Opiniões

Cedo ou tarde, Bolsonarismo aprenderá que apanhar é o risco de bater

 

Falando as coisas como se estivesse lendo ou decorado, na definição precisa do Marcelo Adnet, Bolsonaro já deveria ter aprendido, no episódio da facada, que apanhar é o primeiro risco de quem se propõe a bater.

O PT levou 13 anos para aprender. Antes, as Forças Armadas levaram 21. Oxalá dure menos para o capitão e seus mitômanos, que não vão banir absolutamente ninguém do Brasil. Serão tão enquadrados, pela lei, quanto quem pretendem neuroticamente  enquadrar. Após a embriaguez natural da vitótria, se não aprenderem isso por bem, será por mal.

 

 

Quatro novos nomes na Academia Campista de Letras nesta segunda

 

 

Por Paula Vigneron

 

A Academia Campista de Letras (ACL) receberá, nesta segunda-feira (22), quatro novos membros para a composição do quadro de acadêmicos efetivos. Os poetas Aluysio Abreu Barbosa, Ronaldo Henrique Barbosa Júnior e Roberto Pinheiro Acruche e o escritor Elias Rocha Gonçalves ocuparão, respectivamente, as cadeiras 31, 7, 24 e 17. A cerimônia de posse acontecerá às 19h, na sede da ACL, localizada na praça Nilo Peçanha, Jardim São Benedito. A entrada é franca.

Diretor da Folha da Manhã, o jornalista e poeta Aluysio Abreu Barbosa, de 46 anos, se recordou dos primeiros contatos com a poesia aos 14 anos de idade. Para ele, a leitura de “Navio Negreiro”, de Castro Alves, indicada pelo pai, o também jornalista Aluysio Cardoso Barbosa, foi um encontro. “Lembro que pensei: é isso que quero fazer da vida. Depois, vieram vários autores”, complementou.

Nos anos 90, Aluysio começou a participar de festivais de poesia. Ele foi vencedor das edições de 1992 e 2007 do FestCampos de Poesia Falada. Em 2008, ganhou o 11º Concurso Nacional de Poesia Francisco Igreja, promovido no auditório Machado de Assis, na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Para ele, a expectativa de assumir a cadeira está relacionada à capacidade para representar uma geração que tem como alguns de seus representantes o poeta Adriano Moura e a literata Analice Martins:

— E que honre aos que vieram e deixe aos que virão os versos de Walt Whitman: “Poetas de amanhã: arautos, músicos,/ cantores de amanhã!/ Não é dia de eu me justificar/ E dizer ao que vim;/ Mas vocês, de uma nova geração,/ Atlética, telúrica, nativa,/ Maior que qualquer outra conhecida antes/ — levantem-se: pois têm de me justificar!”.

Mais novo entre os membros, o poeta Ronaldo Júnior, de 22 anos, é estudante de Direito. O jovem escritor deu os primeiros passos literários quando ainda cursava o ensino médio, aos 15 anos, no campus Centro do Instituto Federal Fluminense (IFF). Conforme afirma o campista, “a inquietação para a escrita não tardou”. “Fui influenciado a ler poesia pela dedicação de uma professora de português. O primeiro autor que li foi Vinicius de Moraes, mas também absorvi muito do Leminski, do Gullar, do Bandeira, do Manuel de Barros e de outros muitos”, declarou.

Em 2016, Ronaldo publicou o livro “O verso sou eu — Antologia de sentimentos”. Membro da Academia Pedralva de Letras e Artes (APLA), o poeta acredita que as instituições culturais são agentes fundamentais na construção e preservação dos símbolos que formam a identidade da região: “Creio na transformação dos seres humanos por meio da arte e da liberdade, no que espero poder colaborar como acadêmico da Academia Campista de Letras, ciente da função social da instituição”.

Aos 60 anos, Elias Rocha Gonçalves se lembra dos primeiros passos profissionais, ainda distantes das letras e artes. Ex-padeiro, o professor e escritor também compõe o quadro dos acadêmicos da APLA. “É uma honraria para um ex-padeiro, filho de uma família humilde, chegar a uma academia das letras. Espero ser um soldado das letras e levar meu ânimo e minha força para que a academia tenha mais sucesso.”

O primeiro livro publicado pelo escritor foi “Passo a passo de monografias”, em 2007, e tem mais de 100 mil exemplares vendidos. Em 2010, foi publicada “A pedagogia do encantamento”, vendida no Brasil e em 28 países de língua espanhola. Entre 2013 e 2015, Elias cursou o pós-doutorado em Portugal. Das pesquisas, nasceu “Políticas públicas da educação especial Brasil/Portugal”, fruto de um trabalho conjunto com Regina Célia, Bianca Siqueira Gonçalves, Virgínia Gonçalves e Elias Gonçalves Júnior, esposa e filhos, que também são professores e pesquisadores. “Então, dá para perceber que é uma família que fala de educação e cultura o dia inteiro”, brincou. Este e outro livro de Elias, “A reforma do Ensino Médio (conto, fábula ou mito?)”, serão lançados na 10ª Bienal do Livro de Campos.

Nesta nova etapa, o professor afirmou que espera contribuir, com todo o seu empenho, garra e conhecimento, para a ACL. “Enxergo a academia como um marco regulatório da cultura campista. Não é à toa que chega a essa quantidade de anos fazendo cultura e educação, em uma época tão difícil. É sinal de serviços prestados que ACL tem. É um orgulho para todos nós.”

“A posse, evidentemente, é um momento de expectativa. A gente já vai segurando um pouco as emoções. A Academia Campista de Letras sempre um marco na história, na cultura de Campos”, declarou o poeta Roberto Pinheiro Acruche. Aos 74 anos de idade e nascido em São Francisco de Itabapoana, Acruche é autor de três livros: “Apontamentos para a história de São Francisco de Itabapoana”, “A minha terra também faz parte da história do Brasil” e “O mangue da moça bonita”, este baseado em uma lenda do município e escrito em trovas. Ele também é criador da revista eletrônica “Trovas e Poemas”. Atualmente, o poeta prepara os detalhes finais para a publicação da obra “A igrejinha abandonada”.

A carreira em academias começou com sua entrada na Pedralva. Amigos o incentivaram a fazer parte do quadro efetivo. Após aceitar, a atuação na vida cultural de Campos e cidades da região aumentou, com a participação em cafés literários, concursos e palestras em escolas, visando despertar em meninos e meninas o prazer pela literatura. Agora, Acruche aguarda o novo desafio:

— Com carinho, amor e vontade de participar da história de Campos com aqueles amigos, vamos lá! Esperar que tudo dê certo. Sou idoso, mas não sou velho. Tenho a cabeça de 25 anos e o corpo de 74. Espero viver mais alguns anos, agora inspirado pelos meus amigos da Academia Campista de Letras.

 

Capa da Folha Dois de hoje (21)

 

Publicado hoje (21) na Folha da Manhã

 

Artigo do domingo — Surdez levará à vitória de Bolsonaro

 

Eleição de Donald Trump, 09/11/16 (Foto de Joe Skipper – Reuters)

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Correspondente da revista “New Yorker” em Washington, jornalista Ryan Lyzza

“É interessante que os jornalistas americanos tenham subestimado Donald Trump. O que me perguntam frequentemente é se o público ou a mídia deveriam levar a sério candidatos bizarros como ele. Minha resposta é: sim, nós temos que levar essas pessoas a sério”. A advertência do jornalista Ryan Lizza, da conceituada revista New Yorker, foi a abertura (aqui) de uma matéria sobre a eleição presidencial brasileira que se definirá no próximo domingo. Assinada por mim, ela foi publicada na Folha em 22 de outubro de 2017, exato um ano atrás.

O título daquela matéria foi “Brasil entre Lula e Bolsonaro”. Era relativa à pesquisa Datafolha então mais recente, mostrando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL) como líderes na corrida ao Palácio do Planalto. Que, segundo todas as pesquisas de agora, o ex-capitão do Exército deverá ocupar a partir de 1º de janeiro de 2019.

Sobre Lula, naquela matéria da Folha de outubro de 2017, foram antecipadas as dificuldades: “Ele (Lula) foi sentenciado por Moro (em 12/07/17) a nove anos e meio de prisão, pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, no caso do triplex no Guarujá. Como a Lei do Ficha Limpa exige condenação colegiada, a elegibilidade ou não do ex-presidente será definida pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), que deu previsão (em 06/08/17) de julgar o caso até agosto (de 2018)”.

Pouco mais de um mês pouco depois, tive a chance de ouvir pessoalmente Lula. Foi em 6 de dezembro de 2017, quando ele fazia uma visita de pré-campanha a Campos. Fui fazer uma entrevista, não inquisição de William Bonner no Jornal Nacional. E, apesar de ter franqueado ao entrevistado a chance de apresentar a sua versão dos fatos, creio ter sido um dos poucos jornalistas brasileiros a lhe perguntar diretamente sobre sua já difícil situação jurídica.

 

(Foto: Ricardo Stuckert)

 

A entrevista exclusiva (aqui) foi viralizada (aqui, aqui, aqui e aqui) na mídia nacional, antes mesmo de ser publicada na Folha. Esse foi o trecho:

“Folha — (…) Inicialmente o TRF-4 tinha previsão para julgar até agosto seu recurso à condenação de Moro. No domingo (03), o Lauro Jardim noticiou em O Globo que o prazo foi abreviado para março ou abril. (…) Como o senhor enxerga isso? Qual é a sua expectativa?

Lula — Aluysio, na verdade, prefiro nem enxergar. Desde que começou essa bandidagem comigo, essa cretinice…

Folha — Quando o senhor fala em bandidagem, se refere a quê?

Lula — Eles inventaram uma mentira. O procurador (da República, Deltan) Dallagnol inventou uma mentira. Ele construiu a tese do power point. E, com base na tese do power point, ele fica procurando coisas para tentar jogar dentro do balaio. E obriga os empresários a dizerem que todo o dinheiro que utilizou em campanha é propina. Que as contas que os empresários têm na Suíça não são evasão fiscal; são propina. E, até agora, o máximo que eles conseguiram foi o cara dizer ‘o Lula sabia, o Lula sabia’. Ora, eu estou muito tranquilo porque estou desafiando eles a provarem alguma coisa. Não venham com essa de que ‘Lula sabia’. (…) Então, eu tenho a consciência muito tranquila. Por que eu não me preocupo? Porque, desde que começou esse processo, os caras falam que eu tenho que ser condenado. A peça do Moro me condenando é, segundo todos os advogados que leram, simplesmente ridícula. Ela não tem sustentação jurídica em nenhum lugar (…) eu estou lendo todo dia que eu já estou condenado. Se eu ficar preocupado com isso, não durmo (…) Não vou ficar batendo boca. Quem bate boca são os meus advogados. Eu vou continuar trabalhando. O que quero dizer para você é o seguinte: se o PT quiser, eu estarei candidato a presidente da República.”

Como hoje todos sabem, o PT bem que quis, mas Lula não pode ser candidato. Como antecipado naquela entrevista de dezembro, ele seria julgado pelo TRF-4 em 24 de janeiro, que confirmou por unanimidade sua condenação e aumentou sua pena para 12 anos e um mês de prisão. Preso em 7 de abril na sede da Polícia Federal de Curitiba, o ex-presidente teve o registro da sua candidatura negado pelo TSE na madrugada de 1º de setembro.

Naquela matéria da Folha de um ano atrás, o substituto do PT também já havia sido antecipado: “Ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad é a opção presidencial mais provável do PT, se Lula não puder concorrer”. Depois do ex-presidente transferir seus votos, mas também sua rejeição, Haddad chegou ao segundo turno. Mas todas as pesquisas indicam que que deve perder por larga margem para o candidato que melhor soube surfar não só o antipetismo, mas o anti-establishment e a reação conservadora aos avanços das minorias.

Na matéria de outubro de 2017, ainda reverberava pelo mundo a vitória do republicano Donald Trump na eleição presidencial dos EUA, um ano antes. Na época, entre público e mídia brasileiros, não eram poucos que indagavam, incrédulos: “Mas como isso pode acontecer nos EUA, na eleição ao cargo mais importante da Terra?”.

São os mesmos que, não sem razão e a despeito das diferenças, identificavam semelhanças entre Trump e Bolsonaro. Entretanto, durante toda a campanha presidencial brasileira, os opositores de Bolsonaro se mostraram surdos à advertência do jornalista Ryan Lizza sobre o que levou Trump à vitória nos EUA.

 

Praça São Salvador, 29/09/18 (Foto: Folha da Manhã)

 

Em 29 de setembro deste ano, já às vésperas das urnas do primeiro turno, manifestações de mulheres saíram às ruas e praças do Brasil, inclusive em Campos, para gritar “Ele Não”. E o resultado prático, registrado na pesquisa Ibope divulgada dois dias depois, foi que o presidenciável chamado de machista e misógino cresceu seis pontos percentuais no voto feminino. Ele liderou e continua a liderar também entre as mulheres.

Consumado o primeiro turno de 7 de outubro, quando Bolsonaro comandou uma onda eleitoral sem precedentes na história recente do país, a tática para enfrentá-lo, que já tinha dado errado, mudou pouco ou nada. Para o segundo turno, os eleitores de Haddad propuseram o pretensioso confronto “barbárie x civilização”. E, à exceção da mendicância exitosa de likes dos já convertidos, o resultado fora das redes sociais foi nenhum. E nada indica que algo vá mudar na próxima semana.

Abandonada à própria sorte pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), pelos ex-candidatos a presidente Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva (Rede), além do ex-presidente do STF Joaquim Barbosa, a campanha do PT abandonou uma “Frente Democrática” natimorta. O único fato novo criado foi a matéria da Folha de São Paulo da última quinta (17), dando conta de empresas que bancariam uma guerrilha virtual no WhatsApp contra Haddad para favorecer Bolsonaro.

O TSE aceitou a denúncia do PT e a PF vai investigar o caso. Mas, até pelo tempo, não é nada que deva interferir nas urnas do próximo dia 28. O que poderia ter surtido algum efeito foi preconizado no último parágrafo daquela matéria da Folha publicada há um ano. Mas, talvez por soberba, permaneceu solenemente ignorado de lá para cá. Sobretudo por quem mais deveria ter prestado atenção:

— Quem não seguir o conselho da imprensa dos EUA, nem que seja a revelação do segredo do cadeado após a porta arrombada por Trump, corre o mesmo risco.

 

Publicado hoje (21) na Folha da Manhã

 

Eduardo Paes: “Wilson Witzel é lobo em pele de cordeiro”

 

Por Arnaldo Neto e Aluysio Abreu Barbosa

 

“O meu dever é mostrar aos eleitores que esse sujeito que se apresenta como íntegro, dono da razão e como o candidato do ‘novo’, na realidade, é um sujeito que foge de bandido, que não paga um empréstimo feito pela sogra, que não paga IPTU, que recebe auxílio moradia tendo imóvel, que tem que tomar reprimenda da corregedora do TRF no Rio, que é empresário e não declara as suas empresas. Enfim, é um homem cheio de vícios e que, na verdade, é um lobo em pele de cordeiro”. Este é o dever assumido por Eduardo Paes (DEM) em relação aos seu adversário no segundo turno a governador do Rio, Wilzon Witzel (PSC). Ele aposta que, após refletir, a população vai concluir que ele, Paes, é a melhor opção para o Estado.

 

 

Folha da Manhã – Wilson Witzel (PSC) teve mais que o dobro da sua votação (3,15 milhões contra 1,49 milhão) no primeiro turno. É possível virar? Como?

Eduardo Paes – Claro que é possível. Trabalhei muito para ter todos os votos, vou continuar trabalhando. Recebo muito carinho da população em todos os lugares que vou. E isso é um reconhecimento por tudo aquilo que a gente fez pelo Rio. O segundo turno é uma nova eleição, partimos do zero. Nós estamos conhecendo o meu adversário agora. As pessoas não conhecem o personagem. E em uma semana o que soubemos dele é de dar medo. Cada dia é um susto que se toma com esse candidato. E é um homem moralista, que prega a moral, diz ser experiente no combate ao crime. Mas é fujão, mentiroso, tem contado inverdades por aí.

 

Folha – O senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL) teve 4,38 milhões de votos, quase a soma da votação de Witzel e sua. A participação do filho de Jair Bolsonaro (PSL) na campanha do seu adversário foi considerada um dos motivos da rápida ascensão deste. No dia 12, o TRE julgou favorável seu pedido para que Witzel não exibisse o apoio de Flávio na propaganda. Isso basta para neutralizar o fenômeno eleitoral que vimos no primeiro turno?

Eduardo – Se vai neutralizar ou não, isso deixo com os analistas políticos porque não é a minha função. A minha obrigação é mostrar meus projetos, debater os problemas do Rio e revelar também as deficiências do meu adversário. O senador eleito Flávio Bolsonaro também teceu elogios a mim e está gravado em vídeo. Basta dar um Google que as pessoas vão achar na internet. Só que não preciso de bengala. Não preciso me escorar em um candidato para surfar no sucesso dele, como o meu adversário tem feito. Aliás, algo que foi dito pelo próprio Jair Bolsonaro que tratou de afastar toda a família de qualquer tipo de aproximação com o meu oponente.

 

Folha – Jair Bolsonaro teve quase 60% do voto fluminense a presidente. E, no dia 13, ele declarou sua neutralidade nas eleições a governador do Rio. Trabalhou nos bastidores para que isso acontecesse? Será o suficiente para dissociar o ex-juiz do ex-capitão diante do eleitor?

Eduardo – Conheço muito bem o Jair Bolsonaro, há muitos anos, conheço muito bem o Flávio Bolsonaro, conheço muito bem o Carlos Bolsonaro. Tive a honra de ser vereador com Rogéria Bolsonaro, mãe dos meninos. Ela trabalhou comigo na Prefeitura. Aliás, a meu convite. Tenho com eles a melhor relação.  Mas a grande questão não é dissociar o meu adversário do Bolsonaro. A grande questão é contar a verdade para o eleitor, é mostrar a mentira inventada pelo meu oponente para surfar no sucesso da família Bolsonaro. Mentira que o próprio Bolsonaro tomou a iniciativa de desfazer.

 

Folha – Por outro lado, enquanto Witzel chegou a escrever o número 17 na palma das mãos, para pedir votos a Bolsonaro nos debates a governador, o senhor manteve sua neutralidade na eleição presidencial. Ela não o prejudicou nas urnas a governador? Por que mantê-la na disputa do segundo turno?

Eduardo – Mantive e mantenho a minha neutralidade por uma questão muito simples e que já falei aqui: no dia 1º de janeiro de 2019 quem vai sentar na cadeira de governador no Palácio Guanabara não será o Bolsonaro ou o Haddad. Então, tenho de discutir os problemas do Rio, tenho de debater e mostrar que tenho condições de administrar e conduzir esse Estado à posição de destaque que ele merece. Por isso, não nos cabe nos esconder atrás de candidato a presidente da República. Temos é que mostrar nossas propostas, mostrar quem somos e mostrar o que fizemos para o eleitor.

 

Folha – No último dia 4, seu ex-secretário de Obras Alexandre Pinto o acusou na Lava Jato de participar do esquema de desvio de recursos de grandes obras, quando era prefeito do Rio. Sua resposta foi dizer que as acusações são mentirosas e confrontariam depoimentos anteriores do ex-secretário, embora ex-executivos da Odebrecht citados tenham confirmado repasse de dinheiro de caixa dois ao senhor. Em quem acreditar? E por quê?

Eduardo – As acusações do ladrão confesso Alexandre Pinto são totalmente mentirosas e confrontam com os seus próprios depoimentos anteriores, quando nunca mencionou qualquer envolvimento meu com irregularidades. E os próprios dirigentes da Odebrecht, que depuseram na Lava Jato, sempre negaram que eu tivesse recebido propina ou vantagem pessoal. O mesmo fizeram os dirigentes de todas as outras empreiteiras investigadas na Lava Jato. Basta ouvir os depoimentos, que desmentem, enfaticamente, qualquer tipo de benefício a mim. Agora o réu Alexandre Pinto, ladrão confesso, disse que ouviu falar que eu recebia propina sobre obras. Uma declaração, no mínimo, curiosa, principalmente, porque não apresentou nenhuma prova. E quem teria dito a ele que eu recebia propina, o Leandro Azevedo, também em depoimento disse que comigo não tinha qualquer possibilidade de negociação de propina.

 

Folha – À parte o crescimento de Witzel, acredita que o depoimento de Alexandre Pinto, três dias antes do primeiro tuno, tenha contribuído para que o senhor tivesse um desempenho nas urnas bem abaixo do projetado nas pesquisas?

Eduardo – Esse tipo de análise deixo para os analistas políticos. Não cabe a mim comentar.

 

Folha – Em entrevista à Folha, publicada em 7 de setembro, perguntado se a candidatura dele a governador seria “uma tentativa de estender o braço da Lava Jato do Judiciário ao Executivo”, o ex-juiz federal Witzel respondeu: “certamente que sim”. O novo depoimento de Alexandre Pinto ao juiz federal Marcelo Bretas, apenas três dias antes das urnas, pode ser encarado como tentativa de interferir no pleito?

Eduardo – Eu jamais vou fazer esse tipo de ilação. Os juízes Bretas e o Moro são bem diferentes do ex-juiz Witzel. Eles estão enfrentando o crime. O Witzel pediu pra sair. Se mandou, quando era juiz no Espírito Santo, e pediu para ser transferido para uma Vara Fiscal no Rio. O meu adversário está sempre debaixo da asa de alguém. Como a única coisa que ele fez na vida foi a farra dos juízes em Comandatuba, ele não tem o que apresentar, ele fica querendo dizer que é Bolsonaro, Bretas, Moro. O Bretas e o Moro eu estou vendo enfrentar a criminalidade. O Bolsonaro está aí colocando suas questões e liderando as pesquisas. Ele (Witzel) não fez nada. Volto a dizer: a eleição sou eu e ele.

 

Folha – O fenômeno Jair Bolsonaro no primeiro turno foi muito além da eleição presidencial, provocando uma renovação poucas vezes vista no Congresso Nacional. No confronto direto contra um outsider, como não ser afetado pelo voto “contra tudo que aí está”?

Eduardo – O meu dever é mostrar aos eleitores que esse sujeito que se apresenta como um homem íntegro, dono da razão e como o candidato do “novo”, na realidade, é um sujeito que foge de bandido, que não paga um empréstimo feito pela sogra, que não paga IPTU, que recebe auxílio moradia tendo imóvel, que tem que tomar reprimenda da corregedora do TRF no Rio, que é empresário e não declara as suas empresas. Enfim, é um homem cheio de vícios e que, na verdade, é um lobo em pele de cordeiro.

 

Folha – O senhor já disse que, se eleito, pretende continuar contando com o auxílio das Forças Armadas na segurança pública do Estado. Mesmo com a intervenção federal, Campos teve 187 homicídios até 15 outubro (188, com mais um, dia 19) mais que os 185 registrados durante todo o ano de 2017. Como mudar essa trágica realidade?

Eduardo – O Estado do Rio tem hoje cerca de 44 mil policiais e muitos deles não estão nas ruas. Parte do efetivo está afastada, cedida ou em atividades administrativas. É preciso remanejar pessoal, aumentar o efetivo que faz o patrulhamento das ruas para reduzir os indicadores de roubos e de homicídios. Queremos reduzir a violência nas ruas de forma significativa já no primeiro ano de governo, implantando um novo modelo operacional para o patrulhamento territorial. Vamos criar os Centros de Operações Policiais (C.O.P.) para integrar as atividades das forças de segurança, coordenando a vigilância nas ruas, o patrulhamento tático-ostensivo e as atividades de investigação criminal. Vamos instituir também a Força da Paz, uma força-tarefa de inteligência e operação integrada contra o Crime Organizado, com a participação da Polícia Civil, da Receita Federal e da Secretaria de Fazenda. O foco do trabalho é levantar e cruzar informações para asfixiar as fontes de financiamento do tráfico e da milícia. O maior investimento em inteligência vai nos permitir atuar de forma mais cirúrgica contra as organizações criminosas e, com isso, evitar esse número absurdo de tiroteios nas comunidades. Tem muito policial, morador, gente inocente morrendo. Quando se estabelece prioridades, você investe naquilo que é mais importante. O mais importante é devolver a paz à população. Por fim, quero dizer que, no meu governo, a segurança pública voltará a ficar sob a autoridade do governador. A intervenção acaba em dezembro, mas eu vou lutar para continuarmos contando com o apoio das Forças Armadas na segurança pública, sob o meu comando e com uma nova estratégia.

 

Folha – Desde o primeiro debate a governador, em 16 de setembro, seu adversário no segundo turno já falava em “abater” qualquer suspeito portando fuzil. Em 17 de setembro, o garçom Rodrigo Alexandre da Silva Serrano, de 26 anos, foi morto a tiros por PMs no Chapéu Mangueira, que confundiram um guarda-chuva com fuzil. Como o senhor vê isso?

Eduardo – Esse é o tipo de declaração que mostra o total despreparo do meu adversário para ser governador do Estado. Como disse, precisamos aumentar o policiamento ostensivo mas trabalhar com inteligência e com as forças policiais integradas. Só assim vamos evitar esse número enorme e absurdo de policiais mortos em confronto com marginais e também a morte de inocentes.

 

Folha – Antes nanico, o PSL dos Bolsonaro elegeu a maior bancada da Alerj, com 13 das 70 cadeiras. A segunda maior bancada é da sua legenda, o DEM, com seis deputados. Seu antigo partido, o MDB, foi o que mais encolheu: de 15, para cinco, mesmo número do Psol. Como lidar com esse novo legislativo estadual, que se renovou em mais de 50%?

Eduardo – Sempre disse que ser um bom gestor é fundamental para  ser um administrador e isso já comprovei que sou. Mas também é preciso capacidade política para fazer as coisas, capacidade de articulação, capacidade de liderança, é preciso saber liderar processos. E sendo governador, vou trabalhar em parceria com 92 prefeitos, novos deputados estaduais e senadores eleitos.

 

Folha – A eleição da nova Mesa Diretora da Alerj será só em fevereiro. Mas alguns nomes já se articulam à presidência, entre eles os deputados André Corrêa, do seu DEM, e Marcio Pacheco, do PSC de Witzel. É o segundo turno a governador que vai definir essa balança?

Eduardo – A Alerj é uma instituição independente e assim deve ser. E até por isso, acredito que o resultado das eleições não vai influenciar.

 

Folha – Pelo apoio do seu adversário a Bolsonaro, sua candidatura vem tendo adesão maciça da esquerda fluminense. Como recebe esse apoio?

Eduardo – Sempre disse desde o início em entrevistas e até no dia seguinte da eleição no primeiro turno, que esta é uma eleição de diálogo com a sociedade. Todo voto, adesão é bem-vindo. As pessoas votaram num holograma e estão descobrindo aos pouquinhos que meu adversário, quando teve a oportunidade de combater o crime, saiu correndo, amarelou, pediu para ir para uma vara de Fazenda Pública. O meu adversário recebeu auxílio moradia tendo casa própria e mesmo assim dá cano no IPTU. Meu adversário tem uma dívida com a ex-sogra de 86 anos de idade com Alzheimer. Meu adversário ensina seus colegas de classe a fazer maracutaias para manter benefício. Vejo um adversário que chegou a fazer uma maldade com os aposentados dizendo que se virem porque já ganharam a vida inteira, justamente quando as pessoas mais precisam de atenção. Estamos falando de um adversário que se refere às pessoas das comunidades, das favelas do Rio como se fossem todos criminosos, mostrando seu preconceito. Alguém que tem um grau de autoritarismo enorme, que não aceita o debate. O contraditório. Ele chegou a me ameaçar. Aliás, mostrando também o seu desconhecimento jurídico. Porque não cabe voz de prisão em flagrante em caso de injúria. É alguém que se dizia o candidato do Bolsonaro e o Bolsonaro parece não saber direito de quem se trata.

 

Folha – Seu candidato a vice-governador, Comte Bittencourt (PPS), é aliado de primeira hora do prefeito de Campos, Rafael Diniz (PPS). Ainda assim, 38,63% do eleitorado campista votaram em Witzel no primeiro turno a governador. Foi mais que a soma de Romário (18,77%) e sua (16,27%). É possível reverter isso na cidade que, em entrevista à Folha, o senhor chamou de “segunda capital do Estado”? Como?

Eduardo – Fazendo o que tenho feito todos os dias desde o resultado do primeiro turno: trabalhando na busca pelo voto dos eleitores, mostrando as minhas propostas e revelando o engodo que é o meu adversário. E eu tenho a certeza que a população, após conhecer o passado nebuloso, misterioso do meu oponente, vai refletir e concluir que ele não é a melhor opção para o Estado do Rio.

 

Página 2 da edição de hoje (21) da Folha

 

Publicado hoje (21) na Folha da Manhã

 

Campos perde uma instituição que atravessou gerações: morre Queijinho

 

(Foto de Valmir Oliveira)

 

(Foto de Esdras Pereira em trabalho do artista plástico João de Oliveira)

Quase ninguém conhecia o empresário Ericknilson Pessanha de Lemos, de 67 anos. Mas Queijinho era uma instituição. O apelido veio por conta do bar homônimo que ele comandava na rua Álvaro Tâmega, no Parque Tamandaré. Conhecido como “Rei do Quibe”, Queijinho tocou durante anos o bar do Posto Brasa, na avenida Pelinca. Após várias internações recentes, por problemas de diabetes, renais e de um AVC, ele morreu na tarde de hoje na Santa Casa, por complicações de pneumonia. Ainda sem hora marcada, o velório e o enterro ocorrem neste sábado (20) no Caju.

O boteco é uma legítima tradição brasileira. Espaço democrático em que podemos jogar conversa fora, rever velhos amigos e fazer novos, onde até as secessões da bipolaridade política brasileira acabam convertidas em riso com um gole de cerveja gelada. Se Campos não é uma exceção, essa tradição hoje ficou mais pobre sem Queijinho.

Meu pai, o jornalista Aluysio Cardoso Barbosa (1936/2012), nunca foi de frequentar botequim. Ainda assim era cliente assíduo de Queijinho. Uma dos hábitos que cultivava com zelo era passar no bar quase todo início de tarde de sábado, para saborear um quibe, uma esfiha, ou ambos. E Queijinho sempre me confidenciou que tinha o maior orgulho disso.

Tradição que atravessa as gerações, fui caminhando ao seu bar na tarde do último sábado (13), com meu filho Ícaro e seu cachorro, um buldogue francês tigrado chamado Zidane, que adora passear. Pude reencontrar velhos amigos, trocar ideias sobre a situação política do país. Juntos tecemos prognósticos para o Fla x Flu daquele dia, que seria vencido por 3 a 0 pelo time da Gávea, assim como sobre o resultado das urnas do próximo dia 28 e suas consequências.

Tomei duas Originais geladas, meu filho uma Coca, e saboreamos um tenro lagarto assado com batata, antes de uma deliciosa língua de boi ensopada com feijão manteiga. Sobraram até umas provas para Zidane, que, inebriado pelo cheiro que vinha da mesa, nos fitava do chão com os olhos arregalados. Já internado, Queijinho não estava lá fisicamente. Mas nos fitava pomposo da parede do bar, posando de general napoleônico na foto do jornalista Esdras Pereira, em belo trabalho do artista plástico João de Oliveira.

Num ano que já havia levado (aqui) o empresário Roberto Alves da Costa, morto em 9 de abril e proprietário da inesquecível Toca dos Amigos, a boêmia de Campos fica mais órfã sem Queijinho. E menos saborosa sem os seus quitutes. Envelhecer é perder. Nada revela a sensação do tempo passando sobre nós quando ele já não passa mais para quem nos servia de referência.

Onde quer que esteja, meu pai poderá reencontrar um amigo. E retomará sua programação certa das tardes de sábado. Homem de poucos risos, creio que nem o velho Aluysio poderá resistir:

 

 

Bolsonaro perto de ganhar a eleição pela insistência do PT em seus erros

 

 

Charge do José Renato publicada hoje (19) na Folha

 

 

Bolsonaro e Witzel eleitos?

Ou todos os institutos de pesquisa do Brasil estão errados, ou Jair Bolsonaro (PSL) e Wilson Witzel se elegerão, respectivamente, presidente do Brasil e governador do Rio. Nos nove dias que ainda separam o eleitor e a urna, nada indica que Fernando Haddad (PT) e Eduardo Paes (DEM) sejam capazes de tirar suas consideráveis diferenças dos líderes no segundo turno aos Palácios do Planalto e Guanabara. Pela consulta Datafolha divulgada ontem, Bolsonaro ficou com 59% dos votos válidos, contra 41% de Haddad. Segundo o mesmo instituto, Witzel tem vantagem ainda maior sobre Paes: 61% a 39%.

 

Segundo turno congelou

Foi a segunda pesquisa Datafolha no segundo turno presidencial. Até aqui, é o único instituto a realizar duas consultas nesta fase final da eleição. A primeira, foi divulgada no dia 10, três após as urnas do primeiro turno. No contraste com a consulta de ontem, o cenário realizou os desejos da campanha de Bolsonaro: a disputa contra Haddad congelou. O ex-capitão do Exército começou o segundo turno com 58% dos votos válidos. E agora tem 59%. Por sua vez, o petista passou de 42% dos votos válidos para 41%. Em ambos a variação foi mínima e dentro da margem de erro, mas favorável a Bolsonaro.

 

PT lidera rejeição

O que costuma definir as mudanças do primeiro ao segundo turno de qualquer eleição é a rejeição. E nela a vantagem também é ampla para Bolsonaro. Segundo a Datafolha, 54% dos eleitores não votariam de jeito nenhum em Haddad. É a força do antipetismo, que a cada dia parece mais cristalizado na sociedade brasileira. Embora polêmico pelas posições extremadas de direita, o capitão teve 41% de rejeição. Se não é um número baixo, fica relevantes 13 pontos abaixo do petista no índice negativo. A governador do Rio, como já havia feito em algumas pesquisas no primeiro turno, o Datafolha não divulgou a rejeição.

 

Covardia ou tática?

Outro dado do Datafolha que indica a vitória de Bolsonaro é a consolidação do voto. Dos que o manifestam pelo capitão, 95% se disseram decididos. Já em relação a Haddad, a certeza do voto cai para 89%. É uma diferença pequena, de seis pontos, mas aparenta ser suficiente para impedir qualquer mudança significativa. Para preservar o cenário amplamente favorável até o dia 28, Bolsonaro ontem anunciou que não participará dos debates, mesmo tendo sido liberado pelos médicos, após a facada que sofreu em 6 de setembro. Se sempre poderá se alegar covardia e falta de espírito democrático, parece taticamente correto.

 

Insistência no erro

Era 29 de setembro quando manifestações de mulheres saíram às ruas e praças do Brasil, inclusive em Campos, para gritar “Ele Não”. E o resultado prático, registrado na pesquisa Ibope divulgada dois dias depois, foi que o presidenciável chamado de machista e misógino cresceu seis pontos percentuais no voto feminino. Consumado o primeiro turno de 7 de outubro, quando Bolsonaro liderou uma onda eleitoral sem precedentes na história recente do país, a tática para enfrentá-lo, que já tinha dado errado, mudou pouco ou nada. Para o segundo turno, os eleitores de Haddad propuseram o confronto “barbárie x civilização”.

 

Haddad à própria sorte

À exceção da mendicância exitosa de likes dos já convertidos, o resultado fora das redes sociais foi nenhum. Eleito senador na Bahia e responsável pelo segundo turno presidencial, com a votação que deu naquele Estado a Haddad, Jaques Wagner tentou imprimir realidade à campanha petista. E teve o mesmo sucesso de quando buscou, lá atrás, a aliança do PT como vice na chapa de Ciro Gomes (PDT). Após abandonar as visitas semanais a Lula na carceragem de Curitiba, Haddad tentou montar uma “Frente Democrática”. Mas foi abandonado à própria sorte por Ciro, Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Marina Silva (Rede) e Joaquim Barbosa.

 

Desespero

Na noite da última segunda (15), em evento de apoio a Haddad em Fortaleza, o PT foi constrangido nacionalmente por Cid Gomes (PDT). Senador eleito pelo Ceará e irmão de Ciro, ele cobrou de maneira dura a falta de autocrítica do PT. E o partido mostra que realmente não aprendeu com seus erros. Na quarta (17), a Polícia Civil chegou aos três vândalos que, na madrugada de domingo (14), tinham pichado suásticas nazistas na fachada de uma capela católica em Nova Friburgo. O ato foi prontamente atribuído a eleitores de Bolsonaro. Na verdade, câmeras próximas à capela flagraram os três também pichando o “Ele Não”.

 

Publicado hoje (19) na Folha da Manhã

 

Paula Vigneron — Previsão do tempo

 

Estava um dia quente, daqueles que invadem pele e alma. Observou o horário. Estava na hora do jornal, “do repórter”, como costumava falar. Ligou a televisão, buscou o computador — ler e escutar as notícias simultaneamente era um hábito cultivado há anos — e se sentou no sofá.

“Confira, agora, a previsão do tempo para os próximos dias: sol forte de manhã…”

Passeava pelos sites. No esporte, “Cruzeiro é o campeão da Copa do Brasil”, contavam o título do texto e a foto dos jogadores comemorando com a taça na mão. “O brasileiro e suas vãs paixões”, sorriu enquanto lia a notícia. Na cultura, comentava-se sobre o show do ex-Pink Floyd. “Após vaias, Roger Waters afirma que artistas têm responsabilidade de usar a arte para expressar suas ideias políticas”. Balançou a cabeça em concordância, seguindo para outros assuntos. Letras, caras, bocas. A vida de alguém pairando em colunas sociais.

Política preenchendo as palavras. “Relatos sobre agressões por motivação política crescem nas redes sociais no segundo turno, mostra estudo da FGV”. “Redes sociais e suas baboseiras extremistas”, pensou. Ainda bem que estava distante de tudo isso, o que lhe causava sensação de alívio. Detestava essas ferramentas da internet. Gostava mesmo da vida real, lugar em que essas brigas não aconteciam, acreditava.

“…noites de altas temperaturas, praticamente invariáveis…”

Um crime em análise. “Mais um. O que será desta vez?”, suspirou. “Ferido no ataque que matou Moa do Katendê após discussão política em Salvador, primo da vítima tem alta médica.” Releu. Novamente, focou a atenção nas letras e no que significavam. Sensação de vazio. Olhava a enxurrada de verbos, conectivos, vírgulas, pontos, coesão, incoerências.

“Polícia Civil detém suspeitos de picharem suásticas nazistas em capela de Nova Friburgo.”

Cerrou os olhos para se concentrar nas frases. Sentia dificuldade para compreender.

“Um vídeo com imagens de câmeras de segurança a que a polícia teve acesso também mostra os mesmos homens pichando em outros muros e calçadas próximos à capela frases contrárias ao candidato à Presidência Jair Bolsonaro (PSL).”

Abriu outra página.

“Apoiadores de Bolsonaro realizaram pelo menos 50 ataques em todo o país.”

Calafrios percorriam o corpo enquanto parecia ouvir ecos do passado. “Pô, cara, não é uma pergunta que tem que ser invertida, não? Quem levou a facada fui eu, pô! O cara lá, que tem uma camisa minha, comete lá um excesso. O que eu tenho a ver com isso? Eu lamento.”

“…mas fiquem atentos: há possibilidade de pancadas de chuva entre raios e trovões.”

Apertou as mãos. Fechou os jornais, desligou a televisão e apagou as luzes. O tempo era incerto.

 

Pesquisas apontam vitória de Bolsonaro e Witzel. Supremo é ameaçado

 

 

Charge do José Renato publicada hoje (18) na Folha da Manhã

 

 

Bolsonaro e Witzel atropelam

Em todas as pesquisas do segundo turno, as eleições a presidente da República e governador do Rio parecem estar definidas. Por larga margem de vantagem, os vencedores seriam respectivamente Jair Bolsonaro (PSL) e Wilson Witzel (PSC). Na consulta Paraná divulgada ontem, Bolsonaro teve 60,9% dos votos válidos, contra 39,1% de Fernando Haddad (PT). Pelo mesmo instituto, a vantagem de Witzel foi ainda maior na disputa ao Palácio Guanabara: 67,8% contra 32,2% de Eduardo Paes (DEM). Também ontem, o Ibope ratificou a dianteira do ex-juiz federal sobre Paes, por margem menor, mas ainda larga: 60% a 40%.

 

Mais intenções de voto

Sobretudo no primeiro turno presidencial, o instituto Paraná foi o que mais acertou o resultado das urnas. Em sua nova pesquisa de ontem, Bolsonaro apareceu com 21,8 pontos percentuais à frente Haddad. É mais do que os 16 e 18 pontos que, respectivamente, as pesquisas anteriores Datafolha e Ibope deram de vantagem ao capitão no segundo turno. Nele, as duas primeiras consultas a governador do Rio foram a Paraná e a Ibope de ontem. Na primeira, a vantagem de Witzel sobre Paes foi de impressionantes 35,6 pontos. No segundo, a diferença favorável ao ex-juiz foi de 20 pontos.

 

Menos rejeição

Independente da diferença dos números, as vantagens de Bolsonaro e Witzel nas intenções de voto parecem grandes demais para serem revertidas. Para isso, o que conta é a rejeição. Pela Paraná, Bolsonaro apareceu com 38% no índice negativo, contra 55,2% de Haddad. No mesmo instituto, Witzel teve 27,2% de rejeição, contra 56,4% de Paes. No Ibope, o ex-juiz teve apenas 18% de eleitores declarando que não votariam nele de jeito nenhum. É menos da metade dos 48% do seu concorrente. A 10 dias da urna, com grande inferioridade nos votos e dificuldade bem maior de conseguir novos, a matemática parece muito complicada para Haddad e Paes.

 

Famas

Bolsonaro se tornou famoso desde que pregava contra a democracia e pela guerra civil, nos anos 1990. Witzel só se tornou conhecido após chegar à frente nas urnas do último dia 7. Ele teve 41,28% dos votos válidos, contra 19,56% de Paes. Ao liderar as urnas do primeiro turno, o ex-juiz desmentiu os institutos de pesquisa que hoje apontam a sua vitória e a do seu candidato a presidente, no dia 28. Witzel teve uma arrancada na reta final nunca antes vista na história política fluminense, após ter o apoio de Flávio Bolsonaro (PSL). Eleito senador no RJ com quase a soma dos votos dos dois primeiros colocados a governador, Flávio é filho de Jair.

 

Teflon

Jair aconselhou os filhos a ficarem neutros em seus Estados. Se Flávio foi o campeão de votos no Rio ao Senado, Eduardo Bolsonaro (PSL) foi o deputado federal mais votado em São Paulo. Ainda que sem apoio oficial do chefe do clã, seu teflon a críticas parece ter sido herdado por Witzel. Após o primeiro turno, foi revelado que ele participou do ato que arrancou a placa em homenagem à vereadora carioca assassinada Marielle Franco (Psol), na Cinelândia. Também veio a público um vídeo em que, ainda juiz, ele ensinava aos colegas de toga como driblar a Justiça para receber gratificação de acúmulo. E, segundo as pesquisas, nada grudou nele.

 

Do capitão ao general

Bolsonaro se tornou conhecido como capitão da reserva do Exército muito antes de ser o fenômeno destas eleições. Witzel também já foi oficial dos Fuzileiros Navais. Ontem, um colega de ambos nas Forças Armadas, alçado à política na mesma onda, se tornou notícia. Eleito deputado federal pelo PSL no Rio Grande do Norte, o general da reserva Eliéser Girão Monteiro Filho não esperou tomar posse para pregar o impeachment e a prisão de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo ele, por “soltarem corruptos” e se venderem “ao mecanismo”, em referência à popular série da Netflix sobre a operação Lava Jato.

 

“Cadelas no cio”

Inegável que ministros como Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski e Marco Aurélio Mello, além do próprio presidente do STF, Dias Toffoli, revoltam a população pela generosidade com políticos e empresários acusados de corrupção. Mas foram legitimamente alçados à mais alta Corte do país. Podem até sofrer impeachment e prisão, como se deu respectivamente com os ex-presidentes Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva. Mas pelo rito da lei, não pelos latidos daqueles que Ciro Gomes (PDT) chamou de “cadelas no cio”, definição do dramaturgo alemão Betolt Brecht. Caso contrário, o termo fascista deixa de ser retórica petista.

 

Publicado hoje (18) na Folha da Manhã

 

Começam estudos da Uerj para desobstruir a foz do Paraíba em Atafona

 

Foz do Paraíba no Pontal de Atafona, 01/02/16 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

O primeiro passo para a desobstrução da foz do Paraíba do Sul, no Pontal de Atafona, está sendo dado. Esta semana começaram os estudos de uma equipe da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) no local. Depois de concluída a análise, uma empresa será definida pelo governo estadual, provavelmente por licitação, para fazer e e executar o projeto. Ele será custeado por verbas de compensação ambiental referente ao Terminal Sul do Porto do Açu. Pelo menos desde 2014, com o assoreamento da foz do rio, os pescadores de Atafona enfrentam grandes dificuldades para sair e voltar do mar.

Confira o vídeo dos estudos da equipe da Uerj no Pontal de Atafona:

 

 

Elio Gaspari — Bolsonaro e os esquadrões da morte das Filipinas ao Brasil

Jair Bolsonaro em visita ontem (16) à sede do Bope (Foto: Reprodução Facebook)
Elio Gaspari, jornalista e escritor

Caveira

Por Elio Gaspari

 

Comparar Jair Bolsonaro a Donald Trump pode ser até chique, mas é o mesmo que viver na Barra da Tijuca pensando que se está em Miami. A alma da retórica do capitão está bem mais longe, nas Filipinas. Seu presidente chama-se Rodrigo Duterte, prometeu reformas econômicas e celebrizou-se pela política de combate à criminalidade, sobretudo ao tráfico de drogas.

Visitando o quartel do Batalhão de Operações Especiais da PM do Rio, Bolsonaro disse à tropa que “podem ter certeza, chegando (à Presidência), teremos um dos nossos lá em Brasília”. Em seguida, deu o grito de guerra da corporação: “Caveira!”

Comparado com Duterte, Bolsonaro é uma freira, pois o presidente filipino vai além: “Hitler matou três milhões de judeus. Temos três milhões de viciados, eu gostaria de matá-los.” Está cumprindo. Em dois anos de governo, morreram 4.500 pessoas, segundo as estatísticas oficiais, e 12 mil, segundo organizações da sociedade civil.

Como Bolsonaro e Donald Trump, Duterte manipula sua incontinência verbal. Põe na roda a mãe de quem lhe desagrada, do Papa ao presidente Barack Obama. Quando uma missionária australiana foi morta e estuprada, ele disse que lastimava o crime porque ela “era tão bonita, foi um desperdício”. Em alguns casos, desculpou-se.

Aos 75 anos, tem o cabelo curto e negro de tintura, gosta de andar de motocicleta, teve um divórcio agreste, propala sua virilidade e as virtudes da pílula azul. Ele diz que “meu único pecado são os assassinatos extrajudiciais”.

O nome desse jogo é “Esquadrão da Morte”, coisa conhecida nas Filipinas e no Brasil. O de cá brilhou durante o governo de Juscelino Kubitschek, glamourizado pela imprensa com o nome de “Homens de Ouro”. Chefiava a polícia do Rio de Janeiro o general Amaury Kruel. Anos depois, seus colegas de tropa disseminavam histórias comprometedoras sobre sua honorabilidade. Mais tarde, surgiu a Scuderie Le Cocq, cujo símbolo era uma caveira. Seu presidente era o detetive Euclides Nascimento. Em 1971, ele comandava também uma quadrilha de contrabandistas à qual anexou-se o capitão Ailton Guimarães Jorge, com subalternos que estiveram lotados no DOI do I Exército. Em São Paulo, a estrela do “Esquadrão” era o delegado Sérgio Fleury, o matador de Carlos Marighella. As patrulhas de Fleury, como as de Duterte, penduravam cartazes em traficantes mortos. Faltava dizer que eram bandidos de quadrilhas rivais.

Se “execuções extrajudiciais” fossem remédio, o Brasil seria uma Dinamarca. Em 1970, uma pesquisa realizada no Rio e em São Paulo mostrou que 46% dos entrevistados estavam a favor do “Esquadrão”.

Há uns 20 anos, quando surgiram as primeiras milícias nas cidades brasileiras, houve quem achasse que elas eram remédio contra o crime. Passou o tempo, e os problemas agora são dois: o crime e as milícias. A ideia do combate aos bandidos partindo da suposição de que “direitos humanos” não devem ser confundidos com “direitos dos manos” (palavras de Jair Bolsonaro) pode estatizar algumas “boas” milícias.

Em dezembro de 1993, quando a polícia colombiana botou para quebrar no combate aos bandidos e conseguiu matar o traficante Pablo Escobar, símbolo do narcotráfico latino-americano, os louros da vitória foram para o presidente César Gaviria. Conhecendo a questão da violência e do tráfico, no ano passado ele escreveu um artigo intitulado “O presidente Duterte está repetindo meus erros”.

O filipino respondeu: “Isso só seria possível se eu fosse um idiota, como você”.

A popularidade de Duterte está em 75%. Vive-se melhor na Colômbia.

 

Publicado aqui na Folha de São Paulo

 

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