Opiniões

Com Rafael e Wladimir, Igreja Católica nivela o debate político de Campos para 2020

 

 

Dom Roberto Ferrería Paz abriu e fechou o encontro com lideranças políticas de Campos na Igreja do Saco (Foto: Genilson Pessanha – Folha da Manhã)

 

Igreja nivela debate político

Se nas rodas de conversa, nas redes sociais e na imprensa, a eleição a prefeito de Campos em 2020 já começou, ontem foi um dia em que a Igreja Católica chamou para si a responsabilidade de nivelar o debate por cima. Como a coluna anunciou, várias lideranças políticas da região foram convidadas pelo bispo Dom Roberto Ferrería Paz para um encontro às 10h da manhã na Igreja Nossa Senhora do Rosário, a popular Igreja do Saco. Se nem todos puderam comparecer, os dois nomes que despontam como mais fortes candidatos ao governo da cidade estiveram presentes: o prefeito Rafael Diniz (PPS) e o deputado federal Wladimir Garotinho (PSD).

 

“Valores, não conchavos”

Primeiro a usar a palavra, Dom Roberto advertiu: “A política não pode se resumir ao poder pelo poder, mas tem que ser usada para servir à população”. Ele ressaltou a “importância da palavra de Deus, que deve se aproximar da cidade, reconhecendo sua pluralidade”. E disse que “a Constituição de 1988 é cidadã porque tem nela os valores cristãos do diálogo e da inclusão”. Sobre 2020, ressalvou que as discussões têm que se dar “entre valores, não conchavos”, criticando o que chamou de “publicidade do medo”, lançada na política do mundo por Steve Bannon, estrategista da campanha vitoriosa de Donald Trump a presidente dos EUA em 2016.

 

Rafael

Após Dom Roberto, Rafael Diniz fez uso da palavra. O prefeito admitiu que a cidade precisa avançar mais, mas falou do que seu governo já fez. Na educação, destacou “a primeira escola em tempo integral, cuidando dos filhos de Campos com quatro refeições diárias e qualidade no ensino, com reforço nas aulas de português e matemática”. E lembrou que as Fundações Municipais dos Esportes e da Criança atendem mais de 36 mil jovens. Ressaltou que o “momento da fartura (dos royalties do petróleo) já passou” e que “a cidade e a região não podem mais ser usados como trampolim, com objetivos eleitoreiros e irresponsáveis”.

 

Wladimir

Depois de Rafael, foi a vez de Wladimir. Se o uso da cidade como “trampolim eleitoreiro”, lembrado pelo prefeito, pareceu uma referência direta ao ex-governador Anthony Garotinho (sem partido), seu filho preferiu não vestir a carapuça. O deputado disse que o momento não era de discussão política, mas de união na luta contra a desigualdade social, cujo acirramento no país atribuiu ao desemprego: “O desenvolvimento econômico gera empregos. E hoje temos até engenheiros desempregados trabalhando como motoristas de Uber”. Conciso em sua fala, ele disse estar ali “mais para ouvir e aprender”.

 

Os demais 

Após Wladimir, quem falou foi o vice-prefeito de São João da Barra, Alexandre Rosa (PRB), representando a prefeita Carla Machado (PP). Ressaltou a importância do Porto do Açu para a economia da região e a mudança no comportamento do eleitor, demonstrado no pleito de 2018. Depois dele, falaram os vereadores Eduardo Crespo (PR) e Josiane Morumbi (PRP), o odontólogo Alexandre Buchaul, dois representantes do Partido Novo e, por último, outros dois, do movimento Direita Campos. Também presentes, os vereadores Jairinho É Show (PTC) e Fred Machado (PPS), presidente do Legislativo goitacá, não fizeram uso da palavra.

 

Pior analfabeto

Dom Roberto voltou a falar para encerrar o encontro. Clérigo considerado progressista, ele não deixou que a direita radical desse a última palavra na manhã de ontem. No que poderia servir de advertência a alguns dos presentes, como a todos aqueles que hoje planejam protestar pelo país em apoio ao governo Jair Bolsonaro (PSL), o bispo de Campos lembrou: “Há dois tipos de analfabetos, os políticos, dos quais nos fala (o dramaturgo alemão) Bertolt Bercht; e os religiosos, que muitas vezes usam o nome de Deus em vão. A união dos dois produz o pior tipo: o analfabeto político que pensa poder usar a religião”.

 

Pecados e virtude

O Estado é laico. Mas com todos os seus pecados ao longo da história, das Cruzadas à venda de indulgências que gerou o protestantismo, da omissão contra o nazifascismo na II Guerra aos recentes casos de pedofilia, a Igreja Católica mostra a importância dos seus 2 mil anos de tradição no debate político de Campos. Dom Roberto lembrou que se, entre os três pilares da Revolução Francesa, a igualdade é mais cara à esquerda, e a liberdade à direita, o maior valor do cristão é a fraternidade. Conservador que marcou a cidade em nove mandatos de vereador, cujo busto está diante da Igreja do Saco, o padre Antonio Ribeiro do Rosário (1909/2004) aprovaria.

 

Publicado hoje (26) na Folha da Manhã

 

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