Opiniões

Alexandre Buchaul — Ciro x Haddad

 

 

Com o avanço de Haddad, agora oficialmente candidato e identificado como o substituto de Lula, Ciro perde a segunda posição nas pesquisas. Isso levará ao necessário embate pela vaga que sobra num eventual segundo turno. Os votos de Bolsonaro parecem consolidados em grande medida e nesse quadro atacar o capitão, ainda mais após o atentado, não parece a coisa mais inteligente a ser feita. Alckmin é prova disso, crendo ser capaz de roubar votos do líder nas pesquisas, acabou por se colocar, virtualmente, fora do segundo turno.

O caso Alckmin merece ainda uma análise a parte. Experiente, largamente conhecido do eleitorado, “dono” do maior colégio eleitoral do país (São Paulo – vale observar o resultado das eleições de 2014), com a mais ampla coligação, maior tempo de TV e amargando um desempenho ridículo. Essa eleição tem muito a ensinar e quem não aprender vai ter sérios problemas para se manter em campo de forma competitiva no jogo político.

Nesse cenário, o mais provável é que Ciro e Haddad se engalfinhem na disputa pelo direito de ir ao segundo turno e enfrentar Bolsonaro — sem contar os demais postulantes ainda viáveis a isso,  Marina e Alckmin. O tipo de armas a serem usadas podem inviabilizar uma aliança de segundo turno e ainda permitir, nessa guerra, que Bolsonaro amplie sua margem.

Por falar em aliança, é sempre bom “combinar com os russos”. Sem nenhuma alusão a Trump, por favor. Refiro-me à lenda que trata do diálogo entre Garrincha e Feola na copa de 58. Políticos que sempre se agrediram e tiveram perante seus militantes e eleitores uma incompatibilidade como de azeite e água não podem, simplesmente, se aliar num segundo turno e achar que o eleitor compreenderia e, principalmente, toleraria essa migração. Lembrem-se do centrão do Alckmin! Isso vai acabar se tornando um bordão.

 

Haddad e Bolsonaro crescem, Alckmin e Marina despencam, e Ciro esmurra

 

 

Charge de José Renato publicada hoje (18) na Folha

 

Haddad, Ciro e Bolsonaro

O que era previsto aconteceu: Fernando Haddad (PT) continua a crescer nas pesquisas. Na BTG/FSB divulgada ontem, ele dobrou suas intenções de voto: foi em uma semana de 8% para 16%. Na margem de erro de dois pontos para mais ou menos, o petista apareceu ainda tecnicamente empatado com Ciro Gomes (PDT), que subiu de 12% a 14%. Ambos ficaram bem atrás de Jair Bolsonaro (PSL), que cresceu de 30% a 33%. O ex-capitão do Exército também foi líder isolado de outra pesquisa divulgada ontem, a CNT/MDA. Ele teve 28,2%, seguido de Haddad, com 17,6%, já descolado de Ciro, que bateu 10,8%.

 

Tendências cristalizadas

Com margem de erro de 2,2 pontos para mais ou menos, a CNT/MDA foi a primeira pesquisa em que Haddad apareceu isolado na segunda posição. Assim como os 33% de Bolsonaro na BTG/FSB, foi o maior índice de intenções de votos ele que registrou até aqui. Independente das diferenças dos números e metodologias, comparadas as duas consultas divulgadas ontem com as últimas Ibope, Paraná e Datafolha, algumas tendências parecem se cristalizar: Bolsonaro cresceu pouco, Haddad cresceu muito, Ciro cresceu pouco ou já começou a patinar, e Geraldo Alckmin (PSDB) e Marina Silva (Rede) despencaram.

 

Alckmin e Marina despencam

A CNT/MDA anterior havia sido feita em 20 de agosto, tempo longo demais para um contraste dos números. Mas na pesquisa do instituto divulgada ontem, Alckmin teria 6,1% das intenções de voto, com 4,1% para Marina. Já na BTG/FSB, em intervalos regulares de uma semana, fica mais fácil não só notar os crescimentos de Bolsonaro, Haddad e Ciro, como a queda de Alckmin e Marina. Ambos tinham 8%, mas o tucano caiu a 6%, e a ambientalista a 5%. Se sempre foi um candidato forte no primeiro turno, desde a última Ibope, Bolsonaro parece ter se tornado competitivo também no segundo. Esta mudança também foi registrada na última Datafolha.

 

Competitividade

Na BTG/FSB, Bolsonaro empatou numericamente a simulação de segundo turno contra Ciro (42% a 42%). Mas, fora da margem de erro, o presidenciável do PSL ganharia de todos os demais: de Haddad (46% a 38%), Alckmin (43% a 36%) e Marina (48% a 33%). Já nas simulações de segundo turno da CNT/MDA, o capitão perdeu para Ciro (36,1% a 37,8%) e ganhou de Haddad (39% a 35,7%), em dois empates técnicos na margem de erro. Mas, fora dela, bateria Alckmin (38,2% a 27,7%) e Marina (39,4% a 28,2%) com relativa facilidade.

 

Voto útil

Hoje, sai a nova pesquisa presidencial do Ibope. Como o crescimento de Bolsonaro e de Haddad são tendências claras, resta saber o teto de um e outro. Com medo do PT voltar ao poder, o capitão já recebe eleitores de Alckmin. Como o petista recebeu parte da debandada de Marina, com medo de um governo de extrema direita. Se Ciro também desidratar, e os indecisos continuarem a diminuir, o voto útil pode transformar a eleição daqui a menos de 20 dias em mero plebiscito: anti-Lula ou anti-Bolsonaro. Neste caso, a possibilidade de definição em primeiro turno, ainda altamente improvável, deixa de ser delírio.

 

Golpe na campanha

Pressionado pelo crescimento de Haddad nas pesquisas, Ciro voltou a mostrar sua pior face. Ao esmurrar e xingar o jornalista Luiz Nicolas Maciel Petri, em Boa Vista, no sábado, ele deu um golpe também na sua campanha. Petri fez uma pergunta em que lembrou ao pedetista suas palavras sobre conflitos entre brasileiros e refugiados venezuelanos no Estado de Roraima. O candidato não gostou, socou o jornalista no abdômen, o xingou e mandou prendê-lo. Foi um ato de truculência, arbitrariedade e desrespeito à atividade jornalística, protegida pela Constituição. Mais uma vez, Ciro prova ser o maior inimigo de Ciro.

 

Nas urnas

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) fechou ontem o sistema de registro de candidaturas à presidência que será inserido nas urnas eletrônicas no primeiro turno. Foram confirmados os nomes de 13 candidatos e seus respectivos vices. Os nomes de Haddad e sua vice, Manuela D’Ávila (PCdoB), foram considerados aptos para inserção, apesar de o registro ainda não ter sido julgado pela Corte. Haddad só teve o nome confirmado pelo PT após o TSE barrar, com base na Lei da Ficha Limpa, a candidatura do ex-presidente Lula.

 

Com o jornalista Arnaldo Neto

 

Publicado hoje (18) na Folha da Manhã

 

CNT/MDA: Bolsonaro líder, mas com Haddad já descolado de Ciro

 

Também divulgada hoje, a pesquisa do instituto MDA, encomendada pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), foi mais uma a confirmar a liderança isolada do presidenciável Jair Bolsonaro (PSL). Mas com diferença menor do que a registrada mais cedo (aqui) pela BTG/FSB, para Fernando Haddad. O petista ficou com 17,6% e já apareceu descolado de Ciro Gomes (PDT), que teve 10,8%.

Distantes do pelotão da frente, vieram Geraldo Alckmin (PSDB), com 6,1%; Marina Silva (Rede), 4,1%; João Amoêdo (Novo), 2,8%; Álvaro Dias (Podemos), 1,9%; e Henrique Meirelles (MDB), 1,7%. Os quatro estão em empate técnico, na margem de erro de 2,2 pontos percentuais para mais ou menos.

 

(Infográfico de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Assim como as últimas pesquisas Ibope, Datafolha e BTG/FSB, a CNT/MDA mostra que Bolsonaro se tornou um candidato competitivo no segundo turno, após o episódio da facada, no último dia 6. Ele perdeu a simulação de turno final para Ciro (36,1% a 37,8%) e ganhou de Haddad (39% a 35,7%), mas ambas no empate técnico. Fora dele, o ex-capitão do Exército ganhou de Alckmin (38,2% a 27,7%) e Marina (39,4% e 28,2%). Por sua vez, Haddad perdeu a simulação contra Ciro (26,1% a 38,1%), mas ganhou de Marina (35,7% a 23,3%).

Na rejeição, considerada fundamental para a definição do segundo turno, quem liderou foi Marina, com 57,5% dos eleitores dizendo que não votariam nela de jeito nenhum. Ela foi seguido no índice negativo por Alckmin, 53,4%; Bolsonaro, 51%; Meirelles, 49%; Haddad, 47,1%; Ciro, 38,1%; Amoêdo, 34,5%; e Álvaro Dias, 32,2%.

Na comparação entre as duas pesquisa presidenciais divulgadas hoje, a CNT/MDA é mais antiga do que a BTG/FSB. A primeira foi feita entre os dias 12 e 15, enquanto a segunda, do dia 15 ao 16.

 

Pesquisa XP/FSB: Bolsonaro vai a 33%, Haddad a 16% e Ciro a 14%

 

Divulgada sempre às segundas-feiras, a pesquisa da XP investimentos, realizada pelo instituto FSB Pesquisas, foi a que deu na semana passada o mais alto índice de intenções de voto ao presidenciável Jair Bolsonaro (PSL): 30%. Na vova consulta divulgada hoje, o ex-capitão do Exército manteve a liderança isolada, pulando a 33%. O maior crescimento, no entanto, foi de Fernando Haddad (PT), que dobrou as intenções de voto: de 8% a 16%. Na margem de erro de dois pontos para mais ou menos, o petista está empatado em segundo lugar com Ciro Gomes (PDT), que foi de 12% para 14%.

Geraldo Alckmin (PSDB) e Marina Silva (Rede) confirmaram suas tendências de queda e se distanciam da briga pelo segundo turno. O tucano foi de 8% a 6%, enquanto a ambientalista caiu de 8% para 5%. Eles estão empatados tecnincamente com João Amoêdo (Novo), 4%; Álvaro Dias (Podemos), 2%; e Henrique Meirelles (MDB), 2%.

 

 

A pesquisa FSB/BTG também confirmou a tendência que já tinha sido revelada na semana passada por Ibope (aqui) e Datafolha (aqui): líder isolado no primeiro turno, Bolsonaro vai se consolidando como candidato competitivo também no segundo turno. Ele venceu com larga margem as simulações contra Haddad (46% a 38%), Alckmin (46% a 36%) e Marina (48% a 33%). O único adversário que ainda causaria problemas no turno final contra o capitão seria Ciro. Eles ficariam no empate numérico: 42% a 42%.

Leia mais sobre a pesquisa aqui.

 

Artigo do domingo — Brasil à beira do segundo turno entre Bolsonaro e Haddad

 

 

A última semana foi de mudanças nas pesquisas presidenciais. Começou e terminou com consultas Datafolha. Entre as duas, Ibope e Paraná confirmaram tendências. Como um desfile de moda, é o que se pode tirar de prático das pesquisas.

Após a facada que recebeu no dia 6, a tendência de Jair Bolsonaro (PSL) foi de crescimento nas intenções de voto. Dentro da margem de erro, ele teve 24% na Datafolha de segunda; 26% no Ibope de terça; 26,6% na Paraná de quarta; e 26% na Datafolha de sexta.

Se sempre foi competitivo no primeiro turno, o dado mais relevante sobre Bolsonaro é a competitividade que ele passou a ter também no segundo. Na primeira Datafolha da semana ele começou perdendo por muito em três das quatro simulações de turno final.

Na Ibope do dia seguinte, o capitão chegou à margem de erro nas disputas de segundo turno. A Paraná não fez essas simulações, mas a última Datafolha confirmaria o Ibope: a eleição de Bolsonaro é possível. Ainda assim sua rejeição permanece sempre acima dos 40%, enquanto o limite recomendável é de 35%.

Em relação à semana anterior, Ciro Gomes (PDT) começou a última em tendência de crescimento. Mas pareceu estagnar ao final. Nas duas Datafolha, o cearense começou e terminou com 13% de intenções de voto. No Ibope teve 11%, com 11,9% na Paraná.

Ciro herdou naturalmente parte dos votos de Lula, após este ter sido barrado pelo TSE na madrugada de 1º de setembro. São eleitores que decidiram não esperar mais 10 dias para o ex-presidente ungir, da cadeia em Curitiba, Fernando Haddad como candidato do PT.

Ainda assim, a sangria dos votos de Lula foi contida. E produziu a terceira e mais clara tendência registrada nas pesquisas da semana. Nelas, Haddad foi o único a ter crescimento real, fora da margem de erro.

Vindo de 4% nas intenções de voto, o petista pulou a 9% na Datafolha de segunda. E registou 8% no Ibope, divulgado na terça em que foi ungido candidato. Na quarta, ficou com 8,3% na Paraná, para aparecer com os mesmos 13% de Ciro, na Datafolha de sexta.

Haddad é o menos conhecido entre os candidatos ainda competitivos. Como o Datafolha também registrou, apenas 65% do eleitorado sabem quem ele é. Bolsonaro é conhecido por 86%, enquanto Ciro, por 85%. Faça as contas.

Esse campo aberto, unido à popularidade de Lula e à competência da propaganda do PT, indica que Haddad deve continuar a crescer nesta próxima semana. As dúvidas começam a ser tiradas amanhã (17), com a pesquisa do BTG Pactual, feita pelo instituto FSB. As certezas das tendências esperam as próximas Ibope, na terça (18), e Datafolha, na quinta (20).

Como Dilma externou em 2014, mais que nunca os petistas parecem dispostos a “fazer o diabo” para voltarem ao poder. Foi o que demonstraram na quinta, com a pesquisa fake do Vox Populi contratada pela CUT, que colocou Haddad à frente até de Bolsonaro. Pela desonestidade, revoltou mesmo quem não gosta, nem vota de maneira nenhuma no capitão.

Competitivos até a última semana, Marina Silva (Rede) e Geraldo Alckmin (PSDB) ficaram para trás na reta final. Ainda estão em empate técnico com Ciro e Haddad. Mas parecem incapazes de acompanhar quem ganhar a briga pela segunda posição.

Marina estava há dois anos atrás apenas de Lula e Bolsonaro nas pesquisas. Na série Datafolha, entrou a semana com promissores 16%. Mas caiu na segunda para 11% e fechou a sexta com apenas 8%. Na hora H, perdeu metade dos seus votos para Ciro e Haddad.

Alckmin foi o único dos cinco primeiros candidatos que estagnou. Ele foi obrigado a interromper a propaganda agressiva contra Bolsonaro, por conta da facada. Também na série Datafolha, o “Picolé de Chuchu” entrou a semana com 9%, passou a 10% na segunda e voltou aos 9% na sexta.

Ao admitir os erros do PSDB desde a eleição de 2014, passando pelo apoio ao governo Temer, Tasso Jereissati jogou a toalha do partido. Foi autocrítica que Haddad não fez na “inquisição” do Jornal Nacional de sexta, quando relativizou os escândalos de corrupção do PT. Como Rosinha no mesmo dia, ao culpar o povo e a Justiça pelos erros sucessivos de Garotinho.

Resta saber até quando Alckmin terá merenda para saciar a fome dos partidos do Centrão. A banca de apostas já foi aberta para saber quando debandarão entre Bolsonaro e quem vencer a disputa fraticida de Ciro e Haddad.

Pelas últimas pesquisas, o petista abre como favorito esta semana. A apenas três da urna, Ciro não tem saída a não ser deixar Bolsonaro por ora de lado, para mirar o “Poste de Lula”. Nesta peleja entre Caim e Abel, uma pedra no meio do caminho não é uma rima, mas pode ser a única solução.

Um segundo turno entre Bolsonaro e Haddad é a tendência. Que deixará o Brasil à beira da conflagração.

 

Publicado hoje (16) na Folha da Manhã

 

Marcelo Trindade alerta sobre risco ao rio Paraíba, fala de Açu e Uenf

 

Por Arnaldo Neto e Aluysio Abreu Barbosa

 

A transposição do rio Paraíba do Sul ao rio Guandu, para abastecer o zona metroplolitana do Rio de Janeiro, pode comprometer toda a água até 2030. O alerta foi feito pelo candidato a governador Marcelo Trindade (Novo). Ele citou a busca de outras fontes de água e a limitação da sua captação no Paraíba como soluções para preservar o rio que formou e corta Campos. Trindade também falou do potencial logístico do Porto do Açu e do que considera a captura das universidades estaduais, incluindo a Uenf, “por uma esquerda fundamentalista que não se pauta pelo interesse público”. Em parceria com a iniciativa privada, reduzindo a atuação do Estado às áreas de saúde, educação e segurança, ele aposta em transformar o Norte Fluminense, com sua riqueza em petróleo, num “Texas do Brasil”.

 

 

Folha da Manhã – Presidenciável do seu partido, João Amoêdo fala em privatizar até o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e a Petrobras. Sem tantos ativos à disposição, o senhor promete privatizar a Cedae e a gestão das rodovias estaduais. Restringir a administração pública a saúde, educação e segurança, é a solução?

Marcelo Trindade – É só olhar para nossos hospitais, nossas escolas e prisões para encontrar a resposta. O Estado inchado transfere para poucos privilegiados o dinheiro da população que mais precisa. Dinheiro público bem aplicado é quando garante às famílias bons serviços de saúde, educação e segurança. O Estado é incompetente como ator econômico, não deve tirar o espaço da iniciativa privada, geradora de emprego e renda, nem criar cabides de emprego que o povo não suporta mais pagar. São privilégios estarrecedores de um Estado que não dá a menor importância à gestão, nem tem qualquer zelo pelo dinheiro da população. Ninguém aguenta mais isso. Deus nos livre de seguir neste caminho.

 

Folha – Na última pesquisa Datafolha divulgada em 22 de agosto, o senhor teve 2% de intenções de voto. Ao analisar o resultado, disse que miraria no eleitor indeciso. Mas na consulta seguinte do mesmo instituto, divulgada em 6 de setembro, caiu para apenas 1%. Nessa campanha de tiro curto, sem participar dos debates, ainda dá para decolar? Como?

Trindade – Na pesquisa mais recente do Ibope aparecemos com 2% e empatados tecnicamente com quase todos os mais conhecidos. Não há atalhos para chegar lá. É preciso falar a verdade e apostar na vontade de mudança. Os políticos criaram regras eleitorais draconianas para impedir a renovação. Foi um escárnio limitar a 4 segundos a participação de partidos como o Novo no programa eleitoral. Mesmo assim, nossa mensagem se espalha com força pelas redes sociais porque vai ao encontro do anseio da população, que não aguenta mais ver o dinheiro público escoando pelo ralo, gasto com uma minoria privilegiada. Vamos chegar lá e dar ao eleitor fluminense a chance de um segundo turno qualificado, com propostas sérias da nossa parte, não demagógicas, para tirar o Rio de Janeiro do buraco no qual o PMDB nos jogou.

 

Folha – Líder isolado nas pesquisas, Eduardo Paes foi seu aluno de Direito na PUC. Como foi a experiência? E que conceito tem dele como prefeito do Rio e candidato a governador?

Trindade – Ele já era prefeitinho da Barra da Tijuca, então não aparecia muito na aula. Mas sempre gostei quando um aluno foi para a política, me dava esperança de mudança. Infelizmente, não foi o caso. Ele se tornou um político tradicional. Como prefeito do Rio, teve uma quantidade de dinheiro que nunca outro prefeito teve, em função da Olimpíada e do repasse de verbas pelos governos do PT. Como candidato a governador agora, negociou e reuniu as mesmas forças que governam o Rio desde 2006 e nos jogaram na maior crise da história, com o maior índice de desemprego do país e pouca esperança no futuro.

 

Folha – Entre 2004 e 2007, o senhor foi presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), autarquia vinculada ao Ministério da Fazenda, por indicação do então ministro da Fazenda Antônio Palocci. Como foi sua relação com ele e como vê sua prisão? É o tipo de ligação para quem se anuncia como outsider da política?

Trindade – Antes disso, entre 2000 e 2002, fui diretor da CVM indicado pelo ministro Malan, e foi a reputação que adquiri naquela passagem que me qualificou para a presidência, para a qual fui convidado por Marcos Lisboa e Bernard Appy, duas pessoas que eu não conhecia e por quem passei a nutrir uma grande admiração. A CVM sempre foi um órgão técnico, sem nomeações políticas. É um exemplo para o Brasil. Quanto ao Ministro Palocci, posso apenas dizer que sua relação com a CVM foi de respeito à independência e ao orçamento da autarquia e sem nenhum incidente que indicasse o que agora ele revela em relação a outros aspectos de sua passagem pelos governos Lula e Dilma.

 

Folha – Se eleito, o senhor terá que lidar com uma Assembleia Legislativa que deve continuar representando o que há de mais fisiológico na política. Como ter governabilidade sem ceder ao “toma lá, da cá”, que não começou com Jorge Picciani (MDB), mas dificilmente acabará depois dele?

Trindade – Se o Novo derrotar a velha política e eleger o governador, o recado do povo aos políticos será muito forte. E político não é bobo, sabe ler as urnas. Terão de mudar as práticas, dar satisfação ao eleitor. Eu divido a futura Alerj em três turmas. A primeira é de deputados sérios eleitos por essa demanda por ética. Na outra ponta estará o grupo que não tem jeito, que põe o interesse privado acima do público, incluindo os bandidos. Entre os dois extremos, estão aqueles que vão para onde o vento soprar. Ele soprará em uma direção diferente. É claro que aceitaremos indicações para cargos no governo, até porque nenhum partido tem todos os quadros necessários, mas isso não se confunde com aceitar gente desqualificada ou indicações não técnicas. Nomearemos apenas pessoas capacitadas, de preferência servidores públicos com capacidade de gestão.

 

Folha – Até o domingo (09), sua campanha havia recebido R$ 975.360,00, conforme constava no DivulgaCand. Do total, 68% (R$ 665 mil) são de recursos próprios. Com esse modelo de financiamento, alguns candidatos não saem prejudicados? Não é uma forma do poder econômico interferir no pleito?

Trindade – Se você olhar as outras campanhas, todas arrecadaram muito mais, mas tudo ou quase tudo de dinheiro público (fundos partidário e eleitoral). O Novo é contra esse modelo, que leva à troca da filiação de deputados para assegurar tempo de TV por promessa de dinheiro para a eleição. Eu venho do mercado de capitais, e na nossa cultura quem pede dinheiro para investidores coloca o próprio dinheiro junto, para alinhar os interesses e mostrar compromisso. Mas eu, pessoalmente, sou a favor de, além de acabar com o dinheiro público nas eleições, limitar as doações a R$ 50 mil, ou algo assim. Com isso diminuiríamos ainda mais os custos das campanhas, acabaríamos com a baganha e equilibraríamos o jogo entre os candidatos, que pediriam votos e exporiam seus programas pessoalmente ou pelas redes sociais, sem horário eleitoral, que de gratuito não tem nada.

 

Folha – O Novo não aceita dinheiro público em suas campanhas. Isso afasta nomes de perfil próximo ao partido e com bom potencial eleitoral, mas que não querem arriscar uma candidatura gastando do próprio bolso. Foi o caso do ex-campeão de natação Luiz Lima. Ele conversou com vocês, mas decidiu concorrer a deputado federal pelo PSL do presidenciável Jair Bolsonaro. Questão de princípio ou purismo?

Trindade – Acho que a resposta anterior dá conta desta pergunta. Podemos perder bons nomes por conta de nossos princípios e valores, mas para nós do Novo não se deve abrir mão daqueles princípios por razões eleitorais. Isso não é purismo, mas coerência e visão de longo prazo, ao meu ver.

 

Folha – Nas 56 páginas do seu plano de governo, as propostas são muito mais focadas na capital e região metropolitana do Rio. Apesar de se anunciar como candidato da “nova política”, não é um erro de antigos candidatos ao governo fluminense, que muitas vezes se portam como um segundo prefeito da capital?

Trindade – A leitura não me parece correta. Nosso plano é o único que começa falando a verdade e tocando no ponto mais crucial para o nosso futuro: o corte de gastos. Diz respeito ao estado inteiro, especialmente às regiões que mais precisam de investimento, como o Norte Fluminense, pois sem o ajuste fiscal ele não vai acontecer. Ao dar estabilidade ao comando das polícias e investir em inteligência e tecnologia, evitaremos a migração de bandidos para o interior. É no estado todo que pensamos ao propor tolerância zero com a corrupção, um governo 100% técnico, choque de eficiência com premiação para servidores que cumprirem metas, concessões de rodovias para desenvolver o interior como em São Paulo, inversão do ônus da prova para que o cidadão não tenha de provar que é inocente a todo momento, trabalho para presos nas penitenciárias, segurança e modernização das escolas, criação de 85 mil vagas e adaptação do currículo a cada região, regionalização do sistema de saúde com muita tecnologia e saúde da família, diversificação e inovação da economia de acordo com a vocação de cada região. Veja o que diz nosso plano para a Cultura: “A concentração de teatros, cinemas e outros equipamentos culturais na capital determina uma menor exploração do potencial cultural no interior do Estado, com reflexos não apenas para a cultura em si como para a atividade econômica dela derivada.” No turismo, explicitamos a preocupação em levar para outras partes do estado o turista que visita a capital. No capítulo sobre desenvolvimento econômico, destacamos a importância da “indústria e inovação tecnológica na geração de energia e no setor de óleo e gás na região de Macaé e Campos de Goytacazes”. O leitor pode conferir tudo isso em nosso plano na página www.trindade30.com.br.

 

Folha – Sob intervenção militar do governo federal, a segurança é hoje um dos principais problemas do Estado. Qual sua opinião sobre a intervenção? O senhor já projetou que, “no longo prazo, precisa aumentar investimento em educação e diminuir em segurança, senão a gente vai enxugar gelo a vida inteira”. Como fazer a segurança fluminense parar de fazer água?

Trindade – Priorizando investimentos em tecnologia e inteligência para prender mais bandidos e mantê-los em uma prisão diferente da atual, que virou escola de crime. É possível fazer parcerias com a iniciativa privada e colocar o preso para trabalhar e estudar. Ele sairá mais capaz de voltar ao convívio social saudável. Visitei os generais que comandam a intervenção e a Secretaria de Segurança e conheci os avanços em termos de equipamento e gestão. É um legado importante para prender mais bandidos e mantê-los na cadeia, impedindo a migração de criminosos que levam medo e violência para todo o Estado.

 

Folha – Além da violência, o Estado do Rio vive também um quadro de insolvência financeira. O senhor já disse que “rasgando o plano de recuperação fiscal, a gente quebra”. Firmado entre os governos Michel Temer e Luiz Fernando Pezão, ambos do MDB, ele é a solução?

Trindade – O plano só precisou existir porque o PMDB quebrou o Estado, nos jogou nesse buraco. Não havia outra solução. O acordo tinha que ser firmado por quem estivesse no poder. Infelizmente, para a nossa desgraça, era e continua sendo o PMDB.

 

Folha – A face mais cruel da falência financeira do Estado se dá sobre os servidores ativos e inativos. O senhor já disse que o atraso no pagamento dos servidores “é uma vergonha”. Mas também declarou que, se eleito, irá eliminar os “privilégios” de parte do funcionalismo. De quais privilégios está falando? Qual seu compromisso em manter a folha em dia?

Trindade – É para manter a folha em dia que precisamos interromper já os privilégios de setores que parecem viver em outro planeta e pressionam o Estado para se apropriar dos recursos públicos que deveriam ser destinados a quem precisa de Educação, Saúde e Segurança. A Alerj aprovou um ilusório reajuste para Justiça, Defensoria e Ministério Público. Ilusório, pois o estado não tem como pagar, e ele violaria o plano de recuperação fiscal. Se a gente não tomar juízo, vai faltar dinheiro outra vez para todos os servidores.

 

Folha – Outra face do caos financeiro do Estado se dá no abandono da Uenf. A principal instituição de ensino superior do Norte Fluminense é citada apenas uma vez no seu plano de governo. Tem planos mais detalhados para ela?

Trindade – A Uenf tem um papel estratégico no desenvolvimento do Estado. Assim como a Uerj e a Uezo, deve apoiar e ser apoiada pelos setores produtivos. As universidades precisam melhorar a gestão para que os recursos nelas investidos produzam conhecimento e resultados para a sociedade. Não podem ser capturadas por uma esquerda fundamentalista que não se pauta pelo interesse público, mas por um corporativismo que afasta a universidade da sociedade produtiva. Atrair a iniciativa privada pode garantir recursos para reequilibrar as contas das universidades e o desenvolvimento de parte da pesquisa científica. Não vejo, por exemplo, motivo para não pedir uma mensalidade a alunos que podem pagar, mesmo que sejam valores menores que os das faculdades privadas. É um ato de cidadania e justiça social para evitar que os mais pobres subsidiem, com seus impostos, o estudo de pessoas que podem pagar. Isso abre espaço para ampliar a oferta de vagas para os jovens sem recursos.

 

Folha – Candidato de um partido que tem o liberalismo econômico como bandeira, quais são seus planos para Porto do Açu na questão do desenvolvimento específico do Norte Fluminense?

Trindade – O Açu muda o patamar da logística do Estado, que já tem considerável vantagem competitiva. Está no Plano de Governo que este potencial logístico vai impulsionar o desenvolvimento do Rio de Janeiro, fazendo da logística e do transporte de carga não apenas atividades-meio, mas protagonistas. A ampliação da rede atual de transporte terrestre com SP, MG, ES e o Centro-Oeste – grandes centros produtores – permitirá a distribuição de produtos e cargas para os grandes mercados nacionais e estrangeiros.  O grande ator que pode explorar esta atividade é a iniciativa privada, mas o Estado não pode ser omisso em sua responsabilidade de fiscalizar o cumprimento de regras e evitar efeitos sociais negativos. Isso acontece quando há ocupação desordenada e políticas públicas anêmicas. Para evitar o crescimento da violência e a migração de bandidos, é preciso ter policiamento. Para que as empresas não descartem os trabalhadores locais, especialmente os jovens, é preciso ter educação pública de qualidade e adaptada para a realidade local. Para estimular o surgimento de uma cadeia produtiva de pequenas, médias e grandes empresas, o Estado pode articular, incentivar e, principalmente, não atrapalhar.

 

Folha – Com sua foz em Atafona assoreada, o rio Paraíba do Sul sofre há bastante tempo em período de estiagem. Há registro de língua salina já no distrito de Barcelos. Há vida para Campos, São João da Barra e São Francisco de Itabapoana sem o rio que os formou? Como recuperá-lo?

Trindade – A demanda de água do rio Guandu para abastecimento humano, uso industrial, mineral e agropecuário já compromete mais de 70% da disponibilidade e poderá comprometer quase toda a água disponível no cenário de maior consumo em 2030. É importante impor limites aos usos atuais e futuros da água nos trechos fluminense e paulista da bacia. A transposição de mais de 100 metros cúbicos por segundo para o Guandu em Barra do Piraí diminui a água que segue até Campos, e por isso a intrusão da língua salina na foz vem piorando, principalmente na seca. Tanto desvio é injusto com a região de Campos. Vou negociar com ANA e ONS e garantir a proteção ambiental nas margens do rio para recuperar qualidade e fluxo da água. Também precisamos de mais energia de outras fontes para evitar tantas alterações nos fluxos dos rios. O governador pode negociar a limitação dessa captação, atuando com os municípios, e ter atenção com o meio ambiente.

 

Folha – O que Campos, Norte e Noroeste Fluminense devem esperar de Marcelo Trindade governador?

Trindade – Um gestor empoderado pela confiança renovadora da população e consciente do desafio. Vou facilitar a vida dos empreendedores porque só eles podem gerar os empregos que a região tanto precisa. Vou lançar concessões para melhorar a infraestrutura de transporte. Essa região tem tudo para ser o Texas do Brasil. É preciso melhorar o Ensino Médio para empregar a mão de obra local e construir um dos mais fortes pólos econômicos do mundo. Isso é possível. Deus foi generoso com o Estado, nos deu o lugar mais bonito do planeta e ainda nos premiou com o petróleo. É inacreditável que a corrupção e a incompetência dos políticos tenham deixado chegar a essa situação. Não vamos nos conformar com a miséria e falta de estrutura nas cidades da região. A gente precisa se revoltar contra isso. É o que vocês podem esperar: um governador revoltado contra tudo o que deixou de ser feito e animado para fazer o que o Rio de Janeiro precisa. É assim que tem que ser um governador do Novo.

 

Página 2 da edição de hoje (15) da Folha da Manhã

 

Publicado hoje (15) na Folha da Manhã

 

Guilherme Carvalhal — A mulher que adorava perguntas e detestava respostas

 

 

Perguntassem qualquer coisa e ela se aprofundava. Queria saber todos os detalhes. Como uma vez em que lhe perguntaram onde ficava a agência dos Correios:

— É coisa muito importante?

— Material de trabalho que chegou para mim.

— E com que você trabalha?

— Com conserto de computadores.

— Isso dá muito dinheiro?

— Não muito. Mas onde ficam os Correios?

— Não sei.

Ivete levava uma vida pautada por uma forte curiosidade e desprendida de qualquer capacidade de prestar uma informação que fosse. Na escola já demonstrava esses sinais. Mergulhava entre enciclopédias, perguntava os nomes dos países no globo, e entregava suas provas em branco, deixando todos os professores sem entender o que se passava.

Seu jeito de encarar a vida a levou ao redundante fracasso profissional. Ela aprendia com facilidade qualquer profissão, mas sempre se recusava a colocar em prática esses conhecimentos. Adorava desmontar as peças de qualquer máquina, mas se recusava a consertá-las. Aprendia todos os procedimentos administrativos da empresa, sem nunca reproduzi-los.

Pouco a pouco, foi caindo em um esmorecimento existencial. Ficava em casa deitada, enfurnada entre inúmeros questionamentos que não chegavam a conclusão alguma. A parte isso, mostrava-se sempre feliz apesar de ter caído em um enleio do qual não mais se desvencilhava.

Para a grande maioria, Ivete era louca. Toda conversa com ela se desencadeava em um enorme interrogatório sem fim. Como ele jamais chegava a conclusão alguma, seu interlocutor precisava sempre colocar um fim abrupto no diálogo, dar as as costas e ir embora ou algo do gênero.

Quando caiu uma enorme tempestade em sua cidade, Ivete parou à janela observando o vento derrubar árvores e destelhar casas e pesadas pedras de granizo caírem feito meteoros na terra. Ela, como todos os demais moradores, acreditou estar diante do fim do mundo.

Foram três dias de agonia. Todos acharam que não restaria pedra sobre pedra.

Ao amainar da tempestade, os moradores começaram a sair de casa e observar todo o estrago deixado pela intempérie. Mesmo com a destruição espalhada, todos comemoraram pelas próprias vidas.

Ivete então sentou em um canto e chorou. Ninguém compreendeu o que se passava com ela. Suas lágrimas desciam sem nenhuma explicação plausível. Ninguém conseguiria entrar na sua mente e compreender que diante do risco da própria morte, não havia pergunta que não urgisse em receber resposta. E constatar o sentido da própria vida e da própria finitude, respondendo para si mesma a pergunta “será que vou morrer?” a colocou diante de uma resposta que ela preferiria eternamente não saber.

 

Em ridículo previsível, Vox Populi mostra que o PT não aprendeu nada

 

 

Vox Populi: ridículo previsível

Esta coluna antecipou nas suas duas últimas edições. Artificialmente, a pesquisa Vox Populi divulgada ontem colocaria Fernando Haddad (PT) à frente de Ciro Gomes (PDT), Marina Silva (Rede) e Geraldo Alckmin (PSDB). Em empate técnico na margem de erro, os três superam o petista nas consultas Datafolha, Ibope e Paraná feitas nesta semana. Só que o Vox Populi foi além. Mais uma vez contratada pela CUT, braço sindical do PT, o instituto colocou Haddad à frente até de Jair Bolsonaro (PSL), líder com mais de 10 pontos de vantagem em todas as pesquisas. Mesmo a quem não vota ou gosta no ex-capitão do Exército, foi ridículo.

 

Eleitor não é gado

Que Haddad tem bom potencial de crescimento, por ser desconhecido e ter o apoio do popular ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), é um fato. Mas induzir que isso signifique a unção imediata pelo povo, é tomar o eleitor por gado. Só prova que o PT não aprendeu nada após conduzir o país à pior recessão econômica da sua história, ter uma presidente deposta por impeachment e ver seu maior líder condenado por corrupção e preso. Conselheiro da candidatura Haddad, Marcos Coimbra é diretor do Vox Populi. Aos campistas, seu instituto lembrou ontem o “Precisão” dos tempos de Garotinho.

 

Sem festa

Uma data para não comemorar. Ontem, 13 de setembro, completou um ano que o ex-governador Anthony Garotinho (PRP) foi condenado em primeira instância na Chequinho. A sentença de 9 anos, 11 meses e 10 dias de prisão por 17.515 crimes de corrupção eleitoral, além de associação criminosa, supressão de documento e coação no curso do processo, não foi o pior daquele dia. No 13 de setembro de 2017, ele acabou preso pela segunda vez em função desta operação.

 

A primeira vez

A primeira prisão por causa da Chequinho foi em 16 de novembro de 2016. Após protagonizar o episódio da ambulância, Garotinho seguiu para hospital particular, passou por cirurgia, até obter decisão favorável do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que substituiu a prisão por medidas cautelares. Até a sentença, foram cenas dantescas, retiradas de advogados, tentativas de recursos. Na segunda prisão, a liberdade, em 27 de setembro, também veio através do TSE.

 

Três em um

A terceira prisão ocorreu em 22 de novembro do ano passado, mas já no decorrer das investigações da operação Caixa d’água, quando o Estado do Rio de Janeiro teve em um mesmo presídio três ex-governadores. Além de Garotinho, também foi presa na operação, a esposa Rosinha (Patri). Em Benfica também estava o ex-governador Sérgio Cabral (MDB) — este, atualmente, já condenado a mais de 170 anos. Também veio de Brasília, através do então presidente do TSE, ministro Gilmar Mendes, a liberdade.

 

Oásis libertador

Com certeza, estes são alguns dos motivos que levam o ex-governador a apostar na capital federal como um oásis libertador. A aposta é alta. Certo que, em abril, obteve um respiro nas mãos do ministro Ricardo Lewandowski, que impediu que o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) julgasse a Chequinho em segunda instância. Talvez Garotinho tivesse esquecido tantos outros processos, que vagavam, entre recursos, nos corredores da Justiça. Agora, em plena campanha, deu um tempo na agenda e foi visto em Brasília. O que será que foi fazer lá?

 

Sem respostas

Seis meses depois, as execuções da vereadora carioca Marielle Franco (Psol) e do motorista Anderson Gomes continuam sem respostas. A Anista Internacional vem realizando atividades e manifestações questionando as autoridades brasileiras. Em um momento de debate tão acirrado no país, inclusive com atentado a um presidenciável, é mais do que necessária a elucidação. São crimes que, como muitos outros, não podem ficar sem respostas.

 

Com a jornalista Suzy Monteiro

 

Publicado hoje (14) na Folha da Manhã

 

Haddad x Bolsonaro tornará a esquerda mais cooptada do que nunca

 

Basta navegar alguns minutos no oceano virtual brasileiro para verificar o quão certo estava o semiólogo, filósofo e escritor italiano Umberto Eco (1932/2016): “as redes sociais deram voz aos imbecis”. Mas em meio às ondas de acefalia política quebrando dos dois lados, podemos dar a sorte de achar também lucidez, como mensagem dentro de uma garrafa.

Foi o caso do texto do Guilherme Dal Sasso, jovem com formação de esquerda de quem nada mais sei, além da sensatez das suas palavras. Independente de discordâncias, é um diagnóstico honesto da febre de intolerância em que arde o país. E de como o quadro pode piorar, antes de melhorar. Publicado aqui, em sua linha do tempo, peço licença para republicar abaixo:

 

Guilherme Dal Sasso

Por que não voto no Haddad

Por Guilherme Dal Sasso

 

Primeiro, porque o objetivo principal do PT nas eleições foi sempre manter sua hegemonia na esquerda, e não pensar um projeto interessante e viável ou formas de barrar o fascismo. Nesse sentido, foi extremamente irresponsável a insistência em Lula como candidato (enganando a população) e sobretudo a estratégia de isolar Ciro, neutralizando o PSB e fortalecendo um lulista no PSOL. Quem está realmente preocupado em barrar Bolsonaro já sabia há muitos meses que Lula não seria candidato e que as opções mais viáveis contra o fascista eram Ciro e Marina Silva. A prioridade sempre foi Lula, depois o partido e por último o país.

Segundo, porque a (falsa) polarização atingiu níveis intoleráveis, e ameaça cada vez mais se concretizar em violência física. Falo em falsa polarização porque não expressa os antagonismos de fundo da sociedade brasileira, como querem nos fazer pensar quando dizem que a polarização representa a “luta de classes”. Tanto o PT como qualquer centro-direita vai colocar um liberal na fazenda (Dilma com Levy, Lula com Meirelles, Haddad possivelmente com Lisboa), fechar com o agronegócio, etc. No entanto, a radicalização retórica aniquilou qualquer campo democrático de diálogo e sobretudo de capacidade de expressão de forças não alinhadas. Um segundo turno entre Haddad e Bolsonaro tornará a esquerda inteira mais cooptada do que nunca, sendo impossibilitada radicalmente de criticar um eventual governo petista, ao passo que a paranoia anticomunista deverá explodir de vez.

Terceiro, pela relação que a esquerda criou com o governo Dilma. Após o impeachment, incorporou-se o espírito combativo contra o retrocesso de Temer. Ok. Mas nunca se discutiu criticamente o governo e o legado de Dilma, que basicamente foi endividamento público, recessão, desemprego, concentração de renda e retrocesso socioambiental. O próprio Haddad acho que reconhece em boa medida isso, tendendo a ser responsável fiscalmente. No entanto seu conselheiro econômico, Marcio Pochman, insiste que as políticas econômicas de Dilma foram acertadas e que o caos todo começou com Temer. Dessa forma, existe o que o Haddad pensa, e que nós não sabemos ao certo, e existe o que o PT pensa e fala, e não sei o quanto são a mesma coisa. Eu votei na Dilma no segundo turno em 2014, e a última coisa que cogito é dar um cheque em branco de novo sob a chantagem do “menos pior”. O imperativo de defender a Dilma no impeachment impede até hoje que a esquerda realize um balanço sério e elabore alternativas àquele projeto que fracassou de forma retumbante.

Em quarto lugar, as alianças do partido hoje apontam que de fato o PT utilizou uma retórica de vítima do golpe para disciplinar a esquerda em torno de seu projeto em vez de se comportar como quem de fato sofreu um golpe. As alianças com os “golpistas” seguem naturalmente país afora, como se estivéssemos em 2014. Isso naturalmente reproduz o sistema político tal qual conhecemos e enfraquece as candidaturas de esquerda, renovando todas condições de possibilidade das crises que nos trouxeram ao abismo: radicalidade retórica e conciliação conservadora de fundo. Então não adianta choramingar e dizer “aff o PT não aprende”. O PT está fazendo aquilo que julga necessário para reproduzir sua hegemonia à esquerda e seu lugar no interior do sistema político brasileiro, incluindo a aliança programática com o MDB. Quem não aprende é quem acha que o PT não aprende.

Em suma, simpatizo pessoalmente com o Haddad, mas o projeto do PT é insistir numa radicalização retórica que está nos levando a níveis delirantes e apostar na pacificação por cima e conciliação de fundo do sistema político. Como disse de certa maneira o Silvio Pedrosa, Haddad pode até vencer Bolsonaro no segundo turno, mas renova e alimenta mais que ninguém as condições de possibilidade do bolsonarismo.

 

Após facada, Datafolha e Ibope, Bolsonaro cresce também na Paraná

 

 

Charge do José Renato publicada hoje (13) na Folha

 

Após Datafolha e Ibope, Paraná

Como a coluna antecipou, ontem foi divulgada a pesquisa presidencial do instituto Paraná. E ela confirmou o crescimento do líder isolado da corrida ao Palácio do Planalto, Jair Bolsonaro (PSL). Se nas consultas Datafolha e Ibope, divulgadas dias 10 e 11, o ex-capitão do Exército tinha registrado respectivamente 24% e 26% das intenções de voto, ele foi um pouco além na Paraná: 26,6%. Nela, bem distantes do primeiro colocado, seus quatro principais concorrentes ficaram embolados no empate técnico: Ciro Gomes (PDT), com 11,9%; Marina Silva (Rede), 10,6%; Geraldo Alckmin (PSDB), 8,7%; e Fernando Haddad (PT), 8,3%.

 

O tempo da facada

A margem de erro da Paraná foi a mesma da Datafolha e Ibope: dois pontos para mais ou menos. E a ordem entre Ciro, Marina, Alckmin e Haddad foi praticamente a mesma nas três. Só que foram feitas em datas diferentes: a Datafolha, no dia 10; a Ibope, entre os dias 8 e 10; e a Paraná, do dia 7 ao 11. Como o atendado a faca sobre Bolsonaro foi no dia 6, a Datafolha foi a mais distante da comoção gerada pelo episódio, embora tenha sido a primeira a ser divulgada. E ela deu o menor índice de intenções de voto ao capitão. O maior foi na Paraná, feita mais próxima ao fato, embora última a ser divulgada.

 

Bolsonaro x Campos

Antes da Paraná de ontem, a última pesquisa do instituto havia sido divulgada em 14 de agosto. Entre as duas, o crescimento de Bolsonaro foi de 4,6 pontos. Em evento similar à facada, na eleição presidencial de 2014 uma queda de avião matou o candidato Eduardo Campos (PSB). Para se ter uma ideia da diferença do impacto dos dois fatos sobre o eleitor, Campos tinha 7% de intenções de voto na última Datafolha antes da sua morte. E sua vice Marina, que assumiu a cabeça de chapa, pulou para 24% na consulta seguinte. Foi um crescimento de 17 pontos, 12,4 a mais do que teve agora Bolsonaro.

 

“Já deu o que tinha que dar”

Comparadas a queda do avião e a facada, o fato é que a influência do evento mais recente não foi a esperada pela campanha de Bolsonaro. General vice do capitão, Hamilton Mourão tinha declarado desde terça (11): “esse troço já deu o que tinha que dar”. Do que já deu, talvez o mais relevante tenha sido revelado pelo Ibope: candidato mais competitivo no primeiro turno, o instituto foi o primeiro a revelar que ele tinha se tornado competitivo também no segundo. Como a coluna abordou ontem, Bolsonaro perdeu, empatou ou ganhou dentro da margem de erro, em todas as simulações de segundo turno do Ibope.

 

Rejeição diferente

Diferente da Datafolha e Ibope, a Paraná não fez simulações de segundo turno. Índice fundamental à sua definição, a rejeição foi medida de maneira individual, não em disco, pelo terceiro instituto. Na metodologia diferente, Bolsonaro teve 53,2% de eleitores que não votariam nele de jeito nenhum. Foi uma rejeição inferior à de Haddad, 62,6%; de Alckmin, 60,3%; e de Marina, 54,8%. Só Ciro, com 52% no índice negativo, ficou abaixo do capitão. Além disso, na pergunta sobre os dois candidatos que estarão no segundo turno, Bolsonaro liderou com 51,9%, seguido de Ciro, 26%; Alckmin, 23,7%; Marina, 18,2%; e Haddad, 14,8%.

 

CUT hoje, Datafolha amanhã

A aparente vantagem de Bolsonaro na Paraná, em relação à desvantagem de Haddad, deve se inverter radicalmente na Vox Populi anunciada para hoje. A última consulta deste instituto foi feita em julho. E o resultado, muito acima de qualquer pesquisa da época, foi favorável ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), já preso, mas ainda sem ser barrado pelo TSE.  Antes e agora, o contratante do Vox Populi foi a CUT. Assim, se a insuspeita parceria hoje produzir Haddad já à frente de Ciro, Marina e Alckmin, nenhum não petista levará a sério. Para sanar dúvidas, a Datafolha tem uma nova pesquisa consulta presidencial esperada para amanhã.

 

Toffoli assume o STF

Recusado duas vezes no concurso público para juiz de primeira instância em São Paulo, Dias Toffoli foi guindado ao Supremo Tribunal Federal (STF), após ter sido advogado do PT e chefe da Advocacia-Geral da União no governo Lula. Ele assume hoje a presidência do STF, no qual coleciona decisões polêmicas, como a que suspendeu a operação Caixa d’Água, onde o ex-governador Anthony Garotinho (PRP) é acusado de extorsão com emprego da arma de fogo para campanha. Um dia antes de assumir o cargo, ele ganhou elogios. De Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e de Luiz Fux, que será seu vice e disse prever um STF mais “harmonioso”.

 

Com o jornalista Aldir Sales

 

Publicado hoje (13) na Folha da Manhã

 

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