Opiniões

Guarda municipal flagrado em agressão no Jardim São Benedito

 

Nesta tarde, no Jardim São Benedito, um guarda civil municipal foi flagrado em agressão física a um homem. Aparentando descontrole emocional e usando de palavras de baixo calão, o agente de segurança ficou contrariado porque o homem, identificado como Yann Maia, que afirmou ser morador de Brasília, não obedeceu sua ordem arbitrária de ficar “de boca fechada”.

Um estudante do IFF, que estava no local, filmou com o celular o ocorrido. Segundo ele, os guardas ameaçaram apreender seu celular se ele não apagasse o vídeo. O advogado do Grupo Folha, João Paula Granja, afirmou que isso seria inconstitucional. O caso chegou a ser encaminhado à 134ª DP, mas não houve registro.

Comandante da Guarda Civil Municipal de Campos, Fabiano Mariano retornou à tentativa de contato do blog. Ele afirmou que assitirá ao vídeo e, se constatar qualquer equívo na conduta do seu agente, será caso de averiguação. Para isso, se dispôs a receber pessoalmente o agredido ou as pessoas que testemunharam e filmaram a agressão, para formalização da denúncia na Guarda. “Mas posso garantir que qualquer atitude agressiva não é a orientação do comandante ou da insituição. A finalidade dos agentes da Guarda é atender aos munícipes”, disse Mariano.

Confira abaixo o vídeo da discussão e agressão:

 

 

 

Fatos fecham cerco sobre Flávio e forçam Jair a optar: Brasil ou o filho?

 

 

Charge do José Renato publicado hoje (23) na Folha

 

 

“Petistas de sinal trocado”

Não se trata de perseguição da imprensa. Tampouco dos “esquerdistas”, como são chamados todos os que cobram explicações sobre as relações cada vez mais indefensáveis do senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL), filho mais velho do presidente. Mesmo que quem agora cobre, jornalista ou cidadão, antes tenha feito a mesma coisa sobre os escândalos de corrupção nos governos do PT. A lógica dos fatos parece não importar aos bolsonaristas bem definidos como “petistas de sinal trocado” por Janaína Paschoal. Deputada estadual paulista pelo PSL, legenda do clã Bolsonaro, ela foi autora do pedido de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

 

O foro “porcaria”

Já estava muito difícil se defender das revelações do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Não só sobre as movimentações atípicas de R$ 7 milhões do PM Fabrício Queiroz, quando era assessor de Flávio na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) — incluindo um repasse de R$ 24 mil para a atual primeira dama Michelle Bolsonaro. Ficou ainda pior com a tentativa de buscar foro privilegiado no Supremo Tribunal Federal (STF), antes chamado de “porcaria” em vídeo por Jair e Flávio. E sem razão, já que os fatos se deram quando o primogênito do presidente era deputado estadual, não senador.

 

Sonegação ou lavagem de dinheiro?

O Coaf também revelaria 48 depósitos em nome de Flávio, no valor de R$ 2 mil cada, entre junho e julho de 2017, totalizando R$ 96 mil. Em entrevista, o senador disse se tratar de parte da quitação de um imóvel, mas não explicou porque isso foi feito em dinheiro vivo. Os motivos podem ser dois: ou o vendedor quis ocultar ganho de capital para driblar o Imposto de Renda, ou não pôde declarar a origem dos valores. No primeiro caso, seria crime de sonegação fiscal. No segundo, de lavagem de dinheiro. Líder do MBL, deputado federal e ícone jovem da direita, Kim Kataguiri declarou sobre o caso: “Não existe defesa plausível para Flávio Bolsonaro”.

 

Elo com milícias

Não bastasse, ontem foi revelado que Flávio empregou em seu gabinete na Alerj, até novembro do ano passado, a mãe e a esposa do ex-capitão do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega, apontado como líder da milícia “Escritório do Crime”. A organização criminosa é suspeita da execução da ex-vereadora carioca Marielle Franco (Psol) e do motorista Anderson Gomes, em 14 de março de 2018. Adriano, que está foragido, já foi homenageado por Flávio na Alerj. E Queiroz, após as primeiras revelações do Coaf, se escondeu por duas semanas na favela do Rio das Pedras, na Zona Oeste do Rio, área dominada pelo Escritório do Crime.

 

Na Suíça

Enquanto o cerco se apertava sobre seu filho, Jair Bolsonaro ontem fez o discurso de abertura no Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça. Tinha 45 minutos, mas usou apenas oito. E foi bastante criticado pela imprensa internacional. Sua fala chegou a ser classificada como “enorme fiasco” pela jornalista Heather Long, do Washington Post. Mas teve um ponto positivo, ao marcar a prevalência do pragmatismo comercial do ministro da Economia Paulo Guedes sobre os delírios contra o “globalismo” do chanceler Ernesto Araújo. Foi o que o presidente fez ao defender o multilateralismo da Organização Mundial do Comércio (OMC).

 

Brasil ou o filho?

Quando voltar ao Brasil, Bolsonaro pode ter que optar entre o que prometeu ao país durante a campanha, ou tentar salvar seu filho. Se a opção for a primeira, ele terá que seguir o conselho do seu ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional. Líder inconteste do núcleo militar da administração federal, o general Augusto Heleno já advertiu o capitão para afastar os seus três filhos do governo. Se a opção for tentar salvar o mais velho, que ninguém duvide: Renan Calheiros (MDB) será novamente presidente do Senado Federal. Em troca, ele tentará fazer por Flávio o que a Câmara Alta da República fez no passado por Aécio Neves (PSDB).

 

Samurai

Quem cobre o cenário político fica mais atento ao Diário Oficial no início de governo. Afinal, entre as nomeações podem aparecer indicativos de alianças políticas. No entanto, o que chamou atenção da imprensa no DO do Rio de Janeiro ontem não foi nenhuma atribuição para cargo público. O governador Wilson Witzel (PSC) sancionou a lei que estabelece 24 de abril como Dia Estadual do Samurai. O projeto é do deputado Wanderson Nogueira (Psol) e foi aprovado pela Alerj no dia 20 de dezembro. Nada contra samurai nenhum, mas o Estado do Rio tem muitos assuntos mais importantes para discutir.

 

Com o jornalista Arnaldo Neto

 

Publicado hoje (23) na Folha da Manhã

 

Com condenação de Nolita e outros torturadores, Estado se impõe ao crime

 

 

Charge de José Renato publicada hoje (22) na Folha

 

Estado se impõe sobre o crime

Enquanto o Ceará sofre com ações terroristas do crime organizado, em Campos o poder do Estado prevaleceu sobre o terror da bandidagem. Apontado como chefe do tráfico no Parque Santa Rosa, em Guarus, Francio da Conceição Batista, o Nolita, foi condenado a 22 anos e oito meses de prisão, pelos crimes de tortura e corrupção de menor. Em 28 de fevereiro do ano passado, ele estava em casa, onde já cumpria prisão domiciliar. Ainda assim, por telefone, comandou uma sessão de tortura contra uma menor de 17 anos. Ela teve a cabeça raspada, foi agredida a pauladas e teve o cano de um arma apontado para sua boca e órgãos genitais.

 

Barbárie

Por terem cumprido as ordens de Nolita na tortura da menor, Jhony Cândido Barreto, Diego Alves da Iva, Fabiano da Silva dos Santos, Romário Soares Armando e Paulo Victor Fernandes também foram sentenciados. O acinte do poder dos bandidos sobre a comunidade era tanto que Jhony decidia quem poderia estudar ou não no Ciep do Santa Rosa. Condenado a 20 anos de prisão, ele agora só poderá dar ordens dentro da sua cela. Os outros quatro cumprirão 12 anos em regime fechado. O motivo para a barbárie contra a menor? Ela residia na comunidade conhecida como “Sovaco da Cobra”, dominada por uma facção rival dos seus torturadores.

 

Terror só aos seus

A violência em Guarus explodiu em 2018, quando Nolita recusou a união entre as duas facções. Em 8 de março do ano passado, ele foi preso. Ao entrar algemado na caçamba do camburão, o bandido se proclamou “o terror de Fiúza”.  A referência foi a André Fiúza, apontado como chefe do tráfico da Tira Gosto, que já estava preso. Marra à parte, Nolita mentiu. Como os criminosos que infernizam o povo do Ceará, ele era o terror apenas da sua própria comunidade. Com suas forças de Segurança, mas também ações sociais, o Estado tem que se impor sobre essa gente. Se fosse na Pelinca, isso teria ocorrido há muito mais tempo.

 

Wladimir e Bruno

Dada como certa, a transferência do deputado federal Wladimir Garotinho e do estadual Bruno Dauaire, do PRP pelo qual foram eleitos ao PSC do governador Wilson Witzel, só espera a posse dos dois jovens parlamentares em 1º de fevereiro. Ambos formaram uma dobradinha vitoriosa na urnas de outubro. A parceria remonta 2014, quando Wladimir foi preterido pelo próprio pai, o ex-governador Anthony Garotinho, e em resposta elegeu Bruno pela primeira vez à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). Garotinho, como de hábito, vai sair do PRP e trocar mais uma vez de legenda, mas disse que não será para o PSC.

 

E Genásio?

Outro que deve sair do PRP é o deputado estadual Renato Cozzolino, que como Bruno também se reelegeu ao cargo. Seu destino deve ser o PR do vereador Marcão Gomes, que fez mais votos que Wladimir a deputado federal, mas acabou não se elegendo. Com isso, o PRP perderia os dois parlamentares que elegeu à Alerj, cumprindo sua sina de legenda de aluguel. Após servir ao naufrágio da candidatura de Garotinho a governador, o partido pode acabar na base do prefeito Rafael Diniz (PPS). Líder da sua bancada na Câmara de Campos, o vereador Genásio é que ficaria em situação ruim. Ele é do PSC que espera Wladimir e Bruno.

 

Transporte

A confiança em um novo sistema de transporte em Campos, que seja eficiente, muitas vezes esbarra na realidade de antigos problemas. Na última semana a Viação MMM, que operava no município em caráter emergencial nas linhas de Morro do Coco, Santa Maria, Espírito Santinho e Santo Eduardo, abandonou o serviço. Atendendo a um pedido da Prefeitura, a Auto Viação São João voltou a circular nas linhas do norte do município. No entanto, espera uma reavaliação quanto às condições para operação, pois considera o prestação de serviço insustentável. A promessa da Prefeitura é de um novo sistema de transporte em abril.

 

Mobilidade

A cada dia se percebe o agravamento das sérias dificuldades na questão do trânsito em Campos. Na área central, a fluidez que já era difícil tornou-se péssima com a instalação de vagas para estacionamento em vários pontos.  A mobilidade urbana é uma das principais preocupações do brasileiro, colocada atualmente como política pública tão importante quanto saúde, segurança e educação. Todavia, a cidade dormiu sobre os royalties do petróleo e não contou, nos últimos anos, com investimentos proporcionais à importância do problema.

 

Com os jornalistas Paulo Renato Porto e Arnaldo Neto

 

Publicado hoje (22) na Folha da Manhã

 

Favorito a presidente da Alerj, petista ensina esquerda sobre mundo real

 

 

Dias Toffoli antes

Recusado duas vezes em concurso público para juiz de primeira instância em São Paulo, o saber jurídico nunca foi o forte do atual presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Dias Toffoli. Não é novidade a ninguém que ele só chegou lá por ter sido advogado do PT e depois advogado geral da União no governo Luiz Inácio Lula da Silva, que em 2009 o indicou ao STF. De lá para cá, sempre foi visto como um ministro de decisões contrárias aos interesses da maioria da população brasileira, ao lado de Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski e Marco Aurélio Mello.

 

Dias Toffoli depois

A despeito das suas limitações, após chegar à presidência do STF em setembro de 2018, Dias Toffoli parece ter compreendido a gravidade do cargo, em momento delicado do país. E até aqui, parece estar agindo de acordo com a importância do novo papel. Foi o que fez em 19 de dezembro, ao suspender mais uma liminar açodada de Marco Aurélio, que contrariava decisão colegiada do próprio STF, na tentativa de soltar todos os presos após condenação em segunda instância. Entre eles Lula, encarcerado desde 7 de abril por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Pela decisão, Toffoli foi duramente criticado pelos petistas que o viam como aliado.

 

Evo antes e depois

Outro exemplo recente de adequação ao novo cenário foi dado pelo presidente boliviano Evo Morales. Apesar de se perpetuar no poder desde 2006, como um dos principais nomes do bolivarianismo na América do Sul, o índio uru-aimará foi à posse presidencial de Jair Bolsonaro (PSL). E para confirmar que prefere o jogo jogado ao jogo para a galera das ideologias, Evo ainda expulsaria da Bolívia o terrorista italiano Cesare Battisti, antes tratado como exilado político pelos governos do PT no Brasil, mesmo condenado por quatro assassinatos em seu país. Da esquerda à direita, a Itália inteira agradeceu pela chance de finalmente fazer justiça.

 

Ceciliano

Guardadas as proporções devidas, o mesmo pragmatismo de Toffoli e Morales pode ser observado também no deputado estadual André Ceciliano (PT). Presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) por força das circunstâncias, é agora o favorito a permanecer no cargo na eleição da nova mesa diretora da Casa. Nela, terá papel fundamental nos muitos desafios que aguardam os fluminenses sob a nova gestão do governador Wilson Witzel (PSC). Para ajudar a superá-los, Ceciliano aposta na retomada da produção de petróleo na Bacia de Campos, como revelou em entrevista (aqui) nas duas páginas anteriores desta edição.

 

Mundo real

Na entrevista à Folha, Ceciliano chegou a apostar na candidatura única à presidência da Alerj. Prefeito duas vezes de Paracambi e deputado estadual em quarto mandato, sempre foi filiado ao PT. Supor que alguém do partido de Lula pudesse estar à frente do Legislativo fluminense, seria impensável após as urnas de outubro revelarem o massacre promovido no Estado pelo bolsonarismo. Contra a maioria esmagadora de 12 deputados estaduais eleitos pelo PSL, tudo indica que o petista vencerá não pela radicalidade, mas na conciliação. Toffoli, Morales e Ceciliano podem não ser brilhantes, mas têm muito a ensinar à esquerda sobre o mundo real.

 

Em alta

A praia de Atafona, em São João da Barra, sempre foi um dos destinos mais procurados na alta temporada pelos campistas. E isso parece não ter mudado. O movimento é intenso no litoral, especialmente aos fins de semana. O comércio só tem a agradecer. Para se ter uma ideia, no tradicional restaurante do Ricardinho, por exemplo, tem cliente tentando reservar mesa, já que corre risco de chegar ao local, especialmente aos sábados e domingos, e não encontrar lugar disponível.

 

Faz sucesso

E não são só os bares e restaurantes que estão faturando. Os vendedores ambulantes aproveitam a oportunidade. Seja nos shows que acontecem no Balneário ou nos locais mais movimentados para vender de tudo: do tradicional picolé a artigos de artesanato, panelas, redes, entre outros produtos. No entorno da igreja e no trevo, além dos pescadores locais, alguns de Gargaú aproveitam para vender peixes e caranguejo. Aliás, o crustáceo faz sucesso na praia. É melhor acordar cedo, porque quem deixar para comprar depois das 11h dificilmente vai encontrar um produto de qualidade.

 

Com o jornalista Arnaldo Neto

 

Publicado hoje (20) na Folha da Manhã

 

Artigo do domingo — De Lula a Flávio, a história do princípio ao fim

 

 

A história do princípio ao fim

 

Um parlamentar nomeia assessores, muitas vezes “fantasmas”, que devolvem a ele grande parte dos seus salários no dia do pagamento, ou nos dias úteis seguintes. Isso é o que se chama de “rachadinha”.

Empreiteiras simulam concorrência com preços superfaturados para uma grande obra da Petrobras. Parte do sobrepreço é repassada pelas construtoras aos diretores da estatal indicados politicamente. Estes subtraem suas comissões e repassam o grosso do dinheiro ao partido do governo e aliados. Isso foi o que se chamou de “Petrolão”.

Entre os dois casos, o que muda são só os valores. Mas o esquema de desvio de dinheiro público para manutenção do poder político é basicamente o mesmo. E ambos são criminosos.

Pode parecer distante para quem começou a relativizar a lei e a moral a partir dos sucessivos escândalos de corrupção nos governos do PT. Mas para quem viveu antes deles e não padece de memória seletiva, é possível se lembrar do próprio Lula pregando no final dos anos 1980 uma maneira diferente de governar o Brasil:

— Primeiro, nós vamos provar que você pode colocar tranquilamente corrupto na cadeia. Lugar de ladrão é na cadeia. No Brasil, predomina a teoria de que é preciso levar vantagem em tudo. E nós precisamos mudar isso. E vamos mudar isso dando exemplo. E dar exemplo significa acabar com a impunidade. O pequeno, nós sabemos que às vezes rouba para comer, mas o grande rouba de sem vergonha. E esse nós precisamos colocar na cadeia. É assim que a gente vai mudar o Brasil.

Lula está preso por corrupção passiva e lavagem de dinheiro desde 7 de abril, condenado em segunda instância no caso do triplex do Guarujá. É réu em mais seis ações penais. Em uma delas, conhecida como “quadrilhão do PT”, foram divulgados no correr da semana trechos da delação do seu ex-ministro Antonio Palocci. Segundo ele, Lula recebia propina em dinheiro vivo da Odebrecht.

Antes da prática revelada no exercício do poder, o discurso do Lula dos anos 1980 não é muito diferente das propostas contra a corrupção apresentadas no programa de governo de Jair Bolsonaro em 2018:

— O Brasil passará por uma rápida transformação cultural, onde a impunidade, a corrupção, o crime, a “vantagem”, a esperteza, deixarão de ser aceitos como parte de nossa identidade nacional, POIS NÃO MAIS ENCONTRARÃO GUARIDA NO GOVERNO.

Depois de eleito e de Sérgio Moro, responsável pela prisão de Lula como juiz federal, ser escalado como novo ministro da Justiça e Segurança do seu governo, Bolsonaro mandou recado:

— Ele (Moro) vai ter toda a liberdade para combater a corrupção e o crime organizado. Combate como? Seguindo o dinheiro. Vamos ter um braço da Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) dentro do ministério da Justiça.

Curiosamente, antes mesmo de passar à tutela de Moro, o Coaf revelou em dezembro que, quando era assessor do então deputado estadual Flávio Bolsonaro (PSL), hoje senador, Fabrício Queiroz teve a movimentação atípica de R$ 1,2 milhão. Entre eles, um cheque de R$ 24 mil destinado à atual primeira dama, Michelle Bolsonaro.

A análise da movimentação de Queiroz revelou que funcionários do gabinete de Flávio repassavam até 99% dos seus salários. Cerca de 57% dos depósitos na conta de Queiroz ocorriam no dia do pagamento da Alerj, ou até três dias úteis depois.

Apesar da gravidade, Queiroz faltou a dois depoimentos no Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ), em 19 e 21 de dezembro. No dia 30 do mesmo mês, ele se internou no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, para retirada de um câncer no intestino. Um vídeo dele dançando alegremente no hospital, que teria sido filmado no dia 31, viralizou nas redes sociais. Por sua vez, Flávio também faltou ao seu depoimento no MP sobre o caso, em 10 de janeiro.

Diante do estranho silêncio, o procurador-geral de Justiça do Rio, Eduardo Gussem, disse no dia 12 que pode oferecer denúncia contra Queiroz sem ouvi-lo. Segundo ele, “as provas são consistentes”. Ao não comparecer no MP-RJ, Flávio alegou corretamente que ele não é investigado. Mas foi um pedido seu ao Supremo Tribunal Federal (STF), concedido na quarta (16) pelo ministro Luiz Fux, que suspendeu as investigações. A justificativa foi esperar que o relator do caso no STF, ministro Marco Aurélio Mello, se pronuncie.

Na sexta (18), antes mesmo de julgar o pedido de Flávio, Marco Aurélio adiantou: “Tenho negado seguimento a reclamações assim, remetendo ao lixo”. Na noite do mesmo dia, o que era feio ficou pior depois que o Jornal Nacional revelou que o Coaf também identificou 48 depósitos em nome de Flávio, todos no valor padronizado de R$ 2 mil cada, entre junho e julho de 2017, totalizando R$ 96 mil.

Antes da nova revelação do Coaf, o filósofo Olavo de Carvalho, responsável pela indicação de uma figura como Ernesto Araújo ao ministério das Relações Exteriores, soltou uma nota em defesa de Flávio:

Em anúncio no Estado de São Paulo, nos anos 1980, Olavo de Carvalho oferece curso de astrólogo

— Façam as contas. 27 mil reais por mês são quantia anormal na conta de um vendedor de carros? Puta merda, até quando a malícia pueril será o supremo juiz da moralidade nacional? O caso do Queiroz é um factoide ridículo, forçado, artificioso; inventado só para queimar a reputação do Flávio Bolsonaro. Não merece dois minutos de atenção numa rádio do interior. O que merece atenção e merece ser denunciado, isto sim, é a operação midiática que o criou.

Antes de ganhar fama como filósofo e de se tornar o caminho, a verdade e a vida para parte da direita brasileira, Olavão militou como astrólogo profissional. Talvez por isso sua “defesa” do filho mais velho do presidente seja endossada por Raul Seixas, na música “Al Capone”. Na letra, após aconselhar personagens históricas a escaparem do destino trágico, o rockeiro baiano canta ao final: “Eu sou astrólogo/ Eu sou astrólogo/ Vocês precisam acreditar em mim/ Eu sou astrólogo/ Eu sou astrólogo/ E conheço a história do princípio ao fim”.

 

 

Publicado hoje (20) na Folha da Manhã

 

Vaidade por ser traído nas redes sociais, Flávio Bolsonaro, Lula e Dilma

 

 

Barbárie nas redes sociais

Era 2015 quando o semiólogo e escritor italiano Umberto Eco advertiu: “As redes sociais deram voz aos idiotas”. No Brasil, o fenômeno explodiu de vez nas eleições presidenciais de 2018, quando amigos e familiares romperam relações reais pelas posições políticas opostas no mundo virtual. Norte e Noroeste Fluminense não são exceções nessa disseminação de ódio. Mas poucas coisas revelaram a banalização da barbárie humana quanto os vídeos gravados na zona rural de Itaperuna, que ontem viralizaram nas redes sociais. Neles, Antônio Paulo Castilho Cardoso, de 38 anos, tortura sua esposa, Priscila Gonçalves, de 35, por infidelidade conjugal.

 

Vaidade de quê?

Desde o início da história, e antes dela, os crimes passionais sempre estiveram entre os mais cruéis. A traição em qualquer sociedade monogâmica é tabu e traumatiza quem se descobre traído. Mas expor isso abertamente, sem vergonha pela própria condição ou respeito à humanidade de quem traiu, extrapola qualquer exagero de quem costuma se exibir em selfies e vídeos nas redes sociais, em mendicância de curtidas. O Lúcifer encarnado por Al Pacino lembra na última fala do filme “Advogado do Diabo” (1997): “De todos os pecados que eu inventei, a vaidade sempre foi o meu preferido”. Mas qual a vaidade em se exibir como traído?

 

Sadismo

Num dos vídeos, Antônio Paulo extrai de Priscila uma confissão de infidelidade. No outro vídeo, ele filma a esposa em prantos, jogada no meio do mato, na escuridão da noite iluminada pelos faróis do carro. Ele expõe a face da mulher, revela-lhe o nome e a acusa de tê-lo traído. A esbofeteia no rosto já marcado e diz: “Mas eu amo ela”. Depois, expõe as nádegas da esposa e a golpeia 13 vezes, aparentemente com uma vara. Os vídeos teriam sido gravados na segunda (14) e viralizaram nas redes sociais da região. Pelo crime bárbaro contra a companheira de 16 anos, mãe de seus dois filhos, o agressor sádico foi preso na quinta (17).

 

Quem?

As feministas são criticadas por quem é contrário ao que se chama “politicamente correto”. E pregar, por exemplo, que homens não têm direito a opinar sobre questões como o aborto, só contribui para segregar os dois gêneros da mesma espécie, igualmente necessários à sua reprodução. Mas ver no Brasil a preocupante sucessão de casos em que homens tratam suas companheiras, ou ex, como posse, afronta tudo aquilo que deveria nos separar dos demais animais. Esse patriarcado irracional já era arcaico há dois mil anos, quando Cristo desafiou os que investiam contra uma adúltera: “quem não tiver pecado, atire a primeira pedra”.

 

Tiro no pé

Como advertiu ontem a coluna, se fecha o cerco sobre o senador Flávio Bolsonaro (PSL). O filho mais velho do presidente é cada vez mais suspeito da prática da “rachadinha” — recebimento criminoso dos salários de assessores parlamentares — quando era deputado estadual do Rio. E sua tentativa de recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF), na busca do foro privilegiado por ter sido eleito ao Senado, se revelou um tiro no pé. Pareceu confissão de culpa. Impressão reforçada pelo relator do caso no STF, ministro Marco Aurélio Mello, que ontem declarou: “Tenho negado seguimento a reclamações assim, remetendo ao lixo”.

 

Tiro de misericórdia?

Não bastasse o desespero de se apelar ao foro privilegiado que o clã Bolsonaro sempre criticou, o plenário do STF já havia definido que o recurso só cabe a crimes cometidos no cargo ou relativos a ele. Já não era o caso da movimentação atípica de R$ 1,2 milhão do ex-assessor de Flávio, o PM Fabrício Queiroz, revelada em dezembro pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Mas o que era feio ficou ainda pior depois que o Jornal Nacional revelou na noite de ontem: o Coaf também identificou 48 depósitos em nome de Flávio, todos no valor padronizado de R$ 2 mil cada, entre junho e julho de 2017, totalizando R$ 98 mil.

 

Questão de fé

Também ontem foram revelados trechos do depoimento do ex-ministro Antonio Palocci à Lava Jato. Nele, o outrora medalhão do PT piorou a situação dos dois ex-presidentes eleitos pelo partido. Sobre Luiz Inácio Lula da Silva, preso desde 7 de abril por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, revelou que recebia propina em dinheiro vivo da Odebrecht. Sobre Dilma, ré desde novembro no caso conhecido como “quadrilhão do PT”, Palocci afirmou que ela “deu corda” para que Lava Jato implicasse Lula. O objetivo era enfraquecê-lo na tentativa de voltar a concorrer à presidência em 2014. Crer na inocência de ambos é acreditar na de Flávio.

 

Publicado hoje (19) na Folha da Manhã

 

Honestidade do clã Bolsonaro depende da investigação do caso Queiroz

 

 

Honestidade à prova

Até para confirmar a honestidade do clã Bolsonaro, como apregoam com entusiasmo seus muitos defensores, a investigação sobre o PM Fabrício Queiroz deve ir até o fim. Foi isso que pregou o ex-juiz federal e atual ministro da Justiça e Segurança, Sérgio Moro, em entrevista à Globo News na última terça (15). Em dezembro, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) revelou que, quando era assessor do então deputado estadual Flávio Bolsonaro (PSL), hoje senador, Queiroz teve a movimentação atípica de R$ 1,2 milhão. Entre eles, um cheque de R$ 24 mil destinado à atual primeira dama, Michelle Bolsonaro.

 

Furna da Onça

Chamado pelo pai de 01, o filho mais velho do presidente não é o único envolvido nas investigações do Ministério Público do Estado do Rio (MP-RJ). Órgão que Moro exigiu sob seu controle para fortalecer o combate ao crime como ministro de Bolsonaro, o Coaf trouxe em seu relatório movimentações financeiras estranhas de pelo menos 28 funcionários da Alerj. Os documentos foram anexados pelo MP-RJ à investigação que originou a operação Furna da Onça, que também em dezembro levou à prisão 10 deputados estaduais fluminenses.

 

“Rachadinha”?

Como Bolsonaro baseou sua campanha eleitoral na oposição aos escândalos de corrupção do PT, o nome do seu filho e sua esposa na investigação criminal sobre o ex-assessor do primeiro, chamou a atenção nacional ao assunto. A análise da movimentação de Queiroz revelou que funcionários do gabinete de Flávio repassavam até 99% dos seus salários. Cerca de 57% dos depósitos na conta de Queiroz ocorriam no dia do pagamento da Alerj, ou até três dias úteis depois. A Polícia Federal suspeita da “rachadinha”, prática criminosa na qual assessores muitas vezes “fantasmas” repassam parte de seus vencimentos ao parlamentar que os contratou.

 

Jogos diferentes

No jogo para a galera, Bolsonaro apelou à ligação direta das redes sociais que o elegeram para afirmar em vídeo: “Se algo estiver errado, que seja comigo, com meu filho, com o Queiroz, que paguemos a conta desse erro”. No jogo jogado, Queiroz já faltou a dois depoimentos no MP-RJ, em 19 e 21 de dezembro. No dia 30 do mesmo mês, ele se internou no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, para retirada de um câncer no intestino. Um vídeo dele dançando alegremente no hospital, que teria sido filmado no dia 31, viralizou nas redes sociais. Por sua vez, Flávio também faltou ao seu depoimento sobre o caso, em 10 de janeiro.

 

 

STF atende Flávio

Diante do estranho silêncio sobre o caso, o procurador-geral de Justiça do Rio, Eduardo Gussem, disse no dia 12 que pode oferecer denúncia contra Queiroz sem ouvi-lo. Segundo ele, “as provas são consistentes”. Ao não comparecer no MP-RJ, Flávio alegou corretamente que ele não é investigado. Mas foi um pedido seu ao Supremo Tribunal Federal (STF), concedido na quarta (16) pelo ministro Luiz Fux, que suspendeu as investigações. A justificativa foi esperar que o relator do caso no STF, ministro Marco Aurélio Mello, se pronuncie. O mesmo que, antes das férias, tentou soltar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) da cadeia.

 

Diálogo

O prefeito Rafael Diniz (PPS) recebeu ontem o presidente da Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL) de Campos, Orlando Portugal, e demais membros da diretoria. No encontro foi garantindo o constante diálogo entre a Prefeitura e a entidade, na busca de soluções conjuntas neste momento de crise. Portugal também apresentou ao governo uma pauta de vários serviços e Rafael afirmou que estará buscando atender as demandas: “Dentro das nossas possibilidades, tentaremos resolver. Mas a principal mensagem do encontro é manter o diálogo constante na busca de soluções, promovendo o desenvolvimento econômico de nossa cidade e, mais do que isso, o fortalecimento do comércio local”.

 

Prioridade

Primeiro foi a visita do secretário estadual de Desenvolvimento Econômico e Geração de Emprego e Renda, Lucas Tristão, depois a afirmação do governador Wilson Witzel (PSC), em Campos, sobre a necessidade de conclusão da obra da ponte da Integração, entre São João da Barra e São Francisco de Itabapoana. Agora, o novo presidente do Departamento de Estradas de Rodagem (DER) informou que vai fiscalizar a obra de perto, nas próximas semanas, e assegurou que não haverá paralisação. Contudo, não adianta elencar a obra como prioritária se não houver a liberação, logo, de R$ 6 milhões. Este é o mínimo, segundo representantes da empresa, para que não ocorra a paralisação total do serviço, inclusive com a desmobilização do canteiro.

 

Com o jornalista Arnaldo Neto

 

Publicado hoje (18) na Folha da Manhã

 

Os generais do capitão — A questão militar no governo Jair Bolsonaro

 

General Carlos Alberto dos Santos Cruz, ministro da Secretaria de Governo

 

O que é lastro ou motivo de preocupação no governo do capitão Jair Bolsonaro (PSL)? Para responder à pergunta, necessário entender que sua gestão se divide em sete núcleos: 1) o militar, 2) o liberal, 3) o fundamentalista, 4) o da Justiça e Segurança, 5) o ruralista, 6) o político e 7) o dos seus três filhos.

De trás para frente, o núcleo filial tem no vereador carioca Carlos 02 (PSL) e no deputado federal Eduardo 03 (PSL) sua banda mais açodada. O senador Flávio 01 (PSL), a quem a Folha entrevistou (aqui) em maio de 2018, sempre pareceu o mais sensato dos três. Mas, ironia do destino, partiu de um assessor dele quando deputado estadual, o PM Fabrício de Queiroz, as maiores desconfianças de que o clã Bolsonaro, afinal, não seja exceção nas piores práticas da política brasileira. E foram as críticas a elas, em outra ironia, que elegeram Jair presidente.

O núcleo político do governo Bolsonaro, mínimo para quem adotou a postura anti-establishment durante a campanha, tem como principais nomes os ministros da Casa Civil, Onyx Lorenzoni (DEM), e da Secretaria-Geral, Gustavo Bebiano (PSL). O núcleo ruralista, importante à economia do país cuja soja é uma das principais commodities, tem como figura central a ministra da Agricultura, Tereza Cristina (DEM), ex-presidente da ativa Frente Parlamentar Agropecuária (FPA).

O núcleo da Justiça e Segurança se resume ao ex-juiz federal Sérgio Moro. Principal nome da operação Lava Jato, protagonista no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e responsável pela prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), debutou como governo no desafio aberto do crime organizado no Ceará. Para muitos, até entre os que o admiravam, cometeu erro capital ao aceitar integrar a administração Bolsonaro. E não tem outra saída, rumo ao Supremo Tribunal Federal (STF), a não ser fazer um grande trabalho no Executivo. Mesmo a quem dele nunca gostou, não é inteligente duvidar da sua capacidade de fazê-lo.

O núcleo fundamentalista é o mais perigoso. Ele se subdivide em dois: os “olavetes” e os evangélicos. Os primeiros acreditam que o filósofo (e ex-astrólogo) Olavo de Carvalho revelou à direita brasileira o caminho, a verdade e a vida. Entre eles, se destaca o chanceler Ernesto Araújo. E sua crença numa nova Cruzada do Ocidente cristão liderada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, como reencarnação do rei português D. Sebastião. Com Jesus revelado na goiabeira, Damares Alves é a representante dos evangélicos como ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos. Proclama uma velha “nova era” binária no país. Nela “menino veste azul e menina veste rosa”, sem tons de cinza entre o preto e o branco.

O núcleo liberal é a maior aposta do novo governo federal. Nele, a figura de proa é Paulo Guedes, “Posto Ipiranga” e super-ministro da Economia. Após a definição dos presidentes da Câmara, que tem Rodrigo Maia (DEM) candidato à reeleição com apoio de Bolsonaro, e do Senado mais uma vez almejado por Renan Calheiros (MDB), a votação da reforma da Previdência será o primeiro teste de fogo. Ao Brasil, é questão aritmética, não de desejo. Mas contra ela estarão todos os interesses corporativos do país. Muitas vezes complexa nas explicações, os resultados da política econômica são de fácil apreensão: se em 2020 o Centro de Campos tiver menos lojas fechadas, o caminho do Brasil parecerá correto. E vice-versa.

Por fim, o núcleo militar. Seu líder inconteste no governo Bolsonaro é o general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI). Que tem no general Santos Cruz, ministro da Secretaria de Governo, um lugar-tenente de currículo admirável. No governo federal, ambos são subordinados ao capitão, mas têm sobre ele ascendência moral e condicionada pelos anos de caserna.

Para muitos brasileiros — e estrangeiros — a volta dos militares ao poder no maior país da América Latina, ainda que pela decisão soberana do voto, gera antipatia. Para quem tem 60 anos ou mais, porque se lembra dos anos mais duros na última ditadura militar brasileira (1964/85). E a desconfiança é compartilhada por quem não viveu, mas se interessou em aprender sobre o período pelo que ensina a maioria dos historiadores.

O golpe de 1º de abril de 1964 foi o segundo na história do Brasil ao levar sua cúpula militar ao poder. O primeiro foi dado em 15 de novembro de 1889, na proclamação da República pelo marechal Deodoro da Fonseca. Curiosamente, ele era monarquista e amigo pessoal de D. Pedro II, imperador deposto.

O tenentismo dos anos 1920 foi importante, mas movimento militar de baixas patentes que só chegou ao poder com um civil, Getúlio Vargas, na Revolução de 1930. Foi tão difuso que gerou a Coluna Prestes, antes mesmo do seu líder Luís Carlos aderir ao comunismo, e depois o Estado Novo getulista, que flertou abertamente com o nazifascismo. Inclusive na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), defendida com unhas e dentes pela esquerda brasileira e lembrada por Paulo Guedes como cópia da Carta del Lavoro de Benito Mussolini.

O que há de comum entre nossos dois golpes militares? Dezenove anos antes de 1889, ocorreu a Guerra do Paraguai (1864/1870), maior conflito armado da América do Sul. Dezenove anos antes de 1964, ocorreu a II Guerra Mundial (1939/1945), maior conflito armado da humanidade, que teve no Brasil o único país latino-americano em combate. Empoderados nos campos de batalha dos dois episódios, os militares brasileiros assumiriam depois o governo do país, com 75 anos de intervalo, na marra.

Para quem achar que isso pode ser traço de alguma república bananeira, interessante lembrar outro caminho: os EUA elegem seus presidentes de quatro em quatro anos, desde 1789. E só três vezes levaram generais ao poder pelo voto: George Washington, que antes venceu a Guerra de Independência (1775/1783); Ulysses S. Grant, que antes venceu a Guerra de Secessão (1861/65); e Dwight “Ike” Einsenhower, que antes comandou a vitória dos Aliados na II Guerra. Se o modelo de democracia iluminista for a França, servem os exemplos dos generais Napoleão Bonaparte, antes de se coroar imperador, e Charles De Gaulle.

Hoje ministros, Heleno e Santos Cruz comandaram as Forças de Paz da ONU no Haiti, nos anos 2000. Ambos tiveram notável desempenho. O sucesso do segundo na pacificação da temida Cité Soleil, área mais violenta do país caribenho, causou tão boa impressão que, mesmo após passar à reserva no Exército Brasileiro, Santos Cruz foi buscado pela ONU para chefiar outra missão de paz, em mais um país sangrado pela guerra civil: o Congo, na África. Do que ele fez por lá, na primeira intervenção da ONU não apenas reativa, mas de encontro aos focos de guerrilha, pode ser conhecido pelo YouTube (aqui) no documentário “Congo e o general”. Foi dirigido por Patrick Wells e Fionna Loyd-Davis para a rede de TV árabe Al Jazeera.

No dia seguinte à posse de Bolsonaro como presidente, Heleno deu entrevista à bancada de jornalistas da Globo News. Os entrevistadores eram chamados de golpistas pelos lulistas, hoje de comunistas pelos bolsonaristas — “petistas de sinal trocado”, como bem definiu Janaína Paschoal, deputada estadual em São Paulo pelo PSL. Nela, o general e ministro do GSI foi preciso ao definir a situação da sua categoria no momento do país e sua relação com o atual governo: “Houve uma mudança evidente da receptividade dos militares na sociedade. Nós percebemos uma situação no Brasil de uma calamidade tão grande, que chegamos à conclusão de que esse efeito Bolsonaro nos aspirou para essa nova posição”.

Essa característica salvacionista dos militares brasileiros é o que eles têm de melhor e pior. Foi responsável pela unidade nacional de um país continental, desde os tempos do Brasil Império. E já produziu genocídios contra o seu próprio povo, como na Guerra de Canudos (1896/1897) pela República no sertão da Bahia: “Foi na significação da palavra, um crime. Denunciemo-lo”, imortalizou em seu “Os Sertões” o ex-militar Euclides da Cunha.

Do passado ao presente, se pode discordar de várias posições de militares como Heleno e Santos Cruz. Pode ser sobre o golpe de 64, a violência e a supressão de direitos individuais daquele regime a partir do AI-5 de 1968, ou sobre os escândalos de corrupção nos governos do PT — partido ausente na posse de Bolsonaro e presente na posse de Nicolás Maduro. Mas, submetidos à Constituição que Ulysses Guimarães promulgou em 1988 “com ódio e nojo da ditadura”, eles parecem lastro do novo governo. Não motivo de preocupação.

 

Publicado hoje (13) na Folha da Manhã

 

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