Opiniões

Ação da PM contra ato antirracista: “Já chegaram com tiro, porrada e bomba”

 

Rogério Siqueira, jornalista e embaixador do Brasil no Conselho Pan-Africano (Foto: Folha da Manhã)

 

“Você fazia a ressalva à contribuição que o 8º BPM dá à segurança pública. E não vou negar. Mas tem que saber reconhecer, além dos méritos, onde está havendo desvio de conduta para corrigir esse curso. Porque se não a gente vai ter um órgão que não pode ser ideologizado e politizado, sendo; como já está sendo na prática. Bolsonaro estimulou isso no país inteiro. As polícias estão muito alinhadas com a narrativa do governo. E essa narrativa da violência, quando vem do presidente da República, ela reveste de legitimidade lá na ponta a violência que acontece na prática. Então eu achei a ação, inclusive, covarde. Porque eram jovens ali. Eram pessoas com 20, 25 anos, em que a Polícia não fez o mesmo tipo de abordagem, quando fez com manifestações pró-Bolsonaro. A gente não viu eles chegando para conversar, para orientar, pedindo com educação para dispersar. Já chegaram com tiro, porrada e bomba. É um tratamento desigual, por uma Polícia que está profundamente ideologizada e descumprindo o cerne do art. 144 da Constituição, que versa sobre a função das forças de segurança”. Foi o que denunciou o jornalista Rogério Siqueira, no início da manhã desta segunda (08) no Folha no Ar. Embaixador do Brasil no Conselho Pan-Africano, ele analisou a ação de repressão da PM de Campos no fim de tarde da última sexta (05), quando um ato antirracista e pacífico de cerca de 15 jovens, em pleno Boulevard Francisco de Paula Carneiro, foi disperso com uso de bombas de gás lacrimogêneo e spray de pimenta. Recursos que nunca foram usados contra manifestações bolsonaristas que levaram muito mais pessoas às ruas da cidade, para levar pautas antidemocráticas como intervenção militar, fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal (STF).

Comandante do 8º BPM, Luiz Henrique Barbosa

Após sua análise, Rogério foi contrastado pelo Folha no Ar com a versão do episódio do comandante do 8º BPM, tenente-coronel Luiz Henrique Barbosa. Ainda na sexta, ele disse sobre a ação de repressão:

— Está proibido a aglomeração neste período de pandemia e não obedeceram a orientação da PM. Por isso tivemos que fazer o uso progressivo da força com emprego de armamento não letal.

Indagado por que a mesma atitude de força não foi adotada em manifestações de grupos bolsonaristas na cidade, o oficial da PM discordou:

— Discordo, inclusive efetuamos prisões (confira aqui) nos últimos atos.

Perguntado por que o uso de gás lacrimogêneo nunca foi adotado nas manifestações de direita, o comandante justificou:

— Isso são procedimentos operacionais de quem está na ponta no cenário das operações.

Ao que Rogério ouviu e respondeu ao vivo no Folha no Ar:

— Eu vou tentar ser polido para tentar manter algum grau de civilidade nesse debate. Mas eu acho que é, no mínimo, hipócrita esse tipo de declaração. Claro que cada situação é uma situação. Mas, em termos de contenção de pessoas, tinha muito mais gente na manifestação pró-Bolsonaro. Que foi de encontro àquilo que a Constituição autoriza. Você não pode fazer manifestação antidemocráticas, pedindo fechamento do Congresso, pedindo fechamento do Supremo, que são instituições que compõem a República Democrática do Brasil. E manifestação dizendo que as vidas negras importam, ela vai ao encontro ao que a Constituição diz, que é a defesa da vida, da liberdade, do pluralismo. E com um número muito menor de pessoas. Então, eu acho que a Polícia não tem que ter vergonha de se retratar e falar que precisa rever suas normas procedimentais com relação a manifestação, para que haja desigualdade, desequilíbrio no tratamento de um grupo ou de outro; para que haja equidade. E que seja, como é função precípua da Polícia, do ponto de vista estatutário, de mediação. Para que se resolva com mediação da Polícia, não com repressão da Polícia.

O jornalista, embaixador do Brasil no Conselho Pan-Africano e ex-superintendente de Igualdade Racial de Campos estendeu sua análise sobre a Polícia Militar. E denunciou os “dois pesos e duas medidas” que entende estar havendo nas ações da corporação em Campos, entre os protestos a favor e contra o governo Jair Bolsonaro. Que, segundo o entrevistado do Folha no Ar, contribuem para descredibilizar institucionalmente 8º BPM:

— A Polícia Militar no Brasil foi moldada para a repressão. Sua modelagem institucional é ruim. Como superintendente da Igualdade Racial (de Campos), já apresentei proposta uma proposta de reformulação total dos cursos de formação da Polícia Militar. Para que junto das universidades, ao movimento negro e aos especialistas se colocasse na formação básica do policial as questões sociais e de direitos humanos. Para que eles pudessem ouvir quem sofre esse tipo de violência, para desconstruir estereótipos que são montados dentro da academia da Polícia Militar. Que faz o policial agir de maneira repressiva, no lugar de servir e proteger enquanto agente público. E servir a quem e proteger a quem? Então eu vejo uma polícia muito ideologizada com determinado tipo de pensamento. Então quando a gente tem aqui manifestações alinhadas com a ideologia Bolsonaro, que é de repressão, de violência enquanto linguagem, a Polícia Militar chega na moral, conversa quase de amigos. E quando não é uma pauta que, aos olhos daqueles agentes, lhes contempla, age com o braço forte do Estado. São dois pesos e duas medidas. A gente precisa que o comando da Polícia Militar em Campos tenha a total noção de que esse tipo de coisa serve para descrediblizar a corporação.

 

Confira abaixo, em três blocos, os vídeos do Folha no Ar de hoje com Rogério Siqueira. Os trechos da matéria são do terceiro. No primeiro, foi tratado da morte do cidadão negro dos EUA George Floyd, sufocado até a morte pelo joelho de um policial branco sobre seu pescoço, mesmo depois de algemado e deitado de bruços sobre o chão. Assim como as manifestações que o assassinato gerou nos EUA e no mundo, inclusive a de sexta, em Campos, reprimida com gás lacrimogêneo pela PM. No segundo bloco, o entrevistado analisou as declarações racistas do presidente da Fundação Palmares do governo Bolsonaro, Sérgio Camargo. Além da morte do menino Miguel Otávio Santana da Silva, de cinco anos, abandonado em um condomínio de luxo do Recife pela patroa da sua mãe, que passeava com os cachorros da família.

 

 

 

 

Democracia e repressão com Marcelo Sampaio e Jorginho Virgílio no Folha no Ar

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta terça (09), o Folha no Ar recebe dois convidados na Folha FM 98,3: o historiador e presidente do Conselho Municipal de Cultura (Comcultura), Marcelo Sampaio, e o vereador Jorginho Virgílio (DC). Eles falarão da pouca participação do Legislativo de Campos no Comcultura, onde tem assento permanente. Também detalharão o repúdio público que fizeram (confira aqui) à ação da PM de Campos no fim de tarde da última sexta (5), quando usou gás lacrimogêneo e spray de pimenta para dispersar um ato antirracista pacífico diante do Pelourinho, símbolo do passado de escravidão dos negros na cidade. Dentro deste contexto, analisarão o teste constante aos limites da democracia brasileira pelo governo Jair Bolsonaro (sem partido).

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça, pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Repressão de ato antirracista pela PM de Campos tem repúdio do Comcultura e vereador

 

A ação da PM de Campos, no final da tarde de sexta (05), para (confira aqui) dispersar cerca de cerca de 15 jovens que promoviam uma manifestação antirracista no Pelourinho, símbolo do passado da escravidão dos negros na cidade, foi considerada “truculenta” pelo Conselho Municipal de Cultura (Comcultura), em nota de repúdio divulgada hoje. O ato acontecia de maneira pacífica, com seus participantes usando máscaras de proteção, com distribuição de álcool gel e respeitando os limites de distanciamento físico.

 

 

Vereador Jorginho Virgílio (Foto: Folha da Manhã)

 

Diferente de como reagiu às mainfestações bolsonaristas na cidade, PM de Campos hoje usou gás lacrimogêneo para dispersar ato antirracista no Pelourinho (Reprodução de vídeo)

A nota do Comcultura lembrou que “todas as manifestações pacíficas não devem ser só respeitadas, como defendidas pelas forças de segurança”. E repudiou, por parte da PM, “o uso de spray de pimenta e bombas de gás lacrimogêneo para a dispersão dos poucos manifestantes do muito pertinente protesto antirracista”. No dia 6, em comentário (confira aqui) da postagem da matéria sobre o fato, na página do Folha1 no Facebook, a repressão da PM de Campos também sofreu duras críticas do vereador Jorginho Virgílio (DC), que denunciou “a volta da ditadura no país”:

— O Brasil está muito longe de ter uma democracia estabelecida como os EUA. Muito menos Campos dos Goytacazes… LAMENTÁVEL! Nós não vamos nos acovardar não! Nós não iremos aceitar a volta da ditadura no país!

Ouvido desde sexta, o comandante do 8º BPM de Campos, tenente-coronel Luiz Henrique Barbosa, deu sua versão sobre a ação de repressão:

— Está proibido a aglomeração neste período de pandemia e não obedeceram a orientação da PM. Por isso tivemos que fazer o uso progressivo da força com emprego de armamento não letal.

Indagado por que a mesma atitude de força não foi adotada em manifestações de grupos bolsonaristas na cidade, o oficial da PM discordou:

— Discordo, inclusive efetuamos prisões (confira aqui) nos últimos atos.

 

Já em meio à pandemia, protesto bosonarista de 15 de março em Campos, com pauta antidemocráticas contra o Congresso e o STF, não sofreram repressão da PM (Foto: Genilson Pessanha – Folha da Manhã)

 

Comandante do 8º BPM, Luiz Henrique Barbosa

Perguntado por que o uso de gás lacrimogêneo nunca foi adotado nas manifestações de direita, o comandante justificou:

— Isso são procedimentos operacionais de quem está na ponta no cenário das operações.

Um estudante que participou do ato antirracista, que preferiu se identificar apenas pelo nome artístico de Kekere, temendo por sua segurança, deu outra versão:

— Marcamos o ato pelas redes sociais, de maneira apartidária, inspirados nos protestos antirracistas que acontecem nos EUA, na Europa e no mundo, desde a morte covarde de George Floyd. Éramos cerca de 15 pessoas, jovens entre 19 e 25 anos, à exceção de um senhor que foi com seu filho. Fizemos a concentração no Pelourinho, pois na praça São Salvador haviam duas viaturas da PM. Todos nós usávamos máscaras, alguns até luvas e distribuíamos álcool gel para todos. Primeiro, chegaram três PMs, vindos da praça, dizendo que as manifestações estavam proibidas. Dissemos a eles que estávamos cumprindo todas as determinações sanitárias. Assim mesmo vieram três viaturas, depois mais duas, e cerca de 15 PMs. Que chegaram gritando e atiraram bombas de gás lacrimogêneo sobre os nossos pés. Nossos olhos arderam muito, tivemos muito medo.

George Gomes Coutinho, professor da UFF-Campos

Sociólogo, cientista político e professor da UFF-Campos, George Gomes Coutinho também questionou a ação da PM (confira aqui) nas redes sociais. E cobrou a investigação do Ministério Público:

— Espantoso. O mais curioso é que embora, sim, tenham ocorrido prisões nas “carreatas da morte” campistas, as mesmas não foram impedidas. As prisões, segundo informações que me chegaram, ocorreram ao final das mesmas e derivaram corretamente no encaminhamento civilizado e respeitoso dos organizadores para a 134ª DP. Além disso preocupa o indício de manifestação local do fenômeno nacional de alinhamento acrítico das baixas patentes da Polícia Militar ao discurso autoritário e antidemocrático do governo Bolsonaro. A declaração do comandante é de fundamental importância sobre a violência com amparo institucional: “procedimentos operacionais de quem está na ponta no cenário das operações”. Quem estava na ponta? Quem deu a ordem para o uso de gás lacrimogêneo? Por qual razão? Não cabe investigação pelo Ministério Público?

 

Confira no vídeo abaixo a ação da PM de Campos na sexta:

 

 

Rogério Siqueira fala sobre racismo em Campos, Brasil, EUA e mundo no Folha no Ar

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta segunda (08) o convidado do Folha no Ar será o jornalista Rogério Siqueira. Embaixador do Brasil no Conselho Pan-Africano, ele falará sobre o assassinato no cidadão negro George Floyd pela Polícia de Minneapolis, em 25 de maio, e dos protestos antirracistas que o episódio gerou nos EUA e no mundo.

Ele também analisará as declarações racistas do presidente da Fundação Palmares do governo Jair Bolsonaro (sem partido), Sérgio Camargo, e a morte do menino Miguel Otávio Santana da Silva, de cinco anos, abandonado pela patroa da mãe, que passeava com os cachorros da família, em um condomínio de luxo no Recife (PE). Assim como a ação da PM de Campos na repressão com gás lacrimogêneo e spray de pimenta (confira aqui) a cerca de 15 estudantes que protestavam contra o racismo no Pelourinho, no Boulevard Francisco de Paula Carneiro.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta segunda, pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Morte, Covid, George Floyd, Bolsonaro e… Trump comunista — Olho nele, patriotas!

 

(Foto: Jair Watson – AFP)

 

Certo como você e eu morreremos um dia, é a lembrança que de nós restará. Após a morte, nos versos de Fernando Pessoa, na face do seu heterônimo Álvaro de Campos: “Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:/ Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste./ Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada./ Duas vezes no ano pensam em ti./ Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,/ E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.”

 

 

Enquanto a morte não chega a mim ou você, a maneira como ela tem chegado aos outros contraria o poeta português. É o caso dos 390 mil óbitos que a Covid-19 tinha registrado no mundo até a manhã de sexta, 5 de junho. Assim como a morte em 25 de maio do cidadão negro dos EUA George Floyd. Todos morreram sufocando em agonia lenta. Floyd, mesmo algemado e deitado de bruços no chão, pelo joelho de um policial branco sobre seu pescoço. Os 390 mil com nomes e vidas para além dos números, deitados em um leito hospitalar, pelo novo coronavírus. Em comum: todos solitários, sem direito a despedirem-se das suas famílias.

 

Covas coletivas abertas em Nova York para dar vazão ao número de mortos pela Covid-19 (Foto: Lucas Jackson – Reuters)

 

Valas coletivas também abertas em Manaus, para conseguir enterrar todos os mostos da pandemia (Foto: Michael Dantas – AFP)

 

Em números oficiais, a Covid-19 já matou 34.072 pessoas no Brasil. Está atrás só dos EUA e da Grã-Bretanha no número total de óbitos. Os três países são governados por conservadores. Embora Donald Trump e Boris Johnson tenham sido obrigados a rever o isolamento vertical, que quase custou a vida do segundo, defendida ainda hoje por Jair Bolsonaro. E acintosamente encarnado em cada nova saída do presidente brasileiro às ruas, sem máscara e interagindo fisicamente com as pessoas. Como fez na manhã de ontem na inauguração do primeiro hospital federal de campanha em Goiás, quando tropeçou, escorregou e caiu.

 

 

Apontado por todos os especialistas da Terra como necessário para tentar achatar a curva de contaminação da Covid e não colapsar os sistemas de saúde, o isolamento horizontal só foi adotado parcialmente no país graças à decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). Que, em 15 de abril, delegou a decisão a governadores e prefeitos. Todos pressionados pelos ruidosos 33% da população dispostos a apoiar qualquer desatino do presidente. Os mesmos que este admitiu querer armar na reunião ministerial de 22 de abril, cujo vídeo foi denunciado pelo ex-ministro da Justiça Sergio Moro e liberado em outra decisão do STF.

 

 

O objetivo de Bolsonaro era estimular a desobediência civil entre seus apoiadores, espraiados em cada unidade federativa cujos respectivos governador e prefeito optaram por tentar salvar vidas humanas através do isolamento social. Para tanto, pretendia transformar a milícia virtual dos tios e tias do WhatsApp, que votaram a presidente em 2018 sob alegação de não transformar o Brasil em Venezuela, em milícia armada. O apego do governo federal a essa fatia pouco tenra de senhores e senhoras de meia e terceira idade, de classe média e média-alta, cuja hipocrisia moral geralmente se revela nas práticas pessoais de “lazer”, não é sem razão.

 

 

Segundo a última pesquisa Datafolha, divulgada em 28 de maio e feita dois dias depois da divulgação do vídeo da reunião ministerial, Bolsonaro tem seu governo considerado ruim ou péssimo por 43% da população. Sua rejeição cresce a 56% entre os que têm ensino superior. E pula para 65% entre os jovens. Questionar a pesquisa, como fazem os 33% que ainda apoiam o presidente, é fruto de ignorância, má fé ou ambos. Em outubro de 2017, o mesmo Datafolha já apontava (confira aqui) que sem ex-presidente Lula, preso seis meses depois, um então antagonista do ex-BBB Jean Wyllys na Câmara Federal era o favorito às urnas presidenciais do ano seguinte.

 

Marechal Carlos Castello Branco, primeiro presidente da última ditadura militar do Brasil (1964/1985), já advertia sobre as “vivandeiras alvoroçadas”

 

Naquela época, provavelmente ninguém acreditaria em quem dissesse que, entre maio e junho de 2020, o país estaria discutindo seriamente a possibilidade de uma quartelada militar com base no artigo 142 da Constituição Federal. Após ter o filho sondado para assumir o lugar de Moro no ministério da Justiça e ter a irmã integrando a equipe ministerial da “goiabeira” neopentecostal de Damares Alves, até o jurista Ives Gandra já declarou publicamente que a “jabuticaba” constitucional não permite que as Forças Armadas sejam acionadas como Poder Moderador. Que, sem necessidade da formação em Direito, qualquer estudante de primário aprende ter sido extinto com o final do Brasil Império.

 

Gráfico em que as crianças do primário aprendem sobre o Poder Moderador, abolido no Brasil desde a proclamação da República, em 1889

 

 

Também seria difícil acreditar, dois ou três anos atrás, que algumas poucas dezenas de bolsonaristas aloprados, intitulados “300 do Brasil”, seriam capazes de fazer um protesto como a da madrugada do último domingo (31), diante do STF. Com uso de tochas e repetição de palavras de ordem, foi um pastiche escancarado das manifestações nazistas dos anos 1930 e do movimento supremacista branco dos EUA Ku Klux Klan (KKK), do séc. 19 até nossos dias. Os primeiros ficaram famosos por exterminar milhões de judeus e dissidentes políticos em câmaras de gás, antes de queimar seus corpos em fornos. Por sua vez, a KKK se notabilizou pela experiência secular de linchar negros e enforcá-los em árvores.

 

 

Os tais “300 do Brasil” tem no próprio título outro pastiche: o filme “300” (2006), de Zack Snyder. Que se baseia em um evento real de 480 antes de Cristo, quando 300 espartanos, mais militarizados entre os antigos gregos, ironicamente resistiram e morreram na batalha das Termópilas pela sobrevivência da democracia ainda em seu início. Ao presidente e seus apoiadores, o conhecimento de História costuma caracterizar o “inimigo”. Talvez por ser a maneira mais eficaz para não se repetir os erros do passado. Mas há orgulho da própria ignorância entre aqueles que o conservador Delfim Netto, homem-forte da economia brasileira durante nossa última ditadura militar (1964/1985), classificou (confira aqui) de “direita incultural”.

 

Bolsonaro ri ao posar na saída do Palácio Alvorada com a caneca do GDO (gabinete do ódio), apresentado como sua “milícia digital” (Repodução de vídeo)

 

Os tais “300” foram liderados por uma ex-prostituta e ex-feminista convertida em bolsonarista fanática. Que teve seus 15 segundos de fama após ser um dos alvos da ação da Polícia Federal (PF) no dia 27, gerada pelo “inquérito das fake news” no STF. Tem como alvo o “gabinete do ódio”, que opera dentro do Palácio do Planalto e, segundo a PF, é comandado (confira aqui) pelo vereador carioca Carlos Bolsonaro, filho 02 do presidente. Alvo também de CPMI do Congresso, parada por conta da pandemia, o esquema foi detalhado (confira aqui) por parlamentares ex-governistas. Conta com o apoio de empresários “amigos” na criação de fake news e sua disseminação através de robôs pelas redes sociais, responsáveis (confira aqui) por 55% das publicações bolsonaristas no Twitter.

No dia seguinte à operação da PF contra o “gabinete do ódio”, dois após ter elogiado a operação da mesma PF contra o governador do Rio, Wilson Witzel, outro ex-aliado convertido em desafeto, Bolsonaro assumiu de vez o palavreado da reunião ministerial: “Acabou, porra!”. Foi a senha para que se levantasse a “jabuticaba” do artigo 142, lançada no dia anterior por seu filho 03, o deputado federal Eduardo Bolsonaro. O ex-candidato a embaixador do Brasil nos EUA disse: “Eu até entendo quem tem uma postura mais moderada, vamos dizer, para não tentar chegar ao momento de ruptura (…) Mas falando bem abertamente, opinião do Eduardo Bolsonaro, não é mais uma opinião de ‘se’, mas de ‘quando’ isso vai ocorrer (…) E, depois, não se enganem: quando chegar ao ponto em que o presidente não tiver mais saída e for necessária uma medida enérgica, ele é que será taxado como ditador”.

 

 

Condenado e preso cor corrupção no Mensalão do PT, Roberto Jeffeson posa com fuzil como novo aliado do “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” (Twitter)

Menos difícil do que entender o dialeto de português empregado por Carlos em seus tuítes, é interpretar os motivos do clã. Parecem ser três: 1) os analistas que conhecem e acompanham o STF dão conta que o ministro Alexandre Moraes, responsável pelo “inquérito das fake news”, já tem elementos suficientes para incriminar Carlos; 2) seu pai, entre a desinteligência e a arrogância, assumiu publicamente a função do “gabinete do ódio”, que talvez entendesse ser da imprensa profissional que tanto odeia: “querem tirar a mídia que eu tenho ao meu favor”; e 3) com um STF unido como nunca contra os ataques e até ameaças de morte que tem recebido, em linha direta no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) presidido desde o dia 25 pelo ministro Luís Roberto Barroso, o uso ilegal das fake news pelo bolsonarismo poderia ser retroagido pela investigação à eleição presidencial de 2018.

Enquanto isso, acima do Equador, Donald Trump enfrenta seu período mais difícil à frente da presidência dos EUA. Se já estava ruim com seu negacionismo inicial da pandemia, que só reviu tarde demais para impedir que o país se tornasse o principal epicentro mundial da doença, piorou com crescimento galopante do desemprego. Que vitimou o ex-segurança de loja George Floyd, antes que o joelho de um policial branco sobre seu pescoço negro completasse sua aniquilação enquanto ser humano.

 

 

Depois ameaçar usar as Forças Armadas mais poderosas do mundo contra os jovens do seu próprio país, por conta do vandalismo de uma minoria, o que estava ruim para Trump, piorou. Os protestos cresceram e o vandalismo diminuiu, assim como a aprovação do presidente, inclusive entre seus correligionários republicanos. E até entre os neopentecostais, que já começaram a descer a “goiabeira” no país onde o movimento religioso foi criado. A diferença básica para o “Trump do Brasil”, como Bolsonaro gosta de ser conhecido, é que o original enfrentará eleições presidenciais em 3 de novembro, daqui a menos de cinco meses.

 

Protesto antirracistas unem a juventude dos EUA contra Trump diante da Casa Branca, em Washington (Foto: Jim Bourg – Reuters)

 

Renato Russo advertiria: “Ainda é cedo”. Mas se o moderado Joe Biden ganhasse a eleição ao cargo mais importante da Terra, após já ter liderado nas primárias democratas a maior virada da história política dos EUA, quando bateu o socialista Bernie Sanders, todo o eixo político do mundo mudaria a reboque. Já isolado pela União Europeia e em conflitos tolos e evitáveis com a China, nossa maior parceira comercial, o Brasil correria o risco real de se tornar um pária internacional. Mais ou menos como a Nicarágua, o Turcomenistão e a Bielo-Rússia, únicos países do mundo cujos governantes — todos ditadores — adotaram o mesmo negacionismo de quem foi eleito pelo voto popular para classificar a Covid-19 como “gripezinha” e “resfriadinho”.

 

Ex-vice-presidente de Barack Obama, o moderado Joe Biden será o o adversário de Trump na eleição presidenciais dos EUA, em 3 de novembro (Foto: Los Angeles Times)

 

O poema de Pessoa/Campos segue adiante com os versos: “És importante para ti, porque é a ti que te sentes./ És tudo para ti, porque para ti és o universo”. Ditos cristãos, mas aparentemente incapazes de se permear pelo princípio mais importante do cristianismo, que é a capacidade se colocar no lugar do próximo, Trump e Bolsonaro encerram seus universos em si mesmos. Prova disso, ontem (05) o primeiro tentou sair das cordas batendo no segundo sobre a pandemia: “Se você olhar para o Brasil, eles estão passando por dificuldades. A propósito, eles estão seguindo o exemplo da Suécia (com o isolamento vertical), que também está passando por dificuldades terríveis. Se tivéssemos agido assim, teríamos perdido 1 milhão, 1,5 milhão, 2,5 milhões de vidas, ou até mais”.

 

 

Depois de Bebianno, Levy, Santos Cruz, Mandetta, Moro e Teich, não seria espanto se algum bolsonarista usasse sua tocha para iluminar a conclusão de que Trump também é comunista. Na dúvida, olho nele, patriotas!

 

Publicado hoje (06) na Folha da Manhã

 

PM de Campos usa gás lacrimogêneo para dispersar ato antirracista no Pelourinho

 

Diferente de como reagiu às mainfestações bolsonaristas na cidade, PM de Campos hoje usou gás lacrimogêneo para dispersar ato antirracista no Pelourinho (Reprodução de vídeo)

No final da tarde de hoje, a Polícia Militar (PM) de Campos usou bombas de gás lacrimogêneo e spray de pimenta para dispersar cerca de 15 estudantes que faziam uma manifestação antirracista de forma pacífica em torno do Pelourinho, símbolo da escravidão dos negros na cidade. Com máscaras de proteção e respeitando as regras sanitárias de distanciamento físico, por conta da pandemia da Covid-19, o ato foi inspirado nos protestos antirracistas que ganharam as ruas dos EUA e do mundo, após a morte do cidadão negro dos EUA George Floyd, de 46 anos, em 25 de maio, morto após ser sufocado pelo joelho de um policial contra o seu pescoço, mesmo algemado e deitado de bruços sobre o chão, pela suspeita de ter usado uma nota falsa de US$ 20 no comércio.

Em Campos, a atitude de força da PM tomada hoje na dispersão jamais foi adotada em várias manifestações promovidas em Campos por grupos bolsonaristas durante a pandemia. Que geraram aglomeração de muito mais pessoas, para levar às ruas pautas antidemocráticas como fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal (STF). Além do pedido de reabertura do comércio, determinado por decreto municipal. Mesmo que as forças de Segurança Pública do município integrem o gabinete de crise para combater a Covid.

Comandante do 8º BPM, o tenente-coronel Luiz Henrique Barbosa confirmou a ação:

— Está proibido a aglomeração neste período de pandemia e não obedeceram a orientação da PM. Por isso tivemos que fazer o uso progressivo da força com emprego de armamento não letal.

 

 

Já em meio à pandemia, protesto bosonarista de 15 de março em Campos, com pauta antidemocráticas,  pedindo interevenção militar e o fechamento do Congresso e do STF, não sofreram repressão da PM (Foto: Genilson Pessanha – Folha da Manhã)

 

Indagado por que a mesma atitude de força não foi adotada em manifestações de grupos bolsonaristas na cidade, o oficial da PM discordou:

— Discordo, inclusive efetuamos prisões nos últimos atos.

Perguntado por que o uso de gás lacrimogêneo nunca foi adotado nas manifestações de direita, o comandante justificou:

— Isso são procedimentos operacionais de quem está na ponta no cenário das operações.

Um dos participantes do protesto, o estudante Gabriel omitiu seu sobrenome por segurança. Preferiu identificar-se pelo nome artístico de Kekere, adotado como poeta. Ele narrou a o protesto e a repressão da PM:

—  Marcamos o ato pelas redes sociais, de maneira apartidária, inspirados nos protestos antirracistas que acontecem nos EUA, na Europa e no mundo, desde a morte covarde de George Floyd. Éramos cerca de 15 pessoas, jovens entre 19 e 25 anos, à exceção de um senhor que foi com seu filho. Fizemos a concentração no Pelourinho, pois na praça São Salvador haviam duas viaturas da PM. Todos nós usávamos máscaras, alguns até luvas e distribuíamos álcool gel para todos. Primeiro, chegaram três PMs, vindos da praça, dizendo que as manifestações estavam proibidas. Dissemos a eles que estávamos cumprindo todas as determinações sanitárias. Assim mesmo vieram três viaturas, depois mais duas, e cerca de 15 PMs. Que chegaram gritando e atiraram bombas de gás lacrimogêneo sobre os nossos pés. Nossos olhos arderam muito, tivemos muito medo.

Secretário de Comunicação do PT de Campos, o universitário Gilberto Gomes fez ressalvas ao protesto, mas sobretudo à repressão da PM:

— A manifestação não teve a participação de partidos ou sindicatos. Nasceu de coletivos antifascistas e antirracistas da cidade. E ainda que eu não seja entusiasta dessas manifestações neste momento, por entender que favorecem a narrativa do governo Bolsonaro, não dá para não registrar a seletividade da PM de Campos. Nas manifestações antidemocráticas da direta, só acompanha ao longe, enquanto usa gás de pimenta e bombas de gás lacrimogêneo para dispersar manifestações de esquerda.

 

Confira no vídeo abaixo a ação da PM de Campos:

 

 

Lembranças de Mambreu, Fabinho e Paulo Vitor em Provisano e Muhammad Ali

 

Tão difícil para todos, este ano de 2020 ficou muito pior com a perda de amigos queridos. Cala ao peito a saudade de Lenildo Mambreu (relembre aqui), Fabinho Lontra Costa (recorde aqui), Paulo Vitor Cortes Lopes e Sérgio Provisano (rememore ambos aqui). Deste último, borboletas e abelhas trouxeram hoje uma lembrança do Facebook (confira aqui) de 4 anos atrás. Que falam sobre a nossa paixão comum pelo boxe, a nobre arte. E por seu maior expoente em todos os tempos, Muhammad Ali (reveja aqui):

 

 

Protestos de rua contra Bolsonaro e Trump, suas causas e consequências

 

No domingo (31) protestos das torcidas de Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos pela democracia diante do Masp. E dos antirracistas em Washington, diante da Casa Branca (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Difícil saber onde os protestos nos EUA e no Brasil darão. Acima do Equador, eles começaram na segunda (25), na cidade de Minneapolis, mais populosa do estado do Minnessota. Foi quando e onde o negro George Floyd, de 46 anos, ex-segurança de loja e um dos milhões de desempregados no mundo por conta da pandemia da Covid-19, acabou morrendo após ser sufocado pelo policial branco Derek Chauvin, 44 anos. Que apoiou o peso do seu corpo com o joelho sobre o pescoço do suspeito algemado e deitado de bruços na rua, por quase nove minutos. Nos últimos três, já estava desacordado. Antes disse “Não consigo respirar”, falou da sua mãe e implorou “por favor, por favor, por favor”. O motivo? Ele era suspeito de ter pago uma compra no comércio com uma nota falsa de US$ 20,00.

 

 

No Brasil, depois de várias manifestações em apoio ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido), pedindo intervenção militar, fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal (STF), esse recente monopólio antidemocrático começou a ser quebrado pelas torcidas de futebol. No dia 10, a “Gaviões da Fiel”, do Corinthians, saiu às ruas de São Paulo, quando uma manifestação bolsonarista que estava marcada acabou não ocorrendo. No dia 24, foi a vez das torcidas do Grêmio e do Internacional se uniram e colocaram bolsonaristas para correr nas ruas de Porto Alegre.

 

 

Foi o prelúdio do que aconteceu ontem (25). Na av. Paulista, os protestos em defesa da democracia uniram as torcidas do Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos. E dessa vez houve confronto com os bolsonaristas que pediam a reabertura do comércio fechado para combater a pandemia. A confusão teria começado por conta de bandeiras usadas por grupos neozanitas da Ucrânia entre os defensores do presidente, misturada com as bandeiras do Brasil, da República e do Império, dos EUA e de Israel. E, a partir dali, houve enfrentamento entre as torcidas pela democracia e a Polícia Militar (PM).

 

Entre os bolsonaristas na av. Paulista, a bandeira vermelha e preta com um tridente estilizado, símbolo do Pravyi Sektor (“Setor Direito”), organização neonazista da Ucrânia, envolvida em perseguição de minorias como homossexuais, ciganos, judeus e russos (Foto: Marlene Bergamo)

 

 

Nas ruas de Copacabana no domingo, torcedores do Flamengo fizeram do rubro-negro as cores em defesa da democracia (Foto: Facebook)

 

No domingo houve protestos também no Rio de Janeiro. Em Copacabana, a torcida rubro-negra Fla Antifa (antifacista) ficou frente a frente com quem protestava contra o Congresso, o STF e pediam o impeachment do governador Wilson Witzel (PSC). Entre os dois grupos, um PM foi flagrado dizendo ao deputado federal bolsonarista Daniel Silveira (PSL-RJ), investigado no “inquérito das fake news”,  que tinha mandado queimar uma bandeira do grupo contrário ao presidente:

 

 

Nas Laranjeiras, bairro do Fluminense e do Palácio Guanabara, o grupo antirracista “Vidas Negras Importam” também realizou protesto contra a morte de negros pela Polícia, mas no Estado do Rio. Que foi reprimida pela PM, com um deles flagrado apontando um fuzil contra um jovem manifestante desarmado.

 

 

No domingo de Porto Alegre, as torcidas do Grêmio e Inter também voltaram a protestar em defesa da democracia. Assim como ocorreu em Belo Horizonte, com a união entre as torcidas do Cruzeiro, Atlético e América Mineiro, contra o governo federal. Em Brasília, que não tem grandes clubes de futebol, as manifestações continuaram dominadas pela pauta antidemocrática dos bolsonaristas. E contaram mais uma vez com a presença do presidente sem máscara de proteção para a Covid, desfilando a cavalo e depois sobrevoando seus apoiadores de helicóptero.

 

Em atitude cheia de simbolismos, Bolsonaro desfilou de cavalo no domingo em Brasíla, entre as bandeiras do Brasil República e do Brasil Império dos seus apoiadores (Foto:Orlando Brito)

 

 

Foi no dia seguinte ao grupo bolsonarista “300 do Brasil” — pastiche do filme “300” (2006), de Zack Znyder — promover um protesto na noite de sábado (30) da capital federal, diante do STF. Lideradas pela blogueira Sara Winter, algumas dezenas de manifestantes usaram tochas, cobriram o rosto com máscaras (não as de proteção contra a Covid) e gritaram palavras de ordem. Além do filme de Hollywood, copiaram a estética das manifestações nazistas e da Ku-Klux-Klan, grupo supremacista branco dos EUA. Ex-prostituta e ex-feminista convertida em bolsonarista fanática, Sara já fez publicamente amaças físicas ao ministro Alexandre Moraes, que conduz no STF o “inquérito das fake news” que a investiga e pode gerar sua prisão,

 

 

 

 

Nos EUA, as manifestações se repetem diariamente desde a morte de George Floyd pelo policial branco, que foi preso e acusado de homicídio culposo (sem intenção de matar). E já se repetiram em 75 cidades, inclusive na capital federal Washington, bem próximas à Casa Branca. Seu atual inquilino, o presidente Donald Trump incendiou os ânimos no país ao postar no Twitter a frase de um chefe de política racista dos EUA nos anos 1960: “Quando os saques começam, começam os tiros”. Desde então, quatro pessoas já morreram.

 

Em 30 de julho de 2019, Bolsonaro visitou Trump na Casa Barnca e o presentrou com uma camisa personalizada da Seleção Brasileira (Foto: Brendan Smialowski – AFP)

 

Bolsonaro nunca fez segredo da sua admiração do Trump. Os dois são bastante criticados dentro dos seus países e no mundo pela maneira como lidaram com a Covid-19. Embora o primeiro tenha sido obrigado a rever seu negacionismo da doença, que o segundo parece disposto a manter, independente do Brasil já se aproximar dos 30 mil mortos pelo novo coronavírus. Ambos terão que lidar com a grave crise econômica advinda da paralisação das atividades industriais e comerciais no mundo, por conta da pandemia. Como já têm que lidar agora com as manifestações de rua contrárias aos seus governos. Que já ocorrem e, ironicamente, podem aumentar quando acabar o isolamento social ao qual os dois são contrários.

 

 

Trump tentará sua reeleição em 3 novembro. Se vencer, Bolsonaro manterá seu principal aliado internacional. Mas se o democrata Joe Biden se eleger presidente, o Brasil sob o bolsonarismo corre o risco de se tornar um pária internacional. Mais ou menos como já é considerado pela União Europeia e periga se tornar para a China, nossa maior parceira comercial e constantemente atacada nos delírios olavistas do governo brasileiro.

 

Em resposta às acusações olavistas de Eduardo Bolsonaro, Embaixada da China no Brasil disse que o deputado federal e filho 03 do presidente sofre de “vírus mental” (Twitter)

 

 

Ex-vice-presidente de Barack Obama e vencedor das primárias democratas contra o socialista Bernie Sandres, que bateu numa virada histórica, o moderado Joe Biden será o adversário de Trump na eleição presidencial dos EUA, em 3 de novembro (Foto: Los Angeles Times)

 

Ademais, a despeito do poder econômico crescente da China, os EUA ainda devem manter sua condição de “Império Romano” e caixa de ressonância do mundo por um bom tempo. A eleição de um moderado como Biden ao cargo mais importante da Terra poderia influenciar tanto a do Brasil em 2022, quanto a eleição de Trump em 2016 influenciou na de Bolsonaro em 2018. E a recíproca é verdadeira: se Trump se reeleger, seu imitador brasileiro teria mais chance de também fazê-lo.

 

Na madrugada desta segunda (01), a Casa Branca teve que a apagar todas as luzes, com Trump dentro, isolado por manifestantes antirracismo em Washington (Jonathan Ernst – Reuters)

 

Nos EUA, a luta contra o racismo e a violência policial é o que leva manifestantes, jovens em sua maioria, às ruas. Mas se continuar a enveredar por incêndios e saques, podem produzir efeito contrário nas urnas presidenciais de novembro. No Brasil, as torcidas organizadas de futebol têm até aqui liderado os protestos contra Bolsonaro. Tiveram a virtude de se unir, a despeito das cores dos seus clubes, pela democracia. E, em defesa dela, de quebrar o monopólio recente dos movimentos antidemocrático nas ruas brasileiras. Que deveriam estar vazias dos dois lados, para evitar a disseminação da pandemia da Covid.

 

 

Com passado de violência nos estádios, essas torcidas terão que tomar muito cuidado para não reincidirem nela, mesmo se provocados. Sobretudo se levado em conta que os “juízes” desse jogo das ruas serão os PMs, nicho social onde o presidente talvez conte com sua maior simpatia. Para representar a maioria da população brasileira que todas as pesquisas indicam não apoiar o governo federal, não se pode dar à minoria o motivo que esta parece buscar para lançar o Brasil na aventura de uma ruptura institucional. Quem quiser entrar em campo pela democracia, não pode marcar gol contra.

 

Fechar Menu