Opiniões

José Paes fala de “Kit-Alimentação” e responde a Wladimir. MPF se manifesta

 

Procurador-geral de Campos, José Paes Neto (Foto: Genilson Pessanha – Folha da Manhã)

 

Na manhã de hoje (28) o Folha no Ar com o procurador-geral de Campos, José Paes Neto, esquentou ao final com a intervenção do deputado federal Wladimir Garotinho (PSD). Por WhatsApp, ele confirmou ter denunciado no Ministério Público Federal (MPF) de Campos, no último dia 14, o programa emergencial “Kit-Alimentação”. Com valores questionados pela oposição, foi destinado aos alunos da rede pública municipal, com merenda escolar interrompida pela suspensão das aulas durante a pandemia da Covid-19. A denúncia de Wladimir tinha sido anunciada (confira aqui) no dia anterior (27), pelo jornal carioca “Extra”. E, desde ontem, a demanda foi gerada pela Folha ao MPF local, que confirmou na tarde de hoje. De manhã, já nas despedidas do programa da Folha FM 98,3, o filho do casal Garotinho informou ter feito a notícia-crime contra o governo Rafael Diniz (Cidadania) no MPF. Com pouco tempo para se estender, José Paes garantiu:

— Eu não tenho conhecimento de nenhum inquérito no MPF. Como coloquei ao longo da entrevista, é possível até que exista. E, se existir, a agente vai apresentar todos os esclarecimentos ao Dr. Guilherme Garcia Virgílio. O conheço e tratei de outros temas com ele em relação ao município. É um procurador da República bastante ponderado, equilibrado. E se existir, como o deputado está colocando que existe, a gente prestar todos os esclarecimentos, como já prestou ao Ministério Público Estadual.

Antes da participação de Wladimir por WhatsApp, como ouvinte do programa, José Paes já tinha falado sobre os valores questionados do “Kit-Alimentação”. Matéria da Folha do dia 18 (confira aqui) registou que o contrato com a empresa “Quotidien Comercial Atacadista LTDA” tem valor máximo de R$ 10.184.681,25 e duração de 90 dias. De acordo com a Prefeitura, o município só pagará pelo que for utilizado, dependendo do período de suspensão das aulas. A dúvida foi levantada nas redes sociais por vereadores de oposição, denunciando superfaturamento. O valor médio de cada unidade do kit pago pelo município é de R$ 64,05. Enquanto levantamento da compra similar em três estabelecimentos comercias da cidade, feito pelo jornalista Arnaldo Neto, chegou à média de R$ 42,53.

— Nós não podemos levar em consideração, para saber se o preço é adequado ou não, apenas o preço do produto que está sendo comercializado no supermercado, por exemplo. Tem todo o custo de logística, de embalagem, de pessoal para montar esse kit e fazer a entrega, de frete. Lembrando que são cerca de 53 mil kits e que Campos tem cerca de mais 230 unidades escolares, espalhadas pelo maior município em extensão territorial do Estado do Rio. Isso demanda uma logística que não é simples, ou muito menos barata. Por determinação do prefeito, a empresa abriu sua planilha de preços, para analisar o custo de cada um dos itens e dos custos indiretos, de logística e mão de obra. Há uma série de valores que são agregados ao valor do produto em si, que precisam ser levados em consideração. Não é ir ali no supermercado, comprar o produto e levar para casa.

Além da denúncia feita por Wladimir no MPF, o “Kit-Alimentação” já tinha sido alvo de um inquérito civil do Ministério Público Estadual (MPE) instaurado pela promotora de Justiça de Tutela Coletiva da Infância e Juventude de Campos, Anik Machado. No último dia 20, a Folha noticiou (confira aqui) que o objetivo era apurar denúncia de irregularidade na quantidade, qualidade e distribuição dos kits. No Folha no Ar, o procurador José Paes fez menção também à outra investigação do MPE sobre o caso, na 1ª Promotoria de Tutela Coletiva:

— Quem faz a avaliação da legalidade ou não da contratação, do eventual sobrepreço, é a Promotoria da Tutela Coletiva. Esse inquérito está na 1ª Promotoria de Tutela Coletiva, que vinha sendo exercido por Dr. Marcelo Lessa, porque a promotora titular, a Dra. Olívia (Motta), está em licença-maternidade. Mas essa Promotoria vai ser agora exercida pela Dra. Maristela (Naurath). E esse inquérito foi aberto de forma voluntária, por nós mesmos, da Prefeitura, que encaminhamos cópia integral de todo o processo para que o Ministério Público tivesse ciência e eventualmente apontasse algum tipo de questionamento. O inquérito que há com a Dra. Anik, na Promotoria da Infância, não tem a ver com a apuração se o que está sendo oferecido às crianças atende às suas necessidades nutricionais. Inclusive, a gente já apresentou resposta, juntando os relatórios do setor de nutrição da secretaria municipal de Educação, demonstrando que atende às diretrizes do que está previsto no ministério da Educação.

No primeiro bloco do programa, José Paes também falou no programa sobre isolamento social e perspectivas de flexibilização do comércio (confira aqui) em Campos. Com o segundo dedicado ao decreto de estado de calamidade pública do município (confira aqui), que espera aprovação da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), por conta da pandemia da Covid-19.

 

Atualização às 17h16 para registrar a confirmação do MPF de Campos da denúncia de Wladimir sobre o governo Rafael. Gerada desde ontem pela Folha, a resposta veio na tarde de hoje, via assessoria. Confira abaixo:

 

 

“O MPF confirma. O caso chegou no dia 20/04. O procurador Guilherme Virgílio atuou com o seguinte despacho:

Despacho

Trata-se de remessa de cópia integral do Inquérito Civil nº 18/2020, por parte do Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro, noticiando eventual prática de ato de improbidade administrativa no emprego de verbas do FNDE, para a aquisição de kits alimentares aos alunos da rede pública municipal em razão da pandemia COVID-19 (item 5, pagina 10).

Tendo em vista a conexão de objetos, determino a juntada do presente expediente ao Procedimento Preparatório nº 1.30.002.000075/2020-38.

Campos Dos Goytacazes, 22 de abril de 2020

Guilerme Garcia Virgilio

Procurador da República”

 

Confira abaixo em vídeo os três blocos do Folha no Ar de hoje com o procurador-geral do município, José Paes Neto:

 

 

 

 

Procurador-geral de Campos, José Paes Neto nesta terça no Folha no Ar

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h desta terça (28), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o procurador-geral de Campos, José Paes Neto. Em tempo de pandemia de Covid-19, ele falará sobre as dificuldades de isolamento social e os pleitos do comércio para sua flexibilização, o decreto de calamidade pública do governo municipal e sobre a denúncia da oposição de superfaturamento no kit-alimentação aos alunos da rede pública de ensino, que gerou investigação do Ministério Público Estadual.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça, pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Yorick e Hamlet por Adriano Moura, Francisco de Assis por George Gomes Coutinho

 

Yorick, Hamlet, Francisco, Adriano e George (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Religião e arte numa hora dessas? Sim, para começar bem a semana, segue abaixo a oração de São Francisco de Assis em pugentente versão do George Coutinho, sociólogo, cientista político, professor da UFF-Campos e músico. Acompanhada dos versos de safra recente de Adriano Moura, professor de litetatura do IFF, dramaturgo, ator e “poeta de horas vagas e concursos literários”.

Como cabeças pensantes, no furto ao atacante flamenguista Bruno Henrique, George e Adriano estão em “ôto patamar” na pasmaceira da planície goitacá. E são dois amigos muito queridos.

Nestes tempos difíceis, de isolamento social imposto no mundo pela Covid-19 e com mais um governo federal demoronando no país, que a arte desses dois campistas cumpra sua função: se religar ao mistério, como a religião, para tentar nos salvar.

 

Infância de Hamlet

(Adriano Moura)

 

Ser ou não ser

não é a questão.

Tem de ser.

Entre nascer e morrer,

o intervalo:

onde estão tuas brincadeiras agora, Yorick?

quando recordo que devo morrer,

brinco pra não ser o crânio

com saudade.

 

 

 

Agente federal fala de tutela política da PF e saída de Moro no Folha no Ar desta 2ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h desta segunda (27), o convidado do Folha no Ar, na Folha 98,3, será o agente da Polícia Federal de Campos Roberto Uchôa. Diretor da Associação dos Escrivães da Polícia Federal (ANEPF), ele falará sobre a tentativa de tutela política do comando da PF, além da ruidosa saída do governo Jair Bolsonaro (sem partido) do ex-juiz federal e agora ex-ministro da Justiça Sérgio Moro, que fez graves denúncias contra o presidente.

Uchôa também analisará as investigações federais sobre suspeita de “rachadinha” na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), sobre as fake news geradas e disseminadas pelo chamado “gabinete do ódio” presidencial, e sobre o financiamento e a organização das manifestações antidemocráticas contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Congresso Nacional. Que estariam próximas dos três filhos do presidente: o senador Flávio (Republicanos), o deputado federal Eduardo (PSL) e o vereador carioca Carlos Bolsonaro (Republicanos).

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta segunda, pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Mulheres, homens, rostos e histórias na linha de frente entre você e a Covid-19

 

Capa da Folha da Manhã de hoje (26)

 

 

(Foto: Folha da Manhã)

“Nós poucos, nós felizes e poucos, nós, bando de irmãos”

(“Henry V”, ato IV, cena III, William Shakespeare)

 

O soldado de bronze da estátua da Praça do Santíssimo Salvador homenageia os campistas que atravessaram o Oceano Atlântico para lutar contra a Alemanha nazista na II Guerra Mundial (1939/1945). Que foi lembrada pela atual chanceler alemã, Angela Merkel, como a mais grave crise vivida pela humanidade nos últimos 75 anos, até a pandemia da Covid-19. Nela, o inimigo não se anuncia com uma suástica. Invisível aos olhos que pode fechar para sempre, o Sars-Cov-2, mais conhecido como novo coronavírus, veio da China e depois da Europa. E atravessou oceanos para chegar a nós, mais rápido que qualquer exército invasor. Contra ele, os soldados na linha de frente também são outros: os profissionais da saúde. Mas, diferente da idealização do bronze das estátuas, quem são essas mulheres e homens de carne e osso que arriscam as próprias vidas para salvar outras, no combate à Covid-19 em Campos? Como veem o inimigo e a si mesmos? Têm medo? O que os motiva a seguir em frente?

Jaqueline Santos, fisioterapeuta intensivista do CCC de Campos

— Vejo, a nós, profissionais de saúde, como soldados escolhidos pra lutar contra um inimigo invisível. Para mim, o momento mais marcante até agora foi quando participei da primeira intubação do primeiro paciente com o diagnóstico de Covid-19 confirmado na nossa UTI. Naquele momento o paciente estava segurando a minha mão. Eu falei com ele que íamos fazer um procedimento e ele me perguntou se isso iria aliviar as dores. E até a sedação fazer efeito, ele ficou segurando na minha mão. É um momento de tensão, porque ao mesmo tempo que temos que tomar decisões importantes, temos que manter a calma para que tudo ocorra bem e passar essa tranquilidade também ao paciente. E não o ver como fonte de contaminação. É uma pessoa necessitando dos seus cuidados. Minha família, no primeiro momento, ficou em pânico. Chegaram até a pedir para que eu me demitisse do hospital. Mas hoje eles compreendem e me dão força pra passar por esse momento — testemunhou Jaqueline Santos, de 38 anos, fisioterapeuta da UTI do Centro de Controle e Combate ao Corononavírus (CCC) de Campos, no Hospital Beneficência Portuguesa.

Sara Lucas, médica do CCC de Campos, do HFM e de SJB

— O desejo de ajudar é mais forte que o medo de me contaminar. Fiz medicina para cuidar do próximo. Não me ocorreu em nenhum momento “fugir” do front. As outras patologias continuam a existir e temos que nos atentar a elas. Nem tudo é Covid-19, mas ela ainda é um desafio para todos da saúde no mundo, ainda sem muita clareza de conduta protocolada mundialmente. Muita informação chega até nós a todo minuto. Estamos em constante estudo. Há por parte da maioria dos colegas um sentimento de união para tentar não chegar ao caos como em outros países. Todos somos de igual importância para que tudo flua corretamente e que não haja perda de paciente nem “baixas” nas equipes por contaminação. Um médico não consegue trabalhar sozinho. É imprescindível a segurança, a recepção, o maqueiro, a limpeza, a administração, a enfermagem, a epidemiologia, a fisioterapia, a equipe da nutrição, o serviço social pra familiares. Não me vejo nem um pouco como heroína. Nem pretendo ser — ressalvou Sara Lucas, 32 anos, médica clínica e radiologista do CCC de Campos, Hospital Ferreira Machado (HFM) e de emergência em São João da Barra.

Aline Sinffitelli, enfermeira da Santa Casa e do CCC de Campos

— Definitivamente não estávamos preparados para lidar com uma pandemia, lidamos com o desconhecido. Apesar dos testes em andamento com vários remédios, ainda não existe um tratamento oficial contra a Covid-19. A enfermagem está na linha de frente no atendimento à pacientes suspeitos ou confirmados dessa nova doença; esta é uma realidade. O dever de atualização de protocolos junto à gestão de enfermagem, realizar treinamentos constantes e garantir que os funcionários estejam preparados para prestar atendimento a esses pacientes. A disponibilidade de equipamentos de proteção individual (EPIs) é nossa aliada, sendo primordial seu uso correto. Os maiores índices de contaminação em todo o mundo são durante a retirada dos EPIs. O risco de contaminação existe e é constante para todos nós. Questionamentos diários acontecem, pois estamos cercados de informações verdadeiras e falsas a todo o tempo na web. Estamos expostos diariamente. A equipe de enfermagem deve estar segura para realizar a assistência — advertiu Aline Sinffitelle, 37 anos, enfermeira coordenadora da UTI da Santa Casa de Misericórdia de Campos e plantonista da UTI do CCC.

Arlan Alteres, administração e serviços gerais da Beneficência Portuguesa

— Tento sempre me colocar no lugar daqueles que estão deitados no leito. Mas tentamos transformar esse receio em forma de nos precaver e ter mais cautela, tomando todos cuidados possíveis para que não nos contaminemos também. A Covid-19 gera medo, pois se trata de um vírus facilmente transmissível. No início fui muito questionado pela família, por conta dessa tarefa que assumimos. Mas, graças a Deus, eles compreenderam e hoje vivo cheio de conselhos, para me proteger corretamente com os EPIs indicados. Tomo todo o cuidado também ao chegar à minha casa. Vejo os professionais da saúde, no meio dessa turbulência mundial, como agentes iluminados por Deus para ajudar aqueles que precisam. Para mim, marcou aquele paciente que veio a óbito. Assim como o colega de trabalho afastado, com a suspeita do coronavírus. É aí que nosso psicológico começar a questionar “poderia ser eu”, pois não estamos livres disso acontecer. Estamos “caminhando sobre um campo minado” — comparou Arlan Alteres, 38 anos, da administração e serviços gerais da Beneficência Portuguesa, onde está instalado o CCC de Campos.

Andrei Azevedo, fisioterapeuta do CCC de SJB e da Santa Casa de Campos

— É um misto de sentimentos saber que a minha ação enquanto fisioterapeuta intensivista é determinante para a vida do meu paciente. Minha família procura compreender e muitas vezes preciso estar ausente para protegê-los. No início da pandemia, a falta de informações e as fakes news desestabilizavam a equipe e todos ao redor. A partir de treinamento, protocolos e acesso aos EPIs, adquirimos equilíbrio emocional. Não somos heróis; quem dera se pudéssemos salvar a todos. Precisamos de condições adequadas, remuneração digna e de mais profissionais. Fui chamada na madrugada para avaliar um paciente que testou negativo para Covid-19. Assim que entrei na ambulância encontrei um homem jovem, forte, com muita falta de ar, que olhou nos meus olhos e pediu para que eu não o deixasse morrer, porque ele tinha filhos pequenos. Ele foi encaminhado à emergência, onde realizamos os procedimentos necessários. Ao amanhecer veio o resultado de um novo teste positivando Covid-19. Em uma semana perdemos nosso paciente para esse inimigo invisível — contou Andreia Azevedo, 40 anos, fisioterapeuta das UTIs do CCC de São João da Barra e da Santa Casa de Campos.

Bruna Lucas, gerente de efermagem da Santa Casa e enfermeira supervisora da Beneficência Portuguesa

— O desconhecido causa insegurança, mesmo que existam vários estudos sobre a doença, ainda não sabemos a dimensão dela. Devemos considerar que os sinais e sintomas variam muito de um indivíduo ao outro, enquanto em outras enfermidades o diagnóstico é mais rápido. Apesar do medo da maioria dos nossos familiares, tenho o apoio hoje de todos. Porém, no começo, tivemos alguns que entraram em desespero. Eu, como profissional de saúde, comecei a educá-los com os cuidados com roupas e sapatos, idas à rua, uso de máscaras e a coisa funcionou. Nos locais que trabalho, estamos todos em prol da qualidade de assistência aos pacientes, sendo eles Covid-19 ou não. Sabemos que passamos por uma época de instabilidade emocional e econômica no nosso país. E se nós, profissionais, não nos apoiarmos, não terá estabilidade que aguentará. Sobre o isolamento social e o fato de não cumprirem, vai gerar um grande colapso nos sistemas de saúde, já que a quantidade de pessoas que precisarão de tratamento será maior do que a demanda de leitos em hospitais — alertou Bruna Lucas, de 36 anos, gerente de enfermagem da Santa Casa e enfermeira supervisora da Beneficência Portuguesa.

Luiz Otávio Barreto médico clínico e nefrologista que leva o serviço de heomidíalise a várias UTIs de Campos

— Todos os dias estou em unidades de terapia intensiva examinando e realizando procedimentos em pacientes que precisam de hemodiálise. Já é uma rotina que exige cuidados contra contaminação bacteriana e viral. Diante de uma doença com alto potencial de contágio, os cuidados devem ser maiores. Mas sabendo que a minha atuação pode fazer diferença entre o paciente viver e morrer, a vontade de ajudar pessoas prevalece sobre o medo. Há diferença por se tratar de uma doença nova, ainda sem respaldo científico robusto sobre o tratamento ideal. Recuperar um paciente de qualquer enfermidade gera satisfação. Mas, de fato, em casos mais desafiadores a sensação é diferente. Na minha vida profissional o momento mais marcante foi quando perdi meu primeiro paciente. Foi triste, mas aprendi muito ali. No atual contexto, o que me marcou até aqui foi a união das pessoas envolvidas na montagem do Centro de Controle e Combate ao Coronavírus. Espero que seja o mais marcante — projetou Luiz Otávio Barreto, 37 anos, médico clínico e nefrologista que trabalha com hemodiálise nas UTIs do CCC e dos hospitais Geral de Guarus (HGG), Santa Casa, Álvaro Alvim e Plantadores de Cana.

Ana Paula Abido, fisioterapeuta intensivista do CCC de Campos e do hospital de campanha de Quissamã

— Não podemos ser afoitos, temos que nos paramentar primeiro. Não adianta eu ajudar ao paciente e me contaminar. Em relação a outras doenças, se forem contagiosas, os cuidados devem ser os mesmos. Por minha família eu não trabalharia de jeito nenhum. Porém eu estudei para isso e tenho dever como profissional da saúde de ajudar ao próximo, principalmente nesse momento. Somos uma equipe bem treinada e tentamos cuidar uns dos outros. Isso é muito importante já que se uma colega se contamina, ela pode contaminar os demais do plantão. Além de ter muito cuidado com a minha paramentação, tento sempre ajudar ao colega e ver se ele está paramentado da maneira correta. Para mim, o momento mais marcante foi quando entrei no leito de um paciente jovem com Covid-19 positivo, ele estava com cateter de O2 e com máscara de procedimento para que não tossisse em cima de ninguém. Apesar de estar totalmente paramentada, o paciente retirou a máscara e começou a tossir em cima de mim. Fiquei muito nervosa — lembrou Ana Paula Abido, fisioterapeuta intensivista do CCC de Campos e do hospital de campanha de Quissamã.

 

Pàgina 4 da edição de hoje (26) da Folha

 

Júlio César Nogueira, fisioterapeuta intensivista do CCC de Campos e do HFM

— O momento mais marcante até aqui foi ver um paciente jovem de 39 anos não conseguir resistir ao Covid-19, deixando sua família e dois filhos pequenos. Tento fazer todos os procedimentos dentro das normas de segurança, não me afobando para exercer minha atuação. Pelo fato de ser uma doença com alta capacidade de infecção, há necessidade de haver maior cuidado e precaução no manejo dos pacientes em relação a toda equipe de atendimento. Tenho total apoio dos meus familiares, mesmo que eles e amigos fiquem apreensivos. A relação com a equipe de trabalho tem sido de muita compreensão e cooperação, onde todos sabem dos riscos que correm. E da necessidade de se prevenirem para que não se contaminem e nem aos próprios colegas da equipe. Como eles, me vejo como um ser humano querendo ajudar o próximo, não como herói. Todos devem fazer sua parte, seja quem estiver na linha de frente, seja quem estiver em casa cumprindo o isolamento social —cobrou Júlio César Nogueira, de 34 anos, fisioterapeuta das UTIs do CCC de Campos e do HFM.

Eduardo Abi-Kair, médico cardiologista e coordenador da UTI do Beda II

— O medo é uma constante, assim como a fé. O que move é a consciência de estar ajudando a maior quantidade de pessoas possível, pacientes e profissionais da equipe, tomando todas as precauções possíveis. E com a certeza que Deus também olha por mim e minha família. Não poderia me dar ao luxo de cruzar os braços e simplesmente não fazer nada nesse período. Sem falar na comoção gerada por ver pacientes acometidos de maneira grave e sendo submetidos a procedimentos invasivos mesmo em seu vigor físico prévio, o que tem mudado muito o perfil de ocupação das unidades de terapia intensiva. Entre família e amigos questionam quais serão os meus planos B, C, D e E para um contágio. Que, ao meu ver, infelizmente irá ocorrer cedo ou tarde. É nesse ponto que os pensamentos ruins vêm: se serei um dos pacientes graves, se minha e esposa, pais irmãos, familiares e amigos serão; quem de nós vai partir. Sou grato a Deus e a todos que saem de casa dando o melhor de si pelo próximo independente da profissão. O mundo mudou e provavelmente não voltará a ser o mesmo — projetou Eduardo Abi-Kair, 34 anos, médico cardiologista e coordenador da UTI do Hospital Dr. Beda II.

Mário Borges, enfermeiro da UTI do CCC de Campos

— Lido diretamente com pacientes de Covid-19, dentro de uma unidade de tratamento intensivo. O equilíbrio entre a necessidade de ajudar e o medo, é ter em mente que poderia ser um familiar meu ali, ou mesmo eu. Isso me dá força para levar adiante a profissão que escolhi, já sabendo que poderia lidar com todo tipo de doença. Mas é um vírus novo, todos estamos aprendendo como lidar com determinada situação, e nos atualizando a cada dia. Recebo todo apoio de familiares e amigos, mesmo que só por telefone já que temos que manter distância por precaução. Estamos trabalhando unidos e com um único propósito: a cura dos pacientes, buscando sempre novos conhecimentos. Vejo os que estão na linha de frente como guerreiros. Quando decidimos entrar nessa profissão juramos o bem estar do paciente em primeiro lugar. E todos estão firmes fazendo de tudo para salvar vidas. O momento mais marcante foi na perda do nosso primeiro paciente vítima de Covid-19 — lembrou Mário Borges, 32 anos, enfermeiro da UTI do CCC de Campos.

Rodrigo Carneiro, médico infectologista do HGG e do Hospital São José do Avaí, de Itaperuna

— Não há diferença entre a recuperação de um paciente com Covid-19 e outra doença transmissível. A satisfação pessoal é proporcional à letalidade da moléstia e existem doenças mais graves. Família e amigos questionam sempre sobre a história natural da pandemia, se está acabando ou ainda vai piorar. A relação com a equipe multidisciplinar é quase sempre muito boa, todos estão muito empenhados em prestar a melhor assistência. Inicialmente o medo se abateu em alguns, mas com treinamentos e o conhecimento do inimigo os profissionais de saúde estão mais tranquilos. Não acho que sejamos heróis. Somos uma classe trabalhadora, pensante e essencial para o bem estar coletivo. Logo no início da pandemia dei o diagnóstico da infecção a um profissional de saúde. Apesar de ser atuante na área, o colega ficou desesperado a despeito de seu quadro ser classificado como “leve”. O medo existe, mas é controlado. Claro que os EPIs adequados devem estar disponíveis para utilização. O que não podemos, em hipótese alguma, é deixar de prestar assistência — pontuou Rodrigo Carneiro, médico infectologista do HGG e do Hospital São José do Avaí, de Itaperuna.

Roseane da Silva, fisioterapeura intensivista do CCC de Campos e do hospital de campanha de Quissamã

— Neste momento não nos cabe o heroísmo, e sim cautela e atenção consigo e depois com os demais. A Covid atingiu toda população, com todas as mídias dando atenção, onde tudo é novo. Mas não deve ser tratada como mais grave ou menos grave que as demais doenças, que ainda possuem uma grande incidência de mortalidade e comorbidades. É gratificante ver o reconhecimento que recebemos nesse momento tão difícil que o mundo passa. Mas ao mesmo tempo lamento, pois precisamos passar por uma pandemia pra que se lembrem que nos hospitais existem pessoas que correm risco 24h por dia, que precisaram se afastar das suas famílias para que outras famílias estejam juntas. Esse reconhecimento deveria ser na mesma proporção que nos expomos, com salários justos, melhores condições de trabalho e respeito. Todos os dias são marcantes, todos os dias somos confrontados. Mas quando me vi em uma situação onde eu poderia vir a ser o paciente, sem dúvidas foi onde me marcou. É você fechar os olhos e tentar ver onde errou e não encontrar resposta — ponderou Roseane da Silva, 26 anos, fisioterapeuta intensivista do CCC de Campos e do hospital de campanha de Quissamã.

Luís Alberto Tavares, médico pediatra do Hospital da Unimed de Campos

— Embora não trabalhe no CCC, não posso negar meu interesse profissional de responder a esta entrevista, uma vez que pelas características epidemiológicas do novo coronavírus. Por trabalhar em uma emergência, acabo lidando diretamente com pacientes suspeitos e confirmados de Covid-19. E pela primeira vez existe um conflito entre a execução do cuidado médico e o medo declarado, ou não, da própria contaminação. E da possibilidade de contaminação dos nossos familiares através de nós. Talvez a maior lição diária da pandemia está sendo perceber que subitamente os profissionais em todas as áreas, e não somente na saúde, perceberam que frente à ameaça comum, estar ao lado um do outro não soma, mas multiplica forças. É uma potencialização jamais antes vista. É compreensível a mitificação do profissional de saúde ocorrer de forma espontânea e generalizada na sociedade, se espalhando nas redes sociais através de textos e cenas emocionantes. Mas acreditem: não há deuses. Há pais, filhos, noivos, namorados; há parentes distantes — esclareceu Luís Alberto Tavares, 60 anos, médico pediatra do Hospital da Unimed de Campos.

Pedro Henrique Monteiro, fisioterapeuta intensivista do CCC de Campos e do hospital de campanha de Quissamã

— Colocar em prática a experiência e o conhecimento da fisioterapia neste novo contexto de pandemia é um misto de emoções. Do medo ao encorajamento de saber que estou contribuindo em um momento tão delicado. Existe diferença, sim, a Covid-19 é algo novo para todos nós e não sabemos como será o amanhã, não sabemos se o que estamos pensando ser realmente é. O que temos certeza é com relação à sua forma de contaminação, para isso redobramos os cuidados. Enquanto fisioterapeutas, ainda são poucos os que reconhecem o nosso trabalho e dedicação. Muitos não sabem o quanto somos fundamentais, principalmente para que os pacientes voltem a respirar sem aparelhos. O momento mais marcante foi quando perdemos o nosso primeiro de Covid. Lembrar que o recebi andando, respirando sozinho, com pequena falta de ar. E, em poucos dias, sem que ao menos pudesse se despedir de seus familiares, evoluiu a óbito. Isso me marcou tanto que só pude imaginar que poderia ser outra pessoa qualquer, como por exemplo a que mais amo — refletiu Pedro Henrique Monteiro, 26 anos, fisioterapeuta das UTIs do CCC de Campos e do hospital de campanha de Quissamã.

Helena Mantovanelli, médica clínica e endocrinologista das UTIs do CCC de Campos e do HFM

— Em tempo de pandemia redobramos os cuidados com EPIs e seguimos em frente para ajudar o próximo como se fosse um familiar nosso. O receio em lidar com doenças infecciosas é o mesmo. Não há diferença entre tratar meningite, tuberculose ou Covid-19. Fazem parte do mesmo grupo de cuidados redobrados que temos que ter com EPIs. Trata-se de uma doença nova e desafiadora, onde existem muitas interrogações. Mas não há heroísmo! Estamos cumprindo nosso papel como médicos e colocando em prática o juramento que fizemos. A medicina vinha caminhando em uma curva descendente de não reconhecimento pela sociedade atual. É gratificante resgatarmos um pouco do reconhecimento que veio se perdendo ao longo dos anos. Quando estamos em uma guerra onde o inimigo é invisível, o coletivo faz toda a diferença e as equipes dos hospitais onde trabalho são coesas e bem articuladas. Todos cumprem seu papel com maestria. Cada um tem sua função e todos fazem a diferença no desfecho — testemunhou Helena Mantovanelli, 39 anos, médica clínica e endocrinologista das UTIs do CCC e do HFM.

 

Fundado em 1875, jornal carioca “Gazeta de Notícias” noticiava as consequências devastadoreas da chegada da gripe espanhola no Rio de Janeiro, em 15 de outubro de 1918

 

Usada sem que muitos se liguem ao seu significado, a palavra pandemia designa uma endemia, uma doença de caráter global. Seu prefixo grego “pan” abarca cada um e a todos. Até a Covid-19, a última que a humanidade enfrentou tinha sido a gripe espanhola. Hoje mais conhecida como Influenza H1N1 e imunizada por vacina, se estima ter matado até 100 milhões de pessoas no mundo, inclusive em Campos, entre 1918 e 1920. A partir do final da I Guerra Mundial (1914/1918), matou mais que ela, antes de saírem da planície goitacá os combatentes de carne e osso contra o nazifascismo na II Guerra, cujo bronze da estátua da Praça do Santíssimo homenageia como heróis. Esta classificação, como seria de se esperar, é negada pelos 16 combatentes da guerra de hoje, ouvidos pela Folha.

Em seu livro “Heróis”, a historiadora cultural, biógrafa e escritora inglesa Lucy Hughes-Hallett dá algumas definições de herói. “Associa-se à coragem, à integridade e ao desdém pelas mesquinhas concessões que permitem à maioria não-heroica ir levando a vida” diz ela no prólogo. Adiante, questiona e justifica o fenômeno social que hoje ocorre com os profissionais de saúde: “Afirmar que a maioria dos ídolos tem pés de barro é uma banalidade; o que é interessante é perguntar por que, sabendo disso, ainda somos fascinados por eles (…) A natureza e a função do herói modificam-se juntamente com a mentalidade da cultura que o produz, bem como as qualidades atribuídas ao herói, os feitos que se esperam deles e seu lugar na estrutura social e política como um todo”. E conclui: “Assim como os heróis são moldados pelo passado, eles, por sua vez, moldam o futuro”.

A Covid-19 não é o primeiro enfrentamento capital da humanidade. E, apesar dos cerca de 200 mil mortos que já deixou no planeta, com o Brasil e Campos em curva ascendente, não será o último. Como é certo que as perdas finais só não serão maiores por conta dos profissionais de saúde que assumem seu papel, com o risco da própria vida, em defesa da vida alheia. Do passado em que foram moldados as mulheres e homens de carne e osso de hoje, para moldar o mundo dos que sobreviverão, o soldado da praça do Santíssimo Salvador lança seu olhar de bronze ao presente. Do tempo dele e lutando do mesmo lado naquela grande crise vencida há 75 anos, Richard D. Winters foi comandante de uma companhia militar dos EUA na Europa, retratada no seriado “Band of Brothers” (“Bando de Irmãos”). Nele, o testemunho real do veterano da II Guerra, morto em 2011, dialoga com um futuro possível aos 16 personagens ouvidos nesta reportagem e seus colegas: “Um dia meu neto me perguntou: ‘Vovô, você foi um herói na guerra?’ E eu respondi: ‘Não, mas lutei em uma companhia de heróis’”.

 

 

Página 5 da edição de hoje (26) da Folha

 

Moro sai e revela: Bolsonaro tenta tutelar a PF. Dilma tentou, não conseguiu e caiu

 

 

Pelo que Moro revelou hoje (confira aqui) em sua saída do governo, Bolsonaro fez o que Dilma até tentou, mas não conseguiu, para tentar permanecer no poder. A tentativa é a mesma: tutelar politicamente as investigações da Polícia Federal. Que em várias frentes chega muito perto dos filhos do presidente, como chegaram antes aos altos escalões do PT.

Se Dilma não fez, e assim mesmo caiu de madura, fica uma pergunta. Com seus novos aliados do Centrão Roberto Jefferson e Valdemar Costa Neto, caídos de podre nos escândalos de corrupção dos governos petistas, Bolsonaro conseguirá se manter no poder?

 

Mais repercussões da fala do promotor sobre Covid-19 pela OAB-Campos e MPRJ

 

Antes da postagem (confira aqui) do pedido de desculpas do promotor de Justiça Marcelo Lessa, pelo excesso ao externar opinião em entrevista à InterTV sobre o atendimento médico dos pacientes da Covid-19, que gerou nota de repúdio da OAB-Campos, o blog entrou em contato com o presidente desta, o advogado Cristiano Miller. Ao ser previamente informado da análise feitas dos fatos, entre o que se considerou erro e acertos do promotor no combate à pandemia em Campos e região, Cristiano estendeu sua avaliação para além da nota emitida ontem (21).

O presidente da OAB-Campos frisou que não se trata de uma disputa da sua instituição com o MP, tampouco com o promotor Marcelo Lessa — “o que verdadeiramente não existe”. E respondeu à análise do blog:

 

Cristiano Miller, presidente da OAB-Campos

“Conforme falamos ao telefone, respeito o seu posicionamento. Contudo, não concordo com a alegação de que a atuação do Marcelo Lessa esteja sendo fundamental no combate à pandemia da Covid-19. Não quero, por evidente, menosprezar todo o esforço do Marcelo. O que questiono é a legitimidade das suas ações. A dedicação e o empenho não podem se transformar em abuso de poder. E, por vezes, essa linha é muito tênue.

Ademais, ainda que haja boa intenção, não podemos nos esquecer da função do MP, que não possui poder decisório. Em vários momentos, e ainda mais numa situação de pandemia, é importante que o MP atue em apoio à sociedade. Mas esse papel não lhe transfere o poder de decidir, no caso, como se Executivo fosse. O fato de o STF ter reconhecido aos municípios a competência para legislar sobre as questões atinentes a esse momento, em especial para restringir a circulação de pessoas, em nada se confunde com o fato de o MP passar a determinar o que pode e o que não pode. E assim o é exatamente por conta do que dispõe a Constituição Federal acerca do papel institucional do MP.

O MP pode e deve opinar, recomendar. Mas cabe a Poder Executivo seguir às recomendações ou não, sem qualquer dever vinculatório.

Enfim, é preciso que tenhamos muita serenidade, para não sermos levados por comportamentos que aparentam comprometimento com o combate à pandemia. E eu acredito nessa intenção. Mas que, ao fundo, podem caracterizar abuso de poder”.

 

Além dos posicionamentos da OAB-Campos e seu presidente, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) também publicou em seu site (confira aqui), desde a noite de ontem (21), uma “nota de esclarecimento sobre o entendimento institucional para fiscalização dos protocolos adotados por profissionais de saúde”, a partir da repercussão das declarações do promotor estadual de Campos à Inter TV:

 

 

NOTA DE ESCLARECIMENTO

Em relação à entrevista concedida pelo promotor de Justiça da 2ª Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva de Campos dos Goytacazes ao RJ InterTV 2, no dia 20/04, sobre escolhas a serem feitas pelos profissionais de saúde no atendimento a pacientes diagnosticados com Covid-19, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), por meio de sua Força Tarefa de atuação integrada na fiscalização das ações estaduais e municipais de enfrentamento à Covid-19 (FTCOVID-19/MPRJ) e do Centro de Apoio às Promotorias de Justiça de Saúde (CAO-Saúde), emitiu nota para dar publicidade ao entendimento institucional acerca dos critérios que orientam os médicos na escolha de prioridade de disponibilização de tratamento com respiradores a pacientes com suspeita de infecção pelo novo coronavírus.

O entendimento institucional é no sentido de que o Ministério Público não detém competência e nem conhecimento para estabelecer aprioristicamente critérios gerais e abstratos para orientar os médicos nessa árdua tarefa. O MPRJ entende que o sistema de justiça não pode se imiscuir, nesse momento, nesta decisão que deve estar calcada exclusivamente em diretrizes técnicas médicas, a serem editadas pelos órgãos competentes.

Após a edição dos protocolos médicos pelo gestor, a atuação do Ministério Público será no sentido de fiscalizar o cumprimento dos atos normativos. O MPRJ descarta qualquer critério de priorização para atendimento a paciente com Covid-19 com base em análises que contenham cunho subjetivo.

Leia aqui a íntegra da nota:

A Corregedoria-Geral do MPRJ informa que instaurou procedimento no âmbito institucional para analisar as condições e as circunstâncias de manifestação proferida por membro do MPRJ à imprensa, na qual anteciparia seu entendimento acerca de fatos por ele apreciados, relativos a atuação de profissionais de saúde. Será analisada possível responsabilidade funcional prevista no estatuto disciplinar do MPRJ. Em mensagem dirigida ao procurador-geral de Justiça, Eduardo Gussem, nesta terça-feira (21/04), o promotor de Justiça reconheceu que a entrevista foi um equívoco e que embora tenha utilizado as dependências do MPRJ, expressou sua opinião pessoal, não sendo nem mesmo detentor de atribuição para atuar nessa área.

Promotor e OAB de Campos na crise da Covid-19 — Erro, virtudes, crítica e desculpas

 

Desde a noite de segunda (20), com a repercussão da entrevista do promotor de Justiça Marcelo Lessa Bastos à InterTV, sugerindo adoção de critérios médicos que privilegiassem o tratamento dos doentes de Covid-19 que cumprem as regras de isolamento social, em detrimento de quem as quebrou e questionou, a polêmica foi inevitável. E tomou conta das redes sociais não em Campos e região, mas até em níveis estadual e nacional.

A repercussão levou a 12ª subseção da OAB de Campos a emitir ontem uma nota de repúdio à posição externada pelo titular da 2ª Promotoria de Tutela Coletiva de Campos. E um dos mais ativos integrantes do gabinete de crise do município para o enfrentamento da pandemia. Contra a qual tem atuado diuturnamente, sete dias por semana, com poucas horas de sono entre eles, em Campos e municípios vizinhos.

Mas não há como não concordar com a conclusão da nota da OAB-Campos: “Inobstante a dedicação e a preocupação demonstradas pelo Promotor de Justiça Dr. Marcelo Lessa Bastos, tais elementos não o legitimam a definir o critério a quem deve ser ou não concedido o direito à vida”. Como não há também como ignorar a hipocrisia, leiga em direito e medicina, de quem usa as redes sociais para pregar contra o isolamento social. Mas agora grita pelo seu direito constitucional de ser atendido, caso seja contaminado por uma doença que se propaga através do contato social.

Todos os que estão na linha de frente contra a Covid-19 em Campos e região sabem da importância de Marcelo Lessa em seu combate. E como toda a população estaria mais exposta à doença, se não fosse o trabalho do promotor. Isso não lhe dá, por óbvio, o direito de sugerir critérios para uma decisão que cabe apenas aos médicos e demais profissionais de saúde. Que, certamente, teriam muito mais trabalho em salvar vidas, sem a coragem, a dedicação e a veemência do titular da 2ª Promotoria de Tutela Coletiva de Campos.

Embora possa ter acertado nas suas ações no combate à pandemia, Marcelo errou no que disse. Mas, como é seu hábito profissional e pessoal, errou pelo excesso. Não pela omissão.

Abaixo, o pedido de desculpas do promotor, seguido da nota de repúdio do OAB às suas declarações:

 

Promotor de Justiça Marcelo Lessa em sua atuação no gabinete de crise contra a Covid-19 (Foto: Folha da Manhã)

 

Marcelo Lessa Bastos — Já me reportei ao procurador-geral (do Estado do Ro de Janeiro, Eduardo Gussem), reconhecendo a inconveniência da entrevista, e prefiro não alimentar mais qualquer tipo de polêmica, em respeito a todas as pessoas e instituições que possam ter de sentido ofendidas, com quem aproveito para me desculpar.

 

 

NOTA DE REPÚDIO

No dia de hoje (21.04.2020), deparamo-nos com uma entrevista (concedida a um canal de televisão e reproduzida por inúmeros outros meios de comunicação), na qual o Promotor de Justiça Dr. Marcelo Lessa Bastos defendeu a “escolha” de pacientes que receberiam atendimento médico em decorrência da COVID-19 deve recair sobre aqueles que estão seguindo as recomendações de isolamento, em detrimento dos demais que, porventura, não estivessem respeitando as mesmas regras de distanciamento social.

Devemos ressaltar, desde logo, que concordamos inteiramente com as orientações das autoridades médicas mundiais, que recomendam o isolamento social no presente momento, em especial para que se consiga controlar o número de pacientes que venham a ser infectados simultaneamente pelo coronavírus, para que, por conseguinte, não haja o colapso no atendimento médico a ser prestado a esses pacientes.

Todavia, por evidente, não podemos concordar com a “sugestão” transmitida pelo aludido Promotor de Justiça na reportagem jornalística antes referida, visto que associar-se a tal pensamento seria desconsiderar toda a trajetória de lutas/conquistas em prol dos direitos humanos, os quais nutre como fundamento a dignidade da pessoa humana.

A situação é delicadíssima e todo o esforço está sendo feito para que não cheguemos ao momento de “escolha” daqueles que serão atendidos. No entanto, caso porventura (e lamentavelmente) esse momento aconteça, em hipótese alguma pode-se validar a opinião de um membro do Ministério Público, por mais respeitável que seja.

A dificílima decisão a ser tomada – no caso concreto que eventualmente venha a ocorrer – deve caber exclusivamente ao profissional médico, que, por sua vez, levará em conta o seu conhecimento técnico acerca da matéria e os princípios norteadores da ética médica.

Inobstante a dedicação e a preocupação demonstradas pelo Promotor de Justiça Dr. Marcelo Lessa Bastos, tais elementos não o legitimam a definir o critério a quem deve ser ou não concedido o direito à vida, razão pela qual a 12ª Subseção da Ordem dos Advogados do Brasil/RJ manifesta o seu repúdio aos comentários e opiniões emanadas pelo referido membro do Ministério Público na matéria jornalística acima mencionada.

Campos dos Goytacazes, 21 de abril de 2020.

Cristiano Simão Miller, presidente da 12ª Subseção da OAB/RJ

Casa do Advogado Rua Barão da Lagoa Dourada, 201 – Pq. Jardim Maria Queirós – Campos dos Goytacazes – RJ CEP.: 28035-211

Tel.: (22) 2726-1200 – E-mail: [email protected] – Site: www.oabcampos.org.br

 

Leia mais sobre o assunto aqui.

 

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