Folha – Com o controle do Senado e da Câmara Federal presidida pelo deputado Rodrigo Maia (DEM/RJ), também com apoio do governo Bolsonaro, o DEM se torna o partido mais poderoso do Brasil? Chega a ser uma ironia depois do então presidente Lula (PT) ter pregado em 2010, durante comício da candidatura presidencial de Dilma Rousseff (PT), em Joinville (SC): “Precisamos extirpar o DEM da política brasileira”?

Fernanda – No estado democrático de direito não deve haver espaço para perseguições políticas. A frase “vamos fuzilar a petralhada”, proferida pelo então candidato Bolsonaro durante a campanha eleitoral foi a atualização um pouco mais raivosa do “precisamos extirpar o DEM da política brasileira”. Tratar adversários políticos como inimigos a serem fuzilados ou extirpados empobrece o diálogo e a qualidade da democracia. Não estamos num jogo de videogame. A política requer a maturidade dos argumentos.

Hamilton – Pode ser uma ironia, mas não é uma surpresa: o PT quis apenas substituir o DEM pelo PMDB, uma operação que não extirpa o neopatrimonialismo e, assim, propicia seu retorno sob outras vestes.

Soffiati – De fato, o DEM ganhou muita força no governo Bolsonaro, elegendo os presidentes da Câmara e do Senado. Ao contrário do desejo do PT, o DEM saiu fortalecido nas eleições de 2018/19. Cabe também lembrar que o DEM é um ninho da velha política e que deve buscar uma posição de centro, além de proceder uma limpeza interna. Rodrigo Maia é mais experiente que Alcolumbre e sabe muito bem que é impossível expelir a oposição. Mais que isso, ele sabe que é preciso diálogo.

 

Folha – Lula está preso desde abril de 2018, após condenação de 12 anos e um mês do TRF-4, no caso do triplex do Guarujá. E na última quarta foi condenado em primeira instância a mais 12 anos e 11 meses, no caso do sítio de Atibaia. As duas condenações são por corrupção e lavagem de dinheiro. Ele preso e sem perspectiva de liberdade, a não ser um HC humanitário, com o deputado federal Aécio Neves (PSDB/MG), o ex-presidente Michel Temer (MDB/SP), Renan Calheiros e Flávio Bolsonaro soltos, não reforça as críticas de seletividade do Judiciário?

Soffiati – De fato, a demora em concluir inquéritos contra muitos políticos dão margem a se pensar que as condenações de Lula são seletivas e destinadas a aniquilar de vez sua liderança. Como não conheço os processos de condenação, não posso afirmar, como fazem petistas e lulistas, que houve um plano de tirá-lo da cena política propositalmente. Não gosto de explicações conspiratórias e rasas. Vejo, para Lula, uma esperança no fim do túnel, caso o Supremo Tribunal Federal reveja a prisão em segunda instância, como está pautado para abril e a rejeição da proposta de Moro em transformar a prisão em segunda instância em lei.

Fernanda – A neutralidade jurídica pode ser questionada desde a obra de Hans Kelsen. O Direito é sem dúvida ideologia, assim como o jornalismo ou a própria sociologia. A pergunta simplifica o fato de que todos temos direito à ampla defesa e a um julgamento justo. Aécio, Temer, Renan e Flávio Bolsonaro estão em fases processuais diferentes, que vão da simples investigação à denúncia, algo que, por si só, não implica na seletividade do judiciário.

Hamilton – A seletividade, creio, foi sepultada pela Lava Jato: o desenlace de Neves, Temer e Calheiros, parece ser uma questão de tempo, que foi muito longo para Silva. Quanto a Bolsonaro, a situação é diferente, pois trata-se de crime na esfera estadual e o MPE-RJ e o TJ-RJ, que se não foram cúmplices dos crimes praticados no Estado pela quadrilha de Cabral-Pezão&Picciani-Melo, nas últimas décadas, quando o ex-chefe do MPE chegou a ser preso, foram omissos. O RJ está precisando de uma força tarefa para desbaratar as quadrilhas estaduais. Observemos como Moro vai tratar disso no âmbito do ministério da Justiça.

 

Jair Bolsonaro, Wilson Witzel e Rafael Diniz (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Folha – Coincidência ou não, menos de 48h após a derrota de Renan no Senado, o ministro da Justiça e Segurança Sérgio Moro apresentou na segunda (4) seu projeto anticrime e anticorrupção. E propõe o Congresso a alteração em 14 leis. As maiores críticas são sobre a introdução dos subjetivos critérios de “surpresa, medo e violenta emoção” para se justificar legítima defesa em homicídios. Que crime passional, por exemplo, não é praticado sob “violenta emoção”? Mas o endurecimento contra o crime é um inequívoco desejo popular. Qual a sua opinião?

Hamilton – Imagino que os critérios de legítima defesa estejam sendo definidos em proveito da ação policial. É claro que o policial precisa ter salvaguardas, senão ele vai se omitir diante da população em perigo – como acontece hoje. Não obstante o desafio de extirpar os maus policiais do seio da corporação – processo já iniciado na Intervenção federal de 2018, vide intensa renovação dos oficiais superiores –, não podemos tratar o conjunto da corporação como uma ameaça, sob pena de fazermos o jogo da criminalidade, que, aliás, utiliza de maneira muito eficiente as narrativas antipoliciais e identitárias para a defesa de seus interesses.

Soffiati – Com relação à segurança, não sou favorável à legalização da posse de armas. Com elas em casa, uma discussão entre marido e mulher pode resultar em morte por tiro. O assassino, homem de preferência, poderia alegar em sua defesa, estar tomado de forte emoção. A vontade popular não se importa que um bandido seja morto com forte ou fraca emoção. Mas é preciso considerar os crimes de natureza doméstica ou resultantes de discussão entre pessoas. Creio que a “violenta emoção” não passará porque não existe ainda um aparelho para medir emoções a ser usado pelo policial em caso de tiro contra bandidos.

Fernanda – O Brasil não é o país da impunidade, já que tem uma população carcerária de mais de 700 mil presos e está atrás apenas dos EUA e da China. Vivemos o processo chamado “encarceramento em massa”. Enquanto a população se aterroriza e se regozija com a desgraça vendida nos programas e reportagens sensacionalistas, não discute a violência a partir de um ponto de vista estrutural. Com o projeto anticrime e anticorrupção, temos que nos preparar para o aumento das estatísticas de mortes de civis e militares, pois o “excludente de ilicitude” prometido na campanha de Bolsonaro e formulado na proposta de Moro ratifica a opção de tomar a segurança pública pelas ações de confronto ao invés do investimento em inteligência.

 

Folha – Quando passou a faixa presidencial a Lula, Fernando Henrique disse que seu sucessor teria a Segurança Pública como maior desafio. Mas tanto Lula, quanto Dilma, empurraram a questão com a barriga, dizendo várias vezes ser uma questão dos estados. Quando apresentou seu projeto, Moro propôs montar um banco nacional de DNA. E expôs que o Brasil sequer possui um banco nacional de digitais, recurso de investigação que remonta a primeira metade do séc. XX. Qual o peso da omissão dos governos federais passados na questão?

Fernanda – A segurança pública merece ser discutida sem o populismo dos justiceiros, de modo interdisciplinar e a partir da escuta de diferentes setores da sociedade. Enquanto o governo federal se esquivou do debate, contribuiu para a ampliação, por um lado, do crime organizado e da corrupção; e, por outro, fomentou a possível criminalização dos movimentos sociais a partir da lei antiterrorismo. Particularmente, defendo a desmilitarização da polícia, que garantirá aos militares seus direitos como cidadãos e trabalhadores. Como defensora dos direitos humanos, penso que são inadmissíveis as condições degradantes de trabalho enfrentadas pelos policiais, o que muitas vezes repercute nas operações.

Hamilton – Total: a consciência de que o crime na América Latina estava se globalizando já se fazia presente no final do século passado. Petistas, principalmente, mas também tucanos, trataram o tema como se fosse “coisa da direita”. E esta tardou, mas acabou percebendo a oportunidade.

Soffiati – De fato, a segurança não mereceu a devida atenção dos governos passados e está merecendo do atual por ter alcançado alto patamar. Há quem sinta saudades do crime desorganizado. Mas ele alcançou alto grau de organização. Mesmo as esquerdas precisam se aparelhar para combater as grandes organizações criminosas, atualizando os sistemas de combate. O crime organizado tem hoje um caráter empresarial que mostra a fase violenta da economia de marcado.

 

Folha – O primeiro teste de fogo do governo Bolsonaro será a Reforma da Previdência, cuja proposta está sendo concluída pelo ministro da Economia Paulo Guedes, para ser enviado ao Congresso. Em entrevista a Globo News, o ex-deputado federal Delfim Neto disse ser uma questão aritmética, não de desejo. Mas deve enfrentar todos os interesses corporativos do país. Ainda dá para acreditar que “a Previdência é superavitária”, como disse Lula em entrevista à Folha (aqui) em 6 de dezembro de 2017, repercutida por boa parte da mídia nacional?

Soffiati – Não apenas o sistema previdenciário é um grande problema a ser enfrentado. Precisamos considerar que a Previdência é alvo de golpes criminosos. Além do mais, diferentes devem ser tratados como diferentes, conforme sexo e tipo de trabalho. Tanto Ciro Gomes quanto Marina Silva são a favor de uma Reforma na Previdência, mas não igualando todo mundo.

Fernanda – A questão da Previdência tem sido tratada através do filtro ideológico que ora insiste no superávit, ora descreve um cenário caótico de déficit. É fato que a população aumentou a expectativa de vida, assim como houve mudanças estruturais no mundo do trabalho. A reforma é necessária, mas será feita não apenas no enfrentamento da queda de braço dos interesses corporativos. O tipo de reforma também é questão de escolha ideológica. O pensamento liberal vende a ideia de que cada um de nós deve ser um empresário de si mesmo, por isso as empresas não falam mais em trabalhadores, mas em colaboradores. Talvez isso seja válido para o setor de serviços, mas será que tem validade para o contexto da produção industrial?  Não sou especialista no assunto, mas tenho notícias de que a reforma implementada no Chile nos anos 80 criou uma geração de aposentados em condição de miséria e vulnerabilidade.

Hamilton – Depende do recorte, como sempre: se retirarmos a Loas (Lei Orgânica da Assistência Social) e o funcionalismo público do cálculo, o problema diminui muito de tamanho, mas o que fazemos com os beneficiários rurais que não contribuíram e o funcionalismo? O certo é que a Reforma da Previdência virá, na lei ou na marra, com o colapso fiscal do Estado.

 

Folha – Por um lado, as pautas comportamentais de Bolsonaro remontam a Idade Média, quando o Estado se jugava no direito de arbitrar a moral do cidadão. Por outro, a pauta identitária vem sendo criticada até por pensadores progressistas, como o cientista político dos EUA Mark Lilla. Em 2016, alguns dias após a eleição de Trump, ele escreveu (aqui) um artigo de grande repercussão no New York Times, onde falou sobre o “pânico moral em torno das identidades racial, de gênero e sexual, que distorceu sua mensagem, impedindo que este se tornasse uma força unificadora capaz de governar”. Há excessos dos dois lados? Um alimenta o outro?

Hamilton – Sem dúvida, desde o nazifascimo é sabido que a extrema-direita se alimenta das inversões ideológicas da extrema-esquerda para chegar ao poder, com grande respaldo popular. Mas a pauta identitária é só parte da questão; outra muito importante é a incompreensão, pela esquerda e os liberais, do papel das pautas nacionais como unificadoras dos sentimentos populares.

Soffiati – Num mundo polarizado, não tenho dúvida de que um polo alimenta o outro de forma inter-retro-ativa, como explica muito bem Edgar Morin. Apoio as pautas igualitárias, mas considero seus defensores, em grande parte, simplistas demais. Ninguém aprende na escola a ser hétero ou homossexual. Essa a inconsistência da ideologia de gênero que dá força aos conservadores que desejam combatê-la, que, por sua vez, fortalece os seus defensores. O setor retrógrado do governo Bolsonaro, de fato, está ignorando que chegamos a um estágio que pode não agradá-lo, mas parece irreversível.

Fernanda – Mark Lilla defende uma posição de resgate aos valores comuns para a igualdade entre as pessoas e o fomento aos laços de solidariedade que sejam capazes de unir mais do que acentuar as diferenças. De certa forma, ele está problematizando a questão da representatividade. Nas lutas identitárias, quem pode estabelecer o que é ou não “excesso”?

 

Folha – Qual sua expectativa para o governo estadual de Wilson Witzel (PSC), desconhecido ex-juiz federal que, após externar apoio a Bolsonaro, se elegeu em fenômeno sem precedentes na história política fluminense, comparável apenas a Romeu Zema (Novo) em Minas?

Fernanda – A vitória de Witzel está diretamente relacionada ao repúdio do trio Cabral-Pezão-Eduardo Paes. Ele usou esse repúdio ao seu favor e entrou de carona na popularidade do bolsonarismo para propor pautas cuja constitucionalidade é questionável na área de segurança pública. A expectativa é a de aumento dos índices de violência, sobretudo de homicídios, no Estado do Rio. A Polícia que mais mata e que mais morre vai investir pesado no controle social. Quando eu fazia pesquisa na praia de Ipanema via as pessoas usando drogas ilegais livremente nas areias, muitas vezes ao lado de policiais, como foi a minha experiência etnográfica ao acompanhar a Marcha da Maconha na Avenida Vieira Souto. Essa mesma força policial é agente de repressão em outros espaços da cidade. Então, percebo que a criminalização da pobreza continuará a ser a tônica do governo estadual.

Hamilton – A mesma em relação ao governo Bolsonaro: se não se empenhar numa transformação radical da máquina pública, em proveito da população, perderá sua base de apoio.

Soffiati – Para mim, ainda é uma incógnita. Além de desconhecido, ele me pareceu despreparado. Não basta fazer flexão e usar colete de policial para governar. Esperarei que ele mostre mais a sua cara nos quatro anos de mandato que lhe cabem.

 

Folha – Por não ter interferido na eleição do petista André Ceciliano à presidência da Alerj, que teve o apoio do líder governista Márcio Pacheco, do seu PSC, pode se supor que Witzel está trocando o jogo ideológico da galera pelo jogo jogado da política? O mesmo pode acontecer com Bolsonaro?

Soffiati – Sim, pode acontecer a ambos. Um governo pode ter um caráter ideológico dizendo que vai varrer todas as ideologias. Mas governar segundo as regras constitucionais exige uma boa dose de pragmatismo. Até mesmo o risco de alianças espúrias e de atos condenáveis não está afastado dos governantes “moralistas”.

Fernanda – A eleição da presidência da Alerj apenas atesta o esvaziamento das ideologias partidárias em nome da governabilidade ou até mesmo dos interesses menos republicanos e mais comprometidos com as agendas pessoais de poder.

Hamilton – Pode, mas o jogo comporta estas contradições até o ponto dos objetivos centrais em jogo, que é a mudança radical do engajamento público.

 

Folha – Em Campos, não há pesquisa divulgada para dar critério estatístico, mas a impressão geral é de que Rafael Diniz (PPS) não tem mais o mesmo prestígio popular que o elegeu em 2016 no primeiro turno, em todas as zonas eleitorais do município. Analistas avaliam que 2019 será crucial ao prefeito para tentar recuperar sua popularidade para 2020, cuja candidatura à reeleição já anunciou (aqui) em entrevista à Folha. Em seu entender, como isso teria que ser feito?

Hamilton – Ele tem margem administrativa para minorar seu desgaste, com os ajustes que fez na máquina pública, mas a margem política me parece que foi desperdiçada por falta de uma articulação mais ampla e consistente. Rafael perdeu a chance de reencarnar o Muda Campos dos anos 80, uma brecha que será explorada por seus adversários. E tampouco tem como neutralizar a onda conservadora de 2018, pois faltou-lhe ousadia política, de modo que deve enfrentar um cenário eleitoral muito competitivo.

Soffiati – É natural que um governante sofra desgastes ao exercer seu cargo. Não podia ser diferente com Rafael. A população se cansou de oito anos seguidos da família Garotinho e a expulsou do governo elegendo Rafael. A necessidade de se mostrar mais aos eleitores, cobrada por muitos analistas, está sendo atendida. Rafael frequenta mais a mídia, mostrando suas realizações. Se ele quiser ser reeleito, tem de começar sua campanha logo, pois o outro lado está sempre em campanha. Mas a campanha de Rafael tem de apresentar diferenciais.

Fernanda – Rafael venceu menos pelo seu carisma ou propostas que pela oposição à família Garotinho e seus aliados.  Para 2020 terá que cumprir as promessas feitas em 2016 e apresentar propostas viáveis mesmo diante de um futuro comprometido.

 

Folha – O governo Rafael alega que o resultado abaixo da expectativa seria pela dívida (aqui) de R$ 2,4 bilhões deixada pelos Garotinho. Entre ela, a “venda do futuro” de Campos, negociada com a Caixa no apagar das luzes do governo Dilma, em troca da ausência da deputada Clarissa na votação do impeachment, com noticiaram à época (aqui) a Folha e a mídia nacional. Seria isso, ou a inexperiência do prefeito e sua equipe, como alegam seus críticos?

Fernanda – Durante a campanha eleitoral, Rafael Diniz prometeu enfrentar o problema da escassez dos recursos com criatividade e transparência. A gestão Diniz não é populista, mas também não tem conseguido ser popular. Talvez pudesse começar a resolver alguns problemas do município a partir da gestão, que não necessariamente requer dinheiro, mas conhecimento e estratégia. No entanto, isso requer também independência e autonomia que nenhum governante das diferentes esferas administrativas do país detém. Na prática, atender aos pedidos dos grupos de pressão, tais como correligionários, vereadores e empresários financiadores de campanhas, faz das prefeituras do país verdadeiros celeiros de práticas clientelistas que podem minar o tripé da eficácia, eficiência e efetividade das políticas públicas.

Hamilton – A inexperiência sempre cobra seu preço, mas o problema é que Rafael não soube aliar renovação geracional com resgate da tradição renovadora passada e coragem política para inovar, acabando por passar uma imagem de “político tradicional”. Dificilmente um programa de obras e assistência, no atual contexto de crise fiscal, poderá reverter tal imagem.

Soffiati – Sem qualquer sentimento crítico da minha parte, acho sim que Rafael entrou sem experiência no Executivo, inexperiência que se refletiu em grande parte na perplexidade do primeiro momento e na montagem de sua equipe. Sei também que forças externas atuaram para afundar seu governo. Esses fatores fazem parte da política. Experiência se adquire e oposição não se pode exterminar. Por outro lado, é preciso lutar contra essas forças de forma ética. Uma vez superado o problema financeiro, cabe agora atacar os problemas mais prementes do município. A governo de Rafael ainda não deslanchou como se espera.

 

Folha – Outro nome tido como certo na eleição a prefeito de 2020 é o deputado federal Wladimir Garotinho (PRP). Ele chegou (aqui) a remeter a Rafael seu primeiro ofício parlamentar, colocando-se à disposição para ajudar a cidade em Brasília. Enquanto posa de agregador, seu pai, o ex-governador Anthony Garotinho (PRP), usa um sequestro, com informações desmentidas (aqui) pelo fatos, em ilações contra o governo municipal. Dá para crer em Wladimir “bom”, com Garotinho “mau”? O filho seria capaz de superar a grande rejeição que o pai mantém em sua cidade natal?

Soffiati – Os membros velhos do clã Garotinho não devem ser subestimados. Mesmo não ocupando mais o Executivo, eles podem se empenhar no retorno ao governo municipal com sua ala jovem. Clarissa já tem experiência na velha política. Por sua vez, Wladimir cumpriu a formalidade de se oferecer ao governo de Campos em Brasília. Quem garante que não se trata de uma tática política do bom moço? A meu ver, o grande clã Garotinho já está em campanha.

Fernanda – O maniqueísmo na política e na vida é artifício perigoso, pois fomenta paixões e dissemina o ódio. A realidade depende de quem observa. Nenhum político deveria se tornar mito ou ser crucificado. Os afetos devem ser substituídos pela racionalidade, lugar da argumentação e não das vinculações próprias da hereditariedade.

Hamilton – A candidatura de Wladimir é um risco pelo familismo oligárquico, mas os caminhos não estão fechados para um apelo neoconservador na linha do bolsonarismo, dada a plasticidade de Garotinho.

 

Folha – Com o desgaste de Rafael e a rejeição de Garotinho, a eleição a prefeito de Campos estaria aberta a uma terceira via? Especulam-se nomes como os dos deputados estaduais Gil Vianna (PSL) e Rodrigo Bacellar (SD), do ex-candidato a prefeito Caio Vianna (PDT), do empresário Joílson Barcelos e até do reitor do IFF, Jefferson Manhães de Azevedo. Como você pensa? Depois de Witzel e Zema, tudo é possível?

Hamilton – Os personagens são estes e outros, como Roberto Henriques, por exemplo, mas o que importa saber é qual papel eles vão incorporar, e como, na luta eleitoral.

Soffiati – Sim, é possível, mas não provável. Acredito, até prova em contrário, que haverá polarização nas próximas eleições municipais.

Fernanda – Qualquer candidato a prefeito nas próximas eleições terá que enfrentar o problema da saudade do futuro que Campos jamais teve. Passado o período de bonança dos royalties e o desperdício em obras um tanto quanto inúteis e superfaturadas, como são o sambódromo, os arcos do canal Campos-Macaé e até mesmo a reforma da Praça São Salvador, uma possível terceira via terá mais chances de repetir o fenômeno Witzel e Zema quanto mais distante estiver das antigas alianças que fizeram o município permanecer na nostalgia do que nós, munícipes, poderíamos ter em termos de desenvolvimento.

 

Folha – Na mesma entrevista à Folha sobre os dois anos de governo passados e os dois próximos, publicada em 30 de dezembro, Rafael prometeu para 2019 a reabertura do Restaurante Popular, a reinauguração do Hospital São José, instalação do ponto biométrico ao servidor, melhorias no Mercado Municipal e a eleição direta para diretores das escolas municipais, compromisso assumido ainda em campanha. Sobre este último tópico, que avaliação faz do seu colega, o sociólogo Brand Arenari, à frente da secretaria de Educação?

Fernanda – Fomos contemporâneos nos tempos de graduação em Ciências Sociais na Uenf e o Brand sempre foi um colega inteligente, perspicaz e bastante dedicado às suas pesquisas. Imagino que ele enfrente desafios bem maiores na administração pública que na vida acadêmica. Tenho certeza que ele valoriza o fortalecimento dos institutos e dos processos democráticos, de modo que o fim das indicações políticas para direção das escolas será uma iniciativa tão importante quanto o fim da aprovação automática, já implementado. A avaliação do desempenho da gestão está diretamente relacionada à possível melhora dos índices do Ideb dos alunos da rede municipal de ensino. Vamos esperar os próximos resultados.

Hamilton – Num governo marcado pela estreiteza política e a falta de ousadia, creio que nenhum secretário tenha muito espaço para se projetar. Mas eu destacaria em sua secretaria, como em outras, o empenho por fazer as coisas voltarem a funcionar, sem estardalhaço e com responsabilidade, em meio à forte crise fiscal. Quanto aos erros cometidos na sua gestão, e também em outras pastas, eu destacaria o de não ter dado ensejo à nomeação dos concursados que foram chamados pelo governo Rosinha, às portas da eleição, e depois não tiveram suas posses efetivadas pela prefeita. Neste quesito, o governo Rafael perdeu a oportunidade de cumprir uma promessa de campanha, ao mesmo tempo que sinalizava seu compromisso real com a profissionalização da gestão municipal. Que poderia ter se desdobrado, num prazo mais longo, na criação de uma carreira de gestor público municipal, abrindo caminho para o aproveitamento dos quadros formados pelo mestrado de Gestão de Cidades da Ucam e o curso de Administração Pública da Uenf.

Soffiati – Não conheço pessoalmente meu colega Brand Arenari. Entendo que a educação ainda deixa a desejar e que certas promessas devem ser cumpridas. Não gosto de assistencialismo, mas vejo que ele é necessário em caráter provisório, como é o caso da alimentação, do transporte e da educação. Defendo a política “Pelé”: mesmo coma bola no córner do seu campo, Pelé estava de olho no gol adversário. Em política, isto significa planejar o médio e o longo prazos.

 

Página 2 da edição de hoje (10) da Folha

 

Página 3 da edição de hoje (10) da Folha

 

Publicado hoje (10) na Folha da Manhã

 

Este post tem 2 comentários

  1. Acadêmicos da agenda esquerdista. São farinha do mesmo saco. (Trecho excluído pela moderação) Deveriam ficar quetinhos, para ficarem bem na foto.

  2. Em relação ao 3 entrevistados fica claro o viés esquerdistas, porém o cientista político ao meu ver é o que está mais fora da realidade, a professora que é socióloga tenta a todo momento passar um ar de moderada, porém não consegue esconder seu viés radical em certos momentos da entrevista, já o Soffiatti é um homem de centro-esquerda ao contrário dos outros 2 que são de esquerda, um moderado que tem uma visão pragmática e ampla das coisas, porém ao meu ver foi ele que cometeu 2 erros graves nesta entrevista, achar que os liberais não estão sendo pragmáticos e, a outra foi chamar o social democrata do Max Weber e o socialista do Émile Durkheim de direitistas, o único que ele acertou foi o sociólogo francês Raymond Aron que era de direita, porém dos 3 citados pelo Soffiatti é justamente o Raymond Aron o único que não é estudado na academia.
    .
    Quem conhece e já estudou com o professor Ricardo Vélez Rodríguez diz que ele é muito bom, e o livro dele sobre a história da filosofia brasileira é considerado um clássico, porém mesmo sendo naturalizado a 48 anos, casado a anos com uma brasileira, ter formado uma penca de brasileiros, vejo que tem um certo preconceito em relação a pessoa dele, pois justamente ele como um estrangeiro que ama e quer o melhor para o Brasil, conhece a nossa história como poucos, o que deixa gente como o Leonardo Boff e o Marco Antônio Villa babando de ódio e, fazendo criticas a ele cheias de xenofobia enrustida. E a crítica que ele fez a educação dos brasileiros fora do país, infelizmente não é uma novidade.

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