Opiniões

Vídeo de doutor sobre biometria evidencia: é preciso talento para ser bobo da corte

 

Estátua do bobo da corte Yorick em Stratford-upon-Avon, cidade em que Shakespeare nasceu e morreu

 

A figura do palhaço de circo remonta o bobo da corte, o bufão, o clown imortalizado tanto nas comédias, quanto nas tragédias de William Shakespeare. Em “Hamlet”, é o crânio do bobo da corte Yorick desenterrado no cemitério que o príncipe da Dinamarca toma nas mãos para resgatar suas memórias mais caras da infância. E mergulhar na efemeridade humana enquanto encara as órbitas vazias do crânio do bobo da corte, momento alto da dramaturgia ocidental. Está na cena 1 do ato 5 da peça. Ainda assim, talvez por seu impacto visual, há quem coloque o encontro no solilóquio do “ser ou não ser”, que está na cena 1, mas do ato 2 de “Hamlet”.

 

O príncipe Hamlet de Mel Gibson encara o crânio do bobo da corte Yorick

 

Em Stratford-upon-Avon, cidade inglesa que conserva boa parte da arquitetura medieval dos tempos em que Shakespeare lá nasceu e morreu, inclusive a casa onde ele viveu, é a estátua de Yorick que está na praça central. Com a perna direita para o ar, equilibra no dedo indicador da mão esquerda a cabeça de um boneco. Representa a do próprio Yorick, antes da terra consumir-lhe as carnes. Mas é o reconhecimento vivo da cidade de Shakespeare à importância do seu personagem. E ao fato de que é necessário talento para ser um bobo da corte.

Neste final de semana, o blogueiro do Folha1 Edmundo Siqueira me enviou um vídeo divulgado no Facebook por um doutor da Saúde Pública de Campos. Nele tenta ironizar a cobertura da Folha sobre a greve dos médicos da Saúde Pública de Capos, inclusive a do Edmundo, tentando reduzi-la à questão do ponto biométrico. Na verdade, como é comum aos hipócritas, não aos bobos da corte, pretendeu vender uma questão que é sua, ou da classe que arroga representar, como se fosse do jornal. E se resposta merece, é aqui, na circunscrição do blog, com o anonimato à vaidade fútil de quem não merece ter o nome lembrado.

Sobre as diferenças entre noticiário e opinião em qualquer jornal do mundo, ou da opinião de um blogueiro, colunista ou articulista de um jornal, para a opinião do jornal, coube a esta fazer as distinções devidas. Foi na coluna Ponto Final (aqui) do último dia 10. Que se tornou necessária pela ressalva ali feita: “Não se espera que médicos saibam sobre jornalismo mais do que jornalistas sabem sobre medicina”. A mesma que depois concluiu: “ É opinião do jornal, por exemplo, que o governo errou ao implantar o ponto biométrico, ao mesmo tempo em que suspende as gratificações e substituições dos médicos”.

Mesmo diante disso, o vídeo do doutor se denunciou como resposta ressentida ao adjetivo “famigerado”. Foi utilizado aqui, para falar sobre o ponto biométrico em postagem na sexta (23) do blog “Coxinha de mortadela”, do Edmundo. Na verdade, o blogueiro abordou a vinda de conselheiros estaduais do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj) a Campos, nesta segunda (26), para tratar da greve dos médicos. E o doutor se apegou ao detalhe para julgar o todo — naquilo mais conhecido como sofisma das partes — e tentar fazer graça. Talvez da própria capacidade cognitiva de interpretação.

Mas o vídeo do doutor parece ter sido também motivado por uma postagem deste blog (aqui), no mesmo do dia 23. Ela tratou da convocação do Sindicato dos Odontólogos do Norte do Estado do Rio de Janeiro (Sonerj) para uma assembleia da categoria, entre os dentistas da Saúde Pública de Campos, que também se daria nesta segunda. Publicado na postagem, o edital de convocação tinha como primeiro item da pauta o… ponto biométrico. Sobre isso também foi publicada a analogia de alguém insuspeito, por também odontólogo e servidor municipal de Campos:

—  O servidor que se nega a ter fiscalizadas suas horas de trabalho, pelas quais firmou contrato pessoal com a Prefeitura assim que se inscreveu no concurso público, tem pouca ou nenhuma diferença para o empresário corrupto que vende mil garrafas d’água ao poder público, mas só entrega 500 ao respeitável público que pagou pelas mil.

Pelo impacto negativo do evidenciado no edital de convocação do Sonerj — um documento, que não costuma mentir como as testemunhas —, as reações foram fortes e imediatas. E o blog, democraticamente, acresceu a postagem do contraditório externado pelos odontólogos e servidores municipais Beto Miranda e Rafael Correa. Ainda assim, o incômodo foi tanto que o presidente do Sonerj, Domingos Ferreira Junior, procurou a Folha no sábado (24) para anunciar (aqui) que havia desmarcado a assembleia da categoria. Mas voltou a confirmá-la (aqui) hoje (25) para esta segunda (26), no grupo de WhatsApp “Dentistas de Campos”.

Como qualquer leigo é capaz de constatar, o assunto é complexo. E sério demais para se tentar fazer graça. Mas, se fosse o caso, como a cidade de Shakespeare adverte na estátua de Yorick, é necessário algum talento para ser bobo da corte.

 

Este post tem 4 comentários

  1. Perfeito…

  2. É mais um do gado bolsonarista que compõe a sua categoria. Veio tombando de Goiás numa dessas infelicidades que só acontecem em Campos. Como médico é um péssimo bobo da corte. O dificil vai ser entender Shakespeare KKKKK

  3. o doutor não tem talento para ser um bobo da corte, é só um bobo alegre

  4. Da pra levar a serio medico ou pai de santo que trabalha de preto? E que esquece dos pacientes pra gravar live de Face e dizer que esta trabalhando?

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