Campos dos Goytacazes,  23/05/2018

 

por Aluysio Abreu Barbosa

Exército em Campos sem general em Guarus, prefeitos e presidenciáveis

 

 

 

Exército em Campos?

Ontem (22) em Campos, o secretário fluminense de Segurança Pública na intervenção federal no Estado do Rio, general Richard Nunes, não descartou o uso de tropas do Exército no combate ao crime no município. Como a manchete da capa da Folha ressaltou no dia da visita, na véspera (21) de consumou a morte da adolescente Andreza Viana Costa no Hospital Ferreira Machado. Grávida aos 16 anos, ela estava no portão de casa, no Parque Cidade Luz, quando foi baleada no sábado (19). Socorrida ainda com vida e internada, morreria no dia seguinte com seu filho no ventre.

 

General não vai a Guarus

O homicídio de Andreza foi o 14º registrado em Campos só no mês de maio. Em 2018, já foram 104 assassinatos, 64 deles (61,5%) em Guarus, sem contar Travessão, Santa Maria e outras localidades mais distantes, mas também atendidas pela 146ª Delegacia de Polícia (DP). Como esta coluna relatou com detalhes (aqui) em sua edição da última quinta (17), vários bairros à margem esquerda do Paraíba vivem uma verdadeira guerra civil, com origem no Parque Santa Rosa, numa disputa de facções criminosas pelo controle do tráfico de drogas. Ainda assim, após visitar o 8º Batalhão de Polícia Militar e a 134ª DP do Centro, o general-secretário não foi à 146ª DP de Guarus.

 

Planície no Planalto

Ontem (22), o prefeito Rafael Diniz (PPS) não pôde receber o general Richard Nunes na planície goitacá. Ele estava no Planalto Central, assim como as prefeitas de Quissamã e Carapebus, respectivamente Fátima Pacheco (Podemos) e Cristiane Cordeiro (PP). O evento promovido na XXI Marcha a Brasília em Defesa dos Municípios contou com a presença do impopular presidente Michel Temer (MDB) e de alguns pré-candidatos a substituí-lo nas eleições de outubro. Entre eles, compareceram e falaram aos prefeitos a ex-senadora Marina Silva (Rede), o ex-ministro Ciro Gomes (PDT) e o senador paranaense Álvaro Dias (Podemos).

 

PCdoB ausente

Outra presidenciável, a deputada estadual Manuela d’Ávila (PCdoB) era esperada, mas não compareceu. Sua ausência ao evento dos prefeitos foi no dia seguinte ao seu partido soltar uma nota intitulada “Vitória retumbante do povo venezuelano”, relativa à reeleição no último domingo (20) de Nicolás Maduro a presidente da Venezuela. Por denúncias de fraude, o pleito foi condenado pelo Brasil e outros 13 países do Grupo de Lima, entre eles EUA, Canadá, México, Argentina e Chile. Com uma inflação de 897,2% em abril e projetada em 14.000% para 2018, mais de três milhões de venezuelanos (10% da população) já deixaram o país.

 

Critérios, doutor?

Mesmo culpado pela falta de comida, remédios e material de higiene que gerou uma grave crise humanitária na América do Sul, o regime venezuelano ainda coleciona defensores entre militantes de esquerda nos países vizinhos, que recebem seus refugiados. Só no Brasil, já são 50 mil.  Ontem, o deputado federal Whadi Damous (PT/RJ) comparou Maduro ao ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Como este ano é de campanha eleitoral também no Brasil e o deputado Damous já foi presidente da OAB-RJ, se ele vier a Campos, será o caso de se perguntar quais critérios de direitos humanos defende. E se estes têm diferença quando aplicados a Venezuela ou ao Brasil.

 

Rafael gostou de Ciro

De Brasília, na noite de ontem Rafael Diniz falou à coluna sobre quem falou no encontro nacional de prefeitos. Considerado conservador pela esquerda goitacá que apoia ou finge ignorar Maduro, o prefeito de Campos disse ter gostado mais de um nome progressista entre os presidenciáveis que palestraram ontem: “Ressalvadas as questões partidárias e eleitorais que acontecerão lá na frente, o discurso de Ciro Gomes se mostrou muito técnico, firme e realista”. Hoje, estão programados para participar do evento os pré-candidatos a presidente Jair Bolsonaro (PSL), Geraldo Alckmin (PSDB), Henrique Meirelles (MDB) e Guilherme Afif Domingos (PSD).

 

Cadeia Velha

A Justiça Federal deu início à instrução processual em ação que envolve o presidente afastado da Alerj, Jorge Picciani, e os deputados Paulo Melo e Edson Albertassi, os três MDB. Investigados na operação Cadeira Velha, eles são acusados de receber propina para garantir a aprovação de medidas em favor de empresas dos setores de construção civil e transportes públicos. Na primeira audiência, foram ouvidas duas testemunhas listadas pelo Ministério Público Federal (MPF).

 

Publicado hoje (23) na Folha da Manhã

 

Ricardo André Vasconcelos — Os truques da memória

 

Ilustração de Carybé para a edição brasileira de “Cem Anos de Solidão”, da Editora Record

 

 

Durante quatro ou cinco internações hospitalares a que fui submetido por causa de caprichos de um coração rebelde, recorri a expedientes da memória para passar o tempo em dias e noites geladas das UTIs. Na primeira vez fui recuando no tempo em busca dos nomes dos prefeitos de Campos e só consegui chegar até a eleição de José Alves de Azevedo em 1958. Na verdade, foi a segunda eleição de José Alves, eleito pela primeira vez em 1950, mas só descobriria depois da alta hospitalar e mais interessado em conhecer os antecedentes até Rodrigues Peixoto, que inaugurou a galeria de alcaides em 1904.  Por mais incrível que possa parecer, tarefa menos difícil foi puxar a fila de ex-presidentes dos Estados Unidos, onde religiosamente se realizam eleições de quatro em quatro anos, sem casuísmos e com mandatos de tempo invariável. Sem papel ou caneta, cheguei ao primeiro mandato de Franklin Delano Roosevelt, em 1932, sendo ele reeleito em 1936, 1940 e 1944. Depois dele os americanos limitaram a reeleição a apenas um mandato.

Enquanto isso, na volátil legislação eleitoral brasileira, o tamanho dos mandatos variou de quatro, dois e seis anos para nossos prefeitos eleitos neste período entre 1958 e 2018. Em 1970, por exemplo, a pretexto de coincidir as eleições seguintes com a escolha de integrantes do Congresso Nacional, os prefeitos foram eleitos para um mandato-tampão de dois anos. Em Campos, foi eleito Rockfeller de Lima, então filiado à Arena. Finda a experiência, os alquimistas políticos da ditadura que comandava o país resolveram acabar com a coincidência e espichou os mandatos dos prefeitos eleitos em 1976 e 1982 para seis anos, sendo vencedores, respectivamente, Raul Linhares — que acabou renunciando após cinco anos e deixando o último para o vice, Wilson Paes — e Zezé Barbosa, que viveu terceiro e último mandato até a última gota, sem deixar o vice, Waldebrando Silva, um dia sequer à frente da Prefeitura.

Como o tempo no leito de um hospital passa mais lento do que aqui fora, principalmente com uma trava na virilha imobilizando todo o corpo pelas primeiras 48 horas depois da cineangiocoronariografia, é insuficiente buscar na memória nomes de prefeitos, presidentes dos EUA ou do Brasil, se bem que no caso deste últimos a tarefa é mais fácil: república velha (Deodoro, Floriano, Prudente de Moraes, Campos Sales, Rodrigues Alves, Afonso Pena, Nilo Peçanha, Hermes da Fonseca, Wenceslau Brás, Rodrigues Alves (eleito de novo, mas morreu antes da posse), Epitácio Pessoa, Artur Bernardes, Washington Luis, Júlio Prestes, este não tomou posse por causa do golpe de 1930 que inaugurou a era Getulista que durou até 1945, quando outro golpe derrubou Vargas. Redemocratizado, o Brasil elegeu o general Eurico Gaspar Dutra, como apoio de Vargas, que voltaria em 1950 pelo voto direito até sair da vida para entrar na história com um tiro no peito em 1954. Um ano depois começou uma curta e nova era, com Juscelino Kubitscheck, sucedido por Jânio, que renunciou oito meses após a posse e deu munição para o golpe três anos depois contra o sucessor João Goulart. Veio o ciclo militar com Castelo Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo. Com a redemocratização, mais um presidente morto antes da posse — Tancredo — e os eleitos, Collor, FHC, Lula e Dilma, o primeiro e a última, impedidos e substituídos pelos vices, Itamar e Michel Temer.

O passatempo mais prazeroso encontrado na UTI, no entanto, foi “viajar” pela Macondo, onde choveu, sem parar, “por quatro anos, onze meses e dois dias”, com a quase impossível tarefa de traçar a árvore genealógica dos Buendía, cujos 17 filhos, netos, bisnetos da fantástica saga parida da genialidade de Gabriel Garcia Márquez se repetem por cem anos em Aurelianos. Além do coronel Aureliano, que depois lutar e perder 32 guerras passava o tempo confeccionado peixinhos de ouro, o mundo mágico de Garcia Márquez tem outros personagens inesquecíveis com suas verdades cortantes. O próprio coronel, “já taciturno, silencioso, insensível ao novo sopro de vitalidade compreendeu que uma boa velhice não é outra coisa senão um pacto honrado com a solidão”. E Rebeca, a que “tinha necessitado de muitos anos de sofrimento e miséria para conquistar os privilégios da solidão e não estava disposta a renunciar a eles em troca de uma velhice perturbada pelos falsos encantos da misericórdia”.

Cem anos de Solidão, publicado pela primeira vez em 1967 e que em 1982 deu o Prêmio Nobel de Literatura ao escritor colombiano, foi o primeiro de quase uma dúzia que li e reli do autor que morreu em 2014. É neles que me refugio de quando em quando, como que adiando o inevitável momento de me pôr “a salvo dos tormentos da memória”.

 

Em tempo 1 – Felizmente não frequento uma UTI desde 2012.

Em tempo 2 – Lamento o falecimento, nesta terça-feira, dia 22, do jornalista Alberto Dines, autor de um dos melhores livros sobre jornalismo, “O papel do jornal”.

Em tempo 3 – Agradeço ao amigo Aluysio o honroso convite para escrever aqui em seu Blog, compromisso quinzenal cumprido com prazer desde janeiro do ano passado, mas que peço licença para interromper a partir de agora. Obrigado também aos me honraram com a leitura de minhas reflexões.

 

Orávio de Campos — “O Theatro do Brasil” de Múcio da Paixão

 

Múcio da Paixão

Registrado, pela sua importância no campo da teatralidade, pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, entidade fundada em 1838, o livro “O Theatro no Brasil” (Editora Moderna, Rio de Janeiro, 1936) de autoria de Múcio da Paixão (1870-1926), é caminho obrigatório para quem deseja pesquisar, desde suas origens, o desenvolvimento da dramaturgia brasileira, a partir do evento que a história oficial resolveu denominar de “descobrimento” das terras de Santa Cruz.

Aliás, a não ser outro livro com o mesmo título, de Galante de Souza, com visível diálogo com o original para alcançar seus objetivos, sem que fosse necessário, é a única referência disponível, embora poucas bibliotecas do país o possua em seu acervo de raridades históricas, justificando-se, por essas razões, sua reedição como um presente às novas gerações para as quais Múcio não passa de um nome de rua, situada no bairro do Turfe Clube, segundo registro do historiador Waldir Pinto Carvalho.

Autor, também, de outros livros históricos, sendo os mais expressivos “Espírito Alheio – Episódios e Anedotas de Gente de Teatro” (1917); e “Movimento Literário em Campos (1924), o preclaro professor do Liceu, teatrólogo, crítico teatral, jornalista de fôlego e deputado pelo Partido dos Operários na primeira eleição republicana, dentre outras ações no avir de seu tempo, foi o fundador do Sindicato dos Empregados no Comércio, que à época era uma Associação de Caixeiros.

Ainda sobre “O Theatro no Brasil”, cujo registro exordial refere-se à cena portuguesa nascida em 8 de junho de 1502, “ (…) dia em que o cômico e actor Gil Vicente se apresentou no paço do Rei D. Manuel, e ahi foi até à câmara da Rainha D. Maria, então aliviada do parto em que dera à luz o príncipe que foi D. João III, perante a qual recitou o Monólogo do Vaqueiro (…), o autor campista, filho de lusitanos de Guimarães, não teve recursos para editar a obra, quando foi finalizada, em 1917.

A publicação, com edição limitada, só foi possível, postumamente, a partir do esforço de seu filho mais velho, René de Castro Soares, em 1936, que, na primeira página assina uma declaração afirmando que o custeio ficou por conta do grande ator Procópio Ferreira, ao qual faz um sentido agradecimento, aclarando que “o lucro que houver será revertido para o Sindicato dos Trabalhadores de Teatro em São Paulo e para o Retiro dos Artistas em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro”.

Ao propomos a reedição do livro, pode parecer, hoje, uma contradição, uma vez que presidimos, enquanto secretário de Cultura do Governo Rosinha Garotinho, o Conselho Editorial da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, que, naquele período, editou e reeditou cerca de 40 títulos, por ocasião das bienais do livro nos anos de 2010, 12, 14 e 16, iniciativa auspiciosa do saudoso professor Lenilson Chaves, por inspiração feliz do grande escritor e seu amigo Ziraldo.

É que em sendo descendente direto de Múcio não nos sentíamos bem em propor a reedição, até porque, com exceção da igualmente saudosa conselheira Maria Helena Gomes, atualmente residindo nas paragens do Itaoca — Olimpo dos artistas desta terra cujo céu azul não há igual no mundo (Azevedo Cruz) —, os demais integrantes preferiram Alberto Lamego (pai), Manuel Martins do Couto Reis e edições históricas no campo da antropologia e da arqueologia representada pelo “Sitio do Caju”.

Não estamos arrependidos por não usarmos a força política para alcançar o pleno “desideratum”. Foi melhor assim. Mas, distante do sistema e claramente (hoje) seu opositor no campo das idéias, voltamos a pensar no assunto. E vale a declaração da importância da reedição de “O Theatro no Brasil”, uma síntese histórica da dramaturgia luso-brasileira, entre 1501 a 1917. Quem sabe, sensibilizado, não aparece algum mecenas, como ocorreu com Procópio Ferreira, em 1936?

 

Em entrevistas à Folha, direita e esquerda reforçam guerra de narrativas

 

 

 

Capa da Folha da edição de domingo (20)

 

Esquerda x direita

Representantes do debate bipolar que tormou de assalto o país desde o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), a esquerda e a direita mostraram recentemente sua força em Campos. No dia 8, uma palestra do deputado estadual Flávio Bolsonaro (PSL) lotou o auditório da Faculdade de Direito de Campos (FDC). Exatos 10 dias depois, foi a vez de outro deputado estadual, Marcelo Freixo (Psol), lotar o mesmo auditório da FDC em outro evento. No mesmo dia 18, na última sexta, os dois visitaram a Folha da Manhã e lá concederam entrevistas exclusivas, publicadas (aqui e aqui) com igual espaço e destaque na edição de domingo (20).

 

Bolsonaro e Freixo

Flávio Bolsonaro é pré-candidato a senador e lidera com folga a disputa segundo pesquisa Paraná feita entre 4 e 9 de maio, primeira sobre as eleições majoritárias de outubro no Estado do Rio. Marcelo Freixo é pré-candidato a deputado federal e dele também se espera uma boa votação. Com os dois foi adotada a mesma toada de outra entrevista exclusiva anterior, dada (aqui) à Folha pelo ex-presidente ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 6 de dezembro de 2017. Publicada (aqui) no dia seguinte, depois de viralizada (aqui e aqui) em toda a mídia nacional, sua regra foi contrastar as posições do entrevistado, mas dar a ele a chance de falar.

 

Lula e Moro

Citado por Lula na entrevista, o juiz federal Sérgio Moro foi procurado em dezembro para também se manifestar. Ele respondeu (aqui) à Folha, mas preferiu declinar. O magistrado já havia condenado o ex-presidente a 9 anos e meio de prisão, em 16 de julho, por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, no caso do triplex do Guarujá. Em 24 de janeiro, os crimes seriam confirmados por 3 a 0 no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), que aumentou a pena para 12 anos e um mês. Após ter o habeas corpus negado por cinco ministros do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e sete do Supremo Tribunal Federal (STF), Lula foi preso em 7 de abril.

 

Narrativas

A chamada “guerra de narrativas” que incendeia os debates no país, ficou clara no contraste das entrevistas de Flávio Bolsonaro e Marcelo Freixo. Filho do ex-capitão do Exército Jair Bolsonaro (PSL), para o primeiro o Brasil não viveu uma ditadura militar entre 1964 e 1985, mas seu eufemismo: um “regime militar”. Por sua vez, para Freixo, o impeachment de Dilma foi “golpe”. Opinião externada na disputa do 2º turno a prefeito do Rio, ele não a considera responsável por sua derrota para Marcelo Crivella (PRB) em 2016. Ainda assim, fez questão de relativizar as consequências às eleições de dois anos depois: “Ninguém pensa mais em Dilma”.

 

Revelações

Nas dúvidas entre ditadura militar ou “regime militar”, ou entre impeachment ou “golpe”— talvez inexistentes para quem não pensa por dogmas —, o fato é que as duas entrevistas foram publicadas no domingo, na Folha da Manhã e no blog “Opiniões”, hospedado no Folha 1. E até às 20h40 de ontem (21), a feita com Freixo tinha recebido 77 curtidas, enquanto a com Bolsonaro, apenas 10. A diferença de mais de 700% deixa abertas duas possibilidades: ou a esquerda atrai mais leitores em Campos e região do que a direita, ou os simpatizantes desta não são muito de ler jornal. De um jeito e do outro também, são alternativas reveladoras.

 

Síria da esquerda

Enquanto a direita brasileira vive com suas idiossincrasias, a esquerda não fica para trás. Nela, quem ainda apoia ou tenta relativizar o regime de Nicolás Maduro na Venezuela, perdeu qualquer contato com a realidade. Ele foi reeleito no último domingo como presidente de um país que reprime com violência, prende e mata opositores, em meio à escassez de comida e remédios, com uma economia devastada. A inflação venezuelana de abril fechou em 897,2%. E a projetada para 2018 são inimagináveis 14.000%. São escombros que nem a Guerra Civil da Síria conseguiu produzir na economia daquele país do Oriente Médio.

 

Golpe sem aspas

Por denúncias de fraude, a reeleição de Maduro foi condenada pelo Brasil e outros 13 países americanos do Grupo de Lima, entre eles EUA, México e Argentina. Governadas por líderes vitalícios, Rússia, China e Bolívia reconheceram o resultado. No pleito da Venezuela não puderam concorrer os dois opositores mais populares: Henrique Capriles e Leopoldo López, preso desde 2014, acusado de liderar os protestos daquele ano no país. Considerar o resultado como “vitória retumbante do povo venezuelano”, como fez ontem o PCdoB da presidenciável Manuela d’Ávila, é como chamar ditadura de “regime”. É um golpe sem aspas na verdade.

 

Publicado hoje (22) na Folha da Manhã

 

Esquerda brasileira após “golpe”, morte de Marielle e prisão de Lula

 

Por Aluysio Abreu Barbosa e Paula Vigneron

 

Se a direita impressionou pela presença de público no auditório da Faculdade de Direito de Campos em evento do dia 8, a esquerda não deixou por menos, lotando o mesmo espaço 10 dias depois, em evento com o deputado estadual Marcelo Freixo (Psol). À Folha, o pré-candidato a deputado federal repetiu questionamentos que vem fazendo sobre os vazamentos na investigação dos assassinatos da vereadora carioca Marielle Franco (Psol) e do motorista Anderson Gomes, em 14 de março. Ele considera o caso como um dos mais complexos que a Polícia fluminense já teve e contesta prazos à sua apuração, como o fixado pelo deputado federal e seu correligionário Chico Alencar. Freixo também falou do avanço da direita no Brasil, que para ele sempre existiu, analisou sua derrota na eleição a prefeito do Rio e o golpe que considera ter havido no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).

 

(Foto: Antonio Leudo – Folha da Manhã)

 

Folha da Manhã – A vereadora Marielle Franco (Psol), assassinada a tiros com o motorista Anderson Gomes em 14 de março, começou na política partidária na sua campanha vitoriosa em 2006 a deputado estadual. Nomeada sua assessora, ela esteve à frente da coordenação da comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj. No pleito de 2016, ela se lançou à Câmara Municipal do Rio e, com mais de 46 mil votos, foi a segunda mulher mais votada a vereador no Brasil. O que pode dizer sobre ela?

Marcelo Freixo – A Mari, ela é isso que você já disse na pergunta. Eu conheço a Mari há muitos anos, muito antes da campanha de 2006, na verdade. Eu tinha uma relação familiar com a Mari. Eu dei aula para a Anielle, irmã dela. Eu sou professor de história e estive 20 anos em sala de aula. Eu fui professor da Anielle no ensino médio. Então, a Anielle se formou, se não me falha a memória, em 2002. E aí eu vi a festa de formatura. Fui o professor homenageado da turma da Anielle. Então, ali, eu conheci a Marielle. Depois, nós nos reencontramos em um projeto de educação popular, organizado, inclusive, pelo Leon, que está aqui me acompanhando. Ele é professor de geografia e organizava um debate com alunos de pré-vestibulares comunitários, que era chamado “Domingo é dia de cinema”. Acontecia no Cine Odeon, que é um cinema histórico na Cinelândia, no Centro do Rio. E, uma vez por mês, no domingo, ele passava um filme e tinha debate depois. Aí, ele passou “Ônibus 174”, que é um filme, por acaso, do José Padilha. O mesmo Zé Padilha do “Tropa de Elite” depois. Foi quando eu conheci Zé Padilha, inclusive.

 

Folha – E da série “O Mecanismo” também.

Freixo – E de “O Mecanismo”. Eu conheci o Zé Padilha ali, no “Ônibus 174”, que, aliás, é um brilhante documentário. Para mim, um dos melhores da história do cinema brasileiro. E reencontrei a Marielle nesse debate. Deviam ter umas 600 pessoas. Isso me surpreendeu muito porque era um domingo, 9 horas da manhã, um cinema e só alunos de pré-vestibulares comunitários. E a Marielle tinha sido aluna de pré-vestibular comunitário, no pré-vestibular da Maré. Ali, a gente se reencontrou e conversou. Logo depois, veio a minha campanha de 2006, que é essa a que você está fazendo referência. Ela se envolveu bastante na campanha, assim como outras pessoas da Maré. Muitos deles ligados aos pré-vestibulares. Quando a gente ganhou a eleição e foi formar a equipe do mandato, a gente tinha um critério, que era de formar por setores de trabalho. A gente queria que tivesse um setor para pensar as favelas. Que viesse das favelas e que fosse para pensar política de direitos conduzida nas favelas. Aí, a gente separou duas vagas no mandato para duas pessoas da Maré. Aí, a Marielle e a Renata Souza foram as escolhidas, pelo próprio Psol da Maré. E a Marielle trabalhou todos esses anos comigo. Chegou o momento em que eu assumo a presidência da Comissão de Direitos Humanos. A gente reestrutura toda a Comissão. Amplia muito a ação da Comissão de Direitos Humanos. Por exemplo, trabalhando com familiares de policiais, que era algo que a Comissão nunca tinha feito e algo novo na concepção de Direitos Humanos no Brasil. Geralmente, o trabalho de Direitos Humanos é com as vítimas da violência do Estado. Aí, a gente começou a entender que esses agentes do Estado também eram vítimas da violência do Estado. A Marielle foi muito importante nesse trabalho. Assim como a ampliação para outros temas. A gente foi alargando muito a capacidade de atendimento da Comissão. Até que ela se elege vereadora, faz um mandato que é muito continuidade do trabalho que ela já fazia na Comissão. O próprio perfil da montagem do gabinete da Mari é muito a cara dela. Teve pouco mais de um ano de mandato. Um ano e três meses. Até que vem esse brutal assassinato. Então, a Mari tem uma coisa importante, que eu sempre falo: a Mari passa a ser muito conhecida do mundo depois que ela é negada ao mundo. A Marielle não foi conhecida pelas razões que deveria ter sido. A Marielle é conhecida pela negação da Marielle, que é sua morte. Então, agora é a hora de a gente entender que ela tem que, realmente, virar semente, como as meninas estão dizendo. Acho que outras Marielles vão surgir como resposta a isso. A Mari era uma pessoa especial. Ninguém vai trazê-la de volta. O lugar dela, ninguém vai substituir porque era um afeto pessoal, que é diferente do que o mundo está sentindo. O mundo está sentindo vontade de ter conhecido a Marielle. De ter mais Marielles na política, na sociedade brasileira, em qualquer lugar. Isso é bom. As pessoas entenderam que chegamos a um limite também. Isso é importante. A gente espera que algo diferente desta lógica tão violenta aconteça.

 

Folha – Em entrevista à Folha, publicada (aqui) em 10 de abril, o deputado federal Chico Alencar (Psol) estabeleceu um prazo de 60 dias, a contar do crime, para que ele fosse desvendado. Ele usou como referência a elucidação do assassinato da juíza Patrícia Acioli, da 16ª Vara Criminal de São Gonçalo, assassinada, em 2011, com 21 tiros, na porta de casa, por policias militares ligados à milícia. O prazo dado por Chico venceu na última segunda (14). Como fica?

Freixo – Esse prazo não existe. Esse prazo é um desejo do Chico, que é um desejo muito razoável. Mas é um desejo da nossa angústia. É o tempo da nossa angústia. Isso não é o tempo da investigação. O caso da Patrícia Acioli, mencionado, é um caso que era muito mais simples do que o da Marielle. Só para você ter uma ideia: os policiais que mataram a Patrícia Acioli foram condenados pela Patrícia Acioli no dia da sua morte. Então, era muito óbvio que tinha uma linha de investigação imediata no caso da juíza. Eles usaram a arma da PM com a munição da PM. Eles usaram celular e passaram em frente à câmera de filmagem da casa. E saíram do carro. Então, o nível de complexidade do crime não se compara. Se levaram 60 dias para descobrir ou para fechar o caso da Patrícia Acioli, é evidente que não é em 60 que vão desvendar o caso da Marielle. Isso não quer dizer que eu não quisesse que descobrissem em 30. O meu desejo tem a ver com a minha saudade, com minha angústia, com meu sentimento de justiça. A gente precisa ter calma para não atrapalhar as investigações. Então, a gente sabe que é o crime mais complexo da história da Delegacia de Homicídios do Rio de Janeiro. Disso, eu não tenho a menor dúvida. Isso é dito pelos delegados. Eu estou acompanhando o caso muito de perto. Não tem um dia em que eu não me reúna com alguém sobre o caso. Eu estou acompanhando o caso. Acompanho a família. Estive ontem (quinta-feira) com a dona Marinete (mãe de Marielle). Sobre o meu mandato, tem uma responsabilidade muito grande sobre todos nós. Claro, é um mandato muito mais antigo, mais experiente, com muita relação com a Marielle. Então, nós absorvemos muito da responsabilidade. Mas não adianta querer dar um prazo que não seja real e querer criar ampliação de cobrança. Cobrança, tem que haver. Nós temos que ir para a rua, que cobrar, que falar sobre isso, como você está me questionando. Agora, nós não podemos fazer com que isso vire uma irresponsabilidade de querer que qualquer um assine esse crime. Como a gente tem dito sempre: a gente não quer vingança. A gente quer justiça. A gente não quer o que parece ter sido. A gente quer a certeza do que foi. Então, se tem vereadores suspeitos, que se investigue. “Ah, mas o vereador era miliciano.” Então, que ele responda pela milícia. Mas, pelo crime da Marielle, tem que ter provas sobre isso. Então, a gente tem que ter prudência também.

 

Folha – Pelo menos ao público, as maiores novidades sobre o caso não vieram da Polícia, nem dos militares do Exército que assumiram a Segurança Pública fluminense com a intervenção federal no Estado do Rio. Mas da reportagem de O Globo, que no último dia 8 revelou o depoimento de uma testemunha apontando como suspeitos de mandantes outro vereador carioca, Marcelo Siciliano (PHS), e o ex-PM e miliciano preso Orlando Curicica. O motivo teria sido o avanço da atuação social de Marielle em áreas da Zona Oeste controladas por Siciliano. Outro deputado federal do Psol, Jean Wyllys disse que “o cerco está se fechando”. Está?

Freixo – Não sei. Só os investigadores podem dizer. Nenhum deputado, ninguém tem informações específicas sobre a investigação. Nem deve ter. Não é papel de deputado ter informações das investigações. Mesmo os deputados mais queridos, mais próximos a Marielle, os deputados do Psol. Nenhum de nós tem que ter informação da investigação. Quem tem que ter essa informação são os investigadores. A gente tem que ter o resultado final. Essas informações relacionadas ao vereador, ao Orlando Curicica, são frutos de um vazamento. É grave. Deveria gerar punição, inclusive. É muito ruim que o ministro da Segurança Pública (Raul Jungmann) venha a comemorar e dizer que o cerco está se fechando baseado em um vazamento. Vazamento é crime. Atrapalha. Quem vaza, vaza por alguma razão, que também precisa ser investigada. Então, a gente não vai comemorar vazamento de informação. Acho muito grave um jornalista participar de um interrogatório. Eu espero, inclusive, que isso seja apurado. A gente vai esperar a investigação ser concluída para ter a clareza do que aconteceu. Se o Marcelo Siciliano tem vínculo com a milícia, que ele responda por isso. Mas, se ele vai responder pelo crime da Marielle, que se apresente provas sobre isso. Não estou, com isso, dizendo que ele seja inocente ou culpado. Estou dizendo que a gente não pode se basear em vazamento de informação, que tem outros interesses que eu não sei quais são, para dizer se o caso está sendo concluído ou não. Não há nada, nada concreto que diga que o caso está sendo concluído.

 

Folha – Também na entrevista à Folha, ao ser indagado se as execuções de Marielle e Anderson tinham sido uma resposta das milícias à intervenção federal, Chico Alencar respondeu: “Não, eu acho que foi mais um recado para o Marcelo Freixo, de que a vingança é um prato que se come frio, às vezes”. Segundo a testemunha do caso, Siciliano teria dito a Curicica: “Marielle, piranha do Freixo. Precisamos resolver isso logo”. Chico está certo?

Freixo – Não sei se o Chico está certo. Isso, é a conclusão da investigação que vai dizer. Eu acho muito difícil que o Siciliano tenha dito isso que está na informação vazada. Eu nunca encontrei o Siciliano. Não o conheço. Nunca vi. Certamente, ele sabe quem eu sou. Ele já pode ter estado em algum lugar em que eu estava. Ele acabou de ser eleito vereador. Eu não tinha escutado falar dele até o momento da eleição. E ele conhecia a Marielle. Estava há um ano convivendo com a Marielle. Eu acho muito pouco provável que ele, em uma mesa de bar, tenha falado o meu nome, que não é um nome comum, alto. Não é Silva. É um sobrenome que, evidentemente, se associa a alguém especifico no Rio de Janeiro. Não acredito que ele tenha falado o meu nome, em uma mesa de bar. Uma pessoa que ele nunca encontrou e se referindo a alguém que ele conhecia. Então, isso não bate para mim. Essa informação, para mim, é fantasiosa desse vazamento. Acho muito pouco provável que esse diálogo tenha existido. Mas está lá no vazamento.

 

Folha – Também na entrevista, Chico disse: “O Marcelo anda muito bem protegido, como tem que andar mesmo. E a Marielle não. Como qualquer um de nós do Psol, que denunciamos as mesmas coisas que ela, a gente nunca se preocupou em ter carro blindado, segurança. Talvez, tenha que se preocupar agora”. Tem agora ou já teria que ter antes?

Freixo – A Marielle não recebeu nenhuma ameaça. Eu falei com Marielle um dia antes de ela morrer. Marielle morreu em uma quarta. Na terça à noite, eu conversei longamente com ela. A gente, na sexta e no sábado, ia ter atividade juntos o dia inteiro. Eu pedi para ela não viajar para a gente fazer uma atividade juntos. Não tinha nada acontecendo que gerasse a ideia de que corria algum risco. Eu só tenho carro blindado e escolta porque eu recebi uma quantidade gigantesca de ameaça por conta da CPI das Milícias. Diversidade de ameaças ao longo do tempo. Então, óbvio, tem um elemento concreto. E não pensem que é um privilégio. Não é. Você não ter vida pessoal com um mínimo de autonomia. Este ano, eu tive uma conversa com minha companheira e meus filhos, dizendo que, no final do ano, eu pretendia diminuir a segurança porque não aguentava mais. Já são 10 anos de cerceamento, limitações. E eu achava que já não precisava mais. Afinal de contas, já tinha passado muito tempo. Eu sou pré-candidato a deputado federal. Se for eleito, vou passar um pedaço da minha vida em Brasília. Então, pensava em diminuir. Eu falei isso um mês antes. Essa conversa com minha família foi em fevereiro. Em março, a Marielle morre e muda tudo. Óbvio que não posso pensar em diminuir segurança agora. Quem matou a Marielle matou por uma razão que a gente não sabe qual é, mas não matou só pela Marielle. Isso está muito evidente. Porque, se fosse só pela Marielle, ela teria recebido alguma ameaça. Não queriam que ela parasse de fazer alguma coisa só. Se fosse isso, teria ameaça, como eu tenho. Aliás, na verdade, ameaça direta, eu nem tenho. O que eu tenho são diversos planos para me matar, que foram descobertos pela inteligência da polícia, através de grampos ou de infiltrados. Ameaça direta, eu tive pouquíssima. O que eu tive foram planos para me matar. Muitos. Uma pasta inteira. Então, é evidente que eu ando com blindado e com escolta. Agora, ninguém mais do partido. Porque ninguém se meteu onde eu me meti. As pessoas têm vida parlamentar como tantos no Brasil têm. De outros partidos, inclusive. Agora, se rompeu uma fronteira no Rio de Janeiro. A fronteira da barbárie foi rompida. O histórico de morte, de homicídios na política, tinha muito a ver com território, com lugares, com praticas que essas pessoas estavam envolvidas para além do parlamento. Crime político, com este perfil, o da Marielle é absolutamente inédito. Como você ia prever um negócio desses? Nem ela, nem nós. Ninguém. Ninguém imaginou isso.

 

(Foto: Antonio Leudo – Folha da Manhã)

 

Folha – Inegavelmente, o avanço da direita ocorre não só no Brasil, como no mundo. Entrevistei antes de você o Flávio Bolsonaro (PSL). Entre outras coisas, ele afirmou: “a direta saiu do armário”. O pai dele, o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL) lidera todas as pesquisas presidenciais nos cenários sem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). De onde veio e até onde pode chegar essa onda?

Freixo – Bom, que bom que ele saiu do armário. No sentido de estar mais feliz com o que ele pensa. Eu torço para ele ser feliz. Mas, na verdade, sempre existiu uma direita brasileira. Nós tivemos o Integralismo em grande parte do século XX. Nós tivemos uma ditadura civil-militar que durou…

 

Folha – Integralismo com o Estado Novo, o que é quase um pleonasmo.

Freixo – Estado Novo. Exatamente. E nós tivemos uma ditadura civil-militar durante 21 anos. De 1964 a 1985. Uma ditadura violenta. Essa ditadura só durou tanto tempo porque havia uma base conservadora de direita, de opinião pública, inclusive, que sustentava essa ditadura. Isso foi até 85. Então, não dá para achar que o Brasil descobre que tem uma direita. Eu acho que, de 85 para cá, principalmente pelos efeitos da década de 80, da Constituição de 88, que, de todas elas, é a Constituição mais avançada. A Constituição que precisava sair do armário. Essa, sim, precisava ser colocada em prática. Aquela, sim, vive no armário há muito tempo. Uma parte importante dela nunca saiu para ser efetivada enquanto uma Constituição Cidadã para o conjunto maior das pessoas. Então, houve um período de redemocratização em que houve certa timidez desses valores mais conservadores, mas nunca deixaram de existir. Nunca. Não à toa o perfil do Congresso, das Assembleias nunca foi um perfil hegemonicamente progressista. Mesmo no período de redemocratização, com todas as falhas que tem. O que a gente tem hoje em curso é a cristalização de uma extrema-direita muito personificada pela família, que também olha com senso de oportunismo eleitoral muito grande. Entende isso. Inclusive com algumas coisas que são curiosas. Por exemplo, todo o ímpeto da família Bolsonaro de denúncia da corrupção, o que eu acho que é importante. Mas eles foram do mesmo partido do Paulo Maluf a vida inteira. Eles foram do PP durante décadas. Nunca denunciaram o Paulo Maluf. Nunca. Foram da base do Cabral nesses anos inteiros. Votaram em Picciani para presidente da Assembleia Legislativa em todas as votações.

 

Folha – Você fala isso em relação ao Flávio?

Freixo – Em relação ao Flávio na Alerj e ao Jair, no PP, no Congresso Nacional. Eu estou falando do Paulo Maluf, mas poderia citar vários do PP. Aliás, o PP é o partido com o maior número de indiciados na Lava Jato. Partido do Jair Bolsonaro a vida inteira. Quem ele denunciou dentro do PP? Para quem ele pediu Conselho de Ética dentro do partido? Quando ele fez alguma frase, ao longo da sua vida, contra os corruptos que estavam no mesmo partido que ele? Nunca. Nunca fizeram. Então, tem um senso de oportunismo, nesse momento, que é válido, faz parte da política, mas não é tão novo assim. Essa direita não é tão nova. Tem uma pesquisa da Ester Solano, que eu não sei se foi publicada ainda e eu tive acesso, sobre o perfil do eleitorado da extrema-direita. Um estudo interessante e muito bem feito. Mostra o quanto tem relação com o medo, com o descrédito político, com a desesperança e o quanto isso alimenta um discurso, muitas vezes, de ódio. E aí é perigoso. No momento em que você tem uma vereadora brutalmente assassinada com quatro tiros, é muito grave a consequência de algum discurso de ódio. Porque há o medo, e ele é legítimo e materializado. Tem razão para ter medo quem vive no Rio de Janeiro, quem vive em qualquer cidade nordestina que, aliás, é mais violenta que o Rio de Janeiro. Qualquer capital nordestina tem índices de violência piores do que os do Rio de Janeiro.

 

Folha – Campos teve 103 homicídios em 2018, 13 só em maio.

Freixo – Paraty é a cidade mais violenta do Estado do Rio de Janeiro.

 

Folha – Campos é a 45ª cidade mais violenta do mundo.

Freixo – Então, é evidente que as pessoas têm medo, e esse medo é real. Então, como você responde a esse medo no momento em que a política não te representa? Você tem um medo. Esse medo é real, concreto. Todo mundo conhece alguém que foi assassinado, assaltado. Ao mesmo tempo, você não se enxerga na política. Há uma crise partidária, uma crise de identidade. Então, você busca algo que a política não te oferece. Nesse vácuo de república, aparece algo que dialoga com seu medo e que propõe algo que, supostamente, se diferencia dessa política, sem que a sua história comprove essa diferenciação. Mas diferente da política. É a história do outsider, do mito, do herói, de alguém que vai ser diferente de tudo isso. E a história não é nada diferente do que já foi feito até hoje. E, aí, ele dialoga com o ódio, que é o ódio que responde com mais armas, com mais violência. Enfim. Isso tem um prazo de validade. Qual é esse prazo, que é a origem da tua pergunta, não dá para saber.

 

Folha – Vai até outubro?

Freixo – Não sei, não sei. Já está fugindo dos debates. Eu acho que, nos debates, terá dificuldade de sustentar minimamente as suas ideias. Porque tem fragilidade. Mas certamente vão cristalizar uma votação de uma extrema-direita que nós não tivemos até hoje. Qual vai ser o tamanho disso? Não sei.

 

Folha – Já está na casa dos 20%.

Freixo – Está em 17%.

 

Folha – Segundo o Datafolha de abril. Em pesquisas mais atuais, feitas em maio, ficou em 20,5% na Paraná e 18,5%, na CNT.

Freixo – Está entre 17% e 20%. A gente vai concluir que entre 17% e 20% do eleitorado brasileiro é fascista? Não, não é. Se for, a gente está perdido. Mas não é. Agora, tem o medo, que reproduz uma leitura política no voto imediato. Mas isso pode mudar.

 

Folha – Na disputa do segundo turno pela Prefeitura do Rio contra Marcelo Crivella (PRB), uma atitude considerada importante na sua derrota foi ter dito que sua passagem pelo primeiro turno havia sido “um recado ao partido golpista”, em referência ao MDB do então prefeito Eduardo Paes, hoje no DEM. Insistir na narrativa de que o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) foi golpe, naquele momento, não o impediu de conquistar eleitores de centro? Você já disse que “não se arrepende de nada”. Não falta autocrítica?

Freixo – Não, não falta autocrítica. Eu só não posso ter autocrítica em cima do que não aconteceu. Em nenhum momento da minha fala no segundo, eu disse isso. Isso foi fruto de uma entrevista quando acabou a minha fala. Uma entrevista com o repórter André Trigueiro, do jornal O Globo. A pergunta dele era: “a sua vitória é uma resposta ao golpe?”. E eu respondo: “é, claro”. Isso não estava na minha fala no palanque. Só para deixar claro. Isso sempre aparece e atribuem a isso uma derrota. Isso não tem cabimento. Nós perdemos uma eleição para algo que a gente não conhecia direito, que era o poder da Universal e o poder da Record somados. Não foi fácil ir para o segundo turno com um oito segundos de tempo de televisão. A gente derrotou o Pedro Paulo, que tinha três minutos e uma estrutura inteira de campanha. Então, chegar ao segundo turno foi um mérito muito grande, coletivo de quem estava na campanha. Era um momento muito difícil para a esquerda, tanto que a esquerda perdeu no Brasil inteiro. Era o momento em que você tinha o auge da condenação de qualquer coisa da esquerda que se identificava ao PT. Nós nunca fizemos parte do governo do PT. Nós pagamos a conta. Isso é verdade. Passei boa parte da minha vida na Zona Norte e na Zona Oeste da cidade do Rio. Eu moro perto de um ponto de táxi onde há vários taxistas. Eu conheço todos eles pelo nome, inclusive. E, no primeiro dia do segundo turno, quando eu desço de casa, às 6h30 da manhã, achei que o clima estava meio estranho ali. Achei que pudesse ter acontecido alguma coisa. Não associei a mim. Aí, o dono do bar que fica embaixo do meu prédio disse: “os taxistas estão chateados com você”. Quando eu cheguei lá, falei: “o Zé falou que vocês estão chateados comigo. O que houve?”. “Ah, você não podia falar o que falou dos taxistas.” Aí, eu disse: “eu falei dos taxistas? Será que eu dei alguma entrevista sobre taxista e falei bobagem?”. E eu não me lembrava de jeito de nenhum. Aquela pergunta de Uber e táxi, eu devo ter respondido umas 500 vezes por dia. Mas eu falei a mesma coisa. Já não aguentava mais. Eu disse: “desculpe, não sei qual entrevista é essa”. E, aí, eles me mostraram um áudio de uma voz imitando a minha, de forma tosca, inclusive, e dizendo: “está vendo? Fui para o segundo turno. Manda dizer para esses taxistas burros que não adiantou votar no Crivella”. Era um áudio imitando a minha voz. Alguém ligava para mim e dizia: “e aí, Freixo? Foi para o segundo turno”. E, aí, eu dava o recado. Todos os taxistas do Rio de Janeiro receberam esse áudio às 6h da manhã do primeiro dia do segundo turno. Esse é o nível da política que foi feita no Rio de Janeiro no segundo turno. À tarde, eu estava em Bonsucesso, na praça, fazendo atividade política. Vem um senhor para mim e diz: “votei em você, mas não vou votar no segundo turno”. Aí, eu falei: “já sei, o senhor é taxista”. E ele falou: “não, não. Eu sou da igreja e achei um absurdo o recado que o senhor mandou para a igreja dizendo que vai permitir a troca de sexo em criança nas escolas”. Aí, eu falei: “meu senhor, é óbvio que eu não falei isso. Não estou propondo trocar sexo em criança, muito menos na escola”. Aí, ele me mostrou o áudio e era a mesma voz. Com esse subterrâneo, essa lixeira política, a gente não sabia lidar. A gente perdeu a eleição para isso. Não perdeu a eleição por uma declaração que eu dei para o André Trigueiro n’O Globo. Não foi isso que fez a gente perder. A gente fez todas as autocríticas do mundo em relação às falhas, aos erros. A gente fez e deve continuar fazendo.

 

Folha – Feita entre 4 e 9 de maio, a pesquisa Paraná foi a primeira ao governo estadual e às duas vagas fluminenses ao Senado. Nesta, Flávio Bolsonaro apareceu na liderança isolada, com 32,3% das intenções de voto, seguido do ex-prefeito do Rio, César Maia (DEM), com 20,6%. A mesma pesquisa apontou o senador Romário (Podemos), com 26,9%; Eduardo Paes, com 14,1%, liderando a corrida a governador. Depois da vitória de Crivella a prefeito do Rio, isso não sinaliza que o eleitor fluminense, tradicionalmente mais progressista, está virando à direita?

Freixo – O eleitor do Rio de Janeiro nunca foi progressista. Não sei de onde vocês tiraram isso. É só pegar o histórico de resultado eleitoral do Rio de Janeiro. A eleição no Rio de Janeiro é conservadora.

 

Folha – A opinião contrária à sua pode ser tirada das últimas quatro eleições presidenciais, nas quais o Estado do Rio ficou duas vezes com Lula e duas vezes com Dilma.

Freixo – Sim. Mas para os resultados internos, que é a base da pergunta. De governador, senador. Quem são os senadores eleitos pelo Rio de Janeiro?

 

Folha – Lindbergh? Benedita?

Freixo – Qual outro? Você falou dois nos últimos 50 anos.

 

Folha – Puxei pela memória.

Freixo – É porque só tem os dois. Não tem outro (em período mais recente, teve também Darcy Ribeiro e, por três mandatos, Roberto Saturnino, sem contar com Luís Carlos Prestes, eleito senador em 1945). O eleitorado efetivamente progressista do Rio de Janeiro está em torno de 25%. Isso historicamente. E tem outro eleitorado em disputa. E eu acho que a campanha sempre pedagógica, política sempre pedagógica. Porque tem margem de conversa. Agora, eleitorado de valores progressistas, no sentido de esquerda, 25% classicamente. Isso não quer dizer que você tenha 75% de conservadores. Não. Você tem uma margem pequena de conservadores e uma massa no meio, em disputa. É verdade. O que pode eleger gente de esquerda, desde que consiga ter um patamar de diálogo com a sociedade. Hoje, é muito difícil fazer qualquer cálculo nesse sentido, se a guinada eleitoral está para a direita ou para a esquerda. A gente está vivendo um período de intervenção. A gente viveu a morte da Marielle, que mudou a percepção das pessoas sobre política, mas a gente não sabe ainda o que vai acontecer. Há uma fronteira que se cruzou, com a morte da Marielle. As pessoas olharam de uma maneira diferente para a política, evidentemente. Em que isso vai resultar? Não sei. Teve um golpe. Olha eu repetindo “golpe” de novo. Porque eu acho que foi.

 

Folha – O impeachment de Dilma.

Freixo – Claro. Você não precisa de Exército para fazer golpe. Basta ter o parlamento. E eu não estou, com isso, defendendo o governo da Dilma. Achei o governo da Dilma muito ruim. Quero deixar claro isso. Mas estive em todos os protestos contra o golpe porque eu acho que a Dilma tinha que ser derrotada no voto. E eu esperava derrotá-la, inclusive. No voto. Mas não imputando um crime que não aconteceu e não rompendo com o processo legal, colocando um governo ilegítimo. Eu tive uma conversa com um dirigente do jornal O Globo, uma vez, um café. Foi muito curioso. Ele me disse que não foi golpe. Mas como não foi golpe? Ele falou: “mas passou por todas as etapas legais”. Eu falei: “sim, um golpe legal. Um golpe parlamentar, como teve no Paraguai e em outros lugares. Não precisa mais de Exército para dar golpe”. Ele: “não. Então, eu concordo que não foi moral, mas foi legal”. Esse resumo é genial. “Eu concordo que não foi moral, mas foi legal”. Então, é isso. Você dá legalidade a uma imoralidade. Aí, se você vai chamar de golpe ou não, é o de menos.

 

Folha – Pode ter consequência na urna.

Freixo – Vai ter consequência. Claro que vai. Mas não sei mais se é a mesma consequência. Porque uma coisa era quando o centro de avaliação política para saber se houve golpe ou não era o desastroso governo da Dilma, no qual as pessoas, na verdade, se apegaram a nenhuma legalidade para dizer “esse governo está uma droga e nós vamos apostar em qualquer coisa que possa melhorar”. Eu entendia isso também.

 

Folha – Perdeu apoio popular, perdeu apoio parlamentar. Perdeu as ruas em 2013.

Freixo – Perdeu apoio popular, perdeu apoio parlamentar, não tinha projeto. Perdeu as ruas. Havia impaciência muito grande. Havia falta de capacidade de diálogo muito grande. O governo não era bom. Era um governo que tinha muitos erros, na avaliação dos setores do próprio governo. Então, é isso. Aí, óbvio. A população não se apegou à ética legal para garantir o processo democrático. E abriu mão disso, o que é caro para a história do Brasil. O problema é que a avaliação se foi golpe ou não, em 2016, tinha um peso gigantesco. Por quê? Porque isso te associava à imagem e avaliação do governo Dilma. Não é o que acontece em 2018. O Temer é uma margem de erro, né? Tem 3% de aprovação. Pode ser só ele defendendo o governo, se for três a menos. Então, é diferente hoje. Hoje, quando você fala golpe ou não, você fala em um contexto em que as pessoas estão pensando em Temer. Ninguém pensa mais na Dilma. Aí, o Temer carrega, além da sua incompetência, a sua origem: golpista. A ideia de que você falar “é golpe”, hoje, gera uma grande polêmica? Não gera mais. Não acho que isso seja um definidor de campos políticos, como foi em 2016. Vocês têm toda a razão. Hoje, não. Hoje, as pessoas não estão mais preocupadas com isso. Essa pauta passou para boa parte dos brasileiros. Essa eleição busca voltar a dar legitimidade ao governo. Disso, ninguém discorda.

 

Folha – Em entrevista à jornalista Maria Fortuna, publicada por O Globo em 2 de abril, você descartou a possibilidade de disputar a eleição para governador:

Freixo – Vocês pesquisaram a minha vida mesmo.

 

Folha – Você disse: “Preciso ser candidato a deputado federal para superar a cláusula de barreira (que restringe o funcionamento do partido que não alcançar determinado percentual de votos). Há um desafio para que eu seja o mais votado e isso ajuda na disputa à Prefeitura daqui a dois anos. Se eu não tiver cumprindo mandato, com essas ameaças que sofro, terei que sair do Brasil e não estou disposto”.Motivos à parte, você não seria o nome mais competitivo do partido ao Palácio Guanabara?

Freixo – Eu acho que minha resposta já está aí. O partido tem vários quadros. O Tarcísio Motta, que é o nosso candidato ao governo, cumpriu um papel extraordinário há quatro anos. Ele foi candidato há quatro anos. Hoje, ele é pré-candidato porque a candidatura é só em agosto. O Tarcísio foi o vereador mais votado do Psol. É um parlamentar de grande destaque na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro hoje. Foi muito bem na última eleição. É um quadro preparadíssimo. Ele é menos conhecido do que eu? Pode ser. Mas a gente constrói quadros também. Quando a gente lançou o Tarcísio, há quatro anos, ninguém o conhecia. Aí, sim. Tarcísio tinha feito história comigo, era meu amigo de sindicato. Quando a gente lançou o Tarcísio, a gente sabia do potencial dele. Foi uma grande surpresa. Uma grande novidade. Foi o melhor nos debates, disparado. Fez uma campanha lindíssima. Na cidade do Rio de Janeiro, ele chegou à frente do Lindbergh. Ele teve uma votação extraordinária para quem era candidato pela primeira vez. Se consolidou. Foi o vereador mais votado do Psol, com 98 mil votos. Então, cabe a um partido construir seus quadros.

 

Página 4 da Folha de hoje (20)

 

 

Página 5 da Folha de hoje (20)

 

 

Publicado hoje (20) na Folha da Manhã

 

Direita sai do armário e lidera pesquisas a presidente sem Lula

 

Por Aluysio Abreu Barbosa e Aldir Sales

 

Em palestra no auditório completamente lotado da Faculdade de Direito de Campos (FDC), no último dia 8, o deputado estadual Flávio Bolsonaro (PSL) já tinha mostrado que o avanço da direita no Brasil não é exceção na planície goitacá. Pré-candidato ao Senado com liderança acentuada nas pesquisas, ele voltou ao município na última sexta (18), quando deu uma entrevista à Folha. Nela, analisou o avanço da pré-candidatura do seu pai, o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL), à presidência da República, também líder em todas as pesquisas nos cenários sem o ex-presidente Lula (PT). Ele defendeu pontos polêmicos, como endurecimento no enfrentamento contra o crime, redução da maioridade penal, liberação do porte de arma e até a ditadura militar brasileira (1964/85), que ele prefere chamar de “regime”. E credita a popularidade de seu pai ao fato dele ter tirado a direita brasileira do armário.

 

(Foto: Anotnio Leudo – Folha da Manhã)

 

Folha da Manhã – Feita entre 4 e 9 de maio, a pesquisa Paraná foi a primeira ao governo estadual e às duas vagas fluminenses ao Senado. Nesta, você apareceu liderando com 32,3% das intenções de voto. Foram mais de 10 pontos à frente do segundo colocado, o ex-prefeito do Rio, César Maia (DEM), com 20,6%. Observadas as limitações da Justiça Eleitoral, que só permite falar como candidato após as convenções, a que credita tanta vantagem?

Flávio Bolsonaro – Em primeiro lugar, sempre faço uma ressalva com relação a pesquisas oficiais. Quando os institutos não erram propositalmente, jogando o (Jair) Bolsonaro (PSL) para baixo na margem de erro e alguns adversários para cima. Eu sou a prova viva. Aconteceu comigo em 2016 na campanha à Prefeitura do Rio. O Datafolha me deu 7% no sábado e no domingo eu tive 14%, 100% de diferença. Então a gente nunca sabe se é intencional ou se nosso eleitor é difícil de ser captado em pesquisa.

 

Folha – Você acha que pode ser intencional?

Bolsonaro – Acho que pode ser intencional. Em grande parte das vezes, é. Ainda mais quando são institutos ligados a veículos que fazem claramente oposição a Bolsonaro.

 

Folha – Você se refere ao Datafolha e à Folha de S. Paulo?

Bolsonaro – A Folha de S. Paulo, principalmente. O instituto Paraná Pesquisas, eu acho que não tem muitos motivos para desconfiar que faça maldosamente, mas sempre faço essa ressalva, que o nosso eleitor é muito pulverizado. Tecnicamente é difícil de captar. Qualquer candidato que tenha no eleitorado uma parcela grande de público religioso ou público de opinião, a margem de erro é bem maior. Onde os pesquisadores vão, não consegue refletir a realidade. Feita essa consideração, eu entendo que a força do nome do Bolsonaro no Brasil seja o motor para essa diferença tão grande. E nessa pesquisa, especificamente, parece que nem o César Maia e nem a Martha Rocha  (PDT, que teve 20,4% na pesquisa) são pré-candidatos ao Senado.

 

Folha – Eles não são pré-candidatos.

Bolsonaro – Então a diferença para o segundo lugar, não sei se é o Chico (Alencar, Psol) ou o Lindbergh (Farias, PT)…

 

Folha – Chico está na frente, com 16,3%.

Bolsonaro – Acho que as candidaturas ao Senado ainda vão se definir nas convenções. Alguns nomes podem aparecer. Mas eu sempre falo que a gente está trabalhando para dar o maior percentual de votação no Rio de Janeiro ao pré-candidato à presidência da República Jair Bolsonaro. Então, como estou 100% com ele, meu nome acaba aparecendo bem pontuado. E fico feliz com isso.

 

Folha – Depois da vitória de Marcelo Crivella (PRB) à Prefeitura do Rio, com outro ex-prefeito Eduardo Paes (DEM) bem na consulta Paraná a governador e dois nomes conservadores, você e César Maia, liderando ao Senado…

Bolsonaro – César Maia, um parêntese, não é tão conservador assim. Ele tem umas ideias progressistas que até o colocam no campo da centro-esquerda.

 

Folha – Ele começou com Brizola (1922/2004) e depois foi migrando para o centro e para a direita.

Bolsonaro – Eu coloco na direita sempre conservador nos valores e liberal na economia. Não vejo o César Maia conservador assim nos valores. Ele quer se aproveitar do momento em que falar que é de direita é bonito para ele. O próprio DEM, onde ele está, qual é a inspiração? É o Partido Democrata dos Estados Unidos, que é de esquerda.

 

Folha – Nos Estados Unidos você ser liberal é ser de esquerda.

Bolsonaro – É, lá são os conservadores é que são os republicanos. Então o César Maia trouxe essa inspiração de um partido de esquerda nos Estados Unidos. Mas acho que ele se coloca no campo da centro-direita porque ele é um cara que faz muitas pesquisas. Ele gosta de se posicionar sempre ao lado da maioria. É muito mais nessa linha do que de convicção ideológica mesmo.

 

Folha – Mas com Eduardo Paes, você e César Maia bem cotados, dá para supor que o eleitorado fluminense, tradicionalmente mais à esquerda, virou à direita?

Bolsonaro – Olha, eu acredito que hoje, o que acontece é que pessoas que pensam como nós, mais à direita, estão mais encorajadas de se assumir.

 

Folha – A direita saiu do armário?

Bolsonaro – A direita saiu do armário, muito em função dos posicionamentos do Jair Bolsonaro há tempos no Congresso Nacional, muito em função da atuação muito importante do professor Olavo de Carvalho, que é um filósofo, um grande influenciador de todo esse aspecto que se coloca à direita. E com a internet as pessoas foram se identificando conosco e assumindo essa posição porque antigamente a grande imprensa coloca essas discussões ideológicas de uma forma que parecia que quem era conservador era a minoria. Havia uma imposição do silêncio e as pessoas não se manifestavam. E com a internet é o contrário, com a perda de poder da grande mídia, as pessoas conseguem perceber que a grande maioria é conservadora, inclusive no Rio de Janeiro. Os números estão aí para mostrar o que estou falando.

 

Folha – Com larga vantagem na corrida ao Senado e com seu pai à frente em todas as pesquisas para presidente, sem a presença do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT)…

Bolsonaro – E está até inelegível. Acho que agora até os institutos estão tratando sem ele.

 

Folha – Eles trazem cenários diferentes com Lula e sem. E seu pai lidera no cenário sem Lula.

Bolsonaro – E você vê como tem um pinguinho de preferência ideológica dos institutos de pesquisa. Não tem sentido alguém que não vai concorrer continuar nas pesquisas. Inclusive alguns veículos querem fazer sabatina com ele dentro do presídio. É uma forçação de barra surreal.

 

Folha – O Lula pleiteou isso.

Bolsonaro – Eu vi a Folha de S. Paulo falando que quer fazer, acho que o Datafolha, não sei.

 

Folha – A iniciativa veio do PT e não de algum órgão de mídia. Mas, enfim, tendo em vista as situações boas sua e do seu pai em duas eleições majoritárias, não seria um erro estratégico não lançar um nome do seu grupo também a governador do Rio?

Bolsonaro – Não estamos preocupados com disputa de poder. A gente não está nessa batalha por poder, não. O principal projeto que nós enxergamos para tirar o Brasil desse grande mar de lama, corrupção e incompetência que o PT nos afundou e o PMDB não conseguiu tirar. A solução passa por Brasília, pelo Congresso Nacional, pela presidência. E o que a gente enxerga hoje no cenário dos candidatos aqui no Rio de Janeiro, muitos deles terão em suas legendas pessoas que vão pedir voto para Bolsonaro. A partir do momento que ele pede apoio a um candidato, ele perde esse apoio espontâneo que haveria de eleitores desses outros candidatos. Então, neste momento, não posso falar lá na frente, nós não pretendemos lançar ninguém ao governo do Estado. Até porque o governo do Rio está completamente quebrado, o Pezão (MDB) está fazendo de tudo, se endividando até onde não pode para conseguir terminar o seu mandato. O próximo governador terá seríssimas dificuldades, não tem nem mais margem de endividamento. Então, a saída para a crise no Rio vai depender, mais do que nunca, do apoio da União. Tenho convicção de que lá em Brasília poderemos ajudar muito mais o Rio de Janeiro neste aspecto.

 

Folha – Outra pesquisa Paraná, feita entre 27 de abril e 2 de maio, foi a que registrou até aqui a menor diferença entre Lula (27,6%) e seu pai (19,5%) na corrida presidencial. A diferença de 8,1 pontos percentuais pode cair a apenas 4,1, forçando a margem de erro de dois pontos. Como alguém que era considerado o antagonista de Jean Wyllys (Psol) na Câmara Federal se tornou em tão pouco tempo o principal adversário do líder político mais popular do Brasil, desde o ex-presidente Getúlio Vargas (1888/1954)?

Bolsonaro – O tamanho do Bolsonaro não tem nada a ver com Jean Wyllys. Simples assim. Alguns ditos “especialistas” em análise política tentaram forçar essa barra para tentar trazer o Jean Wyllys a reboque do Bolsonaro. E os números estão mostrando que ele é muito maior do que isso, maior do que Lula, do que Jean Wyllys. O tamanho dele tem a ver com todo o cenário nacional que estamos enfrentando, com altíssimo desemprego, grave crise na Segurança Pública, de corrupção desenfreada. A população enxerga que precisa escolher um perfil mais conservador do que já foi apresentado até agora. Os progressistas só afundaram o nosso país, incluindo a Educação. Então estão enxergando no Bolsonaro uma tábua de salvação para o país dar uma endireitada. Dar uma guinada para a ordem, desenvolvimento e progresso. E como se dá isso? Com uma pessoa com independência política, que não vai chegar, se for a vontade de Deus, a uma presidência da República e fazer tudo que os outros estão fazendo. Por exemplo, comprando deputado para aprovar matéria de interesse do governo. Não é nossa linha. Por qual motivo o Bolsonaro está com mais de 20% das intenções de votos e nenhum partido quer se aproximar dele para fazer coligação, já que ele é o principal potencial candidato à presidência? Nós não falamos a mesma língua deles e queremos preservar esse valor até o final de nossas vidas públicas. Se quiserem caminhar conosco, a forma de fazer política é diferente. Garantindo que o Congresso Nacional cumpra o seu papel legítimo de fiscalizar, de participar, sim, do orçamento, trazer as demandas da população que são responsabilidade do presidente para que sejam resolvidas. Você pega qualquer pleito de uma bancada ruralista, bancada da segurança, bancada religiosa. Quais são os pleitos em cada localidade? Vamos resolver, sem toma lá, dá cá. É assim que acreditamos que vamos tirar o Brasil desse buraco.

 

Folha – Sem Lula, seu pai lidera para presidente em todas as pesquisas. A mais recente foi feita pela CNT entre 9 e 12 de maio. Nela, sem Lula, Bolsonaro ficou com 18,5% das intenções de voto. Entre 20% a 20,9%, ele também liderava nos três cenários sem Lula da pesquisa anterior do mesmo instituto, realizada entre 28 de fevereiro e 3 de março. Mesmo dentro da margem de erro, é uma queda de cerca de dois pontos. Mas o fato é que, pela CNT, Bolsonaro não cresceu nos últimos dois meses. Não é muito cedo para bater teto? Como superá-lo?

Bolsonaro – Tenho a convicção de que, primeiro, os números de Bolsonaro não são esses e, definitivamente, são muito maiores. Qualquer pesquisa no Google, no Youtube mostra como ele é recebido em aeroportos, em cidades de onde são muitos dos políticos que estão aí, que mantiveram o povo na pobreza e desempregado. A gente não faz política para agradar ou desagradar alguém ou preocupado com os números. Nosso trabalho é diário. Tijolinho por tijolinho, para construir essa força. Não gosto de ficar analisando esses números friamente. Como falei, tenho muita desconfiança com relação a essas pesquisas. Tenho certeza, o Lula nem está nesse tamanho todo. Você pega a Marina com 12%. Eu não conheço uma pessoa que vote na Marina. Nem o amigo de um amigo que conhece alguém que vote nela. Ninguém. Como que ela está com isso tudo? Dez por cento é muito. Não está. Se, oficialmente, Bolsonaro está mais do que os segundo e terceiro colocados juntos, é sinal de que ele está muito maior. A gente percebe que quanto mais a verdade aparece, mais o Bolsonaro cresce.

 

Folha – Sem falar nos números, vamos discutir a tendência. Como a CNT em duas pesquisas com dois meses de diferença e não indica crescimento, a questão do teto é algo importante em qualquer eleição. Todo candidato tem um teto. Ele pode alcançar antes ou depois, como um atleta, que tem um pico e depois cai. Se essa pesquisa CNT estiver certa e esse teto tiver sido batido, não está muito cedo?

Bolsonaro – Primeiro que se você pegar da CNT, dá 18%, se pegar da Paraná Pesquisas dá 26%, 25%. A diferença é muito grande…

 

Folha – A Paraná deu a Bolsonaro 19,5% com Lula e 20,5%, sem.

Bolsonaro – Na minha avaliação, o que os institutos estão pegando é o piso dele e não o teto. Além disso, tem as pessoas que não declaram voto, o que é uma característica do nosso eleitorado. Vota quietinho. Está mudando esse panorama, esse perfil com a internet. Além dos indecisos também. Hoje, Bolsonaro tem dois aspectos que está buscando e que não tem nenhum outro candidato com essa capacidade. É o perfil, melhor dizendo, para buscar. São os votos nulos. Então, o voto de protesto contra toda essa corrupção pode ser o Bolsonaro.  Acho que isso está muito longe de ser o teto dele.

 

Folha – E qual seria o teto?

Bolsonaro – Não dá para saber. Acredito que, dependendo de como as coisas forem acontecendo até a campanha, os fatores forem influenciando, como Lava Jato, as operações aqui no Rio de Janeiro também, e as alianças que muita gente faz, vendendo a alma ao diabo em troca de tempo de televisão, podem acabar favorecendo ao Bolsonaro também. O único que é contra esse sistema podre, realmente, é o Bolsonaro.

 

Folha – Você falou da desconfiança sobre o Datafolha. Das três últimas pesquisas, falamos da CNT e da Paraná. A Datafolha mais recente, feita entre 11 e 13 de abril, deu seu pai, com 17% das intenções de voto, empatado na margem de erro de dois pontos com a ex-senadora Marina Silva (Rede), que teve 15%. É uma pesquisa mais antiga que a Paraná e a CNT, que deram Bolsonaro isolado, respectivamente, com 20,5% e 18,5%, contra os 12% e 11,2% de Marina. Acha que a próxima Datafolha confirmará essa tendência e trará seu pai já descolado na liderança?

Bolsonaro – Acho que o Datafolha nunca assumirá que o Bolsonaro está disparado na frente desse jeito. Eles manipulam as pesquisas. E se não manipulam, são muito incompetentes, porque eles erram. Dei o exemplo que aconteceu comigo, com 100% de diferença de um dia para o outro. Como o Datafolha é ligado à Folha de São Paulo, que é um veículo que está apontando claramente contra nós com inverdades. Eles não têm a menor credibilidade, são totalmente fake news para mim.

 

(Foto: Antonio Leudo – Folha da Manhã)

 

Folha – Além de Marina, criticada pelos petistas por ter apoiado Aécio Neves (PSDB) no segundo turno de 2014 e o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), a esquerda tem ainda Ciro Gomes (PDT), que aparece em terceiro nas pesquisas. Mas depois de ter uma aliança com o PT, que daria a vice, descartada por Lula, o político cearense já teria sondado o presidente da Coteminas, Josué de Alencar, e estaria agora flertando com Benjamin Steinbruch (PP), banqueiro e um dos homens mais ricos do país, para compor sua chapa. Isso sinaliza a demanda de virar à direita, ou pelo menos ao centro, para se eleger presidente?

Bolsonaro – Isso demonstra uma manobra para tentar enganar o grande empresariado do Brasil. O Ciro Gomes é um cara altamente estatista, que tem falado abertamente que vai perseguir os grandes empreendedores e qualquer um que gere emprego e renda neste país e que tenha lucro. Ele acha que o empresário que tem lucro é explorando os trabalhadores de uma forma cruel. Ele diz até que pretende rever o aumento da contribuição de impostos por parte dessas pessoas. O empresariado não é bobo. O Ciro não passa nenhuma credibilidade para esse setor.

 

Folha – Seu pai também tem quebrado ao centro para tentar desfazer a imagem de radical de direita. Após ter proposto em 1999 o fuzilamento do então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), por conta das privatizações do governo, ele hoje admite privatizar até a Petrobras, como fez em visita aos EUA em outubro. Um dos principais problemas do Brasil, a economia é tida com um dos pontos fracos de Bolsonaro. Em evento de fevereiro em São Paulo, para empresários e investidores, ele admitiu: “não entendo nada de economia”. Basta ter o economista e ex-banqueiro Paulo Guedes na equipe?

Bolsonaro – O radicalismo do Bolsonaro é contra a corrupção, contra os marginais, então, esses rótulos que tentam colocar nele como se fosse uma pessoa desequilibrada são totalmente equivocados. Ele é uma pessoa extremamente preparada, inteligentíssima, passou em um dos concursos mais difíceis do Brasil, na década de 1970, na Academia Militar das Agulhas Negras. Uma pessoa que sempre estudou em escola pública e subiu na vida pelos próprios méritos. E o que ele passa ao falar de economia é a sinceridade. Ele não vai vender uma coisa que ele não é para a população, ele não vai topar qualquer parada pelo voto, ele não vai enganar a população. Se ele não tem domínio profundo, tem entendimento razoável sobre todos os temas. Se na economia não possui um profundo conhecimento, está com um dos melhores economistas do país na equipe, talvez o melhor, que é o Paulo Guedes. É uma pessoa que tem o orientado, o convencido de muitas ideias que ele antes não compreendia muito bem e que agora compreende muito melhor. Mostra que é uma pessoa flexível nesse aspecto. Todos que escolherem Bolsonaro como representante, se assim a convenção partidária definir, vão saber os nomes de muitos de seus futuros ministros porque ele é o único que vai ter independência para escolher os melhores quadros.

 

Folha – Outro dos principais problemas do país, a Segurança Pública é o maior cabo eleitoral do seu pai. Na última quarta (16), completaram-se três meses desde que o Exército assumiu essa pasta com a intervenção federal no Estado do Rio. E a sensação geral não é de melhora. Considerado em 2017 como a 45ª cidade mais violenta do mundo (14ª entre as 17 cidades brasileiras listadas) pela organização mexicana Segurança, Justiça e Paz, Campos teve 103 homicídios em 2018, 13 só em maio. A causa principal é uma disputa entre facções criminosas pelo domínio do tráfico de drogas em Guarus. Qual a solução?

Bolsonaro – Passa por vários setores. Vamos falar só da parte final. Em primeiro lugar, tem que mudar muita coisa dentro da própria corporação. O policial tem dificuldades para trabalhar, tem dificuldades financeiras, o Estado não honra com seus compromissos e, sem falar, que estrategicamente estão muito mal distribuídos. Esse projeto da UPP começou muito bem, mas depois que passou a ter um cunho eleitoral. Quando chegou até 10 UPPs no Rio, a Polícia Militar tinha o controle, dava para abrir mais uma por ter efetivo. Mas chega ao momento, hoje, que temos 39. Todo efetivo que foi empregado em UPPs deixou de ser empregado nos efetivos dos batalhões, que foram perdendo, ao longo do tempo, como aconteceu aqui em Campos. Então, o efetivo do batalhão aqui hoje é muito menor do que o de cinco anos atrás. A criminalidade espalhada por todo o estado, mais uma vez, por uma estratégia das UPPs que anunciava onde iria ser instalada a próxima, dando tempo para os marginais fugirem.São Gonçalo e Niterói viraram um inferno. Niterói era uma das cidades com melhor qualidade de vida do Rio de Janeiro, mas hoje é altamente violenta. Aconteceu também com Macaé, com Campos… E como se resolve isso? Primeiro, é ter coragem de dar um passo para trás para dar cinco para frente. Revendo totalmente as UPPs.

 

Folha – Essa frase “dar um passo atrás para dar dois à frente” é de Lenin (líder da Revolução Russa de 1917).

Bolsonaro – Mas eu falei cinco à frente, então é Bolsonaro. Lenin é atrasado (risos). A questão do efetivo precisa ser revista para áreas onde há maior incidência de crimes. E, segundo, mudar a legislação. Hoje se você perguntar para qualquer policial na rua, ele vai dizer que tem medo de agir. Se ele age contra um cara armado que está assaltando e dá cinco tiros, a chance dele responder por ter agido com excesso é muito grande. O policial pode ir para a cadeia por ter matado um marginal. Ou se ele não age, a chance dele morrer também é muito grande. O marginal o identifica como inimigo e atira para matar, tem certeza da impunidade. Precisamos mudar a legislação para dar segurança jurídica para nosso policial agir sem medo de virar réu. E eu posso garantir uma coisa: implementando isso, o governo Bolsonaro vai ser marcado por aumentar a taxa de homicídios, mas de marginais. Com bandido que está portando fuzil, levando terror para as nossas ruas, não tem que ter pena, tem que ser eliminado, como aconteceu na intervenção militar no Haiti. E além disso, aqui a polícia tem outro complicador, mas aí é culpa do Judiciário. Hoje existe uma coisa chamada audiência de custódia e é uma resolução do Conselho Nacional de Justiça. O que é isso? O policial prendeu alguém em flagrante. Em 24 horas esse policial tem que apresentar esse bandido ao juiz, que vai decidir se ele responde em liberdade ou não. Aqui no Rio de Janeiro, em quase 60% dos casos o marginal sai antes do policial da audiência de custódia e ainda responde em liberdade. Não tem como dar certo com uma legislação assim, por exemplo, que ainda protege o menor de idade. Um bandido, um estuprador, um sequestrador, um assaltante. Com 16 anos, faz o que faz, certo da impunidade e rapidamente está de volta às ruas. Três fatores: segurança jurídica, para o policial ter tranquilidade para trabalhar; fim da audiência de custódia; e redução da maioridade penal.

 

Folha – O discurso é de não fazer qualquer coisa para ganhar o voto dos deputados. O fato é que a Constituição de 1988 é considerada parlamentarista. Entretanto, o regime de governo que venceu o plebiscito de 1993 foi o presidencialismo. Ficamos um hibridismo chamado de presidencialismo de coalisão ou de “cooptação”. Você está falando de mudança na legislação, de Código Penal. Como fazer isso?

Bolsonaro – Quem vai responder é o Congresso, e mais, temos uma eleição pela frente. Estamos batendo na tecla, há algum tempo, da importância do voto em deputados e senadores com os perfis que seriam favoráveis a essas medidas. A bola está com a população. O presidente tem a influência maior de tentar pautar esses projetos com mais prioridade. Então, pautou o projeto sobre a redução da maioridade penal, se o Congresso entender, ao contrário da população, de que não deve reduzir, a responsabilidade não é da presidência, é do Congresso. E como é que o Jair está tentando buscar esse apoio amplo? É não haver troca de voto por ministério, por cargo, por dinheiro. O que ele está propondo é de dar uma real autonomia para os deputados e senadores e trazer o que for de demanda. Por exemplo, a bancada da segurança traz uma demanda para conseguir um convênio da União com o seu respectivo estado para investir na Polícia Militar. Ele, o parlamentar, é o padrinho dessa medida, ele que tem o ganho político. Esse é o papel do parlamentar. Outra medida que ele pretende tomar para diminuir essa margem para negociações espúrias é a redução de ministérios, a extinção de várias estatais.

 

Folha – Ninguém imagina que o PSL vá sair dessa eleição com uma bancada próxima a de MDB, PSDB, PT ou DEM. Vai ter que ter algum tipo de mediação. Muito se fala que se o próximo presidente da República não fizer a reforma da Previdência, não termina o mandato. E se tentar fazer, pode ser que caia também.

Bolsonaro – O erro do Temer foi enviar para o Congresso uma reforma impossível de ser aprovada. O ótimo, nesse caso, foi inimigo do bom. Se ele manda uma proposta mais diluída no tempo, para que as mudanças fossem feitas mais ao longo do tempo, ela passaria. Como você fala para um cara do Nordeste, que tem a expectativa de vida de quase 70 anos, e que ele vai ter que trabalhar até 75? Vai trabalhar até morrer? Aí não passa mesmo. O que a gente tem falado muito é de propor um novo modelo de previdência para aqueles que estão entrando agora, algo que seja autossustentável. Mas os detalhes disso estão nas mãos do Paulo Guedes e em breve todos vão saber na proposta de governo.

 

Folha – Outro dos carros chefes de Bolsonaro é a imagem de probidade em meio à corrupção sistêmica eviscerada pela Lava Jato. Acredita que isso tenha sido arranhado pela matéria da Folha de São Paulo que revelou a evolução patrimonial dele, sua e de seus dois irmãos políticos (Eduardo, deputado federal por SP, e Carlos, vereador no Rio), que hoje são donos de 13 imóveis, no valor de mercado de R$ 15 milhões? O que pode dizer sobre as operações envolvendo 19 imóveis na Zona Sul do Rio e na Barra, que você teria feito?

Bolsonaro – Quem dera (risos). Essa matéria fortaleceu o Jair. Ela é tão ridícula, tão banal, tão amadora, que todo mundo percebe que existe uma perseguição por parte desse veículo de imprensa. Primeiro, eles pegam o patrimônio de quatro pessoas diferentes, de quatro CPFs diferentes e colocam em um bolo só para dar a impressão de que a família inteira enriqueceu ilicitamente junta. Eu sou casado, meu irmão é solteiro, meu pai já foi divorciado. A evolução de nossos patrimônios é completamente diferente. Quem dera meus imóveis valessem tanto assim. Queria vender tudo para a prefeitura e para o governo do Estado para ver se eles vão me pagar um terço disso. Não ia. Uma matéria fraquíssima, que tenta induzir o eleitor como se fôssemos corruptos e enriquecidos ilicitamente. O nosso patrimônio, e digo por nós quatro, são todos declarados no Imposto de Renda. É um desrespeito com os leitores do próprio jornal nessa ânsia de querer atacar Bolsonaro com coisas que não existem.

 

Folha – Bolsonaro e boa parte dos seus eleitores defendem a nossa última ditadura militar (1964/85). Dá para defender um regime em que 434 opositores políticos foram mortos ou desaparecidos, que torturou e exilou outros tantos, suprimiu garantias individuais básicas como a habeas corpus, impediu eleição direta de presidente por 25 anos, censurou a imprensa e as artes, fechou o Congresso, praticou atendados com bombas como no caso do Rio Centro, dissolveu violentamente passeatas coma as que depois levariam ao impeachment de Dilma, além de entregar o país com uma inflação de 239% ao ano?

Bolsonaro – Regime militar, a gente chama. O Brasil deve muito aos militares, inclusive a democracia que a gente vive hoje. Em 1964 o que aconteceu foi o Congresso Nacional, cumprindo as normas constitucionais, declararam vago o cargo de João Goulart e elegeram Castelo Branco presidente do Brasil, com apoio em peso da população, de praticamente todos os veículos de comunicação, OAB, todas as igrejas. Você sabia que Afonso Arinos votou em Castelo Branco? Você sabia que Ulysses Guimarães votou em Castelo Branco? Está publicado no Diário Oficial da União. Só não lê quem não quer. Então se houve golpe em 1964, houve golpe agora com a Dilma. Essa é a narrativa que a esquerda tenta trazer para a população e que é mentirosa.

 

Folha – Você sabia que o general Mourão Filho deslocou suas tropas de Juiz de Fora para o Rio de Janeiro, em 31 de março de 1964?

Bolsonaro – Os militares tinham um planejamento e, no final da década de 1960, os militantes terroristas de esquerda começaram a assaltar banco, sequestrar autoridade, roubar fuzil de quartel. Qual tratamento você quer que dê para eles? Rosinhas? Porrada mesmo, era guerra. O mundo vivia a Guerra Fria, o Brasil existia o receio de que virássemos comunistas aliado a países altamente atrasados e autoritários com ditaduras, como União Soviética, Coreia do Norte, Cuba. O brasileiro não queria isso, o brasileiro apoiou os militares para chegarem ao poder. Houve essa radicalização dos terroristas que exigiu por parte do governo uma resposta à altura.

 

Folha – Você tem aparecido com seu colega na Alerj Bruno Dauaire (PRP) e hoje está vindo a Campos com Gil Vianna (PSL), que chegou a ocupar uma cadeira de deputado estadual. Quais são as relações com a política do município e da região? Vai apoiar alguém daqui em outubro, caso sejam confirmadas as candidaturas após convenções?

Bolsonaro – Meu apoio aqui será para os candidatos do PSL. Tem aqui o Gil Vianna, pré-candidato a deputado estadual, tem o (ex-vereador) Papinha, pré-candidato a deputado federal, tem o (policial rodoviário federal) Charles Batista, que esteve recentemente comigo em uma palestra e, apesar de não ser de Campos, tem o apoio da Direita Campos, um movimento de apoio voluntário. A relação que tenho com o Dauaire, primeiro que ele foi meu colega de faculdade. Fizemos Direito juntos na Cândido Mendes. Ele foi meu calouro. Estamos exercendo o mandato e estivemos juntos em um evento dos guardas municipais do Rio, que é uma bandeira que também defendo, a exemplo dele. Mas o nosso apoio institucional será para os candidatos do PSL. É óbvio que se ele quiser pedir voto para mim, não vou negar. Vindo dele, considero uma pessoa qualificada, que exerce um bom mandato, representa bem, inclusive, as guardas e as forças de segurança. Ele pedindo voto para Flávio Bolsonaro para o Senado vou aceitar de bom grado.

 

Folha – Ele está no grupo do ex-governador Anthony Garotinho (PRP). Qual sua relação com ele?

Bolsonaro – Como falei, o eleitor escolhe a pessoa e não o partido, o grupo. Óbvio que isso pode influenciar negativamente no meu candidato. Desde que Rosinha Garotinho (Patri) foi governadora, eu fui deputado de oposição. Garotinho era secretário de Segurança Pública e foi convocado por mim na Comissão de Segurança da Alerj para explicar os problemas que a PM enfrentava.

 

Folha – Foi nesse período que ele foi condenado como “chefe de quadrilha armada”.

Bolsonaro – O Garotinho tem sérios problemas (com a Justiça).

 

Folha – Pela atuação dele como secretário de Segurança foi condenado na Justiça Federal como “chefe de quadrilha”.

Bolsonaro – Não sei se foi uma condenação definitiva ou não…

 

Folha – Foi em primeira instância.

Bolsonaro – Algumas vozes correntes que chegam aos nossos ouvidos dizem que ele mantinha uma “normalidade” no sistema penitenciário muito esquisita, muito suspeita. Acho que se ele fosse um pouco mais rigoroso nas regras do sistema penitenciário…

 

|Folha – Tinha o Álvaro Lins na mesma condenação…

Bolsonaro – Votei para ele ser cassado como deputado. Então, obviamente, não tenho nenhum interesse em me aproximar do clã Garotinho e nem ele da gente, acredito eu. Mas o Bruno Dauaire é uma pessoa que exerce um bom mandato, mas está muito mal amparado com o clã Garotinho (risos).

 

Folha – Na noite do último dia 8, você fez uma palestra que lotou o auditório da Faculdade de Direito de Campos (FDC). Além da presença maciça de público, o evento também ficou marcado pela parte mais à frente da plateia ter sido composta de policiais rodoviários federais fardados e armados, além de praticantes de jiu-jtsu vestidos com quimonos de luta. Essa é a indumentária que se espera em um evento político? Ou foi pensado para tentar intimidar fisicamente qualquer opositor que aparecesse?

Bolsonaro – Não, intimidar de forma alguma, não. São pessoas, representantes de segmentos que eu respeito demais. Tenho o maior orgulho de tê-los no meu time. Repito, pessoas legalmente armadas trazem segurança para mim e para todo o público que estiver ali. Havia uma pessoa na mesa da categoria, dos policiais rodoviários federais, que convidou aqueles profissionais para estarem ali e eles são muito bem-vindos. Queria que todo mundo no auditório tivesse arma. Seria o sinal de que ninguém ali correria o risco de sofrer qualquer ação de algum bandido.

 

Folha – Falando sinceramente, se um comício de alguém do PT tivesse na plateia pessoas de kimono e armadas, você iria assim mesmo?

Bolsonaro – Mas não podemos ter esse olhar discriminatório para a luta. É a vestimenta deles. Inclusive são as pessoas ali das mais graduadas nesse segmento no estado. Inclusive recebi a faixa preta honorária de um deles, simbolicamente.

 

Folha – Você pratica jiu-jitsu?

Bolsonaro – Não pratico, mas foi uma faixa preta honorária. Eu pratico tiro esportivo (risos).

 

Página 2 da Folha de hoje (20)

 

 

Página 3 da Folha de hoje (20)

 

 

Publicado hoje (20) na Folha da Manhã

 

Flávio Bolsonaro e Marcelo Freixo neste domingo na Folha da Manhã

 

Flávio Bolsonaro na Folha da Manhã (Foto: Antonio Leudo – Folha da Manhã)

 

Na última sexta (18), respectivamente com os jornalistas Aldir Sales e Paula Vigneron, entrevistei os deputados estaduais Flávio Bolsonaro (PSL) e Marcelo Freixo (Psol). O primeiro é o pré-candidato ao Senado líder nas pesquisas, enquanto do segundo se espera uma bela votação na sua pré-candidatura a deputado federal. As duas entrevistas serão publicadas na edição deste domingo (19) da Folha da Manhã.

 

Depois de Bolsonaro, foi a vez de Marcelo Freixo (Foto: Antonio Leudo – Folha da Manhã)

 

Sérgio Arruda de Moura — Uma contista já pronta

 

Paula Vigneron no lançamento de “Entre outros”, seu segundo livro de contos

 

 

 

 

Conduzindo a palavra

Por Sérgio Arruda de Moura(*)

 

Os 32 contos reunidos em “Entre outros”, da jornalista e escritora Paula Vigneron, publicados recentemente pela editora Mucufo, são exercícios bastante intensos de leitura sob o escopo da imersão psicológica da vida de personagens. Os perfis aqui delineados se debatem na sutileza das relações entre o homem e a mulher, mas não apenas. No cômputo geral, são exercícios literários bastante concisos de linguagem em busca de suas possibilidades de sentido, análise mesmo, de uma contista já pronta e que já definiu caminhos bastante sólidos de sua escritura.

A descrição da cena, do gesto, do sentimento, aliada à análise fina de si é o motor dessas pequenas pérolas, pequenas porque curtas e concisas, em que nada é fortuito ou ocasional, mas minuciosamente encaixado. Os diálogos, as indicações de espaço e tempo, o ritmo, são sempre muito econômicos, definindo mesmo um estilo. A frase curta, porque o pensamento é direto e rápido, não tem tempo a perder com divagações sem foco. Cada frase, nesse formato, estuda o gesto e capta o instante, sem retóricas, sem estilismos adaptados, sem figurações excessivas. É aqui que nasce a poética da jovem autora: a busca da dimensão psicológica dos personagens, que podem ser qualquer um de nós, captado na rua, observado no cotidiano, flagrado em trânsito, evocado e construído no manuseio da sentença precisa. Melhor: da palavra exata.

A contista Paula Vigneron já vinha conquistando essa destreza desde “Sete balas ao luar”, seu livro de contos anterior, sendo que o que temos agora é um progresso, um amadurecimento, na arte de conduzir uma narrativa. Os contos, perfilados, compõem um painel de tipos, de sonhadores e realistas sob a capa de gente comum, não estereotipada, querendo dar conta de uma pequena mostra da humanidade, vivendo conflitos consigo mesmos, compreendendo, avaliando ou matando os pequenos monstros interiores que barram a felicidade. Sim, são contos que buscam o lugar onde estão as coisas pelas quais vale a pena viver.

Os instantâneos da vida real não costumam povoar os livros de conto com tanto realismo, e sem exercícios metalinguísticos, ou de humor. Seria o caso de se perguntar onde a autora, sendo tão jovem, foi buscar tanta vivência. Me arrisco a dizer que nas suas linhas se escondem uma Lygia Fagundes Telles e uma Clarice Lispector, tal o exercício de busca.

Em primeira ou terceira pessoa, não importa, o foco na ilusão do que resta ou do que se perdeu entre os amantes, marca sua escrita intimista, sobre o encontro, o desencontro, a permanência ou a partida. Não é a ilusão que satisfará o personagem de Paula, mas uma decisão.

Em alguns dos contos, como “Resquícios”, o sentido da fatalidade, revela-se em poucas palavras, dispostas em liberdade para que o leitor “viaje” na leitura. Mais sutileza e uso preciso da palavra impossível. Este conto narra a decisão de um suicídio, nada mais pessoal e intransferível.

Em “Retrato”, apenas a primeira e a última frase fechando o breve conto diz sobre como uma fotografia evoca a memória. É a narrativa-síntese sobre a brevidade e a evocação do vivido pela lembrança. Em “Entre estranhos”, o fim de relacionamento com um balanço, um ajuizamento que conduzirá as duas partes dispersas agora com uma experiência dolorida na bagagem, a seu favor. Em “Metades”, a autoavaliação em face de si mesmo, uma súbita tomada de conhecimento, como uma epifania, marca a decisão. Aqui, reforço a convicção que criei de que seus personagens são decididos e se conhecem, ou buscam se conhecer, sem medos ou hesitações.

Enfim, “Entre outros” com sua capa sugestiva no trabalho gráfico de Mara Oliveira, engrandece a ficção campista sem se referir propriamente as suas peculiaridades e aos seus tipos urbanos ou folclóricos. E isso é bom, porque contribui para dar um status cosmopolita a essa cidade, acusada ainda de ser provinciana.

 

(*) Professor de Letras da Uenf

 

Página 2 da edição de hoje (18) da Folha Dois

 

Publicado hoje (18) na Folha da Manhã

 

Guiomar Valdez — “É declarada extinta, desde a data desta lei, a escravidão no Brasil”

 

 

 

No domingo que iniciou esta semana, 13 de maio, completaram 130 anos da Abolição do Trabalho Escravo no Brasil. A cada ano que passa, venho observando que se tornaram ‘anêmicos’ os debates, as manifestações e os eventos sobre o conteúdo dessa data dentro do processo histórico brasileiro. Parece que se esgotaram a importância e também as críticas de suas limitações. Parece que já está tudo compreendido para todos. Como lembra a historiadora Lilia Schwarcz (USP), já um ano meio depois desta lei, a República chegou e no seu hino, de forte poder simbólico, há uma estrofe muito conhecida: “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós”. Mas, também possui uma, que afirma: “Nós nem cremos que escravos outrora tenha havido em tão nobre país”! Ou seja, já, naquele momento, os republicanos afirmavam não acreditar mais que tivesse havido trabalho escravo. Segundo ela, isto representava um processo de ‘amnésia nacional’.

Pois bem, esta minha observação, sobre a ‘anemia’ ou a ‘secundarização’ desse fato histórico, talvez seja fruto da cultura da ‘modernidade líquida’ em que vivemos. Até porque, nestes tempos, até a História já foi condenada à morte. Para os desavisados (mal-intencionados ou não) só existe o ‘presente contínuo’, versão just-time. É óbvio que nenhum fato histórico deve ser recuperado de forma despolitizada, de maneira messiânica/personalista e desarticulada do espaço, do tempo, da estrutura material e da cultura, ou seja, de forma fragmentada/isolada. Entretanto, tenho a hipótese de que é isso que vem acontecendo sobre os eventos, debates, manifestações, que tratam das mazelas, dos desdobramentos, das permanências, sobre o histórico do trabalho escravo em nosso país.

A ‘amnésia nacional’, passa também por não mais compreendermos a História como processo no espaço-tempo. No que resulta numa atomização temática, presente em muitos movimentos sociais, como, por exemplo, os que tratam do racismo estrutural, perpetuado em nossa sociedade, que, absurdamente, se apresenta em movimentos e lutas, distanciado da realidade das categorias interpretativas, classe e trabalho. E, sendo assim, completamente distanciado da ideia de racismo também como ideologia, tão bem constituída/formulada já no final do século XIX, como uma importantíssima estratégia de expansão e dominação do sistema capital. Sempre atualizada/revisada, seja para atender a mundialização sistêmica, seja para reproduzir/dominar diante da diversidade histórica local/regional/nacional.

As ‘diásporas ou migrações contemporâneas’, com seus racismos e fundamentalismos, estão aí como versão atualizada do contexto das ‘diásporas dos séculos XVI a XIX’ no Ocidente. A partir do século XX até hoje, são agudizadas, tendo a guerra como meio e fim da acumulação sistêmica em busca do domínio das mercadorias estratégicas.

Se nos tornarmos ‘míopes’ na interpretação das lutas contra o nosso racismo, no mínimo, culparemos apenas o passado, nos embaçará a perspectiva da História enquanto processo, dessa barbárie que é o racismo. Neste sentido, é pertinente a compreensão de que, de acordo com o historiador Amilcar Araújo Pereira (UFRJ): “As estratégias racistas para a perpetuação dos privilégios para a população branca no Brasil não são uma herança permanente da escravidão. O que há são diversas formas de atualização desses processos discriminatórios e que vão resultar nas desigualdades raciais com as quais convivemos hoje”. Ou seja, ao longo dos 130 anos da lei que põe fim ao trabalho escravo, demos continuidade e foi se radicalizando o racismo estrutural.

O ‘bom combate’ ao nosso racismo estrutural, potencializando-o para a superação de qualquer forma político-cultural que hierarquize os seres humanos, passa por compreendê-lo como processo histórico, como decorrente de lutas e muitas lutas dos que sofrem o preconceito e a discriminação da ideologia racista, bem como dos que se tornam apoiadores ou se ‘convertem’ a esta causa mesmo não tendo o perfil traçado do racismo em questão. Nessas batalhas marcadas por derrotas, mas, também, por vitórias, é preciso estarmos atentos às construções personalistas e de heroísmos às avessas, já que não estamos tratando de história pessoal, mas, de História coletiva, de um grupo, de uma comunidade, de uma sociedade.

Derrotas e vitórias não devem ser superestimadas, nem subestimadas, como também, os espaços onde elas acontecem, quando analisamos a História enquanto processo, dado ao seu dinamismo e a dialética enquanto seu tipo de movimento. Nesse sentido, não se deve hierarquizar os fatos históricos que concorreram e que concorrem até hoje para as vitórias na luta contra a ideologia do racismo em nosso país. Isso é muito perigoso, pode se voltar contra os movimentos sociais, no sentido da sua absorção aos ditames culturais hegemônicos. Logo, não combatendo o racismo estrutural.

A busca pela Justiça, traduzidas em Leis e num Direito mais includente e democrático, por exemplo, são importantes a serem resgatados, enquanto processo, memória coletiva, dos tantos e tantas que deram vida e sangue para o reconhecimento do problema em questão: o racismo, em seu tempo e espaços. Daí porque, minha preocupação, meu estranhamento, quanto à ‘anemia’, à ofuscação da Lei Áurea, nesse processo. Dada as suas limitações, sei que não há motivos para reduzir tudo a celebração despolitizada e personalizada; mas, e os lutadores e as batalhas, os debates na casa legislativa, as tensões, etc., para chegar até o momento da sua assinatura? Não são importantes?

Recordo agora algumas outras leis/conjuntos de princípios e afins, fruto do processo histórico, com seus atores a continuarem dando vida e sangue nessa construção: a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que em 1948, 60 anos após a Lei Áurea, afirmava que ‘ninguém será mantido em escravatura ou servidão’; a Lei Nº 1.390/1951 – ‘Afonso Arinos’, (63 anos depois), que, por exemplo, inclui entre as contravenções penais a prática de atos resultantes de preconceitos de raça ou de cor;  a Lei Nº 7.437 de dezembro de 1985, que inclui entre as contravenções penais a prática de atos resultantes de preconceito de raça, de cor, de sexo ou de estado civil; a Lei Nº 7.716/1989, a ‘Lei Caó’, que no seu artigo 1º, afirma que “serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”, tornando a discriminação racial, crime; a Lei Nº 10.639/2003, que torna obrigatório o ensino da História e da Cultura Afro-Brasileira; toda legislação que diz respeito às políticas afirmativas/cotas; a Lei Nº 12.288/2010, que criou o Estatuto da Igualdade Racial, dentre outras coisas, definindo o significado de desigualdade racial: “toda situação injustificada de diferenciação de acesso e fruição de bens, serviços e oportunidades, nas esferas públicas ou privadas, em virtude de raça, cor, descendência ou origem nacional ou étnica”.

Eis o objetivo ao trazer este assunto: defender uma interpretação histórica que leve em consideração a totalidade social; que seja uma interpretação que articule todas as dimensões, jamais hierarquizando as dimensões, os fatos, os símbolos e os ‘personagens’! A fragmentação, muitas vezes presente nos movimentos sociais que combatem o nosso racismo estrutural, podem colaborar, mesmo sem perceber, para perpetuar a Cultura Política conservadora, alimentadora do status-quo e das razões conjunturais e estruturais da ideologia racial, protagonista da reprodução sistêmica. Do ponto de vista da economia-política crítica, tudo pode ser transformado em mercadoria, inclusive, e, principalmente, os símbolos, a capacidade criadora, dos movimentos de resistência e emancipadores!

Reflito com a psicanalista Maria Rita Kehl:

“Cabe perguntar que tipo de cisão do eu permite que o brasileiro ria das feridas sociais do país em que vive, como se estivesse sempre do lado de quem segura o cabo do chicote — como se não percebesse as lambadas e a humilhação que também o atingem. Será o nosso bovarismo social efeito de uma identificação com o opressor não em suas características avançadas (em termos de valores republicanos, lutas igualitárias etc.), mas sim como arremedo das aparências da civilização, conciliadas com a manutenção da versão contemporânea do escravismo em uma sociedade que continua criminosamente desigual?”

É isso! E mais! Como nos alerta Makota Valdina: “Não sou descendente de escravos. Eu descendo de seres humanos que foram escravizados”. As vitórias nestas batalhas existem, são reais, mas inconclusas; são reais, mas, não suficientes; são limitadas, mas, avançam, acumulam forças. Isso é processo! Afinal, as razões para esse ‘fardo do tempo histórico’ no combate ao nosso racismo estrutural, são as mesmas, desde a Lei Imperial Nº 3.353 de 13/05/1888 até os dias de hoje: a profunda, injusta e desumana desigualdade sócio-econômica-racial em nosso país!

 

Observação: Lilia Schwarcz (entrevista – www.bbc.com – BBC Brasil – 10/05/2018); Amilcar Araújo Pereira (entrevista – interceptbrasil.com.br – 11/05/2018); Maria Rita Kehl (livro autoral – “Bovarismo brasileiro” – Boitempo, 2018); Makota Valdina (entrevista – www.palmares.gov.br – 17/04/2013); site JUSBRASIL – jusbrasil.com.br).

 

Paula Vigneron — Paralelos

 

Atafona, fim de tarde de 21 de janeiro de 2018 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

— Alan!

O homem se moveu rapidamente. Acendeu a luz. Olhou ao redor. Mais uma vez, estava sozinho. Era a segunda noite consecutiva em que acordava com a voz de uma mulher chamando-o. Não se lembrava qual havia sido a última vez em que dividira o quarto com alguém. Havia semanas. Meses. Anos? Não sabia. Apagou a luz e retornou à cama, refletindo sobre a solidão e o que ela estava causando nele.

Estava quase dormindo. Via-se caminhando por um bosque, desacompanhado, enquanto elaborava uma nova história em sua cabeça. O prazo dado pela editora estava expirando. Ele já tinha negociado todos os adiamentos possíveis com Nelson, que o criticava abertamente pela “irresponsabilidade e falta de comprometimento”. Mas o homem nada entendia sobre seu trabalho.

— Alan!

Pulou da cama e correu até o interruptor. Ainda com olhos meio fechados, analisou todo o espaço. Abriu a porta. Caminhou rapidamente por todos os cômodos. E se sentiu bobo. Infantil. “Atormentado por nada”, pensou no momento em que retornava ao quarto. “Me tornei um grande idiota”, concluiu, entre lamentos.

Mais uma vez, fechou os olhos. Retornou ao ponto em que estava. No bosque. Caminhando. Toda a narrativa se formava sem esforço em sua cabeça. O roteiro invisível parecia levá-lo a um descanso sob a árvore. Ele realmente andava exausto. Passava os dias entre possíveis ideias que poderiam ser apresentadas ao editor. Precisava dormir. Se pudesse, profundamente. E seria ali.

— Alan!

— Não é possível! — e acendeu o abajur. Na escrivaninha em que costumava trabalhar, estava sentada uma mulher. Os cabelos claros jogados para trás em uma desarrumação cuidadosa. O perfume doce quase enjoativo tomando o ambiente. As pernas balançando no ritmo de algum som que somente ela escutava. Os olhos vidrados nele.

— Quem é você? Como entrou aqui?

Ela sorriu maliciosamente. As unhas grandes e escuras ajeitavam as folhas deixadas sobre o computador. Ele detestava que mexessem em seus rascunhos.

— Tire a mão daí — e pegou os papéis enquanto a mulher gargalhava com o mesmo malicioso tom. Ele a olhava espantado. Não se lembrava daquele rosto. Não conhecia ninguém com aquelas roupas. Não seria capaz de dizer de onde e quem era nem como havia entrado em sua casa.

— Qual é o seu nome?

— Você sabe. E sabe bem.

Tentou se recordar. Ninguém tinha a chave de sua casa. Era cópia única. Exclusiva.

— Se soubesse, não estaria perguntando. E ainda quero saber como entrou em minha casa. Nunca a vi.

— Não. De fato. Mas me imaginou. Exatamente como sou. Todos os traços de meu corpo. Do cabelo enrolado à pinta nas nádegas, como você disse. Acho que poderia ser mais simples. Poderia ser bunda mesmo.

Ele continuava sem entender.

— Sim. Não me olhe com espanto. Você tem mania de seguir o pensamento politicamente correto em seu trabalho.

— Mas eu não poderia ver suas nádegas em meu ambiente de trabalho. Aqui, este lugar é o meu ambiente de trabalho. E não o compartilho com colegas, muito menos com estranhos.

— Prazer, Estela.

“Estela. O jeito malicioso era uma combinação desajeitada da menina e da mulher que ela conservava em seu interior. Ora, desaforada. Ora, doce. Por vezes, deselegante com quem julgasse necessário. Não hesitaria em invadir o quarto de um estranho que a interessasse.”

— Mas isso não é possível! – disse Alan enquanto corria para a sua mesa de trabalho. Procurou, procurou, procurou. Revirou os papéis desordenados. Lembrava-se de que havia marcado a folha com um traço de hidrocor vermelho.

— É esta que você está procurando? — perguntou a mulher, sacudindo um papel parcialmente escrito.

— Sim. Essa — e pegou da mão de Estela. Leu trechos da história inacabada. Ali estava o nome dela. — Não é possível.

— É, sim. Há tempos, ando chateada com você. Como é possível você começar a traçar as primeiras linhas sobre minha história e deixá-la de lado, dias depois? Ficarei ao seu lado até que você tenha posto o ponto final.

Ele continuava a observá-la atentamente. Devia ter bebido demais naquela noite. Estava se sentindo desanimado pela falta de criatividade que passara a acompanhar seus dias.

— Então? Não vai começar a trabalhar?

— Pelo amor de Deus, me deixa dormir — e andou até o interruptor. Ao olhar para trás, a mulher estava deitada em sua cama. Não tinha espaço para ele. Ela mantinha a malícia. Ele entendeu o recado. Mudou a direção e caminhou até a cadeira, sentando-se. Ligou o computador. Buscou o arquivo. Estava fechado há semanas. Alan não sabia como retomar a história.

Bateu os dedos no teclado. Apagou. Tentou novamente. Apagou. Estava tenso.

— Dessa forma, não terá condições de me deixar seguir em frente, querido — disse Estela, sentando-se perto do homem. Leu a última frase do texto. — Que tal mudar o caminho? Olhe bem para mim. Acha que tenho cara de final feliz?

Ele a observou. Os traços. A expressão marcante. Encarando-a, notou que havia descrito a personagem de forma superficial. Realmente, não combinava com ela. Como um artista que esculpe seu objeto de trabalho, deslizou, novamente, os dedos sobre o teclado. Desta vez, em ritmo uniforme. Parava vez ou outra para ver o que Estela o dizia com seus movimentos peculiares. Se escrevesse algo que a desagradava, ela reclamava. Em voz alta ou silenciosamente. Acabara de aprender a lê-la.

“Após derrubar a última colher de açúcar, bebeu, de uma só vez, o resto do café amargo. Ponto final”, narrou Alan ao finalizar o texto. Respirou fundo, após fechar os olhos, reabrindo-os em seguida. Admirou o silêncio. Agora, somente agora, fora capaz de perceber que a voz e o cheiro e o gosto da mulher que criara perseguiam-no todas as horas do dia, desde que tentara esquecê-la.

Levantou-se da cadeira. Os primeiros raios de sol invadiam o quarto. Fechou a janela. Sentia-se renovado. Há tempos, não sabia o que era pôr o ponto final em uma história. Deitou-se. Nos últimos momentos de lucidez, sentiu uma respiração em seu pescoço e sorriu ao eco da risada maliciosa.