Opiniões

Por que votar em Jair Bolsonaro e Fernando Haddad a presidente?

 

Jair Bolsonaro (PSL) ou Fernando Haddad (PT)? O primeiro é franco favorito em todas as pesquisas. Mas são as urnas de hoje que decidirão quem será o presidente do Brasil. Em meio à polarização extremada que tem marcado essa campanha presidencial, a aposta no diálogo e no contraditório se faz presente no advogado Fernando Miller e no sociólogo José Luiz Vianna da Cruz. E, com eles, os motivos para se votar em Bolsonaro e Haddad.

 

Fernando Miller e José Luis Vianna da Cruz

 

Folha da Manhã – Por que votar no seu candidato para governar o Brasil nos próximos quatro anos?

Fernando Miller – Eu escolhi Jair Bolsonaro porque ele representa a esperança de mudança. O povo brasileiro não aguenta mais ver tanta corrupção e viver permanentemente em insegurança diante de uma violência que atingiu níveis alarmantes.

José Luis Vianna da Cruz – Porque o PT continua sendo o partido com mais chances de governo, dentre os que priorizam o desenvolvimento, que é o crescimento com distribuição de renda, ampliação dos direitos, liberdades, apoio aos movimentos sociais, às periferias, aos movimentos pela terra, pela valorização das identidades.

 

Folha – Por que não votar no adversário do seu candidato?

Fernando – Fernando Haddad não tem sequer expressão política própria. Não passa mesmo de um fantoche do Lula, que está preso pela prática de crimes que afrontam o povo brasileiro.

José Luis – Ele representa o oposto do que penso. É primário, rude, tosco, patético, além de violento, autoritário. Como disse FHC, ele não tem pensamento sobre nada que um presidente precisa ter. .

 

Folha – Independente do voto, todas as pesquisas apontam a vitória de Jair Bolsonaro (PSL) com larga vantagem? Racionalmente, dá para esperar algo diferente?

Fernando – As pesquisas revelam ampla vantagem para Bolonaro e isso deve ser confirmado nas urnas porque reflete a vontade da população que não quer mais o PT no poder.

José Luis – Como os institutos de pesquisa erraram no primeiro turno, ao não captar a movimentação virtual em todas as suas consequências, tecnicamente, é possível se esperar surpresas. O que está, por exemplo, acontecendo nas redes virtuais, neste exato momento em que escrevo e no momento em que isto é lido pelas pessoas? A ver.

 

Folha – Eduardo Bolsonaro falou em fechar o STF. Petistas como Wadih Damous já tinham pregado o mesmo. O Supremo e a democracia estão sob risco?

Fernando – Penso que está sendo dada uma exagerada dimensão a esse discurso do Eduardo Bolsonaro. A frase “para fechar o STF basta um soldado é um cabo” foi interpretada de forma isolada, fora do contexto global do discurso. Na verdade, essa frase nem sequer é de autoria do filho de Bolsonaro, pois ao que parece, foi dita há anos atrás por Jânio Quadros, num momento de arroubo insano, sem maiores consequências. O Supremo, bem como as instituições de modo geral, não correm risco algum no país.

José Luis – Ambos o disseram em contextos e em concepções diferentes. O Eduardo, no contexto de sempre, no qual afirma e reafirma que vai prender, arrebentar e exilar quem discordar dele. Seu viés ditatorial orienta suas posições. Não há como questionara a natureza democrática republicana do Damous, que o mencionou em contexto de atuação supostamente inconstitucional da Corte máxima.

 

Folha – Pela radicalidade, culto ao líder e dogmatismo acrítico, o lulopetismo e o bolsonarismo são muitas vezes comparados. Até onde seriam mais seitas do que movimentos políticos?

Fernando – O PSL, sob a liderança de Bolsonaro, está em crescimento, como se viu nas eleições do primeiro turno. Já o PT, sim, pode ser definido como uma seita, pois não visa o bem do país. Basta dizer que sob o manto do PT nasceu no Brasil esse movimento criminoso chamado de MST, que não respeita a propriedade privada e que invade terras agrícolas.

José Luis – É um absurdo comparar um líder carismático radicalmente democrático, pacífico, republicano e liberal, como Lula o demonstrou, na prática, em 8 anos de governo, com um líder carismático de corte fascista, antidemocrático, violento, que ataca as leis, as instituições, a paz e os direitos humanos, sociais e civis, que ecoa o que o ser humano tem de mais bárbaro na sua alma.

 

Folha – Independente de quem vencer, como coexistir com os vencidos? Essa incapacidade de conviver com o contraditório não é incompatível com a democracia? Como restabelecer o diálogo?

Fernando – Esse  radicalismo realmente criou uma divisão no país, mas não acho que a palavra correta para resumir essa divergência seja ódio. E penso que o tempo vai se incumbir de amenizar essa situação, pois é importante existir o contraditório.

José Luis – Sinto como se estivéssemos diante de um destino que adiamos por séculos: o do encontro do brasileiro consigo mesmo, da forma e do tamanho que somos. Choca, no início, mas é o princípio de uma caminhada altamente civilizatória. Se compreendermos dessa maneira, podemos superar nossos desafios históricos como nação de vocação pacífica e generosa.

 

Primeira dobra da página 2 da edição de hoje (28) da Folha

 

Publicado hoje (28) na Folha da Manhã

 

Por que votar em Wilson Witzel e Eduardo Paes a governador do Rio?

 

Wilzon Witzel (PSC) ou Eduardo Paes (DEM)? O ex-juiz saiu com mais de 20 pontos percentuais de vantagem no primeiro turno, mas o ex-prefeito do Rio conseguiu se aproximar nas intenções de voto, segundo as pesquisas Datafolha e Ibope divulgadas ontem. Numa eleição bem disputada, um dos dois candidatos será eleito hoje governador do Rio. O advogado Paulo André Arêas e o sociólogo George Gomes Coutinho falaram sobre suas escolhas.

 

Paulo André Arêas e George Gomes Coutinho

 

Folha da Manhã – Por que votar no seu candidato para governar o Estado do Rio?

Paulo André Arêas – Acredito que o candidato Wilson Witzel, além de se apresentar como algo de novo na realidade política do nosso Estado, embora adote uma vertente mais conservadora, representa a esperança, em que se baseia boa parte da população, de que haja uma mudança de rumos na administração estadual.

George Gomes Coutinho – Eduardo Paes detém experiência política inegável como prefeito do Rio de Janeiro, uma capital complexa para dizer o mínimo. No legislativo ocupou duas vezes a posição de deputado federal. Se estiver disposto a gastar saliva e sola de sapato pode deixar o Estado em melhor condição do que encontrará. Será um plano de trabalho longo, talvez de todo o mandato.

 

Folha – Por que não votar no adversário do seu candidato?

Paulo – Acredito que existem razões básicas para isso. O candidato Eduardo Paes é sujeito que figura há bastante tempo no cenário político do Rio de Janeiro. A população, sobretudo a do nosso Estado, vem impulsionando-se numa atual onda de renovação, o que se justifica não somente pelos mais graves recentes escândalos da história brasileira ocorridos em todos os níveis de Poder, mas, principalmente, pela convicção de que os rumos da nossa sociedade precisam ser modificados.

George – Wilson Witzel definitivamente não demonstra em sua trajetória profissional a expertise que viabilizaria o enfrentamento dos não poucos obstáculos e desafios que neste momento o estado do Rio de Janeiro enfrenta. Para além disso, suas propostas no âmbito da segurança pública causam arrepios e franca preocupação a todo e qualquer cidadão que tenha sido minimamente versado nos princípios que devem reger o Estado Democrático de Direito.

 

Folha – Independente do voto, as pesquisas apontam a vitória de Wilson Witzel (PSC). Dá para esperar algo diferente?

Paulo – Sim, é possível que algo de diferente ocorra por diversas razões. Primeiramente, a falibilidade das pesquisas de voto é algo que tem se mostrado bastante evidente, seja pela deficiência de métodos de pesquisa adotados e de sua implementação prática, seja por eventual intuito das entidades encarregadas das pesquisas de manipular perante a própria população as suas reais intenções de votos. Exemplo disso foi o resultado do próprio primeiro turno das eleições para governador do nosso Estado, em que, embora desacreditado pelas pesquisas, o candidato Wilson Witzel foi o mais votado de todos.

George – Decerto pesquisas oferecem uma fotografia cada vez mais precisa das preferências do eleitorado em um dado momento. Contudo, as eleições de fato podem gerar surpresas que neguem as previsões das pesquisas. Jogo é jogo. Não tem sido infreqüente no segundo turno um voto mais circunstanciado por parte do eleitor derivando em reversão de preferências.

 

Folha – Após sair bem atrás no primeiro turno, segundo o Ibope Eduardo Paes (DEM) conseguiu virar o jogo na capital. Espera uma disputa mais acirrada do que parecia inicialmente?

Paulo – Espero, sim! Embora as pesquisas, conforme apontado acima, tenham se demonstrado bastante vacilantes quanto ao percentual de votos a serem dados a cada candidato, a polarização decorrente da existência de somente dois candidatos no segundo turno das eleições permite que haja migração de eleitores que, num primeiro momento, teriam outros candidatos como escolhidos.

George – Muito provavelmente sim, justamente pelas características deste segundo turno no Estado do Rio. Afinal, há um outsider que faz parte de um movimento de “mudança a todo custo”, tal como em Minas. De outro lado, enquanto adversários, tanto em Minas quanto no Rio, há políticos com experiência, currículo e “algo a mostrar” dentre suas realizações.

 

Folha – Um fator que pode determinar o pleito a governador é o voto evangélico, que já elegeu Marcelo Crivella (PRB) prefeito carioca e agora está majoritariamente com Witzel. A cidade do Rio é considerada, no Brasil e no mundo, um lugar de liberdade no pensamento e nos costumes. O avanço evangélico está mudando isso?

Paulo – Essa pergunta é contraditória! Num mundo democrático, em que a pluralidade de ideias é, por si, um dos valores de maior importância, é contraditório afirmar que o avanço evangélico possa vilipendiar a liberdade de pensamento, pois é a própria liberdade de pensamento que garante aos evangélicos o direito de manifestarem, por entre outros meios, sua vontade através do voto!

George – Precisamos ter parcimônia neste debate. O voto conservador evangélico de hoje, o voto conservador católico de outrora, o moralismo periódico ecumênico nacional, não produziu mudanças estruturais na cultura e nos costumes. Os conservadores são derrotados por sua própria natureza que nega ou tenta frear artificialmente as mudanças sociais que são francamente inevitáveis.

 

Segunda dobra da página 2 da edição de hoje (28) da Folha

 

Publicado hoje (28) na Folha da Manhã

 

Hamilton Garcia — Os perigos que se avizinham e o antídoto

 

 

Fala-se muito na campanha em fascismo e bolivarianismo, mas se o segundo expressa um objetivo explícito da política petista (vide “#EleNão! ou #ElesNão!”) — não obstante sua eludição tática por Haddad neste segundo turno —, o primeiro diz algo de potencial sobre o candidato mais bem cotado ou como ele pode vir a se tornar realidade a depender da marcha dos acontecimentos, se vitorioso for.

Olhando-se para a frente de direita que se formou em torno de Bolsonaro no rastro da crise do impeachment, vê-se um amálgama de convicções conservadoras cristãs e liberistas associadas ao antipetismo, ao par de um desenvolvimentismo lastreado no positivismo, ideologia basilar do Exército Brasileiro. Em condições normais de temperatura e pressão, não obstante o currículo e a vontade do Capitão, o novo governo teria, para ter sucesso, que se desenrolar dentro da normalidade democrática, e, para tal, contaria com grande respaldo social, popular e empresarial, e perspectiva de governabilidade no Congresso, não obstante a sombra neopatrimonialista da bancada do Centrão.

Ocorre, porém, que a falência do sistema político e a crise estrutural do modelo liberal-rentista de democratização, a par da elevada temperatura política bafejada pelo PT como tática de sobrevivência ao Petrolão, conspiram contra essa normalidade, junto com a falta de concatenação programática da frente bolsonarista e a perspectiva bolivariana da “resistência ao fascismo” — ambas podendo suscitar movimentos violentos na sociedade.

Para tornar mais sombrio o quadro, enquanto na fase lulopetista foi possível “distribuir” os ganhos econômicos com a exuberância comercial do protagonismo chinês e da bolha ocidental — desperdiçando as chances de um “salto à frente”, em termos produtivos, com uma inclusão social pelo trabalho/aprendizado —, na fase bolsonarista o Brasil estará obrigado a enfrentar seus velhos e novos problemas e dificuldades, o que exigirá sacrifícios até aqui não admitidos pelos grupos dominantes — inclusive os aninhados nas altas esferas do Estado e nas corporações financeiras.

É certo, por outro lado, que algo se pode fazer na frente econômica com resultados positivos no curto-prazo para o governo — dois anos talvez —, seja simplificando os procedimentos normativos arrecadatórios, abrindo novas possibilidades de comércio com os países ricos, sustentando um câmbio de maiores possibilidades comerciais para a indústria e mesmo surfar na esperada onda da retomada econômica adiada pelo naufrágio precoce do Governo Temer. Ocorre que tal agenda, sem tocar nos problemas estruturais de longo-prazo da economia, pode propiciar apenas um fôlego, um novo vôo de galinha dentre tantos já vistos desde a recessão dos anos 1980.

No médio e longo-prazos, os gargalos estruturais tenderão a amplificar as fraturas existentes no seio da coalizão de direita, que, uma vez no governo, se transformará numa coalizão mais ampla, incluindo o liberalismo pragmático e mesmo o neopatrimonialismo, derrotado em sua dúplice aliança com o PSDB e o PT. Neste caso em especial, as perdas vitais dos segmentos neopatrimoniais, impostas pelos fatos, tenderá a afastá-los do governo na perspectiva de voltarem ao poder numa aliança com o lulopetismo que, para ser viável, teria que ser precedida de uma nova maquiagem moderadora dos “companheiros”.

Bolsonaro se mantém à proa da disputa flertando com uma ruptura com o sistema — como ficou claro em seu último pronunciamento às manifestações verde-amarelo —, mas parece fadado, por suas alianças liberais e a correlação de forças no interior do aparato militar, a, por enquanto, inaugurar apenas uma ruptura com o mecanismo (neopatrimonial) — o que não é pouco, nem fácil! –, o que significaria, de fato, uma troca na direção do bloco histórico em crise, responsável pela transição democrática desde 1985, e cuja hegemonia é detida pelo capital financeiro, que conheceu, até aqui, dois formatos: o liberal-patrimonialista de Sarney&Collor e o social-patrimonialista de LILS, com um híbrido em Itamar&FHC.

A nova direção liberal-conservadora sobre o velho pacto democrático teria como objetivo pôr ordem no modelo, revertendo a bagunça deixada por Mantega&cia e, de quebra, despejando as oligarquias neopatrimoniais do poder, abrindo assim espaços para maior racionalização do Estado e ajudando a reverter as expectativas negativas sobre o país, recompondo o ambiente propício ao crescimento e à retomada do emprego.

Operar tal mudança, necessária mas não suficiente para nos recolocar na rota do desenvolvimento, além do custo político elevado, pode não surtir os efeitos esperados pela população, o que a levaria ao desencanto e consequente fortalecimento da oposição, o que poderia animar os bolsonaristas, apoiados no setor desenvolvimentista de sua coalizão, a uma tournant no sentido de um novo bloco histórico, o que exigiria um programa econômico voltado para a produção e não simplesmente para o consumo, deslocando o sistema financeiro global de seu papel atual de fiador principal de nossa estabilidade macroeconômica e política.

A hipotética viragem, a depender do contexto político em que ocorra e do álibi que o lulopetismo poderá lhe fornecer, no curto-prazo, provocaria forte inquietação nos mercados e, por consequência, abalaria a frente governativa de centro-direita, podendo levar, inclusive, à suspensão das garantias constitucionais (estado de sítio) ou até mesmo a medidas mais graves no caso da ausência de consenso no Estado de como lidar com a crise.

Paradoxalmente, a previsível resistência petista ao “fascismo” pode render bons frutos à nova política, quer em termos do isolamento das oposições na sociedade, quer do alinhamento defensivo do Estado contra a ameaça de caos que ela pode encerrar, abrindo espaços para uma uma reforma política conservadora, inclusive com mudanças constitucionais para restringir o pluralismo político e aumentar a estabilidade governamental (voto distrital puro).

No caso de não se conseguir produzir tal consenso no âmbito do Estado, o prolongamento do cenário caótico, em meio a conflitos de rua entre esquerda e direita, pode assistir ao aparecimento de milícias paramilitares em ambos os extremos, abrindo espaços para a emergência de um inédito movimento fascista no país — cujos braços armados, diga-se de passagem, já se encontram virtualmente constituídos, embora ainda não plenamente politizados.

Neste cenário sombrio (hipotético), tal como na eleição em curso, nos fará falta uma terceira via capaz de suplantar o petismo e impedir, de novo, a vitória da extrema-direita. O problema aqui é que a desorientação da centro-esquerda é ainda mais forte que as perdas parlamentares sofridas pelo PSDB, PPS e Rede, ao fim do primeiro turno das eleições, o que compromete seu protagonismo na oposição – qualquer que seja o resultado do segundo turno.

O antídoto ao perigo que se insinua está numa frente política capaz de enfrentar o virtual desafio do novo bloco histórico autoritário, de extrema-direita, colocando, à semelhança deste, o foco da inclusão na retomada da produção industrial como resposta ao esgotamento da fórmula financista, baseada em consumo e endividamento das famílias, ao mesmo tempo que procura restaurar a governabilidade e preservar a democracia por meio de uma reforma política que racionalize o sistema partidário (representação) por meio de um modelo eleitoral misto, com listas pré-ordenadas, e medidas punitivas efetivas aos partidos cujos representantes se envolvam em crimes tipificados contra o bem público.

Seja como for, é chegada a hora de se enfrentar a crise política e econômica que o oportunismo político e a incompetência intelectual,varreram, desde 1988, para debaixo do tapete.

Não está escrito nas estrelas que o bolsonarismo derivará em fascismo – isto não faz parte da nossa tradição republicana e para tal existem freios conhecidos, embora não infalíveis –, mas é certo que entre as variáveis propícias para tal está a natureza da oposição que se fará ao (provável) novo governo, e, nela, Ciro Gomes se constitui numa esperança de solução democrática. Torçamos para que ele se coloque à altura da tarefa, nesta fase delicada de nossa vida republicana.

 

Ao considerar Bolsonaro sinônimo de fascismo, Justiça Eleitoral o pratica

 

 

Justica Eleitoral associou Bolsonaro ao fascismo pata determinar retirada da faixa da UFF (Foto: Reprodução)

 

 

TSE mira Justiça Eleitoral

Em seu noticiário, mais que qualquer outro veículo, a Folha acompanhou de perto as operações “Chequinho” e “Caixa d’Água”. Versavam sobre ilícitos eleitorais distintos que geraram as três prisões do ex-governador Anthony Garotinho (PRP). Em seu espaço de opinião nesta coluna, o jornal apoiou essas operações. E sempre as entendeu como novidade saneadora e necessária à política regional, com inspiração na Lava Jato. Isto deve ser lembrado antes de se afirmar: a massiva ação da Justiça Eleitoral sobre as universidades públicas do país, merece ser investigada pelo TSE, como prometeu ontem sua presidente, ministra Rosa Weber.

 

Começou em Campos

Entre os dias 23 e 25 de outubro, as ações da fiscalização ocorreram sobre 13 instituições de ensino público superior nos Estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul. Na verdade, o recrudescimento da Justiça Eleitoral sobre as universidades públicas começou aqui mesmo, em Campos, na UFF do município, em 13 de setembro. Naquela oportunidade, foi realmente encontrado material de campanha vedado pela lei em espaço público, o que confirmou o objeto da operação. Mas o mesmo não se deu em ações subsequentes, duas no IFF e uma na Uenf.

 

Da UFF à UFF

O caso mais absurdo foi também na UFF, mas na sua cidade sede de Niterói. Na última quinta (25), por decisão da juíza Maria Aparecida da Costa Bastos, da 199ª Zona Eleitoral (Niterói), uma faixa onde estava escrito “Direito UFF Antifascita” foi retirada da fachada da Faculdade de Direito da universidade. O motivo? Segundo a magistrada, seria propaganda negativa contra o candidato a presidente Jair Bolsonaro (PSL). Para fazer valer sua decisão, ela ameaçou o diretor da instituição de ensino, Wilson Madeira Filho, de responder pelo crime de desobediência.

 

Fascismo, doutores?

Como não havia menção na faixa a Bolsonaro, ao seu número ou partido, a juíza simplesmente concluiu que “fascista” é sinônimo de Bolsonaro. Difícil saber se mesmo o ex-ditador italiano Benito Mussolini teve tal pretensão. Fulanização à parte, pode se discutir o que é fascismo, não que é obrigação do estado democrático de direito se opor a ele. Obrigação reforçada para alunos de Direito — como a juíza foi e talvez devesse voltar a ser. Poderia aprender o que lecionou ontem Rosa Weber: “a vedação dirige-se à propaganda eleitoral, e não alcança, por certo, a liberdade de manifestação e de expressão, preceitos tão caros à democracia”.

 

Inspirações em Moro

Juiz icônico da Lava Jato, cujos méritos no combate à corrupção são inegáveis, Sérgio Moro tem cometido equívocos graves. E parece os estar inspirando aos seus pares. Em 1º de outubro, a seis dias do primeiro turno, Moro levantou o sigilo de uma delação do ex-ministro Antonio Palocci. Feita em abril, recusada pelo Ministério Público e desconsiderada pelo próprio magistrado no julgamento da ação penal, a delação foi divulgada com claro objetivo político de prejudicar o PT nas urnas. Independente da simpatia que se tenha (ou não) pelos líderes petistas, o que a Justiça faz com eles, pode fazer com qualquer outro cidadão.

 

Sem imunidade

Ciosa da liberdade de expressão, a Folha publicou em 27 de setembro artigo do promotor eleitoral Marcelo Lessa, sobre a primeira ação da fiscalização eleitoral na UFF-Campos. Nele, alertou: “a Constituição assegurou às universidades a autonomia (…). Porém, isto não assegura aos membros da comunidade universitária imunidade”. Ontem, após as novas ações da Justiça Eleitoral no país, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, fez outro alerta: “houve e há indícios claros de que houve ofensa à liberdade de expressão (…) no ambiente universitário”. Ninguém tem imunidade diante da lei. Nem quem abusa do poder ao aplicá-la.

 

Disputa real do PT

Enquanto é considerado sinônimo de fascismo por uma decisão judicial autoritária, Bolsonaro chega hoje, a um dia da urna, como franco favorito à corrida presidencial. Ontem, o instituto Paraná, que registrou antes de todos a disparada do capitão na reta final do primeiro turno, soltou nova pesquisa: ele tem 60,6% das intenções de votos válidos, contra 39,4% de Fernando Haddad (PT). São índices diferentes da Datafolha do dia anterior (25), que hoje divulga novas consultas a presidente e governador do Rio, assim como o Ibope. Independente dos números, tudo indica que Bolsonaro está eleito. A disputa real do PT parece ser por quanto irá perder.

 

Publicado hoje (27) na Folha da Manhã

 

Declaração de voto a presidente e governador

 

A dois dias da eleição, penso ser a hora de declarar meus votos neste domingo (28).

A presidente, farei opção inédita desde minha primeira eleição, em 1989: anularei o voto. Quem alegar que com isso delegarei minha decisão a outro: concordo! Mas, qualquer que seja, não será a minha decisão. Estou com o velho Otto Von Bismarck: “política é a arte do possível”. Mas não vejo possibilidade de votar em Jair Bolsonaro (PSL) ou Fernando Haddad (PT).

Não sou capaz de dar a anuência do meu voto ao defensor de um torturador condenado, capaz de negar a existência da ditadura militar, preconceituoso com as minorias, contrário à equidade salarial entre os gêneros, estatista convertido em liberal para fins eleitoreiros, que ameaça publicamente seus opositores políticos com exílio ou cadeia, pregador de “Deus acima de todos” e da resolução dos problemas laicos do país à bala.

Tampouco darei meu voto a um gestor público rejeitado no primeiro turno em sua tentativa de reeleição, que não é dono dos próprios votos e tem que buscá-los na porta da cadeia, por um partido que enfiou o Brasil na pior recessão econômica da sua história, cercado de protagonistas do maior escândalo de corrupção da Terra, que tem como projeto de governo o controle da imprensa, da Justiça, do Ministério Público e dos Tribunais de Contas.

Se o eleito me supreender e fizer um governo com respeito à Constituição e à democracia, que promova as reformas necessárias ao país, apoie o combate à corrupção e apresente alguma melhora nas situações calamitosas da economia e da segurança pública, me submeterei à realidade. Não tenho compromisso com o erro, só com minha consciência.

 

 

A governador, votarei em Eduardo Paes (DEM). Ele não foi minha opção no primeiro turno, como também não foi Wilson Witzel (PSC). Mas entre o que já sabia do ex-prefeito do Rio, fico com sua experiência como administrador. À parte qualquer crítica, quem frequenta a capital do Estado pode perceber claramente as melhorias físicas na cidade após a sua administração.

Pesa contra Paes sua ligação íntima com o ex-governador Sérgio Cabral (MDB), que agora alega ter sido meramente institucional. Além da delação do seu ex-secretário de Obras Alexandre Pinto sobre recebimento de propina. Em contrapartida, Witzel celebrou a destruição da placa da ex-vereadora assassinada Marielle Franco (Psol), ensinou como juiz aos colegas de toga a acumular gratificação e tem ligações no mínimo suspeitas com o advogado Luiz Carlos Cavalcanti Azenha, preso ao tentar dar fuga ao traficante Nem da Rocinha.

Se Paes tem (ou teve) o apoio de Cabral, Witzel tem o dos líderes evangélicos, incluindo o atual prefeito do Rio, Marcelo Crivella (PRB). Nada contra os evangélicos, cuja leitura teológica respeito, assim como sua valorização sociológica ao êxito profissional e econômico do indivíduo. Mas considero luciferina a promiscuidade entre política e religião, que trata eleitor como gado.

Apoio por apoio, Cabral está preso. Livre, Crivella faz péssimo governo na capital. Eleger Paes, embora difícil pela grande vantagem de Witzel, seria saudável ao equilíbrio político do Estado.

 

Instituto Paraná registra Jair Bolsonaro 60,6% a 39,4% Fernando Haddad

 

 

Instituto que registrou antes de todos o avanço final de Jair Bolsonaro (PSL) no primeiro turno, o Paraná acabou de soltar sua última pesquisa presidencial à eleição deste domingo (28): Bolsonaro tem 60,6% dos votos válidos, com 39,4% para Fernando Haddad (PT).

Os números são bem diferentes dos apresentados ontem pela Datafolha, onde o capitão ficou com 56% dos votos válidos, contra 44% do petista. Se pelo Datafolha a diferença de Bolsonaro para Haddad é de 13 milhões de votos, na Paraná essa vantagem chega a 18 milhões de eleitores. A dois dias do pleito, são números praticamente impossíveis de serem virados.

Confira a análise da pesquisa aqui.

 

Decisão arbitrária da Justiça Eleitoral associa Bolsonaro ao fascismo

 

Justica Eleitoral associou Bolsonaro ao fascismo para determinar retirada de faixa da Faculdade de Direito da UFF

 

O respeito às determinações judiciais é um dos pilares da democracia. Mas não há como se respeitar a decisão da juíza Maria Aparecida da Costa Bastos, da 199ª Zona Eleitoral (Niterói), que mandou tirar a faixa “Direito UFF Antifacista” da fachada da Faculdade de Direito da universidade. O motivo? Segundo a magistrada, seria propaganda negativa contra o candidato a presidente Jair Bolsonaro (PSL).

Além de autoritária, a decisão é dissociada de lógica. Como não havia menção na faixa a Bolsonaro, ao seu número ou partido, a magistrada simplesmente concluiu que “fascista” é sinônimo de Bolsonaro. Difícil saber se mesmo Mussolini ou Hitler tiveram tamanha pretensão. Fulanização à parte, pode se discutir o que é fascismo, não que é obrigação do estado democrático de direito se opor a ele. Obrigação reforçada para alunos de Direito — como a juíza foi um dia e talvez devesse voltar a ser.

Sou defensor da operação Lava Jato, embora crítico aos seus excessos. Entre eles, o fato do juiz Sérgio Moro ter levantando em 1º de outubro, a seis dias do 1º turno, o sigilo de uma delação de Antonio Palocci feita em abril. Recusada pelo Ministério Público e desconsiderada pelo próprio Moro no julgamento da ação penal, a delação foi divulgada com o claro objetivo político de prejudicar o PT nas urnas. E a crítica não é por simpatia ao PT, a Lula ou Haddad, mas por consciência: o que a Justiça faz com eles, pode fazer comigo.

Isso posto, se fosse alvo de uma decisão arbitrária e estúpida como a da Justiça Eleitoral de Niterói, cidade onde nasci, responderia à excelentíssima juíza: DANE-SE! E assumiria as consequências pelo desacato a uma autoridade cujo abuso não me submeto como cidadão, além da desobediência civil ao Estado policialesco e burro que estamos nos tornando.

 

Leia aqui a matéria completa

 

Ainda longe, Haddad e Paes nunca ficaram tão perto de Bolsonaro e Witzel

 

 

Charge do José Renato publicada hoje (26) na Folha

 

 

Menor diferença do 2º turno

Jair Bolsonaro (PSL) e Wilson Witzel (PSC) ainda são favoritos para se elegerem, respectivamente, presidente e governador nas eleições deste domingo (28). Mas, a dois dias das urnas, a mesma vantagem 12 pontos dos líderes é a menor que eles tiveram em todo o segundo turno. Se Fernando Haddad (PT) e Eduardo Paes (DEM) têm muito pouco tempo para tirar essa diferença ainda significativa, eles nunca estiveram tão perto dos seus adversários. Feitas na quarta (24) e quinta (25) as pesquisas Datafolha aos Palácios do Planalto e Guanabara indicam o mesmo placar nas intenções de votos válidos: 56% a 44%.

 

Conhecimento negativo

Para governador do Rio, a Datafolha de ontem repetiu os mesmos números na intenção dos votos válidos da pesquisa Ibope: Witzel 56% a 44% Paes. Na consulta presidencial deste instituto, a vantagem de Bolsonaro foi maior: 57% contra 43% de Haddad. Mas, em relação à Datafolha, é uma diferença mínima nas intenções de votos dos dois candidatos. Ao analisar a pesquisa Ibope a governador, esta coluna alertou (aqui) na quarta (24): “Solenemente ignorado pelo eleitorado fluminense até surpreender e atropelar nos últimos dias antes do primeiro turno, Witzel parece perder votos a cada dia que se torna mais conhecido”.

 

Witzel monta em Bolsonaro

Ciente do perigo de se tornar um cavalo paraguaio, Witzel conseguiu autorização para voltar a subir na sela da popularidade dos Bolsonaro. Flávio Bolsonaro (PSL) foi o campeão de votos no Estado do Rio em sua eleição a senador. E o fato dele ter participado da campanha do ex-juiz federal foi considerado fundamental para a arrancada deste na reta final das urnas de 7 de outubro. No segundo turno, Jair tinha imposto a neutralidade ao filho na eleição a governador. Mas ontem Flávio voltou atrás: “Não há porque eu não autorizar o uso de minha imagem por aqueles (Witzel) que estão pedindo voto para presidente em Jair Bolsonaro”.

 

O fator evangélico

Além do apoio do clã Bolsonaro, que vai veicular massivamente até domingo, o ex-juiz tem sua principal força eleitoral no voto evangélico. Como o Ponto Final também revelou na quarta: “nos últimos dias antes do primeiro turno, várias lideranças evangélicas fluminenses estavam na dúvida entre apoiar Witzel ou Indio da Costa (PSD). Ao fecharem pelo primeiro, dispararam mensagens de apoio no WhatsApp. Ontem (23), a revista Veja noticiou que a campanha de Witzel recebeu doação de R$ 20 mil do empresário Roberto Nishimura. Ele é dono da empresa Sinape, que tem contrato com a Prefeitura do Rio, comandada por Marcelo Crivella (PRB)”.

 

Preço do autoritarismo

Quanto à queda do líder na corrida presidencial, o diretor do Datafolha, Mauro Paulino, a creditou ontem aos “arroubos autoritários” de Jair. Antes da pesquisa Datafolha, a coluna já tinha feito esse mesmo diagnóstico: “parece ser um susto dado pelo eleitor a quem já se considera com a mão na faixa presidencial. E que, por isto, tem cometido excessos. No domingo (21), em manifestação de apoio na av. Paulista, um vídeo do capitão foi transmitido ao vivo em telão. Nele fez várias ameaças preocupantes à democracia: ‘(…) a faxina agora será muito mais ampla (…) Ou vão para fora, ou vão para a cadeia. Esses marginais vermelhos serão varridos da nossa pátria (…) Será uma limpeza nunca visto (sic) na história do Brasil’”.

 

Desculpas pedidas

Como a popularidade e o autoritarismo parecem andar juntos nos Bolsonaro, o chefe do clã foi também atingido pelas besteiras ditas por seu outro filho, Eduardo (PSL/SP), deputado federal mais votado do Brasil. O Ponto Final também as registrou: “No mesmo domingo, circulou pelas redes sociais um vídeo gravado em julho por Eduardo (…) Nele, ameaçou: ‘Se quiser fechar o STF, você não manda nem um jipe, cara, você manda um soldado e um cabo (…) O que que é o STF, cara? (…) Se você prender um ministro do STF, você acha que vai ter uma manifestação popular?’. Na segunda (22), no Jornal Nacional, Jair se desculpou pelo filho”.

 

Desculpas negadas

As desculpas pelo filho, que não pediu por suas próprias palavras, não foram aceitas por todos os eleitores de Bolsonaro. Alguns deles, inclusive, fizeram o que se julgava até aqui impossível: migraram para Haddad. É uma parte pequena, insuficiente para mudar o rumo da eleição. Mas foi emblemático. Desde que se lançou a presidente, o capitão sempre liderou nos mais ricos. E foi neles sua maior perda. Nos que ganham mais de 10 salários mínimos, ele caiu de 67% a 61% das intenções de voto, enquanto Haddad cresceu de 24% a 32%. É gente antipetista que passou a enxergar um mal maior. E, mesmo tendo dinheiro, desistiu de pagar o preço.

 

Publicado hoje (26) na Folha da Manhã

 

Chances reais de Paes e a ficção e a realidade entre Haddad e Bolsonaro

 

 

Paes passa Witzel na capital

O dia de ontem não teve novas pesquisas. A mais recente foi a Ibope divulgada na noite de terça (23). Nela, Eduardo Paes (DEM) conseguiu diminuir em oito pontos sua grande desvantagem para Wilson Witzel (PSC), ainda favorito na corrida a governador do Rio. Na quarta (24), a pesquisa foi revelada em detalhes. Paes conseguiu virar o jogo na capital. Entre os eleitores que governou, o ex-prefeito do Rio agora tem 52% nas intenções de votos válidos, contra 48% do ex-juiz federal. A vantagem de Witzel ainda é grande nos votos válidos da periferia do Rio: 60% a 40%. E mais ainda no interior do Estado: 61% a 39%.

 

A força de Fátima

Paes era considerado fora do jogo após passar ao segundo turno com apenas 19,56% dos votos, contra impressionantes 41,28% de Witzel. Mas, na nova pesquisa Ibope, o candidato do DEM conseguiu diminuir essa diferença para 12 pontos: 44% a 56%. Se conseguir a virada até o domingo (28), o que é improvável, será ainda mais surpreendente do que a arrancada do ex-juiz nos últimos dias antes do primeiro turno. Mas para isso precisará do trabalho de prefeitos aliados do interior fluminense. Na região, apenas Fátima Pacheco (Pode) conseguiu dar a vitória a Paes. Em Quissamã, ele teve 32,6% dos votos, contra 26,5% de Witzel.

 

Carla e Rafael

A força eleitoral da prefeita quissamaense não foi demonstrada por seus colegas de municípios vizinhos. Em São João da Barra, Carla Machado (PP) passou raspando, mas não impediu a vitória local de Witzel: 30,6% no primeiro turno, contra 29% de Paes. O vareio, contudo, foi nas urnas de Campos. Mesmo governado por Rafael Diniz (PPS), aliado de primeira hora de Comte Bittencourt (PPS), vice na chapa de Paes, o município mais importante da região deu 38,6% de seus votos a governador para o ex-juiz, com apenas 18,8% ao ex-prefeito do Rio. Isso mesmo depois de Paes chamar Campos, em entrevista (aqui) à Folha, de “segunda capital do Estado”.

 

Macaé de Aluizio

Em Macaé, outro município considerado polo na região, a “coça” de Witzel foi ainda maior: 38,2% dos votos, contra 16% de Paes. Mas, ao que consta, o prefeito Dr. Aluizio não apoiou ninguém a governador. Circula nos bastidores que ele estaria desiludido com a política e teria deixado o MDB, ainda sem nova legenda. Seu apoio na eleição de 7 de outubro teria se resumido ao delegado de Polícia Federal Felício Laterça (PSL). Mas este acabou eleito deputado federal muito mais pela onda de Jair Bolsonaro (PSL), do que por influência do prefeito macaense.

 

Efeito “Sadim”

Dr. Aluizio enfrenta problemas na Câmara Municipal. Líder da oposição, Maxwell Vaz (SD) luta para implantar a CPI da Saúde em Macaé. A coisa é pior pelo fato de o prefeito ser médico. Ao que parece, seu diagnóstico não foi correto, sobretudo na escolha de certos assessores. Na mídia regional, se submeteu a quem antes criticava abertamente por chantageá-lo. É o mesmo tipo de “apoio” caça-níqueis que já afundou o ex-prefeito de Campos Alexandre Mocaiber, além de Caio Vianna (PDT), derrotado nas urnas para deputado federal. Pelo toque de Midas às avessas, é o tipo de profissional mais conhecido no meio jornalístico como “Sadim”.

 

Mano Brown

Enquanto a disputa ao governador se desenvolve em suas nuances regionais, a presidencial teve mais uma confissão pública de derrota do PT. Desta vez, ainda mais constrangedora do que Cid Gomes já havia feito em Fortaleza, no dia 16. Na noite de terça (23), sob os Arcos da Lapa do Rio e diante de Fernando Haddad, o rapper Mano Brow admitiu: “Tem, sei lá, quase 30 milhões de votos para alcançar aí. Não temos nem expectativa nenhuma para alcançar, para diminuir essa margem. (…) Se, em algum momento, a comunicação do pessoal daqui falhou, vai pagar o preço (…) Se não tá conseguindo falar a língua do povo, vai perder mesmo”.

 

Ficção e realidade

Ainda na ressaca da noite anterior, o dia de ontem trouxe mais constrangimento à campanha de Haddad. A perícia policial sobre a suástica nazista marcada no ventre de uma gaúcha de 19 anos, atribuída a eleitores de Bolsonaro, indicou automutilação. Já sobre a realidade, ontem o jornalista Elio Gaspari escreveu: “Bolsonaro já prometeu mais de uma dezena de providências que dependem de reformas constitucionais. Elas precisam do voto de três quintos da Câmara e do Senado (…) o PSL não os tem. Como pretende consegui-los, é outra história. Admitindo que os consiga, será o jogo jogado (…) Se não conseguir, vem aí uma crise anunciada”.

 

Publicado hoje (25) na Folha da Manhã

 

Elio Gaspari — Quem não quis afundar o país no AI-5 ecoa para 2019

 

 

 

Elio Gaspari, jornalista e escritor

“Não quero ter parte nisso”

Por Elio Gaspari

 

Na noite de domingo o Brasil terá escolhido um novo presidente da República. O resultado virá da vontade dos eleitores e, seja qual for o voto que se tenha dado, cada um deles terá parte no que vier a acontecer. Milhões de pessoas que votaram em Dilma Rousseff ou em Aécio Neves tiveram motivos para se arrepender mas, como hoje, era um ou outro. O arrependimento acompanhou também os eleitores de Fernando Collor em 1989 e de Jânio Quadros em 1960. Nenhum deles elegeu-se sugerindo medidas que pudessem prenunciar uma ameaça às instituições democráticas.

O caso agora é outro. O deputado Eduardo Bolsonaro tratou de uma situação hipotética de conflito com o Supremo Tribunal Federal e disse que bastariam um cabo e um soldado para fechá-lo. Um general da reserva, eleito deputado federal pelo PSL depois de ocupar a Secretaria de Segurança de Natal, defendeu o impeachment e a prisão de ministros do Supremo: “Não tem negociação com quem se vendeu.” Antes dele, um general da reserva que disputaria sem sucesso um cargo eletivo disse que “Corte que muda de decisão para beneficiar criminoso não é Corte, é quadrilha”.

O general Hamilton Mourão, também da reserva e candidato a vice-presidente na chapa de Bolsonaro, elaborou sobre o mecanismo do “autogolpe”. Noutra digressão, mencionou as virtudes de uma Constituição redigida por sábios e ratificada num plebiscito. Jair Bolsonaro prometeu o fim do “ativismo” e anunciou que “os marginais vermelhos serão banidos da nossa pátria”. Como?

Essas foram afirmações de candidatos, feitas em diferentes contextos, às vezes partindo de situações hipotéticas. Não se deve esquecer que o deputado petista Wadih Damous, numa argumentação que nada teve a ver com a retórica bolsonarista, já sugeriu “fechar o Supremo Tribunal Federal” para criar uma Corte Constitucional. O doutor foi um dos marqueses da OAB.

Bolsonaro já prometeu mais de uma dezena de providências que dependem de reformas constitucionais. Elas precisam do voto de três quintos da Câmara e do Senado. Serão necessários 308 dos 513 deputados e 49 dos 81 senadores. Mesmo tendo formado a segunda maior bancada da Câmara, o PSL não os tem. Como pretende consegui-los, é outra história. Admitindo que os consiga, será o jogo jogado, e a vida seguirá. Se não conseguir, vem aí uma crise anunciada.

O eleitor ficou entre a cruz e a caldeirinha. Até o dia da posse, tudo será encanto e sedução. Como ensinou Marco Maciel, “as consequências vêm depois”. A essência da questão está na parte que caberá a cada um quando elas chegarem.

Marechal Cordeiro de Farias

Há casos em que o cidadão tem que traçar a linha que não atravessará. No dia 29 de maio de 1966, o marechal Cordeiro de Farias entrou no gabinete do presidente Castelo Branco. Ele acabara de capitular diante da candidatura do ministro da Guerra, Artur da Costa e Silva, e Cordeiro era o seu ministro do Interior. Aos 65 anos, estivera em todas as encrencas militares da primeira metade do século, da Coluna Prestes à deposição de João Goulart. Como general, comandou a Artilharia Divisionária da FEB na Itália.

No encontro, Cordeiro disse ao presidente: “Você é generoso com o Costa e Silva, eu sou justo. Você sabe que ele vai afundar o país, pois é incapaz, e eu não quero ter parte nisso.”

Cordeiro deixou o ministério e foi para casa. Costa e Silva assumiu em 1967 e afundou o país em 1968, baixando o Ato Institucional nº 5.

Numa manhã de agosto de 1976, em cena emocionante, o velho marechal entrou, de bengala, no saguão onde se velava o corpo de Juscelino Kubitschek. Doze anos antes, havia votado pela sua cassação, mas não teve parte na ascensão de Costa e Silva.

 

Publicado aqui em O Globo

 

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