Opiniões

Especialistas de Campos projetam vacina contra Covid mais perto dos brasileiros

 

Entre o final deste ano e o início de 2021, uma vacina contra a Covid-19 estará pronta. E o acesso a ela em larga escala se dará no Brasil até meados do próximo ano. Estas foram as projeções feitas no painel com cinco especialistas locais que a Folha buscou para responder às principais perguntas da humanidade, desde que a pandemia parou o mundo e foram anunciados os avanços no desenvolvimento de vacinas. Sobre o que esperar delas, em ordem alfabética, falaram a médica infectologista Andreya Moreira, que tem coordenado o combate ao novo coronavírus em Campos, à frente da Vigilância em Saúde; o biólogo Carlos Bacelar, há décadas à frente do conceituado laboratório Plínio Bacelar; a médica epidemiologista Elizabeth Tudesco, com vasta experiência em Saúde Pública; o médico infectologista Nélio Artiles, entre os mais respeitados da cidade em sua especialidade; e o biólogo Renato da Matta, professor da Uenf que tem trabalhado na parceria da universidade com o governo municipal na testagem da população do Norte Fluminense. O esforço de cada um deles, assim como das enfermeiras Roberta Lastorina e Fernanda Mattos, da Vigilância Epidemiológica, que auxiliaram Andreya nas respostas, é mais um dos tantos exemplos de como a ciência e a perseverança de mulheres e homens contribuem para se responder à indagação que fecha esta entrevista: “existe algo mais valioso que a vida humana?”.

 

Andreya Moreira, Carlos Bacelar, Elizabeth Tudesco, Nélio Artiles e Renato da Matta (Montagem: Eliabde de Souza, o Cássio Jr)

 

 

Folha da Manhã – Entre as mais de 160 candidatas no mundo a vacina contra a Covid-19, 24 já são testadas em humanos. A desenvolvida pela universidade britânica de Oxford, com a farmacêutica anglo-sueca AstraZeneca, e a da empresa chinesa Sinovac, são as mais avançadas, em fase 3, de ensaio em larga escala. E as duas já são testadas no Brasil. Qual a sua expectativa?

Andreya Moreira – Um dos capítulos mais brilhantes da história da ciência é o impacto das vacinas na saúde e na longevidade dos seres humanos. Para isso, normalmente, as vacinas exigem anos de pesquisas e testes antes de chegarem na fase clínica. Contudo, diante do estado de emergência em saúde pública internacional, os cientistas estão se empenhando para produzirem uma vacina segura e eficaz até o próximo ano. As pesquisas com o objetivo de desenvolvimento de uma vacina contra o Sars-CoV-2, da síndrome respiratória aguda grave, começaram em janeiro com a descrição do genoma viral. Os primeiros testes para avaliação da segurança de vacinas em seres humanos começaram em março. Algumas tentativas falharam e outras poderão terminar sem um resultado claro, mas algumas podem conseguir estimular o sistema imunológico a produzir anticorpos eficazes contra o vírus. Tanto a vacina desenvolvida pela Oxford quanto aquela da AstraZeneca estão na fase 3 de estudos denominados ensaios clínicos. Nessa fase, a vacina é administrada em milhares de pessoas e os pesquisadores esperam para verificar quantos serão infectados, em comparação com os voluntários que receberão um placebo. O objetivo dessa fase é determinar se a vacina protege contra o coronavírus. Após a fase 3, ainda há a última, a fase 4, onde testes de acompanhamento são elaborados e implementados em milhares de pessoas, em vista de possibilitar o conhecimento de detalhes adicionais sobre a segurança e a eficácia da vacina.

Carlos Bacelar – Estou otimista. A evolução da imunologia aliada à genética acelera largamente o horizonte na produção de vacinas e elementos indutores de repostas imunológicas através dos linfócitos “T” (células do sistema imunológico). O tempo final de produção de vacinas é, em média, 22 meses, sendo 70% desse tempo gasto na avaliação das respostas em cobaias e depois no homem. Conseguindo trazer esse prazo para cerca de um ano, é fantástico.

Elizabeth Tudesco – A expectativa é a de que a melhor, a que apresentar maior eficácia mediante estudos epidemiológicos sérios e comprovação científica, deverá ser utilizada. Com todo o cuidado, levando em conta as várias faixas etárias que receberam as vacinas e a possibilidade de surgirem eventos adversos após a aplicação. A ansiedade é grande, mas a certeza de um bom resultado deve ser maior.

Nélio Artiles – Das mais de 160 vacinas em desenvolvimento, cinco vacinas estão em fase 3, que é a última para demonstrar efetividade e segurança. A vacina de Oxford é uma vacina composta de um outro vírus, um adenovírus de chimpanzé modificado, inativado e que foi acrescentado a proteína S da espicula da coroa do coronavírus. Com isto o organismo cria anticorpos efetivos e aparentemente duradouros contra o Sars-CoV-2. A outra, da Sinovac, usa o próprio vírus inativado e, de acordo com as informações, também apresenta uma boa eficácia. A perspectiva é muito boa e com uma boa possibilidade de termos vacina disponível até o fim do ano.

Renato da Matta – A minha expectativa, baseada nos testes iniciais, é boa. Vale lembrar que esses resultados foram anunciados antes, mas publicados em 20 de julho, após os manuscritos das duas vacinas serem analisados por pares em artigos na revista The Lancet, de grande prestígio mundial. O desenvolvimento de vacinas, assim como outros fármacos e procedimentos, segue um protocolo que é dividido em fases. Em cada fase se tem uma avaliação. Se tudo correr bem na fase, o processo segue para a fase seguinte. Esses artigos reportam as fases 1 e 2. As vacinas testadas induziram resposta imunológica entre 90% a 95% do grupo testado. Isso é um ótimo resultado. Portanto, minha expectativa é que em breve teremos vacinas contra o Sars-CoV-2, o coronavírus que causa a Covid-19.

 

Folha – Em entrevista ao Folha no Ar da última segunda (20), o jornalista José Trajano fez as perguntas mais importantes e pragmáticas à maioria de não especialistas: “Quando é que vai chegar a vacina? Ela será eficaz? Será distribuída em larga escala?”. Como você responderia?

Andreya – O fato de termos diferentes vacina em fase 3 nos permite ter expectativas positivas em relação a identificação de um imunobiológico contra o Sars-CoV-2, uma vez que a fase 2 já foi capaz de demonstrar a segurança e a capacidade de estimularem o sistema imunológico. Contudo, apesar dos ensaios clínicos serem uma poderosa ferramenta para a avaliação de intervenções para a saúde, sejam elas medicamentosas ou não, eles apresentam alto grau de complexidade, uma vez que além de investigarem a eficácia ou não de uma intervenção, também são responsáveis por identificarem a segurança da mesma. Logo, a vacina apenas poderá ser disponibilizada após evidencias cientificas claras em relação à eficácia contra o Sars-CoV-2 e segurança para a população.

Carlos – As informações, até o momento, indicam que no final do ano deveremos ter as duas vacinas já comercializadas. Ela só deverá ser aplicada com sua eficácia comprovada como capaz de induzir respostas imunológicas ao vírus. Acredito que depois, durante o próximo ano, haverá um acompanhamento sobre a necessidade de revacinar, e por quais períodos. Mas a vitória inicial foi obtida. É certo que será distribuída em larga escala cumprindo um cronograma inicial que será divulgado. Não haverá, no primeiro momento, vacina para todos, mas a “linha de produção” estará funcionando em pleno vapor. Sem esquecer que existem duas vacinas a mais e outras 166 em fases adiantadas de pesquisas.  Sem comentários, por falta de conhecimentos, a propaganda do governo da Rússia informou que já está com uma vacina pronta, com a qual já teria vacinado todo seu contingente militar. A conferir.

Elizabeth – É preciso levar em conta, apesar da urgência da situação e de toda a tecnologia de hoje, que a vacina é aplicada em seres humanos que apresentam respostas diferentes. Isso implica na necessidade de estudos de acompanhamento às respostas imunológicas específicas de cada grupamento étnico, social e etário. E que atualmente nenhuma vacina é 100% eficaz. Depende da resposta imunológica, da sua conservação, do local de aplicação, de uma série de fatores que interagem.

Nélio – Uma vacina tradicionalmente passa por três fases, separadas entre elas por muita discussão, publicações e planejamentos. Neste momento estes intervalos estão sendo abolidos, com fases contíguas. Existem algumas indústrias mundiais que já iniciaram o processo de produção das vacinas, mesmo sem a conclusão final, acreditando nos resultados positivos até o momento. Acredito que em tempo recorde teremos vacinas disponíveis para toda a população mundial no início do próximo ano.

Renato – Não sou um especialista em vacinas, mas trabalho numa área que permite entender um pouco mais o que está acontecendo. Tudo indica que até o final do ano teremos vacinas! Mas para a população em geral receber a nova vacina é importante levar em conta uma logística complexa. Prever o futuro é missão impossível, afinal não existe bola de cristal. Então, isso é uma opinião. Dentre vários fatores, é necessário levar em conta a capacidade de produzir a vacina e os grupos prioritários que devem receber a vacina. O Brasil tem a tecnologia de produzir vacinas em escala industrial, graças aos investimentos estratégicos: temos a Fiocruz e o Butantan. Portanto, temos condições de ser um dos primeiros países no mundo a produzir as vacinas. Tendo a vacina, existe a problemática de administrá-la, o que não é simples de fazer em 210 milhões de pessoas. Fora isso, quem deve receber primeiro a vacina? Vemos isso com outras vacinas. Segue-se a lógica ética. Portanto, uma estimativa otimista é que em meados de 2021 teremos a população brasileira vacinada. Nesse caso, é crucial continuar educando o povo, focado no letramento científico, para que sigamos o “novo normal”: 1- não saiam de casa; 2- usem máscara; 3- troquem a máscara de duas em duas horas; 4- lavem as mãos com detergente, usem álcool 70% ou álcool gel nas mãos por pelo menos 20 segundos; 5- tenham cuidado extra, evitando levar as mãos a face; 6- mantenham distância de dois metros dos colegas; 7- tapem o espiro ou tosse com papel, ombro ou cotovelo; 7- cumprimente o amigo à distância e sem contato físico. Essas medidas socioculturais devem ser incorporadas no famoso “novo normal”, até que toda a população esteja vacinada. Não existe outra alternativa. Não usar máscara na rua é uma atitude ignorante, irresponsável e arrogante.

 

Folha – A vacina da Sinovac é desenvolvida em parceria com o Instituto Butantan, de São Paulo, maior produtor de vacinas da América Latina e a 4º do mundo. E a de Oxford, em parceria com a Fiocruz, do Rio de Janeiro, referência global em pesquisas de saúde pública. Como essas parcerias facilitarão o acesso do brasileiro a essas vacinas? O fato de o país ser um dos maiores epicentros mundiais da Covid, paradoxalmente, adianta nosso lugar na fila de espera?

Andreya – O que está acontecendo é uma parceria política que envolve interesses em comum. O Brasil tem a grande estrutura para a linha de produção e profissionais de excelência e os laboratórios internacionais possuem a técnica. Isso firma um acordo de transferência de tecnologias, onde um auxilia na descoberta do outro e favorece a grande produção, visando o bem comum. Os critérios para a distribuição em meio a uma pandemia serão extremamente difíceis, no entanto o fato de ter parcerias como estas nos coloca em uma posição de pleito favorável.

Carlos – A notícia é que o ministério da Saúde se adiantou fazendo a reserva de um grande lote no primeiro momento. Além disso houve um louvável movimento de particulares, como a Fundação Lehman e outras, que investiram recursos consideráveis no Butantan e na Fiocruz, via Instituto Manguinhos, entidades detentoras de reconhecimento mundial em produção e vacinas. Em um movimento sem precedentes no lado de ajuda humanitária, fundos como o Einstein e da Rede D’Or construíram hospitais de campanha em São Paulo e Rio de Janeiro para atender exclusivamente pacientes do SUS.

Elizabeth – Estudos com a vacina de Oxford já saíram em revistas científicas internacionais, conforme exigência da OMS e outras órgãos de controle de saúde no mundo. Vamos aguardar os resultados de cada uma, independente de corrida política, porque vacina precisa ser eficaz e segura, com o mínimo de eventos colaterais após sua aplicação.

Nélio – Essas parcerias são positivas e certamente trarão benefícios ao acesso dos brasileiros à vacinação, visto que parte da produção acontecerá aqui no país. E, pelo fato de estarmos em um momento crítico de transmissibilidade da doença, os testes estão sendo aplicados em vários estados brasileiros, principalmente em profissionais de saúde e pessoas que tem exposição provável, em idades variadas.

Renato – As instituições Butantan e Fiocruz são excelentes. A presença delas nos coloca em um grupo seleto de países que detém a tecnologia e o “saber como” produzir e usar vacinas. Infelizmente ainda não detemos a capacidade de produzir a vacina na velocidade de outros países; precisamos de mais investimentos em ciência. Pelo que vi na imprensa, a tecnologia será transferida, o que é extremamente vantajoso para todos nós. Ontem anunciaram que os EUA já se anteciparam e compraram todas as doses de duas grandes companhias que estão também desenvolvendo vacinas contra o Covid-19. Portanto, a “equação” não é simples. Mas como as instituições Butantan e Fiocruz são públicas, não acredito que esse tipo de ação atrase a vacinação dos brasileiros. Logo, é grande vantagem ter essas parcerias.

 

Página 6 da edição de hoje (25) da Folha

 

Folha – No domingo (19), diante dos seus apoiadores em Brasília cada vez menos numerosos, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) levantou a cloroquina como outros capitães, da seleção brasileira de futebol, fizeram com a Copa do Mundo em nossos cinco títulos. Sem nenhum estudo científico que aponte o remédio como eficaz no tratamento da Covid, como você vê? A vacina virá para sepultar de vez esse tipo de populismo político com a doença?

Andreya – Em um momento de pandemia, uma doença nova em que o mundo se viu de mãos atadas, todo fio de esperança foi e é válido ao pensar como estratégia a ser testada para salvar e proteger vidas. Dentro das prescrições médicas existe uma prática que são os usos off-label (diferentes do aprovado em bula) de algumas drogas que não necessariamente necessitam de aprovações imediatas dos líderes, mas sim de um comitê de ética e do próprio paciente. O emprego na cloroquina foi uma prática não somente brasileira, mas mundial. Fazem parte das práticas em saúde os estudos empíricos não só com drogas recém descobertas, mas também com aquelas já existentes para descobrir novos usos para as mesmas, buscando mecanismos de cura ou que salvaguarde os vulneráveis. Isso é pesquisa. E, claro, quando praticada e direcionada por pessoas técnicas, sempre é melhor. O ato de uma pessoa divulgar aquilo que acredita sempre deve ser observado criticamente para minimizar as chances de insucesso.

Carlos – Os governos com tendência autoritária têm a necessidade de tentar impor suas ideias em questões de interesse público. Mas, neste caso, a resposta foi grande, a ciência prevaleceu e colocou as coisas em seus devidos patamares. Um dos mais reconhecidos imunologistas do mundo, o francês Didier Raoult publicou um artigo em 28 de março mostrando como tratava a Covid-19 com cloroquina e azitromicina. Atendendo em hospital mais de 600 pacientes/dia, disse ele: “Há 13 anos pesquiso a cloroquina em vírus com sucesso absoluto”. Cada profissional médico usa o protocolo que melhor lhe convier, não sendo obrigado ou proibido receitar tal produto, desde que este seja aprovado em seus país.

Elizabeth – A cloroquina e outros medicamentos estão sendo testados, mas o uso desses medicamentos depende da precocidade do tratamento, da presença de outras doenças que afetam e aumento o dano do vírus ao organismo, da idade de quem recebe. Com a vacina será igual: deverá ser eficaz, dar imunidade segura, sem apresentar reações recentes ou tardias.

Nélio – Posturas políticas poderiam mudar caso tivessem uma base de informação científica adequada, ouvindo a sociedade civil especializada como as sociedades médicas de conhecimento específico, como é o caso da Sociedade Brasileira de Infectologia. Ainda não existe nenhuma droga antiviral de efeito comprovado cientificamente. É de fundamental importância que todo ato médico seja baseado em evidências científicas. Caso contrário poderá haver uma infração grave em um dos princípios básicos da bioética, que é não fazer o mal. Já há evidências comprovadas que cloroquina e a hidroxicloroquina não só não funcionam, como colocam em risco a vida das pessoas. Assim como o absurdo de vermos hoje o uso indiscriminado e popular da ivermectina, que funcionou em laboratório, mas não conseguem ser efetivos in vivo, apenas em doses centenas de vezes maiores. Não concordo com uma autonomia médica de prescrever medicações sem comprovação científica e com riscos à população.

Renato – A atitude do nosso atual presidente é lamentável, revela uma profunda ignorância. Algo, infelizmente, difundido por boa parte da população brasileira, revelando como somos atrasados em diferentes aspectos. Uso de medicamentos para tratamento de doenças exige trabalhos científicos longos que aplicam metodologias estatísticas específicas, como seleção de grupos por técnicas randômicas e cegas. Sem isso, o estudo pode indicar algo irreal, pois pode ter “variáveis de confusão”. A cloroquina se encaixa nisso. Não existe ainda um estudo seguindo essas diretrizes. No entanto, o médico tem autonomia e o dever de se informar sobre o uso de qualquer composto em qualquer situação. A vacina virá para nos salvar desse “novo normal”. Para “sepultar de vez o populismo político” é necessário investir na educação.

 

Folha – Além de apostar nas vacinas já em teste, é preciso se resguardar no caso delas falharem. Para tanto, o Brasil precisa aderir à Covax, iniciativa da OMS para garantir acesso às primeiras vacinas que derem certo. O que só foi feito após vencer resistências do governo Bolsonaro, que considera a OMS “globalista”. Partidários do presidente já declararam que não tomariam a vacina da Sinovac porque a China é “comunista”, quando na verdade tem um sistema híbrido de capitalismo de estado. Para salvar vidas, a questão não deveria ser apenas científica?

Andreya – Tudo no mundo abrange um processo político. A imunização é prevista dentro das políticas sociais em saúde e o Brasil sempre foi e é respeitado mundialmente pelas suas instituições públicas produtoras como o Butantan e Fiocruz e pelo Programa Nacional de Imunização (PNI), com mais de 40 anos de vida e distribuição de vacinas, soros e imunoglobulinas a níveis continentais. Atuar diplomaticamente em acordos e compreensão entre diversos países e interesses deve ser uma tarefa árdua, porém o Brasil tem um grande poder de barganha no que tange imunização em acordos de fornecimentos com a Opas (Organização Pan-Americana de Saúde), por exemplo.

Carlos – O presidente também falou: “quem é de direita toma cloroquina e quem é de esquerda toma tubaína”. Seria mais ou menos: os brasileiros que não aceitam seus argumentos, tomam a vacina; os que aceitam… Além de salvar vidas, a vacina é o único caminho da volta à normalidade.

Elizabeth – Existem protocolos internacionais que todos os fabricantes de vacina devem observar e estudos observacionais que devem ser seguidos. Devemos confiar em laboratórios internacionais com comitês científicos de especialistas, cujo compromisso maior é com a saúde pública mundial. Devemos esperar para que tenhamos a melhor vacina do mundo, com o mínimo de erros.

Nélio – Concordo e acredito que qualquer gestão em saúde deve ser em consonância com as evidências científicas atuais. O Brasil precisa de um ministério da Saúde e um da Educação para mudarmos este cenário em que vivemos.

Renato – Deveria ser, mas isso é utópico, pois o mundo é multidimensional e as pessoas têm suas crenças, cultura e atitudes baseadas no que aprenderam e viveram ao longo de suas vidas. No caso do Covid-19, as pessoas deveriam ser mais científicas. No entanto, até alguns colegas meus da Uenf, que foram formados fazendo “ciência” em seus doutoramentos, e fazem até hoje orientando seus alunos, acreditam que cloroquina é válida para tratar Covid-19, ou que o vírus foi uma criação de laboratório. De certa forma, são negacionistas e não procuram entender o que se tem que fazer, qual protocolo seguir, para que um composto usado no tratamento de certas doenças seja validado para outras. Isso faz parte da sociedade, envolve aspectos ideológicos e merece um estudo mais profundo pelas ciências sociais.

 

Folha – Até o momento, a vacina mais rápida produzida pelo homem foi contra a cachumba, que levou quatro anos. Se conseguir a imunização contra a Covid em cerca de um ano, será uma vitória da ciência? Mais, será a aprovação da humanidade em um teste da natureza por sua sobrevivência? Como vê a versão de que o vírus Sars-CoV-2 teria sido criado em laboratório?

Andreya – Caso a vacina contra a Covid-19 seja desenvolvida em um ano e a mesma tenha poder de imunoprevenção, a doença e com elevado fator de proteção do organismo humano com certeza será um dos grandes feitos da humanidade. A luta pela sobrevivência é algo intrínseco dos seres humanos, desde o momento da concepção, aos momentos de observações empíricas que geraram as melhoras das condições sanitárias no Egito Antigo. Ou no século 19, por medidas de cuidado do ambiente de saúde e higienização das mãos, destacados por Florence Nightingale (enfermeira britânica) e Ignaz Semmelweis (médico húngaro); ou John Snow (médico inglês), quando observou o ciclo da cólera ao olhar o comportamento da distribuição da transmissão da doença no território. A luta pela sobrevivência é constante e ultrapassa as gerações. À medida que as tecnologias em saúde se ampliam a expectativa de vida tende também a dar grandes saltos na prevenção das doenças. O grande desafio com o desenvolvimento da vacina será a produção em massa, a distribuição e o acesso.

Carlos – Já circulou também que o HIV foi criado em laboratório. Faz parte do imaginário. O Brasil foi pródigo em grandes nomes na ciência e hoje temos Dr. Pedro Moreira Focegatti, que mora na Inglaterra é um dos responsáveis pela vacina da Oxford. Nos Estados Unidos, o Dr. Fernando Chaves é consultor médico da Ortho Clinical Diagnostics, da Johnson&Johnson, participando em estudos pioneiros do Sars-CoV-2. Conterrâneos nossos colaborando pela sobrevivência da humanidade.

Elizabeth – Esperamos quatro anos, mas hoje praticamente não observamos a cachumba, que pode causar sérias complicações, principalmente em adultos. E a vacina é aplicada na primeira infância. A biotecnologia avançou, mas até hoje não se conseguiu uma vacina contra o HIV. Conhecemos pouco sobre o Covid-19. Se ela veio de laboratório ou não, não é o problema. O importante hoje e amanhã é manter situações que dificultem sua disseminação. A humanidade na Idade Média sobreviveu à peste bubônica. Sobreviveremos a esse novo desafio.

Nélio – O sequenciamento genético do Sars-CoV-2 é muito parecido com o Sars-CoV, responsável pelo Sars de 2002/2003. Com isto, após estudos deste genoma, se pode afirmar que é um vírus que vem sofrendo diversas mutações, principalmente quando passa por outros animais. Esta versão do coronavírus da atual pandemia já vem sofrendo novas mutações, com piora da transmissibilidade e de mortalidade de acordo com os primeiros casos na China. A vacina tão precoce será uma grande demonstração da importância da ciência e da necessidade de uma maior valorização aos pesquisadores e cientistas brasileiros e mundiais, tão desacreditados e renegados.

Renato – Certamente é uma vitória da ciência. O desenvolvimento de uma vacina em tempo recorde é mais um claro sinal de que o avanço tecnológico, boa parte baseado na ciência, tem contribuído de forma definitiva ao avanço da expectativa de vida do ser humano. Não entender esse desdobramento é ir além do negacionismo. Esse avanço é certamente mais uma prova de que a humanidade se mantém apta para sobreviver nesse mundo que “usamos” de forma descabida e ignorante. Até onde conseguiremos fazer isso, é complexo de prever, pois a tendência biológica é de a espécie crescer até um determinado ponto máximo e depois se extinguir. No entanto, o conhecimento gerado nas ciências da vida tem, de forma sistemática, melhorado a condição de vida do ser humano. Isso mostra que ciência merece mais investimento, assim como a educação. As evidências levantadas até agora sugerem fortemente que o Sars-CoV-2 veio do morcego. É muito improvável que tenha sido criado em laboratório e escapado, propositalmente ou não.

 

Folha – O governo Rafael Diniz tem uma atuação considerada boa no enfrentamento à pandemia da Covid. Mas tem sido criticado por ter reaberto os shoppings centers na última segunda. Em Campos e no mundo, qual seria o ponto de equilíbrio entre pressão dos empresários, para preservar a economia, e a necessidade de preservar vidas humanas?

Andreya – A abertura de shoppings somente se mostrou adequada após análise criteriosa dos indicadores do plano “Campos Daqui Para Frente”. Especialmente no que diz respeito aos reflexos após 20 dias de abertura do comércio de rua, sem nenhum registro de diferença no comportamento da disseminação do vírus desde então. Aliado a isso, protocolos rigorosos foram seguidos, como a vedação de acesso a crianças e idosos, e aumento na fiscalização, para que não haja maiores riscos aos consumidores. Entendemos que há uma luta constante, em todo mundo, em uma balança que de um lado figura a sobrevivência econômica e de outro a preservação de vidas, após análise científica criteriosa em vista de garantias de segurança. Desde a abertura dos shoppings temos monitorado e não houve qualquer denúncia de aglomeração ou de descumprimento às normas do plano.

Carlos – Considerando o momento atual e a falta de recursos federal e estadual, o governo municipal vem fazendo o que pode nesse enfrentamento. A abertura dos shoppings, assim como todas as aberturas sociais, depende de algoritmos que avaliam o momento, baseados entre outros itens, no número de leitos de UTI e enfermarias, bem como outras capacidades de atendimento. Campanhas educativas devem ser somadas a essas iniciativas e a vigília de abusos devem ter rigor. Algumas manifestações ocorridas em São Paulo, e avaliadas 15 dias após, mostraram que não houve aumento de casos. Já no Maranhão e, agora, em Minas Gerais, na capital Belo Horizonte, tiveram que fechar tudo novamente. A preservação de vidas está acima dos desejos de preservar a economia.

Elizabeth – O confinamento apresenta uma série de resultados negativos para crianças, jovens, adultos e idosos. Precisamos balancear o estresse, síndrome do pânico, falta de lazer, de atividades físicas. Campos tem acompanhado as características da epidemia e o município precisa seguir seu caminho produtivo. O correto é que aqueles que não cumprirem medidas de prevenção sejam punidos. A cidadania implica em direitos e deveres. A Vigilância em Saúde do município tem trabalhado com precisão. Sua ação vai acompanhar e controlar a doença em nossa cidade e no entorno.

Nélio – Não é fácil. Visto que a economia dita vários parâmetros em uma sociedade. Porém, tenho visto que as atitudes têm sido de acordo com parâmetros técnicos de diversas variáveis. Com a progressiva flexibilização aumenta a responsabilidade do cidadão, pois há necessidade mais que nunca de manter todo o processo de prevenção que é comprovado cientificamente. Se todos usassem as máscaras de forma correta, haveria uma redução importante de disseminação do vírus no ambiente. Reforçar a lavagem das mãos e manter sempre um distanciamento seguro, mesmo com o uso de máscaras. E buscar uma maior testagem da população. Assim, cada um de nós, além do poder público, poderemos preservar vidas humanas, principalmente os idosos e as pessoas de grupos de riscos.

Renato – Respondo com uma pergunta: existe algo mais valioso que a vida humana?

 

Página 7 da edição de hoje (25) da Folha

 

Publicado hoje (25) na Folha da Manhã

 

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