Opiniões

Artigo do domingo — O idiota, carnaval, Bolsonaro, PT, impeachment e coronavírus

 

Bolsonaros em sua atividade principal, e de vários brasileiros, durante o caranaval no Guarujá (Foto: @depheliolopes/Instagram)

 

 

O idiota, carnaval, Bolsonaro, PT, impeachment e coronavírus

 

Nelson Rodrigues

“Até então (o séc. 19), o idiota era apenas o idiota e como tal se comportava (…) E o primeiro a saber-se idiota era o próprio idiota. Não tinha ilusões. Julgando-se um inepto nato e hereditário, jamais se atreveu a mover uma palha, ou tirar uma cadeira do lugar. Em 50 mil, 100 mil, ou 200 mil anos, nunca um idiota ousou questionar os valores da vida. Simplesmente, não pensava. Os ‘melhores’ pensavam por ele, sentiam por ele, decidiam por ele. Foi o século 19 que fez do idiota um ser histórico. E, então, aquele sujeito que, há 500 mil anos, limitava-se a babar na gravata, aquele sujeito, dizia eu, passou a existir socialmente, economicamente, politicamente, culturalmente etc. Houve, em toda parte, a explosão triunfal de idiotas”.

O vaticínio é de Nelson Rodrigues. Conservador, anticomunista, jornalista e maior dramaturgo brasileiro — autor de peças de feroz sátira moral, que seriam combatidas pelos conservadores anticomunistas do Brasil de hoje — Nelson morreu em 1980. Só em meados daquela década, quando também se daria a redemocratização do país, surgiria no mundo a internet moderna. Popularizada nos anos 1990, teria seu boom a partir de 2004, com o advento das redes sociais. Maior delas, o Facebook compraria o WhatsApp em 2014, aplicativo criado cinco anos antes.

Umberto Eco

Como todo gênio, Nelson viu antes. Outro, o filósofo, semiólogo e romancista italiano Umberto Eco alertaria em 2015, ano anterior à sua morte, sobre o transeunte dominante da grande via global já pavimentada, entregue e em uso regular: “As mídias sociais deram o direito à fala a uma legião de imbecis que, anteriormente, falava só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel. O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”.

O preâmbulo é adequado à Quaresma de um carnaval em que a esquerda lacradora tentou vender gato por lebre na Baixa Augusta paulistana. Onde uma “índia” branca, pós-moderna e cosmopolita simulou choro pelo uso momesco do “cocar do ‘meu povo’”. Até o cacique Raoni assumir seu lugar de fala em Salvador para despir de qualquer fantasia o estelionato politicamente correto. Que, na iluminação do neopentecostalismo do Leblon, pretendia censurar até o tradicional carnaval da periferia carioca do Cacique de Ramos.

 

 

Mark Lilla, cientista político, historiador e jornalista

Por dividir a população que deveria unir para chegar ao poder, a pauta identitária tem se revelado uma bola de ferro acorrentada ao pé da esquerda no mundo. Seu potencial político suicida é denunciado por pensadores progressistas, como o estadunidense Mark Lilla, desde (confira aqui) a eleição de Donald Trump a presidente dos EUA em 2016. Quem duvida do seu peso do outro lado da gangorra, foi a reação a ela que no Brasil elevou Jair Bolsonaro, de antagonista de Jean Wyllys no Congresso, a político mais popular do país, ao lado de Luiz Inácio Lula da Silva.

Um exemplo prático? Em 29 de setembro de 2018, mulheres lideraram o primeiro protesto do “Ele, Não!” em ruas e praças de todo o Brasil. Inclusive em Campos. Pesquisa Ibope feita naquele dia e no seguinte, registrou crescimento de Bolsonaro de 18% a 24% no voto das brasileiras. O pragmatismo tático seria ignorado por arrogância ideológica. A resposta das urnas do primeiro turno, oito dias depois, todos conhecem. No segundo, quando Fernando Haddad trocou o vermelho do PT pelas cores do Brasil no material de propaganda, a fatura já estava fechada. Quem entregou a bandeira do país ao adversário, entregou junto o país.

 

“Ele, Não!” na praça São Salvador, em 29 de setembro de 2018 (Foto: Folha da Manhã)

 

Bolsonaro foi eleito por 55,13% dos votos válidos, 39,3% do total do eleitorado. Enquanto mantiver no governo os mais de 30% de bom e ótimo das últimas pesquisas de janeiro, seu impeachment é politicamente improvável. Como alertou Celso de Mello, decano do Supremo, há crime de responsabilidade em divulgar vídeo convocando para protesto contra o Congresso. Mas se for mesmo pedido pelo PT, que pediu quatro contra Fernando Henrique Cardoso, só fortalecerá a bipolaridade política na qual o país chafurda desde 2014. Como provam Fernando Collor de Mello e Dilma Rousseff, presidente só cai se muita gente pedir isso antes nas ruas.

 

Ex-presidentes Fernando Collor de Mello e Dilma Rouseff, depostos pelo povo nas ruas

 

A popularidade do presidente só descerá a ladeira se a economia for na frente. Como, “nunca antes na história desse país”, se deu com Dilma. Depois dela, seu legado de 11,4 milhões de desempregados cresceu antes de cair aos 11,9 milhões anunciados pelo IBGE na última sexta (28). Não dá para torcer por mais. Tampouco pelo coronavírus, que já tem um caso confirmado no Brasil e suspeita até em Campos. Por aqui, a dengue matou e matará muito mais. E quem compra máscara cirúrgica na farmácia não limpa água parada no próprio quintal. Só que, vindo da locomotiva China, a Covid-19 deve frear os vagões da economia mundial.

 

(Inforgráfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Enquanto isso, do outro lado da avenida, os tios e tias do WhatsApp. Que não cabem mais nas fantasias nas quais deitaram e rolaram em outros carnavais. Embora muitos, na surdina faladeira do resto do ano, insistam. Mas agora todos posers da moral, dos bons costumes e dos valores judaico-cristãos. Porque na Sapucaí conquistada pela Viradouro, Bolsonaro foi retratado como palhaço pela Vigário Geral, ridicularizado nas suas “flexões de braço” pela São Clemente e questionado como “Messias de arma na mão”, pela Mangueira.

 

Bolsonaro como o palhaço presidencial “Chega de Mamata”, pela Acadêmicos de Vigário Geral

 

São capazes de acreditar que um vídeo com a facada que definiu a eleição presidencial de 2018 é de 2015. Por quê? Porque seu “mito” afirmou, ora! E, nas redes sociais que Eco disse terem dado “fala a uma legião de imbecis”, se dizem dispostos a ir às ruas no próximo dia 15 contra o Congresso. O mesmo que Bolsonaro precisa para aprovar reformas difíceis, como a administrativa, e tentar soerguer o que o manterá no poder. Não são os militares dos quais, inseguro disso, se cerca cada vez mais. Como sentenciou o ex-fuzileiro naval James Carville, estrategista eleitoral do ex-presidente dos EUA Bill Clinton: “É a economia, estúpido!”

 

James Carville e sua mais célebre sentença

 

No mais, é como anteviu Nelson: “Muitos estranham a violência de nossa época. Eis um mistério nada misterioso. É o ódio do idiota, sempre humilhado, sempre ofendido, sempre frustrado e que agora reage com toda a potência do seu ressentimento”.

 

Publicado hoje (01) na Folha da Manhã

 

Este post tem 5 comentários

  1. Aplausos. Belo texto que pontua ao final o pensamento dos que elegeram o presidente: o insuportável tem limite. O orçamento impositivo que o “parlamentarismo branco” quer praticar, impondo ao governo presidencialista restrições que o impedirá de manter seus projetos, é a causa de tanta grita.

  2. “Como são parecidos os radicais da esquerda e da direita. Dirá alguém que as intenções são dessemelhantes. Não. Mil vezes não. Um canalha é exatamente igual a outro canalha.”
    “Não há ninguém mais bobo do que um esquerdista sincero. Ele não sabe nada. Apenas aceita o que meia dúzia de imbecis lhe dão para dizer.”
    “Ah, os nossos libertários! Bem os conheço, bem os conheço. Querem a própria liberdade! A dos outros, não. Que se dane a liberdade alheia. Berram contra todos os regimes de força, mas cada qual tem no bolso a sua ditadura.”
    “Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos.”

    Viva Nelson Rodrigues! Atualíssimo!

  3. Texto provocativo. Não dá mesmo para falar de Bolsonaro sem falar do PT que o criou. Agora querem pedir impeachment e integrar a oposição responsável ao governo que elegeram? Como o influenciador digital Hobbes Matraca, há condições:

    “Agora a moda dos petralhas é cobrar que os eleitores de centro aceitem o partido como parte de uma frente contra o Bolsonaro. Não só cobram o que ninguém lhes deve, mas o tom também é supimpa: apoiou o golpe! Votou nulo! Arrependam-se! Façam a autocrítica!

    Bem, só falo por mim mesmo, mas só aceito o PT numa coalizão (e em uma posição bem secundária) quando eles aceitarem e declararem o seguinte:

    ‘O mensalão existiu, o petrolão existiu, tudo foi feito pelo Lula, para o Lula e com o conhecimento do Lula. E as pedaladas foram fraude fiscal prevista na lei do impeachment’

    Pronto, aceitando esses fatos, aí dá pra pensar em talvez conversar.”

  4. Texto e reflexões maravilhosos. Porém, os fanáticos e os apaixonados por seus “mitos políticos” que se retroalimentam, praticantes das imbecilidades e idiotices criticadas por Eco e Nelson, a mim me parecem, creio, indispostos à críticas e autocríticas. Há um misto de cegueira e histeria coletivas que surtem as massas inflamadas por seus líderes ou contra os opositores. Estamos fazendo e testemunhando a História. As redes sociais ajudam e ao mesmo tempo atrapalham nas (des) construções de dialogos. É preciso paciência e coragem para lidar com a fúria dos imbecis e a idiotice de analfabetos funcionais e digitais. Há quem prefira guerras todo o tempo. Se fossem só ideológica, menos mal. O ruim é que a cultura de morte e extermínio tem crescido entre brasileiros que sempre foram violentos e intolerantes. Legitimando um presidente eleito com essas características, o Brasil exibe e mostra sua cara. A República não é para amadores e antidemocráticos, mas tem sido.

  5. Enquanto isso no Uruguai…

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