Campos dos Goytacazes,  21/10/2017

 

por Aluysio Abreu Barbosa

Guiomar Valdez — Educadores(as): decifra-me!

 

Dedico este artigo as admiráveis companheiras educadoras de nossa cidade — Campos dos Goytacazes, que, numa triste coincidência, faleceram neste mês de outubro, mês do(a) Professor(a) – REGINA SARDINHA (03), MARIA THEREZA VENÂNCIO (14) e LÚCIA BASTOS L. BARRETO (16): perdas incalculáveis!

 

 

 

 

Estamos finalizando uma semana, que teve no seu início as “comemorações”(?) do ‘DIA DO(A) PROFESSOR(A). É unânime nos discursos e nas pautas políticas a importância da EDUCAÇÃO, a relevância da ESCOLA na formação das pessoas, das comunidades, das sociedades. Observando atentamente a História da Educação Brasileira esta pauta como Política Pública é nova, ela não se deu no século XVI – nos primórdios de nossa formação ocidentalizada. Inicia-se lentamente, muito lentamente, no século XX. Ela está estreitamente vinculada a transição de uma economia primário-exportadora para uma economia urbano-industrial, que se consolida fragilmente nos anos da Ditadura Civil-Militar, e, que, hoje, sofre uma inflexão socioeconômica desindustrializante, primário-exportadora, financeirizada-especulativa.

Há de se lembrar que este processo de modernização da economia e da sociedade brasileira, caracterizou-se pela dependência externa, por um lugar subalterno na Divisão Internacional do Trabalho. Há que se destacar, que não existiu e nem existe a ‘belíndia’ por aqui. Não há no Brasil uma dicotomia ou contradição entre os binômios, ‘atraso-moderno’, ‘campo-cidade’, ‘periferia-centro’, ‘pobre-rico’, é uma maneira muito superficial para explicar nossa condição. Esses ‘binômios’ representam o ‘jeito construído’ da nossa modernização, onde, articulados e interdependentes, todos eles, realizaram o que se denomina ‘modernização conservadora’. Aqui, um, não é a negação do outro. Eles se complementam, eles se auto reproduzem. Da mesma forma ocorre com as diversas frações do empresariado. O ‘novo’ é continuamente ressignificado, traduzido, à luz dessa secular estrutura histórica escravista, patriarcal, provinciana, dependente, subalterna, infelizmente não superada até 2017.

Por isso, ao avaliarmos o âmbito da Educação Brasileira não podemos desconsiderar criticamente este ‘pano de fundo’. Por estar umbilicalmente ligada à estrutura sócio-econômico-cultural, e, se, esta é DESIGUAL, a Educação será predominantemente marcada pela DESIGUALDADE E DUALIDADE em suas diversas expressões ao longo do tempo. A modernização urbano-industrial necessitou colocar o ‘povo’ na Escola. Não há dúvidas sobre isso. Daí o início dos exercícios de Políticas Públicas e de Legislações mais estruturadas e ampliadas. Entretanto, o que vem marcando a ‘forma’ nos conteúdos, pautas e discursos políticos é o que Paolo Nosella denomina de ‘Populismo Educacional’ – abre-se a porta da Escola para o povo, escancara-se o acesso, mas, a permanência e a qualidade socialmente referenciada, saem na mesma proporção por outras portas e janelas!

Assim, explicitamente ou não, teremos ao longo do tempo ‘duas escolas’ interdependentes, articuladas e consolidadas nos aspectos legais e de legitimidade, refletindo a desigualdade-dualidade. Esta ‘dualidade interdependente’ se explicita o tempo todo em Legislações ‘truncadas’, para atender as demandas do setor produtivo e aos atores dirigentes das Instituições, Sistemas e Redes educacionais de qualquer nível e modalidade de Ensino, a saber – Público-Estatal, Confessional e Privado. No atendimento a atores tão diversos, e, na maioria das vezes, tão incompatíveis em suas ‘missões’ e necessidades, observamos a hegemonia da lógica privada no pensar, no formular e no executar o Ensino, mais uma vez, em todos os seus níveis e suas modalidades.

É o que se denomina – ‘mercantilização da Educação’. Não apenas observando o número de matrículas e de estabelecimentos, e, nem, quem ocupa os cargos dos diversos Conselhos Educacionais e suas representatividades. É muito mais que isso! Estou falando de lógica, de pensamento, de projeto de vida, de valores, de ética, de convencimento, que perpassam o público-estatal, o confessional e o particular. O que é ‘estudar para o mercado de trabalho’? O que é ‘estudar para ser competitivo’? O que é ‘estudar para ser vitorioso’? O que é ‘estudar para o empreendedorismo individual’?

Não é à toa que o Banco Mundial se tornou o ‘pedagogo do capital’ a partir da década de 1990 até hoje, inspirador das mudanças educacionais para os países subalternos; não é à toa o fenômeno atual dos Sistemas educacionais privados, articulados a grandes investidores externos, abrirem seus capitais ao jogo especulativo, portanto, estéril para a maioria da sociedade, nas Bolsas de Valores. Na disputa pela Educação, presente, especialmente, nos debates duros das formulações legais, a hegemonia, a vitória, é a da lógica do mercado.

Podemos, e, devemos até replicar. Não é bem assim! Afinal, tivemos e temos espaços para inclusão de novas teorias e metodologias educacionais/pedagógicas nas Escolas, inclusive, inspirados em pensadores críticos da Educação, da Psicologia, da Psicopedagogia, da Neurociência, etc, etc. É verdade! Mas esta inclusão é feita ‘remendo novo em pano velho’; são adaptações e ressignificações necessárias frente a desigualdade-dualidade estrutural, lembram-se? Na maioria das vezes são verdadeiros ‘monstros didático-pedagógicos’, ‘vendidos’ como algo novo e libertador; ‘vendidos’ como modernidade criadora; ‘vendidos’ como panaceia para solucionar os problemas da Educação Brasileira. Não há começo, meio e fim, de forma coerente!

E assim o ‘Populismo Educacional’ avança, desmedidamente, agora assumindo o discurso da busca da qualidade socialmente referenciada, sobreposto ao Direito de acesso diferenciado, e, aos problemas não resolvidos da permanência, e muito mais! Incorporando e importando teses, ideias, conceitos, autores, inclusive, tidos como do campo progressista. Quanta interpretação equivocada, quanta ressignificação oportunista, etc, etc!

E nós Educadores neste contexto apresentado da Educação Brasileira? Considero-os o principal MEDIADOR do conhecimento técnico-científico-humanista, bem como, o principal mediador da visão de mundo hegemônica. O seu PODER é imenso, como é imenso o poder da apropriação e da produção do conhecimento técnico-científico-humanista. Por isso, e, não por outra razão, ele é exaltado. Entretanto, exatamente a partir da ‘abertura das portas das escolas para o povo’, verificamos ao longo do tempo alguns processos em suas vidas, aparentemente contraditórios – a profissionalização e organização reconhecidas, convivendo passo-a-passo com um tripé em ‘3 Ds’ – a desvalorização, a desqualificação e a desmoralização! Isso não é natural, é histórico! É desta forma, não sendo a única razão, que nós servimos a reprodução e a perpetuação do status-quo.

Jamais serei romântica ou corporativa com a minha categoria docente, exatamente porque sei objetivamente do nosso papel na sociedade e porque fui privilegiada em poder escolher livremente esta profissão, no lugar da medicina que já iniciara! Gosto demais de ser professora, por isso ‘cuido’ e dou atenção a tudo que envolve o seu mundo do trabalho. Somos um POTENCIAL imenso de mudança para a construção de uma contrahegemonia que realize a Educação Pública, de Qualidade socialmente referenciada e Emancipadora! Até agora, só potencial!

Alguns elementos podem explicar esta condição perpetuadora do trabalho docente, esta ‘esquizofrenia’ que oscila entre a exaltação/consideração e a realidade concreta dos ‘3Ds’. Para começar destaco a nossa FORMAÇÃO – ela é também carimbada com a ‘dualidade interdependente’. Quantas e quantas vezes, encontramos professores que detestam assuntos que envolvem a Educação! Para eles o que importa é o conteúdo específico de sua formação ‘técnica’ – matemática, história, física, geografia, eletricidade, língua portuguesa, mecatrônica, literatura, educação física, etc! É a versão da divisão social do trabalho docente – uns pensam a área em sua totalidade, e, outros, executam o conhecimento de forma fragmentada. Pior ainda, quando, enquanto professor de determinada disciplina, rejeitamos e fazemos pouco dessa aprendizagem! E quando são hierarquizadas as disciplinas e/ou os cursos? Uns são mais importantes que outros, etc, etc!

Ah, se soubéssemos que essa condição é reveladora da reprodução e da produção minimalista e subalterna do conhecimento, portanto, da Educação!

Outro aspecto que destaco no caráter perpetuador da profissão docente, é a sua CONDIÇÃO E SEU LUGAR DE CLASSE. Estudos apontam que os professores, em sua maioria, pertencem a frações da classe média. Trazendo dentro de si e para fora, algumas caraterísticas desse meio, marcadas pela insegurança de seu ‘lugar no mundo’ (o horror do rebaixamento econômico-social!); pela tendência a se identificar com a visão de mundo das elites dominantes, já que não existe uma visão de mundo própria enquanto fração de classe média; portanto, é forte a sua tendência ao conservadorismo, e, às vezes, ao reacionarismo, devido ao ‘entre-dois’ de sua condição de classe. Somos uma ‘metamorfose ambulante’, somos ‘gelatinosos’, somos a ‘contradição social em ação’, somos ‘ventríloquos’!

Assim, quando trabalhamos com a camada popular, nas Escolas Públicas das periferias ou não, carregamos diversos preconceitos que se concretizam em atitudes, ora assistencialistas, ora descuidadas, ora fortemente marcadas pelo pedantismo e arrogância. Comportamento diverso quando atuamos nas Escolas Privadas e/ou Confessionais – parece que a gente se encontra nesse ambiente, nos tornamos ‘cordeiros’ convivendo com os ‘leões’ do Ensino. Um exemplo incontestável desse ‘entre-dois’, é quando grande parte de nós, ao não confiarmos no trabalho desenvolvido nos espaços públicos, onde a maioria de nós trabalhamos, colocamos nossos filhos nas Escolas Privadas e/ou Confessionais, especialmente na Educação Básica! No Ensino Superior, há uma tendência a inversão, não é mesmo? Por que?

É claro que existem exceções, brilhantes e heroicas exceções, mas são ‘pontos fora da curva’! Reafirmam a nossa condição descrita.

Ah, se soubéssemos que a precariedade, a privação, as fragmentações didático-pedagógicas e o desmonte de nossas Instituições Públicas de Educação articulados aos ‘3Ds” da condição dos educadores, fazem parte do utilitarismo burguês associado-dependente, é seu projeto de Educação! Que nossa estrutura socioeconômica, como é medíocre e subalterna dentro da ordem do capital, não exige qualidade de formação para a maioria, mesmo em tempos de reestruturação ‘fina’ do sistema produtivo. Nosso lugar no mundo ainda é periférico e interdependente. Por isso tudo em Educação, de todos os níveis e todas as modalidades, é tratado sem seriedade e de forma populista!

Ah, se soubéssemos que essa condição é reveladora da reprodução e da produção minimalista e subalterna do conhecimento, portanto da Educação!

Numa autocrítica rigorosa e generosa, encontraríamos em nós, um ‘tesouro’ explicativo – o individualismo de tipo ‘meritocrático’, que deveria ser extirpado de nossas consciências, pois, este, aparentemente inofensivo, nos faz compreender que a Desigualdade é fruto das diferenças de capacidade, de esforço, de oportunidade, de dedicação individual, em resumo, de dons e méritos. Se assim continuarmos, pouco avançaremos em nossa valorização, em nossa qualificação e no respeito e na dignidade que temos direito. As lutas no nível econômico, por salários, devem continuar, mas não podemos resumir nossas reivindicações a um ‘prato de lentilhas’!

Portanto, nesta semana de outubro que vai se encerrando, a minha celebração enquanto professora-educadora, é a celebração do conhecimento ‘decifrado’ e contrahegemônico, da autocrítica generosa e do potencial mobilizador e emancipador dos educadores e educadoras, alimentador da Esperança equilibrista de quem pode revelar um ‘coração’ solidário e competente para as justas transformações urgentes em nosso mundo, em nosso país, em nosso município!

Sigamos em frente!!

 

Paula Vigneron — Ser

 

(Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

Há tanto tempo, não sou feliz. Nem me lembro o gosto, o gozo, o jeito da felicidade. Sinto que, em determinadas ocasiões, passa ao meu lado. Corta árvores. Transpõe paredes. Invade casas, quartos, camas, casais. Deita-se ao lado destes. Entrelaça os amantes em seus leitos. Transita por mãos, braços, pés, rostos, sexos. Corações. Por vezes, esbarra na minha porta. “Desculpe. Era engano”, grita quando avista meus olhos.

Engano. Sempre engano.

Ainda me lembro de quando era possível senti-la plenamente. Acredito que esteve comigo na casa em que cresci. Enquanto eu corria pelo quintal. Até nas vezes em que machuquei os dedos dos pés ao chutar o chão, em tentativas de jogar futebol com meus irmãos. O sangue era a felicidade, mesmo acompanhada por lágrimas e dor. Mas era. Ah, como lamento não ter compreendido na época. Perdi tempo com sisudez. Ficava facilmente emburrada. E era feliz. Eu era.

Posso me recordar de outros bons e breves momentos em que ela, a felicidade, passeou de mãos dadas comigo por parques e praças. A cada olhar lançado àquele menino bonito que paquerei na escola. Nunca soube seu nome. Nunca contei às minhas amigas. Nunca confiei nas pessoas para me abrir desta forma tão íntima. Só de observá-lo, eu me considerava feliz. E era.

As manhãs de sol de domingo — em minha memória, todas eram ensolaradas; às vezes, deliciosas; outras, incômodas — vividas dentro e fora de casa, com comidas, doces e refrigerantes. O gosto da minha infância. À tarde, as corridas pelo quintal para saber quem seria a mulher do padre. Meus irmãos, mais velhos e fortes, sempre me ganhavam. Saíam em disparada antes do apito de mamãe. Riam enquanto me observavam chegar com esforço ao ponto final. Eu, novamente emburrada, gritava com eles. Dizia que eram os preferidos de nossa mãe.

— É injusto! — e cruzava os braços em um gesto de indignação sem fim.

— Mãe não tem filho preferido. Todos são iguais — dizia ela, rindo, com meus irmãos, de minha fúria. — Isso é amor, filha. É ser feliz.

— Não é! — eu respondia de forma malcriada. Mas era.

Com o tempo, o quintal ficou para trás. Preferíamos assistir a filmes e conversar sobre eles depois. Íamos aos bailes de carnaval organizados pela vizinhança. Brincávamos. Eu, talentosa para a dança, rodava entre meninos e meninas, sorrindo com os aplausos. No olhar de meus pais, via certo orgulho. E era feliz. Imensamente feliz com a saia branca, uniforme em festas, envolvendo meu corpo no meio do salão. Com o tempo, eles, todos eles, ficaram para trás.

Sentada em frente à porta, consigo, ainda, avistar o quintal de cimento em que costumávamos correr, brincar, rir e chorar. Deu lugar a um jardim que floresceu por tempos e era regado por mim. Sob o teto de meus pais e meus irmãos, vivo. Uma mulher estranha à criança criada entre aquelas paredes. Ela era feliz.

Hoje, sou como a grama. O que restou do jardim.

Vazio-queimado-seco-frio.

Sou.

 

09/10/17

 

Mais um retorno ao blog — Paula Vigneron quinta sim, quinta não

 

Num blog alimentado quase diariamente por seus colaboradores, nas últimas semanas alguns deles saíram, outros entraram, enquanto outros retornaram. Exemplo do último caso, a jornalista e escritora campista Paula Vigneron retoma amanhã sua colaboração neste “Opiniões”, onde se revezará quinzenalmente com outro jornalista e escritor: o itaperunense Guilherme Carvalhal.

Abaixo, em palavras próprias, o que você, leitor, pode esperar do regresso da Paula, que mantém seu próprio blog, “Vigneron”, hospedado aqui, no Folha 1:

 

(Foto de Tércio Teixeira – Folha da Manhã)

 

Sou formada em jornalismo pelo Centro Universitário Fluminense (Uniflu). Atualmente, curso pós-graduação em Língua Portuguesa pela Universidade Candido Mendes (Ucam) e trabalho como repórter da Folha da Manhã. Pela editora Autografia, publiquei, em 2015, o livro “Sete balas ao luar”, que reúne 32 contos. Após meses de ausência do “Opiniões” — e acompanhando de perto os colegas colaboradores e as notícias veiculadas —, tive a oportunidade de retornar ao blog, a convite do poeta e jornalista Aluysio Abreu Barbosa (a quem muito agradeço), para mostrar, em contos e crônicas, um pouco do que observo, escuto e aprendo no dia a dia.

 

Gustavo Alejandro Oviedo — Argentina na encruzilhada

 

Livro de leitura distribuído aos alunos do primeiro governo peronista. O dano provocado permanece até hoje

 

 

No próximo domingo a Argentina terá eleições parlamentares, onde se renovará um terço dos senadores e metade dos deputados nacionais. Apesar de parecer pouco interessante, o que está em jogo é o apoio da população à proposta renovadora do presidente Macri. Caso a sua coligação (Cambiemos) saia vencedora, há grandes chances de que aconteça um fato raro na democracia argentina: o de que um presidente não peronista, eleito democraticamente, possa terminar o seu mandato. Isto não acontece desde 1928.

Sim, você leu corretamente. Os únicos presidentes que desde 1928 conseguiram transmitir o cargo para o sucessor, cumprindo integralmente o próprio período, foram peronistas. Os outros sofreram golpes de estado ou renunciaram.  Alfonsin, em 1989, teve que antecipar a sucessão em 6 meses diante a crise hiperinflacionária.

Desde o fim da última ditadura, há 33 anos, os peronistas governaram o país 24 anos e meio. Em algumas províncias ou municípios — os mais atrasados — nunca perderam uma eleição. O peronismo é uma força politica cuja principal característica é a astúcia. Às vezes adota a roupagem do neoliberalismo (Menem), outras do esquerdismo (Kirchner), mas sempre mantendo o discurso demagógico da ‘justiça social’, além de apelar à memoria de Peron e Evita, que ainda são figurinhas que mexem com o imaginário saudosista-necrológico do argentino.  Os peronistas conseguem ficar no poder o tempo suficiente para poder usufruir as benesses de suas politicas de curtíssimo prazo, e antes de chegar o momento de pagar as consequências, saem de cena para que a conta caia nas mãos do sucessor.

Soa parecido com certo político campista? Pois a semelhança não é coincidência. O peronismo é o garotismo com esteroides.

A ultima versão do peronismo, o kirchnerista, que governou de 2003 até 2015, se aproveitou dos altos preços das commodities agrícolas, além da suspensão dos pagos da dívida externa derivada do calote (dado por outro peronista), para usufruir da mesma popularidade que o Lula e o PT tiveram no Brasil. No entanto, a fragilidade institucional da Argentina, cujo sistema de contrapesos ao poder executivo praticamente não existe, permitiu uma serie de abusos e desvarios  que mais o assemelham ao chavismo bolivariano. O melhor (ou pior) exemplo é o ‘suicidio’ do procurador Alberto Nisman, um dia antes de denunciar à presidente Cristina Kirchner por tentar promover um pacto secreto com o Irã. Mas também é necessário recordar que a melhor estratégia do kirchnerismo para combater a inflação foi intervir o Indec (o IBGE argentino) para simplesmente mentir os índices mensais. Por muito pouco — três pontos percentuais na eleição de 2015 — o país salvou-se de terminar como a Venezuela.

Apesar do que a esquerda daqui e de lá vocifera, a política implementada por Mauricio Macri desde que assumiu em dezembro de 2015 dista muito de ser ‘neoliberal’. Ocupou-se em desarmar as armadilhas populistas dos subsídios às tarifas publicas da eletricidade, do gás e dos transportes, que não apenas consumiam grandes recursos financeiros do estado beneficiando somente a área metropolitana de Buenos Aires, mas também produziam desabastecimento, cortes de energia e graves acidentes — em 2012, 52 pessoas morreram num desastre ferroviário. Macri também aumentou as aposentadorias, está incentivando a obra pública mediante licitações sem ‘comissões’ e tenta combater as máfias enquistadas nas polícias e nos sindicatos. A empresa aérea Aerolineas Argentinas não apenas não foi privatizada, mas aumentou seu faturamento e o número de passageiros que a utilizam. O Indec voltou a ser autárquico e independente.

Em junho de 2015, o então ministro kirchnerista Anibal Fernandez chegou a dizer que a Argentina tinha menos pobres do que a Alemanha. Há uns dias atrás, a ex-presidente Cristina Kirchner, que é candidata a senadora, disse que hoje 2,8 de cada 3 argentinos são pobres (93% da população). Custa acreditar que gente com tanto desprezo pela verdade e pela inteligência alheia tenha governado a Argentina — a menos que você esteja familiarizado com o peronismo. O domingo a noite saberemos se os argentinos querem voltar a se enganar, ou se finalmente  amadureceram politicamente.

 

Carol Poesia — Para Lúcia, por Wendel Sampaio

 

Ontem perdemos a nossa generosa amiga Lúcia. Professora dedicada, pedagoga engajada, uma mulher de vanguarda que nos enche de orgulho e, hoje, dolorosa saudade.

Escrevi algumas palavras para ela, mas meu irmão Wendel escreveu melhor, me encheram de emoção suas francas e viscerais palavras. Então peço licença para compartilhá-las com vocês:

 

 

 

 

O jardim de Lúcia

Quando eu era criança, na escola, minha professora, tia Mariazinha, me ensinou que todos os brasileiros nascidos naquela época já vinham ao mundo com uma dívida, que crescia de uma maneira matematicamente incompreensível pra mim, mas parecia determinar um futuro assombrador.  Saber aquilo fez crescer uma grande raiva, ora direcionada aos colegas, ora à própria escola, às vezes, à minha família; com o passar do tempo, ao mundo e a todas as coisas que existiam nele. Conforme amadurecia, essa raiva transformou-se em um pessimismo, pernicioso e niilista, o qual estava subsidiado por intelectuais de todas as partes e épocas.

Cheguei mesmo a acreditar que a literatura realmente boa fosse necessariamente assim.

No meu nomadismo, no entanto, encontrei Lúcia. A princípio, apenas alguém que eu admirava intelectualmente, depois, uma amiga. Um par. Parecia-me que podíamos concordar em tudo, ler pensamentos um do outro, dividir opiniões e que isso fosse o ideal de amizade. Mas, essa disposição – a qual todos nós estamos sujeitos – a querer encontrar no outro um reflexo, era nada mais que uma arapuca da vida. Foi a própria Lúcia quem me ensinou, porque ela era antes de tudo uma professora, que o caminho para a amizade, para o amor e para a sabedoria estava na dúvida, na incerteza e na discordância. Pra quem tinha passado a vida inteira com raiva, foi como perder tudo. Minha raiva vinha justamente do fato de ter dúvidas e não respostas, de ter incerteza do meu futuro endividado e de discordar do mundo como ele era.

Hoje, volto a sentir raiva. Particularmente hoje, sinto muita raiva. Já perdi amizades para vida, mas nunca tinha perdido para a morte. É um soco no estômago. Também tenho raiva pelo mundo, pela nossa cidade, pela nossa escola. Perderam uma mulher precursora, por isso mesmo muitas vezes incompreendida.

Como, no entanto, de nada serve a raiva, pois ela também é uma menoridade, para nós que ficamos, a melhor maneira de homenageá-la e respirar depois deste soco será através de seu legado. Seja fazendo a vida que ela sonhou, seja terminando a construção da escola que ela iniciou. Assim como Lúcia e como Rubem Alves num livrinho dado por ela, também acredito que é mais bonito e verdadeiro se as escolas, em vez de se parecerem com linhas de montagem, se parecessem com jardins. O jardim está plantado.

Wendel Sampaio

 

A “perseguição” a Garotinho e as apologias a Sócrates com Lula

 

Charge do José Renato publicada hoje (17) na Folha

 

 

 

 

 

De novo

Voltar a ser destaque no cenário nacional nunca ficou de fora dos planos do ex-governador Anthony Garotinho (PR), que em 2002 chegou a somar mais de R$ 15 milhões de votos na disputa à presidência da República. Hoje, 15 anos já se passaram e o marido de Rosinha tem conseguido se manter no noticiário nacional, mas não como gostaria. Derrotas nas urnas, “líder de esquema”, prisão, alvo de delação e tudo para ele não passa de “perseguição”. Como “guru”, anda também acertando em cheio em algumas de suas previsões, muitas contrárias ao seu grupo político, como se necessário fosse ter bola de cristal e não ser o líder de todo o “esquema”.

 

 

 

 

Tiro no pé

Conhecido por seu jeito impulsivo, Garotinho, ainda em setembro deste ano, classificou a delação do doleiro Lúcio Funaro, como “uma das maiores bombas atômicas já disparadas sobre a República”. Naquele momento seu nome e da esposa ainda não tinham aparecido. Só que agora a “bomba” também cai sobre eles com Funaro afirmando que o esquema de desvio de dinheiro da Prece, o fundo de pensão da Cedae, operado por Eduardo Cunha (PMDB), beneficiava planos eleitorais de Garotinho. O doleiro afirma que o dinheiro da propina era dividido pelos ex-aliados políticos.

 

“Já ficou velho”

Garotinho não perdeu tempo em garantir agora que a delação de Funaro foi “seletiva” e aponta uma “vingança” contra ele. Estratégia definida pelo vereador José Carlos (PSDC) em rede social: “a velha tática desse ultrapassado político já é conhecida por todos, quando sabe que vai provar algo sobre ele, ataca e depois que as pessoas mostram quem ele realmente é, ele avisa que é perseguição, que é só porque ele falou. Enfim, isso já ficou velho”.

 

Trianon lotado

No último domingo (15), o Trianon lotou na pré-estreia do monólogo “O julgamento de Sócrates”, com o ator campista Tonico Pereira. Desde que interpretou Zé Carneiro na primeira versão do “Sítio do Picapau Amarelo”, nos anos 1980, até o personagem Abel, da atual novela global “A Força do Querer”, Tonico se manteve em evidência em TV, cinema e teatro. E tornou conhecidos no Brasil sua origem e clube do coração: o Goytacaz. Antes mesmo do time da Rua do Gás garantir este ano sua volta à primeira divisão estadual, a apaixonada torcida do ator era revelada por seu personagem Mendonça, na popular série “A Grande Família”.

 

Lula e Sócrates

Mas para quem assistiu à peça de domingo, nas referências do Brasil atual feitas pelo autor Ivan Fernandes no julgamento do filósofo grego Sócrates (469 a.C./ 339 a.C.), vivido por Tonico e condenado à morte por ingestão de cicuta, ficou claro o paralelo com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Segundo seu discípulo Platão (427 a.C./ 327 a.C.) narra em “Apologia de Sócrates”, este foi condenado por introdução de novas divindades e corrupção dos jovens. Já Lula foi condenado a nove anos e meio de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Mas é réu em mais cinco ações e foi denunciado em outras três investigações.

 

“Só sei que nada sei”

Como a peça lembra corretamente, Sócrates negou o oráculo do deus Apolo que o proclamou o mais sábio entre os gregos: “Sei que não sou sábio, nem muito, nem pouco”. Lula, por sua vez, não precisou de nenhum oráculo divino para proclamar: “Não existe viva alma mais honesta do que eu neste país”. À exceção do branco dos olhos e do uso da barba, talvez só as evasivas do ex-presidente diante às abundantes evidências dos “malfeitos” seus e do PT, no governo, também lembrem o filósofo ateniense. Especificamente, sua mais célebre sentença: “Só sei que nada sei”.

 

O luso, não o grego

Com todo o respeito ao grande Tonico, talvez o Sócrates que melhor exemplifique Lula não seja o pensador grego, mas um homônimo: José Sócrates. Primeiro-ministro de Portugal entre 2004 e 2011, pelo Partido Socialista, ele aguarda em liberdade o julgamento pelas acusações de corrupção, fraude fiscal e lavagem de dinheiro, após já ter sido preso duas vezes. O ator e torcedor do clube mais popular de Campos merece todo o carinho. Mas, politicamente, não é exceção na defesa acrítica que muitos da classe artística ainda fazem de um líder que, segundo pesquisa recente Datafolha, 54% dos brasileiros acham que merece ser preso.

 

Com o jornalista Rodrigo Gonçalves

 

Publicado hoje (17) na Folha da Manhã

 

Chico de Aguiar — Um torcedor exemplar

 

O ano eu não sei precisar. Foi lá pelos idos de mil novecentos e cinquenta. Na segunda metade daquela década. Talvez 1956. No Externato Eucarístico do saudoso Padre Antônio Ribeiro do Rosário. Hilda Terezinha Queirós era a nossa docente. Formávamos uma turma de discentes da terceira série primária: Cláudio César Soares, Dirceu Castro, João Ranulpho, Maria Lúcia Ribeiro Gomes Mosso, Plínio Valle Machado, Rosane Sampaio, Roseli Martins e Sueli Maria de Souza Ferreira são nomes dos colegas de quem me lembro. E eu entre eles. Com alguns, que sobrevivem em Campos, Niterói ou Rio de Janeiro, ainda mantenho contato.

Nesse grupo tinha, também, o Antônio Carlos de Souza Pereira, nascido em 22 de junho de 1948, em Campos. Seu nome artístico é Tonico Pereira, que, como grande ator, ganhou projeção nacional. Foi ainda no período escolar que ele estreou no palco do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora – educandário que na época só aceitava meninas. Fez a Paixão de Cristo – um texto teatral que, na montagem campista, ganhou direção de uma espécie de santa que o Vaticano não beatificou: a irmã Zilda de Castro, nome que hoje é lembrado como creche, no Caju; como escola municipal, em Conselheiro Josino; e como rua, no Parque Corrientes. Foi Tonico que ganhou o papel de Jesus.

Ele próprio contou essa história na obra “Tonico Pereira — Um ator improvável — Uma autobiografia não autorizada”, uma coletânea de textos que Eliana Bueno-Ribeiro reuniu em livro. “Precisavam de um menino para a voz de Cristo e foram procurá-lo no Externato Eucarístico, que era misto. Fomos para a final um colega chamado Humberto e eu. E ganhei. Assim, meu primeiro texto em teatro foi: Pedro, tú és pedra e sobre esta pedra edificarei minha igreja. Tudo o que ligardes na terra, será ligado no céu. E tudo que desligardes na terra será desligado no céu. Depois fiz também A Aparição de Fátima e outras encenações religiosas de colégio”.

Esse Tonico ator ficou bastante conhecido. No currículo são vários espetáculos teatrais, diversas novelas e seriados e muitos filmes. Mas tem o Tonico torcedor. Torcedor do Goytacaz. É esse que eu quero exaltar neste artigo. Porque, nesse contexto, não penso que haja alguém como ele. Distante de Campos desde os 17 anos de idade, Tonico nunca esqueceu o seu time do coração, onde jogou como juvenil. Quando eu o interroguei sobre o seu time no Rio, cidade onde está radicado há tanto tempo, ele respondeu curto e grosso: Goytacaz. Como disse o poeta, Tonico é Goytacaz em Oropa, França e Bahia.

Eu o admiro por essa firmeza de paixão. Eu, por exemplo, que também torço sobretudo pelo sucesso do alvianil, tenho um segundo time. Sou Vasco. Mas Tonico é Goytacaz e coloca essa paixão à vista de todos. Mesmo nos piores momentos, no inferno astral da agremiação, ele sempre colocou o alvianil na vitrine. Por isso é adorado pela torcida e tem até arquibancada com o seu nome no estádio que leva o nome de seu tio, Ari de Oliveira e Souza. Não seria agora, quando o clube consegue um êxito duplo — o título da Série B do Campeonato Estadual e o consequente direito à disputa da seletiva de acesso à séria A — que, como se diz na gíria, ele iria afinar.

Nesse instante em que o país o aplaude por mais um sucesso, de seu personagem novelesco — o Abel de A Força do Querer —, ele comparece aos principais programas da TV Globo com a camisa azul do Goytacaz. Dias atrás vestiu-se de torcedor tanto no Encontro com Fátima Bernardes quanto no Redação SporTV, do André Risek. No velho Sem Censura, da TV Brasil, de 19 de setembro, o assunto foi a novela em sua fase final. Mas a roupa, a camisa, foi o manto azul do clube centenário, pioneiro do futebol campista. Ao abraçar com tanto ardor uma de nossas instituições de mais mística, penso que Tonico merece este artigo. Mas, mais que isso, merece respeito e o carinho de todos os cidadãos campistas.

 

Vanessa Henriques — Assédio sexual nas universidades

 

 

 

Como estudante universitária, não foram poucas as situações em que ouvi falar do tema “assédio sexual” — quase sempre aos sussurros – pelos corredores das instituições pelas quais já passei. Na maior parte dos casos, os autores do assédio seguiram suas carreiras impunemente, sem qualquer advertência institucional, confortáveis para continuar atrapalhando a trajetória acadêmica de alunas e alunos universitários.

Para começo de conversa, é difícil que as vítimas de assédio exponham publicamente os casos e tomem as medidas legais cabíveis dentro e fora da universidade. Tal dificuldade é consequência do medo que se tem de sofrer represálias e perseguições do funcionário assediador (seja ele professor ou técnico), sobretudo porque as experiências pregressas de assédio informam que existe um forte “corporativismo” dentro das instituições, que acaba por proteger e acobertar situações inaceitáveis que ocorrem no espaço acadêmico.

Isto posto, tenho como objetivo utilizar-me deste espaço para alimentar o debate público em torno da questão do assédio sexual nas universidades e relatar um caso recente em que alunas assediadas decidiram pôr fim a uma situação de abuso sistemático que há anos vinha se arrastando na instituição.

Em 2015, um grupo de bravas estudantes do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense (polo de Campos dos Goytacazes) decidiu se reunir para denunciar as práticas de um professor que há muito já era conhecido na instituição por seu notório comportamento assediador. Com o apoio jurídico da professora e advogada Semirames Khattar, que se sensibilizou com o caso, o grupo decidiu quebrar o silêncio em torno do assunto e levar a cabo uma denúncia perante a Ouvidoria da universidade. Depois de alguns meses, a UFF instaurou uma comissão de investigação formada por um grupo de professores e técnicos do polo Campos. Mais de dez alunas foram ouvidas durante esta investigação e a comissão concluiu em parecer que a Corregedoria da UFF deveria realizar a abertura de um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) contra o referido professor. Até meados do corrente ano as alunas ainda permaneciam sem uma resposta da instituição, quando então foram surpreendidas por uma intimação: descobriram que estavam sendo processadas pelo próprio professor por calúnia, injúria e difamação.

Diante dos fatos que experienciaram e assustadas devido à ausência de apoio institucional, as alunas assediadas decidiram que deveriam recorrer a instâncias externas, dando assim entrada em um processo cível indenizatório contra o professor e contra a própria UFF — por omissão e conivência — e em uma queixa-crime na Polícia Federal.

“A reprodução da condição marginal da mulher, nesse episódio de assédio entre professor e alunas no âmbito de um curso de graduação que pretende avaliar as relações de dominação e contradições sociais é a cara do cinismo da má-fé institucional da Universidade Federal Fluminense. Para dentro da sala de aula, professores ensinam sobre meios de resistência feminina e sobre a dominação masculina; para fora, se posicionam para que as mulheres-alunas se calem diante uma humilhação e abuso”, afirma a advogada Semirames Khattar.

Segundo o inquérito assinado pelo delegado Paulo César Barcelos Cassiano Júnior, as oito vítimas comprovadas de assédio por parte do referido professor receberam, a despeito de reiteradas negativas e demonstrações de desconforto, propostas para sair e beber, elogios à beleza física, convites para jantar, confissões de desejos lascivos, comentários sobre vestimentas, decotes e cabelos, toques pessoais e até pedido de casamento, dentre outros, tudo potencializado por uma considerável dose de obsessão, que conduziam as vítimas de XXX XXX à exaustão”.

Chegou-se às conclusões e sugestões que são expostas ao final do relatório a partir dos depoimentos detalhados de vinte pessoas ouvidas — alunos, atuais professores e uma ex-professora da UFF — e através de registros de conversas travadas entre o professor e as vítimas através de redes sociais. Durante a investigação, apurou-se que uma professora da instituição também fora vítima de assédio por parte do acusado e chegou-se a outra ex-professora, que em seu depoimento afirma ter abandonado o vínculo com a universidade devido ao medo que sentia das ameaças do professor e, assim como aconteceu às alunas, devido à ausência de proteção institucional.

“Considero o caso bastante grave porque os relatos de assédio por parte do professor remontam há vários anos, desde o início de sua atuação profissional na UFF-Campos. Há, inclusive, informações que eu não consegui confirmar oficialmente, de que o referido docente ingressou no polo da UFF em Campos por já ter tido ‘problemas de relacionamento’ com alunas do campus de Niterói. Sendo assim, me parece que se trata de uma conduta reiterada do professor e o caso é sobretudo grave porque as alunas assediadas por ele comumente eram muito novas, nos seus 18, 19 anos, meninas recém saídas da adolescência, iniciando a vida adulta. Meninas em sua maioria vindas de outras cidades para estudar em Campos, vivendo sua primeira experiência fora da casa dos pais, tentando se adaptar à nova rotina do ambiente universitário, portanto em situação de fragilidade”, afirma o delegado Paulo Cassiano Júnior.

A juíza da 2ª Vara Federal de Campos a quem coube deferir ou não os pleitos da Polícia Federal, negou-os todos, baseando-se em uma interpretação doutrinária que compreende que o artigo 216-A do Código Penal só poderia ser aplicado a casos em que exista uma relação especificamente laboral entre acusado e acusador. Em sua decisão, a juíza afirma que neste caso “não existe relação de subordinação, tampouco superioridade ou ascendência” e que “não está configurada a seriedade da ameaça”. A magistrada conclui sua decisão apontando que compete à UFF, através do Processo Administrativo Disciplinar que foi aberto quase que ao mesmo tempo em que a Polícia Federal foi envolvida no caso, decidir qual será a punição do professor.

“O pressuposto do crime de assédio sexual é que exista uma condição de superioridade hierárquica ou de ascendência inerente ao exercício de emprego, cargo ou função. Dessa forma, uma parte da doutrina jurídica se posiciona no sentido de que esse crime apenas poderia ocorrer no âmbito de uma relação laboral, seja na iniciativa pública ou privada. Contudo, outros doutrinadores têm se posicionado no sentido de admitir o crime de assédio sexual de professor em face de aluno porque não se pode negar que haveria uma posição de domínio ou de sujeição também nessas relações. Inclusive, já há diversas condenações nesse sentido”, comenta a professora de Direito e doutora em Sociologia, Sana Gimenes.

“Entendo que realmente existe essa subordinação porque creio na existência de uma ‘ascendência funcional’ de um professor sobre um aluno. A hierarquia é clara, visto que houve alunas que optaram por mudar de turma ou por trancar a matrícula para se verem livres do professor. Houve uma aluna que decidiu atrasar a graduação em um semestre para que não precisasse ser aluna dele; outras alunas desistiram dos projetos de pesquisa por terem sido assediadas por ele. Portanto, me parece que que o professor, em relação ao aluno, ocupa uma posição privilegiada, uma posição hierárquica, uma posição que proporciona a ele conforto para retaliar as alunas que não desejem se relacionar com ele”, posiciona-se o delegado da Polícia Federal que conduziu a investigação.

Paulo Cassino continua: “A magistrada acabou adotando uma posição doutrinária mais conservadora e, em minha opinião, acabou não fazendo justiça ao caso. Os fatos investigados são tão graves que a própria universidade, por meio da comissão de sindicância composta por três professores da casa, venceu o corporativismo que é típico do ambiente universitário e decidiu pelo afastamento provisório do professor, justamente para prevenir que ele continuasse trazendo prejuízo às alunas. Se a própria universidade venceu o corporativismo para tomar essa medida drástica, é porque ela entendeu a gravidade dos fatos. Contudo, sempre respeito muito as decisões judiciais”.

As denunciantes agora aguardam os desdobramentos do processo administrativo em curso na UFF e esperam que ao menos o professor seja exonerado da instituição para que outras alunas e professoras não precisem vivenciar situações como as que elas já vivenciaram. Longe de querer fazer deste texto uma peça que sirva a linchamentos morais de um indivíduo cuja vida acadêmica foi marcada por comportamentos inconvenientes e lascivos reiteradas vezes, penso que a conduta mais eficaz para prevenir outras situações similares passa pela criação de mecanismos de proteção por parte das instituições universitárias. As universidades precisam ser espaços seguros e precisam ser capazes de criar condições favoráveis que permitam que possíveis vítimas de assédio sexual e moral possam sentir-se confortáveis para falar sobre o assunto e buscar ajuda para pôr fim às situações de abuso.

Espera-se que a Universidade Federal Fluminense seja suficientemente corajosa para pôr fim a esse tipo de violência no interior de seus campi.

 

Atualização às 18h53 de 20/10 para edição aprovada pela colaboradora

 

Cineclube Atafona com entrada franca neste sábado

 

O pessoal da CasaDuna em Atafona enviou e o blog divulga: neste sábado (14) rola Cineclube na praia mais charmosa da região. Em homenagem à Semana da Criança, o atração principal é a exibição do filme “Tainá — A Origem” (2013), de Rosana Svartman. O debate será mediado pela jornalista atafonense Jéssica Filipe, estagiária da Folha da Manhã. A entrada é franca e a programação começa às 18h.

 

 

Debate sobre arte desnuda os extremos da sociedade brasileira

 

No feriado de ontem, postei aqui um texto na tentativa de resumir os debates gerados na democracia irrefreável das redes sociais por dois colaboradores do blog: o especialista em investimentos financeiros Igor Franco e o jornalista, blogueiro e servidor federal Ricardo André Vansconcelos. A partir de visões ideológicas opostas (e complementares), ambos trataram do mesmo tema.

No dia 9, Igor escreveu aqui sobre a reação de dona Regina, uma senhora do povo, num programa da TV Globo. Legitimamente, ela questionou o fato de uma menina de 4 anos, acompanhada da mãe, ter tocado os pés de um homem adulto nu, numa performance artística no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo. O título do texto foi a pergunta feita por dona Regina aos globais: “Mas, e a criança?”.

Já no dia 11, foi a vez de Ricardo André abordar aqui não só o caso do MAM paulista, como a polêmica exposição artística anterior, interrompida após forte reação popular, no banco Santander, em Porto Alegre. E intitulou sua reflexão sobre os fatos como “Nostalgia do obscurantismo”.

Nos comentários que seguiram (aqui e aqui) o rastilho de pólvora das redes sociais, o debate sobre a necessidade de regulação etária a determinados tipos de manifestação artística, acabou se ampliando sobre a própria conceituação de arte. Muitas vezes carente de fundamento, feita por quem nunca teve por hábito frequentar museus, exposições de pintura e escultura, ou teatros.

Em sentido contrário, postei primeiro um comentário (aqui) ao link do texto do Ricardo, no Facebook, anexado a uma imagem de uma obra de arte que considero inquestionável. Tanto em valor estético, como pelo fato de ter servido, por acaso ou sorte, como elo de ligação direta entre a Antiguidade Clássica e o Renascimento.

E depois repliquei a imagem e o texto do comentário no blog, numa postagem intitulada com uma indagação: “Desde antes de Cristo — Pornografia, pedofilia, zoofilia ou apenas arte?”. Confira abaixo:

 

 

Pois hoje, ao constatar que mais comentários haviam sido feitos sobre o link (aqui) na página do blog no Facebook, me deparei com muitos que, mesmo diante daquela considerada entre as maiores obras de arte da humanidade, insistiam em “conceituar” a arte em direção oposta. E, muito mais perigoso, querendo fazê-lo por pretensão moral e religiosa.

Num esforço de manter o debate no campo dialético, que vai ficando cada vez mais difícil, dada a polarização da sociedade pelos extremos, reproduzo abaixo alguns desses comentários — com nomes e fotos apagados, por importarem menos que as ideias. E, depois, a resposta que julguei necessária, diante de questões que, para além da arte, parecem querer redifinir para pior, muito pior, nosso próprio conceito de humanidade:

 

 

 

Caros XXX XXX, XXX XXX e XXX XXX,

Dizer que o complexo escultórico de Laocoonte e seus filhos é “pecado”, configura pecado capital e sem aspas contra a própria arte. Quem parece ter fé nisso é a Igreja Católica Apostólica Romana, que exibe a obra com orgulho no Museu do Vaticano, em posição de destaque no seu vasto acervo, sem restrição etária à visitação.

Em suas antigas religiões pagãs, verdade que a homossexualidade era prática aceita entre os gregos e romanos. Mas vamos combinar que esses dois povos são em sua maioria católicos, de orientação moral judaico-cristã, há algum tempo. Teodósio adotou o catolicismo como religião oficial do Império Romano, da qual a Grécia também fazia parte, desde 380 d.C. Quer dizer: tem um pouco mais de 1.600 anos.

De qualquer maneira, querer renegar o legado dos antigos gregos e romanos, por conta de conceitos morais diferentes, é de uma imbecilidade sem par. Dos gregos, herdamos a base de todas as ciências humanas. Dos romanos, sobretudo as leis e o urbanismo. E, de ambos, o próprio conceito de humanismo, sem o qual o cristianismo não existiria, revolucionário, sobretudo, pela introdução do amor do homem pelo homem, através de Cristo, na relação com Deus.

Foi esse mesmo humanismo greco-romano que, resgatado através das artes, resultou no Renascimento. Assim como, um pouco mais tarde e no campo das ideias, foi dar no Iluminismo. Ademais, até por respeito à figura de Paulo, artífice do que hoje chamamos de cristianismo, ele só conseguiu sê-lo por se tratar de um judeu de cultura grega e ex-servidor de Roma, por cujas estradas propagou a nova fé.

Ainda assim, Paulo está errado ao dizer: “néscios, infiéis nos contratos, sem afeição natural, sem misericórdia; os quais, conhecendo bem o decreto de Deus, que declara dignos de morte os que tais coisas praticam, não somente as fazem, mas também aprovam os que as praticam” (Romanos 1:31-32). Levado ao pé da letra, isso significaria condenar à morte não só todo homossexual, como qualquer um que não se achasse no direito de arbitrar sobre a orientação sexual do seu semelhante, desde que observadas as questões da maioridade e, lógico, do consentimento.

É o mesmo equívoco primário que comete XXX, ao afirmar: “Sou tradicional, sou família e os inconformados que mudem de País”. Quem não partilhar do seu conceito moral, não será forçado a fazê-lo, tampouco obrigado a se mudar para lugar algum. E quem não respeitar isso por princípio moral, o fará por imposição da lei — aquela mesma que herdamos dos romanos pagãos.

Religião e arte existem desde que o homem passou a se distinguir dos demais animais, como maneira de se ligar ao Mistério. E, entre ambas, talvez fosse sábio que os tantos críticos de arte recém-convertidos observassem a ressalva feito por um certo rabi da Galileia: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mateus 22:21).