Opiniões

Prisão domiciliar de Feijó e consequências dos protestos em defesa do governo Bolsonaro

 

 

Feijó em prisão domiciliar

Natural de Santa Maria Madalena, Paulo Feijó foi vereador e presidente da Câmara de Campos, antes de se eleger cinco vezes deputado federal. E teve em Brasília a atuação que mais retorno deu em emendas parlamentares aos municípios da região, desde a morte do ex-deputado federal Alair Ferreira, em 1987. Ontem, foi anunciado que Feijó teve sua condenação de 12 anos e meio de prisão convertida em prisão domiciliar, por conta de um câncer. Ele foi sentenciado em 2017 pelo Supremo Tribunal Federal (STF), pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, no caso conhecido como “máfia dos sanguessugas”, revelado em 2006.

 

Livres, leves e soltos

No estado democrático de direito não se discute decisão judicial, sobretudo julgada em última instância. Feijó cumprirá a pena na sua casa, em Campos. Usará tornozeleira eletrônica e só poderá sair para tratar da saúde. No país em que o ex-presidente Lula está preso há mais de um ano, condenado pelos mesmos crimes de Feijó, e que o ex-presidente Michel Temer já foi preso duas vezes, antes mesmo de ser condenado, o que muitos questionam são os aparentes dois pesos e duas medidas. Estão aí o ex-governador Anthony Garotinho, o deputado federal Aécio Neves e o senador Renan Calheiros, livres, leves e soltos, para suscitar as dúvidas.

 

Brasil de Bolsonaro (I)

Desde domingo (26), o principal assunto do país foram os protestos daquele dia em defesa do governo Jair Bolsonaro (PSL). Campos não foi exceção, com manifestantes saindo da Igreja Nossa Senhora do Rosário até a praça São Salvador. Segundo os organizadores, foram 400 pessoas. No dia 15 a cidade tinha registrado outro protesto, contra os cortes do governo federal na educação pública, que também se deu em todo o país. Mas, além de terem errado ao fecharem a av. Alberto Lamego em frente à Uenf, os organizadores da manifestação de oposição falharam ao não contabilizar quantos pessoas as integraram em Campos.

 

Brasil de Bolsonaro (II)

Na conta nacional, as manifestações a favor do governo perderam: foram registradas em 156 cidades, contra as 222 contra o corte na educação. Mas, embora criticados dentro da própria direita brasileira, os protestos de domingo estiveram longe de ser um fracasso. Após suas primeiras convocações nas redes sociais terem sido feitas com ameaças de invasão do Congresso e do STF, a pauta foi corrigida para a defesa da reforma da Previdência do ministro da Economia Paulo Guedes e do projeto anticrime e anticorrupção do ministro da Justiça Sérgio Moro. Ambas foram democraticamente encaminhadas pelo governo à Câmara Federal.

 

Brasil de Bolsonaro (III)

Embora uma minoria tenha insistido no domingo em propor o fechamento do Congresso e do STF, o que é antidemocrático e inconstitucional, o fato de uma reforma da Previdência ter conquistado tanto apoio popular nas ruas, é fato inédito na história do Brasil. E raro em todo o mundo, já que sempre é feita sobre a perda de direitos. Outra novidade foi a troca dos alvos dos bolsonaristas. Nas ruas de domingo, Lula e o PT foram substituídos pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), e o Centrão, que reúne cinco partidos e cerca de 170 deputados. Após os protestos, Bolsonaro chegou a dizer que o Centrão virou “palavrão”.

 

Brasil de Bolsonaro (IV)

As manifestações de domingo conseguiram êxito em adesão popular, quando todas as pesquisas indicam que o governo perde popularidade como nenhum outro na história da redemocratização do país. Mas podem gerar um efeito reverso, ainda que retardado. O puxão de orelhas das ruas pode fazer com que a Câmara apresse a votação da reforma da Previdência. Mas, como já planejava, deve continuar a fazê-lo aos seus moldes, não do governo, engatando na sequência a sua própria proposta de reforma tributária, no que já vem sendo chamado da instalação de um “parlamentarismo branco” no Brasil.

 

Brasil de Bolsonaro (V)

Após as reformas da Previdência e tributária, tudo vai depender da resposta da economia. E de questões como as investigações dos fortes indícios de lavagem de dinheiro, fraude fiscal e “rachadinha” pelo senador Flávio Bolsonaro (PSL). Bem como da ligação da família presidencial com as milícias fluminenses. Em apenas cinco meses, o tempo parece acuar o presidente, que recorreu às ruas para ganhar fôlego. Mas nada indica que afetará quem controla a pauta e 170 votos da Câmara. No passado, três presidentes tentaram governar sobre o Congresso: Jânio Quadros renunciou, Fernando Collor e Dilma Rousseff sofreram impeachment.

 

Publicado hoje (29) na Folha da Manhã

 

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