Opiniões

Artigo do domingo — De onde surgiu Bolsonaro?

 

 

Gustavo Bertoche, doutor em filosofia e professor da Unig

De onde surgiu Bolsonaro?

Por Gustavo Bertoche(*)

 

Desculpem os amigos, mas não é de um “machismo”, de uma “homofobia” ou de um “racismo” do brasileiro. A imensa maioria dos eleitores do candidato do PSL não é machista, racista, homofóbica nem defende a tortura. A maioria deles nem mesmo é bolsonarista.

O Bolsonaro surgiu daqui mesmo, do campo das esquerdas. Surgiu da nossa incapacidade de fazer a necessária autocrítica. Surgiu da recusa em conversar com o outro lado. Surgiu da insistência na ação estratégica em detrimento da ação comunicativa, o que nos levou a demonizar, sem tentar compreender, os que pensam e sentem de modo diferente.

É, inclusive, o que estamos fazendo agora. O meu Facebook e o meu WhatsApp estão cheios de ataques aos “fascistas”, àqueles que têm “mãos cheias de sangue”, que são “machistas”, “homofóbicos”, “racistas”. Só que o eleitor médio do Bolsonaro não é nada disso nem se identifica com essas pechas. As mulheres votaram mais no Bolsonaro do que no Haddad. Os negros votaram mais no Bolsonaro do que no Haddad. Uma quantidade enorme de gays votou no Bolsonaro.

Amigos, estamos errando o alvo. O problema não é o eleitor do Bolsonaro. Somos nós, do grande campo das esquerdas.

O eleitor não votou no Bolsonaro PORQUE ele disse coisas detestáveis. Ele votou no Bolsonaro APESAR disso.

O voto no Bolsonaro, não nos iludamos, não foi o voto na direita: foi o voto anti-esquerda, foi o voto anti-sistema, foi o voto anti-corrupção. Na cabeça de muita gente (aqui e nos EUA, nas últimas eleições), o sistema, a corrupção e a esquerda estão ligados. O voto deles aqui foi o mesmo voto que elegeu o Trump lá. E os pecados da esquerda de lá são os pecados da esquerda daqui.

O Bolsonaro teve os votos que teve porque nós evitamos, a todo custo, olhar para os nossos erros e mudar a forma de fazer política. Ficamos presos a nomes intocáveis, mesmo quando demonstraram sua falibilidade. Adotamos o método mais podre de conquistar maioria no congresso e nas assembleias legislativas, por termos preferido o poder à virtude. Corrompemos a mídia com anúncios de empresas estatais até o ponto em que elas passaram a depender do Estado. E expulsamos, ou levamos ao ostracismo, todas as vozes críticas dentro da esquerda.

O que fizemos com o Cristóvão Buarque?

O que fizemos com o Gabeira?

O que fizemos com a Marina?

O que fizemos com o Hélio Bicudo?

O que fizemos com tantos outros menores do que eles?

Os que não concordavam com a nossa vaca sagrada, os que criticavam os métodos das cúpulas partidárias, foram calados ou tiveram que abandonar a esquerda para continuar tendo voz.

Enquanto isso, enganávamo-nos com os sucessos eleitorais, e nos tornamos um movimento da elite política. Perdemos a capacidade de nos comunicar com o povo, com as classes médias, com o cidadão que trabalha 10h por dia, e passamos a nos iludir com a crença na ideia de que toda mobilização popular deve ser estruturada de cima para baixo.

A própria decisão de lançar o Lula e o Haddad como candidatos mostra que não aprendemos nada com nossos erros — ou, o que é pior, que nem percebemos que estamos errando, e colocamos a culpa nos outros. Onde estão as convenções partidárias lindas dos anos 80? Onde estão as correntes e tendências lançando contra-pré-candidatos? Onde estão os debates internos? Quando foi que o partido passou a ter um dono?

Em suma: as esquerdas envelheceram, enriqueceram e se esqueceram de suas origens.

O que nos restou foi a criação de slogans que repetimos e repetimos até que passamos a acreditar neles. Só que esses slogans não pegam no povo, porque não correspondem ao que o povo vivencia. Não adianta chamar o eleitor do Bolsonaro de racista, quando esse eleitor é negro e decidiu que não vota nunca mais no PT. Não adianta falar que mulher não vota no Bolsonaro para a mulher que decidiu não votar no PT de jeito nenhum.

Não, amigos, o Brasil não tem 47% de machistas, homofóbicos e racistas. Nós chamarmos os eleitores do Bolsonaro disso tudo não vai resolver nada, porque o xingamento não vai pegar. O eleitor médio do cara não é nada disso. Ele só não quer mais que o país seja governado por um partido que tem um dono.

E não, não está havendo uma disputa entre barbárie e civilização. O bárbaro não disputa eleições. (Ah, o Hitler disputou etc. Você já leu o Mein Kampf? Eu já. Está tudo lá, já em 1925. Desculpe, amigo, mas piadas e frases imbecis NÃO SÃO o Mein Kampf. Onde está a sua capacidade hermenêutica?).

Está havendo uma onda Bolsonaro, mas poderia ser uma onda de qualquer outro candidato anti-PT. Eu suspeito que o Bolsonaro só surfa nessa onda sozinho porque é o mais antipetista de todos.

E a culpa dessa onda ter surgido é nossa, exclusivamente nossa. Não somente é nossa, como continuará sendo até que consigamos fazer uma verdadeira autocrítica e trazer de volta para nosso campo (e para os nossos partidos) uma prática verdadeiramente democrática, que é algo que perdemos há mais de vinte anos. Falamos tanto na defesa da democracia, mas não praticamos a democracia em nossa própria casa. Será que nós esquecemos o seu significado e transformamos também a democracia em um mero slogan político, em que o que é nosso é automaticamente democrático e o que é do outro é automaticamente fascista?

É hora de utilizar menos as vísceras e mais o cérebro, amigos. E slogans falam à bile, não à razão.

 

(*) Doutor em filosofia e professor da Universidade Iguaçu (Unig)

 

Publicado hoje (14) na Folha da Manhã

 

Alerta ao naufrágio da esquerda com o PT e à violência de Bolsonaro

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Considerado um dos maiores intelectuais de Campos, o historiador ambiental Aristides Soffiati seria o que a bipolaridade política do país hoje classifica de “isentão”. A referência se dá a todos aqueles que não submetem aos dogmas dos dois candidatos que disputam o segundo turno da eleição presidencial: Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT). Alheio ao fundamentalismo político, Soffiati aposta na sobrevivência da Constituição de 1988 e faz críticas contundentes ao simplismo de Bolsonaro e Wilson Witzel (PSC), candidato a governador do Rio. Para ele, antes mesmo do resultado final, os dois “já estão estimulando atos violentos”. Mas é igualmente crítico ao outro lado: “A vaidade de Lula e do PT poderá levar toda a centro-esquerda ao naufrágio”.

 

 

Folha da Manhã – Como historiador, entende que o Brasil da Nova República, construído após a ditadura militar (1964/85), acabou? O que estamos colocando no lugar?

Aristides Soffiati – Wladimir Safatle (filósofo da USP) sustenta, no seu último livro, que a Nova República e o lulopetismo se esgotaram. Não vejo o fim da Nova República só porque um candidato de direita ameaça chegar ao governo. Isso faz parte da democracia. Havendo respeito à Constituição, a Nova República continua. Nada, na Constituição, estabelece que a polarização partidária se restringe ao PSDB e ao PT. Se a Constituição for rasgada, podemos falar de outra era. Nesse caso sim, cabe rebelar-se.

 

Folha – Após o compromisso com a Constituição assumido por Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) no Jornal Nacional, no dia seguinte (08) ao primeiro turno, a Carta Magna de 1988 deve ser a único sobrevivente da transição democrática?

Soffiati – Ela pode sofrer emendas, mas não substituída por outra. A Constituição é a maior garantia da república e da democracia. Só uma legítima Assembleia Constituinte pode substituí-la, e o clima político do momento não é nada favorável para a substituição.

 

Folha – No discurso em que promulgou a Constituição, há 30 anos, o ex-deputado federal Ulysses Guimarães fez duas observações assertivas: “Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo” e “Não roubar, não deixar roubar, pôr na cadeia quem roube”. Porém, o segundo turno presidencial será disputado por um candidato que diz que a ditadura militar no Brasil não existiu, contra outro que tem como seu principal cabo eleitoral um político preso por corrupção. O brasileiro ficou surdo ao longo das três últimas décadas?

Soffiati – De fato, declarações e atos como esses mostram que a democracia no Brasil ainda é frágil. Ainda estamos construindo uma civilização democrática. Não basta ter uma constituição. É preciso uma cultura constitucional. A sociedade brasileira é conservadora. Ela condena a grande corrupção, mas não a pequena, praticada cotidianamente até pelos pobres. A maioria das pessoas parece não abominar declarações e ações autoritárias e ditatórias desde que seus interesses particulares sejam preservados.

 

Folha – Do processo de redemocratização do Brasil, o único líder ainda protagonista na política nacional, mesmo preso desde 7 de abril, é Lula. Chegou a hora de deixá-lo para trás, ou as urnas de 7 de abril dominadas pelo antilulismo já fizeram isso?

Soffiati – Não podemos reduzir a esquerda brasileira ao PT. Ela é mais ampla. Quanto ao PT, percebo que o partido passou a confiar muito em si com quatro vitórias para a presidência da república. Lula passou a ser uma liderança carismática em detrimento da prudência. Aos petistas, em grande escala, pareceu que Lula seria eterno. A lucidez de alguns de seus membros não foi levada em conta. As críticas foram repelidas com ira. Agora, o PT corre o risco de perder a eleição, com ameaça para a democracia. Vejo que o PT colocou o partido acima da democracia.

 

Folha – Impressiona como pessoas inteligentes ainda se negam a reconhecer os erros da esquerda. Foi assim no Mensalão, no maior escândalo de corrupção da Terra eviscerado pela Lava Jato, na maior recessão econômica da história do país criada pelo governo Dilma, no impeachment da presidente, na condenação e prisão de Lula por corrupção e, agora, com a derrota fragorosa nas urnas. A esquerda vai morrer sem fazer autocrítica?

Soffiati – A crítica e a autocrítica têm sido feitas por alguns integrantes do partido, como Jacques Wagner, por exemplo, por democratas mais afastados do partido, como Rui Fausto. Contudo, o PT tem dado mais ouvidos a conselheiros nocivos. Certos nomes são danosos ao PT, como José Dirceu e Gleisi Hoffmann. Espero que, vencedor ou derrotado, o PT faça uma avaliação da sua trajetória e que assuma a posição de uma centro-esquerda responsável. Mas, para os democratas autênticos, como Ciro Gomes e Marina Silva, o PT não merece o apoio deles, já que ambos conhecem as manobras. Ciro e Marina não deram o apoio que o PT esperava. Não acho que a falta de apoio de ambos resulte de ressentimentos, mas de perceberem que as práticas do PT não são tão democráticas como o partido propala.

 

Folha – Todas as pesquisas indicavam que Ciro seria o nome mais consistente da esquerda para enfrentar Bolsonaro no segundo turno. Ex-governador da Bahia que se elegeu senador no dia 7, Jaques Wagner foi o único que ousou questionar Lula, tentando a composição do PT como vice na chapa de Ciro. O cearense era “bola da vez” da esquerda? Foi o medo de Lula em apoiar alguém com luz própria que definiu Haddad?

Soffiati – Esse é um grave equívoco do PT: julgar que só ele representa a democracia. As pesquisas mostraram que Ciro Gomes era o candidato mais habilitado a derrotar Bolsonaro no segundo turno. Contudo, Gleisi Hoffmann deu uma declaração infeliz sobre Ciro, como se ele fosse inimigo da democracia. Haddad assumiu a candidatura depois de muita manobra frustrada do PT para lançar Lula como candidato. Haddad perdeu um tempo precioso, além de não conseguir se descolar de Lula. Agora, o PT faz manobras de última hora para que o carro não caia no precipício, como afastar Haddad de Lula, usar as cores da bandeira brasileira e adotar um discurso moderado. Avalio que uma chapa bipartidária, com Ciro como candidato a presidente e Haddad como vice, convenceria mais o eleitor. Sei de votantes em Ciro que agora apoiam Bolsonaro. A vaidade de Lula e do PT poderá levar toda a centro-esquerda ao naufrágio.

 

Folha – Em relação às redes sociais, é inegável o protagonismo da tecnologia nos protestos das “Jornadas de Junho” de 2013, nas manifestações pelo impeachment de Dilma em 2015 e 2016, e na cruzada contra as artes e artistas do país a partir da exposição do Queermuseu de 2017. A direita brasileira aprendeu antes a nova forma de mobilização popular? A esquerda ficou anacrônica nos meios?

Soffiati – Os dois lados sabem usar as redes sociais, mas a direita as emprega com mais eficiência, inclusive de forma alarmista e falsa. Mas no Face tenho encontrado mais petistas usando o meio que os bolsonarianos. Pena que se valem sempre de frases feitas.

 

Folha – Se mostra sua força nas redes sociais, nelas a direita também evidencia sua boçalidade. Chegou-se a absurdos vexatórios como pretender ensinar a história da Alemanha aos alemães, o cristianismo ao Papa, o liberalismo econômico à revista The Economist e até o significado da letra da música “Another Brik in The Wall” ao seu próprio compositor, o inglês Roger Waters. Umberto Eco estava certo: “as redes sociais deram voz aos imbecis”?

Soffiati – Eco explicou numa crônica que as redes sociais permitiram que os imbecis propalassem sua voz. Ele disse que os imbecis também merecem falar. Pior que o imbecil genuíno é o intelectual que se comporta como imbecil. No atual momento brasileiro, é melhor ficar calado ou fazer declarações ponderadas. Letras de Waters, anteriores às eleições brasileiras de 2018 tem sido criticadas como se fossem escritas para o PT ou como se fossem dirigidas a Bolsonaro. Ora, Waters critica qualquer forma de autoritarismo, à direita ou à esquerda há muito tempo. Não tem cabimento descontextualizá-las.

 

Folha – Por outro lado, a desinteligência e a arrogância da esquerda deram sua demonstração mais recente na introdução das cores pátrias verde, amarelo e azul na campanha de Haddad, no segundo turno, que abandonou o vermelho do PT e até a imagem de Lula. Na manifestação do “#EleNão” na praça São Salvador, em 29 de setembro, o único manifestante que apareceu com uma bandeira do Brasil foi confundido com simpatizante de Bolsonaro. Ressentida pelo apoio de camisa amarela ao impeachment de Dilma, a esquerda deixou as cores nacionais à direita. E, com a bandeira, deixou junto o país. É possível recuperá-lo até o dia 28?

Soffiati – Parece que lembraram da bandeira do Brasil tarde demais. Ela e o hino são de todos. O PT deixou a Bolsonaro o discurso em favor da restauração dos símbolos nacionais. Não tenho bandeira. Esse discurso não me atinge. Mas, com um discurso simplista, Bolsonaro chega à população. De quem é a responsabilidade pela ascensão de Bolsonaro? A sua competência ou o descrédito da população? O PT terá coragem de afirmar que a população é despolitizada? Se o povo tem sempre razão num discurso populista de esquerda, então deve-se reconhecer que o povo acertou em dar a vitória a Bolsonaro. No final das contas, a população está interessada na segurança física e econômica.

 

Folha – Desde o dia da eleição, casos de violência por intolerância política se espalharam por todo o Brasil. O mais grave foi o assassinato do mestre capoeirista Romualdo Rosário da Costa, de 63 anos, conhecido como Moa do Katendê, morto com 12 facadas nas costas por um simpatizante de Bolsonaro. Apesar de também ter sido alvo de uma facada desferida por um ex-militante do Psol, Bolsonaro tem muito apoio nas Polícias nas Forças Armadas. Corremos o risco da conflagração? O discurso de ódio contra as minorias pode gerar sua perseguição?

Soffiati – Tenho medo que a vitória de um dos lados seja entendida como aval tácito para deflagrar mais ódio e perseguições. Isso aconteceu com a vitória de Allende por seus próprios eleitores. Pergunto como será o dia seguinte da eleição de segundo turno. Bolsonaro conseguirá impedir a violência triunfalista de seus eleitores? O PT já formulou um plano B democrático? Li num jornal português que os gays deixarão o país. Se a tática for essa, não ficará ninguém para resistir.

 

Folha – Bolsonaro já disse que quer ter um ministro da Educação “que expulse a filosofia de Paulo Freire” das escolas brasileiras. Se isso se concretizar, dificilmente será sem resistência do magistério. Casos polêmicos recentes, como a fiscalização da Justiça Eleitoral de Campos sobre UFF e IFF, podem ser um tubo de ensaio do que está para acontecer em todo o país?

Soffiati – Temo que Bolsonaro inicie um processo de privatização das universidades públicas, absorva o ministério da Cultura pelo ministério da Educação, junte os Ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente. Depende dele essas iniciativas. Não há educação sem partido. Ou ela é crítica ou é conformista e reacionária. Anuncia-se que um representante da UDR, que eu julgava extinta, será indicado para Agricultura e Meio Ambiente. Bolsonaro quer ser um Trump subdesenvolvido, tirando o Brasil do Acordo de Paris e buscando uma soberania não mais admissível num mundo globalizado. O PT nunca deu a devida importância à área ambiental, ainda considerada uma questão menor. Espero muita movimentação da sociedade com a vitória de Bolsonaro.

 

Folha – Após receber o apoio da família Bolsonaro em sua campanha, o ex-juiz federal e candidato a governador Wilson Witzel (PSC) surpreendeu a todos, com uma arrancada fulminante no primeiro turno, sendo considerado o favorito no segundo contra Eduardo Paes (DEM). Witzel fala abertamente em “abater” qualquer suspeito de portar um fuzil, prática que no último dia 18 levou PMs a assassinarem a tiros um trabalhador na comunidade do Chapéu Mangueira, no Rio, que estava com um guarda-chuva. Se o ex-juiz vencer, o que esperar?

Soffiati – Eu só conhecia Bolsonaro por suas posições reacionárias. Só recentemente, ouvi falar em Witzel. Acho que ambos não têm valor intrínseco. Nenhum dos dois tem experiência no poder executivo. Eles estão aproveitando o contexto atual de violência e corrupção para avançar com um discurso simplório, mas convincente. Antes mesmo do resultado final, eles já estão estimulando atos violentos. Temo situações piores se ele vencer. Espero que o Judiciário e os setores esclarecidos da sociedade estabeleçam limites.

 

Folha – Wladmir Garotinho (PRP) foi eleito deputado federal, ao contrário de Marcão Gomes (PR), prejudicado pela força da legenda dos candidatos do PSL de Bolsonaro. Com a vitória do filho de Anthony Garotinho (PRP) e a derrota do aliado de Rafael Diniz (PPS), como devemos caminhar das urnas de 2018 às de 2020, a prefeito de Campos?

Soffiati – Mais que Lula, Garotinho consegue dar nó em pingo d’água. Embora afastado da eleição e, por enquanto, da prisão, ele conseguiu eleger dois filhos. Garotinho sabe tumultuar, mas ainda tem influência na política. Mais de uma vez, declarei que Rafael deve fazer frente a Garotinho com ações que cheguem com clareza ao povo. Garotinho sabe fazer isso muito bem, mesmo por intermédio de outros. Prevejo que um de seus filhos seja candidato a prefeito em 2020

 

Página 2 da edição de hoje (14) da Folha

 

Publicado hoje (14) na Folha da Manhã

 

Campanha de Haddad tenta se pintar do Brasil que cedeu a Bolsonaro

Desde ontem era possível notar nas redes sociais que parte dos anúncios de campanha de Haddad trocou o vermelho do PT pelas cores nacionais: verde, amarelo e azul. Hoje, foi anunciado que, com a entrada de Jaques Wagner na campanha, até a imagem e o nome de Lula foram retirados da propaganda petista no segundo turno.

Wagner é ex-governador da Bahia, pela qual se elegeu senador no dia 7. A votação que ele deu a Haddad no Estado foi a principal causa para Bolsonaro não ter liquidado a fatura ainda no primeiro turno. Antes, o líder baiano havia sido a única voz do PT que ousou questinoar os ditames Lula, ao buscar a aliança do partido com a vice na chapa de Ciro Gomes.

As manifestações femininas do “#EleNão” de 29 de setembro levaram muitas cores às ruas e praças do país, mas nenhum verde, amarelo ou azul. Na Praça São Salvador, o único manifestante que apereceu com uma bandeira do Brasil chegou a ser confundido com eleitor de Bolsonaro — que aumentou consideravelmente seu voto entre as mulheres após o evento.

Por arrogância, ressentimento e desinteligência, a oposição a Bolsonaro abriu mão das cores da bandeira nacional para os militantes do capitão. E, segundo as urnas revelaram, deixaram junto o Brasil. Mesmo que Haddad agora consiga reunir o apoio de Ciro, Marina Silva e Fernando Henrique Cardoso, tudo indica que é tarde demais para recuperar o país. O caminho parece bem mais longo que o próximo dia 28. E certamente mais difícil.

Na dúvida, a pesquisa Datafolha hoje divulgou (aqui) sua primeira pesquisa para o segundo turno presidencial. Contabilizados os votos válidos, deu: Bolsonaro 58% x 42% Haddad.

 

Elio Gaspari — O rancor produzido pela onipotência virou veneno

 

Elio Gaspari, jornalista e escritor

Jaques Wagner entra em campo

Por Elio Gaspari

 

Fernando Haddad e o comissariado petista querem costurar uma “frente democrática” para derrotar Jair Bolsonaro e puseram em campo o ex-ministro e ex-governador da Bahia, Jaques Wagner. Se conseguirem, no mínimo, levantam o nível da campanha.

Wagner é competente e seu desempenho na Bahia comprova isso. Governou o estado de 2007 a 2015, elegeu o sucessor que, por sua vez, acaba de se reeleger. Se lhe faltasse credencial, no início do ano defendia uma chapa com Ciro Gomes e Haddad na vice. Foi atropelado pelo oráculo de Curitiba, recolheu-se e foi tratar de sua campanha para o Senado.

As duas principais pontas dessa costura são Ciro Gomes e Fernando Henrique Cardoso. Ciro tem um capital eleitoral e já disse que “ele não”. Ainda falta que entre na campanha de Haddad. Ele seria um corpo estranho no estilo que Haddad apresentou no primeiro turno. A questão será saber em que tipo de campanha e de propostas cabem os dois.

Só o tempo dirá onde o PT estava com a cabeça quando atropelou-o e, sobretudo, quando Dilma Rousseff descumpriu a palavra dada ao irmão de Ciro, que lhe oferecia uma cadeira de senadora pelo Ceará. Roberto Mangabeira Unger, velho amigo dos Gomes, já conversou com Haddad.

A ponta de Fernando Henrique Cardoso é mais delicada. Ele está fechado em copas, numa dupla negativa: “Não concordo com o reacionarismo cultural e o descompromisso institucional de uns vitoriosos e tampouco com a corrupção sistêmica e com o apoio ao arbítrio na Venezuela e em outros países”. Para tirá-lo dessa posição será necessária muita conversa. Mesmo assim, FHC sabe o peso biográfico de um eventual silêncio. São duas costuras possíveis para Jaques Wagner.

Uma parte do fenômeno Bolsonaro saiu do rancor petista, da eternizada adoração oracular a Lula e, sobretudo, da resistência dos comissários à autocrítica. Muitas pessoas podem até votar em Haddad, mas se o preço for defender a moralidade petista no balcão de uma lanchonete acabam votando no capitão. O rancor produzido pela onipotência virou veneno e ainda está lá.

Mesmo depois do massacre de domingo, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, disse o seguinte: “Nós vamos fazer um chamamento a todos os democratas. (…) Não temos restrição, se as pessoas tiverem noção do que está em jogo no Brasil e defenderem a democracia têm que estar nessa caminhada.”

Quem a ouvisse acreditaria que falava a uma plateia de militantes. “Têm que estar”, por que, cara pálida? A causa democrática não precisa do toque de clarim do PT, é justo o contrário.

A ideia segundo a qual o programa do PT precisa apenas de ajustes é suicida. Quem propõe uma frente democrática não fala essa língua, até porque felizmente os comissários já jogaram no mar a proposta de uma Constituinte. A maior frente já construída na política brasileira foi a das Diretas-Já, de 1984. Nela entrou até Tancredo Neves que, com fina percepção, a considerava “necessária, porém lírica”.

Na sua fala ao Jornal Nacional, Jair Bolsonaro desautorizou a sugestão de Constituinte de sábios e a referência ao “autogolpe” de seu vice Hamilton (e não Augusto) Mourão. Fica combinado assim. Faltou esclarecer o significado de uma frase na sua saudação de domingo: “Vamos botar um ponto final em todos os ativismos do Brasil”.

Sem ativistas não há democracia. Não existiriam o PT, nem o PRTB de Levy Fidelix com seu aerotrem. Bolsonaro também precisa de um filtro moderador, mas talvez a banda golpista de seu eleitorado nem o queira.

 

Publicado hoje (aqui) na Folha de São Paulo

 

Juristas de Campos analisam ameaça de Witzel de prender Paes

 

 

Compromisso com a Constituição

No dia seguinte ao primeiro turno, os candidatos a presidente Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) tranquilizaram quem teme pelo país, independente do vencedor do segundo turno. Ao Jornal Nacional, ambos garantiram o compromisso com a Constituição Brasileira, que tentarão reformar apenas pelo recurso nela previsto das emendas. As dúvidas eram pertinentes, após o general Hamilton Mourão (PRTB), vice de Bolsonaro, declarar que uma nova Constituição poderia ser feita sem a participação de representantes eleitos. Sem contar o projeto de governo do PT, que previa uma nova Constituinte, só agora descartada por Haddad.

 

“Traidor da pátria”

Ainda vai demorar para que se compreenda o grito de “basta” do eleitor no domingo. À espera do seu último ato, esta eleição talvez signifique o fim do Brasil da Nova República, construído a duras penas após a ditadura militar (1964/85). Último líder daquele período ainda na ativa na política nacional, mesmo preso desde 7 de abril, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) parece sido superado por quem melhor soube encarnar o anti-Lula: Bolsonaro. Mas, acima dos personagens, o roteiro da Constituição precisa ser preservado. Como setenciou o ex-deputado Ulysses Guimarães ao promulgá-la há 30 anos: “traidor da Constituição é traidor da pátria”.

 

Facadas

O problema parece ser a queda das máscaras com a vitória esmagadora do antipetismo nas urnas. E o rosto deformado que isso revela. Em Salvador, na madrugada de segunda, o mestre capoeirista Romualdo Rosário da Costa, de 63 anos, foi morto com 12 facadas pelas costas. O motivo? Ele disse ao seu assassino, o barbeiro Paulo Sérgio Ferreira de Santana, que era contrário a Bolsonaro. À exceção do desfecho, como diferenciar o crime bárbaro da facada que o próprio Bolsonaro levou no abdômen, enquanto era carregado por seus militantes nas ruas de Juiz de Fora, desferida covardemente pelo ex-militante do Psol Adélio Bispo de Oliveira?

 

Bolsonaro e Witzel

O país caminha em limite tênue entre o contraditório, fundamental à democracia, e a violência. Na demanda de equilíbrio, não ajuda a declaração dada ontem por Bolsonaro, que voltou a chamar Haddad de “canalha”. Muito menos o ex-juiz federal Wilson Witzel (PSC), que ontem ameaçou dar voz de prisão a Eduardo Paes (DEM), seu adversário no segundo turno a governador do Rio, caso este utilize nos debates o que julga serem fake news. Bolsonaro teve a lupa nacional sobre si desde que se revelou presidenciável competitivo, há um ano. Witzel, que cresceu espantosamente nos últimos dias antes da urna, só agora está no foco.

 

Delegado resolve

Sobre a ameaça do ex-magistrado, que Paes considerou autoritarismo, a coluna ouviu ontem alguns juristas. Para o promotor estadual Victor Queiroz, a decisão caberia ao delegado de Polícia ao qual o caso fosse encaminhado: “O crime de injúria visando à propaganda eleitoral está previsto no artigo 326 do Código Eleitoral. Há também o crime de injúria genérico, previsto no artigo 140 do Código Penal. Tratam-se de delitos de menor potencial ofensivo. É o delegado de Polícia quem vai deliberar sobre a lavratura do termo circunstanciado ou do auto de prisão em flagrante, e não o agente policial ou o cidadão que optou por conduzir o autor do fato”.

 

Carteirada antidemocrática

Advogado do Grupo Folha, João Paulo Granja chamou a ameaça de Witzel de “carteirada”: “Em relação ao recente vídeo onde o candidato Wilson Witzel afirma que promoverá a prisão do também candidato Eduardo Paes, caso venha a ser injuriado no debate. Trata-se de grosseiro equívoco jurídico, provavelmente derivado do acirramento da disputa eleitoral para o governo do nosso Estado. Inexiste prisão em flagrante delito em crime de menor potencial ofensivo, como no caso. É certo, ademais, que Witzel não mais ocupa qualquer cargo público, conferindo cores mais fortes à antidemocrática e ilegal ‘carteirada’ prometida”.

 

Desvestir a toga

Advogado criminal, Felipe Drumond analisou a ameaça como representante da OAB-Campos: “A prisão em flagrante seria de difícil implementação por se tratar de crime de menor potencial ofensivo. A lei veda o auto de prisão em flagrante se o acusado se comprometer a comparecer à Justiça, mas autoriza que seja conduzido coercitivamente à delegacia. A menção, por Paes, de fatos classificados por Witzel como ofensivos não seria suficiente para prisão. Em debates políticos, é comum que eventos desonrosos sejam mencionados com a intenção de informar o eleitor”. Favorito como candidato, Witzel precisa desvestir a toga. E descalçar o salto.

 

Publicado hoje (10) na Folha da Manhã

 

Joseli Mathias — Os brasileiros sairão perdendo

 

(Igo Estrela/Estadão Conteúdo)

 

 

Por Joseli Mathias(*)

 

Nesses últimos 17 anos, a data da eleição sempre foi, para mim, um dia de grande empolgação, tanto pelo dever cívico, quanto pelo meu papel como jornalista. Mesmo após meses de trabalho duro durante uma campanha eleitoral e sabendo que o dia D não tem hora para acabar, eu chegava à redação animada, com intensa carga de adrenalina correndo na veia. Ontem, entretanto, o dia foi cinza, e não só pelo tempo chuvoso, que parecia emoldurar nosso futuro. Antes de seguir para o jornal, fui à urna deixar meu voto, mas com a sensação de batalha perdida. Já sabia que não faria diferença em um cenário tão polarizado, mas não aceitava me render ao “voto útil”.

Apesar de fazer o que amo, o dia foi sombrio e senti que grande parte dos meus colegas de trabalho compartilhava essa impressão. E, ao final, foi ainda mais desconcertante, não só por enxergar um beco sem saída para o meu país, mas por ver nas redes sociais a reação à confirmação de um segundo turno.

Os ataques ao povo nordestino me enojaram, como me enoja e revolta a batalha desonrosa que usa a troca de insultos e de ameaças para tentar eleger seu candidato, cada um em defesa de seus interesses particulares e nunca pelo bem coletivo.

A campanha de 2018 me revelou muita coisa, além da triste constatação da cultura de ódio tão próxima. Como a deprimente prática de militantes dos dois extremos imputarem a si uma superioridade que não têm, mas ao fazer campanha se concentrarem em desconstruir o outro candidato ao invés de focar em valorizar as propostas do seu. É irônico e o que mais se vê nas ruas e no ambiente virtual.

Tão irônico quanto o fato de os eleitores mais extremistas de Bolsonaro serem, na realidade, crias rebeldes do PT. Porque a campanha do capitão não teria tomado tamanha proporção se não fosse a ingerência do PT e a institucionalização da corrupção pelo partido fundado sobre ideais democráticos e que, caso vença o segundo turno, não deixará o Brasil em situação mais confortável que a proposta pelo adversário. Em qualquer um dos dois cenários, nós, brasileiros, sairemos perdendo. E, mesmo quem hoje não enxerga, logo perceberá que falhamos, mais uma vez.

Não tenho hábito de postar sobre política na minha rede social, mas é um desabafo de uma pessoa que não sabe o que nos espera ali na frente, como mulher, jornalista, esposa e mãe de cidadãos pretos e nordestinos e amiga de cidadãos gays e lésbicas, mas também como uma cidadã que não quer mais ver o Brasil afundado em corrupção.

 

(*) Jornalista, editora do Folha 1

 

Publicado hoje (09) na Folha da Manhã

 

Igor Franco — Terremoto nas urnas

 

(Foto: Reuters)

 

 

O Brasil acordou diferente na última segunda. Com a taxa de renovação na casa dos 52% na Câmara e de 85% no Senado, teremos o Congresso com mais caras novas desde a redemocratização. Com uma performance avassaladora, o PSL, partido de Bolsonaro, elegeu 52 deputados e passou de um dos menores partidos da Câmara para o segundo maior partido na Casa do Povo. A surpresa passou pela rejeição de candidatos coroados pelas reiteradas pesquisas. Dilma, Suplicy, Romero Jucá, Roberto Requião, Eunício Oliveira, César Maia, entre outros, foram apenas alguns dos figurões que estavam eleitos pelos institutos de pesquisa. Estes últimos também foram incapazes de perceber a ascensão fulminante de Wilson Witzel no Rio de Janeiro, que terminou a eleição próximo da maioria dos votos válidos. Analisada de modo amplo reflete uma rejeição massiva dos políticos tradicionais que foram incapazes de construir alternativas concretas aos problemas dos eleitores.

Após uma década de baixo crescimento, a tímida recuperação da mais brutal crise econômica deu origem a uma geração de desalentados após um longo período de melhoria contínua nas condições de vida. O crescimento galopante de assassinatos e a sensação implacável de insegurança sentida pela maioria da população coabitam com a contínua percepção de assalto sistemático aos cofres públicos. Em resumo, a população brasileira era convidada a permanecer sentada num espetáculo cujo teatro pegava fogo enquanto os extintores eram roubados pelos organizadores.

Talvez esse sentimento explique a baixa eficácia da campanha negativa realizada contra candidatos como Bolsonaro (“homofóbico, machista, misógino, apoiador da tortura” etc) e a alta eficácia das fake news, cujo conteúdo normalmente confirma crenças anteriores a respeito de algum tipo de trama de poderosos ou de acordos de bastidores que prejudicam o eleitor.

Bolsonaro é, hoje, a maior placa tectônica a mover o sistema político e a votação expressiva que obteve em todo território nacional comprova sua força pessoal enquanto encarnação do sentimento antipetista que habitava a contragosto no PSDB. É provável que Bolsonaro saia das urnas, inclusive, superior ao antipetismo, tomando o protagonismo de Lula como maior força política nacional. Porém, há alguns resultados eleitorais que não podem ser explicados apenas pela força de Bolsonaro e que ocorreram *apesar* da sua força. A não-eleição de Magno Malta, fiel escudeiro do capitão, por exemplo, indica que há algo para além da rejeição do presidiário e seus asseclas.

Desde ontem, muito se fala da “Onda Conservadora” ou de uma “Onda Bolsonaro”. De fato, os resultados das urnas foram absolutamente avassaladores e, considerando as eleições legislativas, não previstos em qualquer pesquisa. Entender o movimento que culminou nos votos de ontem como uma onda talvez seja inadequado. Prefiro classificar o que aconteceu no primeiro turno das eleições de 2018 como um terremoto. O terremoto, cuja face mais visível é a desorganização, esconde uma brutal reorganização subterrânea, em que uma nova acomodação dará origem à configuração da superfície por um certo período de tempo.

Um observador mais ousado poderia dizer que Bolsonaro deixou de ser um candidato. Bolsonaro passou a ser uma ideia, um sentimento. E será difícil encerrar essa ideia antes do dia 27.

 

Arthur Soffiati — Primeiro tempo

 

(Robert De Niro)

 

 

Por Arthur Soffiati(*)

 

Desde a eleição indireta de Tancredo Neves, em 1985, nunca houve tanta polarização e radicalização numa eleição presidencial. Nem mesmo o neoliberal Fernando Collor de Melo provocou tanta discórdia. Nesses 23 anos, o regular foi uma posição de centro-direita enfrentar uma de centro-esquerda. Na década de 1990, a centro-direita predominou com Fernando Henrique Cardoso. A partir de 2003, a centro-esquerda com Lula e Dilma governou o Brasil até o impeachment desta última em 2016. Mesmo assim, os dois presidentes do PT buscaram a paz com as classes dominantes, seja com a “Carta ao Povo Brasileiro”, seja com os vice-presidentes José de Alencar e Michel Temer, numa política de alianças com partidos moderados.

Agora, os dois candidatos a disputarem o segundo turno radicalizaram suas posições. No impedimento de Lula, Haddad escolheu Manuela D’Ávila, do PCdoB como vice, e Jair Bolsonaro recorreu ao general Hamilton Mourão. Pelo menos nos discursos iniciais da chapa de direita, a defesa de um programa simples agradou muitos eleitores: combate implacável à corrupção, direito da sociedade se armar contra a violência, privatizações, enxugamento de ministérios, militarização da educação. Já a chapa de esquerda não conseguiu crescer como se esperava. Lula seria o candidato ideal para vencer Bolsonaro, mas impedido ele escolheu Fernando Haddad como seu representante. Houve hesitações. Não é bom um partido forte contar com uma só pessoa carismática. Lula está preso, mas imaginemos que ele estivesse impossibilitado de concorrer por doença. Haddad não também não o substituiria à altura. Houve hesitações em lançar o sucessor de Lula, e este dificultou o surgimento de novas lideranças.

E os eleitores? Os que votam na direita e na esquerda parecem convictos. Eles não mudam de posição. Daí também as taxas de rejeição serem altas de ambas as partes. O crescimento delas parece se alimentar de votos de outros candidatos e dos indecisos. Em ambos os lados, o medo de que um dos lados vença leva ao voto útil, atitude que deve ser relativizada. O voto útil tanto pode ser na direita quanto na esquerda.

E os eleitores? Ouvi de um que aquele que votar em Haddad ou é corrupto ou cúmplice da corrupção. De nada resolvem discursos elaborados demais para convencer o eleitor. A maioria se mostra sensível a argumentos simples. O cérebro humano reduz e simplifica complexidades.

Por fim, Inglaterra e França não poderiam imaginar que as rigorosas condições impostas à Alemanha no final da Primeira Guerra Mundial levariam à ascensão de Hitler. Os governos do PT também não imaginavam que criariam espaço para um discurso radical de direita ao permitirem o crescimento da corrupção, como escreveu o sociólogo petista ontem, e da violência urbana. Mesmo que a realidade seja mais complexa do que se mostra, o PT concorreu para a radicalização política. Na ficção, Dr. Frankenstein era um médico ético, mas, num momento de fraqueza, criou um monstro. Entre nós, o monstro gerou uma filha num momento de fraqueza.

 

(*) Historiador ambiental e colaborador da Folha

 

Publicado hoje (08) na Folha da Manhã

 

Artigo depois do primeiro turno — No fotochart e na foto grande

 

 

Prevaleceram as pesquisas. Como adiantou (aqui) a coluna Ponto Final de ontem, a definição do segundo turno presidencial foi no fotochart. O recurso fotográfico é usado para definir o vencedor de uma corrida quando os atletas cruzam quase ao mesmo tempo a linha de chegada. Mas, nas raias ao Palácio do Planalto, Jair Bolsonaro (PSL) chegou com a mesma diferença sobre Fernando Haddad (PT) que o velocista Usain Bolt costumava impor aos adversários. O fotochart só foi usado para definir o segundo turno. Com imensa desvantagem ao petista, sua largada foi dada desde a noite de ontem à chegada daqui a três domingos.

A força eleitoral demonstrada por Bolsonaro não foi suficiente para elegê-lo no primeiro turno. Mas serviu para fazer os votos dos brasileiros arderem sobre o lombo da esquerda, numa coça humilhante em quase todo o país. No Estado do Rio, após receber o apoio da família Bolsonaro, o candidato a governador e ex-juiz federal Wilson Witzel (PTC) surpreendeu com um dos crescimentos mais meteóricos na história da política fluminense.

Quando exibiu o 17 escrito na mão e pediu voto a presidente para Bolsonaro, ao final do debate do SBT de 19 de setembro, Witzel tinha apenas 1% de intenção de votos na pesquisa Datafolha mais recente. Exatos 16 dias após aquele debate, o candidato teve 17% dos votos válidos na última Datafolha antes do pleito. À sua véspera, o ex-magistrado apareceu empatado com Romário Faria (Podemos) na segunda posição, após ultrapassar Tarcísio Motta (Psol) e Indio da Costa (PSD). O avanço foi tão rápido que nem deu tempo à pesquisa para simular o segundo turno entre Witzel e o líder Eduardo Paes (DEM).

Encerrada a apuração do primeiro turno, menos de 24h depois, o avanço real do ex-juiz superou qualquer simulação. Ele teve impressionantes 41,28% dos votos do urnas do Estado do Rio. Eduardo Paes até foi ao segundo turno, mas com apenas 19,56% do eleitorado. Quase engolido pelo tsunami bolsonarista sobre o qual surfou Witzel, o ex-prefeito do Rio tinha uma eleição a governador aparentemente garantida em todas as pesquisas.

A explicação? Simples: mesmo cortejado pelo PT nacional, Paes escolheu a neutralidade presidencial. Candidato de Witzel, Jair Bolsonaro teve 59,79% do eleitorado fluminense. Com 15,22%, Ciro Gomes (PDT) ficou em segundo, à frente Haddad, que teve 14,70%. Somados, os dois presidenciáveis de esquerda tiveram a metade da votação do capitão no Estado do Rio. O mesmo que elegeu com folga seu filho Flávio Bolsonaro (PSL) como senador. À Câmara Alta, ele teve quase a soma de votos dos dois primeiros colocados a governador.

As consequências da força de Bolsonaro junto ao eleitor fluminense foram várias. Inclusive em Campos. Como o blogueiro Christiano Abreu Barbosa explicou ontem (aqui) em seu Ponto de Vista, hospedado no Folha 1: “A estupenda votação de Bolsonaro no Estado do Rio, puxou todos os candidatos do seu partido (…) conquistando 12 cadeiras para a Câmara de Deputados em Brasília. O 12º do PSL conquistou a vaga com 31.788 votos (…) A coligação de Marcão Gomes, PR e Podemos, tinha potencial para três a quatro deputados. Com a onda PSL, fez apenas dois, deixando de fora Marcão, com quase 41 mil votos”.

Ainda no Estado do Rio, o senador Lindbergh Faria (PT) foi varrido pelo voto conservador. E ganhou a companhia de outros fortes candidatos ao Senado do seu partido, como Eduardo Suplicy em São Paulo e a ex-presidente Dilma Rousseff, em Minas Gerais. Governador daquele Estado, o também petista Fernando Pimentel perdeu a reeleição ainda no primeiro turno, atropelado pelo candidato Romeu Zema (Novo), com apoio do PSL. No particular de Dilma, como lembrou ontem o jornalista Merval Pereira, ficou a irônica justiça dela ter sofrido pelo voto a punição que a Justiça sonegou em seu impeachment.

Apesar dos estragos causados à esquerda em todo o país, a imposição do segundo turno presidencial a Bolsonaro, contra Haddad, deveria servir de reflexão. À direita, pelos facínoras que ontem filmaram o voto ao capitão sendo teclado pelo cano das armas na urna, ou latiram nas redes sociais contra o Nordeste do país. À esquerda, pelo grito de “basta!” do voto popular contra quem se arrogava imune à autocrítica, em nome de uma fidelidade canina a Lula.

Salvo o imponderável, como a facada em Juiz de Fora, a vantagem para o dia 28 é toda de Bolsonaro. Sobretudo se os eleitores de Haddad propuserem insistir as próximas três semanas no diapasão “barbárie x civilização”. Além da simpatia dos já convertidos, deve surtir o mesmo efeito prático da mobilização das mulheres no “#EleNão” de 29 de setembro, responsável pelo avanço do capitão sobre o voto feminino. Mais do mesmo que transformou um deputado federal do baixo clero no pivô da separação entre a esquerda e a urna.

Se Haddad conseguiu chegar no fotochart ao segundo turno, deve à votação do Estado Bahia. E ao trabalho do seu ex-governador Jaques Wagner, eleito ontem senador. Ele foi um dos poucos que ousou questionar Lula pela aliança do PT com Ciro.

 

Publicado hoje (08) na Folha da Manhã

 

Subida de Witzel e queda de Romário: Garotinho é o Mick Jagger da eleição

 

 

 

Como o jornalista Arnaldo Neto noticiou aqui, a pesquisa boca de urna do Ibope nos votos válidos a governador do Rio registrou: Wilson Witzel (PSC), 39%; Eduardo Paes (DEM), 21%; Tarcísio Mota (Psol), 15%; e Romário Faria (Pode), 9%. A força do presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) no apoio a Witzel já tinha sido antecipada aqui no Ponto Final de hoje. Mas a queda brusca de Romário após o apoio de Anthony Garotinho (PRP) confirma: o político da Lapa é o Mick Jagger desta eleição.

Garotinho já tinha ganho fama de pé frio após apoiar Geraldo Alckmin (PSDB) no segunto turno presidencial de 2006, quando o tucano não só perdeu para Lula (PT), como conseguiu ter menos votos que no primeiro. Na eleição a governador de 2014, quando não conseguiu ir ao segundo turno, Garotinho apoiou nele Marcelo Crivella (PRB). E o sobrinho de Edir Macedo acabou perdendo para Luiz Fernando Pezão (MDB).

 

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