Opiniões

Arthur Soffiati — Só podemos esperar da Uenf mais uma demonstração de democracia

 

(Foto: Folha da Manhã)

 

 

Arthur Soffiati, ecohistoriador, professor aposentado da UFF e colaborador mais longevo da Folha

A importância da Uenf

Por Arthur Soffiati

 

Antes mesmo de a Uenf iniciar suas atividades de ensino, pesquisa e extensão, eu já a conhecia parcialmente. De certa forma, minha ligação com ela foi grande nos seus primórdios. Três instituições civis enviaram um documento ao governador do Rio de Janeiro, reivindicando uma universidade pública estadual para o norte-noroeste fluminense. Uma delas foi o Centro Norte Fluminense para a Conservação da Natureza, organização não-governamental que presidi por doze anos, entre 1979 e 1991.

Mais do que apenas atuar em defesa do meio ambiente, o CNFCN apoiava com veemência a importância da academia na produção de conhecimento sobre o papel dos ecossistemas na vida humana. Oficialmente, a ong ainda existe, embora não atue mais. Sou talvez seu único sobrevivente físico e mental. Mas hoje, uma cultura em defesa do ambiente cresce cada vez mais, na medida em que a crise ambiental também se amplia. Jamais nos ocorreu que um presidente da república pudesse atribuir aos ambientalistas a pecha de incendiários.

Para nós, a Uenf era bem-vinda para, entre outras muitas contribuições, desenvolver pesquisas sobre os ecossistemas da região. Esse foi o campo que mais acompanhamos. De fato, a Uenf consolidou conhecimentos sobre as lagoas e rios, formações vegetais nativas, fauna silvestre, estrutura geológica e classificação de solos. Outras setor de extrema importância é o cultural. A Uenf contribuiu significativamente para o conhecimento das manifestações culturais populares, da arqueologia, da história regional, da sociologia, da ciência política e da área de ciências humanas em geral.

Por pouco mais de um semestre, atuei na Uenf graças a um convênio guarda-chuva que ela e a UFF, de onde fui professor durante 25 anos, haviam firmado. Foi um período rico para minha formação. Trabalhei igualmente num levantamento dos ecossistemas aquáticos continentais com destaque para a qualidade da água, fauna constituída de peixes e aves e história das relações entre sociedades humanas e natureza com a finalidade de propor-se a criação de um sítio Ramsar na região. Ramsar nasceu de uma convenção incorporada pela ONU para a proteção de áreas úmidas. O sítio não vingou, mas nosso levantamento talvez seja o mais completo já realizado no Norte Fluminense.

Sempre manifestamos nosso contentamento e agradecimento aos professores da Uenf por todos os serviços prestados à comunidade regional. Mas ela transcendeu os limites do Norte e Noroeste Fluminense para se transformar numa instituição universitária com excelência reconhecida nos planos estadual, nacional e internacional.

Ela enfrentou dificuldades? Claro que sim. Qual universidade pública não as enfrentou? Em grande medida, problemas decorrentes de falta de recursos financeiros. Problemas que apresentam ameaça para toda universidade pública do Brasil. Mas a Uenf tem apreendido a superá-lo ou a conviver com eles sem abria mão da qualidade. A Uenf é um exemplo de resistência.

Na véspera do segundo turno da eleição para escolha do novo reitor da instituição, só podemos esperar dela mais uma demonstração de democracia, não apenas em nível regional como em nível nacional. É a minha expectativa e a de muitas outras pessoas. Tenho certeza de que, com o pleito, um novo e competente timoneiro assumirá o comando de uma nau em que todos os marinheiros participem democraticamente das discussões, das decisões e das orientações.

 

Publicado hoje (13) na Folha da Manhã

 

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