Opiniões

Morreu aos 91 Ennio Morricone, maior músico dos 125 anos do cinema

 

Maior músico do cinema de todos os tempos, Ennio Morricone recebe o Oscar de 2016 de melhor trilha sonora original, por seu trabalho em “Os Oito Odiados”, de Quentin Tarantino

 

A música está presente no cinema desde quando ele era mudo. Logo na primeira exibição pública da sétima arte pelos irmãos Lumiére, na Paris de 1895, um piano e um pianista faziam o fundo musical e davam ritmo às imagens na tela. E assim permaneceu por muito tempo, permitindo a um gênio renascentista como Charles Chaplin exibir seu talento, além de diretor, roteirista e ator, também como compositor. A história começou a mudar quando “O Cantor de Jazz”, considerado o primeiro filme falado, dirigido por Alan Crosland, estreou na Nova York de 1927. No ano seguinte, em 10 de novembro de 1928, nasceria em Roma o maior músico da história do cinema: Ennio Morricone. Que morreu hoje aos 91 anos, após 10 dias internado por uma fratura no fêmur, fruto de uma queda.

 

Entre as maiores duplas da história do cinema, Ennio Morricone e Sergio Leone

 

Morricone começou a compor com apenas 6 anos. Após tocar trompete em bandas de jazz na década de 1940, se tornou arranjador de estúdio para a gravadora RCA Victor. Em 1955, começou a compor para o teatro e em 1961, aos 33, assinou sua primeira trilha sonora para o cinema, no filme “O Fascista”, de Luciano Salce. O sucesso internacional viria naquela mesma década em que o rock os Beatles e Rolling Stones revolucionavam o mundo com a releitura britânica da música criado nos EUA. E o cinema teria seu gênero mais hollywoodiano, o “western”, reinventado na parceria entre dois mestres italianos: Morricone e o diretor Sergio Leone. Uma dupla tão afinada — e mais genial — que John Lennon e Paul McCartney, ou Mick Jagger e Keith Richards.

 

Na mitologia dos EUA, o herói de John Wayne e o anti-herói de Clint Eastwood

 

Com a trilogia “Por um Punhado de Dólares” (1964), “Por uns Dólares a Mais” (1965) e “Três Homens em Conflito” (1966), Leone fundou o gênero “western spaghtetti”. Nele, o herói dos EUA na conquista violenta do Oeste do país continental, mitologia criada pelo cinema do mestre John Ford e encarnada entre os ombros largos do ator John Wayne, foi transformado em anti-herói. Latino de onde o latim foi ecoado ao mundo, Leone matou com um tiro à queima-roupa o moralismo anglo-saxão que separava o “mocinho” do “bandido”. E foi buscar nas séries de TV dos EUA um ator desconhecido que lançaria ao estrelato: Clint Eastwood. Seu pistoleiro sem nome, que protagoniza os três filmes, era inspirado no samurai sem senhor de “Yojimbo” (1961), do mestre japonês Akira Kurosawa.

 

 

Mesmo com a base em Ford e Kurosawa e com o carisma de Eastwood, a reinvenção de Leone só estaria completa com a música seca e minimalista de Morricone, que reforçava a aridez das paisagens dos EUA e da Europa em que as cenas da trilogia foram filmadas. Mesmo a quem não lembrar de nenhuma das suas cenas, ou sequer as tenha assistido, é impossível não ouvir o assobio da música tema e homônima de “Três Homens em Conflito”, sem associá-la imediatamente aos pistoleiros do “Velho Oeste” dos EUA. A trilha sonora ganhou uma força tal na cultura pop do mundo, que outra música do filme, “L’estasi dell’oro” (“O Delírio do Ouro”), acabou usada em shows por grandes de bandas de rock como Ramones e Metallica.

 

 

Outra das músicas de “Três Homens em Conflito” é “Morte di um soldato” (“Morte de um Soldado”). É dela o único som, além dos gemidos de um jovem soldado moribundo da Guerra Civil dos EUA e do relincho de um cavalo, em uma das cenas mais pungentes da história do cinema. Na qual Leone dialoga (confira aqui) com dois dos maiores poetas da literatura universal: o francês Arthur Rimbaud e o português Fernando Pessoa. Na dúvida, leia seus versos abaixo. Entre os dois poemas, veja a cena a que serviram de roteiro. E, sobretudo, ouça a música de Morricone:

 

Arthur Rimbaud por Pablo Picasso e Fernando Pessoa, por Almada Negreiros (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

O adormecido do vale

(Arthur Rimbaud)

 

Era um recanto onde um regato canta

Doidamente a enredar nas ervas seus pendões

De prata; e onde o sol, no monte que suplanta,

Brilha: um pequeno vale a espumejar clarões.

 

Jovem soldado, boca aberta, fronte ao vento,

E a refrescar a nuca entre os agriões azuis,

Dorme; estendido sobre as relvas, ao relento,

Branco em seu leito verde onde chovia luz.

 

Os pés nos juncos, dorme. E sorri no abandono

De uma criança que risse, enferma, no seu sono:

Tem frio, ó Natureza – aquece-o no teu leito.

 

Os perfumes não mais lhe fremem as narinas;

Dorme ao sol, suas mãos a repousar supinas

Sobre o corpo. E tem dois furos rubros no peito.

 

Outubro de 1870

 

 

O menino da sua mãe

(Fernando Pessoa)

 

No plaino abandonado

Que a morna brisa aquece,

De balas trespassado —

Duas, de lado a lado —,

Jaz morto, e arrefece.

 

Raia-lhe a farda o sangue.

De braços estendidos,

Alvo, louro, exangue,

Fita com olhar langue

E cego os céus perdidos.

 

Tão jovem! Que jovem era!

(Agora que idade tem?)

Filho único, a mãe lhe dera

Um nome e o mantivera:

“O menino da sua mãe.”

 

Caiu-lhe da algibeira

A cigarreira breve.

Dera-lhe a mãe. Está inteira

E boa a cigarreira.

Ele é que já não serve.

 

De outra algibeira, alada

Ponta a roçar o solo,

A brancura embainhada

De um lenço… deu-lho a criada

Velha que o trouxe ao colo.

 

Lá longe, em casa, há a prece:

“Que volte cedo, e bem!”

(Malhas que o Império tece!)

Jaz morto e apodrece

O menino da sua mãe

 

Lisboa, 1926

 

 

A parceria de Morricone seguiria na trilogia seguinte e derradeira de Leone, falecido em 1989: “Era Uma Vez no Oeste” (1969), “Quando Explode a Vingança” (1971) e “Era Uma Vez na América” (1981). O primeiro filme é considerado a obra-prima do cineasta. “Três Homens em Conflito” já traria diferenças na mesma música para os três personagens principais: flauta para o Eastwood, oscarina (instrumento de sopro) para o de Lee Van Cleef e vozes para o de Eli Wallach. Mas em “Era Uma Vez no Oeste”, Morricone cria uma música própria para cada personagem entre os protagonistas interpretados por Claudia Cardinale, Henry Fonda, Charles Bronson e Jason Robards. O resultado é uma ópera do cinema. Mal recebido por público e crítica à época do seu lançamento, é hoje considerado o melhor western já feito.

 

 

Morricone nunca aprendeu a falar inglês ou deixou de morar em Roma. Nem deixou de compor trilhas sonoras para outros grandes diretores italianos, como para Gillo Pontecorvo, em “A Batalha de Argel” (1969); para Pier Paolo Pasolini, em “Teorema” (1968) e “Decameron” (1971); para Dario Argento, em “O Pássaro das Plumas de Cristal” (1970); para Giuliano Montaldo, em “Sacco e Vanzetti” (1971); para Bernardo Bertolucci, em “1900” (1976); para Giuseppe Tornatore, para quem escreveria a música de todos os filmes desde “Cinema Paradiso” (1989). Mas foi o sucesso com seu maior parceiro no cinema, Sergio Leone, que levou o compositor a Hollywood.

 

 

Morricone fez trabalhos memoráveis, como em “A Missão” (1986), ficção sobre o massacre real dos índios na colonização da América do Sul. Dirigido por Roland Joffé, o filme foi ganhador da Palma de Ouro de Cannes. E uniu o talento dos grandes atores Jeremy Irons e Robert De Niro, com quem Morricone já havia trabalhado em “1900” e “Era Uma Vez na América”. Em 2017, o compositor italiano diria: “A música de ‘A Missão’ nasceu de uma obrigação. Tinha que escrever um solo oboé, se passava na América do Sul no século XVI, e tinha a obrigação de respeitar o tipo de música do período. Ao mesmo tempo, eu tinha que compor uma música que também representasse os índios da região. Todas as obrigações me prendiam. Mas também fizeram com que saísse algo claro”.

 

 

Como De Niro, Morricone teve outros ítalo-estadunidense como parceiros assíduos em Hollywood. Com o diretor Brian De Palma, trabalhou em filmes como “Pecados de Guerra” (1989) e “Missão: Marte” (2000). Após legaram outra obra-prima ao cinema: “Os Intocáveis” (1987). A música realça as grandes interpretações de Sean Connery, que lhe rendeu o Oscar de ator coadjuvante, Kevin Costner e, mais uma vez, De Niro, em outra atuação antológica, como o violento chefe mafioso Al Capone. Ganhador de um Oscar honorário pelo conjunto da sua brilhante carreira, em 2007, Morricone ainda teria tempo para ganhar outro pelo seu trabalho em “Os Oito Odiados” (2015). Emblematicamente, foi um western. E dirigido por outro ítalo-estadunidense, grande admirador do músico e do diretor Sergio Leone: Quentin Tarantino.

 

 

Estive na Itália em julho de 2010, verão deles, quando visitei a “bela cidade de Verona”, como a classifica Shakespeare logo na abertura de “Romeu e Julieta”. Já sabia que a cidade tinha uma grande arena legada pelos antigos romanos, menor, mas mais conservada que o Coliseu, na Roma de Morricone. E reservei ingressos para assistir, no palco antes destinado a gladiadores, à ópera “Carmen” de Bizet, dirigida por outro grande nome também do cinema italiano, Franco Zeffirelli.  Foi um grande espetáculo, do qual nunca esquecerei. Mas que deixou um gosto amargo: só quando já estava em Verona, descobri que, na semana seguinte, era Morricone que se apresentaria na mesma antiga arena romana. Cheguei a tentar mudar a viagem, para tentar ficar e assistir. Mas foi impossível mudar a logística e as reservas já feitas de hotéis por outras cidades italianas.

 

Irmãos Lumiére

 

Uma década depois, o maestro escreveu seu próprio obituário: “Ennio Morricone está morto. Anuncio a todos os amigos que sempre estiveram próximos de mim e também aos que estão um pouco distantes e os saúdo com muito carinho”. Em um ano de pandemia e perdas pessoais, a sua morte é sentida. Menos pelos 91 anos de uma vida plena. Que se difere pelo silêncio que sua última respiração não deixará; pela melhor música que o cinema foi capaz de produzir. Desde que um piano e um pianista acompanharam, há 125 anos, a primeira sessão dos irmãos Lumiére.

 

Ennio Morricone e seu grande fã, Quentin Tarantino

 

Atafona e Convivência — Homens e cães entre a luz e as próprias sombras

 

O pescador e os cães na Convivência, manhã de 06/07/20 (Foto de Ícaro Barbosa)

 

 

Semana aberta aos passos entre Atafona, a foz fechada do Paraíba e a Convivência. Fotos de Ícaro Barbosa.

 

 

Convivência, manhã de 06/07/20 (Foto de Ícaro Barbosa)

 

 

Atafona, manhã de 06/07/20 (Foto de Ícaro Barbosa)

“este mundo, que é o mesmo para todos, nenhum dos deuses ou dos homens o fez; mas foi sempre, é e será um fogo eternamente vivo, que se acende com medida e se apaga com medida”

(heráclito, d 30)

 

faces do mesmo

 

poderia ter usado a coroa do rei de éfeso,

mas renunciou à honra em favor do irmão.

prestar governo aos surdos, dever funesto,

aqui, agora, jônia européia há cinco séculos;

ou na ásia menor, meio milênio antes de cristo.

 

por iluminar seria, já aos antigos, o obscuro;

nada revelariam suas palavras de sibila,

não fosse a oposição do ouvido surdo,

como, sem tensão na corda, emudece a lira

e a do arco, por relaxada, inutiliza a flecha.

 

ao alcançar a outra margem, não era

mais o mesmo homem, nem mesmos

eram os rios atravessados, múltiplos

a desaguar no Um que a todos gera.

 

media a largura do seu pé pela do sol

por desconhecer outra grandeza ao passo

do homem entre a luz e a própria sombra.

 

domingos martins, 01/05/07

 

Cães na Convivência, com Atafona ao fundo, manhã de 06/07/20 (Foto de Ícaro Barbosa)

 

Deputados Wladimir e Marcão projetam cenário econômico do pós-pandemia

 

 

Wladimir Garotinho, deputado federal de Campos

Planejamento para o pós-pandemia

Por Wladimir Garotinho

 

Com as perspetivas de vacinas apenas para dezembro e janeiro pode parecer que vamos falar de algo distante, mas entender, planejar e executar ações agora são a chave para sair com menos sequelas da pandemia do Covid-19, pois sem sequelas não sairemos de forma alguma, então precisamos mitiga-las para que o povo sofra pelo menor tempo possível.

Vou me ater a falar de ações em âmbito nacional, pois serão as medidas adotadas pelo Congresso e União que servirão para estados e municípios atacarem seus problemas no pós-pandemia.

Precisamos urgente debater e aprovar no segundo semestre as reformas administrativa e tributária. A primeira, precisa ser mais profunda do que já vinha se desenhando, ou praticamente todos os entes federativos não fecharão suas contas, devido ao tamanho da máquina pública. Já a segunda, a tributária, precisa ser progressiva, tirando impostos indiretos sobre o consumo, que ataca a classe média, e elevar as alíquotas para grandes fortunas e dividendos empresariais. Sim, alguém tem que pagar a conta e tem que ser no topo da pirâmide. Feitas essas duas reformas o Brasil precisa decidir sobre o que realmente quer propor sobre o pacto federativo, não dá mais para ir recursos ficarem concentrados na União e os serviços com os municípios sem o recurso necessário para fazer funcionar de maneira adequada. O que fazer? Sugiro que a União reassuma os serviços essenciais e de grande relevância, como saúde e educação. Faça um plano nacional e execute através do seu grande orçamento que é repassado a pinga gotas, através de emendas sempre insuficientes aos municípios brasileiros. Ou, então, faça valer de uma vez o discurso de campanha do presidente Jair Bolsonaro “Mais Brasil e menos Brasília” e faça o dinheiro ser descentralizado de uma vez para chegar na ponta onde o serviço é executado, onde de fato as pessoas vivem, as cidades. O risco disso, é o presidente descentralizar e transformar em uma guerra política e ideológica, acusando prefeitos e governadores de mau uso de recursos públicos. Seria uma briga sem vencedores e que atrapalharia ainda mais o Brasil.

A União vai precisar, por um bom tempo, abolir o discurso de equilíbrio fiscal e ser o estado brasileiro o grande propulsor da retomada da economia, fazendo investimentos nos agentes multiplicadores, tais como, obras de infraestrutura, programas de transferência de renda, programas de incentivo ao agro negócio e etc, gerando os empregos necessários e também gerando para si receitas oriundas da circulação de recursos do próprio governo e da iniciativa privada.

Procuro ser bastante realista e não faz parte do meu perfil vender ilusões ou criar cenários para agradar quem quer que seja, o que vejo a frente, infelizmente, é uma recessão profunda que só pode ser superada com unidade entre os diferentes. Se os políticos insistirem na velha tática do “nós contra eles”, temo que o “eles” continue sendo milhões de brasileiros.

 

Marcão Gomes, deputado federal de Campos

Complexo do Açu é estratégico no pós-pandemia

Por Marcão Gomes

 

No início desse ano, foi assinada por órgãos estaduais a licença de instalação para a segunda usina termelétrica da empresa Gás Natural Açu (GNA) no Complexo Portuário do Açu em São João da Barra. A primeira já está em construção e, com a conclusão da segunda usina, as duas farão com que o complexo termoelétrico seja o maior da América Latina, prometendo gerar muitos empregos para a nossa região.

A licença de instalação, na verdade, é uma das etapas do licenciamento ambiental, pois autoriza a construção do empreendimento. Além disso, fixa um cronograma para execução de eventuais medidas mitigadoras e para implantação de sistemas de controle ambiental que farão parte de todo o processo.

Vale lembrar que o Porto do Açu começou a operar em outubro de 2014 e, atualmente, é o maior ponto de apoio logístico para as operações que passam pela Bacia de Campos, usado por vários prestadores de serviços e também para o transbordo do petróleo, pois conta com uma localização geográfica privilegiada para essas áreas.

Podemos dizer que, em linhas gerais, as usinas termoelétricas são construídas para a geração de energia elétrica a partir de produtos combustíveis, como: óleo combustível, óleo diesel, carvão natural, bagaços, madeira, gás natural e até mesmo urânio enriquecido. Elas são um bom recurso estratégico para o setor elétrico do Brasil, pois suprem as necessidades energéticas, por exemplo, durante os períodos de seca, quando as hidroelétricas não conseguem atender a demanda da nossa população.

Vislumbro os empreendimentos no Complexo Portuário do Açu como de suma importância para alavancar a empregabilidade e ajudar na retomada da economia regional do pós-pandemia. Empreendimentos desse porte acabam atraindo a chegada de mais empresas, contribuindo para incrementar ainda mais a oferta de emprego e renda, reduzindo, assim, o desemprego e elevando o nível de renda das pessoas.

Para se ter uma ideia, segundo dados da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), do IBGE, a taxa de desemprego era de 12,6% em abril desse ano, mas os especialistas estimam que pode alcançar a marca negativa de 18% até o fim de 2020.

Enquanto a pandemia ainda é uma realidade, as soluções para a economia brasileira pós-pandemia ainda estão no campo das propostas. Mas, sem dúvida alguma, os empreendimentos localizados no Porto do Açu serão de muita importância nesse novo contexto, que fará parte de um futuro bem próximo da região Norte do Estado do Rio de Janeiro.

Vamos trabalhar e torcer. Sigamos em frente!

 

Publicados hoje (04) na Folha da Manhã

 

Apontado como favorito a prefeito do Rio, Eduardo Paes: “Ainda serei governador”

 

“Eduardo Paes (DEM) é franco favorito na eleição a prefeito do Rio em 15 de novembro”. Na manhã de ontem (03), em entrevista ao programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3, foi o que apostou o deputado estadual Chico Machado (PSD), presidente da Comissão que analisa o pedido de impeachment do governador Wilson Witzel (PSC) na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). E Chico nem é correligionário ou aliado político do ex-prefeito carioca, pré-candidato a governar a cidade do Rio pela terceira vez. Nesta entrevista exclusiva à Folha, Eduardo Paes falou do legado das Olimpíadas de 2016 e demais realizações dos seus dois mandatos como gestor da capital fluminense. Admitiu o erro no projeto da ciclovia Tim Maia, que desabou a primeira vez em 2016 “e me causa muita dor, principalmente por aquilo que é irrecuperável, que é a vida de duas pessoas”. Equívoco que não enxerga ao ter insistido com a candidatura do deputado federal Pedro Paulo (DEM), seu aliado político, para sucedê-lo na Prefeitura do Rio em 2016, eleição vencida por Marcelo Crivella (Republicanos). A quem não poupou de críticas: “pode ter TV Record, Igreja Universal, máquina da Prefeitura, apoio do Bolsonaro, que eu te garanto que o Crivella não será reeleito. Ele foi, tem sido um péssimo prefeito para o Rio, incompetente, sem capacidade de compreender a cidade”.

Paes também alfinetou a deputada federal Clarissa (Pros), outra pré-candidata à Prefeitura do Rio: “Sorte de Campos, que tem um Garotinho a menos para enfrentar”. Como fez com os pais da parlamentar campista, os ex-governadores Garotinho (sem partido) e Rosinha (Pros). Ainda assim, ressalvou não ficar feliz com as prisões “nem do Garotinho, nem do Lula, nem do Cabral”, único dos três que continua na cadeia. O ex-prefeito carioca também lamentou o processo de impeachment enfrentado por Witzel, que o derrotou no 2º turno do pleito a governador de 2018. Mas lembrou: “Em alguns momentos eu até o chamei de ‘Kinder Ovo’. Mas vários dos aspectos que surgem hoje, eu apontei na eleição (…) isso só mostra que eu tinha razão, isso não é tarefa para pessoas que não têm experiência, não têm capacidade, que a gente não sabe nem quem é ou de onde veio”. Lacônico ao responder sobre as delações premiadas que o denunciaram por recebimento de dinheiro de caixa dois para campanha, Paes ressaltou ter “muito orgulho de marchar ao lado do deputado Rodrigo Maia (DEM/RJ)”, presidente do Congresso Nacional. E reafirmou seu maior objetivo: “eu ainda vou ser governador do estado do Rio”. Missão na qual ressaltou a importância política de Campos, “uma cidade que eu adoro”, embora tenha preferido não opinar sobre sua eleição a prefeito.

 

(Foto: Tânia Rêgo – Agência Brasil)

 

Folha da Manhã – Como está a sua pré-candidatura a prefeito do Rio pelo DEM? Trabalha para vencer a eleição em turno único, como pesquisas chegaram a indicar, após o deputado federal Marcelo Freixo (Psol) desistir de disputar o pleito?

Eduardo Paes – Eu sigo muito animado com a pré-candidatura. É uma pré-candidatura que busca resgatar a autoestima do carioca, botar a Prefeitura para funcionar mais uma vez. Agora, eu não me animo nem com pesquisa que me coloca lá na frente, nem me deprimo com pesquisa que me coloca atrás. Então, se a eleição vai ter um turno, dois turnos, isso depende da população. Eu vou disputar eleição como sempre fiz, respeitando os meus adversários e lutando para vencer.

 

Folha – Campista, de uma das famílias mais tradicionais da política goitacá, a deputada federal Clarissa Garotinho também seria pré-candidata a prefeita carioca. Como você vê?

Paes – Eu acho que é um direito dela. Me parece que ela já mora no Rio há muito tempo. Enfim, é um direito dela ser candidata pelo Rio, ou por Campos, ou por qualquer lugar. Sorte de Campos, que tem um Garotinho a menos para enfrentar.

 

Folha – Prefeito do Rio, Marcelo Crivella (Republicanos) é candidato à reeleição. Embora desgastado, tem a máquina municipal, o apoio da Record, da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd) e do clã Bolsonaro, após seu partido ter abrigado o senador Flávio e o vereador carioca Carlos, filhos do presidente. Que peso isso pode ter no pleito?

Paes – Sim, eles também são donos da TV Record. Então, de fato, é muita máquina. A vantagem para os adversários do Crivella, o que é uma tragédia para o Rio, é que ele é muito ruim. Então, pode ter TV Record, Igreja Universal, máquina da Prefeitura, apoio do Bolsonaro, que eu te garanto que o Crivella não será reeleito. Ele foi, tem sido um péssimo prefeito para o Rio, incompetente, sem capacidade de compreender a cidade. Então, tenho certeza, o Rio felizmente vai mandar o Crivella de volta para casa; ou para a igreja dele.

 

Folha – Se a aliança entre Crivella, a Iurd e o clã presidencial for derrotada na cidade do Rio, seria um golpe nessa mistura entre religião e política? Especificamente no projeto de poder político cada vez mais claro dos pentecostais?

Paes – Olha se você perguntar uma qualidade que eu vejo no Crivella é ele ser um homem de fé, ter uma religião. Então eu não vejo como um golpe a derrota dele na mistura entre religião e política, não. É um golpe na incompetência, na incapacidade, no amadorismo no trato da coisa pública, no desrespeito, na falta de vontade e disposição em trabalhar pela cidade que o elegeu prefeito quatro anos atrás.

 

Folha – O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) não foi o primeiro a se aproximar dos evangélicos. O ex-governador Anthony Garotinho (sem partido), apesar de comunista e ateu na juventude, foi precursor nisso. E Crivella, com o aval do tio, o “bispo” Edir Macedo, foi ministro da Pesca de Dilma Rousseff (PT), com o aval do ex-presidente Lula (PT). Como analisa?

Paes – É isso mesmo, é uma coisa curiosa. Você vê que a direita nessa eleição, supostamente conservadora, evangélica e contra os comunistas, é representada pelo Crivella, que foi ministro da Dilma. E a esquerda é representada por setores que trabalharam e apoiaram, por exemplo, a eleição a governador de Sérgio Cabral (MDB). Então, acho que isso é uma grande confusão. E, como o Crivella, a única qualidade que eu vejo no ex-governador Garotinho; e, neste caso, é a única mesmo; é o fato dele ser um homem de fé. Pelo menos eu quero crer que essa seja a única verdade que ele conta.

 

Folha – Lula, quando o PT era governo federal, também foi aliado do então governador Sérgio Cabral e de você, quando prefeito do Rio. O primeiro foi e o segundo continua preso por corrupção. O que pode dizer daquela relação de proximidade entre as três esferas de poder, que teve como marco as Olimpíadas de 2016? Qual o legado do evento à cidade?

Paes – Olha, enfim, todas as pessoas que cometeram desvios, crimes, estão respondendo pelos seus crimes. Há o caso do ex-governador Garotinho, que já foi preso aí seis ou sete vezes (na verdade, foram cinco vezes), infelizmente o caso do ex-governador Sérgio Cabral e do ex-presidente Lula. Eu não fico feliz com a prisão de nenhum deles, nem do Garotinho, nem do Lula, nem do Cabral; lamento que tenham cometido erros. A Olimpíada foi um evento fantástico para a cidade, deixou um enorme legado, com um aporte enorme de recurso da iniciativa privada na construção dos estádios olímpicos, com expansão da rede de metrô, com o Porto Maravilha, com a implantação de VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) de BRTs (Bus Rapid Transit, ou ônibus de trânsito rápido). Então, quem conhece o Rio, sabe do fantástico legado deixado pelas Olimpíadas.

 

Folha – Todos que frequentam a cidade do Rio são capazes de notar as realizações das suas duas gestões. A maior delas talvez tenha sido derrubar o elevado da Perimetral, na descida da ponte Rio/Niterói, para revitalizar a zona portuária da cidade com o Aquário, o Museu do Amanhã e um boulevard com áreas de lazer, bares, restaurantes e atividades culturais. O ponto negativo talvez tenha sido a ciclovia Tim Maia, que teve desabamento de trecho a primeira vez em 2016, matando duas pessoas. Entre uma coisa e outra, qual a média?

Paes – Olha, nós realizamos muito. Além do Porto Maravilha, você tem 150 km de BRT, você tem 300 escolas; eu fiz mais escolas no Rio do que o Brizola fez Cieps; você tem 115 clínicas da família, novos hospitais. Foi um governo de muita realização. Infelizmente, a gente errou ao ter implantado aquela ciclovia, você tem ali um erro de projeto técnico. Mas a responsabilidade política é do prefeito. Eu era o prefeito à época e me causa muita dor, principalmente por aquilo que é irrecuperável, que é a vida de duas pessoas.

 

Folha – Você foi citado como destinatário de caixa dois em delações premiadas de Benedicto Barbosa da Silva Júnior e Leandro Andrade Azevedo Odebrecht, ex-executivos da Odebrecht; de Renato Pereira, ex-marqueteiro do MDB; e de Lélis Marcus Teixeira, ex-presidente da Fetranspor. O que pode dizer sobre esses três casos?

Paes – Eu só conheço os dois primeiros casos. E ambos não condizem com a verdade.

 

Folha – Na eleição a prefeito do Rio em 2016, você foi criticado por insistir com a candidatura do deputado federal Pedro Paulo (DEM) para sucedê-lo, após ele ser acusado de violência doméstica contra a esposa. O fato é que, no 1º turno, o centro se rachou entre ele e os candidatos Índio da Costa (PSD) e Osorio (PSDB). Juntos, os três fizeram 33,73% dos votos, mais que os 27,78% de Crivella, ou os 18,26% de Freixo. Que foram o 2º turno, vencido pelo primeiro. Não foi um erro estratégico previsível? Pode ter sido arrogância?

Paes – Olha, eu coloquei o melhor candidato para a cidade, apresentei o melhor candidato para a cidade, o mais preparado, o que tinha condições de enfrentar aquele momento de crise que o Brasil já vivia; a gente já vinha de um decréscimo do PIB de 7,5%. Em relação à acusação que ele sofreu, ele foi inocentado depois de uma investigação da Polícia Federal (PF), do Ministério Público Federal (MPF), a pedido do (ex-)procurador(-geral da República) Rodrigo Janot, que nunca deu mole para político nenhum, e no Supremo Tribunal Federal (STF). Então a notícia não era verdadeira, a acusação não era verdadeira, ele foi inocentado, mas esse foi um dos fatores que prejudicou a candidatura dele. Infelizmente, quem perdeu foi o Rio, tendo que ver o Crivella se converter nessa tragédia. Eu não diria que foi arrogância, não. Foi a crença que eu estava apresentando para a cidade o melhor candidato.

 

Folha – Da eleição de 2016 à de governador, em 2018, até que ponto o fenômeno Wilson Witzel (PSC), com um dígito nas pesquisas até a semana do 1º turno, mudou a política fluminense? Credita o que aconteceu ao apoio do bolsonarismo, sobretudo a partir de Flávio, e de alguns importantes pastores pentecostais, que apostaram na reta final, via redes sociais, no então desconhecido ex-juiz federal?

Paes – Olha, eu acho que ficou muito claro que a vitória do governador Witzel em 2018 se deve ao apoio do presidente Bolsonaro, da família Bolsonaro, a esse desejo das pessoas que aconteceu em 2018 pela “nova política”; ele era um desconhecido. Em alguns momentos eu até o chamei de “Kinder Ovo”. Mas vários dos aspectos que surgem hoje, eu apontei na eleição. Eu sinceramente torcia que, após a minha derrota, ele fizesse um bom governo. E lamento que a gente esteja vivendo a situação que estamos vendo. É muito ruim para um estado já tão dilacerado como o Rio de Janeiro, que tem todos seus ex-governadores presos, a começar pelo senhor Garotinho e a senhora Rosinha (Garotinho e Rosinha estão em liberdade desde 31 outubro de 2019).

 

Folha – No atropelo de Witzel, ele acabou o 1º turno com 41,28% dos votos, contra seus 19,56%. Você ainda conseguiu tirar boa diferença, perdendo o 2º turno com 40,13% dos votos, contra os 59,87% dele. Foi a derrota de um político experiente na vitória da antipolítica? Como olha para isso diante da possibilidade real e presente do governador sofrer um impeachment, pelo que foi revelado na operação Placebo?

Paes – Como eu disse anteriormente, eu não vejo com alegria, não; eu vejo com tristeza. Ele me derrotou, ele venceu a eleição, teve a maioria do apoio da população do estado. A partir do momento da minha derrota, eu a reconheci e torci para que ele fizesse um bom governo. O Rio não merecia, de novo, um governador que cometesse esse tipo de erro. Nós merecíamos um governador que estivesse produzindo. Claro, isso só mostra que eu tinha razão, isso não é tarefa para pessoas que não têm experiência, não têm capacidade, que a gente não sabe nem quem é ou de onde veio.

 

Página 2 da edição de hoje (04) da Folha

 

 

(Foto: Tânia Rêgo – Agência Brasil)

 

 

Folha – Witzel foi alvo da operação federal por um suposto esquema de superfaturamento e desvio de verbas da saúde, que usaria o escritório de advocacia da primeira dama para lavar dinheiro, envolvendo o empresário Mário Peixoto. É a mesma área, modus operandi e ator do esquema de corrupção de Cabral. O problema não parece ser estrutural?

Paes – Não acho que seja estrutural, não. Eu fui prefeito do Rio oito anos, sou casado, tenho pai advogado; enfim, não há qualquer pessoa que me acuse ou que me denuncie por esse tipo de prática. Acho que isso… infelizmente… eu espero e torço, e quero repetir aqui, espero e torço para que não seja verdade em relação ao governador Witzel.

 

Folha – Não é segredo que você mantém o objetivo de ser governador. Se eleito prefeito do Rio, há possibilidade deixar o cargo que já ocupou duas vezes para se candidatar em 2022? Todos os ex-governadores vivos do estado, Moreira Franco (MDB), Garotinho, Rosinha e Luiz Fernando Pezão (MDB), foram presos. Cabral ainda está. E o atual, Witzel não deve ter vida fácil pela frente. É uma sina fluminense? Como romper com ela?

Paes – Um dia eu ainda vou ser governador do estado do Rio, sim. Mas não será em 2022. Se eu me eleger prefeito, eu vou terminar meu mandato de prefeito. Não teria como fazer isso com a minha cidade. Mas não tenho dúvida de que eu queria muito dedicar a minha experiência para ajudar um estado tão rico, tão importante, com cidades importantes como Campos; com cidades tão importantes como Petrópolis, Teresópolis, Friburgo; cidades tão importantes como Volta Redonda, Barra Mansa e Resende; com uma região metropolitana que tem tudo para despontar, com uma cidade como São Gonçalo, que precisa de muita atenção do poder público. Um estado com um potencial como o nosso, é lamentável que a gente tenha esse tipo de governadores. Um dia, se Deus quiser, ainda vou ser governador e mostrar que o estado do Rio não precisa seguir essa sina, não; que a gente vai renovar isso. E, se Deus quiser, com a maioria dos votos de Campos, que é uma cidade que eu adoro.

 

Folha – Já falamos sobre os evangélicos na política. E seu DEM em Campos é controlado pelo pastor Eber Silva, ex-aliado de Garotinho, ex-deputado federal e pré-candidato a prefeito na cidade, que costura uma aliança com o SD do deputado estadual Rodrigo Bacellar às eleições municipais. Como vê esses movimentos? Prefeita de Quissamã e pré-candidata à reeleição, Fátima Pacheco é o quadro mais forte do seu partido no Norte Fluminense?

Paes – A eleição para governador é uma coisa, né? Você olha para o quadro todo. De prefeito, ela vai para especificidades locais. Então, eu não tenho, focado aqui na política municipal da cidade Rio de Janeiro, eu não tenho como dar opinião na política de qualquer outro município do estado. A não ser torcer para que os bons quadros se reelejam e a gente possa ter na política, vencendo as eleições municipais, gente preparada para governar.

 

Folha – Da planície goitacá ao Planalto Central, o DEM controla o Congresso Nacional com Rodrigo Maia na Câmara e Davi Alcolumbre (AP), no Senado. O primeiro vinha sendo apontado como principal anteparo institucional aos arroubos autoritários do bolsonarismo. Mas parece ter engessado após a aliança do presidente com o Centrão. Qual a sua leitura?

Paes – O Brasil deve muito ao deputado Rodrigo Maia. Eu diria que ele é o “Senhor Estabilidade”. Se não fosse Rodrigo Maia, nós não teríamos ultrapassado o governo Michel Temer (MDB), nós não teríamos vivido minimamente este primeiro ano e meio do governo Bolsonaro. Então, eu tenho muito orgulho de marchar ao lado do deputado Rodrigo Maia e acho que ele hoje é um fator de estabilidade e muita força no cenário político brasileiro. É necessária a presença dele na política nacional, e devemos muito a ele.

 

Folha – Como avalia a política de enfrentamento da pandemia da Covid-19 pelos governos Bolsonaro, Witzel e Crivella? O que faria diferente?

Paes – Faria muita coisa diferente, mas destacaria duas coisas. Primeiro, se eu fosse governador, eu não teria brigado com o presidente da República e estaria trabalhando em parceria com os vários prefeitos do estado do Rio de Janeiro, algo que não acontece neste momento. É um monte de prefeito brigando com o governador, que briga com o presidente, que briga com o prefeito; todo mundo brigando com todo mundo. Isto é muito ruim. O segundo aspecto e que eu agiria diferente é o fato de que nós temos no estado do Rio, mais especificamente na Região Metropolitana, mais de 1.800 leitos da rede estadual, municipal e federal, vazios, prontos para serem usados. E não havia a menor necessidade de se construir esses hospitais de campanha caríssimos e, pelo jeito, com uma série de desvios. Então, eu faria muita coisa diferente, mas destacaria essas duas.

 

Página 3 da edição de hoje (04) da Foha

 

Publicado hoje (04) na Folha da Manhã

 

Eduardo Paes analisa cidade e estado do Rio, fala do passado e projeta o futuro

 

“Eu sigo muito animado com a pré-candidatura. É uma pré-candidatura que busca resgatar a autoestima do carioca, botar a Prefeitura para funcionar mais uma vez”.

“Pode ter TV Record, Igreja Universal, máquina da Prefeitura, apoio do Bolsonaro, que eu te garanto que o Crivella não será reeleito. Ele foi, tem sido um péssimo prefeito para o Rio, incompetente, sem capacidade de compreender a cidade. Então, tenho certeza, o Rio felizmente vai mandar o Crivella de volta para casa; ou para a igreja dele”.

“Você vê que a direita nessa eleição, supostamente conservadora, evangélica e contra os comunistas, é representada pelo Crivella, que foi ministro da Dilma. E a esquerda é representada por setores que trabalharam e apoiaram, por exemplo, a eleição a governador de Sérgio Cabral (MDB). Então, acho que isso é uma grande confusão”.

“Como o Crivella, a única qualidade que eu vejo no ex-governador Garotinho; e, neste caso, é a única mesmo; é o fato dele ser um homem de fé. Pelo menos eu quero crer que essa seja a única verdade que ele conta”.

“Eu não fico feliz com a prisão de nenhum deles, nem do Garotinho, nem do Lula, nem do Cabral; lamento que tenham cometido erros. A Olimpíada foi um evento fantástico para a cidade, deixou um enorme legado, com um aporte enorme de recurso da iniciativa privada”.

“A gente errou ao ter implantado aquela ciclovia (Tim Maia), você tem ali um erro de projeto técnico. Mas a responsabilidade política é do prefeito. Eu era o prefeito à época e me causa muita dor, principalmente por aquilo que é irrecuperável, que é a vida de duas pessoas”.

“A vitória do governador Witzel em 2018 se deve ao apoio do presidente Bolsonaro, da família Bolsonaro, a esse desejo das pessoas que aconteceu em 2018 pela ‘nova política’; ele era um desconhecido. Em alguns momentos eu até o chamei de ‘Kinder Ovo’. Mas vários dos aspectos que surgem hoje, eu apontei na eleição”.

“Um dia, se Deus quiser, ainda vou ser governador e mostrar que o estado do Rio não precisa seguir essa sina, não; que a gente vai renovar isso. E, se Deus quiser, com a maioria dos votos de Campos, que é uma cidade que eu adoro”.

“Eu não tenho, focado aqui na política municipal da cidade Rio de Janeiro, eu não tenho como dar opinião na política de qualquer outro município do estado”.

“Eu tenho muito orgulho de marchar ao lado do deputado Rodrigo Maia e acho que ele hoje é um fator de estabilidade e muita força no cenário político brasileiro”.

“Nós temos no estado do Rio (…) mais de 1.800 leitos da rede estadual, municipal e federal vazios, prontos para serem usados. E não havia a menor necessidade de se construir esses hospitais de campanha caríssimos e, pelo jeito, com uma série de desvios”.

 

Eduardo Paes (Foto: Tânia Rêgo – Agência Brasil)

 

Essas foram algumas das afirmações feitas por Eduardo Paes, ex-prefeito e pré-candidato a prefeito da cidade do Rio de Janeiro, em entrevista exclusiva respondida por áudio nesta quinta (02). Para conferi-la na íntegra, falando sobre cidade e estado do Rio, política e religião, legado das Olimpíadas de 2016, desabamento da ciclovia Tim Maia, prisões de ex-governadores fluminenses, Garotinhos, Cabral, Lula, Crivella, Bolsonaro, ameaça de impeachment a Wilson Witzel, sonho de chegar ao Governo do Estado, papel de Rodrigo Maia na República e erros no combate à pandemia da Covid-19, confira a edição da Folha da Manhã deste sábado (04), bem cedo nas bancas e na casa dos assinantes.

 

Makhoul não governou a cidade que o adotou. Fez e foi muito mais que isso

 

“Desde que chegaste ao mundo do ser,

uma escada foi posta diante de ti, para que escapasses.

Primeiro, foste mineral;

depois, te tornaste planta,

e mais tarde, animal.

Como pode isto ser segredo para ti?

 

Finalmente, foste feito homem,

com conhecimento, razão e fé.

Contempla teu corpo — um punhado de pó —

vê quão perfeito se tornou!

 

Quando tiveres cumprido tua jornada,

decerto hás de regressar como anjo;

depois disso, terás terminado de vez com a terra,

e tua estação há de ser o céu.”

 

(Jalal al-Din Rumi, século XIII)

 

Makhoul foi três vezes candidato a prefeito de Campos pelo PT, mas nunca deixou de ser crítico ao partido e lideranças nacionais como os ex-presidentes Lula e Dilma (Foto: Folha da Manhã)

 

 

Histórias de Makhoul

 

Era uma tarde quente campista, na Santa Casa de Misericórdia, no verão de 1992. E o neurocirurgião Makhoul Moussallem bateu o martelo: “Eu te dou meia hora para decidir se vai levar ele ao Rio, para operar com Paulo Niemayer. Não discuto competência, mas a técnica é a mesma. Com a hemorragia comprimindo o cérebro, o problema dele é tempo. Se você não decidir, eu abro a cabeça dele e opero sem a sua autorização. E a responsabilidade deixa de ser sua e passa a ser minha”.

Assertivo, sincero e corajoso, características que sempre o distinguiram entre os homens, foi o que Makhoul disse ao jornalista Aluysio Barbosa sobre o filho homônimo deste, então com 19 anos, inconsciente e moribundo sobre uma maca. Horas antes, subira em um telhado de Grussaí para pegar uma bola de frescobol, escorregara a caíra de uma altura de três metros. Sem um galo por fora, a fronte do seu crânio arrebentara por dentro. Se morresse, o faria conhecendo pouco o calor de uma mulher, sem ter um filho ou plantar uma árvore.

Entre lapsos rápidos de semiconsciência, a última coisa que se lembrava, antes de entrar na sala de cirurgia, foi virar a cabeça ao lado, agonizando, para ver seu pai sentado em uma cadeira, chorando em prantos e amparado pela mãe, mulher de têmpera mais forte, de pé ao seu lado. Após as horas de cirurgia, quando os pais foram levados para ver o resultado, diante da incerteza da mãe em saber se aquele corpo inerte ainda era seu filho, Makhoul deu uns tapas no rosto do paciente. Que foram se tornando mais fortes em busca de reação.

Mesmo de olhos fechados e ainda sob efeito da anestesia, o recém-operado finalmente reagiu. Ergueu lentamente o punho direito cerrado, ameaçando o murro contra quem acabara de salvar a sua vida. E, naquele hiato entre dois mundos, vociferou na direção de quem não conseguia enxergar, nem distinguir entre salvador ou agressor: “Para, seu filho da puta!”. Foi a senha para que, em meio ao riso aliviado do médico do pai, a mãe finalmente caísse em prantos por reconhecer quem sobrevivera: “É o meu filho!”.

Na manhã seguinte, o médico foi ter com o paciente, já desperto, na UTI da Santa Casa. A quem perguntou: “Você sabe quem sou eu?”. E teve como resposta estranhamente consciente: “Sei. Você é Makhoul. E me operou”. Dali, durante o processo de recuperação e nos anos seguintes, nasceu daquela beira de morte uma amizade sólida para a vida inteira. Na qual o libanês adotado por Campos, ciente e cioso da história milenar do seu povo, abriu a cabeça do jovem curioso também à cultura do Oriente Médio, berço da civilização. Que faria dela um dos seus pilares na formação como homem.

Foi Makhoul quem introduziu o ex-paciente na história dos cananeus, ou fenícios, como os gregos antigos chamaram os libaneses de hoje. Vizinhos e primos semitas dos hebreus, foram os arquitetos do Templo de Salomão. Na Idade do Bronze, legaram ao mundo as navegações marítimas, do Mediterrâneo até o Atlântico, o comércio e um tal de alfabeto. Foram dominados por assírios, babilônios, persas e pelos gregos de Alexandre. Ainda assim, fundaram Cartago no Norte da África, rival de Roma como a grande potência da Idade do Ferro. Com o Islã, seriam dominados pelos árabes, luz do mundo na Idade Média, cuja língua passaram a adotar. Mas nunca deixaram de praticar também o cristianismo, legado romano cuja versão maronita era a religião do médico de Campos, como de grande parte dos libaneses.

Uma coisa é ler sobre isso nos livros. Outra é ouvir da boca de um personagem vivo desse caldeirão da história humana, cônscio da visão, tato, cheiro e sabor de cada ingrediente. Como uma coisa é assistir nos telejornais sobre a questão da Palestina. E outra era ouvir de Makhoul o testemunho adulto da criança que acompanhava o avô, quando este ia correr os campos da sua propriedade rural nas colinas do Líbano, durante a primavera. E topavam com os corpos de crianças palestinas abraçadas às suas mães, degelando com a neve.

Foram essas raízes profundas de cedro do Líbano, árvore símbolo daquele país, que Makhoul fincou no barro massapê de Campos, ainda criança, acompanhado da família, para crescer entre ipês amarelos. E deixar frutos. Além dos seus filhos Luana, Felipe, Camila e Diego, dos seus netos Jonas, Maria Luiza, Eva e Makhoul Neto, da sua enteada Isadora, as tantas vidas que salvou em sua brilhante carreira na medicina. Talvez não tenha sido a todas que ele tenha podido ensinar a saborear tomates cortados com azeite e sal como isca para cerveja, whisky ou vinho. Ou os versos do persa Jalal al-Din Rumi, poeta medieval que nada fica a dever ao seu contemporâneo italiano Dante Alighieri. O que é uma pena, pois conhecer Rumi é como ter a vida salva de novo: “Você não é só uma gota no oceano,/ Você é o próprio oceano dentro de uma gota”.

Era uma tarde quente asiática em Konya, no verão de 2009, no coração espiritual da Turquia, pulsante no peito do planalto da Anatólia. Bem diferente do que quem só conhece o país por suas capitais antiga e atual, Istambul e Ancara, ou a grande cidade portuária de Ismir — a Esmirna bíblica, onde nasceu o grego Homero, pai de todos os poetas — e supõe que o antigo Império Otomano sobrevive apenas nos seus maiores centros urbanos ocidentalizados de hoje.

Dois ex-pacientes de Makhoul, o homem de 37 anos e seu filho de apenas 9 tinham a vantagem de se parecerem fisicamente com turcos, a despeito das suas roupas ocidentais modernas, em meio a mulheres cobertas com burcas. Visitavam o Museu Mevlâna, instalado em um antigo monastério dervixe, da corrente sufista. Mais mística que o islamismo tradicional, foi fundada com base nos ensinamentos teológicos de Rumi, na pregação do amor, da tolerância e da misericórdia. E se caracteriza por homens que entram em estado de adoração, enquanto dançam rodopiando com saias longas e chapéus cônicos. É um local sagrado de peregrinação aos muçulmanos.

Embora não exista a figura dos santos no islamismo, na analogia com o cristianismo, é como se Rumi fosse. O acesso ao interior do seu Mausoléu de mármore, onde fotos são proibidas, se dá por um túnel em forma de “U”, com o túmulo do poeta na base da “letra”. Embora largo e alto, o caminho se estreita pela presença de devotos, como a entrada do Maracanã em jogo de final de campeonato. O único percurso permitido é da direita para a esquerda, como escrevem árabes e judeus, herdeiros do alfabeto consonantal fenício. “Nós ciscamos para dentro e vocês (ocidentais) para fora”, como ironizava Makhoul.

A sensação claustrofóbica no interior do Mausoléu era reforçada não só pelos corpos humanos apertados uns contra os outros. Mas também pelas mulheres, em êxtase religioso, ecoando aqueles sons agudos no movimento intermitente da língua entre os lábios e o palato. Alguns homens batiam as mãos espalmadas às próprias faces. O homem ocidental estava assustado, mas tentava manter a calma. Seja porque não havia retorno possível, seja porque seu filho, criança que segurava firme pela mão e havia metido naquela celebração de fé no meio da Ásia, estava ainda mais.

Até que finalmente tiveram acesso à base mais larga do “U”, no coração do Mausoléu. Nele, o túmulo de Rumi e o epitáfio que o poeta deixou para si: “Quando estivermos mortos,/ Não procure nosso túmulo na terra,/ Mas o encontre no coração dos homens”. Em busca do que Makhoul ensinou sobre sua cultura, dois seus ex-pacientes foram curados de qualquer medo. E, irmanados a mulheres e homens antes diferentes, pai e filho saíram à luz do sol.

Makhoul nunca fez concessões em seus 75 anos de vida. Após vencer dois infartos e um câncer, nem à Covid que o matou na manhã de quarta (01). Mas quis levá-lo na segunda (29), quando lhe causou uma parada cardíaca e a família foi chamada para se despedir. Só para o libanês provar que, como todo campeão, ainda tinha mais um round guardado para lutar.

Makhoul não chegou a governar a cidade que o adotou, como tentou três vezes. Fez e foi muito mais que isso.

Vá em paz, meu irmão fenício e goitacá!

 

Publicado hoje (02) na Folha da Manhã

 

Atualização às 9h49 de 03/07 para acrescer a postagem do que escreveu (confira aqui) o jornalista Ícaro Barbosa, outro ex-paciente de Makhoul, após a morte deste. Além de um trecho em que o médico estabelece, do árabe materno ao português da sua adoção brasileira, uma ponte entre as duas culturas da qual foi fruto. Os dizeres nas duas línguas são do próprio punho de Makhoul. E o vídeo faz parte do documentário “Memórias da Imigração”, do Arquivo Público Municipal de Campos em parceria com a TV Câmara, dirigido por Fred Parente. A contribuição é da historiadora Rafaela Machado, diretora do Arquivo:

 

Ícaro Barbosa, jornalista e graduando em História

Por Ícaro Barbosa

Makhoul, vou tentar escrever um pouco sobre o senhor. Não posso deixar a única pessoa que viu dentro da minha cabeça, literalmente, partir sem deixar registradas algumas palavras. Na ocasião que o senhor me operou, eu não sabia nem falar, andar ou coisa do gênero, mas acho que não vem ao caso. Tua partida me deixa muito triste. Uma pessoa que eu sempre respeitei e soube que era honesto e íntegro. Tirei meu título aos 16 anos, especificamente para votar no senhor; primeira e última vez que votei no PT (repito, tirei para votar no senhor).

Da última vez que te vi, em Grussaí, em uma festa de aniversário, sentamos juntos na mesa. Brincamos e o senhor zoou da costeleta que eu usava na época. Eu ri. Apesar de não termos tido conversas muito longas ou coisa do tipo, sempre tive e nutri muita simpatia pelo senhor, falando sempre que nos víamos. Não poderia deixar o dia acabar sem registrar em palavras minha admiração e agradecimento ao senhor.

Meus pêsames aos filhos, netos e doutora Vera. Abraços, Makhoul! Vá em paz!

 

 

(Arquivo de Rafaela Machado)

 

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