Opiniões

Artigo do domingo — As fiandeiras e o Flamengo

 

As fiandeiras em óleo sobre tela de John Strudwick, 1885

 

As fiandeiras e o Flamengo

 

Sobre quem diz nunca ter sido traído, há três classificações possíveis: mentiroso, desinformado ou ambos. Pode ser pelo seu semelhante. Pode ser pelo destino. Este, para os gregos antigos, era determinado por três irmãs fiandeiras, as moiras. Na roda da fortuna, teciam os fios das vidas de homens e deuses.

Foi o destino que fez o Flamengo ser fundado como clube de regatas em 1895. E entrar no futebol em 1912, com uma dissidência de atletas do Fluminense. Em 1927, numa pesquisa promovida pelo Jornal do Brasil, já era apontado como o mais “symphatico” do país. Posição que se consolidaria com o tempo e a adoção dos critérios estatísticos. Este ano, foi reconhecido pela Fifa como “o único time do mundo que tem 40 milhões de torcedores”.

 

Flamengo de 1943. Em pé: Volante, Biguá, Domingos da Guia, Jurandir, Newton e Jaime. Agachados: Valido, Zizinho, Pirilo, Perácio e Vevé.

 

O Flamengo já era o clube mais popular do Brasil antes de 1980. E só as fiandeiras do destino podem explicar, pois ainda não tinha um único título de expressão nacional. Até então, suas duas maiores conquistas eram dois Tricampeonatos Cariocas: o de 1942/43/44, com Zizinho, Domingos da Guia e Pirilo; e o de 1953/54/55, com Rubens, Evaristo e Dida. Este seria o grande ídolo de quem mudaria a história do clube, filho da periferia carioca, mas português na origem e no nome: Arthur Antunes Coimbra.

 

Flamengo tricampeão de 1955. Em pé: Pavão, Chamorro, Jadir, Tomires, Dequinha e Jordan. Agachados: Joel, Paulinho, Índio, Dida e Zagallo.

 

Pequeno e franzino, era chamado quando criança de Arthurzinho e Arthurzico. Quando homem, passaria à história do futebol mundial como Zico. Quem, além das fiandeiras do destino, faria com que um filho de pai português e mãe brasileira, mas por sua vez filha de portugueses, se tornasse o maior ídolo do arquirrival do Vasco da Gama?

A geração de Zico, que ascendeu com ele das categorias de base do Flamengo, era quase toda brilhante. Leandro e Júnior estão entre os maiores laterais da história do futebol brasileiro. Enquanto zagueiro, Mozer não fica atrás. Andrade é considerado um dos volantes mais clássicos que já atuaram com a camisa rubro-negra, como está Adílio entre os seus meias mais habilidosos e Nunes, entre seus centroavantes mais decisivos. Esta era a espinha dorsal daquela equipe, que tinha em Zico seu coração, cérebro e pé de apoio.

 

Flamengo campeão do Mundial de 1981. Em pé: Leandro, Raul, Mozer, Figueiredo, Andrade e Júnior. Agachados: Lico, Adílio, NUnes, Zico e Tita

 

Juntos, Zico e sua geração conquistariam os Brasileiros de 1980, 1982 e 1983. O auge daquele Flamengo seria em 1981, na pausa nacional para se adonar da América do Sul, em final épica e violenta da Libertadores da América em três jogos contra o Cobreloa, do Chile. Que deu acesso à final do Mundial em Tóquio, vencida com um passeio de 3 a 0 sobre o inglês Liverpool. Apesar do placar, o derrotado é tido até hoje entre os maiores times de clube já formados na Europa, com quatro Champions nas costas para tirar as dúvidas: 1976/77, 1977/78, 1980/81 e 1983/1984.

 

 

Em 1987, com Zico, Leandro e Andrade ainda em campo, o Flamengo bateu o Internacional por 1 a 0 na fnal do Maracanã, para conquistar a Copa União. Era o Brasileiro de fato, mas não de direito, numa dessas imutáveis sacanagens dos cartolas. Além dos três remanescentes do Mundial de 1981, as fiandeiras do destino determinariam àquele time revelar cinco jovens que dariam a base da Seleção Brasileira do Tetra, na Copa do Mundo de 1994: Aldair, Jorginho, Leonardo, Zinho e Bebeto.

 

Flamengo de 1987: Em pé: Leandro, Zé Carlos, Andrade, Edinho, Leonardo e Jorginho. Agachados: Bebeto, Aílton, Renato Gaúcho, Zico e Zinho.

 

Antes, com Júnior de volta da Itália para assumir como Maestro no meio de campo, o Flamengo venceria o Brasileiro de 1992. Atropelou na final o Botafogo por 3 a 0, no Maracanã apinhado, onde a grade da arquibancada caiu e matou pessoas a poucos metros de mim. Mesmo no regozijo, as fiandeiras podem ser também cruéis.

 

Flamengo de 1992. Em pé: Gérson Baresi, Gilmar, Wilson Gottardo, Charles Guerreiro, Piá e Júnior. Agachados: Júlio César, Gaúcho, Zinho, Fabinho e Uidemar

 

Dezessete anos depois, em 2009, com Adriano Imperador e o sérvio Petkovic fazendo a diferença, o Flamengo conquistaria seu sexto e último Brasileiro, primeiro na era dos pontos corridos. Pelo tempo, não dava mais para ter ninguém de 1981 jogando. Mas as fiandeiras mantiveram um deles no comando do time: Andrade era o técnico. A independência da geração de Zico só virá este ano, se o Flamengo do revolucionário treinador português Jorge Jesus confirmar sua larga vantagem de 10 pontos no Brasileiro.

 

Flamengo de 2009. Em pé: Diego, Kléberson, Aírton, Petkovic, Adriano, Bruno e David. Agachados: Juan, Álvaro, Gil, Bruno Mezenga, Fierro, Zé Roberto, Éverton, Ronaldo Angelim, Toró, Léo Moura e Willians

 

Mas a maior torcida do planeta jamais se libertou do seu maior momento de glória. Como canta hoje, inebriada por estar em outra final de Libertadores, 38 anos depois: “Em dezembro de 81/ Botou os ingleses na roda/ 3 a 0 no Liverpool/ Ficou marcado na história/ E no Rio não tem outro igual/ Só o Flamengo é campeão mundial/ E agora o seu povo/ Pede o mundo de novo”. É uma adaptação da música “Primeiros Erros”, do compositor Kiko Zambianchi, que fez sucesso nos anos 1980 das glórias de Zico, voltou às paradas ao ser regravada pelo Capital Inicial em 2000, e agora, com nova letra, virou quase um segundo hino do clube da Gávea.

O fenônemo viralizou nas redes sociais, com o vídeo de cinco campeões pelo Flamengo em 1981, Adílio, Andrade, Mozer, Júnior e Nunes, cantando a versão rubro-negra da música de Zambianchi:

 

 

O motivo? Só as fiandeiras do destino podem responder. Foram elas que colocaram novamente o Liverpool, que ganhou outra Champions, como possível adversário do Flamengo no Mundial. Será disputado em 11 de dezembro no Qatar. Para chegar lá, resta um único jogo ao Rubro-Negro, contra o tradicional copeiro argentino River Plate. Será em 23 de novembro, em Santiago, capital de um Chile incendiado por protestos que lembram muito os do Brasil de 2013.

 

Jornadas de Junho de 2013 ocupam o prédio do Congresso em Brasília

 

Por obra e graça das fiandeiras, estava no Chile em 2013, quando estouraram por aqui as “Jornadas de Junho”, inicialmente por conta de aumento de passagem no transporte público e que depois tomariam o país. “O que está havendo no Brasil?”, perguntavam os chilenos. Sem que tivesse ideia da resposta, pois nossa economia estava bem àquela época.

É o mesmo destino traçado pelas fiandeiras agora no Chile, há anos a economia mais acertada da América do Sul. Lá, também um reajuste no transporte público conduziu a manifestações de pauta difusa. As moiras me levariam novamente a Santiago em junho deste ano, quando testemunhei e fotografei protestos ainda sem violência, diante do Palácio de La Moneda.

 

Em 24 de junho deste ano, em frente ao Palácio de La Moneda, protestos ainda não entravam em choque com a polícia chilena (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

Na ironia das fiandeiras acima dos deuses e das ideologias dos homens, o alvo em 2013 foi um governo brasileiro de esquerda, com Dilma Rousseff, que cairia três anos depois. E agora, no Chile, é o governo do liberal de centro-direita Sebastián Piñera.

Difícil adivinhar os desígnios das moiras. Julgava ser destino estar presente no Maracanã, para assistir ao Flamengo e Grêmio na semifinal da Libertadores da última quarta-feira, dia 23. Afinal, na última vez que lá fui torcer pelo Flamengo, este bateu o mesmo Grêmio por 2 a 1, com gol de cabeça do zagueiro Ronaldo Angelim, na final do Brasileiro de 2009.

 

No meio da torcida e abaixo do Flamengo, presença na final do Brasileiro de 06/12/09, nas arquibancadas do Maracanã (Foto: Alexandre Durão – O Globo)

 

Maracanã, cair de tarde de 23/10/19 (Foto: Christiano Abreu Barbosa)

A presença naquele Brasileiro, em outro capricho das fiandeiras, acabaria sendo registrada em meio à torcida pelo fotógrafo Alexandre Durão, de O Globo. Embora ausente na foto, tinha meu filho, Ícaro, ao meu lado, então com 10 anos. Aos 20, ele estava novamente comigo na quarta, junto ao meu irmão, Christiano, tricolor como nosso pai, quando tomamos o bolo da cambista, a quem já havíamos pago os três ingressos. Esperamos à toa por ela, mais de duas horas, na estação de metrô do Maracanã.

Sem sucesso ou retorno às dezenas de tentativa de contato pelo celular, fomos perdendo os minutos e as cargas de bateria até que resolvemos voltar à estação da praça General Osório, em Ipanema. Não era a primeira vez em que seria traído. E, provavelmente, não será a última. Ademais, se mesmo Zeus se submetia ao destino tecido pelas fiandeiras, quem seríamos nós para nos rebelar?

Consolou também encontrar, na ida do metrô, um pai e filho mineiros de Uberlândia, que foram ao Maracanã sem ingresso. E vi ao longe voltarem, antes de nós, após não conseguir comprá-lo por lá. Assim como um jovem de Osasco, mais ou menos da idade do meu filho. Flamenguista do coração de São Paulo, estava ali sem contato ou dinheiro para entrar no estádio, só para participar da festa. Ele atenuou minha decepção pela cambista ausente em cada onda humana rubro-negra que descia cantando na estação, ao mostrar no seu celular o vídeo com os sósias do time do Flamengo circulando pelo Rio.

Voltamos à Ipanema a tempo de pegar a partida do início pela TV. Assistimos no Boteco Belmonte da General Osório. No primeiro tempo disputado de igual para igual, o placar foi aberto por Bruno Henrique. Jogador que tem sido o mais decisivo do Flamengo, ele puxou o contra-ataque e aproveitou o rebote do goleiro. Depois, fomos perdendo a conta dos chopes e gols na segunda etapa, aberta com mais dois de Gabigol, em belo chute dentro da área e de pênalti.

 

 

Confesso que, após o quarto gol, do zagueiro espanhol Pablo Marí escorando de cabeça a cobrança de escanteio do uruguaio Arrascaeta, entrei em estado de choque. Vi, mas não acreditei muito no quinto, marcado também de cabeça pelo outro zagueiro, Rodrigo Caio, após cobrança de falta de Éverton Ribeiro, destaque individual da partida por sua atuação coletiva.

Capitão do Uruguai campeão da Copa de 1950, Obdulio Varela, “El Negro Jefe”, primeiro herói do Maracanã

Cerca de meia hora após o apito final, foram chegando gremistas ao Belmonte. Passava por eles, abatidos em suas mesas, quando saía para fumar um cigarro. E solidarizava-me de maneira muda, lembrando da noite que o volante Obdulio Varela contou dos bares e ruas do Rio de 16 de julho de 1950. Capitão do Uruguai da Copa do Mundo decidida naquele dia, quando bateu o Brasil por 2 a 1 no Maracanã construído para desfecho diferente, “El Negro Jefe” (“O Chefe Negro”) se compadeceu da tristeza alheia que deveria ser sua alegria.

Na manhã seguinte, despertei com a indagação: “Será que aconteceu mesmo?”. Ao caminhar até o mar do Arpoador, passando pelo local do antigo Circo Voador da primeira apresentação da Legião Urbana no Rio, a credulidade e felicidade vieram em cada camisa rubro-negra com que cruzei no caminho. Cumprimentei seus donos: “Agora é o River!”. E fui fraternalmente correspondido. Estávamos todos umbilicalmente ligados pela glória da tribo.

O mar estava de ressaca, como a que rebati com analgésico ao acordar. Na água gelada, de correnteza forte para a direita, só havia surfistas. Alonguei o corpo e encarei o desafio que já vencera outras vezes, nadando, furando ondas e nelas pegando jacarés. Submerso em dado momento, segredei a Iemanjá, com o oceano dentro do peito: “Mulher, é muito bom ser Flamengo!”.

Difícil saber o que as fiandeiras tecerão. Ninguém nunca sabe. Mas parece emblemático que o clube que conquistou o mundo liderado dentro do campo por um descendente de lusitanos, peça o mundo de novo com o português Jorge Jesus no comando fora das quatro linhas. Comparado pela imprensa argentina ao “Carrossel” da Holanda na Copa de 1974, o Flamengo vive melhor momento e parece ter mais time. O River, com quatro Libertadores, tem mais tradição. E não há competição de futebol no planeta em que ela conte mais.

 

 

Se o time brasileiro pegar o Liverpool do craque egípcio Mohamad Salah na final do Mundial, a glória de Zico estará logo ali, ao alcance do pé. Aquele do tamanho do sol, como media o grego Heráclito. Mas como o destino pode trair, convém temer as fiandeiras. E calar a euforia com o conselho do tricolor Chico Buarque na música “Biscate”: “Quieta que eu quero ouvir Flamengo e River Plate”.

 

Publicado hoje (27) na Folha da Manhã

 

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