Opiniões

Tragédias em série marcam início de 2019 no Brasil, Campos e região

 

 

 

Tragédias nacionais

Os primeiros dias de 2019 são de tragédia. O país ainda nem acabou de contar os mortos pelo rompimento, em 25 de janeiro, da barragem de Brumadinho (MG) — até ontem, eram 165, com 160 desaparecidos. Nem esqueceu dos seis mortos pela tempestade sobre a cidade do Rio na última quarta (06). Ou deixou de chorar pelos 10 adolescentes mortos, enquanto dormiam e sonhavam em se tornar astros de futebol, no incêndio no CT do Flamengo na madrugada de sexta (08). Cronistas de todas essas tragédias nacionais, os jornalistas sentiram forte a última, que ontem levou uma referência da profissão: morreu, aos 66 anos, Ricardo Boechat.

 

Lamento

Boechat morreu no início da tarde de ontem, quando o helicóptero em que voltava de Campinas tentou um pouso forçado na Rodovia Anhanguera, em São Paulo. Após a colisão com um caminhão, a aeronave teve a cabine incendiada, matando o jornalista e o piloto Ronaldo Quattrucci. Numa tragédia dentro da outra, Ronaldo era irmão do também piloto Rogério Quattrucci, que perdera a vida num acidente de helicóptero em 1998. Vinte e um ano depois, ontem até o presidente Jair Bolsonaro (PSL), internado no Hospital Albert Einstein, fez uma pausa em suas rusgas com a imprensa para lamentar pelo Twitter a morte do jornalista.

 

Tragédia regional

As tragédias têm também se repetido em Campos e na região. Ontem, subiu para quatro o número de mortos num acidente com um ônibus da 1001, que saiu de Campos no último domingo (10) para cair numa ribanceira em Natividade. Seu destino era Governador Valadares (MG), mas despencou com seus 25 passageiros pela encosta da RJ 220, após colidir com um carro. Três dos quatro mortos haviam sido identificados: Altair de Souza Rangel, 68 anos; Alef Carvalho de Oliveira, 25; e Renata Barreto Barros Pereira, 47. Os três eram mineiros, mas a mulher residia em Macaé. Entre os feridos, sete menores, incluindo um bebê de oito meses.

 

Tragédia cruel

O ano em Campos também começou com consternação geral, após a morte trágica e aparentemente cruel de outro bebê. Com apenas 28 dias de nascido, Dione Valentin morreu em 22 de janeiro, três dias depois de ser internado no Hospital Ferreira Machado. Numa casa de veraneio do Farol, a criança teria sido atirada na cama e agredida com pelo menos cinco socos pelo próprio pai, Lucas do Espírito Santo, de 21 anos. O motivo? Ele teria sido golfado pelo filho. A mãe, Jéssica Silva Valentim, mudou a versão inicial de queda, confessando depois a agressão do companheiro, que seria indicada pelo exame do legista. O pai foi preso.

 

Mais perdas

Entre Campos e São João da Barra, outras tragédias aconteceram entre domingo e segunda. Em Atafona, o jovem Wellington Condeixa Ferreira, de 22, morreu após colidir de moto contra um poste, na madrugada de ontem. No dia anterior, no bairro campista do Pq. Santos Dumont, Gilson Gomes da Silva, de 68, havia morrido ao cair em uma cacimba de 20 metros. Seu filho relatou que o pai estava ouvindo um louvor no momento do acidente. Também no domingo, Campos perdeu o radialista Antônio Vasconcellos, de 89, mais conhecido como o “Marquês da Madrugada”. Colega de lida de Boechat, ele foi sepultado ontem no Cemitério do Caju.

 

Jornalista completo

Boechat ganhou três vezes o Prêmio Esso de Jornalismo. E foi o único a ganhar o Prêmio Comunique-se em três categorias diferentes: Âncora de Rádio, Colunista de Notícia e Âncora de TV. Era completo na lida de levar informação: fosse a ouvintes, leitores ou telespectadores. Filho de diplomata, nasceu em Buenos Aires e se criou em Niterói. Começou em jornal nos anos 1970, passando por O Globo, Jornal do Brasil, O Estado de S. Paulo e O Dia. Em TV, teve longa passagem no jornalismo da Rede Globo, além de SBT e Band, onde era âncora do principal telejornal. Era também apresentador da rádio BandNews e colunista da revista Isto É.

 

Fé e vida

Conhecido pela independência e contundência de suas críticas, Boechat noticiou muitas tragédias ao longo dos seus 49 anos de jornalismo. Mas era também conhecido pelo jeito brincalhão, cuja saudade estava ontem estampada na face de todos seus atuais colegas que aplaudiram o exemplo de vida, ao final do Jornal da Band. Foi o mesmo sentimento em tantas outras redações, pelas quais passou ou apenas inspirou. E ontem noticiaram a sua morte. Pop e multimídia, Boechat foi o apresentador do último show do grupo O Rappa, cujos versos em sua voz marcante foram ontem lembrados: “Para quem tem fé/ A vida nunca tem fim”.

 

Publicado hoje (12) na Folha da Manhã

 

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