Campos dos Goytacazes,  13/12/2017

 

por Aluysio Abreu Barbosa

Carol Poesia — O óbvio sobre o natal

 

Negro.

Branco.

Trans.

 

Homo.

Hetero.

Trans.

 

Pobre.

Rico.

Trans.

 

Empregado.

Desempregado.

Trans.

 

Ando pensando em religião. É tanto protesto que me cansei das redes sociais. Os protestos são todos necessários, finalmente as minorias têm voz! Mas é que eu me identifico com todos eles, e sofro cada vez mais. Ouvir os gritos e gritar junto é minha obrigação. Mas, confesso, estou cansada.

O tempo todo, todos os dias, leio sobre racismo, homofobia, corrupção… Não preciso buscar os textos/vídeos, eles chegam, e arrebatam. Sem pedir licença, alteram minha respiração. Eu concordo, compartilho e fico extremamente angustiada por não fazer mais. Parece que é minha culpa a pobreza, a corrupção, a homofobia, o racismo e todos os absurdos que a humanidade não conseguiu resolver, desde sempre.

“Você nunca vai entender, porque você não é negra.”

“Você nunca vai entender, porque você não é gay.”

“Você nunca vai entender, porque você não é pobre.”

As pessoas não percebem que a energia que essas falas carregam é uma energia de exclusão, de segregação. É como se elas dissessem “Não vem querer comprar essa briga não, porque essa briga é minha”. Então qual é o sentido da divulgação? Não seria sensibilizar as pessoas, “contaminá-las” para que levantem bandeira contra esses males?

E as mesmas pessoas que falam assim (Não são poucas não!), compartilham:

 

 

Eu já disse uma vez aqui que o maior desafio da humanidade, atualmente, não é acabar com o racismo, com a fome, com a homofobia, nem com o machismo; o maior desafio da humanidade, atualmente, é ser coerente. [Diga-se de passagem, se eu não sou pobre sou o quê? Rica? Sou empregada, assalariada. Isso é um fato, os rótulos são uma necessidade do outro.]

Por falar em rótulos, tenho pensado em religião. Tenho pensado no que as religiões têm em comum. E reparei que todas elas defendem a existência do espírito. O espírito, em tese, não é rico nem pobre, não é branco nem negro, não é homossexual nem heterossexual, não é patrão nem empregado. O espírito, inclusive, não tem religião. Jesus, este de que tanto falamos nesta época do ano, modelo para os cristãos e exemplo a ser seguido, olhava as pessoas e via seres humanos. Jesus não segmentava as pessoas nessas caixas, nesses rótulos chatíssimos, rasos e dicotômicos. Jesus via o espírito.

[Pasmem! Jesus não estava nem aí para o fato do coleguinha ser ativo ou passivo.]

Ontem eu estava lendo o livro do Lázaro Ramos – Na minha pele –, estou gostando muito por sinal. Em uma determinada passagem, ele conta que quando foi capa de revista pela primeira vez (Revista VIP), implicou com o fato de ter sido explorado, na matéria, como “ator negro” e não como “ator”. Ele conta que chegou a enviar uma carta para a revista, chateado principalmente com o que eles escreveram na placa segurada por ele na foto – “Não vai comprar por que ele é negro?”. Lázaro esclarece que sua chateação veio do fato de perceber que a cor da sua pele foi mais explorada na entrevista do que o seu trabalho como ator, e chegou a reclamar com a jornalista que o entrevistara, dizendo não comentaria mais nada que não fosse o seu trabalho cênico, afinal esse era, em tese, o objetivo da entrevista.

É mais ou menos por aí. O olhar está equivocado, para todos, e com todos – um olhar materialista, que fica na matéria, que permanece na superfície. De fato, o mundo seria mais humano se tivéssemos o olhar de Jesus (Não temo ser piegas, o rótulo é uma necessidade sua, leitor, não minha). Seríamos mais humanos se víssemos o espírito (Olha que contradição linda!). Sem contar que a humanidade seria menos chata, sem essa necessidade megalomaníaca de encaixotar todo mundo em algum segmento.

Para todos os efeitos, sou trans. E tenho certeza de que Jesus me entenderia.

 

Pausa parcial do blogueiro para outros projetos

 

 

 

Por conta de muitos projetos especiais visando o final de ano e o aniversário de 40 anos da Folha, em 8 de janeiro de 2018, até lá serão poucas as postagens deste editor do “Opiniões”. O blog, no entanto, continuará sendo abastecido nesse intervalo por seus colaboradores quizenais. Até lá, leitor, mesmo que mais esporadicamente, a gente se vê.

 

Repercussão nacional — Entrevista de Lula da esquerda à direita

 

Por ter dado ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a chance de apresentar sua versão dos fatos, a entrevista concedida por ele ao Grupo Folha (aqui e aqui), na última quarta (06), em sua visita a Campos, foi bem avaliada pela esquerda.

Entretanto, sua rápida repercussão na mídia nacional serviu também à direita. Identificada com este espectro político, o site O Antagonista também reproduziu o vídeo de parte da entrevista, especificamente a fala de Lula sobre a Previdência Social.

Quem ainda não viu, pode confirir aqui, ou na reprodução abaixo:

 

 

 

 

Confira mais sobre a repercussão nacional da entrevista aqui, aqui e aqui.

 

Alexandre Buchaul — Fins públicos

 

 

 

Há algumas semanas lancei nas redes sociais uma pergunta sobre a possibilidade de empresas privadas atingirem fins públicos. Como fora o intento, isso levantou uma discussão que filtrada conduz a duas principais posições: Fins públicos não poderiam ser atingidos por empresas privadas, já que estas visam o lucro e fins públicos podem ser alcançados por empresas privadas desde que haja regulação adequada.

Também nas redes sociais circula há dias uma comparação entre os serviços de telefonia, que longe de serem excelentes, atendem a nossa população com razoável qualidade e acesso a praticamente todos os cidadãos, algo inimaginável para quem vivenciou o período de nossa história em que linhas telefônicas custavam tão caro quanto um carro e tinham na sua locação uma modalidade de negócios, aqui mesmo na Folha, se buscado em seu arquivo, encontraremos anúncios de aluguel de linhas por valores que giravam em torno de um salário mínimo e os serviços de saneamento básico, notadamente água potável e tratamento de esgoto, serviços essenciais e que atendem, no caso da coleta e tratamento de efluentes, algo que supera em pouco a metade de nossa população.  A comparação é acompanhada do questionamento sobre qual dos serviços é prestado pelo Estado.

Quando mantemos firmes em nossa mente que os serviços públicos tem como finalidade atender à população e levamos a discussão além da questão do establishment estatal, fica impossível não compreender que a iniciativa privada se mostrou e mostra mais capaz de atingir resultados e de conservá-los ao longo do tempo, mesmo que ainda esteja buscando incessantemente o lucro em suas operações. Claro que se tratam, telefonia e saneamento, de serviços diferentes e, no caso do saneamento, ficamos impedidos de estabelecer concorrência, como fora feito no caso da telefonia. Aí, as agências reguladoras e a legislação se tornam deveras importantes.  Então, tratemos apenas de saneamento e, para nos ser mais próximo, apenas do Estado do Rio de Janeiro.

Alguns municípios fluminenses tiveram seus serviços de água e esgoto privatizados há alguns anos, em que pese a necessidade de fiscalização dos contratos e vigilância permanente sobre seus termos, dois desses munícipios ocupam o topo do ranking de qualidade e acesso a serviços de saneamento no Estado do Rio de Janeiro, Niterói (100% de fornecimento de água potável e quase isso de esgoto tratado) e Campos dos Goytacazes (com índices não tão bons e ocupando o segundo lugar). Condições incomparavelmente melhores que as dos munícipios assistidos pela Cedae, que, para se ter apenas uma ideia, perde cerca de 40% de todo o volume de água captado.

Dependemos para que essas discussões sejam levadas a sério e tendo seus fins públicos como metas a serem atingidas, de políticos à altura dos desafios que nossa sociedade precisa superar, precisamos de partidos políticos que sejam capazes de travar em seu seio essas discussões, não dá para crer que agremiações que não passam de feudos a serviço dos coronéis do momento sejam capazes de levar o interesse de seus representados, o interesse público, à tribuna. Não dá para entender, a não ser pela subserviência fisiológica, que quem levou a telefonia à privatização, vote pela manutenção da Cedae estatal.

 

 

Um jogador diferente — Os bastidores da entrevista com Lula

 

(Foto: Ricardo Stuckert)

 

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Feita na manhã da última quarta-feira (aqui) e transmitida ao vivo na Rádio Continental e, em vídeo, pelo Folha 1 e pelo perfil oficial de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Facebook, a entrevista (aqui) com o ex-presidente foi viralizada rapidamente (aqui, aqui e aqui) por grande parte da mídia nacional. E, por óbvio, gerou grande repercussão também em Campos, onde recebi pessoal e virtualmente muitos elogios e também algumas críticas. Mas, manifesta ou não, percebi em quase todos a curiosidade de saber sobre a gênese e os bastidores da matéria.

A importância da entrevista ao Grupo Folha foi óbvia. O maior grupo de comunicação de Campos e da região foi capaz de colher em sua envergadura um popularíssimo ex-presidente da República, por dois mandatos, e primeiro presidenciável de 2018, líder em todas as pesquisas, a visitar o município em pré-campanha.

Quanto a Lula, talvez não seja ilógico supor que foi uma chance para ele também falar com um repórter e um grupo de comunicação não chapa branca. Mas sem que se confudisse entrevista jornalística com inquisição, como talvez desejassem fazer alguns dos veículos nacionais que se limitaram a repercutir o que ele disse à Folha.

Se tivesse que apontar a origem da entrevista, diria que ela nasceu de um debate (aqui) que mantive nas redes sociais, entre os dias 9 e 10 de outubro, com os professores Aristides Soffiati e José Luis Vianna da Cruz, amigos de longa data e entre os intelectuais que mais respeito em Campos. A discussão vinha a reboque também da pesquisa Datafolha feita entre 27 e 28 de setembro, que apontou a aparente polarização entre Lula e o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC, de mudança ao PEN, que se chamará Patriota) na corrida presidencial.

Ao final daquele despretensioso debate virtual, José Luis confessou: “não tenho resposta”. Admissão que ecoei. Mas como tenho por princípio não me bastar em ausência de respostas, enquanto não entender esgotada a capacidade de buscá-las, mergulhei de maneira profunda naquela pesquisa Datafolha. E dela emergi com a publicação em 22 de outubro, na Folha, da matéria “Brasil entre Lula e Bolsonaro?”.

Certo de que pesquisa é um retrato do momento e “o futuro é algo que veremos amanhã” — como diria o ex-presidente estadunidense George W. Bush, num raro momento de sabedoria —, me voltei ao nosso passado recente. Montei uma linha do tempo para falar sobre a história das manifestações de rua do Brasil no período da Nova República, do final da Ditadura Militar (1964/85) até os nossos dias.

Tomadas como ponto de partida 1) as “Diretas Já”, ainda em 1984 — das quais os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Lula são os únicos líderes vivos —,  estabeleci uma estrutura de análise que tivesse também como referências: 2) os “caras pintadas” que definiram o impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello (hoje, PTB), em 1992; 3) os protestos isolados capitaneados pelo PT durante os dois governos FHC, de 1995 a 2002; 4) a “Primavera Árabe”, entre 2010 e 2012, influenciando diretamente o novo modus operandi que ditou, no Brasil, as “Jornadas de Junho” de 2013; e 5) os protestos de rua de 2015 e 2016 que definiram a deposição de Dilma.

Conversei sobre o que pretendia, além de Soffiati e Zé Luis, com o sociólogo e cientista político George Gomes Coutinho, o antropólogo José Colaço, a historiadora Guiomar Valdez e o cientista político Hamilton Garcia de Lima. E, com base nas análises de cada um deles, como em muito estudo e pesquisa, escrevi em partes a série “Ruas do Brasil”. Em quatro edições dominicais da Folha, ela foi publicada em 29 de outubro (aqui) e 5 (aqui), 12 (aqui) e 19 de novembro (aqui).

No meio dessa trabalhosa, mas necessária análise sobre o relativamente curto retorno do Brasil à democracia, o presente voltou a bater ponto com suas projeções de futuro. No dia 29 de outubro saiu (aqui) uma nova pesquisa presidencial, dessa vez do Ibope, feita entre 18 e 22 daquele mês. E ela confirmou a liderança folgada de Lula, seguido por Bolsonaro.

Do Planalto Central à Planície Goitacá, ouvi líderes locais dos partidos dos presidenciáveis listados na nova pesquisa, para a matéria “Corrida ao Palácio do Planalto Central pelo Ibope vista da Planície”, publicada na Folha em 31 de outubro. Foi na apuração desta reportagem que travei contato pela primeira vez com o presidente do PT em Campos, o petroleiro Rafael Crespo, que demonstrou suas convicções sem embotamento da boa capacidade de análise crítica.

Posteriormente, soube em novembro da vinda de Lula a Campos, para um comício no dia 5 e visita ao Instituto Federal Fluminense (IFF), no dia 6. E retomei o contato com Rafael, para tentar agendar uma entrevista, que já era tentada paralelamente pelo gerente da Continental, o radialista Cláudio Nogueira. Unidos os esforços do mesmo grupo de comunicação, reforçaria depois o contato com o senador Lindbergh Farias (PT), ex-líder daqueles “caras pintadas” de 1992, a quem já tivera a oportunidade de entrevistar.

Senti muita apreensão da equipe de Lula com a possibilidade de qualquer geração de constrangimento. Mas, sem negociar pauta, apresentei meu currículo com entrevistas feitas com líderes políticos como FHC e Leonel Brizola (1922/2004), além de todos os seis governadores do Rio depois dele, soltos e presos. Ainda assim, a previsão inicial da entrevista com Lula era de apenas 25 minutos.

Na noite de terça (05), fui ao comício na praça do Liceu, para ouvir o que o ex-presidente falaria e acrescentar na pauta da entrevista da manhã seguinte. Vi ele ser recebido com entusiasmo por cerca de 1,5 mil simpatizantes, enquanto do outro lado da praça, depois do cordão de isolamento da PM, nas escadarias da Câmara Municipal, cerca de 150 militantes de Bolsonaro protestavam. O campista e ex-presidente Nilo Peçanha (1867/1924), cujo busto observava tudo impassível, foi lembrado por Lula como fundador em 1909 da Escola de Aprendizes Artífices, hoje mais conhecida como IFF.

Cheguei ao hotel Ramada às 7h30 de quarta (06), onde não me foi permitido subir à sala da entrevista com toda a equipe, limitação que causou problemas no início da transmissão pela rádio. Antes dela, numa rápida conversa informal com Lula e seus dois acompanhantes na mesa, Lindbergh e o pré-candidato petista a deputado federal José Maria Rangel, contabilizamos minha grande desvantagem na composição: eram três vascaínos e um flamenguista.

Sem deixar de fazer a pergunta mais difícil a Lula, relativa ao julgamento do recurso da sua condenação pelo juiz federal Sérgio Moro no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), previsto até abril, que pode impedir sua candidatura pela Lei da Ficha Limpa, a entrevista foi crescendo naturalmente. E, dos 25 minutos previamente acordados, chegou a quase 41.

Sei que não deveria ter rido após o entrevistado dizer “Eu acho que o Moro é surdo”, ou “Quem sabe a Globo conseguisse fazer (…) o William Waack ministro da Igualdade Racial?”. Mas, admito, é quase impossível resistir às tiradas de Lula. Como escrevi (aqui) logo após a entrevista: “Em termos de carisma, no cara a cara, só o compararia a Brizola”.

À parte o que a grande mídia brasileira optou por repercutir, sobre a “surdez” de Moro ou a Previdência Social, para mim, o mais importante que Lula disse sobre o Brasil de hoje foi:

— Como você vai encontrar paz se você está estimulando o ódio, se você está estimulando a disseminação do preconceito? (…) Eu sonho, na verdade, que a gente possa restabelecer a paz neste país. As pessoas têm que aprender que a gente pode ter divergência, que a gente pode não concordar, (mas) que o vascaíno possa ver o jogo sentado ao lado do flamenguista (…) e ir para a casa e tomar uma cerveja juntos, sabe? Sem precisar brigar! (…) A quem interessa essa briga?

Encerrado o trabalho, desligadas as gravações de áudio e vídeo, conversamos um pouco mais. Foi tempo suficiente para que eu lembrasse a Lula de outra entrevista sua, onde ele disse que, quando jovem, gostava de jogar futebol com a camisa 8, por causa do ex-craque campista Didi (1928/2001), gênio da Folha Seca. O meia direita foi o maior jogador da Copa de 1958, primeiro Mundial do Brasil, e bicampeão em 62. Por clubes, jogou no Fluminense e no Botafogo, não no Flamengo ou Vasco.

Como testemunhava meu pai, o ex-presidente assegurou: “Didi era um jogador diferente. Ele se mexia no campo de maneira diferente”.

Em outros gramados, não veria melhor maneira de definir Lula.

 

Publicado hoje (10) na Folha da Manhã

 

Vanessa Henriques — O fenômeno Lula

 

 

 

No texto de hoje, não poderia escapar da obrigação de escrever sobre o grande evento que foi a vinda da Caravana do ex-presidente Lula a Campos, mesmo que não seja esta uma tarefa das mais simples. Escrever sobre uma das figuras mais significativas da história política do Brasil requer grande responsabilidade além de, evidentemente, conhecimentos sobre política, história, economia e sociologia. A grandeza do “fenômeno Lula” não poderia ser apreendida em toda a sua complexidade num artigo de poucas linhas. Ciente disto, caro leitor, busco resumir aqui as minhas principais impressões sobre a breve passagem do ex-metalúrgico pela cidade.

Foi a primeira vez que vi o Lula a poucos metros de distância. Apesar de seus dois mandatos terem transcorrido no período em que eu ainda transitava da infância à adolescência — época na qual as questões políticas não me despertavam tanta curiosidade —, desde que tomei consciência da importância capital desta figura para a política do país, nutro o desejo de poder vê-lo sem a mediação das telas.

Senti-me eufórica quando o vi chegar ao Jardim do Liceu na última quarta. Contagiada pela efervescência daquela aglomeração de pessoas, senti que fazia parte de um momento histórico importante para nossa cidade, que naquela noite tornava-se palco de um acontecimento de relevância nacional. Além disso, como cientista social, poder testemunhar a olhos nus o “carisma weberiano” encarnado naquele homem, quase que produzindo uma “aura”, algo como um brilho que emanava de seu corpo, produziu em mim uma satisfação intelectual muito peculiar. Ao final do evento, contudo, a euforia se esvaziara como um balão e, ao chegar à casa, fui me deitar sentindo cansaço e tristeza.

Por que tristeza?”, você pode se perguntar. Eu explico.

Lula afirmou que, se eleito, fará muitas coisas que considero que sejam positivas para o Brasil, sobretudo para as camadas menos abastadas da população. Disse que dará continuidade a um projeto político de país que em oito anos logrou fazer com que a desigualdade de renda chegasse ao menor índice já calculado (1). Afirmou que vai tentar reverter a situação em que se encontra o Estado do Rio, inclusive o desmantelamento de nossas universidades públicas, bens tão caros à população. Falou em redistribuir terras e se opôs ao discurso odioso de Bolsonaro que propõe distribuir fuzis contra a atuação do movimento dos Sem Terra. Criticou Temer e a privatização de setores estratégicos do Brasil. Falou de referendos revogatórios para consultar a população sobre importantes mudanças que foram realizadas neste breve período de mandato do presidente golpista. Defendeu a democratização dos meios de comunicação, tema que cabeceou para Dilma ao final do seu segundo mandato. Tratou gastos públicos em políticas sociais como investimentos imprescindíveis; criticou o desmonte de empresas como conseqüência nefasta de investigações de vestígios de corrupção.

Todas essas pautas me interessam e me parecem justas. Mas, fico com a sensação de que esse momento histórico não é inédito. Soa como um déjà vu de 2002 e o ponto é que não estamos mais em 2002, época na qual o entusiasmo diante dessas palavras talvez fosse ainda mais genuíno. Tanta coisa aconteceu de lá pra cá, tantos foram os acertos e os erros do PT… será possível recomeçar novamente e aprender com os erros? Será que Lula será condenado em segunda instância? Como dar continuidade ao projeto iniciado em 2003, num contexto onde expressões de ódio contra pobres, negros, mulheres, homossexuais e outras minorias são explicitadas com ainda menos constrangimento do que há alguns anos atrás?

É verdadeiro que um quantitativo expressivo de apoiadores de Bolsonaro se reuniu em frente à Câmara dos Vereadores para gritar palavras de ordem contra o ex-presidente Lula e o campo da esquerda, em geral. É triste ver tantas pessoas defendendo um candidato francamente apoiador da ditadura, da tortura e de discursos outros que violam os direitos humanos. Foi triste ver o cordão de policiais militares separando as “torcidas”, que se enfrentavam com palavras, gestos e olhares carregados de raiva. Dentre os cartazes levantados pelos manifestantes, um defendia a volta do CCC, o Comando de Caça Comunista, organização paramilitar que se reuniu durante o período ditatorial brasileiro para perseguir e matar pessoas consideradas “comunistas”.

Um empresário da cidade, em sua página do facebook, comentou jocosamente que a noite de Campos seria tranqüila naquela quarta, pois se encontravam reunidos no Jardim do Liceu todos os ladrões do nosso município. A princípio, este comentário me pareceu apenas ridículo. No entanto, logo em seguida comecei a pensar no perverso processo de construção da imagem do PT, de Lula e de seus apoiadores como os símbolos máximos da corrupção brasileira, mesmo que essa relação determinista careça de comprovação empírica. É curioso notar como anos de um discurso midiático quase uníssono e politicamente orientado puderam construir tantas noções que não se sustentam ao serem confrontadas com a realidade. O brasileiro já possui provas de que a corrupção perpassa todo o nosso sistema político, sendo uma característica estrutural da política e não peculiaridade de um partido ou de um grupo de políticos. Mesmo assim, o PT é enxergado por muitos como o mal em forma de organização e Lula como o próprio diabo. Um novo mandato de Lula, portanto, seria uma “maldição”. Do outro lado dessa moeda, aparece o poder judiciário, personificado na figura do juiz Sérgio Moro, como símbolo máximo da moralidade da nação.

As paixões despertadas pela política muitas vezes impedem que possamos analisar friamente um fenômeno, levando em consideração toda a sua complexidade, seus pontos positivos e negativos, o que acaba por nos conduzir à adoção de narrativas reducionistas e, portanto, equivocadas. Para muitos que enfatizam os casos de corrupção atrelados aos governos do PT em seus discursos, as virtudes desse período político parecem questões irrelevantes. O fato de milhares de pessoas terem experimentado um estilo de vida mais confortável e mais digno aparece — quando aparece — como coisinha pequena, um mero detalhe no discurso de muitos indivíduos. E, para tantos outros, a promoção da ascensão social de grande parte da população brasileira nem sequer pode ser considerada um ponto positivo da política conduzida pelo PT, mesmo que muitas vezes não se possa assumir esta idéia de maneira explicita.

O cientista político André Singer inicia seu paradigmático livro “Os sentidos do Lulismo” sentenciando que “o lulismo existe sob o signo da contradição”, reunindo em seu seio “conservação e mudança”, “reprodução e superação”, “decepção e esperança”. O filósofo Marcos Nobre fala sobre a “peemedebização do lulismo”, sobretudo no segundo mandato do ex-presidente. O cientista social Luiz Werneck Viana analisa que o PT não quis ousar assumir os riscos de sua vitória, em 2003, adotando na prática muito do conteúdo programático do PSDB contra o qual construiu seu discurso de campanha, contra o qual construiu sua identidade mesma. Singer, tal como todos os outros intelectuais supracitados, reconhece a necessidade de construir alianças e coalizões para se governar um país, mas observa que existiu para o PT a possibilidade de escolher, em diversos momentos, se deveria ou não fortalecer o seu “reformismo fraco”. Não ter logrado avançar na mobilização e conscientização política de suas bases foi um dos maiores equívocos do partido, segundo o cientista político.

Penso que seja possível avançar com o projeto político iniciado por Lula, sobretudo no que tange à diminuição da desigualdade brasileira. Para lograr avançar um projeto progressista, o apoio dos parlamentares e de diversos setores da sociedade civil é peça fundamental. Se Lula for a opção mais viável para darmos continuidade a esse projeto e tentarmos reverter os estragos empreendidos pelo governo Temer, então é dele o meu voto em 2018.

 

(1) http://www.cps.fgv.br/cps/bd/clippings/nc0568.pdf

 

Repercussão da entrevista de Lula à Folha também em Minas Gerais

 

Ex-editor geral da Folha, antes de voltar para sua Minas Gerais natal, o jornalista Sebastião Carlos Freitas me informa que também por lá repercutiu a entrevista dada (aqui e aqui) na última quarta-feira (06), ao Grupo Folha, pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Confira aqui ou no print abaixo do jornal mineiro O Tempo:

 

(Reprodução)

 

 

Confira aqui e aqui mais sobre a repercussão da entrevista na mídia nacional

 

Aos 71 anos, morre a professora Elizabeth Lusitano Esteves

 

 

 

 

Morreu dormindo em sua casa, entre a madrugada e manhã de hoje (08), a professora estadual aposentada Elizabeth Lusitano Esteves. Aos 71 anos, foi vítima de complicações da diabetes, com a qual convivivia há alguns anos. Beth era mãe de Nicholas, Bernardo e Matheus Lusitano Esteves, três amigos de infância com os quais me solidarizo pela perda. Ela era filha do saudoso comerciante português Décio Lusitano, proprietário durante anos da Gaiola de Ouro, loja de animais e material de pesca que marcou época em Campos, num hoje distante século passado. O velório acontece nesta tarde chuvosa de sexta, na Capela C do Campo da Paz, cemitério onde o corpo será enterrado às 18h.

Guilherme Carvalhal — Gratidão

 

 

 

No seu ateliê, aqueles quadros sem nenhuma expressão. Paisagens urbanas em tons de cinza, naturezas mortas. Clara se frustrava com sua própria inexpressividade. Pensava em construir um estilo próprio, em encontrar a singularidade dos próprios traços, de criar sua identidade. Isso tudo em vão. Desdobrava diante de si uma carreira medíocre, de poucos quadros vendidos, todos a baixo preço. Procurar o concurso público como os pais exigiam se tornaria a solução.

Descendo de lá, o caminho até o ponto de ônibus passava por um beco escuro. Diariamente cruzava por essa área, sempre reticente quanto aos ratos pulando de dentro dos bueiros. E nesse beco que um homem a agarrou e a estuprou.

Os socorristas a atenderam. No hospital, realizaram toda profilaxia necessária e cuidaram de seus ferimentos. Também foi atendida por uma psicóloga. O bandido foi preso e condenado a doze anos de cadeia.

Após algumas semanas de reabilitação, retornou ao seu estúdio. Parou perante a uma tela branca e lascou uma furiosa pincelada com a tinta vermelha. Deixou fluir a incomensurável raiva e ao final considerou bom o resultado. Assim então se dedicou em ritmo frenético, produzindo dez quadros nos quais ela finalmente demonstrou a qualidade desejada desde quando aprendeu e desenhar.

Convidou um conhecido ligado a uma galeria de artes e esse se impressionou com o resultado. Ele organizou uma exposição de Clara e a mesma foi um sucesso, vendendo todos os quadros e recebendo críticas positivas da imprensa especializada. Um renomado colecionador comentou que sua obra retratava os sentimentos da mulher do século XXI e todo seu conflito social, confrontando a opressão do mundo e toda sua violência.

Esse foi o primeiro degrau de sua prestigiosa carreira. Sua produção de quadros se aprimorou, refletindo uma ferida interna que se recusava a estancar. Ela simbolizava a dor que lhe consumia sem nunca conseguir superá-la e com isso alimentava um renome que se convertia em dinheiro. Ao longos dos anos suas obras conquistaram o mercado internacional e ela realizou exposições pelos Estados Unidos e pela Europa. Ela estava entre um dos maiores nomes das artes plásticas brasileiras e conseguia em um único exemplar atingir valores que chegavam a mais de cem mil dólares.

Por todo esse tempo, acompanhou o processo em torno de seu violador. Marcou o tempo que faltava para esse sair da cadeia com um pensamento constante, o do quanto sua passagem breve e doloroso por sua vida lhe causou uma enorme mudança. Avaliava seus prêmios, sua fortuna, seu sucesso e sabia que por trás disso tudo reinava aquele dia fatídico. Caso houvesse uma linha do tempo alternativa onde aquele homem não existisse, estaria condenada à mediocridade de uma vida carimbando papéis em uma repartição.

Justamente por isso, no dia da saída dele na cadeia, ela o aguardou em frente ao presídio. Em suas mãos, um embrulho de presente, singela mostra de retribuição pelo diferencial que proporcionou para ela. Amarrou a fita lilás com esmero, querendo demonstrar toda a importância dele.

Logo ao vê-lo atravessar o enorme portão do presídio, ela acenou sorridente. Frente a frente, ele logo se lembrou da sua efígie com surpresa. Aquela noite mudou os cursos do futuro de ambos e agora, após tanto tempo preso, revê-la consistiu em inesperada situação: jamais diria que seria a primeira pessoa com quem encontraria fora das grades, ainda mais com esse pacote de presente na mão, que lhe oferecia.

Antes que ele pegasse o pacote, ela pediu que esperasse. Clara mesma se encarregou de desembrulhar e de dentro sacou um revólver. O ex-prisioneiro deu um passo atrás, assustado, implorando perdão diante da arma apontada.

Pela cabeça dela percorreram muitas dúvidas, se valeria a pena abdicar de tudo que construiu em prol de uma estranha lei do retorno. Havia um dilema reinante nela, do quanto devia sua carreira ao crime que sofreu, e precisava de alguma forma resolvê-lo. Então apertou o gatilho e descarregou o tambor naquele homem que agonizou e faleceu nas portas da penitenciária sob os olhares silenciosos dos vigilantes.

 

Lula: “Não quero saber quem quebrou o Rio, mas quem vai recuperar”

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Ninguém com senso histórico negará: Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é o político mais popular do Brasil desde Getúlio Vargas (1882/1954). Como nenhum dos eleitores que o fazem favorito em todas as pesquisas, na corrida ao Palácio do Planalto de 2018, pode ignorar sua rejeição. Campos testemunhou essas faces de amor e ódio irmanadas na fogueira das paixões, separadas por um cordão de isolamento da PM na noite da última terça (05), durante o comício da praça do Liceu que reuniu cerca de 1,5 mil simpatizantes de Lula, além de 150 militantes do também presidenciável Jair Bolsonaro (PTC). Na tarde de ontem (06), no IFF, onde o ex-presidente cumpriu agenda, a polarização chegou às vias de fato.

Pela manhã, Lula deu uma entrevista exclusiva ao Grupo Folha, transmitida ao vivo na Rádio Continental e em lives no Folha 1 e no perfil do líder petista no Facebook. Neste, até às 22h20 de ontem, o vídeo da entrevista havia gerado 217 mil visualizações, 12,9 mil comentários, 7,4 mil curtidas e 3 mil compartilhamentos. E viralizou também na mídia nacional, onde foi repercutida por Estadão, Folha de São Paulo, UOL, Carta Capital e Brasil 247, entre outros. Lula falou da necessidade de paz, de Previdência Social e da recuperação econômica do Estado do Rio e Brasil. Também nomeou detratores: a Rede Globo, o mercado financeiro, o presidente Michel Temer (PMDB), o juiz federal Sérgio Moro e o TRF-4, cujo julgamento, previsto até abril, ameaça sua pré-candidatura pela Lei do Ficha Limpa. Antes ou depois, “eles têm um metalúrgico que foi presidente, que não tem diploma universitário, que está disposto a recuperar este país”.

 

(Foto: Diomarcelo Peçanha)

 

 

Folha — Presidente, a pesquisa mais recente do Data Folha, feita em 29 e 30 de novembro e divulgada agora, no dia 2, com margem de erro de dois pontos para mais ou para menos, colocou o senhor à frente, em vários cenários, de primeiro turno, com 34% a 37%, variando os cenários. É mais do que o dobro do segundo colocado, que é Bolsonaro, que varia de 17% a 18%. O senhor também vence nas três simulações de segundo turno: com Marina, em menor vantagem, 48% a 35%; Bolsonaro, 51% a 33%; e Alckmin, 32% a 30%. A que o senhor atribui essa vantagem tão grande nas pesquisas?

Lula — Primeiro, Aluysio, queria cumprimentar os ouvintes da rádio Continental, do programa Panorama Continental, e dizer aos nossos ouvintes que as pesquisas feitas com um ano de antecedência das eleições, elas apenas servem como amostragem, mas não têm valor muito forte porque muitas coisas podem mudar até outubro de 2018. Eu penso que as pesquisas me dão vantagem pelo reconhecimento que o povo tem, das lembranças que ele tem do nosso governo. Efetivamente, o povo tem consciência de que o Brasil viveu, no meu período de presidente da República, um dos melhores momentos da sua história. O país cresceu, se desenvolveu, fez inclusão social. O Brasil gerou empregos, aumentou salário, fez o programa “Minha Casa, Minha Vida”. O programa fez investimento de infraestrutura. Eu posso dizer para você, sem medo de errar, que o Estado do Rio de Janeiro nunca recebeu a quantidade de investimentos, desde a sua criação, como no meu governo. Nunca. Nenhum presidente colocou, no Rio de Janeiro, a quantidade de dinheiro que eu coloquei para fazer as obras que o Rio de Janeiro precisava. Investimento em pesquisa para que a Petrobras se transformasse na segunda empresa de petróleo do mundo, que eles estão destruindo. Pesquisas para que a gente descobrisse o pré-sal. A recuperação da indústria naval carioca, os investimentos nas universidades e nas escolas técnicas. Então, tudo isso, na verdade, o povo começa a se lembrar. E quanto mais for chegando a data da disputa, o povo começa a lembrar. É como futebol. Quando o Flamengo está disputando alguma coisa na final, o pessoal começa a lembrar: “em 81, ele foi campeão da Libertadores; em 81, ele foi campeão do mundo”. E o povo vai começar a lembrar que, no nosso tempo, andava de cabeça erguida aqui no Rio de Janeiro, que era mais feliz. Que, em Campos, tinha mais emprego. Que, em Campos, tinha mais aumento de salário. Não havia a desordem, o baixo astral e a desesperança que têm hoje. Então, é isso que me dá essa vantagem. E, ao mesmo tempo, o povo começa a perceber que, quando eu cheguei ao governo, em 2002, do ponto de vista da inflação e do desemprego, os níveis eram iguais ou piores do que são hoje. Eles diziam que eu não ia conseguir governar o Brasil, que o Brasil estava quebrado, que o Brasil estava devendo ao FMI, que o (ex-ministro da Fazenda, Pedro) Malan ia todo final de ano aos Estados Unidos buscar dinheiro para fechar o caixa. Isso acabou. Nós resolvemos o problema. O Brasil deixou de ser devedor do FMI e passou a ter quase US$ 400 bilhões  de reserva. O Brasil passou a ser protagonista internacional. Isso, o povo vai lembrando. E olha que não é por falta de o Lula apanhar. Porque, se tem um cara que toma chibatada da imprensa brasileira, das 5h à 0h, sou eu. Abre todos os jornais de todas as rádios e de todas as televisões, todas as revistas. E eu estou muito tranquilo. Porque quem tem a consciência tranquila sabe que, quando um cachorro late para ele, não pode ficar latindo para o cachorro. Passa e vai continuar a sua vida tranquilo. Aliás, eu queria aproveitar, Aluysio, e dizer que está comigo, aqui, o senador Lindbergh e o nosso querido Zé Maria, petroleiro e nosso presidente da FUP.

 

Folha — O senhor então compara o período em que foi presidente, para o brasileiro, como foi, para o flamenguista, o Flamengo de Zico de 81. É mais ou menos isso?

Lula — Eu acho que foi o melhor momento do povo brasileiro. Vamos relembrar que, quando eu deixei a presidência, a economia estava crescendo a 7% ao ano (PIB  de 7,5% em 2010). Vamos lembrar que o comércio varejista estava crescendo a 12% ao ano. Vamos lembrar que o povo tinha acesso a crédito consignado a juro muito barato. Nós saímos, Aluysio, para você ter ideia do número, de R$ 368 bilhões que o Brasil tinha disponibilizados para crédito, entre bancos públicos e privados, para R$ 2,7 trilhões. Mas só para você ter ideia de que nós aumentamos, em mais de cinco vezes, o número de dinheiro disponibilizado para emprestar para as pessoas. Nós fizemos um milagre de ter uma microeconomia ligada ao pequeno empreendedor individual, ligada ao trabalhador, que aumentava o salário. O salário mínimo aumentou em 74%. As pessoas passaram a ser cidadãs de primeira categoria.

 

Folha — Ascenderam socialmente.

Lula — Isso. Fez com que o pessoal ascendesse um degrau na escala social desse país. O povo começou a comer melhor, a comer carne de primeira, a ir a shopping, onde só ia gente chique antigamente. O povo começou a viajar de avião, a fazer uma sala, um banheiro, um puxadinho a mais na sua casa. O povo começou a ter sonho de comprar casa. No Nordeste, o povo trocou o jumento por uma motocicleta. Essas coisas mexeram com a alma do nosso povo. Eles sabem que é possível fazer isso. E eles sabem que só é possível se tiver um presidente que conheça a alma desse povo. Que conheça profundamente. Veja uma coisa que aconteceu agora, Aluysio. Você sabe que eu fiquei oito anos na presidência e não aumentei o gás de cozinha uma única vez. O Temer, em sete meses, já aumentou em 68 %. O gás de cozinha é um produto da cesta básica para quase 29 milhões de famílias neste país. Portanto, ele não pode ser aumentado do jeito que está aumentando. Tem lugar do país em que o botijão de gás de 13 litros está custando R$ 105. Tem lugar neste país em  que custa R$ 94. O mais barato está a R$ 75. É quase 10% do salário mínimo.

 

Folha — O senhor falou isso no comício ontem…

Lula — É uma vergonha. Primeiro, você manda um medida provisória para o Congresso, que não sei se foi aprovada ontem, que o Temer mandou, inventando de pagamento de imposto tudo que é derivado de royalties de gás e de petróleo que você importa. Você inventou imposto zero para as empresas multinacionais que vieram para cá explorar o nosso pré-sal, comprar sonda, plataforma e navio. É tudo imposto zero. E aumenta em 68% o gás de cozinha. Ou seja, é, mais uma vez, o povo trabalhador, o povo pobre deste país pagando a conta, para dar e garantir privilégios à parte mais rica deste país. O Temer faz discurso de que é preciso conter gasto, conter gasto, conter gasto. Vocês, da imprensa, disseram, há um mês, que duas votações que a Câmara fez para manter o Temer no poder custou R$ 30 bilhões aos cofres públicos.

 

Folha — De emendas (parlamentares).

Lula — E quem foi o beneficiário? A elite brasileira e a bancada ruralista. Enquanto isso, o povo tem aumento de gás, aumento da gasolina, aumento do óleo diesel. Aumentou pouco a gasolina? Aumentou 20%? E quanto aumentou o salário? Pergunte para um petroleiro quanto ele teve de aumento este ano. Pergunte quanto foi feito de investimento na educação neste país. E você vai perceber que eles estão voltando à velha prática de tudo para quem tem e nada para quem não tem.

 

Folha — Crescer o bolo para depois dividir.

Lula — Não. Eles vão comer, não vão dividir. Eu, na década de 80, contava a seguinte ideia, Aluysio: o Delfim Neto dizia que era preciso o bolo crescer para, depois, dividir.

 

Folha — O “Milagre Econômico”.

Lula — E o bolo cresceu, cresceu, cresceu, e eles comeram. Para o povo, sobrou aquelas bolinhas de chumbo que eles colocavam.

 

Folha — Além do gás de cozinha, no comício de ontem da praça do Liceu, o senhor bateu, também, na grande mídia, em Jair Bolsonaro (PTC) e em Sérgio Moro. O senhor chegou a falar que queria que…

Lula — Eu não bati em ninguém.

 

Folha — O senhor criticou.

Lula — Eu citei coisas. Apenas disse que desafiava o juiz Moro…

 

Folha — A provar alguma coisa?

Lula — O Ministério Público e a Polícia Federal a mostrarem ao povo brasileiro um dólar, um real que não seja do resultado do meu trabalho, da minha vida. Porque, até agora, já provei minha inocência e, ainda assim, eles, sem provas, me condenaram. Isso está virando uma coisa assim: quem tem que provar sua inocência é o acusado. Quem acusou não precisa provar nada. Então, tenho desafiado Moro nisso. A segunda coisa que tenho dito é que, se eles não querem que eu volte a ser presidente da República, eles que disputem as eleições. Tem tanto partido. Eles podem criar mais um e disputar as eleições.

 

Folha — O senhor fala isso em relação a Moro?

Lula — Em relação a todo mundo. Porque não é só o Moro que não quer. O Moro é um instrumento. Eles não querem que eu dispute as eleições. Porque este país não aceita que pobre tenha ascensão social. Este país não aceita que empregada doméstica tenha filha na universidade. Este país não aceita que pedreiro tenha filho estudando engenharia. Este país não aceita que cortador de cana possa virar advogado ou diplomata. O fato de eles não gostarem da ascensão dos mais pobres é uma burrice porque, quanto mais os mais pobres ascenderem, mais eles também ganham dinheiro. Eu tenho dito o seguinte: se não querem que eu seja candidato à presidência da República, disputem as eleições. Eu já perdi três eleições: para o Collor.

 

Folha — Para o Fernando Henrique. 

Lula — Duas para o Fernando Henrique Cardoso. Eu votei tranquilo para casa, não xinguei ninguém, não fiz passeata, não fiz protesto. Não tentei, como Aécio, anular as eleições, como ele tentou anular as eleições da Dilma. Não plantei ódio neste país. Eu voltei e me preparei. Depois de três derrotas, fui eleito. Com muita paciência. Agora, se eles não querem, é só disputar. Se, na urna, eu for derrotado, vou voltar para casa. Como diria nosso querido e saudoso Brizola: vou lamber minhas feridas. Mas disputem.

 

(Foto: Diomarcelo Peçanha)

 

Folha — No comício da praça do Liceu, o senhor também fez analogias críticas com Bolsonaro. Disse que, enquanto alguns candidatos prometem mais cadeias, o senhor quer fazer mais escolas.

Lula — Não sei se foi ele que falou isso. Mas é que eu tenho ouvido muito. Eu sei que tem violência no Rio de Janeiro, mas não é só no Rio de Janeiro. A violência está espalhada Brasil afora. E, quanto mais pobreza tiver, quanto mais desemprego tiver, quanto mais o salário for arrochado, mais vai aumentar a violência. Se você gera emprego, gera salário. Se gera salário, gera consumidor. Se gera consumidor, gera mais um emprego, mais um salário, mais um consumidor. O que vai acontecer? Um jovem que está trabalhando, recebe um salário e pode comprar um celular bonito, ele não tem por que assaltar uma pessoa para roubar um celular. Não tem por que assaltar uma pessoa para roubar um tênis, uma blusa. Então, eu tenho dito que o trabalho e a educação são 50% do desmonte da violência que está espraiada neste país. Se um adolescente levanta com esperança, com sonho; se ele vê que o pai e a mãe dele estão trabalhando e que, em casa, tem comida e que ele está na escola, ele não vai roubar. Há mais de 20 anos, eu tinha um filho que, quando a gente comprava tênis para ele ir para a escola, que é em frente à minha casa, ele raspava o tênis calçada para ficar velho.

 

Folha — Para não ser assaltado.

Lula — Para não ser assaltado. Olha, se você dá condições de essas pessoas trabalharem e ganharem um salário, essas pessoas não vão precisar assaltar do jeito que estão fazendo hoje. Outra coisa, ouvi um cidadão dizer, que eu não vou citar o nome, em uma reunião com fazendeiro: “vou dar fuzil para vocês, vou dar armas para vocês”.

 

Folha — No comício de ontem, presidente, o senhor citou isso e falou que preferia dar terra a quem não tinha.

Lula — Meu Deus do céu! Como você vai encontrar a paz se está estimulando a violência, o ódio, estimulando a disseminação do preconceito? Eu penso, Aluysio, o que eu sonho, na verdade, é que a gente possa restabelecer a tranquilidade neste país. As pessoas têm que aprender que a gente pode ter divergências, pode não concordar; que um  vascaíno pode assistir a um jogo sentado ao lado de um flamenguista e cada um gritar “gol” na hora que sair o gol e ir para casa tomar cerveja juntos, sem precisar brigar. Eu sou do tempo em que a gente ia para o estádio, todo mundo junto.

 

Folha — Tempo da geral.

Lula — Cada um com a camisa do seu clube. Aí, inventaram torcida organizada. Os times começaram a estimular, a dar ingresso gratuito. A quem interessa essa briga? Porque aquele cara que é da torcida organizada do Flamengo mora na mesma rua do cara da torcida organizada do Vasco. As famílias se conhecem. Então, ficam disseminando ódio e, depois, não sabem como tratar. A minha tese é a seguinte: quem planta vento colhe tempestade. E eu quero plantar tranquilidade, uma brisa. Este país tem um povo alegre, um povo feliz. Como é que eu posso aceitar a crise do Rio de Janeiro? Um estado com que eu assumi um compromisso, em 2006, no primeiro comício que fiz aqui, de que eu iria ser o presidente da República que mais iria colocar dinheiro para investimento em infraestrutura no Rio de Janeiro. E fiz isso. Você não sabe o orgulho que eu tenho, Aluysio, de ver aquelas pessoas das favelas serem contratadas para trabalhar no PAC. Mulheres, homens e adolescentes trabalhando vestidos com a camisa do PAC, ganhando seu dinheiro honesta e dignamente, porque é isso que dá tranquilidade. Você não sabe a alegria que eu tenho da recuperação da indústria naval brasileira. A indústria naval brasileira, quando eu disputei as eleições em 2002, só tinha dois mil trabalhadores. Os metalúrgicos de Angra dos Reis vendiam cerveja no isopor, na praia, porque não tinham emprego. Nós recuperamos a indústria naval. Ela chegou a ter, no ano passado, 82 mil trabalhadores. Já caiu para 38 mil. Eles querem acabar. Eles querem que a gente compre navio da China, da Coreia. Que a gente compre sonda da Petrobras da China, da Coreia, de Cingapura, sem pagar imposto, emprego e conhecimento tecnológico. Este país nunca será um país independente. Nunca será um país soberano porque a elite brasileira tem complexo de vira-lata. Ela acha que é pequena, que não pode. Tudo tem que depender dos Estados Unidos, da Alemanha. Não. Nós temos que depender de nós. Temos que ter orgulho, amor próprio. Temos que fazer as coisas corretamente neste país. E eu provei que é possível fazer isso. É por isso que o povo começa a perceber que, se quiser consertar este país, tem um metalúrgico que foi presidente, que não tem diploma universitário e está disposto a recuperar este país.

 

Folha — Além da questão política e eleitoral, há a questão jurídica. Inicialmente o TRF-4 tinha previsão para julgar até agosto seu recurso à condenação de Moro. No domingo (03), o Lauro Jardim noticiou em O Globo que o prazo foi abreviado para março ou abril. Ontem (05), saiu a notícia de que o relator do caso, João Pedro Gebran Neto, já teria encaminhado o voto sobre o seu recurso  ao revisor. Como o senhor enxerga isso? Qual é a sua expectativa?

Lula — Aluysio, na verdade, prefiro nem enxergar. Desde que começou essa bandidagem comigo, essa cretinice…

 

Folha — Quando o senhor fala em bandidagem, se refere a quê?

Lula — Eles inventaram uma mentira. O procurador (da República, Deltan) Dallagnol inventou uma mentira. Ele construiu a tese do power point. E, com base na tese do power point, ele fica procurando coisas para tentar jogar dentro do balaio. E obriga os empresários a dizerem que todo o dinheiro que utilizou em campanha é propina. Que as contas que os empresários têm na Suíça não são evasão fiscal; são propina. E, até agora, o máximo que eles conseguiram foi o cara dizer “o Lula sabia, o Lula sabia”. Ora, eu estou muito tranquilo porque estou desafiando eles a provarem alguma coisa. Não venham com essa de que “Lula sabia”. Porque, aqui mesmo, em Campos, no Rio de Janeiro, e em São Bernardo do Campo, deve ter muita gente falando em meu nome. Quando você fica famoso, todo mundo vira seu amigo, todo mundo fala em seu nome, todo mundo vende uma coisa no seu nome. Então, eu tenho a consciência muito tranquila. Por que eu não me preocupo? Porque, desde que começou esse processo, os caras falam que eu tenho que ser condenado. A peça do Moro me condenando é, segundo todos os advogados que leram, simplesmente ridícula. Ela não tem sustentação jurídica em nenhum lugar. Ela tem sustentação nos pares do Moro. Então, quando cai na mão desse juiz Gebran, eu estou lendo todo dia que eu já estou condenado. Se eu ficar preocupado com isso, não durmo. Então, prefiro deixar ele fazer o serviço dele. Ele tem responsabilidade, tem mais de 30 anos de idade. Ele estudou direito, fez um concurso, virou juiz.

 

Folha — O Moro?

Lula — Eu não sei o que ele é também. Mas deve ser a mesma coisa. Então, deixa ele julgar. Não vou ficar batendo boca. Quem bate boca são os meus advogados. Eu vou continuar trabalhando. O que quero dizer para você é o seguinte: se o PT quiser, eu estarei candidato a presidente da República. E quero dizer para eles: querem disputar as eleições comigo? Se filiem. Participem de um partido político. Vamos disputar ideias. Eu fico indignado, meu caro. Esses caras invadiram a minha casa, levantaram o colchão da minha cama. Esses caras estavam com máquinas de fotografia penduradas no peito, achando que iam encontrar barra de ouro, dólar, euro, real. Eles não encontraram nada e tiveram a desfaçatez de não pedir desculpas ao povo brasileiro. Como eu posso respeitá-los se eles não me respeitaram? Então, é o seguinte: eu estou na disputa. Estava até tranquilo. Você está me vendo aqui. Parece que eu tenho 30 anos. Eu tenho 72. A minha energia é de 10, agora. A única coisa que posso fazer é defender a minha honra e dizer ao povo brasileiro que este país tem solução no dia em que ele tiver um presidente que tenha credibilidade. Anote bem: ninguém governará este país se não tiver credibilidade junto à sociedade. E credibilidade você adquire com o seu comportamento. Primeiro, sendo presidente eleito democraticamente pelo povo. Segundo, não atender a interesses menores. Alguém tem que governar para todos. E governar para todos significa que, dentro desses todos, o povo trabalhador e o povo pobre são os mais necessitados. É para esses que temos que governar de forma privilegiada. É para esses que temos que fazer isenção de impostos, aumento de salário. É para esses que a gente tem que abrir vagas nas universidades e nas escolas técnicas. É por isso que eu quero governar. Acho que o Brasil pode virar uma grande potência se a gente investir em educação. Aluysio, eu vim aqui, em Campos, por causa do símbolo. Você já me ouviu falar, muitas vezes, “porque foi o presidente Nilo Peçanha que, em 1909, abriu a primeira escola técnica da cidade de Campos dos Goytacazes”. Pois bem. Em 100 anos, eles construíram 140. Nós, em 12 anos, construímos 500. Por quê? Porque nós, em 12 anos, colocamos mais jovens na universidade do que eles em 100 anos. E porque não existe nenhuma possibilidade de o Brasil virar uma grande potência econômica se não investir em educação. Não é exportando soja e minério de ferro que a gente vai ser uma grande potência. A gente vai ser uma grande potência quando a gente exportar conhecimento, inteligência; quando a gente estiver transformando a nossa inteligência em um produto que tenha valor agregado. E isso tem que ter muita educação, porque tem que ter competitividade nos preços, na qualidade. Isso só vem com a educação. É por isso que eu, embora tenha sido o presidente brasileiro que não teve diploma universitário, sou o presidente que mais fez universidades na história deste país. E tem que fazer muito mais. É preciso abolir a palavra “gasto” quando se fala em educação. Educação é investimento. E investimento para sempre. Uma empresa que você financia pode quebrar, pode pedir falência, mas o cidadão que tem diploma de engenheiro nunca vai esquecer o que aprendeu, e, portanto, o Brasil terá um técnico para sempre.

 

Folha — O senhor falou que está defendendo a sua honra. Mas qual é o seu principal objetivo ao tentar voltar para a presidência?

Lula — Eu acho que o PT tem clareza de que a minha volta à presidência pode fazer com que o trabalhador deste país volte a sonhar. O que a gente não pode mais assistir, por exemplo, é alguém achar que o problema do Brasil é a Previdência Social e, sobretudo, a parte mais pobre do povo brasileiro. Se você conversar com a professora Laura Conceição, você vai ouvir dela o seguinte dado: de 2004 a 2014, quando a gente gerou 20 milhões de empregos, formalizou 6 milhões de pequenos empreendedores individuais e aumentou, todo ano, o salário das categorias acima da inflação e o salário mínimo, a Previdência Social foi superavitária. Quando eles falam que a dívida pública cresceu em relação ao PIB, só tem um jeito de a dívida pública diminuir: aumentar o PIB. Tem que ter investimento. E, para ter investimento, o Estado tem que ser indutor. Os bancos públicos têm um papel importante. Na crise de 2008, quando eu falei que era marolinha, o que eu fiz?

 

Folha — Usou BNDES e Caixa para expandir o crédito.

Lula — BNDES, Banco do Brasil, Caixa Econômica. O banco Votorantim era o que mais financiava a carteira de carro usado. Porque o pobre, para comprar um carro novo, ele vende o carro usado. Ele vende o dele para comprar outro novo. O que nós fizemos? Compramos 50% do banco Votorantim para que a gente pudesse financiar carro. Financiamos até motocicleta. Você incentiva a empresa a vir para cá para produzir. Depois, você não garante que o povo tenha dinheiro para comprar, para que vai produzir? Se não tem quem compre. Então, tem que financiar para o povo comprar.

 

 

(Foto: Diomarcelo Peçanha)

 

 

Folha — Como presidente, o senhor passou a usar os bancos públicos para estimular o crédito e o consumo, numa forma de enfrentar a grave crise econômica internacional de 2008. Mas acha que a solução ainda é por aí? Não teria que ser uma medida específica ao período de crise?

Lula — Deixa eu te dizer uma coisa. De vez em quando, eu ouço alguns discursos de que “a política econômica do Lula foi baseada em consumo. É preciso fazer uma política baseada no desenvolvimento industrial”. Agora, veja, você acha que alguém irá implantar uma fábrica em Campos se não tiver consumo para o produto que vai ele vai fabricar? Por que ele iria fazer uma fábrica aqui? Para fazer estoque? Não. As duas coisas caminham juntas. Eu só produzo se tiver consumo. E eu só consumo se tiver produção. Qual é o agravante? É que você pode importar a coisa mais barata. Então, na OMC (Organização Mundial do Comércio), nós fizemos um acordo que, quando queremos dificultar o produto a entrar no Brasil, você tem a possibilidade de aumentar em até 35% o imposto daquele produto. Tem gente que fala que é preciso fechar as importações da a China. Tudo bem. Só que é uma política de duas mãos. Quem é que compra mais do Brasil?

 

Folha — A soja para a China.

Lula — É a China. Então, se a gente quiser proibir a China de exportar para a gente, a China vai criar problema com as nossas exportações.

 

Folha — A China é o nosso maior parceiro comercial.

Lula — Então, tudo se resolve em uma mesa de negociação. Tudo se resolve se o Brasil tiver competência de estabelecer parcerias estratégicas, e a gente estimular o consumo. O Brasil tem um mercado de 207 milhões. Têm pessoas ansiosas para comprar e não têm dinheiro. Tem gente que fala: “vamos, então, exportar”. Exportar não depende do Brasil. Depende da nossa capacidade de produção, de produzir com qualidade, de competitividade, de preço no mercado internacional e depende de você querer comprar aquilo que eu quero te vender. O mercado interno, não. O mercado interno é a única garantia que você tem. Se tiver produtos a preços compatíveis, as pessoas vão comprar. As pessoas vão entrar no shopping, vão comprar carne de qualidade, produtos de qualidade, vão trocar de carro, televisão, computador, roupa. Esse é o teu mercado interno. Para vender, você tem que ir lá e convencer as pessoas de que teu produto é melhor, é mais barato. Todo mundo quer vender e pouca gente quer comprar. Então, o problema do desafio do Brasil é a gente acreditar em nós mesmos. Por isso que estamos investindo na educação. Por isso que essa região recebeu muitos institutos federais. Porque, para nós, a educação é a base fundamental. Não pode, em um país, dizer que o governo empresta R$ 1 bilhão para empresário e é investimento e o governo financia uma bolsa de estudo de R$ 2 mil e é gasto. Que história é essa? Quem é que disse que é gasto fazer investimento em bolsa para estudante estudar? Esse jovem, quando se formar, ele vai retribuir ao Brasil muitas alegrias e muita qualidade naquilo que a gente faz. Então, eu acho que nossa volta à presidência deste país é a possibilidade que a gente tem de ser feliz outra vez, de acreditar no Brasil. De saber que os poços de Campos não vão ser fechados porque estão produzindo menos. Você investe mais! No mundo inteiro, é assim. Agora, por conta do pré-sal, você começa a abaixar a produção aqui. Porque, quando nós descobrimos o pré-sal, sabe o que eles diziam para nós, Aluysio? Que o pré-sal era impraticável porque estava muito fundo e era muito caro. Sabe a quanto que a gente, hoje, tira o barril de petróleo, de seis mil metros de profundidade? A U$ 8,5 dólares. Sabe a quanto que se tira o barril de petróleo na Arábia Saudita, que é quase à flor da terra? A US$ 6,5. O tal do gás do xisto americano, do petróleo americano, da gasolina americana que ia sair do gás do xisto, ou seja, que ia ser o mais barato do mundo, é três, quatro vezes mais caro do que o nosso pré-sal. Então, toda essa bagunça que está no Brasil, todo esse comportamento. Veja, eu tenho indignação com o comportamento da Lava Jato. Porque a Lava Jato poderia estar prendendo a pessoa jurídica, poderia estar prendendo o empresário que roubou.

 

Folha — Mas ela não prendeu?

Lula — Mas ela não poderia prender a empresa. Porque quem está pagando o pato na indústria naval são os trabalhadores. Já tem mais de 50 mil sendo mandados embora. Quando você quebra as empresas brasileiras, quem ganha com isso? Prendam o dono, prendam a pessoa física e libertem a pessoa jurídica para continuar fornecendo emprego e salário. Coloquem uma comissão para julgar a concorrência daquelas empresas, mas você não pode matar quem gera emprego. Você não pode matar a indústria naval, a indústria de óleo e gás, de engenharia. A troco do quê? Quem é que assume a responsabilidade pela quantidade de milhões de pais de família, que nunca souberam que o patrão deles estava roubando e, de repente, são mandados embora porque o patrão roubou?

 

Folha — O senhor não colocou isso para o Moro em audiência?

Lula — Eu coloquei. Eu acho que o Moro é surdo. Eu acho que ele não ouve nada que eu falo. Nem ouve as testemunhas. Eu levei 83 testemunhas. Nem as testemunhas deles me acusaram. Mas eles ficaram subordinados à Rede Globo de Televisão. Essa é a verdade e esse é o grande erro da Lava Jato: se subordinar aos meios de comunicação. Primeiro, eu condeno com a manchete. Depois, vamos ver o que a gente faz.

 

Folha — O Estadão andou muito à frente na Lava Jato. Acho que até mais do que a Globo.

Lula — Muito. O grande problema é que o Estadão tem pouca repercussão. O problema é que a Globo tem mais repercussão. Alguns jornalistas privilegiados recebem as informações antes dos advogados.

 

Folha — O Fausto Macedo.

Lula — O Fausto e outros. O que acontece é que você não precisa de prova. Eu desconfio que o Aluysio está cometendo alguma improbidade na rádio em que ele trabalha. Ora, aquilo vira manchete: “Aluysio cometeu improbidade”. Aí, você vai ter que passar a vida provando que não cometeu, meu caro.

 

Folha — Falamos de Moro, um pouco e Bolsonaro e há outros candidatos na corrida. Eu queria saber quem o senhor encara como seu maior adversário e seu maior aliado nesta tentativa de voltar à presidência em 2018?

Lula — Quem está sendo, neste instante, o meu maior adversário é a Globo, que tentou até lançar o Luciano Huck. Quem sabe ele conseguisse fazer a Míriam Leitão ser a ministra da Fazenda e o William Waack, ministro da Igualdade Racial? Aquele (Carlos Alberto) Sardenberg iria ser presidente do Banco Central. Ele era o sonho da Globo. E tudo que eu queria era enfrentar um candidato com o logotipo da Globo. Não sei se eles vão ter um candidato, mas eles vão ter. E outro é o tal do mercado. Todo dia, eu ouço dizerem: “o mercado não quer o Lula”, “o mercado não sei das quantas”, “o mercado está preocupado”. Eu é que estou preocupado com o mercado, não é ele que está comigo. Eu estou preocupado porque estão mentindo neste país. E, muitas vezes, fazem matéria de jornal, de primeira página, para poder viver de especulação. E eu aproveito aqui, na tua rádio, para dizer: o mercado precisa viver do resultado do trabalho da nação, e não do resultado da especulação. Porque os banqueiros ganharam dinheiro no meu governo, os empresários ganharam dinheiro no meu governo, a classe média ganhou dinheiro no meu governo, o trabalhador ganhou dinheiro no meu governo. E isso vai continuar acontecendo. Eu vou ser presidente de todos. Agora, todo mundo tem que saber que as pessoas mais pobres serão tratadas com o carinho de que precisam. E vou te dizer mais uma coisa: o Rio de Janeiro vai voltar a receber investimentos. Eu não quero saber quem é que quebrou o Rio de Janeiro. Eu quero saber quem vai recuperar o Rio de Janeiro. Porque, se a gente ficar discutindo quem deu o tiro e não for levar a pessoa para o hospital para parar o sangue, ela vai morrer. Então, o Rio de Janeiro não merece estar passando pelo que está passando. Nem a cidade de Campos, nem a cidade do Rio de Janeiro, nem o Estado do Rio de Janeiro. E o governo federal tem que assumir a responsabilidade de sentar com o governo do Estado, seja ele quem for, e discutir um plano de recuperação do Rio de Janeiro. E tudo isso começa com geração de empregos. Dê emprego a esse povo que você vai perceber que o povo vai voltar a sorrir.

 

Folha — O povo é o seu maior aliado?

Lula — Eu acho que o povo é aliado de todas as pessoas. Porque você sabe que eu tenho como concepção de governança que eu não sou o dono do Brasil. Por isso, quando eu era presidente, fiz 74 conferências nacionais para que o povo decidisse as políticas públicas que eu tinha que colocar em prática. Eu fiz conferência de comunicação, de segurança, de portador de deficiência física, de hansenianos, de negros, de índios, de LGBT, da saúde. Porque eu queria ouvir da sociedade aquilo que ela entendia que era importante a gente fazer para o Brasil. O problema é o seguinte, meu caro, você não pode ter um presidente da República governando para meia dúzia de pessoas. Vou te dizer uma coisa: nenhum presidente da República eleito democraticamente, que tivesse tido 99% dos votos neste país, teria a desfaçatez de desmontar o Brasil como o Temer está desmontando. O Temer está fazendo isso porque ele é um presidente que não tem um pingo de respeitabilidade moral. Na pesquisa, ele aparece com 1% de intenção de voto. Tem 97% de rejeição. Este cidadão está fazendo o que está fazendo porque ele se prestou a ser presidente como resultado de um golpe para vender este país. Então, tem que vender a Petrobras, acabar com a lei de partilha, isentar os ricos para fazer um monte de coisas, enquanto os pobres voltam a comer o pão que o Diabo amassou. E é com isso que nós vamos acabar. As pessoas mais pobres deste país têm o direito de, no final de semana, comer um churrasco, com picanha, com alcatra, com filé, e tomar uma cervejinha gelada. É um direito que ele tem. Quem bebe, obviamente. Quem não bebe, pode fazer outra coisa. Este povo tem o direito de pegar sua família e ir ao shopping, a uma praça de alimentação. Este cidadão tem o direito de pegar sua família e ir para o aeroporto, para a classe média alta ficar dizendo que o aeroporto parece uma rodoviária. Olha, se não quer ir ao aeroporto-rodoviária, vai para a rodoviária e pega um ônibus. Ah, não quer andar na rua porque está cansado e tem muito carro. Lá em São Paulo, às vezes, eu era xingado: “esse Lula é um desgraçado  porque pobre tem carro e entupiu a rua de São Paulo”. Deixa a rua para os pobres e vai pegar um ônibus. Será que as pessoas que trabalham não têm direito neste país? Então, é isso, Aluysio, que eu quero provar para o povo: todo mundo tem direito. O dono da Pirelli tem direito, o da Fiat tem direito, o da Volkswagen tem direito, o do Pão de Açúcar tem direito. Todo mundo tem direito. Eu só quero que o pobre tenha direito, que ele tenha oportunidade, que ele possa sonhar que o filho dele vai ter um diploma de doutor porque o governo vai garantir a oportunidade para ele estudar. É isso que me faz voltar à presidência da República. É por isso que eu vou sair para a rua para pedir voto para esse povo. E, quem quiser me derrotar, dispute. Ou faça uma coisa qualquer. Eu estou disposto a qualquer coisa.

 

Publicado hoje (07) na Folha da Manhã