Opiniões

Bienal do Livro merece defesa contra estupidez, mas também críticas

 

 

Defesa da Bienal

Na quinta a coluna foi (aqui) enfática na defesa da Bienal do Livro contra a campanha de ódio e intolerância que lhe foi lançada nas redes sociais. Ela foi perpetrada por alguns aloprados da direita local, tentando surfar a onda conservadora que elegeu Jair Bolsonaro (PSL) presidente, para saírem da obscuridade e se lançarem a vereador por Campos em 2020. Com ambições pessoais travestidas de cruzada moral, a intenção é semear ódio e medo para tentar tumultuar o evento cultural mais importante da cidade.

 

Contra livro a estudantes

A Bienal será realizada no campus Campos-Centro do Instituto Federal Fluminense (IFF), entre os dias 20 e 25. Ironicamente, um dos autores de vídeo contra a Bienal é também professor de pedagogia do próprio IFF. O obscurantismo da sua posição foi tamanho, que ele chegou a criticar o incentivo do governo municipal à leitura de alunos da rede pública, através de um vale-livro no valor de R$ 10,00. Segundo ele, o dinheiro poderia ser usado na construção de uma sala de repouso, na qual possivelmente dormita seu compromisso como educador.

 

Nem Hitler ou Mussolini

O outro autor de vídeo atacando a Bienal do Livro foi um jovem que diz liderar um grupo de direita em Campos. Estranhamente, a sigla do coletivo é composta das iniciais do nome do suposto líder. Ao que se saiba, Adolf Hitler nunca pensou em designar o Partido Nacional-Socialista como AH. Tampouco Benito Mussolini pensou em chamar o Partido Nacional Fascista de BM. Aparentemente, os dois ditadores tiveram mais humildade e senso de ridículo do que seu pastiche campista.

 

Posição do IFF

Sobre o professor do IFF, a coluna consultou o reitor da instituição, professor Jefferson Azevedo, sobre o vídeo. Ele disse: “Reafirmamos que a manifestação do servidor no vídeo não representa, em hipótese alguma, a opinião e o posicionamento da instituição com relação a esse relevante evento cultural, este ano em sua 10ª edição. Apesar de manifesta de maneira agressiva e com claro viés político-ideológico, nosso entendimento é de que as críticas são feitas por um cidadão no uso de sua liberdade de expressão em um ambiente social.”

 

Soldo rosáceo

Já sobre o líder do grupo de direita que batiza com as iniciais do seu nome, quem descobriu algumas coisas interessantes foi o jornalista Esdras Pereira. O jovem em questão não só quer ser candidato a vereador em 2020, como já foi em 2012, quando teve apenas 117 votos. E, como consta no site de prestação de contas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ele recebeu seis doações de campanha da ex-prefeita Rosinha Garotinho (atual Patri), no valor total de R$ 1.486,60. A mesma Rosinha que trocou com a petista Dilma Rousseff a ausência da filha Clarissa na votação do impeachment da então presidente pela venda do futuro de Campos.

 

Nelson censurado

Rosinha e Garotinho saíram do teatro à política. Após ter interpretado papeis ousados nos palcos de Campos, nas décadas de 70 e 80 do século passado, Rosinha ficaria marcada como prefeita por ter censurado no Trianon, em julho de 2013, a peça “Bonitinha, mas ordinária”, do mestre da dramaturgia brasileira Nelson Rodrigues. O motivo foi denunciado à época pelo Rodrigo Vahia, do grupo teatral carioca Oito de Paus: “meu grupo de teatro teve a peça CENSURADA em Campos (…) Simplesmente porque a peça de Nelson Rodrigues poderia ofender a prefeita Rosinha Garotinho, que é evangélica. Em pleno século XXI?”.

 

Crítica à Bienal

Em vez de servir a velhos senhores e tentar surfar a onda conservadora, críticas construtivas poderiam ser feitas à organização da 10ª Bienal. Realmente, muitas dos seus temas e debatedores atendem à agenda lacradora, recusada pelas urnas de outubro. Há muitos intelectuais de pensamento liberal que poderiam ser convidados para dar equilíbrio ao evento. Sem discordância não há debate, só monólogo. A unanimidade, como sentenciava o próprio Nelson, é burra. Em verso, o poeta Manoel de Barros advertia: “O mundo é sortido, Senhor”.

 

Publicado hoje (17) na Folha da Manhã

Onda do crime em Campos e da estupidez política contra a Bienal

 

 

Onda do crime em Campos

Em plena intervenção das Forças Armadas na segurança pública do Estado do Rio, vários crimes foram registrados em Campos, entre a noite de terça e o dia de ontem. Na ocorrência de maior repercussão, quatro homens armados renderam um segurança e roubaram as Lojas Americanas, por volta das 20h do dia 13, na rua 13 de Maio, em pleno Centro de Campos. A Polícia Civil suspeita da ligação desse crime com o furto no supermercado Walmart, na madrugada de segunda (12), também praticado por quatro assaltantes.

 

Em 2018, 202 homicídios

Ainda na noite de terça, mais dois óbitos elevaram a 202 o número de homicídios praticados em Campos em 2018. Baleado por um policial militar durante confusão de bar no Parque Alphaville, em Guarus, Luan Lilargem Barcelos tinha 29 anos. Ele não resistiu e morreu no Hospital Ferreira Machado, onde estava internado desde o último dia 2. Também na noite de terça, Donato Ribeiro Carvalho foi executado a tiros. No lugar de um bar, o palco do assassinato foi uma pizzaria no Parque Presidente Vargas, novamente em Guarus.

 

Força de Bolsonaro e Witzel

Na manhã de ontem foi a vez de cinco presos que haviam saído do Presídido Carlos Tinoco da Fonseca. De carro, eles teriam ido realizar um serviço extramuro, quando foram fechados por outro veículo na estrada do Santa Rosa. Deste saíram homens armados, que atiraram, ferindo dois detentos. Eles foram atendidos, enquanto os outros três aproveitaram a episódio para fugir. Foi a repetição diária de episódios como esse, no Estado do Rio e em todo o país, que elegeu Jair Bolsonaro (PSL) presidente. Assim como Wilson Witzel (PSC), governador.

 

Guarda da esquina

A necessidade de combate à criminalidade não pode ser confundida com carta branca. Na ditadura militar (1964/85) que Bolsonaro afirma não ter existido, um dos momentos mais dramáticos foi o Ato Institucional nº 5 (AI-5) de 1968. Diante dele, o vice-presidente civil Paulo Aleixo disse: “o problema é o guarda da esquina”. Até agora, nada indica que o presidente eleito não respeitará a Constituição. O problema é que, após sua vitória, seus eleitores mais aloprados se julgam investidos da autoridade do tal “guarda da esquina” nas redes sociais.

 

Censura prévia

Um dos itens considerados mais duros no AI-5 foi a censura prévia, inclusive a livros. Parece ser isso que os aloprados locais da direita se julgam no direito de instalar em Campos. E logo sobre o evento cultural mais importante do município: a Bienal do Livro, que terá sua 10ª edição entre os dias 20 e 25. O alvo escolhido foi o artista Wagner Schwartz, que irá compor a mesa “Fake News: Mentiras Verdadeiras”, no dia 23. Um grupo de direita chegou a ameaçar nas redes sociais: “protesto no dia da Bienal, impossibilitando que o evento seja realizado”.

 

O alvo

Schwartz se tornou conhecido em setembro de 2017, com a polêmica envolvendo sua apresentação no MAM de São Paulo. Na performance, ele se apresentava nu e permitia que os espectadores interagissem com seu corpo. Acompanhada da mãe, uma menina de 6 anos tocou o tornozelo do artista. A partir dali, ele sofreu um linchamento virtual, acusado de pedofilia, e chegou a receber 150 ameaças de morte. Em fevereiro de 2018, o Ministério Público Federal concluiu que não houve nenhum crime no caso e arquivou a investigação.

 

Polícia Federal

Dois membros dessa direita obscura divulgaram vídeos nas redes sociais. Neles exemplificaram o que são fake news, insistindo nas acusações de pedofilia. Um é professor do IFF, que abrigará a Bienal, e foi contrário até a estimular estudantes à leitura. O outro delirou com “atentado de esquerda” e batiza com as iniciais do seu nome o grupo que diz liderar. Lastimáveis como “guardas de esquina”, buscam pegar carona na onda conservadora para se lançarem a vereador em 2020. Antes e depois, qualquer problema no IFF caberá à Polícia Federal.

 

Publicado hoje (15) na Folha da Manhã

 

Contra Bienal do Livro em 2018 na busca de holofote para 2020

 

 

Hoje, o assunto do dia foram as ameaças de militantes da direita de Campos contra a 10ª Bienal do Livro de Campos, que será realizada entre os dias 20 e 25 deste mês. O alvo principal é a mesa “Fake news: Mentiras Verdadeiras”, programada para às 17h do dia 23, e um dos seus integrantes: o coreógrafo Wagner Schwartz.

Schwartz ficou famoso em setembro de 2017, com a polêmica envolvendo sua apresentação “La Bête” no MAM de São Paulo, em setembro de 2017. Na performance, ele se apresentava nu e permitia que os espectadores interagissem com seu corpo. Acompanhada da mãe, uma menina de 6 anos tocou o tornozelo do artista, a cena foi filmada e viralizou nas redes sociais. A partir dali, Schwartz sofreu um linchamento virtual, acusado de pedofilia, e chegou a receber 150 ameaças de morte. Em 22 de fevereiro de 2018, o Ministério Público Federal concluiu que não houve nenhum crime de pornografia infantil no caso e arquivou a investigação.

Por conta da presença de Schwartz, bem como de outros eventos da X Bienal de Campos considerados “esquerdistas”, dois vídeos circularam nas redes sociais locais. Num deles, um professor de pedagogia do IFF — cujo campus Campos-Centro abrigará a Bienal — chegou a criticar até o vale-livro no valor de R$ 10,00, que será distribuído a cada aluno da rede pública presente. No outro vídeo, um líder de um grupo de direita de Campos chegou a dizer que, com a presença de Schwartz, a 10ª Bienal iria sofrer “um atentado de esquerda”.

Nos dois vídeos, chamado pejorativamente de “Peladão do MAM”, Schwartz foi o principal alvo. Atrás de holofotes, seus autores não terão os nomes divulgados. Os dois tentam se tornar conhecidos, surfando a onda conservadora que, em outubro, elegeu Jair Bolsonaro (PSL) presidente e Wilson Witzel (PSC), governador. O objetivo de ambos é se lançar à Câmara Municipal de Campos em 2020.

Com ambições pessoais travestidas de cruzada moral, a intenção é semear ódio e medo para tentar tumultuar o evento cultural mais importante da cidade. O governo de Campos certamente merece críticas. Mas classificá-lo como “comunista” ou “socialista”, por conta da diversidade temática em debate aberto na Bienal, é como um professor ser contra o estímulo à leitura de crianças e adolescentes de baixa renda. Ou um coletivo que pretende representar a direita no município e se identifica não com as iniciais do grupo, mas do nome de quem se diz líder.

 

Com a chegada de Hitler ao poder em 1933, listar obras e autores como proibidos levou à queima de livros na Alemanha nazista

 

 

Se for para tentar boicotar o evento, faz parte da democracia. E não deverá fazer muita diferença. Historicamente, os discursos de ódio só têm eco entre quem nunca foi muito chegado a ler. Agora se for para “cobrar da Prefeitura em forma de protesto do dia da Bienal, impossibilitando que o evento seja realizado”, como o tal grupo de direita chegou a veicular ontem em manifestção nas redes sociais, além da segurança da PM e Guarda Civil, bom lembrar que qualquer problema no IFF terá que ser investigado pela Polícia Federal.

Jornalista Artur Xexéo

Jornalista de O Globo, Artur Xexéo participará da mesa de debate com o artista Wagner Schwartz, assim como os jornalistas campistas Ocinei Trindade e Cláudia Eleonora. Hoje, Xexéo falou ao repórter da Folha Matheus Berrirel sobre as reações nervosas ao debate sobre fake news na Bienal de Campos:

— Enquanto ficar no protesto, tem até o meu apoio, pelo direito de protestar. Sou contra tentar se impedir que o evento aconteça. Neste caso, eu sou contra, porque foi chamado o artista para participar de uma mesa, esse artista tem um histórico.  Você tentar impedir que uma pessoa participe de uma mesa de debate porque ela tem essa história no seu currículo artístico, aí não dá para aceitar. Isso não é democrático, é antidemocrático.

 

Hamilton Garcia — O Brasil que emerge das urnas

 

 

A vitória de Bolsonaro começou a se delinear em abril de 2017, quando, pela primeira vez, o candidato suplantou, por um ponto percentual apenas, seus competidores mais proeminentes na oposição ao desgastado PT, cujo candidato (LILS) ocupava a primeira colocação nas sondagens[i]. A partir daí, o candidato da direita se afirmaria, crescentemente, na primeira colocação, sem o petista preso em Curitiba ou concorrentes outsiders (J.Barbosa e L.Huck), enfrentando uma Marina Silva fragilizada por seu isolamento, um Ciro Gomes reestreante no protagonismo político e candidatos tucanos tisnados pelas escandalosas relações entre seu ex-candidato (Aécio Neves) e o megaempresário Joesley Batista — que o PSDB, apesar dos esforços de seu presidente interino (Tasso Jereissati), tratou de minimizar.

Além do isolamento da Rede, do vácuo de alternativas e da desmoralização do PSDB, Bolsonaro também se beneficiou da rigidez fisiológica do centrão-MDB e ideológica da esquerda, que manteve-se atada ao partido (PT) que capitaneou os megaesquemas de corrupção desnudados, à exaustão, no Mensalão e no Petrolão. Mas, nem a tibieza oposicionista da centro-esquerda, nem a crise da velha política associada à canonização de LILS, podem explicar o desenlace eleitoral. Concorreu de maneira decisiva para tal, mesmo que a compreensão geral não seja muito clara a respeito, o esgotamento do bloco histórico responsável pela redemocratização do país (vide “Os perigos que se avizinham e o antídoto”).

É neste contexto crítico que deve ser visto o futuro governo e sua oposição. O bloco histórico em agonia, da inclusão consumista-financista, impõe duas tarefas básicas, de dificuldade assimétrica, ao novo governo: o fim do compromisso neopatrimonial, que marca a modernização conservadora brasileira e veio a se constituir em pilar central de variados arranjos políticos ao longo do séc. XX — com importantes inflexões no Estado Novo (1937-1945) e no período militar (1964-1984), sem maiores resultados por conta do infantilismo de esquerda que os antecedeu —, e a reindustrialização do país, cujo ápice foi o “milagre brasileiro” (1967-1979) — cujo retrocesso se deveu à incapacidade do regime de superar o caráter elitista de seu bloco histórico.

A indicação do juiz Sérgio Moro para o (super)ministério da Justiça coloca o novo governo em posição privilegiada para enfrentar tal desafio histórico, na busca da racionalização da máquina de Estado — objetivo acalentado desde o DASP (1938) e levado à cabo marginalmente, ao sabor das conveniências políticas, com os resultados conhecidos, na média: Estado grande, com baixa eficiência, perdulário e refém de corporações (privadas e públicas) que atrofiam seu desempenho enquanto parasitam seus recursos em benefício próprio.

A persistência do neopatrimonialismo, uma versão avançada e urbana do velho patrimonialismo mercantil lusitano[ii], se liga a uma modernidade cujos atores foram tragados pelo Estado ao longo de sua constituição — caso dos sindicatos de trabalhadores e patrões a partir de 1930[iii] —, quer pelas assimetrias institucionais dos primeiros (déficit de representatividade), quer pela vontade ativa do Estado de manter controle sobre a sociedade esmagando os que dele tentavam escapar. As desigualdades regionais, no imenso território, e a resiliência das antigas práticas coronelísticas — urbanização adentro, mesmo sem “coronéis” —, ajudaram na sobrevivência do modelo nos interstícios da Constituição de 1988.

O desmonte desta herança maldita, que desde a Primeira República (1889-1930) conecta a base eleitoral municipal ao governo central, por meio da “política de governadores” e suas casas legislativas, terá forte impacto sobre a eficiência e universalidade das políticas públicas, mas ainda assistirá a uma árdua resistência, dada sua capilaridade federativa, que exigirá, para ser suplantada, não da mera descentralização, mas dela acompanhada da instituição de núcleos qualificados de gestão, com a obrigatoriedade de contratação de pessoal técnico especializado para as funções administrativas regionais e municipais — algo que não se ouviu falar até o momento.

Seja como for, a ruptura, evitada por todas as coalizões governistas na Nova República, se eficazmente concluída, tem potencial para alçar Jair Bolsonaro ao rol dos estadistas nacionais, forçando o centro e a esquerda a repensar suas estratégias para não serem varridos para a margem da disputa política, como foi a direita no fim melancólico do regime militar (Governo Figueiredo, 1979-1985).

Mas, mesmo que obtenha sucesso na agenda de modernização do Estado, com impacto ao nível econômico mais básico, é certo que o novo governo não poderá prescindir do suporte econômico de setores estratégicos, capazes de sustentar a renda agregada, suportar o consumo (privado e público) e os investimentos (idem). Para isso, a indústria, setor por excelência da propulsão tecnológica e da economia de escala, capaz de sustentar amplas cadeias produtivas e estabilizar a modernização no longo-prazo — problema estrutural do Brasil ao longo do séc. XX, que foi posto em segundo plano desde a redemocratização em proveito da distribuição (consumo) —, terá que reassumir a centralidade perdida, na agenda econômica e política, desde a crise do modelo militar-autoritário.

As tensões que se prenunciam no âmbito da nova coalizão dirigente (do velho bloco histórico), portanto, vai muito além daquela que desafiará Sérgio Moro, na Justiça, em relação à máquina estatal e os três poderes, avançando decisivamente na disputa entre Paulo Guedes (liberais) e Onyx Lorenzoni/militares (desenvolvimentistas), que, embora também guarde relação com a pauta racionalizaste do Estado, não se esgota nela, desafiando a mediação do presidente eleito com resultados imprevisíveis.

O certo é que a ameaça de tudo se desmanchar no ar, sob a crise do bloco histórico, poderá levar a um rearranjo de forças ainda mais forte do que o verificado nas urnas. Ao centro político, ao que tudo indica, caberá um papel de apoio crítico ao novo governo sob a égide do liberalismo (mercado e instituições), funcionando como um freio à radicalização (popular) da pauta antineopatrimonial no que ela implica em “refundação da república” — pretensão tida por alguns como “ataque dissimulado à democracia” —; o mesmo com relação à problemática do desenvolvimento retardatário, que encerraria em alguma forma de revalorização da regulação econômica — tida como antípoda ao mercado e à democracia.

Por tudo isso, o centro-democrático, que agrupa os fundadores do PSDB, o PPS e a Rede, entre outros, tende a um oposicionismo parlamentar e intelectual moderado, de escassa repercussão social, podendo oscilar, à esquerda e à direita, em pautas específicas.

Já à esquerda, a cisão representada por Ciro Gomes e sua pauta desenvolvimentista, explicitamente vocacionada para a construção de um novo bloco histórico centrado no trabalho e na indústria, necessitará, para ser bem sucedida, do esgotamento da pauta liberal-econômica do novo governo, sem alternativa consensual na agenda governativa vitoriosa. Ao mesmo tempo, precisará o pedetista suplantar o protagonismo petista, aferrado ao neocorporativismo de minorias e ao socialdesenvolvimentismo de compromisso (neopatrimonial) como estratégia de viabilização do “Estado popular”. Não será fácil, dada nossa tradição populista.

Todavia, o novo dinamismo político inaugurado pela novíssima frente radical de direita promete, além das incertezas, grandes oportunidades às forças políticas capazes de entender a natureza da crise e dispostas a interpelar, a seu modo, os desejos da maioria dos brasileiros.

 

[i] Vide Gazeta do Povo, in. <https://especiais.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2018/pesquisas-eleitorais/datafolha/pesquisa-datafolha-abril-2017/> em 3/11/18

[ii] Vide Raimundo Faoro, Os Donos do Poder: formação do patronato político brasileiro (vol.2); ed. Publifolha/SP, 2000, cap. III.

[iii] Vide Armando Boito, O Sindicalismo de Estado no Brasil, ed. Unicamp/Campinas, 1991.

José Padilha — A esquerda optou por Lula, e traiu Ciro miseravelmente

 

Como escrevi aqui, em última postagem própria, me dei  uma pausa após a Copa do Mundo seguida da eleição brasileira. Mas como o Igor Franco, colaborador quinzenal do blog, me enviou o texto publicado (aqui) na postagem abaixo, aproveito o ensejo para republicar o artigo sobre as eleições publicado hoje (aqui) em O Globo, pelo cineasta José Padilha, dos filmes “Tropa de Elite” e da série “O Mecanismo”. Se ainda não leu, sugiro que o faça.

Na semana que vem, se Deus quiser, estarei de volta. Inté!

 

Carlos Drummond de Andrade

 

 

José Padiha, cineasta

E agora, José?

Por José Padilha

 

Dilma chegou em quarto para o Senado. Haddad, simulacro de Lula, perdeu para um candidato com enorme índice de rejeição. Boulos teve 0,5% dos votos. Freixo, que também colou em Lula, teve votos. Mas foi um fenômeno carioca, resultado do combate às milícias. O Psol do Rio, anticorrupção, teve sucesso. Já o Psol nacional sucumbiu. A Lava Jato devolveu, fisicamente, R$ 1,5 bilhão para a Petrobras, e a Petrobras pagou US$ 2,5 bilhões aos procuradores americanos. Se não houve o petrolão, de onde veio este dinheiro? E por que o acordo na Justiça americana?

Teremos um radical de direita na Presidência porque a esquerda, acreditando que Lula era a única possibilidade de se manter no poder, optou deliberadamente em pôr a ideologia antes da ética. Alertei meus amigos marxistas sobre o erro que cometiam. Afinal, o dinheiro que o PT roubou era do mesmo eleitor que conviveu com a segurança pública e com os sistemas educacional e de saúde que o PT não consertou em 12 anos. Em outras palavras: a esquerda chamou o eleitor de otário, e colheu o preço desta afronta nas urnas. Para deixar claro que não ia levar desaforo para casa, a maioria dos brasileiros não apenas derrotou o PT, como escolheu a extrema direita para fazê-lo. O que o eleitor disse com esta escolha? Disse que coloca a ética antes de ideologia, mesmo que isto resulte em autoritarismo. Uma mensagem indigesta, mas inegável.

Depois de sofrer esta acachapante derrota, os formadores de opinião de esquerda deveriam estar se perguntando: “E agora, José, que a festa acabou, a luz apagou e o povo sumiu?” A resposta que derem a esta pergunta vai definir, em parte, se o Brasil continuará sendo um país de ideólogos irracionais e antiéticos.

Tive conversas com Luiz Eduardo Soares e Marcelo Freixo a respeito deste tema. Ambos participaram do erro da esquerda: reconheceram a roubalheira do PT e, mesmo assim, ficaram ao lado de Lula. No caso do Luiz, por conta da tese de que Lula, apesar de ser claramente culpado de vários crimes, foi condenado por um crime que não cometeu. Segundo Luiz, a prisão de Lula seria fruto de uma armação política que articulou todas as instâncias do Judiciário. Não vejo como isto possa ser verdade. Mas, mesmo que fosse, seria irrelevante, posto que a lógica do eleitor não se submete aos formalismos judiciais.a empreiteiras pegas na Lava-Jato, mas não há uma única foto postada por alguém que tenha assistido a uma destas. Em um tribunal, isso não configura prova. Todavia, nenhum eleitor razoável pode deixar de concluir que as palestras não aconteceram e que Lula recebeu por outros serviços… No caso do Marcelo, o motivo do apoio dado a Dilma e Lula foi um veto ao PSDB, que roubou e é direita. O eleitor concordou com ele apenas em parte. Não relativizou a ética por conta da ideologia, e enterrou o PSDB junto com o PT.

Para piorar, a esquerda resolveu fingir que o apoio de Lula e do PT às ditaduras de Cuba e da Venezuela era desimportante. Eu, que filmei na Venezuela e tenho amigos por lá, sei quão cínica foi esta opção… Ao insistir numa tese facilmente refutável, a esquerda abriu mão do único discurso que poderia eliminar Bolsonaro da contenda: o fato de ele ser inaceitável por conta de suas opiniões a respeito dos direitos humanos e das liberdades civis. Ciro poderia ter feito este discurso. Lula e o PT, jamais. A esquerda optou por Lula, e traiu Ciro miseravelmente.

O que a esquerda precisa fazer para resistir a um possível autoritarismo de Bolsonaro? Primeiro, abandonar de vez o PT, irremediavelmente maculado pela corrupção e pelo PMDB. Depois, pôr a honestidade antes da ideologia, assim como fez o eleitor. E, finalmente, se opor a qualquer autoritarismo, incluindo o de países socialistas. Se isto não acontecer, mais uma vez, como disse Espinosa, a esquerda lutará pela escravidão pensando que está lutando pela liberdade.

 

Igor Franco — Os especialistas bolsominions

 

 

Já faz uma semana desde a eleição de Bolsonaro e ainda é possível encontrar manifestações de incredulidade quanto ao resultado das urnas em meio ao tsunami de lágrimas derramadas por aqueles que se acostumaram a estar do lado vencedor da disputa há quase duas décadas. Assim como o desfecho inevitável de uma doença terminal, a concretização do ato é sempre impactante, por mais que o roteiro do fim esteja escrito e seja sabido de antemão.

Muito se tem dito a respeito da capacidade de Bolsonaro se comunicar diretamente à população através das redes. O antipetismo teve seu peso. É impossível não mencionar, é claro, a corrupção avassaladora que tomou de assalto os cofres públicos de modo acintoso nas últimas décadas. Os detratores acusam uma onda conservadora que, subitamente, transformou em reacionários fascistas. Porém, alguns dos grandes artífices da vitória do deputado têm passado ao largo da discussão: são os especialistas bolsominions.

Eles são cabos eleitorais involuntários. Na verdade, eles adorariam ver pelas costas o capitão. Mas, assim como os entusiastas que passavam o dia encaminhando manchetes e imagens de Bolsonaro pelo WhatsApp, eles garantiam milhões de votos ao direitista a cada vez que suas ideias eram colocadas em prática ou suas palavras eram ecoadas na imprensa majoritariamente anti-Bolsonaro. Mesmo depois das eleições, esses minions reforçam a popularidade do presidente eleito e garantem uma excelente base de apoio para o início de governo.

Na última semana, por exemplo, a política bolsominion de progressão de regime de criminosos condenados está a um passo de permitir a Alexandre Nardoni sair da prisão durante o dia. Após ser condenado pelo assassinato de sua própria filha há dez anos, o homicida teve seu comportamento classificado como “ótimo”. Sua esposa à época do ocorrido já está em semi-aberto há mais de um ano. Assim como ocorreu com a também famosa Suzane von Richtofen, talvez fosse o caso de aguardar o próximo Dia dos Pais para que a soltura seja ainda mais ultrajante à sociedade brasileira.

Também nos últimos dias, tivemos a notícia de que os transexuais Thammy Miranda e Pablo Vittar concorrem, respectivamente, ao posto de homem e mulher mais sexies do ano numa eleição conduzida pela revista bolsominion IstoÉ. No país de Rodrigo Hilbert e Paolla Oliveira é realmente impressionante que alguém pense haver necessidade para que esses postos sejam preenchidos. Aliás, no país de Machado de Assis, Nelson Rodrigues, Drummond, Veríssimos, Ramos e Rosa, a banca organizadora do ENEM achou por bem apresentar aos alunos uma questão envolvendo um “dicionário travesti”.

Os especialistas bolsominions estão entocados em redações, em organizações não-governamentais que não vivem sem a simbiose com o governo, na academia e em diversos outros segmentos da sociedade. Uma característica aglutinante do grupo é que, em nome de uma pretensa superioridade ideológica ou intelectual, toda solução que atente contra o senso comum é imediatamente adotada.

Num momento de autocrítica quanto à efetividade de sua estratégia, a opção pelo enfrentamento é ainda mais latente. Forjados no enfrentamento das “superestruturas” burguesas e reacionárias que supostamente dominam o país, cada lacre importa mais que a coerência e eficácia das ações.

O capitão agradece!

 

Após cinco meses de Copa e eleições, segura que lá vai textão

 

 

Acabou. Primeiro foi a Copa do Mundo de junho a julho. Em sequência, na ligação direta, as eleições brasileiras. Foram cinco meses de atividade intensa. Em vinte finais de semana, foram quase todos os sábados e domingos dedicados ao trabalho.

Com a capacidade de análise condicionada em outras Copas e eleições, a despeito da torcida pessoal, os resultados confirmaram os favoritismos que apontei (aqui e aqui) antes das respectivas bolas rolarem: a França foi campeã e Jair Bolsonaro, eleito presidente.

O que não deu para (ninguém) prever, pelo menos não antes do primeiro turno, foi Wilson Witzel eleito governador do Rio.

Hitler fundou o estado fantoche da França de Vichy

Isso posto, não dá para deixar de desabafar o asco pelas manifestações do brasileiro médio nas redes sociais durante os dois eventos. Desde a Copa, como encarar alguém formado em história que declarou torcida pela França multirracial contra os “nazistas” da Croácia? Como alguém que se pretende historiador pode ignorar o que foi o colaboracionismo aberto da França de Vichy (1940/44) com a Alemanha de Adolf Hitler? E, de quebra, tratar o povo eslavo da Croácia com o mesmo preconceito que lhe dedicou o nazismo.

Da Copa às eleições, as acusações de nazismo se somaram às de fascismo, racismo, machismo, misoginia e homofobia que, independente dos motivos, serviram a um fim prático: eleger Bolsonaro. Entre seus eleitores mais entusiasmados, como encarar pessoas com as quais se convive desde a juventude, na qual cometeram todo tipo de excessos em sexo, álcool e drogas ilícitas, agora convertidos em defensores da moral, dos bons costumes e da família tradicional?

Político liberal de brilho intelectual, a despeito do apoio à ditadura militar no Brasil, Roberto Campos (1917/2001) dizia que “a burrice não tem fronteira ideológica”. O mais grave é ver isso confirmado por gente inteligente, cega pela dor de corno política desde a prisão de Lula, em 7 de abril, por corrupção e lavagem de dinheiro. Como reagir quando essa passionalidade se sobrepõe à própria família, independente das suas mazelas, e se expõe até os pais nas redes sociais, em mendicância exitosa de likes lacradores?

Nem a burrice, nem a hipocrisia. Desde a eleição presidencial de 2014, como olhar militantes de esquerda, que desde tenra idade deram contribuições generosas ao PIB da Colômbia e da Bolívia, chamando Aécio Neves de “cheirador”? E que, ao colher os resultados dos próprios erros políticos acumulados nos quatro anos seguintes, no lugar do mea culpa, respondem: “A Hitlerzinha aqui vai voltar pra Europa. Madame, né? Sabe como é”. Na dúvida da necessidade de passagem de volta, o bloqueio virtual é demanda de salubridade.

 

 

Mas o barato é vibrar com show do Roger Waters, ignorar seu antissemitismo e vê-lo promovido no Brasil a Mick Jagger. E ainda se corre o risco de ser taxado de “direita” por essa gente sorridente em suas selfies, enquanto chora na cama quente e culpa os outros pela derrota política que fabricou. Ainda que menos exitosa, é a cópia em papel carbono do que há de mais abjeto no bolsonarismo, com que se é obrigado a deparar em comentários bloqueados no blog, tipo: “Comunista!” ou “Por que não vai para Cuba ou Venezuela com seu iPhone?”.

Bolsonaro não venceu com os votos de quem é nazista, fascista, racista, machista, misógino e homofóbico, bééé, bééé, bééé. Sua vitória foi dada por uma ampla maioria que, na incerteza de todos esses balidos de ordem, optou por arriscar. E escolheu não votar na sua certeza da corrupção do PT.

 

 

Quem não enxerga isso se nivela ao jênio que disse ter previsto a vitória do capitão. Mas dois anos depois votou em Haddad no primeiro turno, tirou Ciro Gomes do segundo e com ele a única possibilidade real da esquerda em eleger o presidente. Para esse tipo de Nostradamus, não há como “prever” nada diferente do que Lula mandar. E ele mandou muito mal!

Não se pode negar a importância de Lula ou do PT, que ainda elegeram a maior bancada na Câmara Federal. Mas, como no mito grego, só quando “matar” seu “pai”, uma nova esquerda poderá reassumir qualquer protagonismo nos destinos do Brasil. Que não pode ser lançado na aventura, como pregam os Boulos da vida, de forçar Bolsonaro a ser o “MAL” que justifique o “BEM” de quem não sabe perder.

Foi a arrogância do “nunca antes na história deste país” que nos conduziu à maior e mais ampla vitória eleitoral da direita, talvez de todos os tempos. Derrotados duas vezes no primeiro turno presidencial, Lula e o PT passaram os oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso taxando-o de direita. E levaram os 13 anos seguintes, mais os dois do companheiro de chapa Michel Temer, empenhados em fabricar uma direita de verdade.

Como Dr. Frankenstein, conseguiram! E o “monstro” agora está solto. Reagir contra ele repetindo tudo que deu errado até aqui, é a melhor maneira de garantir que continue no poder após os próximos quatro anos.

Por ressentimento mesquinho aos protestos que levaram ao impeachment de Dilma, que nem Haddad agora chama mais de “golpe”, a esquerda deu a quem se revelaria seu maior adversário a bandeira do Brasil. E, com ela, entregou junto o país.

Para recuperá-lo, será preciso muito mais do que repintar vermelho de verde e amarelo.

Concluídos cinco meses de muito trabalho, impotência amargada diante do resultado, agora é descansar um pouco. O jornal continua sob comando de Diva e Christiano Abreu Barbosa, com a redação capitaneada pelo Arnaldo Neto e a Joseli Matias.

O blog fará uma pausa. E, na demanda de desintoxicação, as postagens nas redes sociais se tornarão raras, pessoais e restritas. Não que espere nada muito diferente quando voltar.

 

Classe de Luka Modric, craque da Copa da Rússia e melhor jogador do mundo em 2018

 

 

Depois destes últimos cinco meses, pra não dizer que não falei das flores, confesso: deu um prazer danado ver o croata Luka Modric jogar.

Inté!

 

 

Esquerda brasileira reiventa o masoquismo no fetiche pelo lulopetimo

 

Kate Winslet e Geofrey Rush no filme “Contos probidos do Marquês de Sade” (2000), de Philip Kaufman

 

2013/14: “Não vai ter Copa” — Teve Copa e 7 a 1

2015/16: “Não vai ter golpe” — Dilma sofreu impeachment

2016/17: “Fora Temer” — Eleito na chapa do PT, Temer ficou

2018: “Eleição sem Lula é fraude” — Lula lança Haddad a presidente

2018: “Lula Livre” — “Lula tá preso, babaca!” (Cid Gomes)

2018: “Ele Não!” — Bolsonaro eleito presidente

A esquerda brasileira dá significados ao masoquismo ignorados pelo Marquês de Sade. Ou se liberta do seu fetiche lulopetista, ou será consumida por ele.

 

Artigo depois da eleição — O testemunho e seus limites

 

Mesmo antes da apuração da votação, Bolsonaro estava confiante na sua vitória

 

 

Painel do artista plástico Eduardo Kobra, baseado na estátua “O Pensador” do francês Auguste Rodin

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Em artigo jornalístico se deve evitar sempre a primeira pessoa. Por isso, leitor, peço desculpas de antemão. E que você encare este texto como testemunho. Diante do resultado das eleições de ontem, repito o filósofo francês Emmanuel Mounier (1905/50): “quando não restar possibilidade nenhuma de sucesso, resta-nos testemunhar”.

Social-democrata, meu espectro político é de centro-esquerda. Votei em Ciro Gomes (PDT) no primeiro turno presidencial, mesmo que ele trouxesse propostas contrárias aos meus interesses de classe. Mas o fiz no sentido de sobrepor os interesses do país aos particulares. E na certeza pragmática de que era a melhor opção para derrotar Jair Bolsonaro (PSL) no segundo turno.

Quem tirou Ciro do segundo turno foi o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que manobrou deslealmente da cadeia em Curitiba para isolar nacionalmente o político cearense. Quem impediu que uma alternativa viável a Bolsonaro avançasse foi o eleitor que, por ressentimento e ausência de autocrítica, preferiu votar em Fernando Haddad no primeiro turno. Foi tão legítimo quanto previsível em suas consequências.

Por isso e pelo projeto de governo do PT, que previa o controle da imprensa, do Judiciário, do Ministério Público e dos Tribunais de Conta, não votei em Haddad no segundo turno. Nele, noves fora o discurso, a máxima concessão petista à democracia foi abdicar da sua proposta de uma nova Constituinte. Tampouco seria capaz de votar em Bolsonaro, por motivos muito além dos balidos de ordem — fascista, bééé; nazista, bééé; machista, bééé; misógino, bééé; homofóbico, bééé — que o elegeram.

 

 

Desde 1989, sempre tive orgulho em votar de quatro de quatro anos em quem achava mais apto a governar o Brasil. E para aqueles que hoje balem “mito, mito, mito, bééé, bééé, bééé” no pasto oposto, relativizando a existência da ditadura militar no país, relevante lembrar: aquela foi a primeira eleição presidencial não só para mim, aos 17 anos, como para minha mãe. Com os 46 que tenho hoje, foi a primeira vez em que ela, junto do filho adolescente, pôde votar a presidente. Só meu pai, à época com 53, tivera uma única oportunidade anterior de fazê-lo, em 1960. Ganha o capim que ofereceram aos nordestinos quem ignorar o que houve no intervalo.

Entre Bolsonaro e Haddad, a opção que minha consciência reservou foi votar nulo. O mesmo fizeram 7,44% dos eleitores que, somados aos 2,15% que votaram em branco, não chegariam aos 10,58 pontos de vantagem na vitória do capitão. Que respeito, credito a uma campanha eleitoral revolucionária no uso das mídias sociais e à qual me submeto como cidadão — enquanto nenhum outro tiver seus direitos constitucionais desrespeitados.

Tenho muitos amigos que votaram em Haddad. Alguns no primeiro turno, outros no segundo. Como também os tenho entre quem deu seu voto a Bolsonaro, independente do turno. Concordância política à parte, respeitei opções diferentes da minha.

Não, sua tia do WhatsApp não é fascista. Como sua sobrinha lacradora que vive com a cara enfiada no smartphone não é corrupta. É só aquilo que uns gregos malucos inventaram há uns 2,5 mil anos e chamaram de democracia. E, desde antes de Cristo, só existe com contraditório.

Se a eleição de Bolsonaro ontem, assim como a do ex-juiz Wilson Witzel (PSC) a governador do Rio, a despeito do meu voto pessoal em Eduardo Paes (DEM), não ensinarem a lição devida à esquerda brasileira, difícil crer que outra coisa o fará. O senador eleito pelo Ceará Cid Gomes (PDT) e o rapper Mano Brown bem que chegaram a alertar, mas já era tarde demais.

 

Haddad em seu discurso após a derrota nas urnas

 

Em seu pronunciamento após a confirmação do resultado, Haddad mostrou o quanto o aprendizado é difícil a quem se nega a aprender. Ele retomou o discurso que tinha abandonado no segundo turno, ao falar “em prisão injusta do presidente Lula”. Pelo menos, o derrotado foi emblemático ao se referir ao impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff como “afastamento”, não golpe. Se foi assunção tardia, ou ato falho, logo saberemos.

Ciente de que a derrota de Haddad era fato consumado, Ciro voltou da Europa, onde se auto-exilou após o primeiro turno, e divulgou na véspera do segundo um vídeo. Nele, orientou os eleitores “pela necessidade de votar com a democracia, votar contra a intolerância, votar pelo pluralismo, mas também ninguém está obrigado a votar contra convicções e ideologias”.

 

Após votar no 2º turno, Ciro se disse oposição a qualquer um que fosse eleito

 

Se não deu a adesão desejada por quem o sabotou, o cearense foi ainda mais duro ao votar ontem em Fortaleza: “Eu não quero é fazer campanha com o PT, nunca mais”. Deixou claro que está aberta a disputa para liderar a oposição ao governo federal eleito. E propôs sua maneira: “O Brasil precisa desesperadamente desarmar essa bomba da confrontação miúda que vem destruindo a economia brasileira”.

A Bolsonaro cabem os parabéns que Haddad não deu, por uma vitória incontestável nas urnas, mesmo a despeito de um passado com várias declarações contra a democracia. Que, no lugar delas, o presidente faça valer as que disse ontem em seu discurso de vitória: “vou guiar um governo que defenda e proteja os direitos do cidadão que cumpre seus deveres e respeita as leis; elas são para todos. Porque assim será o nosso governo; constitucional e democrático”.

Que assim seja. Caso contrário, caberá mais do que testemunhar.

 

Publicado hoje (29) na Folha da Manhã

 

Artigo do domingo — Eleições são relacionamentos

 

(Charge do Vasco Gargalo)

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Quem tem alguma experiência em relações amorosas deve saber. Até acontece, mas poucas vezes saímos de um relacionamento porque nos apaixonamos por outra pessoa. O motivo geralmente é porque não aguentamos mais conviver com quem um dia amamos, sendo a recíproca quase sempre verdadeira.

Tudo indica que Jair Bolsonaro (PSL) será eleito hoje presidente da República. Para os analistas políticos, a maior dúvida é saber qual será a margem dessa vitória. Na sexta, o instituto Paraná a projetou em 60,6% dos votos válidos, contra 39,4% de Fernando Haddad (PT). Ontem CNT/MDA (56,8% a 43,2%), Datafolha (55% a 45%) e Ibope (54% a 46%) diminuíram essa vantagem.

Com a maior bancada eleita na Câmara Federal, o PT briga para perder dentro de uma margem máxima de 10 pontos de diferença. Já o ex-capitão do Exército, que elegeu a segunda maior bancada federal em 7 de outubro, sonha hoje superar o recorde dos 61,27% dos votos válidos que Luiz Inácio Lula da Silva estabeleceu ao se eleger presidente a primeira vez em 2002.

Desde o primeiro turno, a disputa foi polarizada entre Bolsonaro e Lula, que ungiu Haddad como candidato. A única alternativa que se mostrou competitiva foi Ciro Gomes (PDT). Mas foi sabotado por Lula. Mesmo preso desde 7 de abril, ele mandou às favas o legado de Miguel Arraes (1916/2005), figura tão importante quanto o ex-metalúrgico na história da esquerda brasileira.

Sem nenhum constrangimento, a cabeça de Marília Arraes, neta de Miguel, foi entregue por Lula de bandeja ao PSB de Pernambuco. Deu certo para o grupo político do falecido Eduardo Campos (1965/2014), que reelegeu Paulo Câmara (PSB) a governador no primeiro turno. Se dará certo ao PT, as urnas hoje responderão.

Nessa barganha pouco ética, Lula recebeu como paga o isolamento nacional de Ciro, seu ex-ministro, que contava com o apoio do PSB. Como Anthony Garotinho (PRP), o líder petista não gosta de aliados com luz própria. Daí a escolha de Haddad, chamado de “poste” durante a campanha. Ainda que sua luz seja muitas vezes inflamável, Ciro era o candidato com melhores chances contra Bolsonaro.

Isolado o cearense, Lula demonstrou sua impressionante capacidade de transferência de votos a Haddad. Mas ainda mais impressionante é a rejeição adquirida por quem já foi o político mais popular do Brasil, desde o também ex-presidente Getúlio Vargas (1882/1954).

Foi esse antipetismo que Bolsonaro soube surfar melhor do que qualquer outro. E o tsunami se espraiou sobre as eleições a governador, senador e deputados em quase todas as unidades da Federação.

Para não ir muito longe, o presidente da Câmara Municipal de Campos, Marcão Gomes (PR), fez quase 41 mil votos a deputado federal. Mas não se elegeu por conta força do PSL. Só no Estado do Rio, o partido de Bolsonaro elegeu uma dúzia exata à Câmara Federal. E o 12º conquistou a vaga com apenas 31.788 votos.

Além do antipetismo, Bolsonaro fincou as pernas do seu tripé no anti-establishment e na reação conservadora aos avanços das minorias. Quem respondeu a isso chamando o candidato de fascista, machista, misógino e homofóbico pode até ter suas razões. Mas, ainda assim, é o principal responsável pelo que deve definir hoje o próximo presidente do Brasil.

Em matéria de análise sobre a eleição presidencial deste ano, publicada na Folha em 22 de outubro de 2017,  se buscou alertar (aqui): “Foi tratar Bolsonaro como bufão que o promoveu, de rival do deputado federal Jean Wyllys (Psol), para surgir hoje como sério opositor do político mais popular do Brasil”. Isso foi escrito há mais de um ano. Mas a esquerda brasileira grita mais do que ouve. Estão aí Cid Gomes e Mano Brown para sanarem quaisquer dúvidas.

No processo de desgaste que começou nas “Jornadas de Junho” de 2013, o eleitor médio brasileiro parece ter simplesmente olhado para o lulopetismo e decidiu pular fora da relação. Foi mais isso do que paixão pelo capitão.

Confirmada hoje a vitória de Bolsonaro, a lua de mel com seu eleitor só durará se houver resposta à enorme expectativa gerada, sobretudo no bolso. Como ensinou o estrategista Jim Carville ao ex-presidente dos EUA Bill Clinton: “É a economia, estúpido”.

Se ela não vier, o mesmo eleitor que hoje votará no “mito” talvez olhe para ele, lá entre agosto de 2019 e janeiro de 2020, como o sujeito que encontra ao acaso, depois de anos, alguém por quem já foi apaixonado. E indaga a si mesmo: “Que diabos eu vi nessa pessoa?”.

 

Publicado hoje (28) na Folha da Manhã

 

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