Opiniões

Crônica do domingo — Lava Jato, Brasil e Venezuela na mesa do boteco

 

 

 

— Já viu a nova pesquisa da XP Investimentos? Saiu hoje, em pleno sabadão, e os bolsonaristas comemoraram! — abriu o debate Marcelo, em meio à primeira talagada de cerveja.

— Comemoraram o quê? Que, após as passeatas em seu apoio, Bolsonaro estancou sua sangria de popularidade e continua com 35% de ruim e péssimo?

— Deixa de ser cínico, Aníbal. Você sabe do que eu estou falando. Mesmo depois que a Veja comprou as revelações do marido do deputado do Psol sobre as conversas do Moro com o Dallagnol, a pesquisa mostrou que 43% da população acham que a Lava Jato não cometeu excessos no combate à corrupção.

— Não vou rebaixar nosso sábado ao nível das redes sociais, se não choca a cerveja. Mas cínico é você! Ou cínico, ou não sabe ler nem calendário. A pesquisa da XP foi feita entre segunda e quarta. E a Veja só divulgou a matéria na sexta.

— Taôkei! E você acha que mudaria alguma coisa?

—  Talvez pouco ou nada. De qualquer maneira, fico entre os 33% que acham que a Lava Jato cometeu excessos e algumas de suas decisões devem ser revistas. Mas não é essa a questão.

— E qual é? Ver a petezada comemorando matéria da Veja? Como nos bons tempos em que os dois foram “conjes” no impeachment de Collor?

— A atitude do PT é que é cínica. E está longe de ser novidade. Mas a questão é a seguinte: a Lava Jato que hoje se apega a esses 44%, como afogado a uma tábua, já deve ter percebido que se trata da madeira que sobrou do veleiro dos 86% de apoio nas pesquisas de setembro de 2018, no mês anterior à eleição. Que já não era mais o encouraçado dos 96% entre 2016 e 2017. O apoio popular à Lava Jato está fazendo água. Só não vê, quem não quer.

— Pode até ser. Mas eu fico nos 15% da pesquisa fresquinha, que acham que a Lava Jato cometeu excessos, mas o resultado valeu a pena. Ou você vai acreditar nessa balela de que a operação foi parida pelo interesse geopolítico dos EUA, depois da descoberta do Pré-Sal?

— Nisso só acredita quem teve a alma lavada pelo documentário “Democracia em Vertigem”.

— Isso foi filmado pela neta do fundador da Andrade e Gutierrez para a Netflix fazer uma compensação de mercado com a esquerda festiva pela série “O Mecanismo”.

— Pois é. Eu tenho noção do ridículo. A Lava Jato nasceu por acaso, de uma investigação sobre tráfico de drogas que tinha dinheiro lavado pelo doleiro Alberto Youssef. Ele já era velho conhecido do Moro no caso Banestado e estava até o pescoço no esquema de corrupção bilionário da Petrobras nos governos do PT. Pelo qual deu uma Ranger Rover de R$ 250 mil de presente ao Paulo Roberto Costa, que já tinha sido até superintendente da estatal na Bacia de Campos. Uma coisa levou à outra e deu no que deu.

 

 

— Então você ainda não entrou na galera do Lula Livre? — indagou Marcelo, em meio a risos umedecidos por outro gole de cerveja.

— Não tenho dúvida de que Lula é culpado pela maioria dos crimes pelos quais foi condenado e ainda será julgado. Como são Eduardo Cunha, Sérgio Cabral, Renan Calheiros, Aécio Neves, ou Garotinho em Campos, que poderia dar aula a muita gente de como se livrar da cana dura. E sabe o que isso quer dizer?

 

 

— Que você ainda não entrou na teoria freudiana da negação?

— Que é só a minha opinião. Como o sujeito ali, da mesa ao lado, pode ter outra. Inclusive de que eu ou você também estamos no esquema. Mesmo que ele pregue moralidade enquanto emplaca o carro no Espírito Santo. O mesmo que para em fila dupla para deixar o filho na escola. No estado democrático de direito, o que faz a diferença entre a suspeita e a condenação é o que se pode provar em juízo. Como o suspeito será investigado e julgado. Nisso, parece claro que Moro e Dallagnol ultrapassaram vários limites éticos e legais.

 

 

— É. Pode ser que o Moro tenha errado em aceitar ser ministro da Justiça do Bolsonaro.

— Você ainda tem alguma dúvida? Foi um erro maior do que o Lula cometeu ao escolher Dilma como sua sucessora, depois que Dirceu e Palocci caíram de podre, para ela quebrar o país. Ou da esquerda brasileira, hoje em orgasmos múltiplos com a Vaza Jato do Greenwald, em seus abraços de afogado com os dois ex-presidentes do PT.

— Não é só isso. Ainda que o Moro tenha cometido erros, chamar ele de “juiz ladrão”, como aquele outro deputado do Psol, enquanto se acredita que Lula é “a alma mais honesta do Brasil”, é o poste mijando no cachorro.

 

 

— E se for um poste em “golden shower” sobre outro poste? Prisão de Lula à parte, Moro agiu de maneira descaradamente política quando fez revelação seletiva da delação de Palocci a seis dias do primeiro turno da eleição presidencial de 2018. Como o MP já tinha recusado aquela delação, desconsiderada pelo próprio Moro no julgamento, não dá para negar o objetivo de atingir a candidatura do Haddad. Depois ele aceita do adversário vencedor um ministério?

— Isso são águas passadas.

 

 

— Mas entraram no casco da Lava Jato e reduziram sua popularidade em mais da metade. Isso enquanto o Greenwald aponta mais torpedos, já com a Folha de São Paulo e a Veja na esquadra. Essas são as águas perigosas de hoje, nas quais Moro vazou a Bolsonaro o inquérito da PF sobre os laranjas do PSL, mesmo sob sigilo na Justiça Eleitoral de Minas Gerais. E, como ministro, aceitou a determinação presidencial para que outros partidos sejam investigados, numa clara tentativa de usar a PF como polícia de governo, não de Estado.

— Quem disse isso? A Intercept, o PT ou o Psol?

— Foi o próprio Bolsonaro, no final do mês passado, quando estava no Japão. Ele está fazendo com o Moro o que o PT queria que Dilma obrigasse o Cardozão a fazer no mesmo ministério da Justiça contra a Lava Jato. E, com todos seus muitos defeitos, ela não fez.

— Vai defender agora a Dilma?

 

 

— Defendo que o Brasil conseguiu eleger e reeleger uma incapaz de esquerda presidente, para voltar às urnas e eleger um incapaz de direita. E não vou negar os fatos. Eles indicam que o risco do Brasil virar Venezuela, com o domínio de um governante autoritário e populista sobre as instituições, existe nas duas extremas. Sobretudo naquela capaz de defender até o trabalho infantil! — advertiu Aníbal, antes do gole mais amargo de cerveja.

 

Publicado hoje (07) na Folha da Manhã

 

Este post tem 2 comentários

  1. É o resumo da discussão na “minha mesa de bar” ontem!
    Até os mais ponderados estão refletindo: A política tem uma ética própria, que não coincide com a ética cristã.

  2. Ética? Isso não está relacionado a lava vaza jato.

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