Opiniões

Entre muitos erros, mas também acertos, Lula volta à opinião pública

 

Lula na entresvista do dia 26 à Folha de São Paulo e ao El País (Reprodução)

 

Só hoje, com algum tempo, assisti à entrevista de Lula com os jornalistas Mônica Bergamo (Folha SP) e Florestan Fernandes Júnior (El País), gravada na última sexta (26). Para quem esperava que o ex-presidente estivesse mais humilde após mais de um ano preso na Superintendência da PF de Curitiba, ele exibiu a mesma megalomania de sempre.

Nem tanto por insistir da teoria conspiratória de que foi condenado e preso no caso do triplex do Guarujá por um conluio do promotor Dallagnol, do ex-juiz Moro, de três desembargadores do TRF-4, de cinco ministros do STJ e até do Departamento de Justiça dos EUA. Até porque talvez não lhe reste outra saída entre o delírio e a admissão de culpa, a aposta no primeiro era esperada. Nem que seja para ser balida pelos fieis que restaram.

Lula também insistiu em não fazer autocrítica pelos muitos erros e “mal feitos” do PT, nem pela escolha desastrosa de Dilma para sucedê-lo. E não teve constrangimento ao mais uma vez se ufanar como o “maior presidente da história desse país”. Também foi ácido com adversários políticos, como o também ex-presidente FHC, com quem cultiva uma relação recíproca de amor e ódio — que “se irmanam na fogueira das paixões” reduzida a cinzas pela ducha de água fria do bolsonarismo.

Sobre Ciro, não sem razão, o líder petista observou que o cearense nao sabe conviver com o contraditório. Mas exibiu o mesmo defeito ao ser demasiadamente cruel na avaliação da sua ex-ministra Marina Silva. Lula deixou escorrer pelo canto da boca a mesma bílis que ele e Dilma destilaram em 2014 contra a ex-petista, quando esta quase pôs fim à bipolaridade entre PT e PSDB na eleição presidencial daquele ano.

Lula também lembrou a falta à política nacional que fazem figuras como Ulysses Guimarães, Leonel Brizola e Miguel Arraes. E se nisso não falou nenhuma mentira, foi mais uma vez hipócrita ao não lembrar que foi ele quem entregou a cabeça da petista Marília Arraes (neta do velho Miguel) ao PSB de Pernambuco, só para isolar Ciro na última eleição presidencial.

Sobre política internacional, Lula também insistiu em velhos erros, personificados nos elogios à ressureta argentina Cristina Kirchner e ao falecido venezuelano Hugo Chávez. E disse ser vergonhoso o reconhecimento que o Brasil deu à liderança de Juan Guaidó na Venezuela de Nicolás Maduro, quando o mesmo foi feito pelo Parlamento da Europa. Pregou que a união dos governos do PT com países da América Latina e da África seria para reforçar posição no cenário internacional, não para exportar a rede de corrupção da Odebrecht.

Lula fez também duas análises corretas. Mas que condenam suas conclusões. Disse que é preciso “crediblidade” para liderar o país. E, pelo menos em curto prazo, é difícil crer que ele ou o PT voltem a tê-la para além dos convertidos. Observou também como mudou o perfil do trabalhador, desde que era liderança sindical nos anos 1980. Mas, mesmo assim, insistiu em pregar contra a necessidade de mudança nas regras das relações de trabalho, incluindo a reforma da Previdência.

Por outro lado, o ex-presidente foi preciso ao constatar que, com a ascensão de Jair Bolsonaro à presidência — e seus três filhos não eleitos ao cargo —, o Brasil passou a ser governado “por um bando de malucos”. Como também não errou ao sinalizar dois pesos e duas medidas, quando a Polícia Federal entra na casa de um ex-presidente, como fez na dele, mas não foi acionada para buscar Fabrício Queiroz, depois que o ex-assessor de Flávio Bolsonaro ligado às milícias cariocas se negou a depor no MP sobre suspeitas de corrupção.

Com todos os seus erros, mas também por seus acertos, talvez não faça mal ter Lula de volta à opinião pública do país. Ainda que sua aguardada entrevista tenha dado muito menos repercussão que um tuíte de Bolsonaro sobre “golden shower” no carnaval.

 

Se ainda não viu, ou quiser rever, confira abaixo:

 

 

 

 

Este post tem 2 comentários

  1. Bem, ainda bem que o blog se chama “Opiniões”. Contra tais manifestações não se pode insurgir, ou concordamos com ela, ou discordamos.
    Lula está onde deveria está, sendo o que sempre foi. Estranho seria de dono de jornal lhe fosse partidário (não no sentido literal, é bom explicar)!

    Megalomania?
    Eu também não resistiria a esse pecado capital se estivesse preso, e mesmo assim somasse mais intenções de votos que detinha quando solto, como ele mesmo disse.

    Maior presidente de toda História?
    Bem, vamos dizer que ele tem poucos adversários, citaria: Vargas, JK, e, e, e…acabou a lista.
    Então ele pode até não ser o maior de todos, mas com certeza seu legado não o afasta dos outros dois, tanto pelos feitos, quanto pela oposição que enfrentou de uma versão atualizada da UDN, e enfim por sua crença de que dá para acomodar interesses de empresários e trabalhadores (ou o que restou deles).
    Só uma correção: Lula nem JK recorreram a violência como arma política (pelo menos não de forma explícita), o que os tornam maiores que o caudilho gaúcho.
    Por outro lado, talvez aí resida a fórmula da longevidade dramática de Vargas na vida brasileira: se ficou mais tempo, saiu no caixão do Catete, como prometera.

    Toda vez que houver um presidente capaz de imaginar ou tentar diminuir a abissal diferença entre a Casa Grande e a Senzala, estará ele entre os maiores, mas no Brasil, como dissemos, pouco tiveram essa coragem ou inclinação política.

    PS: Agora me explique, se o jornalista insiste em medir a repercussão do que fala Lula pelos soluços dos gadgets e algoritmos, será por quê essa entrevista foi impedida (inclusive com alusão a seus efeitos no processo eleitoral na peça judicial que a interditou) e só depois de sete meses das eleições (atenção, a pergunta é retórica)?

    1. Caro Felipe Silve,

      Sim, o blog se chama “Opiniões” por se pretender ser um espaço aberto às opiniões. Mesmo qd em enventual discordância do blogueiro, como parece ser sua constante em td que traga alguma crítica ao lulopetismo, acusado pela própria esquerda da sua incapacidade de autocrítica. Mas como há os fatos para além das opiniões, fique com as emitidas pelo próprio ex-presidente Lula, em entrevista exclusiva ao Grupo Folha, feita por mim em 6 de dezembro de 2017 e rapidamente repercutida em boa parte da mídia nacional:

      https://www.youtube.com/watch?time_continue=2&v=mIv1vbrAEl4

      Abç e grato pela participação!

      Aluysio

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