Opiniões

Raúl Palacio: “Acabou a disputa. Vamos conversar porque somos todos Uenf!”

 

“Acabou a disputa. Vamos conversar porque somos todos Uenf!”. Foi como o reitor eleito da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), professor Raúl Palacio, concluiu esta entrevista. Cubano naturalizado brasileiro, ele avaliou duas projeções suas que não se cumpriram. Primeiro, da estreita margem da sua vitória sobre o professor Carlão Rezende, 51,25% contra 48,04% do colégio eleitoral da universidade, inferior aos 60% que revelou como meta. Segundo, o acirramento da polarização que classificou como infértil, na mais disputada eleição a reitor nos 26 anos de vida da Uenf. Este clima foi alimentado por fake news de veículos digitais que atacaram Raúl antes e mesmo após o resultado final, assim como lideranças estudantis da universidade. Sobre o que a Campos de 2020 deve aprender com a Uenf de 2019, advertiu: “Se alguém é capaz de fazer esse tipo de ataque numa eleição para reitor, imagina o que pode fazer nas eleições municipais?”. Numa disputa vencida com o voto de quem acreditou na sua capacidade de articulação política, o reitor eleito falou dos contatos com a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), em busca da autonomia financeira. Além da absorção do Colégio Agrícola Antônio Sarlo, sobre a qual tem reunião já nesta terça (24), e projetos para a Casa de Cultura Villa Maria e o Hospital Veterinário.

 

(Foto: Isaias Fernandes – Folha da Manhã)

 

 

Folha da Manhã – Ao Folha no Ar de 11 de setembro, na rodada de entrevistas da Folha FM 98,3 com os candidatos a reitor da Uenf do segundo turno, você projetou (aqui) sua vitória final entre 55% a 60% dos votos. Mas acabou vencendo (aqui) por pequena margem: 51,25%, contra 48,04% do professor Carlão Rezende. Atrapalhou cantar vitória antes da hora? 

Raúl Palacio – Numa eleição fazemos previsões em função do trabalho realizado, as expectativas de comportamento dos eleitores e das declarações de votos feitas. Acho que a diferença foi resultado na neutralidade que esperávamos de alguns professores, que no primeiro turno votaram no professor Medina. Ela não aconteceu.

 

Folha – Ao mesmo microfone da Folha FM, na rodada de entrevistas com os três candidatos a reitor no primeiro turno, você disse (aqui) em 28 de agosto: “A polarização não leva a nenhum resultado”. Mas a polarização parece ter ditado o segundo turno. Qual o motivo?

Raúl – Ganhamos com mais de 60 % dos votos válidos. A não paridade entre os pesos dos votos dos grupos diferentes de votantes foi que levou ao resultado final, aparentemente, apertado. Em relação à polarização, ela não existe. No segundo turno éramos dois candidatos com projetos diferentes, porém ambos direcionado para o fortalecimento da universidade pública, gratuita e de qualidade. A comunidade fez a sua escolha, um ganhou e agora somos todos Uenf.

 

Folha – No segundo turno, você recebeu (aqui) ataques de baixo nível de veículos digitais propagadores de fake news. E, no Folha no Ar, garantiu: “Não vai ficar sem resposta, com toda a certeza”. Vitória conquistada, que resposta pretende dar?

Raúl – Na Justiça! Terão que provar tudo o que foi falado. Caso contrário, a Justiça decidirá a melhor forma de compensar o dano causado. Acredito que todo jornalista tem compromisso e responsabilidade com a verdade.

 

Folha – O responsável pelo veículo que usou fake news para lhe atacar é assessor de um pré-candidato a prefeito de Campos. Você disse à Folha FM: “Eu sinceramente acho que, depois daquilo, o pré-candidato talvez repense isso e coloque o cara para fora. Eu realmente tenho convicção de que isso vai acontecer”. Mantém a convicção?

Raúl – Sim, definitivamente o tipo de abordagem característico das publicações em que fui atacado não contribui positivamente com nenhuma campanha eleitoral. As pessoas estão saturadas desse tipo de publicação.

 

Folha – Estudante e presidente do DCE da Uenf, Gilberto Gomes também foi vítima de ataques após ter declarado (aqui) voto a você. Ele respondeu (aqui) “que todas medidas judiciais cabíveis estão sendo tomadas devido à exposição de meu nome”. Como viu o episódio?

Raúl – Lamentável. É inacreditável que alguém, em pleno século XXI tenha comportamento tão antidemocrático e ataque um estudante que está exercendo seu direito democrático de defender um candidato. Foi realmente vergonhoso o que fizeram com Gilberto!

 

Folha – Mesmo com o resultado consumado, você continuou (aqui) sendo alvo de ataques por fake news, que creditaram sua vitória à “anulação de 9 votos de professores”.  Você foi acusado de ter dado “uma aula de como praticar demagogia e clientelismo entre servidores técnicos e estudantes”. E até a universidade foi ameaçada: “A Uenf terá anos turbulentos pela frente”. Como a comunidade universitária deve reagir a essa tentativa pública de intimidação?

Raúl – O que tenho escutado é muito apoio a minha pessoa. Todos estão indignados com o comportamento de tão baixo nível. Além de tudo demonstra desconhecimento matemático e do que realmente acontece na universidade.

 

Folha – Como alvo desse nível de ataques, acha que quem foi capaz de fazê-los na eleição a reitor de uma universidade, seria capaz de fazer o que na eleição a prefeito de uma cidade da importância de Campos?

Raúl – Certamente, a falta de caráter não é seletiva. Se alguém é capaz de fazer esse tipo de ataque numa eleição para reitor, imagina o que pode fazer nas eleições municipais, em que temos maior quantidade de interesses envolvidos?

 

Folha – Após o resultado final, você disse: “deixando bem claro que técnicos e estudantes decidem, sim, a eleição a reitor”. E ressalvou: “na representação dos professores conseguimos 25 votos a menos”. Há quem tenha visto essa eleição como uma disputa de técnicos e estudantes contra professores. Como enxergou?

Raúl – Como uma disputa de projetos diferentes, ambos em defesa da educação pública gratuita e de qualidade. Não acredito que tenhamos uma disputa de classes dentro da Uenf. Na realidade todas as categorias trabalham em consonância, caso contrário o trabalho não avança. A diferença só reflete formas diferentes de enxergar a gestão administrativa da instituição.

 

Folha – Durante o processo eleitoral, a expressão “phdeuses” ganhou força em sentido pejorativo. Muitos consideram que a sua vitória a reitor foi uma derrota deles. Mas esses mesmos “phdeuses”, pensados por Darcy Ribeiro quando exigiu que todos os professores da Uenf fossem doutores, não são os principais responsáveis pela qualidade da universidade, avaliada em terceiro lugar no ranking da Folha de São Paulo – RUF 2018?

Raúl – Considero que as atividades de pesquisa são de grande relevância para a Uenf e para toda universidade que pretende ser protagonista de mudanças na sociedade. Logicamente que, para a pesquisa se desenvolver plenamente, é necessário a dedicação não apenas dos docentes, mas também dos estudantes que são os principais agentes responsáveis pelos estudos nas bancadas e na condução de experimentos; e também dos técnicos, sejam administrativos na compra de insumos, elaboração de convênios, entre outras atividades de apoio à pesquisa. Assim, a participação das diferentes categorias é fundamental para o elevado conceito da Uenf. O terceiro lugar em publicações no RUF 2018, em número de publicação por docente, é consequência do trabalho e esforço unido de todas as categorias.

 

Folha – Sua vitória sobre Carlão foi também vista como a da habilidade política sobre o currículo acadêmico. Como vai trabalhar junto aos deputados estaduais e ao governo Wilson Witzel (PSC) na garantia da autonomia financeira da universidade a partir dos duodécimos? E que recursos pretende trazer à Uenf das emendas dos deputados federais?

Raúl – Primeiramente apontar que o currículo acadêmico é muito mais complexo que enumerar as publicações. As horas aulas, interação com a sociedade, experiência administrativa e de gestão, entre outros aspectos também fazem parte do currículo acadêmico. Lembrando também que a professora Rosana, nossa vice, é cientista 1B de CNPq e Cientista do Nosso Estado, Faperj. Em relação às ações na Alerj, já conversei com o presidente da comissão de ciência e tecnologia, deputado Waldek Carneiro (PT); com o presidente da comissão de educação, deputado Flávio Serafini (Psol); e o deputado Bruno Dauaire (PSC), líder da frente em defesa da Uenf. Estamos deixando claro a todos que, nos próximos meses, teremos muito trabalho pela frente. Em relação às emendas dos deputados federais vamos destinar o dinheiro para o projeto Uenf Verde.

 

Folha – Ao Folha no Ar você garantiu que “a incorporação do colégio agrícola (Antônio Sarlo) é um processo que já não tem volta”. E falou da intenção de usá-lo como porta de entrada à Uenf, no estágio de iniciação científica entre estudantes universitários e do ensino médio, no que poderia ser o início do Colégio de Aplicações. Está entre as suas prioridades?

Raúl – Certamente. Na terça-feira (24) teremos uma audiência da comissão de Ciência e Tecnologia sobre esse tema. A incorporação do Colégio Agrícola, além de garantir o funcionamento de uma instituição de ensino de grande importância para o estado do Rio de Janeiro, permitirá que a Uenf possa fazer mais investimentos de recursos federais na área que atualmente a universidade ocupa no colégio, melhorando dessa forma a infraestrutura de pesquisa e ensino, tanto na graduação como na pós-graduação. Além disso, temos projeto para implantação do setor agropecuário do Parque Tecnológico na área do Colégio Agrícola.

 

Folha – Talvez as duas presenças da Uenf mais emblemáticas ao campista médio sejam a Casa de Cultura Villa Maria e o Hospital Veterinário. Quais seus planos para ambos?

Raúl – A Casa de Cultura da Uenf Villa Maria deverá se converter em um polo produtor e apresentador de arte. Para tal pretendemos elaborar uma política de arte universitária, dirigida pela assessoria de artes da Uenf. No Hospital Veterinário temos que trabalhar no estatuto e na autonomia financeira dessa instituição.

 

Folha – Essa foi a eleição a reitor mais disputada na história da Uenf. A universidade saiu rachada das urnas? Como reconstruir suas pontes internas?

Raúl – Acredito firmemente no diálogo. Inclusive, a capacidade de dialogar com diversas frentes foi um dos motes da nossa campanha e pratica que venho cultivando durante toda minha trajetória profissional. Com diálogo somos capazes de resolver qualquer problema. Lembrando que para nós, o slogan “Mais Uenf”, usado na nossa campanha, significa mais diálogo e mais respeito. Felizmente acho que não temos rachas internos. As rachaduras são mais difíceis de resolver. Nesses dias após a eleição, vários professores, inclusive alguns que não votaram na chapa 10, têm nos procurado para se somarem ao processo. Acabou a disputa. Vamos conversar porque somos todos Uenf!

 

Pàgina 6 da edição de hoje (22) da Folha

 

Publicado hoje (22) na Folha da Manhã

 

Deixe uma resposta

Fechar Menu