Opiniões

Lula, Bolsonaro, Piupiu, Frajola e o Pateta no Mercado Municipal de Campos

 

Lado a lado, Lula e Bolsonaro, acompanhados do Pipiu, do Frajola e do Pateta, no Mercado Municipal de Campos (Foto: Leda Lysandro)

Psicóloga, servidora municipal, oficial do Corpo de Bombeiros, politicamente progressista e amiga querida, a Leda Lysandro fez um registro fotográfico interessante na última quinta (15). No Mercado Municipal de Campos, um ambulante vendia toalhas, expondo uma estampada com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e outra do atual, Jair Bolsonaro (sem partido). Ao lado, também eram estendidas uma toalha do Piupiu e do Frajola, e outra de personagens da Disney, tendo ao centro o Pateta. Leda disse que lembrou de mim quando fez a foto, e pediu uma análise. Que tento abaixo, neste domingo de raro descanso em tempos de eleição municipal.

A primeira análise é a mais óbvia: a apropriação que o capitalismo faz de qualquer ícone pop. Pode ser de um líder político de esquerda, mais próximo em tese ao socialismo. Mas que só chegou ao poder, em 2002, após acenar ao mercado — não o Municipal de Campos — com a sua “Carta aos Brasileiros”. E pode ser também de um líder político de extrema-direita que sempre foi um estatista em seus 30 anos de vida parlamentar. Mas que, para chegar ao poder em 2018, teve que se vender como “liberal”, conquistando o voto daqueles que dizem sê-lo sem aspas — a despeito de serem eleitores de memória política seletiva, desinteligentes, ou ambos.

Outra semelhança inegável entre Lula e Bolsonaro, apesar da aparente diferença do conteúdo, está na forma do discurso. Os dois falam a linguagem do frentista do posto. Atingem as camadas populares de forma direta, sem a “tecla SAP” necessária a oradores superiores, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ou o ex-governador cearense Ciro Gomes. Ademais, os dois primeiros marcaram bem a mudança da linguagem da propaganda política no Brasil. Dos programas eleitorais caríssimos e hollywoodianos dos marqueteiros que ajudaram a eleger Lula (e Dilma), para a mesa de café de Bolsonaro, sem toalha de mesa ou sousplat, em tosco doloso e fake para refletir a suposta naturalidade das filmagens de celular das redes sociais.

 

Das campanhas eleitorais de 2010, com Lindbergh, Lula, Dilma e Cabral, e de 2020, abraçado a Bolsonaro, Crivella é uma bússola das tentativas do Executivo Federal, à esquerda ou à direita, de se aproximar do voto de cabresto evangélico

 

Em outra semelhança, Lula e Bolsonaro são populistas. E populares. Mas, cada qual a sua maneira, apresentam adaptações tupiniquins da realpolitik do alemão Otto von Bismarck. Para poderem governar, fazem aliança no Congresso com o fisiologismo do Centrão — carimbada pela mesma falta de pudor do dinheiro público que continua desviado dentro de cuecas. Como os dois também tentam se aproximar do eleitorado de cabresto evangélico, tomando benção a charlatães da fé como Edir Macedo. Cujo sobrinho e atual prefeito do Rio, Marcello Crivella, foi ministro da Pesca de Dilma. Antes do Republicanos do tio abrigar os filhos do clã Bolsonaro, saídos do PSL com o pai, após briga mesquinha pelo controle das verbas públicas do fundo partidário.

 

 

Apesar do pragmatismo político, Lula e Bolsonaro não têm constrangimento em estimular o radicalismo, sempre que julgam necessário. Pais e filhos do maniqueísta “nós contra eles”, os dois o ministram como sal dado no coxo ao gado, para manter a unidade das suas bases ideológicas e orgânicas. São aqueles que o próprio Lula alcunhou de “aloprados”. Que, durante os 13 anos do PT no poder, chamavam de “coxinha” e “fascista” qualquer um que ousasse criticar as várias contradições do lulopetismo. Como hoje são as tias e tios do WhatsApp. Que classificam de “mortadela” e “comunista” qualquer um que ouse criticar as muitas idiossincrasias do bolsonarismo. Na impossibilidade lógica de estarem ambos certos, valem a um lado e ao outro também os versos de Herbert Vianna: “E o mal está nos olhos de quem vê/ O grande monstro a se criar”.

 

 

Por fim, Lula e Bolsonaro têm inimigos comuns. Os dois maiores, declarados, são a operação Lava Jato e seu ícone, o ex-juiz federal Sérgio Moro. Cuja máscara — e isenção necessária ao exercício da magistratura — caiu de vez quando ele liberou a delação do ex-ministro petista Antonio Palocci, a seis dias do primeiro turno presidencial de 2018, que não tinha aceito no julgamento da ação penal, mas usou para influenciar as eleições. Isso, antes de aceitar ser ministro da Justiça do principal beneficiado.

Ainda assim, foi visível a inveja emergindo das entranhas dos aloprados lulopetistas, como a cara de tacho dos “patriotas” que até pouco tempo inflavam boneco do Moro como Super-Homem, quando Bolsonaro cuspiu no prato que comeu e decretou (relembre aqui) no último dia 7: “É um orgulho, é uma satisfação que eu tenho, dizer a essa imprensa maravilhosa que eu não quero acabar com a Lava Jato. Eu acabei com a Lava Jato”. Com a conivência dos quatro cavaleiros do apocalipse no Supremo, Dias Toffoli, Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski e Marco Aurélio Mello. E sob o silêncio gritante do procurador-geral da República, Augusto Aras.

Sobre a foto feita por Leda no Mercado Municipal de Campos, dá para dizer que Lula e Bolsonaro são antagonistas políticos, sim.  Mas precisam um do outro, como o Piupiu do Frajola. E o Pateta é quem finge não ver.

 

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