Opiniões

Polemista, velho rockeiro analisa “domingo histórico” em defesa do governo Bolsonaro

 

Lobão em protesto pelo impeachment de Dilma na av. Paulista, em 2014 (Foto: Daniel Teixeira – Estadão Conteúdo)

 

Lobão é e sempre foi um polemista. Mas, ao lado de Cazuza (1958/1990) e Renato Russo (1960/1996), talvez seja o grande compositor do BRock, movimento que deu a trilha sonora dos hoje míticos anos 1980. Tão bom letrista quanto seus dois pares vítimas do HIV, sobreviveu a eles para se tornar um músico muito superior, capaz de tocar todos os instrumentos dos seus discos.

 

Amigos e parceiros eventuais, Cazuza e Lobão nos anos 1980

 

Autobiografia escrita a quatro mãos com o jornalista Cláudio Tognolli

Autodidata de grande erudição, nos últimos anos se revelou também um escritor de sucesso. Seu primeiro livro foi um imediato bestseller. A autobiografia “50 Anos a Mil”, lançado em 2010, é leitura prazerosa. E necessária para se compreender a década de 1980, transição da ditadura militar à Nova República, pelos olhos de quem à época era jovem e transgressor.

Seu segundo livro “Manifesto no Nada na Terra”, de 2013, é fruto de outra caraterística da personalidade multifacetada de Lobão: sua enorme pretensão. Busca desmontar não só o modernismo brasileiro a partir do manifesto de 1922, como tudo que veio de lá para cá na cultura do Brasil. E centra fogo nos ícones da MPB Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque, por quem o rockeiro desenvolveu uma obsessão edipiana, temperada por um nítido e justificado complexo de inferioridade.

Não li seu terceiro livro, “Em Busca do Rigor e da Misercórdia”, de 2015. E achei o quarto, “Guia Politicamente Incorreto dos Anos 80 Pelo Rock”, de 2017, uma colagem oportunista das suas duas primeiras obras literárias. Mas por músicas, livros e lives nas redes sociais, Lobão continua sendo referência a uma juventude de classe média do país, que só tinha vivido a partir dos governos do PT e, em reação, foi a primeira a aderir em peso à candidatura vitoriosa de Jair Bolsonaro (PSL) em 2018.

 

Nos anos 1980, íntimo de José Dirceu e Lula

 

Recentemente, Lobão rompeu com o dublê de astrólgo e filósofo Olavo de Carvalho, de quem se aproximara em sua migração de militante petista a antipetista ferrenho. Não sem razão, o músico classificou como “sórdido” o ataque do guru da família presidencial ao general Eduardo Villas Bôas. O ex-comandante do Exército Brasileiro, atual assessor do GSI no governo federal e portador de doença degenerativa foi chamado por Olavo de “doente preso a uma cadeira de rodas”.

 

 

Lobão advertiu que o governo Bolsonaro iria “ruir” se continuasse sob a tutela olavete. E rompeu ruidasamente com o próprio presidente: “não tem a menor capacidade intelectual e emocional para poder gerir o Brasil”. O músico se juntou à parte cada vez maior da direita brasileira que chega à mesma conclusão: o economista Delfim Neto, o filósofo Luiz Felipe Pondé, o historiador Marco Antonio Villa, o empresário Flávio Rocha e os jornalistas Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi, Rachel Sheherazade, Felipe Moura e Carlos Andreazza.

Como esses e alguns outros, Lobão foi severamente crítico às manifestações de ontem em defesa do governo Bolsonaro. Contra elas também se posisionaram Janaína Paschoal (PSL), autora do pedido de impeachment de Dilma e deputada estadual mais votada do Brasil, e o MBL do deputado federal Kim Kataguiri (DEM). E qualquer um que classificar algum desses como esquerdista, não passa no psicotécnico.

Sem papas na língua, Lobão analisou em vídeo o ovo de serpente que ajudou a chocar, eclodido nas manifestações de ontem contra o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal (STF). E o que elas, em seu entender, apontam ao amanhã. Mesmo a quem não gosta do velho rockeiro — pelos motivos certos e, sobretudo, pelos errados —, vale a pena conferir:

 

 

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