Opiniões

Artigo do domingo — Da aldeia à tribo, Diva, Yve, Flamengo e Liverpool

 

Diva Abreu, Yve Carvalho, Gabriel Barbosa e Mohamad Salah (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Da aldeia à tribo, Diva, Yve, Flamengo e Liverpool

 

No sábado, na virada histórica de 2 a 1 sobre o River Plate, veio a Libertadores da América após 38 anos. No domingo, com os jogadores ébrios em cima do trio elétrico navegando lento um oceano de gente no Centro do Rio de Janeiro, veio o sétimo Campeonato Brasileiro. Na segunda, dia 25, Jorge Jesus ganhou o título de cidadão carioca da Câmara Municipal do Rio. No mesmo dia, no que há de goitacá e particular na alegria de uma nação, foi anunciado que a professora Diva Abreu Barbosa e o ator Yve Carvalho (in memoriam), dois rubro-negros, foram eleitos vencedores do Prêmio Alberto Lamego, mais importante da cultura no município.

Tolstói dizia: “Quer ser universal, canta a tua aldeia”. Atualmente mais conhecida por sua atuação empresarial, publicitária e em eventos, como diretora-presidente do Grupo Folha, Diva foi também poeta, cronista e compositora premiada, inclusive em festivais do Rio de Janeiro, nos anos 1960. Na metade daquela década, quando voltou a Campos, após se formar em História na Universidade Santa Úrsula, foi a primeira mulher a usar calça jeans e fumar em público na planície marcada pelo conservadorismo. O fazia enquanto tomava café no Ceceu, quedando os muros do patriarcado na “Rua dos Homens em Pé”.

Diva formaria gerações em História do Brasil pelas três décadas seguintes, como professora do Liceu e da Faculdade de Filosofia de Campos (Fafic). Nesta, na segunda metade dos anos 1970, organizou as duas Semanas Universitária de Arte e Cultura (Suacs). Nelas, entre outros, trouxe o diretor teatral Aderbal Freire Filho, que encenou “O Auto da Compadecida”, o cantor e compositor Gonzaguinha, o saxofonista Paulo Moura e o pianista erudito Antônio Guedes Barbosa, todos em apresentações gratuitas. Depois, como chefe do departamento de Cultura do último governo municipal Zezé Barbosa (1983/1988), promoveu a reconciliação do escritor José Cândido de Carvalho com sua cidade natal, ao abrir a Casa de Cultura em Goitacazes que leva seu nome. E instituiu o Prêmio Alberto Lamego que receberá no próximo dia 28 de março.

Morto de insuficiência renal em 26 de maio de 2018, com apenas 54 anos, Yve Carvalho começou no teatro nos anos 1980. Sua primeira peça foi “Blue jeans”, encenada no Teatro de Bolso (TB) sob a direção de Félix Carneiro, o saudoso Felinho. A partir da sua atuação em “O Noviço”, de Martins Pena, em 1986, Yve saiu de Campos como o primeiro ator campista pago nos palcos do Rio. Lá, investiu na sua formação acadêmica. Após se formar como técnico em ator na Escola de Teatro Dirceu de Mattos, também se graduou em licenciatura em teatro na Unirio.

Aprovado em concurso como professor de arte da rede estadual e ainda morando no Rio, Yve integrou o elenco da peça campista “Auto do Ururau”, dirigida por José Sisneiro, que arrebatou em 2005 o prêmio Shell, dos mais importantes do teatro brasileiro. No mesmo ano, ele venceu como intérprete o FestCampos de Poesia Falada. Defendeu a obra “Goya Tacá Amopi”, do poeta e diretor teatral e Antonio Roberto de Góis Cavalcanti, o Kapi (1950/2015), que estreara como assistente de direção com Aderbal Freire Filho, durante a Suac de Diva.

O reconhecimento na terra natal e o fato de ter passado em concurso como professor de arte na rede municipal de Campos, trouxeram Yve de volta em 2006. Sua parceria com Kapi colheria mais frutos, em 2008. Com a interpretação do primeiro, sob a direção do segundo, o poema “conversão a mais de uma atmosfera”, de minha autoria, acabaria vencendo o 11º Concurso Nacional de Poesia Francisco Igreja. O palco, não poderia ser mais honroso: a sala Machado de Assis, na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Além da obra, Yve ganharia como melhor intérprete daquele festival, seu único prêmio como ator em terras cariocas.

Ainda em 2008, Yve faria sua primeira experiência no cinema. Sob a direção do campista Carlos Alberto Bisogno, protagonizou o curta “Efígie”, lançado em 2009. Enriquecido pela experiência, retornaria aos palcos no mesmo ano, para encenar no TB seu primeiro monólogo: “Meu querido diário”, do dramaturgo, poeta e professor Adriano Moura. Novamente sob direção de Kapi, foi um ato de resistência de Yve, bancado do próprio bolso. Encenada já em setembro, foi apenas a segunda montagem de artistas locais naquele ano triste para o teatro de Campos.

No verão de 2010, Kapi passava uma temporada em Atafona. E decidiu juntar poemas sobre a praia sanjoanense, dele, meus, de Artur Gomes e Adriana Medeiros, adaptados como causos contados entre pescadores na peça chamada “Pontal”. Yve foi o primeiro ator pensado e o único a sempre integrar seu elenco. O palco seria o Bambu, como Neivaldo Paes Soares passou a ser conhecido após ocupar no Pontal de Atafona a antiga casa de barco da família Aquino, transformando-a em bar e sua residência. Apesar do teatro improvisado, sem luz elétrica e com acesso apenas pela areia, numa montagem com atores, diretor e autores locais, aquela montagem de estreia foi um inesperado sucesso de público.

Com a morte de Kapi em 2 de abril de 2015, dois meses antes de Neivaldo desaparecer misteriosamente na foz do Paraíba, Yve se assumiu também como diretor. Trabalhando com a produtora Oráculo do ator Luiz Fernando Sardinha, ministrou cursos sobre tragédias gregas para jovens. E os dirigiu em clássicos da dramaturgia ocidental: “Édipo Rei”, de Sófocles; “Medeia”, de Eurípedes; e “Prometeu acorrentado”, de Ésquilo. Depois de montar os três do TB, levou o último também ao palco do Trianon.

O grande ator também assumiria a direção de “Pontal”. E a encenou em palcos como o Cais da Lapa, o Porto do Açu, o Sesc e o Sesi de Campos, além da praça do Liceu, durante a o I Festival Doces Palavras (FDP!), em setembro de 2015. Após sua estreia num pedaço do Pontal que não existe mais, foi por iniciativa de Yve que a peça teria outra montagem emblemática. Durante a ocupação do Teatro de Bolso pelos artistas de Campos, no movimento Ocupa TB, entre maio e junho de 2016, “Pontal” foi encenada como mais um ato de resistência de Yve. Que comandaria sua reestreia no teatro já reaberto, com casa lotada, em 30 de junho de 2017.

Do palco às coxias, Yve sempre foi a estrela principal. Uma das maiores na história — matéria de Diva — do teatro de Campos. Que, como ela, merecia o Alberto Lamego em vida.

Cantados os vultos da aldeia, resta a tribo mais ampla. A conquista da América do Sul e do Brasil pelo Flamengo foi embalada a plenos pulmões por sua torcida: “E agora o seu povo/ Pede o mundo de novo”. O pedido tem mais dois jogos para ser atendido no Qatar. O primeiro, na semifinal do Mundial de 17 de dezembro. Será contra o vencedor entre o Al Hilal, da Arábia Saudita e campeão da Ásia, e o Espérance, da Tunísia e campeão da África.

Para quem acha que será jogo fácil, mas tem consciência de como foi difícil a final da Libertadores contra o River, que se lembre: em 2018, o tradicional copeiro argentino caiu na semifinal do Mundial. Antes dele, o mesmo já tinha acontecido com outros campeões da Libertadores: os brasileiros Internacional (2010) e Atlético Mineiro (2013), e o colombiano Atlético Nacional (2016). Em 2019, dado curioso é que o Al Hilal foi o último time que o técnico português Jorge Jesus treinou, antes de vir para o Flamengo em julho.

Do outro lado, campeão da Europa, o inglês Liverpool tem também um adversário potencialmente difícil na semifinal do dia 18: o Monterrey do México, campeão da América do Norte. Este, por sua vez, terá antes que passar pelo vencedor entre o Hienghène, campeão da Oceania, e o Al Saad, representante do anfitrião Qatar. Treinador alemão do Liverpool, Jürgen Klopp é hoje considerado o melhor do mundo. Ele chegou a aventar enviar seu time B para a disputa internacional. Mas definiu na terça (26) que irá com sua força máxima.

Diferença nas tradições à parte, engana-se quem crê que a gravidade do confronto entre Europa e América do Sul no futebol tenha pesado na decisão do Liverpool. Tampouco foi sua tradição particular com o Flamengo, de quem levou um passeio de 3 a 0, quando Zico e companhia conquistaram o Mundial de Clubes há 38 anos. Como os rubro-negros cantam incessantemente: “Em dezembro de 81/ Botou os ingleses na roda/ Três a zero no Liverpool/ Ficou marcado na história”.

O que pesou na decisão do milionário clube inglês em 2019 foi o fato da final da Libertadores entre Flamengo e River ter sido assistida em 169 países, por 5 bilhões de pessoas. No pay per view, se cada um dos fãs do esporte mais popular do mundo pagar 1 dólar para assistir à hipotética final do Mundial entre Liverpool e Flamengo, em 21 de dezembro, isso renderia 5 bilhões de dólares — 3,85 bilhões de libras esterlinas, ou 21,15 bilhões de reais. Esse é o placar que realmente conta.

Dentro do campo, o Liverpool terá na sua vanguarda Salah, Firmino e Mané. O Flamengo, Arrascaeta, Gabigol e Bruno Henrique. Como os rubro-negros Diva e Yve, de lado a lado haverá a chance de fazer história e arte. Para, em lance do imponderável, impor a cultura do futebol. Quem conseguir chegar lá, leva o prêmio que transcende as cifras.

 

Publicado hoje (01) na Folha da Manhã

 

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