Opiniões

Democracia com megafone — Da Grécia de Aristóteles ao Brasil de Bolsonaro

 

(Foto: Marcos Corrêa – Presidência)

 

 

Democracia com megafone

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Aristóteles de Estagira

“Um orador sem megafone”. Para o filósofo Aristóteles, este era o limite da democracia. Fundado na Atenas do séc. VI a.C., o “governo do povo” (demos, povo + kratos, poder) era direto. Na ágora, espaço público aberto a todo cidadão, cada um deles tinha direito a voz e voto em qualquer decisão pública. E, a partir dela, todos poderiam se revezar entre as funções de governante, legislador, magistrado e comandante militar. Construído para gerir cidades-estado, não países, teve em seu auge entre 30 e 60 mil cidadãos. Daí seu limite oral traçado por Aristóteles — “cuja cabeça sustenta ainda hoje o Ocidente”, como cantou o Caetano.

Getúlio Vargas lançou as bases da industrialização do Brasil

A democracia representativa, como a conhecemos, é uma invenção iluminista do séc. XVIII. Não por acaso, nos servem até hoje de modelo as repúblicas formadas nas duas mais famosas revoluções do Iluminismo: a Americana de 1776, na independência dos EUA, e a Francesa de 1789. A ambas, na economia, se sobrepôs outra, anterior: a Revolução Liberal da Inglaterra entre 1640 e 1688. Ela seria consolidada pela Revolução Industrial iniciada também naquele país em 1760 e expandida a parte do mundo no século seguinte — que, no Brasil, só chegaria nos anos 1940, com a fundação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) por Getúlio Vargas.

Obra de Montesquieu lançou as bases do estado moderno

Em termos do estado moderno, prevaleceu o desenho tripartite do filósofo Montesquieu em seu “Do Espírito das Leis”, publicado em 1748, com a divisão entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Olhando ao que veio de seis séculos antes Cristo até nossos dias, os antigos gregos não chamariam nosso sistema de governo de democracia. A sua era direta, sem representantes. Vissem o Brasil de hoje, por exemplo, com seus governantes e legisladores eleitos de quatro em quatro anos, seus magistrados aprovados em concurso público, de segunda e terceira instâncias nomeadas pelo Executivo, classificariam nosso regime como oligarquia (“governo de poucos”).

Não é preciso se rebaixar ao “complexo de vira-latas” do presidente Jair Bolsonaro (PSL), batendo continência à bandeira dos EUA, para se constatar que aquele país é a referência mais sólida da democracia representativa. É o único no mundo que, desde o séc. XVIII, elege presidente e Congresso de quatro em quatro anos. Nem o fato de terem disputado uma fraticida Guerra Civil (1861/65) e sido protagonistas de duas Guerras Mundiais (1914/18 e 1939/45), afetaram seu compromisso entre eleitor e urna. De fato, lá até juízes, promotores e xerifes (equivalentes aos nossos comandantes de guarda municipal) são escolhidos pelo voto popular.

Sem a mesma solidez institucional, o Brasil padece com um governo federal que parece perigosamente próximo ao fim, antes mesmo de ter de fato começado. Há menos de cinco meses no poder, Bolsonaro foi eleito por um fenômeno que deu sua primeira demonstração no mundo com a Primavera Árabe de 2011. Tsunami sobre os países islâmicos do Oriente Médio, Norte da África e parte da Ásia, aquele foi o primeiro movimento de massas da humanidade que não nasceu em nenhum partido político, sindicato, quartel militar, revelação religiosa, ou catástrofe natural, mas através das redes sociais.

 

Primavera Árabe de 2011 no Egito

 

No Brasil, o fenômeno demorou menos a chegar que a Revolução Industrial. Em 2013, mobilizadas pelas redes sociais, as Jornadas de Junho balançaram o governo Dilma Rousseff. E deram fim ao monopólio de 21 anos que o PT exercia nas manifestações de rua do país, com suas filiais UNE, CUT e MST, desde que os “caras-pintadas” liderados pelo hoje petista Lindbergh Farias levaram em 1992 ao impeachment do ex-presidente Fernando Collor — ironicamente, depois companheiro de Lindbergh no Senado.

 

Jornadas de Junho de 2013 em Brasília

 

Nascida de uma pauta tão difusa quanto a Primavera Árabe, as Jornadas de Junho trouxeram às ruas as primeiras camisas amarelas da seleção de futebol, que dominariam os protestos no país de 2015 e 2016. A motivação se afunilara pela deposição de Dilma, que conduziu o país à maior recessão econômica da sua história. O Congresso Nacional se aliou aos protestos para “estancar a sangria” da Lava Jato, como o ex-senador Romero Jucá (MDB) foi flagrado em gravação, enquanto era um dos principais articuladores do impeachment da presidente.

 

Movimentação na av. paulista das 9h às 19h de 13 de março de 2016, no protesto pelo impeachment de Dilma

 

Em que pesem todas as denúncias de corrupção contra Michel Temer (MDB), que já lhe geraram duas prisões, o vice eleito por quem votou no PT em 2010 e 2014 assumiu a presidência e conseguiu entregar um país em situação econômica menos pior do que pegou. Não conseguiu fazer a reforma da Previdência por conta de outra gravação, feita pelo empresário Joesley Batista, que fez sua fortuna nos governos petistas e cujo advogado seria flagrado num bar de Brasília com o então procurador-geral da República, Rodrigo Janot.

 

Então procurador-geral da República, Rodrigo Janot escondido atrás de grades de cerveja em um bar de Brasília, com Pierpaolo Botitni, advogado de Joesley

 

Em outro áudio de conversa com Joesley, Aécio Neves foi flagrado pedindo dinheiro e falando em mandar matar como bandido reles. Após quase vencer a eleição presidencial de 2016, arrastou consigo um PSDB que já não vinha bem das pernas e, como o PT, não soube cortar na própria carne. Com Lula preso pela Lava Jato e impedido de concorrer em 2018, o fenômeno Bolsonaro foi o tsunami que varreu as urnas, com congêneres ainda mais surpreendentes, como Wilson Witzel (PSC) no Rio e Romeu Zema (Novo), nas Minas de Aécio. E todos foram eleitos a partir do discurso antiestablishment ecoado nas redes sociais.

 

Em áudio com Joesley, frase de Aécio que o nivelou a um bandido qualquer

 

Rodrigo Maia lidera o Congresso e, no vácuo do governo, as reformas do país

O Congresso, que julgou poder usar o governo Temer como teflon às investigações de corrupção, foi também solapado pelo voto. O Senado teve renovação de 85,19%, enquanto a Câmara Federal, de 52,54%. Ainda assim, diante da fraqueza de um presidente eleito com discurso de autoridade, mas que não consegue mandar nem nos próprios filhos, tem imposto sucessivas derrotas ao novo governo. E, de quebra, enfraquecido a Lava Jato, cujo principal símbolo, o ex-juiz federal Sérgio Moro, se deixou reduzir a “funcionário de Bolsonaro” — como o presidente da Câmara Rodrigo Maia (DEM) se referiu ao ministro da Justiça. Isso, antes de lhe desarmar do Coaf e mirar no decreto presidencial de flexibilização do porte de arma.

Sem articulação política, enfraquecida após o ministro da Casa Civil Gustavo Bebianno (PSL) ser exonerado por um simples vereador carioca, mas investido do poder imperial de filho do “rei”, tudo indica que Bolsonaro ainda sangrará bastante com as investigações do Ministério Público sobre outro rebento. Não há olhar desapaixonado sobre o senador Flávio (PSL) incapaz de ver os fortes indícios de lavagem de dinheiro, fraude fiscal, “rachadinha”, ou da relação intestina da sua família com as milícias fluminenses.

 

Laedeados por Fabrício Queiroz, Jair e Flávio Bolsonaro

 

É sobre um presidente acuado que o Congresso avança abertamente: tomará para si a reforma da Previdência e projeta fazer na sequência a reforma tributária, no que já está sendo chamado de implantação do “parlamentarismo branco” no Brasil. Em reação, os defensores do governo, em número menor a cada nova pesquisa, planejam manifestações para o próximo dia 26. Nas redes sociais, muitos já pregam a invasão do Congresso e do Supremo Tribunal Federal (STF). Inadmissível no estado democrático de direito, seria perigoso à sobrevivência de qualquer ditador cujos filhos e astrólogo atacassem diariamente a cúpula militar do governo.

 

 

As redes sociais parecem ter dado ao mundo o “megafone” aristotélico. A partir do seu eco, os limites da democracia representativa foram extrapolados numa nova ágora virtual, em que cada cidadão quer ter sua voz ouvida em tempo real, não mais só de quatro em quatro anos. No Brasil e no mundo, a direita teve a virtude de ter entendido antes o que o filósofo Umberto Eco chamou de “voz aos idiotas”. Afinal, se o jornalista William Bonner disse em passado recente que apresentava o Jornal Nacional ao Homer Simpson, com as redes sociais todo Homer Simpson passou a se achar um William Bonner.

 

Homer em episódio de “Os SImpsons” no Brasil

 

Ao colocar em xeque a democracia representativa, mas cujo resultado final ninguém ainda conhece, esse novo jogo mundial fez de Bolsonaro presidente. E foi nele que teve sua primeira derrota, nos protestos do dia 15 contra os cortes do governo na educação pública, que tomaram as ruas de todo o país. As hashtags #tsunamidaeducação e #TodosPelaEducação registraram mais de 400 mil compartilhamentos no Twitter. Já a hashtag oposta #BolsonaroTemRazão teve só 37 mil compartilhamentos.

 

Protesto contra cortes na educação no Boulevard de Campos e nas ruas de outras 200 cidades do Brasil (Foto: Isaias Fernandes – Folha da Manhã)

 

Chamar os manifestantes pela educação de “idiotas” e “imbecis” não altera a soma. Mas pode influenciar na subtração.

 

Publicado hoje (19) na Folha da Manhã

 

Protestos pela educação: na cidade famosa pelo tiro em Kennedy, Bolsonaro dá tiro no pé

 

Na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, o protesto contra os cortes da Educação pelo governo Bolsonaro (Foto: Dida Sampaio – Estadão Conteúdo)

 

“Idiotas úteis, uns imbecis que estão sendo usados como massa de manobra”. Em Dallas, no Texas, foi assim que o presidente Jair Bolsonaro se referiu aos milhares de brasileiros que saíram hoje às ruas de cerca de 150 cidades — incluindo Campos (aqui) — de todos os estados do país, para protestar contra os cortes federais de 28,84% nas verbas não obrigatórias da educação.

 

Do Planalto Central à planície goitacá, a manifestação contra cortes na educação pública no Boulevard (Foto: Isaias Fernandes – Folha da Manhã)

 

Bolsonaro alegou que os manifestantes não saberiam a fórmula da água ou multiplicar 7 x 8. E demonstrou desconhecer o inc. XVI do Art. 5 da Constituição: “todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente”.

 

No exercício do seu direito de protesto, manifestantes fecharam a Alberto Lamego, em frente à Uenf, e impediram o direito de ir e vir (Foto: Divulgação)
 

Bem verdade que atos como a queima de pneus, feita pela manhã em frente à Uenf, fechando a avenida Alberto Lamego, afetou diretamente quem não tem nada a ver com a história. E tem que ter seu direito de ir e vir respeitado, tanto quanto o direito de protestar. Em Brasília, ato semelhante gerou ação das forças de segurança para liberar vias públicas. Mas, até o momento, felizmente não foram registrados enfrentamentos.

Quando classifica seus críticos como “idiotas úteis” ou “imbecis usados como massa manobra”, Bolsonaro endossa quem usa os mesmos termos ofensivos para classificar os milhões de brasileiros que apoiam seu governo — em número menor a cada nova pesquisa. Como definiu a deputada do PSL e autora do pedido de impeachment de Dilma, Janaína Paschoal, é uma reedição de “sinal trocado” do “nós contra eles” proposto em passado recente pelo PT. E nada indica que terá fim diferente.

 

Bolsonaro hoje em Dallas, cidade texana que foi palco do assassinato de John Kennedy
 
Na cidade texana famosa por ter sido o palco do tiro disparado contra a cabeça do presidente dos EUA John Kennedy, seu colega brasileiro pode ter dado mais um tiro no pé.

 

Mídia nacional e sob análise: vaquinha para juiz de Campos pagar Gilmar Mendes

 

 

Charge do José Renato publicada hoje (08) na Folha

 

 

Vaquinha para Glaucenir

Para exemplificar a mudança de paradigmas no país, é comum lembrar que hoje o brasileiro não sabe mais a escalação da seleção masculina de futebol. Mas conhece de cor os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Para a torcida que cobra reforço no ataque à corrupção, o ministro Gilmar Mendes é o “craque” do time adversário. Sobe ele, a resenha da segunda (06) se deu nos R$ 27 mil que ganhou (aqui) no Tribunal de Justiça do Estado do Rio (TJ-RJ), por danos morais, do juiz Glaucenir Oliveira. Na terça (07), a reação virou notícia nacional (aqui) no site O Antagonista: magistrados fizeram uma “vaquinha” para ajudar o colega de Campos a pagar.

 

Origem do caso

Para quem não se lembra da origem do caso, era 20 de dezembro de 2017 e Anthony Garotinho (hoje, sem partido) estava preso há 28 dias por decisão de Glaucenir. Foi por conta da operação Caixa d’Água, que investigava a cobrança de propina pelo ex-governador a empreiteiros na gestão Rosinha (hoje, Patri) em Campos. O habeas corpus de Garotinho foi concedido monocraticamente por Gilmar pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), no dia seguinte ao plenário ter encerrado a pauta daquele ano. Em grupo de WhatsApp, o juiz de Campos declarou em áudio vazado: “segundo os comentários que eu ouvi (…) a mala foi grande”.

 

Deus e Gilmar

Na ocasião da soltura de Garotinho, Zuenir Ventura escreveu (aqui) em O Globo: “Na saída da cadeia, o ex-governador Garotinho e simpatizantes oraram agradecendo ao Senhor a liberdade sem tornozeleira. Clarissa, a filha, louvou: ‘Deus é fiel’. Deveria estender o gesto de gratidão e acrescentar: ‘Gilmar também’. Afinal, além de fiel, ele é monocrático — aquele que prefere decidir sozinho. Como o Senhor”. Mais sutil, mas não menos contundente que o juiz de Campos, o jornalista de O Globo não foi processado. Sobre a vaquinha dos colegas para ajudar o magistrado goitacá a pagar danos morais a Gilmar, a coluna ouviu alguns juristas da cidade.

 

Solidariedade

Alguns, como o advogado Andral Tavares Filho, ex-presidente da OAB-Campos foram breves ao analisar a vaquinha: “Um relevante sinal de apoio de seus pares”. Atual presidente da OAB na comarca, Cristiano Miller foi na mesma linha: “Sem entrar no mérito do julgamento, penso que a vaquinha é uma forma de tentar demonstrar a união dos juízes em relação à condenação imposta ao magistrado campista”. Promotor de Justiça, Victor Queiroz também disse algo parecido: “A se confirmar a vaquinha, parece cuidar-se de um ato simbólico e respeitoso de solidariedade. Sem ofensa a ninguém”.

 

Leitura política

Outro ex-presidente da OAB-Campos, o advogado Geraldo Machado ofereceu contraditório: “A vaquinha me sugere um confronto, algo de tom corporativo, que mais contribui para o crescente desprestígio do Judiciário. É indisfarçável ato de insurreição que deveria se ouvir em muita coisa mais que sucede, como no ‘contingenciamento’ de verbas das universidades”. O advogado criminal Felipe Drumond também analisou o ato politicamente: “além de se tratar de um gesto de solidariedade dos magistrados ao colega Glaucenir, o ato traz, em si, uma forte manifestação política de indignação e de repulsa à condenação indenizatória”.

 

Leitura constitucional

Advogada constitucionalista, Helen Carneiro analisou: “Podemos vislumbrar pelo menos dois direitos constitucionais potencialmente lesados: o da privacidade, em especial o direito à inviolabilidade do sigilo nas comunicações telefônicas, além da livre manifestação de pensamento”. Na mesma linha, foi o advogado Robson Maciel Júnior: “Os desembargadores discutiram a questão da privacidade da mensagem em grupo de WhatsApp tornada pública. A adesão de magistrados para ajudar a pagar a indenização demonstra que, para alguns, realmente se tratava de mensagem de cunho privado”.

 

Censura e adesão

Advogado do Grupo Folha, João Paulo Granja fez menção a polêmicas recentes: “Em tempos em que o fantasma da censura parece assombrar os corredores do STF, louvável a iniciativa dos magistrados”. Também advogado, Rafael Crespo lembrou o ineditismo do apoio a Glaucenir: “Nos últimos tempos, tomei conhecimento de vaquinhas para figuras proeminentes da política, mas confesso que nunca assisti à iniciativa semelhante a um membro da magistratura”. Promotor, Marcelo Lessa abriu a adesão para além dos juízes: “Pretendo procurar o pessoal e oferecer alguma contribuição. O Glaucenir tem enorme valor, um juiz essencial para Campos”.

 

Publicado hoje (08) na Folha da Manhã

 

Vaquinha de juízes para pagar indenização de Glaucenir a Gilmar Mendes

 

Juiz de Campos Glaucenir Oliveira

 

O Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro condenou (aqui) o juiz Glaucenir de Oliveira a pagar 27 mil reais de indenização por dano moral a Gilmar Mendes.

Glaucenir acusou Gilmar de corrupção por ter concedido habeas corpus a Anthony Garotinho.

Magistrados organizaram uma vaquinha para ajudar Glaucenir a pagar a indenização.

A adesão é grande.

 

Publicado aqui em O Antagonista

Arlete estreia no teatro com Clarice, enquanto Machado e Rosa não vêm

 

Na pele de Rosângela Queiros, a Macabéa de Clarice Lispector transposta ao teatro por Arlete Sendra (Foto: Jean Barreto)

 

 

Antes de assistir “Eu fui Macabéa”, na noite de hoje, no Teatro de Bolso, a autora da peça, professora Arlete Sendra, me pediu que escrevesse após minhas impressões. Tenho profundo respeito por ela como literata de primeira grandeza no plaino goitacá. E foi a partir dessa base sólida que testemunhei sua estreia como dramaturga.

A peça de hoje faz parte de uma trilogia de personagens femininas de peso na literatura brasileira, transpostas ao teatro por Arlete. Macabéa é a protagonisa de “A Hora da Estrela”, último romance de Clarice Lispector. As outras duas são a Capitu, de “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, e a Diadorim de “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa.

Órfão de pai e mãe ainda pequena, Macabéa é uma alagoana que sai do sertão à capital Maceió. Ela é criada por uma tia rígida com fartura de cocurutos na cabeça e privação do seu único objeto de desejo: goiabada com queijo. Após se mudar ao Rio, faz curso de datilografia e arruma emprego como secretária em um escritório.

Ciosa da sua virgindade, ela tem uma único relação amorosa, com o metalúrgico Olímpico. Também retirante do Nordeste, de onde saiu após matar um homem, ele sonha em ser deputado no romance de Clarice. Na peça de Arlete, o sonho fica oportunamente mais ambicioso: o metalúrgico almeja ser presidente. A identificação óbvia com Lula é um dos momentos que arrancam risos da plateia.

Magra pela vida de privações e pouco dotada de atributos físicos, Macabéa acaba perdendo o namorado para a carioca Glória. Loura oxigenada de formas generosas, ela “incha” o púbis de Olímpico à primeira vista — em outro momento que o público responde com risos.

Se a vida de Macabéa já era prenhe de agruras e desencantos, ela ganha contorno mais dramático com o diagnóstico de tuberculose — doença que, por ingenuidade, não dá a dimensão devida. Com consciência pesada por ter lhe roubado o namorado, Glória convida a nordestina para um lanche, na qual ela come tanto que passa mal. Mas não vomita por considerar desperdício de comida um “luxo de rico”.

É também Glória quem paga e recomenda uma consulta de Macabéa a uma cartomante: Madama Carlota. Como no verso de um fado, ela incute na sofrida nordestina a “saudade do futuro”, onde lhe esperaria o amor verdadeiro com um estrangeiro louro e rico chamado Hanz. Mas, na verdade, acaba por aproximá-la do desfecho trágico e solitário.

Como no romance de Clarice, o Nordeste da peça não foge do lugar comum. Mas a grande virtude das duas obras é humanizar Macabéa em seus conflitos internos e com o mundo que a cerca: do sertão, a Maceió, ao Rio. E como no romance “O Leitor”, de Bernhard Schlink, transformado pelo diretor Stephen Daldry no belo filme homônimo, o aprendizado da palavra escrita é fundamental nesse processo de humanização.

A ideia de partir de obras prévias não diminui o trabalho de Arlete. Desde o séc. XVI, Shakespeare era conhecido por escrever suas peças em cima de histórias já existentes. Assim como Sófocles, Ésquilo e Eurípedes fundamentaram o teatro na história e mitologia gregas das obras de Homero e Hesíodo. É pela dramaturga campista, não pela romancista ucraniana e naturalizada brasileira, que a chuva do encontro de Macabéa com Olímpico é comparada ao “esperma que fecunda a terra”.

Com justiça mais conhecido pelo talento na cenografia, do que por seu trabalho com atores, Fernando Rossi tem a virtude na direção de deixar a atriz Rosângela Queiroz à vontade para encarar o monólogo de Arlete. E a intérprete dá conta do recado com pungência. Que venham agora a Capitu de Katiana Rodrigues e a Diadorim de Adriana Medeiros.

 

Folha no Ar volta com Bruno, Fernando, Rafael, Cristina, Murillo e Uchoa

 

 

Encerrada ontem, a semana do Folha no Ar 1ª edição, na Folha FM 98,3, de 7 às 8h45 de segunda a sexta, a rodada foi produtiva e diversa.

Na última segunda (29), o deputado estadual Gil Vianna (PSL) refirmou (aqui) sua pré-candidatura a prefeito de Campos; na terça (30) o presidente do IMTT, Felipe Quintanilha, detalhou (aqui) o novo modelo do transporte público da cidade; na quarta (01), o veternao garçom do gabinete do prefeito, Seu Zé, contou (aqui) um pouco dos bastidores do poder nos últimos 30 anos; na quinta (02), a prefeita de Quissamã, Fátima Pacheco (Pode), lançou (aqui) sua candidatura à reeleição; e, na sexta (03), o jornalista Ricardo André Vasnconcelos analisou (aqui) as perspectivas ao pleito municipal de 2020 e deu dicas de melhor aproveitamento político na comunicação do governo Rafael Diniz (PPS).

 

Bruno Dauaire, Fernando da Silveira, Rafael Crespo Machado, Cristina Lima, Murillo Dieguez e Roberto Uchoa (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A próxima semana do Folha no Ar promete ser igulamente diversificada. Nesta segunda (06), o o deputado estadual Bruno Dauaire (PSC) será o entrevistado do programa. A semana segue na terça (07) com dois convidados, os advogados e professores Fernando da Silveira e Rafael Crespo Machado. Na quarta (08), será a vez da presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, Cristina Lima; com o empresário e colunista da Folha Murillo Dieguez na quinta (09); e o policial federal e especialista em segurança pública Roberto Uchoa na sexta (10).

O ouvinte que quiser participar diretamente com perguntas pode fazê-lo aqui, na página da Folha FM no Facebbok, com comentários nas lives do programa. Até lá.

 

Marcão e Rodrigo se digladiam por Rafael e Caio. Wladimir vê de camarote

 

 

Rodrigo, Marcão e Wladimir (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Marcão x Rodrigo

Primeiro com fotos e, mais recentemente, com textos incisivos, as redes sociais têm sido o melhor meio para se acompanhar as movimentações antecipadas da eleição a prefeito de Campos. Nesse tabuleiro há muitas peças. E cada uma tenta desempenhar suas funções. As do secretário municipal Marcão Gomes (PR) e do deputado estadual Rodrigo Bacellar (SD) parecem ser a proteção dos seus pré-candidatos ao governo de Campos em 2020 — respectivamente o prefeito Rafael Diniz (PPS) e o ex-candidato Caio Vianna (PDT). No exercício dessas funções, Marcão e Rodrigo têm se enfrentado publicamente nos últimos três dias.

 

Round 1

Tudo começou (aqui) nesta coluna, que na edição do feriado de 1º de maio reproduziu um apelo de Marcão. Candidato a deputado federal em 2018, quando foi o mais votado, mas não se elegeu, ele disse ter feito dobrada com os deputados estaduais eleitos João Peixoto (DC), Gil Vianna (PSL) e Rodrigo. O secretário afirmou que os três tiveram apoio do governo Rafael. Em nome disso, pregou a união por Campos e que se deixasse a discussão política para 2020. Rodrigo leu, não gostou e usou as redes sociais para negar a dobrada, afirmando ter caminhado sozinho em 2018. Aproveitou também para criticar Marcão e a administração municipal.

 

Round 2

Na edição de ontem (02) do Ponto Final, foram publicados (aqui) os questionamentos de Rodrigo. Assim como a réplica de Marcão, que nomeou o apoio governista ao deputado, acusando-o de ingrato. Como previsto na coluna, o filho do ex-vereador Marcos Bacellar (PDT) respondeu novamente nas redes sociais. Voltou à carga de maneira ainda mais dura sobre o governo Rafael: apostou contra a sua sorte em 2020 e denunciou “incompetentes em cargos estratégicos”. E ontem falou abertamente em “muitos governistas costeando o alambrado” — mesmo que dois dias antes tenha negado (aqui) a sondagem a vereadores da base para apoiar Caio.

 

Round 3

Por sua vez, Marcão também usou as redes sociais para novamente rebater. Além de repetir provocações, com a comparação da sua votação como deputado federal e de outros quatro candidatos a deputado estadual de Campos, todos com mais votos que Rodrigo, o secretário detalhou o apoio que o parlamentar teve do governo de Campos em 2018: “Na saúde todo pessoal do PAD, o chefe do transporte da saúde e suas lideranças, o pessoal que trabalha na farmácia e as lideranças, o chefe da hotelaria e limpeza da Fundação Municipal de Saúde e seus liderados, a chefia e trabalhadores das UBS de Correnteza e Parque Rodoviário”.

 

No camarote

Ao pormenorizar o apoio negado por Rodrigo, Marcão também pareceu expor como o governo foi fatiado na eleição para favorecer seus candidatos. Mas não disse como isso se deu, o que pode gerar a curiosidade do contribuinte e da fiscalização eleitoral. Coragem é virtude necessária ao homem público. Só que, quando desacompanhada da ponderação, pode ser defeito. Marcão e Rodrigo têm temperamentos parecidos. Ao se digladiarem publicamente na respectiva defesa de Rafael e Caio, foram também parecidos no resultado: deixaram o deputado federal Wladimir Garotinho (PSD) assistindo de camarote. E rindo de orelha a orelha.

 

Publicado hoje (05) na Folha da Manhã

 

Rodrigo bate, Marcão rebate, garotistas botam fogo e Rafael na periferia

 

 

Rodrigo, Marcão, Wladimir e Rafael (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Rodrigo x Marcão, ação e reação

Na edição do feriado do Dia do Trabalhador de quarta (1º), a coluna foi aberta (aqui) com um apelo do secretário de Desenvolvimento Humano e Social de Campos, Marcão Gomes (PR). Ele pediu que os deputados estaduais João Peixoto (DC), Gil Vianna (PSB) e Rodrigo Bacellar (SD) deixassem de lado os interesses eleitorais de 2020, para ajudar o prefeito Rafael Diniz (PPS) a administrar o município. O secretário alegou que os três parlamentares tiveram a ajuda do governo municipal em suas eleições, em 2018. Ontem, Rodrigo usou as redes sociais para negar sua ligação com o governo Rafael e criticar Marcão, que por sua vez reagiu.

 

Sozinho e procurado

Em sua página no Facebook, o deputado do SD se disse (aqui) “surpreendido” com a nota do Ponto Final sobre a proposta de Marcão. Negou que tenha feito dobrada em outubro com o então candidato governista a deputado federal. Pelo contrário, Rodrigo afirmou que “essa ‘ligação’ chegou a me queimar (…) tamanha a sua rejeição (de Marcão)” e que caminhou “sozinho (em 2018), sem o apoio de nenhuma máquina”. O parlamentar também disse não ter sentado com secretário municipal para tratar de 2020. Mas fez questão de registrar: “tenho sido procurado insistentemente por integrantes do governo para tal”.

 

Alvo preferencial

O filho do ex-vereador Marcos Bacellar (PDT) questionou também a gestão Rafael. Falou dos “graves desafios não resolvidos pelo governo do qual (Marcão) faz parte”. Mas personalizou suas críticas no ex-presidente do Legislativo goitacá: “Poderia pensar sobre a sua trágica passagem na Câmara, que deixou combalidos os cofres para a atual gestão. Deveria lembrar também que a Câmara chegou a ter ‘mais porteiros do que portas’ em período próximo ao pleito de 2018”. Como o texto de Rodrigo foi intitulado a “A urna pune”, Marcão ontem lembrou que, como candidato a deputado federal, teve mais votos que o deputado estadual.

 

Urnas e Câmara

“Se a urna pune, não foi a mim. Fui o candidato a deputado federal de Campos mais votado, com 40,9 mil votos. Rodrigo, no total, teve 26,1 mil a deputado estadual. No município, fiz mais de 20 mil votos, enquanto ele não passou dos 13,2 mil”, comparou Marcão. Ele também respondeu às críticas sobre sua passagem como presidente da Câmara Municipal: “Ao contrário do que ele (Rodrigo) diz, eu deixei quase R$ 1 milhão nas contas do Legislativo. No contrato de porteiros e vigilantes, reduzimos drasticamente os valores em relação a gestões anteriores”, disse ontem o antecessor do vereador Fred Machado (PPS).

 

Jura e cacife

Foi no apoio da gestão Rafael, com o qual Rodrigo nega ter contado em 2018, que Marcão retrucou com mais força: “Triste é se beneficiar do apoio do governo e depois negar, jurando de pé junto. Além do seu pai, (o hoje ex-vereador) Marcos Bacellar, ele teve também o do edil Jairinho É Show (PTC) e diversas outras lideranças da administração. Não é todo mundo que tem gratidão. Rodrigo não deve nada a mim, mas ao governo. Todo mundo que está na política sabe que ele foi ajudado. Mas pode ser mais cômodo negar e tentar mostrar um cacife que, na verdade, o deputado não tem”, alfinetou o secretário.

 

Garotistas botam fogo

Quem parece assistir de camarote à troca de farpas entre Rodrigo e Marcão é o grupo do deputado federal Wladimir Garotinho (PSD). Antes mesmo da reação de Bacellar no Facebook, que hoje pode voltar a se manifestar, ontem os garotistas republicaram em seus grupos de WhatsApp a nota de abertura do Ponto Final de quarta. Junto com a charge da Folha publicada na mesma edição, e tratando do mesmo assunto, o parlamentar do SD foi provocado nas redes sociais: “Ainda tem deputado estadual dizendo que não é da base do governo (…) Quem fica em cima do muro apanha dos dois lados”.

 

Rafael na periferia

Sem se meter diretamente na disputa antecipada da sua sucessão, Rafael Diniz aproveitou o feriado de 1º de maio para fazer o que fez melhor na sua eleição de 2016. E que, desde então, é cobrado para voltar a fazer. Ao lado do vereador Neném (PTB), ele visitou duas comunidades periféricas, sendo bem recebido no corpo a corpo. Foi em dois torneios de futebol promovidos pelo edil da base. O primeiro, no campo do Aventureiro, no Parque Guarus. Depois no campo do Boa Vista, na margem esquerda da Campos/Vitória. As cerca de quatro mil pessoas reunidas nos dois eventos receberam o prefeito de braços abertos.

 

Publicado hoje (03) na Folha da Manhã

 

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