Opiniões

Morre aos 47, na Bahia, o campista Bernardo Lusitano Esteves

 

Bernado Lusitano Esteves

Morreu ontem na Bahia, de infarto, o campista Bernardo Lusitano Esteves. Tinha 47 anos. Faria 48, como os meus, no próximo dia 9. Deixa o filho Lucas, os irmãos Nicholas e Matheus. Mas quem era ele? “Um ponto de referência de quem sou”.

Conheci Bernardo na Escola Santo Antônio. Estudamos juntos todo o primário. Que hoje abriga o Hortifruti da Formosa. Em seus bancos, batemos bafo das figurinhas do Brasil na Copa de 1982. Lusitano, como Bernardo de nome e origem, Fernando Pessoa completaria por seu heterônimo Álvaro de Campos: “Eu passava ali de noite e de dia./ Desde ontem a cidade mudou”.

Adolescentes, reencontraria Bernardo no Auxiliadora em 1987. Foi um ano bom. Tom Jobim lançaria “Passarim”; Legião Urbana, “Que país é este”; Bernardo Bertolucci, “O último imperador”; Cacá Dieguez, “Um trem para as estrelas”. Pessoa, por Campos, bisaria o refrão: “Desde ontem a cidade mudou”.

Adultos, nos estranharíamos três vezes. Sem nenhuma pretensão de Cristo ou Pedro, Simão ou Sarmet, nosso amigo de infância e toda a vida. As três, ébrios, foram nas saídas de festas. Lusitano como Bernardo, Pessoa advertiria: “Meu coração tem pouca alegria,/ E isto diz que é morte aquilo onde estou”.

Bernardo ganhou o mundo. Morou anos nos EUA, em Tampa Beach, na Flórida. Recuou ao Equador e, sem o descer, habitou também Rio Branco do Acre. Se não morresse, voltaria lá para estar com Pedro nestes finados. Antes, em vida, lecionou Pessoa a quem fica: “Mas ao menos a ele alguém o via,/ Ele era fixo, eu, o que vou”.

A última vez que encontrei Bernardo, há cinco anos, malhávamos numa academia. Ficava na mesma Formosa da nossa infância. Vendo o passado comum umedecer os olhos, Pessoa verteu ao ouvido em sussurro: “Se morrer, não falto, e ninguém diria/ Desde ontem a cidade mudou”.

Além dos versos que rabisquei na mesa de alvenaria da casa do seu avô, acho que Bernardo nunca leu Pessoa. Esteves, era também Lusitano. E, como Campos, se despede em outro poema: “o Esteves voltou-se e viu-me./ Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo/ Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança”.

Vá em paz, meu irmão!

 

Este post tem 2 comentários

  1. Belíssimo texto para homenagear uma perda sem fim.
    Meus sentimentos, Aluysio!

  2. Chegou a completar os 48, como os seus! Foi em Outubro, falei com ele no dia do seu aniversário , estava em Itacaré, feliz e bem!

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