Opiniões

Alcimar Chagas — Resumo econômico dos anos 2000 até a crise atual do Brasil

 

 

Alcimar Chagas, economista e professor da Uenf

Uma viagem nos anos 2000 para melhor entender a crise econômica atual

Por Alcimar Chagas

 

Entender a atual crise da economia brasileira exige um retorno à primeira década dos anos 2000. Primeiro é preciso considerar a condição da economia brasileira de exportadora de commodities e, portanto, dependente dos mercados internacionais. Seis produtos (petróleo, minério de ferro, sementes e frutos, carnes, ferro e aço e automóveis) têm uma participação relativa de mais de 50% da pauta integral da exportação do país, cujos preços e a dinâmica da demanda estão fora do controle do país.

O recorte em 2006 mostra uma economia mundial em franco crescimento de 5,25% no ano. O preço do petróleo em evolução atingiu US$ 61,34 o barril, enquanto o preço do minério de ferro, também em evolução, atingiu US$ 73,50 nesse mesmo ano.

No ano seguinte a economia mundial começou a dar sinais de desaceleração, em função da redução do crescimento dos Estados Unidos, já contaminado pela crise das hipotecas de alto risco, do esfriamento das economias da Europa e do Japão, além da preocupação com inflação da China. Mesmo assim, a economia mundial cresceu 4,7% em 2007.

Com a explosão da crise de liquidez americana em 2008, por pressão da bolha imobiliária formada por empréstimos com juros baixos, a economia mundial entrou em forte retração. No início da crise, o presidente brasileiro a considerou uma “marolinha”. Entretanto mais à frente, a conta chegou no Brasil. O crescimento do PIB de 6,1% em 2006 se transformou em uma queda de -0,1% em 2009.

A crise internacional derrubou as cotações das commodities. O preço do minério de ferro cotado a US$173,1 a tonelada em 2011, chegou a US$ 32,9 em 2016 e a cotação do petróleo que atingiu US$ 138,75 em 2008, declinou para US$ 109,09 o barril em 2014.

A economia mundial não conseguiu se recuperar e experimentou mais uma forte crise em 2014, em decorrência do desequilíbrio entre uma super oferta de petróleo e uma frágil demanda do insumo, por conta da retração da economia global. Tal fato levou a uma queda significativa do preço do barril de petróleo de US$ 109,09 em 2014 para US$ 57,05 em 2015. A dependência da economia brasileira ao mercado internacional, para o escoamento de suas commodities, resultou em uma crise profunda que culminou na recessão de 2015 e 2016, onde as taxas do PIB atingiram -3,5% e -3,3%, consecutivamente. A indústria caiu 7,0% em 2015 e caiu 6,5% em 2016.

Em complemento a esse grave quadro econômico, eclodiu uma importante crise política no país, com o afastamento da presidente Dilma Rousseff em 2016 e prisão de vários políticos do PT que ocupavam cargos importantes. Dentre os diversos exemplos de dilapidação do país, o caso da Petrobras ficou marcado. A empresa contabilizou um prejuízo de R$ 34,8 bilhões em 2015, um prejuízo de R$ 14,8 bilhões em 2016 e um prejuízo de R$ 446,0 milhões em 2017.

É nesse contexto nacional, ampliado por fortes conflitos comerciais entre Estados Unidos e China, além de discussões conflitantes sobre a decisão do nível ideal da oferta de petróleo no mundo, que o país escolheu o seu presidente em 2018.

Acredito que esse resgate desmistifica a ideia de que foi uma agenda liberal que elegeu o atual presidente. Na verdade, o processo de corrupção endêmica implantado no país, que culminou no impeachment da presidenta, condenações e prisões generalizadas, além da dilapidação da Petrobras, gestões cabulosas no BNDES, Banco do Brasil e outras instituições, foram os elementos que motivaram a eleição do atual presidente.

Nos anos recentes, o país até iniciou um processo de recuperação cíclica em 2018 com crescimento do PIB em 1,3%, mesmo sofrendo forte impacto da greve dos caminheiros que paralisou o país na metade do ano. Em 2019 a economia internacional voltou a complicar a situação do Brasil, em função do acirramento dos conflitos comerciais entre Estados Unidos e China, crise na Argentina e dos conflitos entre Rússia e Árabes sobre o tamanho ideal da produção de petróleo. Os preços não conseguiram se recuperar pela fraca conjuntura econômica internacional e a chegada da crise sanitária do coronavírus completou o desastre econômico no país.

A crise econômica foi aprofundada com traços da politização da crise sanitária. Foi instalada uma queda de braços por interesses corporativos tanto no campo político, como no campo econômico, onde a escalada dos casos de contaminação parecia ser uma situação secundária.

Esse quadro atrapalhou melhores resultados das políticas governamentais de combate a pandemia, pelo fato da não coordenação entre as esferas de poder e, com a aproximação das eleições municipais, o acirramento politico avança mais. Com isso acredito ficar clara a necessidade da manutenção da politica do teto de gastos e a necessidade de o governo pensar um mecanismo extraordinário para 2021, de forma a prosseguir no combate a pandemia que teve seu tempo previsto ampliado. Quanto à recuperação econômica, vai depender da percepção de confiança dos empresários na politica e da garantia de responsabilidade fiscal do poder público. Temos uma incógnita!

 

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