Opiniões

Empurradores e puxadores de voto em Campos

Não é necessária nenhuma acuidade especial para saber que na próxima eleição à Cãmara de Campos, os candidatos mais disputados pelos partidos, muitos a peso de ouro, foram aqueles sem chances reais de se eleger, mas dotados de algumas centenas de votos, podem ser capazes de consolidar em suas nominatas as chances dos candidatos que realmente têm chances, os chamado “puxadores de voto”. Na impossibilidade de se listar todos aqueles que empurram as candidaturas daqueles que puxam os votos, para se conhecer estes no PR, PTdoB, PSDC, PMDB, PPL e PP, basta acessar aqui o Saulo Pessanha…

“Foi ataque aos adversários de Garotinho, não defesa dos royalties”

“Infelizmente, o que Garotinho quer é antecipar a campanha eleitoral. O ato público de ontem, no Rio, não foi um evento em defesa dos royalties, foi de ataque aos adversários políticos do deputado. Tampouco foi dos municípios produtores de petróleo, mas do PR, partido de Garotinho, que busca uma bandeira para eleger o maior número possível de prefeitos em 2012, visando montar uma base para tentar voltar a ser governador, em 2014”. O raciocínio é do ex-vereador Nildo Cardoso, presidente do PMDB em Campos, partido do governador Sérgio Cabral, acusado ontem pelo casal Garotinho de ter esvaziado o evento da Cinelândia dos demais prefeitos da Organização dos Municípios Produtores de Petróleo (Ompetro), que preferiram apostar no diálogo sobre a partilha dos royalties.

— Ninguém é bobo na política para acompanhar Garotinho nessa tentativa de antecipação eleitoral. Como é que o governador Sérgio Cabral poderia ser responsável por uma emenda de um deputado do Rio Grande do Sul (Ibsen Pinheiro)? Foi por isso nenhum outro prefeito de município produtor, além de Rosinha, embarcou na atitude raivosa que marcou o ato do Rio. Aliás, não foram só os políticos, mas a própria população desaprovou. Eles apostavam que teriam 30 mil, 40 mil, 50 mil pessoas no evento, e mesmo bancando a viagem, só conseguiram reunir duas mil pessoas, segundo os cálculos da PM — contabilizou Nildo.

Para o presidente municipal do PMDB, o papel de Garotinho deveria ser através do seu mandato de deputado federal, participando da discusssão e buscando o entendimento em Brasília, onde será votado o veto do ex-presidente Lula. Ele também aconselhou Rosinha, paralelamente ao debate sobre a partilha dos royalties, a otimizar as alternativas de receita própria do município de Campos, “já que hoje ela gira em torno de R$ 600 milhões/ano, o que é muito pouco se comparado ao R$ 1,4 bilhão que recebemos anualmente pelo petróleo”.

“Garotinho não vai ganhar a discussão dos royalties no grito”

“Garotinho não vai ganhar essa discussão da partilha dos royalties no grito. Muito pelo contrário, sua atitude isolacionista e desagregadora, que repete a mesma que ele e Rosinha mantiveram quando governadores, só tende a piorar a situação”. A opinião é do professor Eduardo Peixoto, presidente municipal do PT, partido do ex-presidente Lula e da atual, Dilma Rousseff, atacados frontalmente nos discursos do casal Garotinho, no ato público de ontem, na Cinelândia, no Rio.

Eduardo afirmou não ter dúvida que foi o mau uso dos recursos do petróleo, inclusive em Campos, “em escândalos sucessivos e de repercussão nacional”, aliado às descobertas de novas jazidas de petróleo no Pré-Sal, o principal responsável pelo interesse dos estados não produtores pelos royalties, não a vontade do então presidente Lula em eleger Dilma, como acusou ontem a prefeita Rosinha:

— Muito pelo contrário, quando Lula sentiu que a pressão dos estados não produtores seria avassaladora no Congresso Nacional, até pela imensa maioria destes, ele usou seu poder do veto. E se contrariou o interesse da maioria, por óbvio, não agiu com motivo eleitoral. Levar essa discussão para o plano político, além de ser absolutamente infrutífero, é baixaria — alfinetou Eduardo.

O presidente do PT, no entanto, concorda com o senador fluminense do seu partido, Lindenbergh Farias, que ontem, em Brasília, cobrou de Dilma o papel de liderança na discussão, não apenas sobre o petróleo, mas em relação à questão federativa:

—  Desde a eleição (presidencial de 2010), nós ainda não tivemos um debate nacional; esse é o primeiro. Mas sou da mesma opinião do Lindenbergh, no sentido de que a presidente tem que ser o fiel da balança da discussão. Tenho certeza de que vai fazê-lo, assim que voltar de sua viagem ao exterior, ainda esta semana. Até porque, caso contrário, estará cometendo um erro grave. Agora, concordo também que o debate não pode se ater somente ao petróleo, devendo ser ampliado à necessidade de leis mais claras sobre o pacto federativo, sobre a nossa idéia de nação e da construção do próprio Estado brasileiro — pregou Eduardo.

Ainda em relação ao ato público do casal Garotinho, ontem, no Rio, com promessa de reedição em Brasília, o presidente petista ressalvou que a tendência natural de quem se recusa a participar de uma negociação, quando esta se consuma, é de ficar sempre com a pior parte. “Claro que se estados e municípios produtores sairem perdendo ao final das negociações políticas, haverá sempre a possibilidade de se recorrer juridicamente, mas só um tolo não vê que o mais importante agora, no lugar de acusar e berrar, é se sentar à mesa para conversar”.

Versos do domingo — James Joyce

Na reunião de pauta da última quinta-feira, o editor da Folha Dois, Marcos Curvello, informou que a matéria destinada à Folha Letras da edição do dia seguinte (anteontem) seria sobre o escritor irlandês James Joyce (1882/1941), mais precisamente sobre uma sua biografia pesquisada e escrita por Edna O’Brien, também romancista irlandesa, que se tornou mais conhecida no Brasil após afirmar, sendo ecoada pelo jornalista Diogo Mainardi, que “Chico Buarque é uma fraude”. Polêmica por polêmica, a pauta da biografia foi “vendida” por Curvello com base na “novidade” do apreço pessoal do autor de “Ulysses” (considerado por muita gente boa como o maior romance do séc. 20) pelos bordéis. Aleguei que a informação era correta, embora longe de ser nova ou desconhecida, pois o próprio Joyce já admitira essa sua vocação boêmia e hedonista em versos. No caso, no poema “O Santo Ofício”, escrito em 1904, poucos meses antes do autor deixar sua Dublin natal, numa sátira mordaz contra os intelectuais da sua terra reunidos no movimento chamado “Renascença Céltica” — entre eles, o grande poeta William Butler Yeats (1865/1939), Nobel de Literatura em 1923, prêmio que Joyce nunca ganhou.

Contrário ao emprego de palavras do gaélico (língua dos antigos celtas, ou gauleses, chamados “gálatas” por Paulo em suas epístolas) e ao resgate do misticismo ancestral irlandês (herança do paganismo druida) cultivados na arte por seus compatriotas, numa tentativa de reafirmação de nacionalidade, diante da dominação inglesa (a porção católica da Irlanda só se tornaria independente da Grã-Bretanha protestante em 1922), Joyce usou no poema a forte imagem da Inquisição Católica para endossar seu compromisso com a língua inglesa, da qual foi o principal reinventor no séc. 20, e com a escola de pensamento peripatético, fundada pelo filósofo grego Aristóteles (384 a.C./322 a.C.) — “cuja cabeça sustenta até hoje o Ocidente”, como já cantou o Caetano, amigo de Chico.

Cantando aquilo (e naquilo) que julgava universal, o poeta assumiu a escatológica condição de “Catarse-purgativo” para também combater o que considerava provincianismo de uma Irlanda que, como poucos, soube imortalizar em verso e prosa.

Assim como o nosso Mulato, autor dos versos publicados aqui no último domingo, Joyce foi um poeta sempre eclipsado à sombra gigantesca do prosista. No entanto, publicada nos livros “Música de Câmara” (1907) e “Pomas, um tostão cada” (1927, no qual incluiu o “Santo Ofício” escrito 23 anos antes), sua obra poética é considerada fundamental por gente como o estadunidense Erza Pound (1885/1972), um dos principais poetas modernistas da língua inglesa, ou o brasileiro Haroldo de Campos (1929/2003), luminar do nosso Concretismo e considerado mundialmente um dos melhores tradutores do grego Homero, pai de todos os poetas.

Ainda assim e cultuado por ter transposto à prosa a ourivesaria da palavra que caracteriza a poesia, o próprio Joyce sempre se considerou um “poeta frustrado”.

Abaixo, entre os bares e bordéis da Dublin do final do séc. 19 e início do 20, você, leitor desta planície do séc. 21, poderá fazer sua própria análise…

O Santo Ofício

Dou-me este denominativo

A mim: Catarse-purgativo.

Eu, que troquei tortuosa via

Pelo manual da poesia,

E a bares e bordéis transporto-lhes

O gênio agudo de Aristóteles —

Pros bardos não errarem a esmo,

Eu interpreto-me a mim mesmo:

Ouve o meu lábio que repete

Cultura de peripatético.

The Holy Office

 

Myself unto myself will give

This name Katarsis-Purgative.

I, who dishevelled wys forsook

To hold the poets’ grammar-book,

Bringing to tavern and to brothel

The mind of witty Aristotle,

Lest bards in the attempt should err

Must here be my interpreter:

Wherefore receive now from my lip

Peripatetic scholarship.

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