Opiniões

Luciane Silva — O voto reflete a cada um sua forma de compromisso com a Uenf

 

 

Luciane Silva, socióloga, professora da Uenf e 2ª vice-presidente da Aduenf

Eleições para Reitor na Uenf: desafios e perspectivas no segundo turno

Por Luciane Silva

 

A construção da Universidade Estadual do Norte Fluminense está intimamente  conectada com o projeto de Darcy Ribeiro, a luta de uma região (a mobilização popular de 1989 que resultou em mais de 4 mil assinaturas e deu início a campanha constitucional pela criação da Uenf)  e uma conjuntura política (o encontro de Leonel Brizola, eleito governador do Rio de Janeiro e do antrópologo visionário Darcy). Vinda de duas instituições Federais (UFRGS e UFRJ) chegar a Universidade do Terceiro Milênio em 2010, possibilitava repensar que ciência queríamos para o Brasil. E estar fora das capitais gerava ainda mais questões sobre os desafios em integrar a comunidade e trabalhar pelo desenvolvimento do Norte Fluminense e do país.

Qual o maior desafio a enfrentar neste momento em uma universidade com 100% de doutores e regime de dedicação exclusiva? Talvez, diante do todos os ataques à educação e à ciência , o maior desafio em 2019 e para os próximos 4 anos seja exatamente manter vivo o seu projeto de criação.

A Uenf completa seus 26 anos e enfrentaremos em breve o segunto turno da eleição para reitor. Até este momento, podemos pensar os resultados sob a metáfora do “copo meio cheio ou meio vazio”. Alguns noticiam o favoritismo da chapa 10. Outros, noticiam a ameaça que um segundo turno representa ao projeto de continuidade representado pelo candidato da reitoria.  O comportamento eleitoral nem sempre pode ser lido como algo transparente e racional. Cada categoria faz suas escolhas com base em sua posição dentro do jogo político.

Na Associação de Docentes da Uenf nossa diretoria tomou uma decisão: não apoiamos nenhuma candidatura e ouvimos todos os candidatos. Nossa posição democrática se reflete no próprio resultado que mostra claramente três grupos divididos entre os docentes. Ou seja, este resultado no primeiro turno, explicita o voto como instrumento de rechaço à proposta de continuidade. Este dado, ao menos entre os docentes é evidente, absolutamente objetivo.

Nossa Associação de Docentes foi citada incontáveis vezes nos debates e em certo momento fomos criticados com o uso do termo “imaturidade política”. É importante explicar, embora não devesse ser necessário, que representamos os interesses dos professores e professoras e como tal, nossas posições têm neste grupo sua legitimidade de ação outorgada por eleição. Em 2017, defendemos abertamente a autonomia de gestão financeira para Uenf e fomos frontalmente contrários ao parcelamento desta autonomia.

Nossa questão era simples: não havia clareza sobre a forma do repasse, não havia clareza sobre os valores para folha de pagamento e custeio. E ainda hoje, as universidades estaduais do Rio de Janeiro temem uma autonomia de gestão que não garanta em lei, o pagamento de salários dos servidores. Isto foi dito na reunião feita com o Governo em junho de 2019.

Não se pode esconder os problemas o tempo todo. É parte do processo de gestão, informar a comunidade do que se passa com nossas contas e nosso planejamento para o futuro. Mas na atual conjuntura política, é preciso recuperar a vitalidade de Darcy Ribeiro para construir mundos que não existiam. Mundos de gente realizada na construção de ensino, pesquisa e extensão. Nossa relação com os parlamentares na Alerj e com o governo deve ser de respeito aos expedientes democráticos. Mas jamais devemos deixar de pautar nossos interesses. Se tentam instaurar a CPI das Universidades, se tentam criminalizar nossas aulas, se descumprem a lei, no caso dos duodécimos, não nos parece razoável aceitar sem luta, decisões que nos prejudicam.

O peso do cargo de reitor é demonstrado no emprego do pronome de tratamanto “magnífico”. Vamos retomar uma frase emblemática do antropólogo Darcy Ribeiro: “meus fracassos são minhas vitórias, eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”. Um processo eleitoral é uma oportunidade única para repensarmos por quais vitórias pretendemos ser reconhecidos como instituição de ensino, pesquisa e extensão. Darcy não abria mão de sua relação com a América Latina e com a indignação. Era um político e está sujeito a críticas. Mas certamente nos deixou como legado, a obrigação de não pararmos de sonhar. De que a Uenf não poderia apequenar-se em conchavos. Creio que ele não comprometeria este sonho por um poder estruturado sob vassalagem ou sob sujeição a qualquer ordem estranha à democracia. E certamente este será o desafio ao próximo reitor eleito. Já que existe a derrota na vitória — a eleição presidencial de 2018 é o exemplo mais eloquente—, o voto reflete a cada um sua forma de compromisso com a Uenf.

Na abertura do capítulo “O Homem Cordial” do livro “Raízes do Brasil”, Sérgio Buarque de Holanda afirma: “O Estado não é uma ampliação do círculo familar e, ainda menos, uma integração de certos grupamentos, de certas vontades particularistas (…)”. Pensar a Uenf pós eleição é recuperar a crítica a formas particularistas de governo ou gestão que ao amarrarem certos compromissos internos, comprometem exatamente o que se pretendia fazer grandioso: o conceito de universidade.

A curto prazo alguns agraciados sentem a satisfação da vitória. Uma satisfação que se mostrará impotente quando confrontada com a fraqueza institucional diante dos desafios postos: a autonomia de gestão financeira em 2019, a necessidade dos concursos, a superação das fraturas internas, o cuidado com a saúde mental da comunidade, o respeito a diversidade, a discussão de gênero e raça, a acessibilidade. E sobretudo, o exercício diário da democracia. Em especial, será fundamental que se compreenda as discussões sobre gênero realizadas nas instituições de ensino brasileiras, do nível fundamental ao superior.

Nesta eleição temos visto um rebaixamento da discussão sobre a presença feminina em cargos de poder. Tratar este tema com seriedade exige a criação de melhores condições de trabalho para as mulheres. Cientistas, alunas, técnicas e terceirizadas. É importante evitar usos equivocados do conceito de gênero em uma sociedade que debate as desigualdades entre homens e mulheres no mundo do trabalho.

Termino este texto com um trecho do poema “Mundo Grande” de Carlos Drummond de Andrade: “tu sabes como é grande o mundo, conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão. Viste as diferentes cores de homens, as diferentes dores dos homens, sabes como é difícil sofrer tudo isto, amontoar tudo isto, num peito de um só homem, sem que ele estale”.

Revisitando o projeto de Darcy, após colher entre alunos esta leitura poética afirmo: “meu coração cresce dez metros e explode

Ó Uenf futura, nós te criaremos.

 

Publicado hoje (08) na Folha da Manhã

 

Deixe uma resposta

Fechar Menu