Opiniões

Em tempos de Covid-19, perda de PV foi uma China; a de Provisano, uma Itália

 

Paulo Vitor Cortes Lopes e Sérgio Provisano e o grande legado das suas vidas

Em meio à pandemia da Covid-19, o tempo é de perda. Sempre mais doída quando próxima, independente do mundo ou sua nova praga. Já escrevi mais do que gostaria que nada evidencia o tempo passando pela nossa vida, do que quando ele deixa de passar pela vida de quem nos servia de referência.

Paulo Vitor Lopes e Sérgio Provisano eram dois amigos queridos. Professor de educação física, o primeiro morreu precocemente de infarto aos 49 anos, na noite do último sábado (21).  O segundo, professor, artista e programador visual, faleceu aos 67 anos na madrugada de hoje (24), no Hospital Geral de Guarus, onde estava internado há uma semana com complicações renais e de diabetes.

Conheci Paulo Vitor, o PV, pela alcunha de Aranha. Era 1987, quando cursávamos o antigo segundo grau, hoje ensino médio, no Auxiliadora. Ele era um hábil boleiro, que demonstraria seu talento naquele final dos anos 1980 e início dos anos 1990, nas disputadas peladas da AABB. Hoje sede da Fundação Municipal de Esporte, nas últimas décadas do milênio passado serviu de ponto de encontro para uma geração de adolescentes e jovens da classe média goitacá.

A amizade com PV se estreitaria também nos verões de Atafona. Mesmo com repertório escasso de algumas músicas de pop-rock, tinha seus status reforçado entre uma galera que nele tinha seu único violeiro. De lá para cá, como para o resto da vida, sempre que ouvir “Paisagem da Janela”, “Não Chores Mais” ou “Maluco Beleza”, lembrarei com saudade daquele entorno de três décadas atrás, expresso na voz e violão de Aranha. Até mais do que nas de Lô Borges, Gilberto Gil ou Raul Seixas, intérpretes canônicos das suas respectivas canções.

Em 14 de março de 2011, essa mesma turma de jovens dos anos 1980 teria outra perda precoce. O engenheiro Marcos Ribeiro Gomes, aos 37 anos, não resistiu aos traumas internos provocados por um acidente de carro. No dia seguinte à sua morte, publiquei um texto na Folha, republicado virtualmente aqui, dois dias depois, neste blog. Nele lembrei de quando, como e com quem comunguei a primeira noite ébria virada da minha vida. Foi em um verão de Atafona de 1989. Tão longe e tão perto.

Abandonados pelos demais amigos, ficamos apenas Paulo Vitor, Marcos e eu, à beira do Paraíba do Sul. Com Aranha repetindo as mesmas músicas em voz e violão, madrugada adentro, Marcos e eu fazíamos o que podíamos no backing vocal. Nos intervalos, identificamos e resolvemos todos os problemas do mundo, entre um gole e outro de cerveja.

No resgate dessas memórias, registrei também como soube do acidente de Marcos na mesma Atafona de 22 anos atrás. Coincidência ou não, coube a PV ir à minha casa avisar. O fez antes de desabar lentamente até o chão, costas apoiadas no portão. E, dos seus olhos perdidos ao nada, começaram a minar água. Como da chuva que cairia forte logo depois, sobre a estrada rumo a Campos. Na qual fui avisado por celular que Marcos tinha acabado de morrer.

Com a morte agora de Aranha, quiseram as fiandeiras do destino que hoje restassem apenas duas testemunhas vivas daquele rito de passagem cumprido na escuridão, iluminada de lua e das brasas de cigarros precoces, até o sol nascer. O Paraíba e eu nos lembramos bem. E a saudade que fica é imensa. Maior que o oceano onde o rio deságua.

Entre tantas histórias, como não lembrar da sua aprovação no curso de educação física da antiga Universidade Gama Filho? No típico método “pauloviteano” de ser, ele levou um dado à prova do vestibular. E, jogando-o sobre a carteira, marcava o resultado nas questões de múltipla escolha.

Seja como for, PV passou. E se tornaria depois um excelente professor de educação física. Não só pelo talento natural aos esportes, como pelo jeito afável com crianças, dom que nenhum vestibular é capaz de medir.

Pouco antes de nascer meu único filho, hoje homem de 20 anos, promovi um “chá de beber” com amigos. Ao qual o hoje falecido Edvar Freitas Chagas cedeu gentilmente sua casa em Atafona. Foi entre o final de junho e o início de julho daquele inverno de 1999. Estação na qual o balneário sanjoanense fica, à noite, por vezes coberto de nevoeiro salgado de maresia, como um “fog” londrino.

Com a desculpa do nascimento de Ícaro dali a poucos dias, começamos a beber à tarde e assim rompemos a madrugada. Paulo Vitor sumiu no meio do encontro, sem avisar a ninguém. Mas, banalizado pela convivência, ninguém mais estranhava esse seu estranho hábito. No final, ficaram apenas os “heróis da resistência”: Marcelo Duncan, o Colorau, Leonardo Rosa, o Grilinho, e eu.

No clima propício daquela solidão de meio de ano de uma Atafona pré-Porto do Açu, madrugada alta e fria, em meio ao nevoeiro baixo e completamente bêbados, começamos a contar uns aos outros histórias de fantasma. Eis que, no clima de filme B de terror, um vulto se levanta do canteiro ao lado da piscina, como se brotado da terra. Todos foram tomados de pavor pela aparição repentina.

Grilinho correu e se trancou no banheiro; eu, no quatro. Sem vaga para se esconder, Colorau se arrebentou todo, ralando o peito após pular como um gato apavorado por cima do muro da piscina.

Era Paulo Vitor. Sem que ninguém tivesse percebido, ele tinha apagado mais cedo no canteiro, dormindo escondido entre as plantas, despertando só de madrugada. Passou um tempo conosco, refeitos do susto, do qual demos boas risadas, e depois sumiu de novo. Desta vez sem voltar.

Pela diferença de idade, não tive com Provisano o elemento agregador da geração. Que permite a comunhão das melhores — e piores — histórias do nosso período formativo. Mas ninguém que, como eu, milite em arte e cultura em Campos desde os anos 1990, ou o tenha feito depois disso, deixou de conhecê-lo e reconhecê-lo como referência.

Dono de saber renascentista, reunia duas características raras no mesmo “passante”, como definia a si e ao seu semelhante: era contestador e doce. De cultura sólida, adquirida nos livros, soube fazer bem a transição à superficialidade das redes sociais, conferindo-lhes profundidade.

Militante intransigente da educação, foi lembrado por alguns dos muitos amigos com uma foto abraçado com seus alunos, crianças pobres da rede pública municipal, que amava como filhos. E, abaixo da imagem, um dos seus ditos: “Este educador está de passagem, apenas para dizer que ele quer fazer a diferença e que se orgulha em estar em boa companhia nessa missão”.

Com a missão de ensinar, esses dois professores foram grandes companhias. Estarão sempre aí, fazendo diferença no que somos. E em cada uma das crianças, muitas crescidas, que não passaram em vão por suas vidas.

Em tempos de coronavírus, a perda de PV, o Aranha, foi uma China dentro de mim. A de Provisano, uma Itália.

 

Este post tem um comentário

  1. Emocionante. Como pode um texto molhado por lágrimas. ser enxuto? Pode e como pode, dizendo tudo .

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