Opiniões

Folha entra em campo no “Jogo Jogado” da política de Campos e região

 

 

Ciente de que o jornalismo de qualidade é mais do que nunca necessário nestes tempos de fake news e “especialistas” de tudo nas redes sociais, a redação da Folha da Manhã deu hoje (20) o pontapé inicial ao “Jogo Jogado”. O programa (conheça aqui sua proposta) será  um bate-papo sobre os bastidores da política goitacá e regional, sempre gravado e veiculado na página da Folha no Facebook, no início das noites de segunda e quinta. O de hoje, mediado pelo jornalista Arnaldo Neto, editor-geral da Folha, teve a participação do jornalista Aldir Sales, editor de Política do jornal, e minha. Outros jornalistas e personagens políticos também serão convidados nas próximas edições.

Quem quiser conferir o resultado da estreia, gravada hoje, pode fazê-lo aqui, na conta da Folha no Facebook. Ou conferir o vídeo abaixo, postado no Youtube:

 

 

Indicados ao Oscar em Campos — Em “1917” e “Parasita”, Johnson e Hobbes

 

(Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr)

Depois de “Era Uma Vez em.. Hollywood” (confira sua resenha aqui), de Quentin Tarantino, e “Coringa”, de Todd Phillips, dois outros fortes candidatos ao Oscar de 2020 estão sendo exibidos no cinema de Campos. São o o sul-coreano “Parasita”, de Bong Joon-ho, ganhador da Palma de Ouro em Cannes, que estreou desde quinta (16); e a produção britânica “1917”, de Sam Mendes, que teve sua pré-estreia no sábado (18) e domingo (19), voltando para ficar nesta quinta (23).

Como sempre acontece com o cinema de qualidade na planície goitacá, ambos estão em cartaz no Kinoplex Avenida, no Shopping 28. Não no Cine Araújo do Shopping Boulevard, restrito a blockbusters comerciais. E quase sempre dublados, na pressuposição de que seu público seja composto de analfabetos — de fato ou funcionais.

 

“1917”

“1917” é uma história de dois cabos do Exército Britânico no penúltimo ano da sangrenta I Guerra Mundial (1914/1918) — e  também da Revolução Russa, que não é tratada no filme. Em um tempo sem comunicação em tempo real, os dois soldados recebem como missão levar uma mensagem do alto-comando para impedir um ataque contra os alemães, que recuaram para montar uma armadilha aos seus inimigos nas trincheiras da França. Entre outras armadilhas deixadas pelos germânicos e o confronto direto contra estes, serão muitos os percalços enfrentados pelos mensageiros.

Motivo de crítica por Luiz Fernando Veríssimo em “Dunkirk” (2017), de Christopher Nolan, sobre a importante batalha homônima da II Guerra Mundial (1939/45), a ausência dos britânicos negros, além dos hindus, muçulmanos e siks da Índia, é lapso racial que não se repete em “1917”. Nele, lado a lado com os anglo-saxões pálidos, estão soldados de pele escura e de turbante.

Ganhador dos Oscar de melhor diretor e melhor filme por “Beleza Americana” (2009), filme de estreia de Sam Mendes e clássico recente do cinema, o diretor inglês traz em “1917” uma comentada novidade estética: seu novo filme é todo em plano-sequência, sem cortes. Outro inglês, o mestre Alfred Hitchcock já havia feito isso em “Festim Diabólico” (1948), todo filmado dentro de um apartamento. Ao levar a ousadia técnica levada a campo aberto, Mendes foi agraciado com o Globo de Ouro de melhor diretor em 5 janeiro. É sempre um forte indicativo ao Oscar, que será entregue em 9 de fevereiro.

Samuel Johnson

Sem spoiler, o final de “1917” é sensível e revelador. No que lembra o epílogo de um dos maiores filmes de guerra já feitos: “Glória Feita de Sangue” (1957), baseado em fatos reais da mesma I Guerra Mundial e dirigido pelo mestre estadunidense Stanley Kubrick. Que nele imortalizou no cinema um dito do pensador inglês Samuel Johnson, tão pertinente ao Brasil e ao mundo de hoje: “O patriotismo é o último refúgio dos canalhas”.

 

“PARASITA”

Mas a grande novidade entre os indicados a melhor filme é mesmo “Parasita”. Nas desigualdades sociais inevitáveis do sistema capitalista, mesmo em um país tido como um seu exemplo positivo, como a Coréia do Sul, é difícil saber quem melhor batiza o título do filme. Seria a família pobre de embusteiros — ao melhor estilo do clássico “Feios, Sujos e Malvados” (1977), do mestre italiano Ettore Scola, morto ontem (aqui) há exatos quatro anos? Ou a família rica, fútil e elitista que a primeira inveja e engana para servir? Na dúvida, a crítica contundente ao capitalismo não peca por maniqueísmo, já que o regime comunista e oligárquico da vizinha Coréia do Norte também é exposto ao ridículo devido.

Questão emblemática desde sempre no conceito marxista da “luta de classes” — que o excelente roteiro sul-coreano não busca nivelar no proletariado, apenas tomar o lugar do patrão —, o “cheiro do povo” tem sua universalidade independente de Ocidente e Oriente, hemisférios Norte ou Sul. É ele que ativa o turning point contundente da história, ao transformar uma comédia na mais extremada tragédia. Tragédia no sentido grego do termo, que não serve de base ao Extremo Oriente, não de fazer tragédia. De fato, esse “cheiro do povo” evoca uma frase marcante de um bom filme brasileiro, “Linha de Passe” (2008), dirigido por Walter Salles Júnior e Daniela Thomas, sobre desigualdades sociais muito semelhantes: “Olha pra minha cara, porra!”.

Com suas surpresas subterrâneas, “Parasita” talvez seja um filme ainda mais revolucionário e marcante do que o frenético “Oldboy” (2003), de Park Chan-wook. Foi com ele, numa leitura oriental de Tarantino em suas bases no cinema de kung-fu de Hong Kong, que a Coréia do Sul impactou o mundo do cinema no novo milênio. Se não dedicado à violência estilizada de “Oldboy”, o sangue derramado em “Parasita” pode chocar ainda mais. Tanto quanto a antológica cena da jovem e bela mulher sentada sobre a privada que regurgita esgoto durante uma inundação no porão onde habita, enquanto fuma seu cigarro “mentolado” de fezes. E é choque necessário para tirar o espectador de classe média da sua zona de conforto, em qualquer parte do mundo.

Thomas Hobbes

Igualmente sem spoiler, talvez ainda mais que “1917” o(s) final(is) de “Parasita” não precisa(m) de código Morse para entregar sua mensagem. No filme sul-coreano, o “inimigo” é visceralmente humano. Como quem está sentado na poltrona do cinema.

“1917” é um filme sobre honra e altruísmo. “Parasita” é sobre falta de honra e ambição. Faces da mesma humanidade, não por coincidência ambos são também sobre família. E sobrevivência.

Entre comédia e tragédia, o parasita real do filme sul-coreana é revelado em outro dito, de outro pensador inglês. Que serve também aos campos de batalha reais de 1917. Como sentenciou Thomas Hobbes em seu clássico “Leviatã”: “O homem é o lobo do homem”.

 

Confira abaixo os trailers dos dois filmes candidatos ao Oscar em cartaz no Kinoplex Avenida:

 

 

 

Vera Magalhães — Sociedade risca uma linha no chão ao governo Jair Bolsonaro

 

Ex-secretário de Cultura do governo Bolsonaro, Roberto Alvim, em seu pastiche do ministro da Propaganda nazista de Hitler, Joseph Goebbels

 

 

Jornalista Vera Magalhães

Mudança x concessão

Por Vera Magalhães

 

Como tudo no Brasil de hoje, o filme Dois Papas foi tragado pela polarização rasa e redutora que engolfa da política às artes, passando pelo esporte e pelas relações familiares. Direita e esquerda “adotaram” cada uma um Papa, alheias à complexidade de uma Igreja de milhares de anos e aos aspectos sutis da obra.

Numa das cenas mais marcantes do filme, os dois monstros Anthony Hopkins (Bento 16) e Jonathan Pryce (ainda Bergoglio) discutem a diferença entre mudança e concessão. “Eu mudei”, diz o argentino ao Papa, diante de cobranças sobre a revisão que ele fez de dogmas e ritos da Igreja. “Não, você fez concessões”, replica Bento. “Não, eu mudei. É algo diferente.” De fato.

Em mais um episódio de espantosa gravidade, o País foi dormir na quinta-feira e acordou na sexta assombrado por um pesadelo: num vídeo de composição macabra, o então secretário nacional de Cultura, Roberto Alvim, recitava com excitação indisfarçada e olhos vidrados um texto com trechos copiados de Joseph Goebbels, o mais fanático dos ideólogos do nazismo, que foi com Hitler até o final e morreu e matou a mulher e os seis filhos para não fazer nenhuma concessão e não abdicar da ideologia mortífera que ajudou a implementar.

A reação foi avassaladora, mas não unânime. Num sinal de deterioração profunda do tecido social, houve quem defendesse o discurso tresloucado de Alvim pela necessidade de uma cultura que ou será nacional ou “não será nada”, alinhada aos valores cristãos e da família, e lamentasse sua demissão. Outros contemporizaram, celebrando a “rapidez” com que o presidente demitiu Alvim. E é aqui que entra a diferença entre mudança e concessão a que aludi no início do texto.

O presidente de fato se indignou com o que o auxiliar disse? Não, de forma alguma. Menos de 24 horas antes de demiti-lo e poucas antes de ele publicar sua ópera bufa, Bolsonaro o saudou numa das lives semanais – também elas obra da estética autoritária do bolsonarismo, não nos enganemos – como o redentor da cultura nacional. Finalmente, disse o presidente do Brasil, tínhamos um secretário da Cultura digno do posto. E ali Alvim já desfiava sua política cultural sectária, anunciando um prêmio que contemplaria apenas os alinhados com o regime.

Bolsonaro mudou entre os dois atos, o da louvação e o da demissão? Não, fez uma concessão. A contragosto, momentânea. Que não muda o caráter francamente autoritário de seu projeto de poder para a educação, a cultura, a política externa e os costumes, para ficar em poucas áreas.

Na manhã de sexta o presidente ainda relutava em rifar Alvim. Tanto que a primeira nota do Palácio diz que ele já havia se explicado, e o fã de Goebbels se pôs a dar entrevistas em que reiterava o conteúdo da frase copiada. O que levou Bolsonaro a fazer sua concessão foi a evidência de que a comunidade judaica, aliada política importante de seu projeto, não aceitaria uma demonstração tão violenta de antissemitismo vinda de um auxiliar direto do presidente.

Portanto, não haverá mudança. As manifestações racistas, autoritárias e francamente persecutórias a vários setores da sociedade continuarão vindo diariamente do presidente e da ala ideológica do governo.

Mas foi riscada mais uma linha no chão. A sociedade não tolerará mais esses arroubos e nem as tentações de aparelhar e tutelar a vida nacional num projeto que é tudo, menos liberal e democrático. Quantos e quais setores ainda estarão dispostos a fechar os olhos para essa evidência em nome da política econômica é algo que será definidor dos próximos anos.

Mas Bolsonaro foi avisado: pode xingar, ofender, tentar calar a imprensa, que não vai adiantar. Ele não vai mudar. Mas terá de fazer concessões. É democracia que chama.

 

Publicado aqui no Estadão

 

Arthur Soffiati — Rio Paraíba do Sul morre em vão na poluição do Grande Rio

 

Poluição do rio Guandu, que recebe 2/3 das águas desviadas do rio Paraíba do Sul, causando o fechamento da sua foz e o avanço do mar em Atafona

 

 

Arthur Soffiati, ecohistoriador

A morte em vão do Paraíba do Sul

Por Aristides Soffiati

 

Se um doador de sangue perde 2/3 numa transfusão em benefício de uma pessoa que não precisa tanto assim, o doador morre em vão, pois o receptor, além de receber mais sangue do que o necessário, é um contumaz consumidor de drogas pesadas que contaminam o organismo. Um provérbio chinês diz: “Um peixe mal preparado deu sua vida em vão”.

Pela barragem de Santa Cecília, o antigamente pujante Paraíba do Sul doa 2/3 do se sangue ao pequenino rio Guandu a fim de abastecer a cidade do Rio de Janeiro com água potável. A grande estação de tratamento de água (ETA) do Guandu aproveita menos da água que é transposta. Ela é também usada pelas indústrias instaladas na bacia do Guandu, além de ser intensamente poluída por esgoto urbano e por rejeitos industriais. O sangue do Paraíba do Sul oferecido aos cariocas está saindo com cheiro, cor e gosto não correspondentes à água potável. A Cedae, que faz o tratamento, contudo, garante que o sangue é bom.

Cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) alertam sobre a grande poluição que sofre a bacia do Guandu por lançamento de esgoto e resíduos industriais. Esses dejetos provocam o acúmulo de matéria orgânica em decomposição, que estimula a produção excessiva de cianobactérias, principalmente. Elas geram geosmina e o 2-metilsoborneol, que conferem odor e sabor à água. Mas ninguém fala de onde vem a água do Guandu.

 

Foz do rio Paraíba fechada entre o antigo Pontal de Atafona e a antiga ilha da Convivência (Foto: Divulgação)

 

Mapa registra o que o mar ja levou de Atafona, desde que o desvio do rio Paraíba para o Guandu começou na barragem de Santa Cecília, em 1952

Em resumo, o Paraíba do Sul cede dois terços do seu sangue para que ele seja poluído no Guandu e maltratado pela Cedae. Todos perdem: o Paraíba do Sul quase morre depois da transfusão e a população do Rio de Janeiro recebe água de má qualidade. Mais ainda: a transposição de água do Paraíba do Sul em Santa Cecília fragmentou o rio em dois. Atualmente, o primeiro Paraíba do Sul nasce na Serra da Bocaina, como aprendemos nos livros de geografia, mas desemboca agora na baía de Sepetiba através do rio Guandu. A nascente do segundo coincide com a nascente do Paraibuna de Minas e foz em Atafona. Essas novas informações precisam ser divulgadas. Os dois Paraíba do Sul são ligados por uma vala estreita e poluída entre a barragem de Santa Cecília e a cidade de Três Rios, onde o Paraibuna de Minas e o Piabanha, desembocam no Paraíba do Sul II.

Em 1785, o capitão-cartógrafo Manoel Martins do Couto Reis informava que a foz do Paraíba do Sul era problemática para a entrada e saída de embarcações. Era preciso esperar a maré alta e os ventos favoráveis para navegá-la. E, nessa remota data, a bacia do Paraíba do Sul era coberta por vastas florestas, não tinha suas margens tão ocupadas por lavouras e pastos, não era densamente urbanizada nem tinha os leitos dos rios barrados para a geração de energia elétrica e para outros fins. Sobretudo, não tinha 2/3 de suas águas transpostos para outro rio.

A bacia hoje sofre muitos problemas. O mais grave deles é, sem dúvida, a transposição de Santa Cecília. Com a perda de vazão, na foz, o equilíbrio já instável entre mar e rio tornou-se mais acentuado. O aproveitamento do antigo rio Água Preta para a abertura do canal do Quitingute desativou os braços auxiliares de Grussaí e Iquipari. O conjunto das obras de drenagem desativou também a lagoa do Açu. Todos integravam o grande delta do Paraíba do Sul. Nas estiagens, o rio desaguava por dois braços: o de Atafona e de o de Gargaú. Nas enchentes, por cinco. Atualmente, apenas pelo de Gargaú. O de Atafona se fechou por insuficiência do rio em mantê-la aberta e por força do mar em fechá-la.

E a água transposta para o Guandu está sendo muito poluída pela urbanização desordenada e pelas indústrias. A estação de tratamento do Guandu carece de reformas e de modernização. A despoluição do Guandu está orçada em R$ 1,4 bilhão. Entende-se que a cidade do Rio de Janeiro não tem fontes de abastecimento para consumo público e não pode mais prescindir do rio Guandu. Por extensão, a cidade não pode mais viver sem o rio Paraíba do Sul. No entanto, o sangue que o Paraíba transfunde para o Guandu está sendo contaminado e não agrada os consumidores de água da cidade do Rio. O sistema deve ser repensado. O uso das águas do Paraíba do Sul deve ser otimizado em todos os lugares onde é usada. A cidade do Rio de Janeiro deve pagar royalties pela água que usa do Paraíba do Sul. O volume transposto deve ser reduzido e otimizado. Entende-se que houve descuido e desprezo com o Paraíba e com todos os rios do Brasil no passado e ainda no presente. Já passou o momento de um grande trabalho conjunto de revitalização.

Segundo a ONU, dois terços dos rios do mundo estão barrados. Eles não correm mais livremente. Não têm mais o mesmo volume. Revitalização não é uma simples proposta de ambientalista, mas uma premente necessidade econômica e social.

 

Publicado hoje (19) na Folha da Manhã

 

Mérida e Bruno conseguem R$ 10 milhões do RJ para Saúde Pública de Campos

 

Bruno Dauaire, Marcelo Mérida, Edmar Santos e Wilson Witzel (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

No último dia 23, o empresário e presidente do PSC em Campos, Marcelo Mérida, revelou (relembre aqui) ao blog que ele e o deputado estadual Bruno Dauaire (PSC), haviam conseguido junto ao governo estadual Wilson Witzel (PSC) a liberação de R$ 10 milhões para a Saúde Pública do município, ainda para o ano de 2019. E, naquele mesmo dia, saiu o repasse no valor anunciado pelos dois políticos da região: Mérida é pré-candidato a prefeito de Campos, enquanto Bruno é líder do partido do governador na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj).

A articulação foi feita pelo deputado junto ao secretário estadual de Saúde Edmar Santos. Mas a informação só foi repassada hoje. Confira abaixo a data, o valor e o beneficiado, a Fundação Municipal de Saúde de Campos, na ordem bancária do governo estadual:

 

 

Rossi fala do Teatro de Bolso e em “trevas” na cultura nacional com Bolsonaro

 

Fernando Rossi falou da cena cultural de Campos e de “trevas” na cultura nacional com o governo Jair Bolsonaro (Foto: Cláudio Nogueira – Folha FM)

 

“A gente vê e está vivendo um momento muito complexo. Os ataques (do governo Jair Bolsonaro, sem partido) à cultura são evidentes. Você vê diversos espetáculos e exposições sendo censurados. Inclusive teve uma música do Arnaldo Antunes (“O Real Existe”) que não pôde passar em um determinado canal (TV Brasil, do governo federal). Então a gente vê um momento muito difícil, revanchista até. E isso já era previsto. A gente já esperava que isso pudesse vir a acontecer. E a gente vai viver esse momento que eu considero de trevas. É difícil. E a posição do artista é de resistência mesmo. Diante das situações, dos ataques e da falta de discernimento da importância da cultura”.

Foi assim que o diretor teatral e do Teatro de Bolso (TB) Procópio Ferreira, Fernando Rossi, abriu sua participação no Folha no Ar 1ª edição, no início da manhã de hoje (17). No estúdio da Folha FM, ninguém ainda sabia da reprodução na noite anterior (16), do discurso de Joseph Goebbels, ministro da propaganda da Alemanha Nazista de Adolf Hitler, pelo secretário de Cultura do governo Bolsonaro, Roberto Alvim. Em vídeo gravado ao som da ópera “Lohengrin”, de Richard Wagner, compositor preferido dos nazistas, Alvim repetiu trechos da fala de Goebbels, registrados no livro “Joseph Goebbels: Uma Biografia”, do historiador alemão Peter Longerich. Antes do repúdio generalizado gerar hoje a demissão de Alvim, Bolsonaro tinha feito uma live, também na noite de ontem. Nele o presidente disse ao seu então secretário de Cultura: “Alvim, você é a cultura de verdade no Brasil”.

Além do contexto nacional, cuja crise acabou antecipando logo em sua primeira fala, Fernando Rossi também falou no segundo bloco sobre que fez à frente do Teatro de Bolso, desde a sua reabertura no governo Rafael Diniz (Cidadania), em 28 de março de 2017. E do que pretende fazer neste ano de 2020:

— Com relação ao Teatro de Bolso, que a reabertura eu recebi como missão do prefeito Rafael, o que tenho feito nestes três anos é cumprir aquilo que ele me propôs: aquele espaço ser a casa do artista local. E desde a sua reabertura (em 28 de março de 2017) a gente tem feito isso, dando espaço a todas as vertentes. Você sente ao longo desses três anos o que existe de produção cultural em Campos e como o público está reencontrando o seu velho Teatro de Bolso, lotando as produções todo o final de semana. E também atividades durante a semana. Para quem não sabe, a gente tem uma parceria com a secretaria de Educação, com o projeto EPA, Escola de Práticas Artísticas, para as crianças e adolescentes das escolas públicas municipais. Também mantivemos o Curso Livre de Teatro, sob a coordenação do (ator) Pedro Fagundes. Em termos de público, em 2017, nós tivemos 7.544 espectadores. Em 2018, 10.949. Então foi crescendo o número de público e de produções. Essa promessa, o prefeito Rafael Diniz (ainda como vereador de oposição), fez aos artistas que ocuparam o Teatro (no movimento “Ocupa TB”, no final do governo Rosinha Garotinho). E o Teatro de Bolso foi reaberto, cumprindo a promessa que ele fez à classe artística.

Apesar de relembrar o cumprimento de promessas do governo qual faz parte, Fernando não se furtou em propor a autocrítica pela maneira como o município deixou, em cima da hora, de ser parceiro do Festival Doces Palavras! (FDP!). Mesmo sem o apoio do poder público municipal, por conta da crise financeira, o evento foi realizado em novembro:

— Algumas coisas têm que ser revistas, tem que fazer uma autocrítica em relação a posturas. O que poderia ter sido feito? Mas é lamentável que, tão bacana nas edições anteriores, e dessa vez não ter tido essa participação. Vamos ver agora também, a situação como está, como é que vai ser a Bienal do Livro deste ano. A questão do FDP! é ruim, é péssima. Isso deveria ser revisto, realmente (a desistência do governo) foi anunciada muito em cima. As pessoas merecem respeito. Eu, enquanto artista, acho que todos nós merecemos respeito.

 

Confira abaixo em vídeo os três blocos da entrevista com Fernando Rossi no Folha no Ar:

 

 

 

 

Folha no Ar — Antropóloga campista vê “esquizofrenia social” no bolsonarismo

 

Antropóloga campista e professora da UFRR, Manuela Cordeiro hoje no Folha no Ar (Foto: Cláudio Nogueira – Folha FM)

 

“O que eu acho exasperante é a esquizofrenia social, é a falta de capacidade argumentativa das pessoas hoje. É você falar ‘banana’, a pessoa responder ‘lâmpada’ e ficar nisso. Sobretudo quando você fala do seu posicionamento político, ou do fato de ser antropóloga, as pessoas já ficam assim: ‘Ah, o que vai vir da boca dessa menina não presta’. Não é uma crítica a uma filiação partidária ou outra, ou de um programa de governo neoliberal ou progressista. É o fim de consensos mínimos. Quando se discute se a Terra é ou não plana, tudo é possível. Não é possível estabelecer diálogo. Não existem mais referenciais básicos mínimos. E qualquer tipo de discussão não faz mais sentido. Isso é a grande perda. O ministro (da Educação, Abraham Weintraub) escreve ‘imprecionante’, fala que universidade é local de balbúrdia, de produção de metanfetamina. Como combater isso? Você fica o tempo inteiro sendo atacado e não faz o menor sentido. É isso e não a orientação ideológica que todo o governo tem”.

Foi como definiu o debate político brasileiro a antropóloga campista Manuela Cordeiro. Graduada em Ciências Sociais na Uenf, há seis anos professora da Universidade Federal de Roraima (UFRR) e de férias na cidade natal, após passar boa parte de 2019 cursando pós-doutorado em Portugal, ela foi a entrevistada no início da manhã de hoje (16) do Folha no Ar 1ª edição, da Folha FM 98,3. Ela também falou sobre o que considera a tentativa de privatização das universidades públicas brasileiras pelo governo federal. E citou como exemplo o programa “Future-se”, lançado pelo ministro da Educação olavista:

— Existem várias questões. Uma delas, que eu poderia falar, é a possibilidade do “Future-se”, que é o programa que vem sendo discutido. Pelo menos na UFRR, está aberto a consulta pública. Esse programa que foi lançado pelo ministério da Educação, ele começa com um vício de origem. Não foi discutida com as universidades a formulação dessa proposta. Uma consulta pública feita depois, quando tudo já está desenhado, é muito diferente de uma construção em conjunto. Se é para a autonomia financeira das universidades, isso acaba sendo uma porta de entrada para outros interesses. Se o investimento for privado para a realização de pesquisas, vai se comprometer o resultado final, que acaba por ter que atender a uma demanda. Quem faz consultoria na iniciativa privada sabe disso. Qual o limite de entrada de capital privado dentro das universidades, que fere de cara a autonomia universitária? O objetivo é ir asfixiando a universidade para se chegar à privatização.

A entrevista com a antropóloga campista gerou muita participação em comentários ao vivo no link do streaming do programa (aqui) na página da Folha FM no Facebook. Muitos feitos por professores universitários como Manuela:

— Contra o “Future-se” só temos uma saída, o fortalecimento da autonomia financeira das universidades! — escreveu o professor Raul Palácio, reitor da Uenf.

— Pertinente a ponderação do prof. Raul, o interesse é maior: querem privatizar as universidades e os IF’s, ou militarizar os pensamentos — acusou Elias Rocha Gonçalves, professor da rede Faetec/Isepam.

— Independente do regime político, por trás dos exemplos dados sobre a universidade e retorno à sociedade estava um projeto de Nação. Penso que as políticas públicas, programas e projetos não devam existir isoladamente — pontou a historiadora Guiomar Valdez, professora aposentada do IFF.

Defensores do governo Bolsonaro também fizeram o contraponto no espaço democrático do Folha no Ar nas redes sociais:

— Assim como foi nessas gestões (do PT no governo federal) que os bancos, a Odebrecht, OAS, obtiveram lucros memoráveis. Isso não foi privatização, mas foi beneficiamento de alguns setores privados — comentou Eduardo Manhães, telespectador do programa pelo streaming.

No grupo de WhatsApp do progama, um debate prévio foi gerado a partir de um questionamento do odontólogo Marco Barcellos. Ele sugeriu que se perguntasse a Manuela como Campos poderia sair da classificação desfavorável no Ibed. Antes mesmo do Folha no Ar, foi solicitamente respondido no grupo pelo secretário municipal de Educação, Brand Arenari. Também ex-aluno da Uenf, seu áudio de resposta foi reproduzido no programa, após a pergunta de Marco ser lida.

 

Confira abaixo os vídeos com os três blocos da entrevista de Manuela:

 

 

 

 

Diretor do TB, Fernando Rossi fecha nesta sexta a semana do Folha no Ar 1ª edição

 

(Arte: Eliabe de Souza,o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta sexta (17), quem fecha a semana do Folha no Ar 1ª edição, na Folha FM 98,3, é o diretor teatral Fernando Rossi. Ele falará sobre os três anos da reabertura de Teatro de Bolso (TB) Procópio Ferreira, cuja direção assumiu desde o início do governo Rafael Diniz (Cidadania), além dos anos de experiência à frente do Teatro do Sesi e da cena cultural de Campos como um todo. Na entrevista também será abordada a polêmica aberta pelo especial de Natal “A Primeira Tentação de Cristo”, do grupo de humor Porta dos Fundos para a Netflix Brasil. Que satiriza Jesus na ficção como homossexual, chegou a ser censurado e depois liberado pela Justiça. Com ataques constantes contra a cultura e os intelectuais, protagonizados pelo bolsonarismo olavista, ele também falará do papel da arte como resistência.

Quem quiser acompanhar ao vivo, pode fazê-lo aqui a partir das 7h da manhã desta sexta, na página da rádio mais ouvida de Campos e região no Facebook.

 

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