Opiniões

Cultura de Campos avalia saída de Regina Duarte da Cultura de Bolsonaro

 

Durou pouco mais de dois meses o “casamento” da atriz Regina Duarte com presidente Jair Bolsonaro na comando da cultura

Muito criticada pelos colegas das artes e cultura brasileiras, assim como pelo núcleo olavista mais radical do governo Jair Bolsonaro (sem partido), a atriz Regina Duarte teve vida curta na secretaria de Cultura. Após um “namoro” de algumas semanas com o presidente, ela disse “sim” e assumiu o cargo em 4 de março. Mas, após submetê-la a um processo de fritura por dois meses e meio, hoje Bolsonaro usou as redes sociais para anunciar o “divórcio” da atriz da secretaria, que passará a comandar a Cinemateca Brasileira, em São Paulo. Ela pareceu gostar do que foi considerado um “prêmio de consolação”:

— Acabo de ganhar um presente que é um sonho de qualquer pessoa de comunicação, de audiovisual, de cinema, de teatro: um convite para fazer cinemateca, que é um braço da cultura que funciona lá em São Paulo, e é um museu de toda a filmografia brasileiro, ficar ali, secretariando o governo dentro da cultura na cinemateca. Pode ter presente melhor do que esse? Obrigado, presidente!

 

Ex-secretário de Cultura olavista Roberto Alvim na imitação do ministro da Propaganda nazista, Joseph Goebbels, que lhe custou o cargo em janeiro

 

Com a missão de “pacificar” conflitos do governo com sua classe, a “Namoradinha do Brasil” sucedeu no cargo o diretor teatral Roberto Alvim. Olavista assumido, ele caiu após fazer (confira aqui) um pronunciamento em 16 de janeiro imitando o discurso e a indumentária de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Adolf Hitler na Alemanha nazista. Regina também causou polêmicas, como em entrevista ao vivo em 7 de maio na CNN Brasil. Ela minimizou as torturas e mortes durante a última ditadura militar no Brasil (1964/1985), defendida por Bolsonaro e cuja volta é constantemente pedida por seus apoiadores (confira aqui e aqui) em manifestações de rua.

Mas como os representantes da arte e da cultura de Campos reagiram a mais essa polêmica no comando do seu setor no governo federal? Confira abaixo as reações de alguns deles, todas negativas a atriz e ao governo:

Arlete Sendra

— A Regina confundiu tudo. No palco da vida não cabem ficções. A mim não surpreendeu. A história política que vem escrevendo a negativa. Que pena de nós, brasileiros! — sintetizou Arlete Sendra, literata e dramaturga.

Aristides Soffiati

— A exoneração de Regina Duarte da secretaria de Cultura vinha sendo uma morte anunciada. Bolsonaro não está preocupado com a questão social, com a saúde, com a educação e com a cultura. Ele nomeia alguém que lhe parece confiável e espera a reação dos seus filhos, dos seguidores fanáticos e dos olavistas. É por eles que Bolsonaro se movimenta. Regina Duarte não ocuparia o cargo que acaba de perder num governo sério. Agora, talvez a substitua um militar. Está mais de acordo com a linha bolsonarista — apontou Aristides Soffiati, historiador e escritor.

Fernando Rossi

— O nome da Regina Duarte para secretaria de Cultura, desde o início, não foi bem vista pela classe artística do país. Eu mesmo, em entrevista para a Folha 1, já havia me manifestado quanto à possibilidade de não ver com bons olhos essa escolha. O posicionamento político da atriz não representou os anseios da classe. E isso veio a se confirmar no seu destroso discurso de pose, culminando no horror da entrevista para a CNN. Também o que podemos esperar de alguém que se associa a um governo deste? Já vai tarde! — despediu-se Fernando Rossi, diretor teatral e do Teatro de Bolso Procópio Ferreira.

Cristina LIma

— Desde a indicação de Regina para a secretaria, eu tive um olhar muito negativo e desestimulante, pois para galgar os escalões mais altos do governo Bolsonaro, há que se ter afinidade com sua linha ideológica. Que, certa e comprovadamente, é muito distante ou mesmo contrária aos valores defendidos pela grande maioria da classe artística. Foi infeliz o tempo todo. Foi desrespeitada e sem autonomia desde o início. Sem diálogo com a classe artística busca, agora, uma saída menos desonrosa aceitando um prêmio de consolação — avaliou Cristina Lima, presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima.

Adriano Moura

— Regina Duarte deixa um cargo que nunca deveria ter assumido, e sua nomeação para a Cinemateca em SP como um “presente” de Jair Bolsonaro, uma espécie de prêmio de consolação para que possa ficar mais perto da família, demonstra o quanto ela e seu “ex” lidam com a cultura. Como quem brinca com um objeto feito para a satisfação de caprichos pessoais. Os sessenta dias enquanto secretária foram marcados por polêmicas e ausência de projetos que resolvessem os inúmeros problemas do setor. Fico surpreso com sua saída, já que incompetência para a função parece ser critério para se manter no cargo na gestão de Bolsonaro. Além disso Regina estava se saindo bem na tarefa de replicar os discursos do seu flerte fascista, como demonstrou em entrevista na CNN. Infelizmente, creio que sua saída seja resultado da influência da ala ideológica que dá parte das cartas no governo, e que seu substituto seja alguém com mais apreço pelo cargo e pelas sandices do “louco da Virgínia” (o ideólogo de extrema-direita Olavo de Carvalho) do que pela cultura. Bolsonaro não quer um secretário, mas um boneco de ventríloquo. Talvez nem isso a “Namoradinha” tenha conseguido ser — alfinetou Adriano Moura, poeta, dramaturgo e literato.

Graziela Escocard

— A saída de Regina Duarte transparece as pressões ideológicas dentro do governo. Suas escolhas foram derrubadas e a sua imagem de “Namoradinha do Brasil” não convenceu. Imagino Regina, enquanto atriz que tão bem exerceu sua profissão, saindo deste governo com sua imagem desconfigurada, com a impressão de ter arruinado sua carreira. E pior ainda, com o peso dos “mortos” (tema da polémica entrevista da secretária à CNN) nas costas. É certo que Mário Frias (ator cotado para assumir a secretaria de Cultura), irá carregar mais “mortos” nas costas do que Regina carregou — projetou Graziela Escocard, historiadora e diretora do Museu Histórico de Campos.

Ronaldo Vasconcelos

— Na minha opinião ela não deveria ter abandonada a carreira solidificada na arte de representar, sendo considerada a “Namoradinha do Brasil”, para entrar no comando da secretaria de Cultura, pois habilidade com política pública, nunca teve. E nem fez nada no período tempo que assumiu, quanto mais nesse governo descontrolado e sem cultura. Volta pra TV, Regina! — propôs o bailarino Ronaldo Vasconcelos.

Pedro Fagundes

— Prestou um desserviço aos artistas brasileiros, garantindo implacavelmente seu apoio irrestrito a um governo autoritário, truculento e insensível às causas das minorias. E sem ter, por um só momento, abraçado a causa da classe artística, que inúmeras vezes sinalizou pedidos de auxílio em plena crise causada pela Covid-19. Que teve como resposta um show de horrores transmitido ao vivo, sem que nenhuma ação positiva fosse anunciada pela secretária. Uma trajetória funesta, sem representatividade, só poderia mesmo estar fadada ao fracasso. A namoradinha fascista do Brasil marcou, da pior maneira possível, seu nome nas páginas mais tristes da nossa história. Sua saída da pasta, mas não do governo, não me traz sentimentos positivos. Na verdade, não diz muita coisa, pois em momento algum me senti representado por ela; creio que ninguém — desabafou o ator Pedro Fagundes.

Rafaela Machado

— Uma saída nada honrosa e uma gestão nada representativa. Assim Regina Duarte deixa a secretaria de Cultura no dia de hoje com a moral ainda mais baixa do que quando entrou. Sua saída não deixa também nenhum legado, muito menos nada que se diga representativo para o setor, a não ser entrevistas vergonhosas e falas para lá de descabidas. Sua gestão desastrosa, bem como sua própria escolha para o cargo, foram mostras de que a cultura para o atual governo sequer pode ser considerada pauta relevante ou politicamente importante. Quando a própria saúde do país está órfã, o que diremos da cultura? Estamos a naufragar num mar revolto. E há os que dizem que somos pessimistas! — ressalvou Rafaela Machado, historiadora e diretora do Arquivo Público Municipal Waldir Pinto de Carvalho.

Luiz Antonio Cosmelli, o Altura

— Quanto à saída da Regina, resta pouco a dizer, porque a impressão geral é a de que ela nunca entrou. Sua passagem relâmpago só deu margem a polêmicas e praticamente nada substancial numa pasta tão importante. E num momento tão carente da multiplicidade das vozes culturais brasileiras, com perdas inestimáveis na música, na literatura e na arte cênica. Regina Duarte passou ao largo do que essas perdas significam e da cultura como marca e história da civilização, do humano. Ela talvez imaginasse que estava num set de gravação, maquiada, com ponto no ouvido, vivendo uma fantasia! Nós todos, criadores e produtores de arte, temos a lamentar. Mas resistiremos! — pregou o poeta Luiz Antonio Cosmelli, o Altura.

Carlos Alberto Bisogno

— A atuação de Regina Duarte no comando da secretaria de Cultura é tão insignificante quanto sua saída. Só fez demonstrar que o setor está abandonado à própria sorte e a necessidade de atuação para muito além de simples entretenimento — distinguiu o cineasta Carlos Alberto Bisogno.

 

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