Historiador, professor e crítico de cinema da Folha, Arthur Soffiati é o convidado do Folha no Ar desta terça, ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3.
Ele falará dos dois Globos de Ouro conquistados na noite de domingo (11) pelo cinema brasileiro. De melhor filme de língua não inglesa a “O agente secreto”, do diretor Kleber Mendonça Filho, e de melhor ator de drama ao seu protagonista, Wagner Moura.
Do cinema ao filme da História em tempo presente, Soffiati também analisará a captura do ex-ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua esposa, dentro de um complexo militar de Caracas, na madrugada do último dia 3, pelos EUA de Donald Trump. E da nova ordem, com base em áreas de influência impostas pela força, que o mundo parece reinaugurar nestes primeiros dias de 2026.
Quem quiser participar do Folha no Ar desta terça poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook e no YouTube.
Renée Nicole Good, poeta e mãe de três filhos, morta na quarta com três tiros na cabeça disparados por agentes do ICE de Trump, na cidade de Minneapolis
— E aí? Quer começar por onde? O mundo está de porre? — mandou Leda na mesa do boteco, copo de cerveja já à mão, assim que notou Aníbal se aproximando.
— Já parou pra pensar que o porre pode ter sido o hiato que vivemos entre a queda do Muro de Berlim em 1989 e da União Soviética em 1991, até este ano da Graça de 2026? E que essa ressaca é o estado “sóbrio” da História? — devolveu as indagações Aníbal, sentando à mesa e acentuando as aspas com os dedos médios e indicador das duas mãos. Para deixar só o indicador da direita aberto, esticar o braço e pedir o copo ao garçom para se servir da cerveja já aberta.
— Trump não tem defesa!
— Maduro também não. E, mesmo após 13 anos condenando seu próprio povo à falta de comida e remédios, a milhares de prisões, tortura e assassinatos políticos, à fraude eleitoral comprovada em 2024, ao êxodo de 1/3 dos venezuelanos vivos na Terra, ainda tem gente da esquerda tupiniquim que tenta relativizar.
— Trump é completamente louco.
— Não há nenhuma loucura. Estamos aqui falando de Maduro, não estamos? E não da inflação dos alimentos nos Estados Unidos, reflexo dos tarifaços. Nem do envolvimento cada vez mais evidenciado de Trump com a rede de pedofilia de Epstein, seu ex-parça de balada.
— Sim, de fato, ele dita a pauta. Nos EUA e no mundo.
— A despeito de qualquer juízo moral ou apego à verdade no que diz, é preciso admitir: Trump é um grande comunicador.
— Como Hitler também foi. Só que na era do rádio. Trump é o produto das redes sociais, do algoritmo do ódio. Cujos donos subiram com ele ao poder no segundo mandato de presidente.
— Há diferenças conceituais. O nazifascismo tinha como uma das suas bases o controle estatal da economia. Que, com Trump, fica entregue ao capitalismo sem nenhuma regulação estatal das Big Techs. Mas, sim, há também muitas semelhanças.
— O Maga e o nazismo têm a mesma busca de um passado idealizado e irreal. É o “America First” e o “Deutschland über alles”, o “Alemanha acima de tudo”. E o mesmo critério racial, da polícia de imigração do ICE funcionando como a polícia política da Gestapo.
— Com uma ressalva: a Stasi, polícia política da antiga Alemanha Oriental comunista foi muito maior e durou muito mais tempo que a Gestapo de Hitler. E, não por acaso, veio no pós-II Guerra. Quando começou a bater o porre do mundo, breve, até a queda do Muro de Berlim.
— Você tem sempre que alfinetar minha formação marxista, né? — acusou Leda.
— É maior que isso. Com apoio do PT, de Lula e do Foro de São Paulo que o petróleo da Venezuela ajudou a bancar, não me importa se a ditadura militar de Chávez e Maduro prendeu, torturou e matou mais ou menos do que as ditaduras militares do Chile, Argentina ou Brasil. Todas patrocinadas pelos EUA na Guerra Fria, no mesmo tempo da Stasi e da soviética KGB. Prender, torturar e matar quem pensa politicamente diferente não tem lado do “bem”.
— Se a questão for moral, é o mesmo regime bolivariano de Chávez e Maduro que Trump manteve na Venezuela. Para controlar na cara dura o petróleo do país sul-americano, vizinho do Brasil, que tem as maiores reservas do mundo. Enquanto, nos Estados Unidos, os agentes da ICE matam uma mulher com três tiros na cabeça, à luz do dia. Porque tentou sair de carro, dobrando ao contrário do agente, da abordagem truculenta nas ruas de Minneapolis.
— Sim, na mesma cidade em que um policial local matou George Floyd em 2020, com o joelho sobre sua nuca por minutos, mesmo já algemado e imobilizado de bruços no chão. Que gerou a onda dos protestos do Black Lives Matter nos Estados Unidos e no mundo. Rolou até em Campos, lembra? E ajudou a derrotar Trump nas eleições presidenciais daquele ano.
— E você acha que a execução da Renée Nicole Good, poeta, mãe de três filhos e classificada de “terrorista interna” pelo governo Trump, pode ter o mesmo efeito?
— Na pior das hipóteses, serviu para os estadunidenses natos, brancos e de classe média como Nicole, base do eleitorado de Trump, verem que podem também ser alvo da perseguição do ICE aos imigrantes. Mas, sinto informar, Trump só vai completar um ano do segundo mandato no dia 20 deste mês. Ainda teremos mais três anos disso pela frente.
— Com a América do Sul chamada abertamente de quintal pelo secretário de Defesa de Trump. E com alguns vira-latas sul-americanos aplaudindo.
— Como tem caramelo do lado oposto, que se diz humanista e aplaudiu por 13 anos a ditadura de Maduro. O que a reação à execução de Nicole pode influenciar são as midterms, as eleições de meio de mandato presidencial dos Estados Unidos, em 3 de novembro. Quando serão eleitos todos os novos deputados e mais de 1/3 dos senadores, além de dezenas de governadores.
— Será suficiente?
— Na quinta, dia seguinte à execução de Nicole pelos agentes do ICE de arma na mão e rostos cobertos, como os bandidos dos westerns de John Ford, o Senado dos Estados Unidos aprovou resolução para impedir Trump de tomar novas medidas militares contra a Venezuela sem autorização do Congresso. Com os votos de cinco senadores republicanos, partido de Trump.
— Repito, Aníbal: será suficiente?
— Na marra, como Trump provou ao capturar Maduro e a mulher dentro de um complexo militar de Caracas, não há a menor chance.
— Que falta não faz uma bomba atômica, né?
— É fato. E é a ressaca da realidade. Depois do que os Estados Unidos de Trump fizeram na Venezuela, tem a Rússia de Putin na Ucrânia e no Leste Europeu, a China de Xi Jinping em Taiwan e na Ásia, e o Israel de Netanyahu na Palestina e Oriente Médio. São todos potências nucleares. E devem se sentir no mesmo direito de reinaugurar o imperialismo nos seus… quintais.
— Tem também a Índia do tal Narendra Modi, que é o país cujo PIB mais cresce no mundo, superou a China em população, tem bombas atômicas e tecnologia própria de mísseis.
— Pois é. E por que não pode fazer o mesmo com seu rival regional Paquistão? Porque este também tem bomba atômica. A quem não tem, tem a ressaca de Sartre. Ao testemunhar as tropas nazistas entrarem vitoriosas na sua França em 1940, ele constatou: “O que tínhamos a opor-lhes?” — ecoou Aníbal no boteco. E não achou resposta sóbria.
André Ceciliano, Lula e Cláudio Castro (Montagem: Joseli Matias)
Ceciliano à sucessão de Castro?
A eleição indireta da Alerj a governador passou a interessar diretamente a eleição a presidente da República. Com as pesquisas a governador no Nordeste apontando um quadro menos favorável a 2026 do que lhe foi em 2024, o PT vai precisar mais do RJ para tentar reeleger Lula. Por isso o partido lançaria seu nome a suceder Castro: André Ceciliano, ex-presidente da Alerj.
Pragmatismo dos dois lados
Como Garotinho, o PT também tem um pé atrás na possível aliança com Paes. Que, com a maioria bolsonarista entre os fluminenses nas eleições presidenciais de 2018 e 2022, realmente teria mais chances a governador sem abraçar Lula. Pragmatismo de um lado e do outro, Ceciliano no governo pós-Castro garantiria ao presidente o palanque no RJ.
Aliado de Bacellar, até que este exonerou (confira aqui) o ex-prefeito de Duque de Caxias Washington Reis (MDB) da secretaria estadual de Transportes em 3 de julho, o próprio governador Cláudio Castro (PL) receia o que pode estar nos celulares apreendidos. Pré-candidato a senador bem cotado nas pesquisas, para se candidatar, teria que se desligar do governo do RJ até 4 de abril.
Miccione como governador-tampão?
Como o blog noticiou na última terça (7), Castro quer (confira aqui) fazer seu secretário da Casa Civil, Nicola Miccione (PL), governador-tampão até 2027. Mas tem algumas pedras no meio do caminho.
Vacância na sucessão
Thiago Pampolha (MDB) deixou o cargo de vice-governador para ir (confira aqui) ao Tribunal de Contas do Estado (TCE), em 19 de abril, como o blog detalhou (confira aqui) 10 dias antes. Em dezembro, com o afastamento de Bacellar da presidência da Alerj, quem a assumiu foi o deputado Guilherme Delaroli (PL). Mas, por ser interino, ele está fora da linha de sucessão a governador.
Força com e sem a cadeira
Quem assumiria com a renúncia de Castro seria (confira aqui) o presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJ-RJ), desembargador Ribeiro de Castro. Que teria até 30 dias para realizar a eleição indireta a governador na Alerj. Para eleger Miccione, a força de Castro durará enquanto ele estiver na cadeira de governador. Trinta dias depois, essa força é da Alerj.
E Bacellar? Como ele e seu grupo irão para as eleições de outubro? Esta semana, foi especulado por sites cariocas que ele poderia concorrer em outubro a deputado federal, para fortalecer a nominata do União. Mas, dele ou de seus aliados, ninguém confirma a intenção.
Revés com Moraes
Preso em 3 de dezembro (confira aqui, aqui e aqui) pela Polícia Federal (PF), acusado de vazar informações da prisão do ex-deputado TH Joias em 3 de setembro, por ligação deste com o Comando Vermelho, Bacellar foi solto (confira aqui) em 9 de dezembro. Mas saiu afastado da presidência da Alerj, entre outras medidas cautelares impostas pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.
Licença estratégica
Em 10 de dezembro, Bacellar pediu licença do mandato de deputado estadual. Como a coluna explicou (confira aqui) no dia 13: a licença poderia ser de até 120 dias, mas foi pedida de apenas 10 para emendar com o recesso parlamentar até o carnaval, em fevereiro.
Celulares e prisões
Foi (confira aqui) o celular de TH Joias que gerou a prisão de Bacellar. Cujos celulares geraram a prisão, no dia 16, do (confira aqui) desembargador federal Macário Júdice Neto. Que teria passado ao então presidente da Alerj a informação da prisão do deputado faccionado. Celulares de Macário também foram apreendidos pela PF, assim como (confira aqui) do campista Rui Bulhões, ex-chefe de gabinete de Bacellar.
Eleitoral espera jurídico
Até que se saiba se todos esses celulares apreendidos gerarão ou não mais operações da PF no RJ, como a Zargun, a Unha e Carne e Unha e Carne 2, Bacellar não tomará nenhuma decisão. Seu futuro político e eleitoral vai esperar sua situação jurídica ficar mais clara.
Anthony Garotinho, Sérgio Mendes, Murillo Dieguez e Thiago Virgílio
Reencontro em Chapéu de Sol (I)
Nada como as sombras das casuarinas e o vento nordeste de Chapéu de Sol para curar velhas feridas. Rompidos desde 1995, Garotinho e seu ex-aliado Sérgio Mendes (Cidadania), prefeito de Campos entre 1993 e 1996, se encontram ao acaso na manhã do último sábado (3), caminhando entre Atafona e Chapéu de Sol. E conversaram amistosamente por cerca de 1h30.
Reencontro em Chapéu de Sol (II)
Com Garotinho, estava Thiago Virgílio. Com Sérgio, Murillo Dieguez, empresário e colunista da Folha. Os dois também participaram ativamente da conversa. Que girou da política presente, de Campos e do RJ, às memórias do passado comum. Se desafetos não saíram dali aliados, foi um exemplo de civilidade que poderia inspirar este ano eleitoral de 2026.
Wladimir e Anthony Garotinho, Eduardo Paes e Tassiana Oliveira (Montagem: Joseli Matias)
Wladimir vice de Paes e Garotinho a federal?
Hoje, a exatos oito meses e 24 dias à urna de 4 de outubro de 2026, o grupo dos Garotinhos tem um plano traçado. O prefeito carioca Eduardo Paes (PSD) anunciaria o de Campos, Wladimir, como vice em sua chapa a governador após o carnaval. Garotinho (REP) viria a deputado federal. Sem a primeira-dama de Campos, Tassiana (PL), se lançar a nada.
Garotinho e o verbo
A deputado estadual, os Garotinhos trabalharão pela reeleição de Bruno Dauaire (União) e o presidente da Codemca, Thiago Virgílio (Podemos). Para Wladimir vir a vice de Paes, sairia do PP para o MDB ou o Republicanos do pai. E este, pelo menos por ora, para de bater no prefeito carioca, com quem trocou acusações pesadas, recentemente, nas redes sociais.
Contraponto de Bacellar?
Paes e Wladimir se encontraram pessoalmente no Rio, no dia 6. Nos corredores da política carioca, no entanto, há quem diga que o primeiro estaria só enrolando o segundo. Porque com o ex-presidente campista da Alerj Rodrigo Bacellar (União) fora do jogo a governador em 2026, a demanda estratégica por um vice de Campos não existiria mais. A ver.
Felipe Fernandes, cineasta publicitário e crítico de cinema
Sonhos de trem: o luto entre a natureza e o progresso
Por Felipe Fernandes
Existe uma sensação de tragédia inerente ao protagonista Robert Grainier, personagem central de uma biografia ficcional que acompanha a jornada de um homem comum em busca de algo que nem ele próprio parece compreender. Através dele, observamos também as transformações de um país em franca expansão, num processo de modernização que consome tudo à sua frente.
Baseado no livro de Denis Johnson e roteirizado pela dupla Clint Bentley e Greg Kwedar (responsáveis pelo musical prisional Sing Sing, porém, aqui é Bentley quem assume a direção), o filme se constrói como uma jornada profundamente intimista e melancólica de um lenhador que vive imerso na natureza, em um trabalho pesado e perigoso, enquanto desenvolve uma visão muito particular do mundo ao seu redor.
Preso entre a distância imposta pelo trabalho e o desejo de estar mais presente junto à família que construiu, Grainier carrega uma tristeza que parece constitutiva de sua própria existência. Mesmo nos momentos de alegria ao lado da filha, há sempre um peso latente, sensação que reforça a importância dos instantes singelos e torna essas breves felicidades ainda mais genuínas. É um homem simples, endurecido pelo trabalho e pela vida difícil, evocando o anti-herói introspectivo dos westerns revisionistas, mais interessado na luta interna do que em conflitos externos.
O filme lança um olhar grandioso sobre a natureza. As imagens de árvores centenárias — ao mesmo tempo imponentes e frágeis diante da ganância humana — constroem uma contradição temática particularmente interessante. Nesse aspecto, o longa remete ao western: ainda que substitua desertos e fazendas por florestas e ferrovias, o cenário dialoga diretamente com a paisagem mito-histórica estadunidense típica do gênero.
A fotografia do brasileiro Adolpho Veloso (um dos favoritos a uma indicação ao Oscar) é primordial para a construção dessa atmosfera de beleza e melancolia. Seu trabalho retrata a grandiosidade da paisagem natural ao mesmo tempo em que privilegia a luz natural, buscando reproduzir com fidelidade a iluminação da época. O resultado é um aspecto quase documental, com planos contemplativos, muitos deles visualmente inspirados, explorando ângulos pouco usuais e construindo uma narrativa sensorial poderosa.
A câmera privilegia imagens amplas da natureza, florestas, céu e paisagens vastas, que frequentemente reduzem o personagem à escala do mundo, evidenciando a grandiosidade do ambiente e a fragilidade humana. A escolha por uma razão de aspecto mais vertical (3:2) reforça a imponência das árvores e a sensação de verticalidade constante.
Em determinado diálogo, uma personagem ressalta a importância de tudo o que existe na floresta: cada elemento tem seu valor, seja a árvore em pé ou a árvore morta. Dentro desse processo de modernização, de um progresso que diminui o homem e destrói a natureza em sua expansão, esse olhar atento para o micro em meio ao macro se destaca como um dos aspectos mais instigantes do filme.
Grainier é um homem em compasso de espera, envelhecendo enquanto a vida segue ao seu redor. Lidando com lembranças, luto, medos, solidão e sentimentos densos, ele se vê aprisionado em um tempo de mudanças. As imagens e a trilha sonora potencializam essa melancolia, compondo o retrato de um homem que tenta se conectar com algo que faça sentido ou que lhe ofereça uma nova perspectiva de existência.
Publicado hoje na Folha da Manhã.
Confira o trailer do filme, disponível na Netflix: