Opiniões

“Era uma vez em… Hollywood” — As feministas não vão gostar, mas… é filmaço!

 

 

Ao centro, Tarantino uniu pela primeira vez em um filme os dois maiores galãs de Hollywood na atualidade, Brad Pitt e Leonardo Di Caprio

“Era uma vez em… Hollywood” — Logo após assistir a “Cães de Aluguel” (1992), disse com muita convicção a meu pai, também cinéfilo, a quem mostraria o filme, ainda no antigo VHS: “o cinema agora se divide em antes e depois de Quentin Tarantino”. Logo na cena inicial, sua assinatura: a câmera circula sobre os bandidos de terno e gravata negros, à exceção do chefe da quadrilha, sentados na mesa de uma lanchonete. Enquanto o próprio Tarantino faz dublê de ator ao explanar a teoria do diretor e roteirista sobre a música “Like a Virgin”, de Madonna. Pela tese, como pelo fato das mulheres quase não aparecerem no filme — estreia mais impactante de um diretor desde “Cidadão Kane” (1941), de Orson Welles —, Tarantino foi acusado de machista. A pecha é reforçada por seu novo filme, “Era Uma Vez em… Hollywood”. Estreou na última quinta (15) no Brasil, incluindo Campos, na sala 5 do Kinoplex, no Shopping Av. 28.

 

 

O segredo da genialidade de Tarantino reside no fato dele dialogar abertamente com tudo que veio antes no cinema. E, ainda assim, fazer algo absolutamente original. É mais ou menos o que Aristóteles de Estagira fez na Grécia Antiga, ao enciclopedizar a filosofia que veio antes dele para determinar a que veio depois. Guardadas, óbvio, as devidas proporções. Mas nem tanto, levado em conta que Tarantino é nome derivado de Taranto. A cidade no salto da bota italiana foi colônia fundada por Esparta, antes de Roma se tornar Roma, quando o sul da Itália era conhecido como Magna Grécia.

 

 

Com herança genética greco-romana e o fenótipo de um atendente de vídeo-locadora de Los Angeles que realizou o sonho de todo cinéfilo, ao se tornar roteirista e diretor de cinema, Tarantino reagiu à pecha de machista em seu terceiro filme, “Jackie Brown” (1997). O segundo foi o também revolucionário “Pulp Fiction — Tempo de Violência” (1994), com que ganhou a Palma de Ouro em Cannes e o Oscar, por melhor roteiro original.

 

 

“Jackie Brown” foi protagonizado pela personagem título, interpretada por Pam Grier, estrela esquecida do blaxploitation — cinema negro independente dos EUA nos anos 1970 — que o diretor resgatou do ostracismo. Como fizera com John Travolta em “Pulp Fiction”. Antes dele, profeticamente, Pam tinha sido tema de um dos muitos diálogos marcantes de “Cães de Aluguel”.

 

“Cães de aluguel”, que Tarantino escreveu e dirigiu em 1992, foi o maior filme de estreia de um cineasta desde “Cidadão Kane” (1941), de Orson Welles

 

Além da explosão de Tarantino, os anos 1990 também marcariam a fundação das ações afirmativas na política de cotas dos governos Bill Clinton. Desde lá, sempre foi difícil não tomar benção e agradar ao “politicamente correto”. Exemplo disso, o diretor branco de “Jackie Brown” foi acusado pelo colega negro Spike Lee de “apropriação cultural”. Ao que Tarantino respondeu à época: “Admiro muito Spike e o cinema dele. Mas quer dizer que ele pode (filmar ao estilo blaxploitation), porque é negro, e eu não posso, por que sou branco? Ele que suba em um banquinho e beije minha bunda!”. Nos EUA, a expressão popular “kiss my ass” não tem conotação sexual. É apenas pejorativa.

Endosso de como a classificação de machista incomoda Tarantino, ele reproduziria sua quarta obra em quinta: “Kill Bill — Volume I” (2003) e “Kill Bill — Volume II” (2004). Ambas foram estreladas por uma das personagens femininas mais fortes da história do cinema: Beatrix Kiddo, também conhecida como “Mamba Negra” ou “A Noiva”. Era interpretada por Uma Thurman, que já havia protagonizado com Travolta a icônica cena do concurso de dança, em “Pulp Fiction”. Por quem o diretor teve a deferência de esperar a gravidez para começar a filmar “Kill Bill”.

Foi com Uma vestida com o mesmo traje esportivo amarelo com listra negra usado por Bruce Lee em “Jogo da Morte” (1978), seu último filme, que as mulheres extrapolaram no cinema os limites de “Medeia”. Peça do grego Eurípedes e base da dramaturgia do Ocidente, nela a esposa mata os filhos para se vingar do marido. A noiva, em busca da filha, foi além.

No universo de Tarantino, nem seus cânones são onipotentes. Nele, um Bruce Lee arrogante (Mike Moh) surge levando a pior numa luta com o dublê Cliff Both (Brad Pitt), em cena polêmica. A maneira como o ator chinês, nascido nos EUA, foi retratado em “Era uma vez em… Hollywood”, sofreu críticas da sua filha, Shannon Lee. Como do ex-astro negro do basquete Kareem Abdul-Jabar, que contracenou com o asiático Bruce em “Jogo da Morte”.

 

Bruce Lee e Kareen Abdul Jabar em “Jogo da Morte”, de 1978

 

O filme mais atual se passa em 1969, ano de profundas transformações na sociedade e na cultura dos EUA e do mundo. Mas que também seria marcado por um crime bárbaro: o assassinato a facadas da jovem e belíssima atriz Sharon Tate, grávida de oito meses, mais quatro amigos, na casa da rua Cielo Drive. Fora alugada por seu marido, o diretor polonês Roman Polanski, que estava ausente. Nas paredes da casa, com o sangue de Tate, os assassinos escreveram “death to pigs” (“morte aos porcos”).

 

Assassinos usaram sangue das vítimas para pichar a parede da casa de Cielo Drive, em 1969: “death to pigs” (“morte aos porcos”)

 

Os autores dos homicídios foram jovens hippies de uma seita liderada pelo ex-presidiário e aspirante a músico Charles Manson, nome que se tornou quase sinônimo de psicopata nos EUA. O motivo foi um acaso infeliz para a atriz. Na verdade Manson mandou seus seguidores ao endereço porque queria se vingar do produtor Terry Melcher, que não levara a sério a pretensão musical do candidato a messias e alugara a casa aos Polanski.

 

Veterano Al Pacino tem participação curta, mas marcante, em “Era uma vez em… Hollywood”

 

Os fatos reais são pano de fundo à ficção de Tarantino. Nela, Leonardo Di Caprio vive Rick Dalton, astro de seriado de western para TV em decadência, vizinho na Cielo Drive do casal Tate (Margot Robbie) e Polanski (Rafal Zawierucha). E, na pele de Marvin Schwarz, tem como agente Al Pacino. Como dublê, motorista e faz-tudo nas horas vagas, o Both de Pitt. Dalton e ele vivem o que hoje se chama bromance, relação de intimidade entre homens, geralmente não sexual.

 

Sharon Tate e sua intérprete, Margot Robbie

 

Ao lado de Dalton e Both, Tate é um dos três condutores da história. Mas, diferente dos dois primeiros, ela merece poucas falas do roteirista e diretor, reavivando as acusações de machismo. Que realmente se confirmam em outras cenas do filme. Como no destino da ex-esposa de Both, ou no papel que Dalton representa após ser reduzido a vilão de outra série de western para TV. Enquanto ele grava, Both mantém contato com a “família” Manson, indo até o rancho nos arredores de Hollywood em que seus integrantes residiam.

Em grande parte das suas 2h45, é de longe o filme mais ameno de Tarantino, que só surge como mestre da violência estilizada na sequência final. Nela, como já tinha feito em “Bastardos Inglórios” (2009), ao matar Hitler com uma rajada de metralhadora na cara, dentro de um cinema, o roteirista e diretor não demonstra constrangimento ao reescrever a história.

 

Tarantino reescreve a história ao matar Hitler a rajadas de metralhadora, dentro de um cinema, em “Bastardos Inglórios”, de 2009

 

Woody Allen, judeu crucificado pelo politicamente correto de Hollywood

O resultado não vai agradar às feministas. O que pode ser pecado capital, levado em conta que Hollywood talvez seja hoje o maior reduto mundial do politicamente correto. A ponto de crucificar um diretor como Woody Allen pela acusação de pedofilia em que foi inocentado por dois inquéritos policiais dos EUA. E essa bandeira política de Hollywood é solenemente ignorada em uma homenagem pungente a Hollywood.

O Both de Brad Pitt é realmente a encarnação do macho heterossexual e opressor, que tem tanto pudor de se impor pela força física, quanto seu criador em reescrever fatos históricos pela ficção. Até a história do próprio cinema, ao colocar o Dalton de Di Caprio no clássico “Fugindo do Inferno” (1963), de John Sturges. E no lugar de Steve McQueen, que também está em “Era uma vez em… Hollywood”. Na pele de Damien Lewis, ele lamenta por uma mulher.

No título, o novo filme de Tarantino é também homenagem a uma de suas maiores influências. O mestre italiano Sergio Leone dirigiu “Era uma vez no Oeste” (1968) e “Era uma vez na América” (1984). E foi avatar do “spaghetti western”, que refundou na Europa o gênero cinematográfico mais típico dos EUA. Mas nem Leone, que catapultou a carreira de outro ator de western para TV nos anos 1960, um tal Clint Eastwood, escapa da sátira como destino de Dalton.

 

“Era Uma Vez no Oeste” (1968), do mestre Sergio Leone, é o maior clássico do spaghetti western

 

Em Tarantino não há espaço para “vacas sagradas”. Nem “touros”. Sejam do politicamente correto, do feminismo, do machismo, da história, ou até do cinema por quem esse grande criador devota amor a cada nova obra. Suscetibilidades à parte, “Era uma vez em… Hollywood” é um filmaço.

 

 

Confira abaixo o trailer do filme:

 

 

Publicado hoje (18) na Folha da Manhã

 

Este post tem 4 comentários

  1. Recuperar a trajetória de Quentin Tarantino é um ótimo ingrediente para rever sua obra. Sin City e Os Oito Odiados também são experiências de beleza, violência extrema e loucura humana. É bom ver um filme com essas metalinguagens e referências de um universo complexo por onde o cinema se aventura, o de retratar a vida e recortar a realidade. Adorei o texto lido após a sessão de Era uma vez…

    1. Caro Ocinei,

      Até “Era Uma Vez em… Hollywood”, “Os Oito Odiados” era o meu filme recente preferido de Tarantino. A metalinguagem não começou na dramaturgia com ele. Em “Hamlet”, encenado a primeira vez em 1602, Shakespeare confirma a autoria do assassinato do rei ao exibir uma peça dentro da peça. Mas, no cinema, a coisa alcançou um novo patamar com Tarantino. Entre todos os grandes diretores da história, ele talvez o que mais se referencie em filmes ao fazer filmes. E o faz sempre criando algo original, o que é a sua maior virtude.

      Abç e grato pela participação!

      Aluysio

  2. Sou feminista e amei o filme. Sou fã de Tarantino.

  3. Sou fã de Tarantino. Ainda não assisti. Pretendo ir. Parabéns, Aluysio! É assim que se escreve uma opinião. Me deu vontade de largar tudo e ir. Mas tenho calma e irei no momento certo.

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