Opiniões

Luciane Silva — Quando começaremos a contar os mortos da Covid-19?

 

Caminhões do exército italiano transportam os corpos dos mortos da Covid 19 de Bergamo, com cemitério lotado, ao cemitério de Ferrara (Foto: Massimo Paolone – Lapresse Via)

 

 

Luciane Silva, socióloga e professora da Uenf

Biopoder: quando começamos a contar os mortos?

Por Luciane Silva

 

Para morrer “oficialmente”, é preciso existir para o Estado. Ser enterrado com causa morte e ter uma certidão de óbito que pressupõe uma certidão de nascimento. Se localizarmos a criança dentro da família no século XIII certamente assustaria aos modernos, perceber que o sentimento em relação à infância era muito distinto do cuidado advogado como direito nos tempos atuais. O mesmo vale para pensar mortes por parto e idade média de um trabalhador na Inglaterra no início do capitalismo. As condições de vida, tratadas por Engels em “A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra”, nos informam de famílias vivendo amontoadas sem a menor condição de higiene. Se morria de varíola, de coqueluche, de sarampo.

O que seria um índice desejável de mortalidade infantil no Brasil de 2017? Como analisar casos em estados como Amapá fora de um contexto social que atribua, no momento atual, que o Estado é determinante nas formas de “fazer viver ou deixar morrer”, como apresentado por Michel Foucault em seus estudos sobre medicina, loucura e controle social?

Particularmente quando pensamos o conceito de infância para medir dados fundamentais sobre desnutrição e mortalidade infantil, devemos lembrar de um Brasil profundo. Não estou falando de regiões longínquas nas quais só se chega de barco, tampouco de lugares nos quais não há luz elétrica. Esta é uma visão estereotipada da década de 70, exibida por um veículo que nascia e diferente do rádio, encantava as classes médias urbanas: a televisão que nos faria conhecer um país até então, desconhecido.

O Brasil profundo está na Rocinha, por exemplo, quando crianças não têm registro, não têm documentos. E como comentam alguns moradores “morrem sem ninguém saber”. Pois não foram para escola, não integraram programas sociais que exigissem identificação. E se alvejadas em batidas policiais, terão os corpos enterrados em cemitérios clandestinos. O mesmo vale para o número alarmante de crianças desaparecidas na Baixada Fluminense que estampam nossos contracheques. Quem conta estas mortes e o que elas indicam? Por que não são um problema público a ser considerado?

A importância do serviço público, do Sistema Único de Saúde (SUS), do censo do IBGE, das ocorrências policiais, dos processos de adolescentes em conflito com a lei, dos documentos escolares, de toda a produção feita pelas pesquisas em áreas como a socióloga, medicina social e mesmo nas ligadas a segurança pública e ao direito, consiste em quantificar a vida e suas formas de reprodução. Qualificar a vida e suas formas de ocupar o espaço.

As campanhas de erradicação de fome, da miséria, das doenças e do analfabetismo consistem na construção de um biopoder baseado na vida. Por esta razão as estimativas de quantos serão os atingidos pelo coronavírus, nos levam a pensar em quantos somos, onde estamos e para onde vamos.

A ilusão das soluções individuais cai por terra quando olhamos a situação da Itália. Mas também vemos a ação de Donald Trump ao imaginar uma possibilidade de salvação nacional como se acreditasse em ficções cinematográficas.

Nossa situação atual nos coloca diante de um dilema global e civilizatório. Sabemos que ao longo da história, pessoas com determinadas características (cor, nacionalidade, religião) foram acusadas e em casos extremos, mortas como respostas a diferentes cenários. Recuperar o “tônus moral” de um país em crise ou garantir a reeleição de um presidente impopular são apenas dois deles.

A rápida ampliação da informação de uma “doença que mata velhos” mostra não só o despreparo humanitário com o qual lidamos com o coronavírus. Mostra também nosso desprezo pela lógica. E ambos os casos são gravíssimos para o enfrentamento do problema.

A falta de ação coordenada escancara a crença no fato de que comprando álcool gel, papel higiênico e remédios, podemos manter nossas famílias seguras. Ou seja, a crença na supremacia da ação individual.

No sábado, ao passar pela praça São Salvador, foi possível contar mais de 30 pessoas sob chuva à noite. Certamente elas não estão nestes espaços por escolha própria, embora muitos empreendedores de si, acreditem nisso. O fato é que sem o poder público, em uma ação rápida e humanitária, teremos focos de transmissão em ritmo acelerado. Não por falta de cuidados com a população que acessa mercadorias e pratica o isolamento, mas exatamente com esta parcela que cresce no Brasil e não tem as mínimas condições de praticar as recomendações da Organização Mundial de Saúde.

 

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