Opiniões

Uma semana depois, Lacen confirma: Hudisson foi 1º morto da Covid-19 em Campos

 

Hudisson e o caminhão que dirigia para sustentar sua família (Foto: Arquivo Pessoal)

 

Após uma semana da sua morte por Covid-19, Hudisson teve sua morte confirmada por Covid-19

O Laboratório Central Noel Nutels (Lacen), credenciado pela secretaria estadual de Saúde, hoje confirmou oficialmente o que o blog foi noticiou (relembre aqui) há exatos sete dias: o caminhoneiro Hudisson dos Santos, de 39 anos, foi o primeiro morto pela Covid-19 em Campos. Casado e pai de dois filhos pequenos, morador do bairro da Penha, ele veio a óbito no último sábado (11), na UTI do Centro de Controle e Combate ao Coronavírus (CCC) de Campos, onde havia sido internado no dia 6.

Desde sua morte, Hudisson vinha sendo contabilizado pela Folha como caso confirmado do novo coronavírus no município, que até ontem (confira aqui) somavam 30. Embora a Vigilância em Saúde do município, por questão de protocolo, o contasse como caso suspeito. Médico intensivista do CCC e um dos seus idealizadores, Vitor Carneiro cuidou de Hudisson. Em entrevista ao Folha no Ar da última quinta (16), na Folha FM 98,3, ele detalhou (confira aqui) como todos os esforços foram feitos para salvar o paciente, inclusive com a cloroquina, remédio anunciado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) como cura para a doença.

Segundo relatos de amigos, Hudisson era uma pessoa quieta e reservada, que vivia para a família e o trabalho. Era muito querido no bairro da Penha, onde residia, não fumava, não bebia e sua obesidade não passava de um excesso de peso, como se pôde constatar em suas fotos. Ele trabalhou por cerca de 4 anos como taxista em Campos, até conseguir o emprego como caminhoneiro em uma transportadora de Vitória (ES). Fez a opção para ter carteira de trabalho assinada e benefícios, buscando dar mais segurança à sua família.

No dia da morte de Hudisson o blog falou com Ivaneide, sua viúva. Ela informou que os dois eram evangélicos e frequentavam a Igreja Batista do Parque Bela Vista. Muito abalada, testemunhou com a voz embargada, em meio ao choro: “Ele era um homem muito bom!”

 

Decidido desde 5º, Campos segue RJ e mantém comércio fechado até dia 30

 

 

As regras de isolamento social e de fechamento do comércio de Campos, à exceção dos setores considerados essenciais, seguirão até o dia 30 deste mês. Com o objetivo de combater a pandemia da Covid-19, é o mesmo prazo mínimo determinado pelo governador Wilson Witzel (PSC) e anunciado desde o dia 13. Que será seguido e publicado ainda hoje (18) em novo decreto municipal de Campos.

A decisão foi tomada em reunião desde a última quinta (16), entre o prefeito Rafael Diniz (Cidadania) e representantes do setor produtivo local, como Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), Associação Comercial e Industrial de Campos (Acic) e Associação dos Comerciantes e Amigos da Rua João Pessoa (Carjopa). Foi por pedido destas instituições comerciais e industriais ao ao prefeito que a extensão do isolamento no município só foi anunciada hoje.

Além de supermercados, farmácias, hortifrutis, armazéns, mercearias, quitandas, açougues, peixarias, lojas de ração e produtos veterinários, de autopeças e borracharias, a novidade é que óticas e comércio de embalagens, fundamentais para o serviço delivery, também terão o funcionamento liberado pelo novo decreto municipal.

 

Rua Marechal Floriano será fechada para não atrapalhar distribuição de comida

 

(Reprodução de vídeo gravado na tarde de ontem na rua Marechal Floriano)

 

Após a repercussão muito ruim do vídeo do tumulto causado ontem (17) na fila de distribuição de comida feita pelas freiras do Mosteiro do Jardim São Benedito, evidenciando a falta da ordenação prometida desde 28 de março (relembre aqui) pelo poder público municipal, este reagiu hoje (18). A partir já deste sábado, a rua Marechal Floriano (antiga rua do Ouvidor) ficará temporariamente fechada das 7h às 20h no trecho entre as ruas Conselheiro Otaviano e Saldanha Marinho. É onde as irmãs alimentam a população carente do município há mais de 40 anos, demanda que aumentou com o isolamento social da pandemia da Covid-19.

Ontem, segundo as freiras, elas chegaram (confira aqui) a pedir ajuda ao Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro Pop), para ajudar na distribuição de carne à população. Que seria feita a partir da doação de um boi por um empresário. Mas o Centro Por teria respondido que o horário seria inadequado. Hoje, depois do flagrante do tumulto gerado como consequência, a Prefeitura teve que adequar o trânsito da cidade. Para permitir que as irmãs continuem alimentando a quem tem fome, mas mantendo as regras de distanciamento físico entre as pessoas.

A rua Saldanha Marinho permanecerá liberada.  Quem utiliza a Marechal Floriano, deve retornar pela contramão na rua Conselheiro Otaviano, entre a Marechal Deodoro (antiga rua do Príncipe) e a Marechal Floriano. A manobra está sendo orientada por equipes da Guarda Municipal, que permanecerão no local para garantir a ordem na via. Já o motorista que estiver trafegando pela Conselheiro Otaviano, com direção a Saldanha Marinho, será orientado a seguir pela Marechal Deodoro, acessar a rua Ypiranga, entrar na Marechal Floriano e seguir pela direita na rua Coronel Francisco Manhães. E, em seguida, a rua Gilberto Siqueira, para acessar a Saldanha Marinho

 

“Por que não denunciam descaso em colocar ordem na fila dos que têm fome?”

 

(Reprodução de vídeo)

 

“Estão denunciando aglomeração? Por que não denunciam descaso das autoridades em colocar ordem na fila dos que têm fome? As irmãs trabalham das 5h da manhã às 22h tentando aliviar, junto com a comunidade campista, a fome dos necessitados”. Foi como as freiras do Mosteiro do Jardim São Benedito reagiram a um vídeo gravado na tarde de ontem, mostrando tumulto na distribuição diária de comida que elas fazem há mais de 40 anos na cidade. E a demanda aumentou muito com o isolamento social imposto no combate à pandemia da Covid-19. Desde o último dia 28, como a Folha noticiou aqui, a Prefeitura prometeu ajudar na organização das filas.

Ontem, após o vídeo viralizar nas redes sociais, em oposição à política de isolamento social adotada no município, a superintendência de Comunicação (Supcom) da Prefeitura informou:

— Nesta sexta-feira (18), as irmãs receberam uma doação de 420 cestas básicas e a distribuição foi iniciada na hora do almoço. Por isso, não houve aviso prévio à Prefeitura para reforçar a equipe que oferece apoio logístico, apesar das solicitações feitas. Profissionais do Centro Pop (Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua) e da Guarda Civil Municipal prestam apoio na logística, diariamente, para evitar aglomeração no local, já que as freiras prestam um importante serviço de caridade há muitos anos”.

Segundo informaram as irmãs, que vivem em clausura e precisam de ajuda para organizar a fila na calçada externa do mosteiro, elas chegaram a pedir ajuda do Centro Pop na tarde de ontem:

— Soubemos q gravaram um vídeo de um tumulto aqui na porta do mosteiro, quando estávamos distribuindo uma sacolinha com um pouco de mantimentos. Esse pessoal está dormindo na rua, à espera de comida que damos. Estão denunciando aglomeração? Por que não denunciam descaso das autoridades em colocar ordem na fila dos que têm fome? As Irmãs trabalham das 5h da manhã às 22h, tentando aliviar, junto com a comunidade campista, a fome dos necessitados. Quando fomos distribuir 1 kg de carne, pois um empresário deu um boi para eles, chamamos o Centro Pop para ajudar. Eles disseram que o horário não comportava mais. Chamamos a rádio patrulha eles vieram e puseram muita ordem. A filmagem q fizeram de hoje só mostra os necessitados indo para o fim da fila, mas na porta do mosteiro estava o guarda distribuindo sem tumulto.

 

Confira abaixo o vídeo gravado no início da tarde de ontem:

 

 

Obstáculos de Campos contra Covid-19: relotação de médicos à emergência e EPIs

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr)

 

Cintia Ferrini, secretária de Saúde de Campos

No enfrentamento à Covid-19, Campos tem dois problemas: 1) a relotação dos servidores de saúde ao atendimento de emergência e 2) o fornecimento de equipamentos de proteção individual (EPIs) aos servidores de saúde. Mas qual o tamanho desses obstáculos? No programa Folha no Ar da última quarta (15), a secretária de Saúde Cintia Ferrini disse (confira aqui) que 15% dos médicos concursados do município (165 de um total de 1.100) estariam ignorando as convocações para atender na emergência. Após levantamento nos três últimos dias, o número achado foi menor: 3,8%, ou 41 médicos. Destes, 25 (2,3%) não apareceram, mesmo residindo em Campos. Enquanto outros 16 (1,5%) estariam fora da cidade, em licenças sem vencimento, canceladas pelos decretos municipais. O percentual de médicos ausentes das emergências só chegaria a 12%, ou 132 profissionais, se somados aos 91 (8,5% da categoria) que até a última segunda-feira (13) entregaram atestados. Todos estão sendo periciados pelo PreviCampos.

Em comentário feito a esta postagem, às 6h13 da manhã de sábado (18), a secretária Cintia Ferrini esclareceu a diferença nos números: “Minha fala foi que estimadamente 15% dos médicos do ambulatório (se recusavam a atender na emergência) e não foi do total. Estamos juntos, profissionais e gestão, buscando o melhor atendimento e com segurança, para população”.

Thais Andrade, diretora do PreviCampos

Os decretos municipais eximiram do atendimento na emergência apenas as categorias de risco ao novo coronavírus: profissionais de saúde com mais de 60 anos, gestantes, cardiopatas ou diabéticos descompensados, em tratamento oncológico ou de doenças imunossupressoras. Até que os 91 atestados sejam periciados pelo PreviCampos, sua diretora, Thais Andrade, informou que estão comprovadamente dispensados da emergência outros 45 médicos, ou 4,1% da categoria.

Maristela Maurath, promotora de Justiça

Os 41 médicos que até agora não apresentaram nenhuma justificativa para não atender à convocação de atendimento na emergência, como os que tiverem seus atestados recusados pela perícia, serão analisados caso a caso pela Procuradoria-Geral do município e pela 3ª Promotoria de Tutela Coletiva do Ministério Público Estadual. Sua titular, a promotora Maristela Nahuat, informou ainda não ter recebido do poder público municipal os números das ausências no atendimento de emergência à população campista:

— Estou esperando ansiosa pelo envio detalhado dessas informações, mas até agora não recebi. Assim que chegarem de maneira oficial e detalhada, abriremos um inquérito civil público para investigar. Temos que analisar as justificativas, pois há aquelas em que uma doença do profissional justifica a dispensa. Por enquanto, tudo relativo à Covid-19 em Campos e alguns outros municípios está reunido no processo administrativo 004/2020. Em relação aos atestados, já há um inquérito civil público anterior, o 008/2020, aberto em março. Caso se comprove a ausência forjada, isso poderia gerar não só ação de improbidade administrativa, como criminal. Esperamos que tudo seja enviado já periciado, como foi combinado. E será analisado caso a caso.

José Paes Neto, procurador-geral de Campos

Procurador-geral de Campos, José Paes Neto também garantiu que a análise do município, paralela ao do MP, será de caso a caso. Ele lembrou que o Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj) tem acompanhado o processo de convocação à emergência. E exemplificou diferenças que têm que ser levadas em conta:

— Com assento no gabinete de crise, o Cremerj tem acompanhado e ajudando a contactar os médicos. O que dá transparência e evita qualquer clima de “caça às bruxas”, pelas diferenças que levaram os médicos à greve. Prova disso é que o ponto biométrico foi temporariamente suspenso. Quem, mesmo assim, se recusou a ser relotado na emergência, terá seu caso analisado individualmente em sindicância. Assim como, em paralelo, pelo Ministério Público. Há quem more nos EUA e realmente nem tenha como retornar agora. Há quem more no Rio e está fazendo um curso de mestrado, que o capacitará para enfrentar a pandemia. Como também há quem está no Rio, mas simplesmente não quer voltar para atender em Campos. Casos como este podem gerar da advertência à demissão. O caso, lógico, é mais grave para quem está na cidade e ainda assim se recusa a atender à população na emergência.

Em contrapartida, estudos na China e Itália, primeiros epicentros da Covid-19 no mundo, apontam que a taxa de infecção pode chegar a até 40% nos profissionais de saúde, mesmo paramentados com todos os equipamentos de proteção individual (EPIs). E eles começaram a faltar no mercado internacional desde que os EUA, com seu poder econômico hegemônico, passaram a ser o novo epicentro da doença. Com base nisso, a secretária municipal de Saúde Cintia Ferrini fez uma indagação no Folha no Ar de quarta:

— Existe realmente uma possibilidade, dependendo do aumento aí de casos da evolução da doença no país e na cidade de Campos, de faltar EPIs. E se faltar? Você vai deixar de atender a um paciente? Você vai deixar um paciente vir a óbito pela falta de EPI?

Rogério Bicalho, delegado co Cremerj em Campos

Na defesa da integridade física dos profissionais de saúde, a resposta foi dada hoje pelo delegado do Cremerj em Campos, Rogério Bicalho. Ele cobrou o que tem passado diretamente ao prefeito Rafael Diniz (Cidadania) e aos demais integrantes do gabinete de crise:

— Entre as recomendações do Cremerj para atendimento na pandemia da Covid-19, a primeira é: “Os profissionais de saúde, na rede pública e privada, só devem atender à população de risco com o uso de equipamentos de proteção individual (EPIs), compostos, minimamente, de máscara de proteção, luvas descartáveis e, quando for o caso, avental de proteção”. Isso já tinha sido passado semanas atrás numa reunião onde estavam o prefeito, delegados de Polícia Civil, promotores do MP, comando da PM, entre outros que integram o gabinete de crise. Atender a um paciente suspeito de Covid-19 sem EPI seria como pedir a um policial para entrar numa comunidade dominada por traficante sem colete e sem fuzil. Sem EPI o profissional de saúde na linha de frente é um soldado abatido.

 

Presidente do Simec, José Roberto Crespo nesta sexta no Folha no Ar

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta sexta (17), o presidente do Sindicato dos Médicos de Campos (Simec), José Roberto Crespo, fecha a semana do Folha no Ar, na FM 98,3. Ele falará ao vivo sobre a “circulação sistêmica do novo coronavírus, com transmissão comunitária, nos municípios da região Norte Fluminense”, conforme nota Simec (confira aqui) divulgada no último domingo (12).

José Roberto analisará também o fornecimento de equipamentos de proteção individual (EPIs) na Saúde Pública de Campos, cujas falhas foram detectadas em vistorias do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj) e admitidas pela secretária municipal de Saúde, Cintia Ferrini. E da revelação feita por ela (confira aqui), da dificuldade em relotar os servidores de saúde ao atendimento de emergência, considerado fundamental no combate à pandemia da Covid-19.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta, pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Humorista chama campista de feio e propõe Campos como cobaia para Covid-19

 

Com base no direito constitucional da liberdade de expressão, há limite para o humor? É o que testa o comediante carioca Léo Lins,  do programa The Noite, de Danilo Gentili, no SBT. Conhecido pelas piadas de gosto duvidoso, ele propôs aqui, em seu perfil de Instagram, que o isolamento social para conter a pandemia da Covid-19 seja suspenso em “cidades que não tem (sic) importância”. Entre elas, Campos dos Goytacazes, ao lado da paranaense Umuarama e da catarinense Chapecó:

— E ai (sic) observamos, se morrer muitas pessoas mantemos a quarentena, se forem so (sic) alguns vamos voltando aos poucos. Creio que acim (sic) todxs sai (sic) ganhano (sic) — tentou escrever.

 

 

Antes do novo coronavírus, o humorista já tinha causado polêmica, ao fazer piada com o que pensa sobre Campos e sua população. Em apresentação de stand up, ele arrancou risos da plateia ao dizer:

— O lugar que eu fui fazer show até hoje, que tinha a maior concentração de pessoas feias da face da Terra, foi no interior do Rio de Janeiro, em Campos. Aconteceu algum acidente em Campos. Se quiserem fazer um filme de zumbi lá (aqui), só precisam contratar os seres humanos. O resto do material a cidade provê naturalmente. As pessoas lá (aqui) são tão feias que eu acho que o cantor Belo ganhou esse apelido depois de um show em Campos.

 

 

Resta saber o que os familiares e amigos do caminhoneiro Hudisson Pinto da Silva, de 39 anos, casado e pai de dois filhos pequenos, morto por Covid-19 (confira aqui) no último sábado (11), na UTI do Centro de Controle e Combate ao Coronavírus (CCC), achariam das piadas do comediante “bonitão”. Assim como os outros 21 casos confirmados de infecção pelo novo coronavírus, seis deles em estado grave, que Campos havia contabilizado (confira aqui) até ontem (15).

Em 2013, quando trabalhava na Band e já tinha passagens compradas ao Japão, onde cumpriria compromissos profissionais, Léo Lins teve (confira aqui) seu visto cancelado. O veto aconteceu após a divulgação de um vídeo em que o humorista fazia piadas com o tsunami do Japão em 2011, que matou 15.894 pessoas. E gerou o abaixo-assinado “Impedir a entrada de Léo Lins no Japão”, feito por descendentes de japoneses e enviado ao Consulado daquele país.

Em sua polêmica mais recente, Léo Lins teve resposta de outro carioca de nascimento como ele, mas campista de coração. Ex-campeão mundial de natação, ex-presidente da Fundação Municipal do Esporte e pré-candidato a vereador, Raphael Thuin publicou (aqui), em seu perfil no Facebook:

 

 

Em comentário (confira aqui) à postagem do blog no site Folha1, mais acessado do interior fluminense, a leitora Juliana Sanchez respondeu às “piadas” do humorista sobre Campos com ironia: “Levou chifre de alguma garota daqui kkkk Só pode!!! Esperto!”

 

Como todos os movimentos fanáticos, autodestruição é inerente ao bolsonarismo

 

Consequência da Covid-19 com o isolamento vertical na cidade italiana de Bérgamo, que o presidente Jair Bolsonaro quer adotar no Brasil

 

 

Philipp Lichterbeck, jornalista correspondente do Brasil para a Alemanha

A seita que ameaça destruir o Brasil

Por Philipp Lichterbeck

 

 

A extensão da irracionalidade é aterrorizante e ameaça arrastar o Brasil para o abismo. Para a sua disseminação, há um motivo: o bolsonarismo. Esse nome se deve a um homem cujo livro favorito foi escrito por um torturador. Por conseguinte, o bolsonarismo tem correspondentes ideias para a sociedade: violentas, autoritárias, sem empatia, anti-intelectuais e pseudorreligiosas.

O bolsonarismo assumiu agora todas as características de uma seita cujos membros estão dispostos a seguir seu líder incondicionalmente, até a morte. Esse culto à morte está se tornando cada vez mais evidente nas manifestações dos bolsonaristas. Um caixão é carregado alegremente; no meio de uma pandemia, expõe-se a si mesmo e a outros ao perigo de um contágio e se grita: “A Covid-19 pode vir. Estamos prontos para morrer pelo capitão.”

Como em todos os cultos religiosos, as contradições são ignoradas. O bolsonarista sempre acha que sabe mais que os outros — mesmo que os outros sejam o mundo inteiro. Ele não segue as estrelas da razão e do conhecimento que fizeram a humanidade avançar ao longo dos séculos (apesar dos inúmeros retrocessos). O norte na bússola do bolsonarista é a satisfação de seu ego insultado.

O bolsonarista odeia o conhecimento quando este contradiz sua visão de mundo. Ele é como um motorista que anda na contramão na autoestrada e ouve no rádio que há um motorista na contramão e depois grita: “A mídia mente! Não é um motorista, são milhares!”

Inicialmente, o bolsonarismo negou a existência da Covid-19. Tratava-se de uma “fantasia” e uma “invenção da mídia”. Então, a doença se tornou uma “gripezinha” que não poderia afetar “atletas”. Quando ficou claro que a Covid-19 poderia muito bem fazer isso, seguiu-se o próximo passo na infalível lógica bolsonarista: cloroquina! Existe um remédio para a cura da Covid-19, mas os poderes das trevas não permitem que ele seja usado.

Os mesmos bolsonaristas que há cinco minutos haviam negado a existência da Covid-19 se tornaram, de repente, especialistas em curar a doença viral altamente complexa. Infelizmente, seus conhecimentos não podem ser aplicados. E por quê? Porque, segundo eles, os governadores e prefeitos do Brasil teriam concordado em implementar medidas de quarentena e introduzir o comunismo.

É típico: no momento que a situação não transcorre segundo a vontade deles, já que o Brasil é um Estado federalista, os bolsonaristas gritam: “Ditadura!” São como crianças que se jogam no chão gritando no supermercado para que suas mães comprem doces. Evidencia-se também a completa falta de princípios desse movimento. As mesmas pessoas que hoje alertam histericamente sobre uma ditadura defendiam ainda ontem uma ditadura, na qual seu herói disse uma vez ter sido um erro apenas torturar e não matar. O que essas pessoas querem agora?

O bolsonarismo segue uma lógica primitiva, criando sempre opostos simplistas. Isso inclui, por exemplo, achar que saúde e economia são contradições. Segundo essa lógica, os brasileiros deveriam preferir se expor ao risco de infecção para não cair na crise econômica. O bolsonarista parece não estar ciente dos custos econômicos (e sociais) de milhões de pessoas doentes e dezenas de milhares de mortes. Cálculos com mais de duas variáveis não são seu ponto forte.

O bolsonarista segue principalmente um impulso adolescente. Ele quer ser do contra e causar problemas. Ele sempre contradiz o que os adultos estão dizendo, neste caso: o resto do mundo. Ele fica satisfeito quando se opõe à maioria, vendo-se como um herói. E isso lhe dá a justificativa para agir como vítima.

Como todos os movimentos fanáticos, o instinto de autodestruição é inerente ao bolsonarismo. Assim como Hitler acreditava que a Alemanha merecia ser devastada se não conseguisse vencer a guerra, o bolsonarista gostaria de destruir tudo. Não há outra explicação para a sabotagem do presidente e de seus apoiadores contra as autoridades do setor de saúde pública.

Os bolsonaristas acusam a mídia e os governadores de torcer pela disseminação da Covid-19. Na realidade, são o presidente e seus apoiadores que estão fazendo de tudo para provocar o desastre sanitário.

 

Publicado aqui, no Deutsche Welle (DW), emissora internacional da Alemanha que produz jornalismo independente em 30 idiomas

 

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