Campos dos Goytacazes,  24/02/2018

 

por Aluysio Abreu Barbosa

MPF investiga “venda do futuro” por improbidade administrativa

 

O presidente e o procurador da Cãmara de Campos, Marcão Gomes (Rede) e Robson Maciel Júnior (Foto de Atonio Leudo – Folha da Manhã)

 

 

Celebrada (aqui) em 12 de maio de 2016 pelo governo municipal Rosinha Garotinho (PR), no apagar das luzes do governo federal Dilma Rousseff (PT), a “venda do futuro” de Campos junto à Caixa Econômica Federal (CEF) será investigada como “ato de improbidade administrativa e ilícito penal”. A determinação partiu do Ministério Público Federal (MPF), em parecer do procurador regional da República José Homero de Andrade.

Através do seu procurador, Robson Maciel Júnior, a Câmara Municipal de Campos tomou ciência hoje do parecer de 11 de dezembro. Nele, o MPF acatou todos os argumentos da procuradoria do legislativo goitacá, considerados fundamentais à decisão liminar (aqui) do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2) em  20 de junho de 2017. Foi ela que garantiu a cobrança mensal da “venda do futuro” de Campos no limite legal de 10% dos royalties recebidos mensalmente pelo município, não nos termos pactuados entre a CEF e os Garotinho.

Além da investigação do MPF, oficiada ao procurador-chefe do órgão no Estado do Rio, o contrato firmado entre a CEF e a ex-prefeita Rosinha deve ser também alvo de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Câmara de Campos:

— Já tínhamos denunciado lá atrás (aqui) que a “venda do futuro” de Campos, pela prefeita Rosinha Garotinho,  foi uma fraude contratual. Para além do discurso, foi a argumentação jurídica neste sentido, feita pelo procurador da Câmara, dr. Robson Maciel, que garantiu a manutenção da cobrança em 10% no TRF-2. E agora, essa nossa argumentação foi acatada também pelo MPF, que vai investigar o contrato por improbidade administrativa e ilícito penal. É dever da Câmara Municipal de Campos também fazer o mesmo. Já na próxima semana, vamos estar conversando com nossos pares sobre a necessidade de abrir uma CPI para investigar esse contrato fraudulento com a Caixa, lesivo aos cofres do município — garantiu o presidente do legislativo goitacá, vereador Marcão Gomes (Rede).

 

Trechos do parecer do procurador regional da República José Homero de Andrade (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Confira a reportagem completa na edição de amanhã (24) da Folha da Manhã

 

Guiomar Valdez — Uma semana depois: notas sobre a intervenção federal na Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro

 

 

 

Por ‘N’ razões defendo que a intervenção no Estado é uma necessidade. Penso que demorou. Perguntem, em especial, aos moradores da cidade do Rio de Janeiro e regiões próximas;

2) Esta ação não está ferindo a Constituição Federal. Está no âmbito do Estado de Direito;

3) Esta intervenção não é um ato apenas burocrático, ele é político também, óbvio;

4) Em especial neste ano eleitoral, esta intervenção expressa um ato político-eleitoral. Um ato de atores explícitos ou não, pertencentes as relações de poder em nosso país;

5) Esta intervenção é Golpe? Para mim, NÃO!;

6) Poderá compor um Golpe de Estado? Talvez, tenho muitas dúvidas. Como variados atos políticos/sociais podem compor a instalação de um Estado de Exceção. Levar à suspensão das eleições neste ano? Talvez, tenho muitas dúvidas;

7) Esta intervenção foi devido ao Carnaval carioca, marcado pela crítica e denúncia no âmbito político-social? NÃO! Foi devido as faixas presentes em favelas de apoio ao Lula, que ameaçava o ‘morro descer’? Para mim, NÃO! Menos;

8) Como ato político-eleitoral de maior amplitude, esta intervenção dando certo em seus objetivos ‘técnico-humanos’, poderá gestar um candidato viável à direita? Para mim, é PROVÁVEL. Que tal, ‘Rodrigo Maia’? OBS: seu discurso no ato de assinatura do decreto foi o único que recebeu aplausos, tímidos, mas, houve;

9) Esta intervenção é para apoiar a candidatura de Bolsonaro? Para mim, NÃO! Menos;

10) Com esta intervenção, o governo federal está dando ‘um tempo’ na Reforma da Previdência? SIM. Talvez, nem aconteça… (anotações de 16/02/2018 – 6ªf – 15h41).

Horas depois da assinatura do Decreto Nº 9.288/2018 da Intervenção, o presidente da Câmara Federal, Rodrigo Maia, anuncia a retirada da PEC da Reforma da Previdência da pauta; 12) e, na segunda, 19/02, o ministro articulador do governo Temer, Carlos Marun anuncia a retirada desta PEC do Congresso Nacional, por ‘insegurança jurídica’(!?).

Devido à ignorância ou má intenção (interesseira?) percebi ao longo da semana muita confusão com o significado constitucional de ‘intervenção federal na segurança pública’ e ‘intervenção militar’, que são coisas diferentes;

14) Preocupada fiquei com a confusão generalizada (intencional?) entre ‘intervenção federal ou militar’ com o dispositivo constitucional denominado GLO – Garantia da Lei e da Ordem no Rio de Janeiro; daí anotei sobre a presença, as ações das Forças Armadas no Rio de Janeiro, através da GLO:

  1. Acontece através do amparo da Constituição Federal no seu artigo 142, pela Lei Complementar 97/1999 e pelo Decreto 3897/2001: GLO – GARANTIA DA LEI E DA ORDEM. Dando poder as Forças Armadas para apoiar operações pontuais de combate ao tráfico de drogas, roubos de cargas, etc.,etc. É a Presidência da República quem autoriza a GLO;
  2. Foram 12 ações de GLO no Rio: a 1ª) foi em outubro de 2008 (eleições municipais); 2ª) de dezembro de 2010 a junho de 2012 (Ocupação do Complexo do Alemão); 3ª) julho de 2011 (V Jogos Mundiais Militares); 4ª) junho de 2012 (Rio + 20), 5ª) outubro de 2012 (eleições municipais); 6ª) julho de 2013 (Jornada Mundial da Juventude); 7ª) julho de 2014 (Copa do Mundo); 8ª) de abril de 2014 até junho de 2015 (Ocupação do Complexo da Maré); 9ª) agosto de 2016 (Jogos Olímpicos); 10ª) outubro de 2016 (eleições municipais); 11ª) fevereiro de 2017 (votação do pacote de austeridade); 12ª) a partir de julho de 2017, para a implantação do Plano Nacional de Segurança no Rio;
  3. Na 12ª ação, as operações do tipo GLO deram apoio em operações conjuntas e pontuais com as polícias Civil e Militar para combater o tráfico de drogas e os roubos de carga. Desde então, houve incursões nas favelas da Rocinha, Cidade de Deus, Jacarezinho, Mangueira, Tuiuti, Arará, Mandela 1 e 2, Barreira do Vasco, Complexo do Salgueiro, Anaia, São Carlos, Zinco, Querosene e Mineira. Como parte da GLO do Plano Nacional de Segurança, o Exército também foi usado na disputa de facções da Rocinha.
  4. A ‘INTERVENÇÃO FEDERAL NA SEGURANÇA PÚBLICA DO RJ’ (13ª ação), difere das outras 12 vezes em que o Exército foi chamado a intervir no Estado. Porque “evoca os artigos 144 e 145, que tratam da gestão da segurança pública – o que inclui traçar estratégias e destinar recursos – de um Estado da Federação.”

Registrei também algumas observações 15) sofre o tráfico de drogas e de armas neste contexto:

  1. Há que se registrar no drama da violência do Estado do Rio, que as questões do tráfico de drogas e das armas e das milícias articulam-se com a questão política, econômica e político-eleitoral. Um aspecto ‘novo’, que devemos atentar, porque remete mais ou menos aos anos de 2014/15 em diante, ou seja, até hoje, é o acirramento e a complexidade da ‘guerra entre facções do tráfico’, com a entrada no Rio de Janeiro do PCC – Primeiro Comando da Capital, a poderosa facção paulista, a maior do Brasil, que passa a expandir seus negócios, organização, metodologias, etc, por aqui, em rivalidade com o CV – Comando Vermelho (a maior facção do Rio). Numa verdadeira guerra por territórios, deixando para trás, mais ou menos 20 anos de ‘paz’/sociedade entre eles.
  2. “A ofensiva, que mais parece uma estratégia de expansão empresarial, contempla também acordos comerciais com outras facções criminosas e o monopólio da distribuição de drogas e armas na favela considerada como a mais rentável do Rio, a gigantesca Rocinha, na rica Zona Sul. O objetivo é aumentar o lucro e enfraquecer o novo inimigo – o Comando Vermelho.”(cf. https://ponte.orghttps://brasil.elpais.com)
  3. Ao longo da semana ‘chefes/comandantes/líderes’, em especial do PCC, foram presos ou morreram (fora do RJ).

No mesmo dia 16/02, dia do ‘decreto’, lendo alguns outros noticiários/artigos, deparei-me 16) com mais informações sobre a possibilidade de Lula não ser preso, em especial da colunista de ‘O Globo’, Lydia Medeiros, com o título ‘Poder em jogo’ – “A mudança do entendimento sobre a prisão após condenação em segunda instância já é dada como certa no Supremo Tribunal Federal, diz a colunista Lydia Medeiros, no jornal O Globo; apesar das negativas da presidente da Corte, Cármen Lúcia, sobre sua intenção de pautar novamente o assunto, a decisão do relator da Lava Jato, ministro Edson Fachin, de levar ao plenário o pedido de habeas corpus feito pela defesa do ex-presidente Lula forçará uma deliberação; há sinais claros de que Gilmar Mendes mudará o voto dado pela prisão, e de que Rosa Weber manterá sua posição contra a execução da pena após a segunda condenação; com isso, prisão do ex-presidente Lula não deve acontecer.”

Daí anotei, para não esquecer, uma pergunta meio ‘maluca’(!?) – 17) E aí, a intervenção federal no Rio será boa ou ruim para sua candidatura??

E a cabeça teimosamente refletindo, mas ciente de que deveria parar, a fim de obter um fôlego e tempo necessários para estudar mais a área de economia-política à luz da crise iniciada no final de janeiro e os novos acontecimentos por aqui, terminei minhas notas, pensando a intervenção federal no Rio a partir da ‘política como um tabuleiro de xadrez’; e fui finalizando assim: 18) CÁ PRA NÓS, O TEMERÁRIO FEZ UMA ‘JOGADA DE MESTRE’ NA MOVIMENTAÇÃO POLÍTICO-ELEITORAL! Teve o efeito surpresa. O conteúdo escolhido – violência/segurança, é ao mesmo tempo estratégico, como também, urgente e sensível às subjetividades de quem vivencia 24 horas por dia a insegurança e as perdas de vidas (isso é concreto);

19) COMO VAMOS RESPONDER? TAMBÉM COM AÇÕES EM UNIDADE NO CAMPO DA POLÍTICA!

Falo em unidade porque temo um desenrolar que volte a alimentar um ‘acordaço conciliatório’ pelo alto. Afinal, tudo caminha, pelo menos até agora, para a derrubada no STF do tema ‘prisão em segunda instância’.

 

Milícia de jogos do Rio suspeita da execução de campistas na Barra

 

 

 

Executado na Barra da Tijuca com um tiro na nuca, Renato Chagas de Souza Júnior teve o corpo sepultado ontem (22), no Caju (Foto: Folha da Manhã)

 

 

Sete suspeitos de integrarem a milícia do jogo da Zona Oeste do Rio, onde Ericksson e Renato seriam executados, foram detidos e encaminhados à 134ª DP de Campos, em 05 de outubro de 2016 (Foto: Folha da Manhã)

 

 

Milícia do jogo suspeita de mortes (I)

Em plena intervenção federal no Estado do Rio, os campistas ficaram chocados com o assassinato (aqui) de dois conterrâneos na capital fluminense. Ericksson Rodrigues Calil e Renato Chagas de Souza Junior foram executados, cada um com um tiro na nuca, na Barra da Tijuca, na Zona Oeste carioca. Ocorrido entre domingo e segunda, o crime teria sido um acerto de contas com a milícia do jogo, com o qual os dois estariam envolvidos. Ericksson tinha passagens na 134ª DP por envolvimento com a atividade, enquanto Renato teve sua ligação com o jogo clandestino apontada em áudio que circulou, após as mortes, no WhatsApp.

 

Milícia do jogo suspeita de mortes (II)

Na verdade, o crime recente teria ligação com uma ocorrência policial estranha, um pouco mais antiga. Em 5 de outubro de 2016, sete homens em dois carros foram detidos (aqui) por atitude suspeita no cruzamento das avenidas 28 de Março e José Alves de Azevedo. Abordados pela PM local e encaminhados à 134ª DP, três deles se revelaram PMs do Rio, enquanto os outros quatro tinham extensa folha corrida. Um seria envolvido com a milícia da comunidade de Gardênia Azul, em Jacarepaguá, na mesma Zona Oeste carioca onde os dois campistas foram assassinados.

 

Milícia do jogo suspeita de mortes (III)

Em 2016, a polícia de Campos chegou aos sete homens vindos do Rio, por acaso. Como o juiz da 129ª Zona Eleitoral (ZE) de Campos, Ralph Manhães, estava à frente da Chequinho e reside em um condomínio em frente de onde os dois carros pararam, suspeitou-se de uma ação contra ele. Não era, mas pode estar ligado à dupla execução no início da semana. As informações estão com a Divisão de Homicídios da capital. Ontem, o aplicativo do EC Games, usado para fazer apostas de futebol em Campos e região, anunciava (aqui): “Estamos em LUTO, porém o SONHO continua! Vida que segue!”. EC são as iniciais de Ericksson Calil.

 

Como o aplicativo da EC Games tirou sua mensagem de luto do ar, após a publicação do Ponto Final de hoje, aqui a sua reprodução

 

General como secretário

Com a intervenção federal na Segurança do Rio, o novo secretário estadual da pasta passará a ser um militar da ativa do Exército. Um dos nomes cogitados é o general Richard Fernandez Nunes, segundo afirmou o porta-voz do Comando Militar do Leste, coronel Roberto Itamar. Segundo ele, o nome definitivo ainda será debatido em Brasília e só será anunciado oficialmente na terça-feira (27). Fernandez, entre dezembro de 2014 e fevereiro de 2015, ficou por três meses à frente da ocupação militar do Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio. Fernandez foi promovido nesta semana a general de Divisão, três estrelas.

 

Violência sem fim

Hoje, o interventor, general Braga Netto, e o governador Luiz Fernando Pezão se reúnem para falar sobre a intervenção. A proposta não é só discutir o destino do comando da secretaria de Segurança, mas também os primeiros resultados da operação no Rio. Mesmo com a intervenção federal, os casos de violência seguem assustando da Região Metropolitana ao interior. Ontem, em Niterói, nem um tenente do Exército escapou da ação de assaltantes e foi baleado. Em Campos, em uma das principias avenidas, a 28 de Março, bandidos trocaram tiros com um policial de folga após um assalto.

 

Bola fora

Viajando durante mais temporal na cidade do Rio de Janeiro, o prefeito Marcelo Crivella fez piada com a situação: “Lá em São Paulo também tem enchente. Vão até lançar um programa novo: o Balsa Família”. Crivella estava em Brasília, na quarta, onde foi pedir recursos ao ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, para a realização de projetos sociais em áreas conflagradas pelo crime organizado. Ele só voltou ao Rio ontem. Na semana passada, durante a forte chuva que deixou quatro mortos, o prefeito estava viajando pela Europa, onde passou o Carnaval.

 

Posse marcada

Reeleita com 685 votos, a presidente da Associação dos Magistrados do Estado do Rio de Janeiro (Amaerj), Renata Gil, toma posse para o biênio 2018-2019 na próxima segunda-feira (26), às 17h30, no Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Rio. A juíza ressaltou que o desafio é reforçar o combate à retaliação contra a atuação firme e independente dos juízes. “Nossa proposta é sempre trabalhar com afinco em defesa dos interesses da magistratura. Especialmente no cenário nacional, diante dos graves ataques em curso às nossas prerrogativas”, disse.

 

Com colaboração

 

Publicado hoje (23) na Folha da Manhã

 

Paula Vigneron — Partes

 

Isaías. parte do complexo escultório “12 profetas”, esculpido em pedra sabão por Aleijadinho (1730/1814), nas escadarias do Santuário de Bom Jeseus de Matosinhos, na cidade mineira de Congonhas (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

O corpo estava pálido. Mais do que o normal. Atipicamente branco e frágil. A ausência de luz provinha de sua atual condição: morto. Parado. Duro. Frio. Um corpo que, outrora, aquecera o homem que o observava. Esperava movimentos. Reações. Mantinha a esperança. Permanecia a analisá-lo sem desviar o olhar. “Quem sabe ela possa respirar a qualquer momento? Ou mexer as mãos.”

As mãos.

Ainda com unhas ainda pintadas. Pretas e longas. Agora, estavam gélidas e inúteis. Há uns dias, os dedos passeavam pelos cabelos dele e acariciavam sua cabeça. Estava cansado. Dividiam a cama de solteiro de seu quarto. A proximidade dos corpos gerava um calor que, hoje, parecia impossível.
“Eu entendo, mas você precisa buscar novos caminhos. De que adianta insistir no que não te faz bem?”, questionava ela, atenciosa na escolha das palavras. Não queria magoá-lo. Se dissesse que via seus atos como perda de tempo, ele se chatearia. Era calmo, mas, por quaisquer motivos, abandonava a tranquilidade e se tornava agressivo. Não gostava de vê-lo assim.

Tocou a pele da mulher que jazia à sua frente. Pensou, durante muito tempo, em colocar um anel em seu dedo e fazer dela sua esposa. Casar. Viver histórias sob o mesmo teto. Acompanhar os dias bons e ruins. Desistiu após concordar que não foram feitos para o matrimônio.

“Terminaremos em apuros, querido. Prefiro permanecer a vida como está. Compartilhamos afagos descompromissados. Enquanto for bom, ficaremos ao lado do outro”, afirmou.

“E agora, querida, cadê a vida que você queria manter?” Ele continuava à espera de respostas. De que aquilo, em algum momento, seria revertido, e ela retornaria para dar-lhe o colo nos momentos de ansiedade.

O colo.

Quente. As pernas grossas se transformavam em travesseiro. “Largue suas angústias quando passar pela porta, menino”, ela dizia. Mas estava sempre pronta a ouvi-lo e afastar o que lhe fazia mal. Possuía o dom de escutar e enxergar o outro sem pré-julgamentos e pré-conceitos. Mesmo pouco à vontade, era suficientemente delicada para não dispensar os aflitos e atormentados que apareciam, a qualquer hora, e batiam à porta.

“Como você aguentava essas pessoas?”, perguntou, em voz alta. Deveria ter tirado suas dúvidas quando ainda havia tempo. Ela teria respondido cordialmente. Era uma mulher generosa, embora a paciência, por vezes, lhe faltasse. “É por amor. Amor às causas perdidas”, ouviu a voz imaginária. Teriam sido essas as suas palavras? Quais expressões apareceriam em seu rosto enquanto ela interpretava as falas? A boca se esticaria em um sorriso depois do término?

A boca.

Rosada. Por vezes, quase vermelha. Quando sorria, parecia menina. Os traços dos lábios indicavam o humor do dia: quando apertados, apreensão; quando soltos, leveza; se estivessem mais esticados, alegria. Era visível e previsível.

“O que aconteceu?”

“Nada. Por que a pergunta?”

“Seus lábios mostram sua tensão. Você não tem talento para me enganar, minha menina. Tão querida.” E beijou a boca antes retesada. Sorriu em resposta ao ato. Gostava de ser surpreendida. Ele conhecia seus desejos, mesmo que afirmasse o contrário para agradá-la. Batia, de modo delicado, os nós dos dedos quando discordavam dela. Característica percebida por quem a conhecia verdadeiramente.

O corpo.

Tocou boca, mãos, pernas, dedos, colo. Tateava todas as partes desnudadas por ele. Sentia falta da reciprocidade. “Será que, desta vez, ficarei mesmo sozinho?” Uma gota escorria pelo rosto dela. Era dele a lágrima que percorria espaços por onde línguas e lábios e ternura se alternaram. Buscava sinais vitais que abandonaram a mulher há horas, mas ela permanecia na mesma posição.

Um homem, com a voz delicada, pediu licença. Precisava ajeitá-la para a cerimônia. “É a última desta noite. Temos hora para encerrar o expediente”.

Por sua mente, passaram as cenas das últimas noites e sonhos; coxas entrelaçadas, abraços, palavras soltas e planos. “Última desta noite para encerrar o expediente”, sibilou. Despediu-se com beijo. O frio se apossou de seu corpo. Os dois, homem e mulher, mergulhados na apatia. Presente e futuro, agora, conjugados no passado.

 

Gustavo Alejandro Oviedo — Intervenção na hipocrisia

 

 

 

A imagem acima foi extraída de um vídeo feito por um traficante da Vila Cruzeiro, em janeiro deste ano. A viatura da PM passa na frente do bandido, que ostenta um fuzil, e continua como se tudo estivesse na mais absoluta normalidade. Não dá pra enxergar com muita clareza, mas do outro lado da rua, encostado na parede verde, há um outro traficante armado.

Alguém consegue descobrir o que está errado nessa imagem? Acertou, leitor: o bandido filmou com o celular na vertical, e não deitado. Esse pessoal parece que não assiste aos jornais da Globo!

Quando aquilo que deveria ser ridículo se torna corriqueiro, ao ponto de considerarmos que o melhor que os PMs fizeram, pelo seu próprio bem, foi passar batido, é porque a linha do que se considera inaceitável tem um nível de tolerância absurdamente alto.

O poder econômico e bélico dos traficantes das favelas do Rio de Janeiro revela muitíssimas coisas. A que eu destaco, em primeiro lugar, é que esse poder somente se atinge quando você vende um produto extremamente procurado. Logo, se consume muita droga.

Mas aí, imediatamente, penso o seguinte: nos Estados Unidos, ou na Europa, as drogas também são muito consumidas — talvez até mais do que no Brasil. No entanto, ninguém imagina uma cena como a da fotografia acontecendo numa rua de Harlem, Nova Iorque, ou no bairro Gótico de Barcelona. A razão pela qual nesses países um traficante fortemente armado jamais se atreveria a filmar uma viatura passando é óbvia: ele seria detido e preso.

Aqui em Campos, por exemplo, qualquer um que queira cheirar uma carreira de cocaína sabe a que horas e em qual favela da cidade pode procurá-la. Sabe, também, o procedimento para chegar até o fornecedor sem provocar hostilidade: baixar as luzes externas e os vidros do carro, ligar a interna, etc. Afinal, o território é deles e deles são as regras. A polícia, os promotores e a justiça também sabem tudo isso, e de tanto em tanto realizam uma operação onde são apreendidos alguns papelotes e armas. Assim que a força policial se retira, a cancela da comunidade volta a se fechar e o traficante volta à sua atividade, até a próxima blitz.

O primeiro passo para eliminar a violência é encarar o nível de hipocrisia e de corrupção que existe, tanto na sociedade quanto no governo. Deveríamos nos perguntar, em primeiro lugar,  se realmente há interesse em combater o tráfico — e se as drogas deveriam ser proibidas, mas não é esse o assunto agora. Hoje, pareceria que o que se quer é apenas manter as aparências. Liberar uma rua de forma permanente e impedir que sujeitos andem ostentando fuzis não deveria ser tão difícil. É óbvio que o cerne do problema não está na viela da comunidade, e sim no escritório de alguma(s) autoridade(s).

A intervenção federal na segurança do estado do Rio é uma oportunidade para eliminar as causas que originam a violência das favelas: a incompetência, por dolo ou culpa, da polícia e do governo estadual, que estão imersos há décadas num círculo de ineficácia e corrupção. Mudando estes é que mudará o morro. Depois, sim, que venham as ações sociais — mas não dá pra ajudar sem antes pacificar. Não há garantias que venha a dar certo, mas estamos ficando sem opções, e essa ainda não foi tentada.

 

Cassação de Rafael Diniz: PRE-RJ dá negativo à “barriga” inseminada

 

 

 

Charge do José Renato publicada hoje (21) na Folha da Manhã

 

 

“Devaneios e conspirações” (I)

Em artigo publicado (aqui) no blog “Opiniões” na última quarta (14), hospedado no Folha 1, o jornalista Ricardo André Vasconcelos escreveu: “Irresignado com o ostracismo imposto após sua estadia preventiva nas cadeias de Benfica e Bangu, o ex-governador Anthony Garotinho (sem partido) ocupa a mente baldia entre devaneios e conspirações”. Apesar do diagnóstico, o caso parece ter se tornado contagioso. Na segunda (19), um áudio do radialista Barbosa Lemos foi viralizado nas redes sociais. Nele, vociferava: “O procurador regional eleitoral, dr. Sidney Madruga, já deu parecer favorável pela cassação de Rafael Diniz (PPS)”.

 

“Devaneios e conspirações” (II)

Na mesma segunda, após consulta ao seu jurídico, a reportagem da Folha chegou ao único processo sobre o prefeito de Campos que esperava parecer da Procuradoria Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (PRE-RJ). E lá estava desde 30 de janeiro. Tratava-se do recurso à decisão do juiz da 99ª Zona Eleitoral (ZE) de Campos, Eron Simas, que julgou inexistir a acusação do jurídico de Garotinho. “Entre devaneios e conspirações”, sua tese estapafúrdia era de que a vitória do prefeito, ainda no primeiro turno de 2016, teria sido fruto de um conluio entre jornais de Campos, o instituto de pesquisa Pro4 e o… Bar do Ovo.

 

Desmentido (I)

Mesmo que o ridículo do caso fosse tão gritante quanto um chute nas partes baixas, ciente da sua responsabilidade jornalística, ainda na noite de segunda a reportagem da Folha gerou a demanda por e-mail à assessoria da PRE-RJ. Que respondeu oficialmente, menos de meia hora depois: “(…) liguei para o gabinete do procurador. A assessora do Dr. Sidney me retornou agora: ela conversou com ele por telefone e disse que até agora não houve nada sobre o Rafael Diniz e, a princípio, não há nada em pauta hoje sobre ele”.

 

Inverdade assumida

Como Barbosa Lemos foi entrar nessa história rocambolesca, talvez seja um mistério tão óbvio, quanto desinteressante. Mas se alguma dúvida houvesse do que o ex-prefeito de São Francisco de Itabapoana disse ao microfone da sua rádio em Campos, ele mesmo publicou ontem (20), em seu perfil no Facebook: “Parecer favorável do Ministério Público Eleitoral à cassação do prefeito Rafael Diniz e sua vice agita a política de Campos”.

 

Como o radialista Barbosa Lemos excluiu sua postagem no Facebook, aqui a sua reprodução

 

Desmentido (II)

Falsa como uma nota de R$ 3,00, a informação foi desmentida pouco depois pelo anúncio (aqui) do parecer de Sidney Madruga. Conhecido no meio jurídico pela severidade com políticos, ele considerou: “(…) de acordo com os autos, Diniz teria utilizado matérias jornalísticas para fazer propaganda de sua candidatura (…) Mas para o Ministério Público Eleitoral, os jornais teriam informado de forma objetiva fatos que ocorreram na cidade durante o período eleitoral, não ultrapassando os limites da imparcialidade”. Salvo uma reviravolta digna de Gilmar Mendes, ninguém em sã consciência espera que o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) considere diferente.

 

“Barriga” inseminada

No jargão jornalístico, “barriga” é a matéria jornalística equivocada. Pode ser extremamente desagradável, como o jornalista Esdras Pereira registrou ontem (aqui) em sua coluna na Folha, sobre a notícia inverídica da morte do comerciante Roberto Costa, querido proprietário do bar e restaurante Toca dos Amigos, internado por motivo de saúde. E fica ainda pior ainda quando a trapalhada é reincidente. Mas a qualquer comunicador com mínimo zelo pelo ofício, deveria ser ainda mais vergonhoso quando, além de falsa, a “barriga” é inseminada pelo interesse escuso de outrem.

 

“Guerras” no RJ

Segurança e Saúde sempre foram as áreas mais preocupantes no Rio de Janeiro. Na primeira, os resultados da recente intervenção federal ainda são esperados. O clima é de guerra declarada contra a criminalidade. Outro combate a ser reforçado, desta vez na Saúde, é contra a febre amarela. O informe epidemiológico divulgado pelo Governo do Estado na noite de ontem mostra que mais uma pessoa morreu da doença no RJ, elevando para 34 as mortes, entre os 77 casos confirmados só em 2018. Com o objetivo de ampliar a cobertura vacinal contra a febre amarela nos 92 municípios, a secretaria de Saúde vai realizar no próximo dia 3, um novo Dia D contra a doença.

 

Com o jornalista Rodrigo Gonçalves

 

Atualizado às 15h34

 

Publicado hoje (21) na Folha da Manhã

 

Produtores de cachaça do NF buscam qualificar produto através do IG

 

Produtores de cachaça do Norte Fluminense com representantes do Sebrae, ministério da Agricultura e da Prefeitura de Campos (Foto: Divulgação)

 

 

Produtores de cachaça do Norte Fluminense (NF) se reuniram ontem (19) no Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) de Campos. A ideia é desenvolver em conjunto uma Indicação Geográfica (IG) para os seus produtos.

O selo da IG é uma garantia para o consumidor. Comprova que o produto é genuíno e possui qualidades particulares, ligadas à sua origem. Os produtos que desenvolvem sua IG, via de regra, conseguem uma valorização de cerca de 30 %. Assim, se tornam passíveis de proteção legal contra uso de terceiros, em termos de propriedade industrial.

Utilizado há tempos na Europa, as IGs ganharam impulso no Brasil a partir deste século. Hoje já são mais de 40, entre elas a IGs das cachaças de Paraty (RJ) e Salinas (MG), do queijo canastra de Minas e do chocolate do Sul da Bahia.

A intenção dos produtores de cachaça da região é desenvolver uma IG do seu produto, baseando-se na tradição de mais de 300 anos da produção de cana e cachaça no Norte Fluminense. Para desenvolver o registro da IG “Cachaças do Rio de Janeiro – Norte”,  junto ao Instituto Nacional de Produção Industrial (INPI), os alambiques contarão com as consultorias do Sebrae e do ministério da Agricultura, que apoiou a criação da IG de da Cachaça de Paraty.

A intenção é buscar apoio tambem junto à Universidade Estadual do Norte Flumiense (Uenf), à Universiddade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRuRJ), e ao Instituto Federal Fluminense (IFF), além das prefeituras da região.

Estiveram presentes na reunião de ontem os produtores das cachaças Telura e Barra Velha, de Campos dos Goytacazes; Bousquet, de Bom Jesus do Itabapoana; Barão Dourado, de Santa Maria Madalena, e 7 Engenhos e Alcantilado, de Quissamã. Também participaram do encontro representantes do Sebrae, do ministério da Agricultura e da Prefeitura de Campos.

 

 

 

História da cachaça

Nenhuma bebida alcoólica produzida no Brasil tem sua história tão entrelaçada com a do próprio país quanto a cachaça. Como a nossa colonização pelos portugueses se deu, no início do séc. XVI, com a introdução e cultivo da cana-de-açúcar, seu natural destilamento fez da cachaça um dos primeiros ítens de venda e consumo produzidos nas Américas.

Com sua produção difundida em todo o Brasil, em consequência da economia colonial voltada à exportação de açúcar, desde o começo a cachaça teve seu consumo atrelado às camadas mais baixas da população. Para atender a esta demanda, parte da produção da bebida se industrializou no séc. XX, utilizando alambiques de aço.

Mas foi nos tradicionais destiladores de cobre, como nos alambiques do Norte Fluminense, que a qualificação da produção elevou o nível da bebida nas útimas décadas. Tanto que, a partir de 2013, os EUA e vários outros países passaram a reconhecer oficialmente: apesar da existência de outros destilados de cana, como o rum, apenas o Brasil pode produzir cachaça.

 

PRE desmente boatos e dá parecer favorável a Rafael e contra Garotinho

 

 

 

Apesar dos boatos lançadas por uma rádio de Campos, e rapidamente viralizados nas redes sociais, a assessoria da Procuradoria Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (PRE-RJ) divulgou agora o parecer contrário contra uma ação movida pelo grupo político do ex-governador Anthony Garotinho (sem partido) contra o prefeito de Campos, Rafael Diniz (PPS).

Conhecido no meio jurídico pela severidade com políticos envolvidos em irregularidades, o procurador regional eleitoral Sidney Madruga não enxergou nenhum traço de verdade na acusação ainda relativa às eleições municipais de 2016, vencida por Rafael no primeiro turno, após quase três décadas de garotismo no governo de Campos.

Garotinho, seus aliados e advogados pretendia sustentar que uma mirabolante conspiração entre jornais locais — incluindo a Folha da Manhã —, o instituto de pesquisas Pro4 e até um bar de Campos, teria favorecido o vencedor da eleição a prefeito. Com o parecer contrário do procurador, tudo indica que a decisão de primeira instância, do juízo da 99ª Zona Eleitoral do muncípio, seja agora mantida no Tribunal Regional Eleitoral (TRE).

A assessoria informou que, “de acordo com os autos, Diniz teria utilizado matérias jornalísticas para fazer propaganda de sua candidatura ao executivo municipal. Mas para o Ministério Público Eleitoral, os jornais teriam informado de forma objetiva fatos que ocorreram na cidade durante o período eleitoral, não ultrapassando os limites da imparcialidade”.

Confira abaixo a nota oficial da PRE-RJ:

 

 

PRE/RJ se posiciona contra a cassação do prefeito de Campos (RJ)

Rafael Diniz (PPS) é acusado de abuso de poder econômico e compra de votos

 

A Procuradoria Regional Eleitoral no Rio de Janeiro (PRE/RJ) defende que seja mantida a decisão da 99ª Zona Eleitoral, em Campos dos Goytacazes, que absolveu o prefeito da cidade, Rafael Diniz (PPS), a vice, Conceição Sant’Anna, e outros 13 réus das acusações de abuso de poder econômico, compra de votos e abuso dos meios de comunicação nas eleições de 2016. A ação de investigação judicial eleitoral foi movida pela coligação “Frente Popular Progressista de Campos”, que recorreu da decisão ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE/RJ).

De acordo com os autos, Diniz teria utilizado matérias jornalísticas para fazer propaganda de sua candidatura ao executivo municipal. Mas para o Ministério Público Eleitoral, os jornais teriam informado de forma objetiva fatos que ocorreram na cidade durante o período eleitoral, não ultrapassando os limites da imparcialidade.

Segundo a PRE, em razão das graves consequências jurídicas da ação, como a cassação do mandato e a declaração de inelegibilidade, é imprescindível que o processo esteja baseado em um sólido conjunto de provas. “É preciso formar uma segura convicção acerca da ocorrência dos ilícitos, da efetiva responsabilidade e de benefícios auferidos pelos acusados”, argumenta o procurador regional eleitoral Sidney Madruga. “As provas, no entanto, não demonstram os fatos apresentados na ação e não justificam a aplicação das severas penalidades”, defende o procurador.

 

Alexandre Buchaul — Quem poderá nos defender?

 

Bandeira do Brasil hasteada pelas forças de Segurança Pública no alto do Morro do Alemão, em 28 de novembro de 2010

 

 

 

Há mais de trinta anos nos perguntamos isso, há mais de trinta anos ouvimos promessas, discursos inflamados e presepadas de todo tipo. Agora, será diferente?

Desde Brizola o crime só tem feito crescer sob nossos narizes, cansei de, ainda criança, assistir aterrorizado as cenas de arrastões nas praias do Rio de Janeiro e, ainda mais incrédulo, ao governador de então dizer que o problema era social, chegou-se, salvo engano, a construir, ou planejar construir, piscinas nos morros, como solução para os arrastões. Medida duplamente cretina, por acusar os moradores dos morros de terem o comportamento criminoso como cultura e por transferir para a desigualdade social e, portanto, para a sociedade, a responsabilidade pelo comportamento criminoso de alguns indivíduos.

Moreira Franco, Marcelo Alencar e Benedita tiveram atuações tão apagadas que chego a me esquecer que foram governadores. Muito embora, não sei o que foi pior, se a atuação “sem sal” desses ou a catastrófica a ponto de deixar traumas dos demais. De Brizola a Pezão, passando pela greve de fome do Garotinho, que chegou a se nomear secretário de segurança no governo da esposa, o Rio sempre teve o dedo podre para escolhas políticas e, talvez sirva de atenuante, poucas opções além do de sempre.

 

ECO 92, quando líderes mundiais se reuniram no Rio de Janeiro ocupado pelas Forças Armadas brasileiras

 

As atuações das forças armadas sempre se deram para apaziguar o Rio nos períodos de grandes eventos, o primeiro de que me lembro foi a ECO 92, tínhamos uma excursão da escola para a capital, eu estava na então quinta série, tinha apenas 11 anos quando isso aconteceu, mas me lembro com clareza que a segurança era motivo de apreensão. Durante o evento o Rio parecia o paraíso, após, volta tudo a ser como antes. Assim também o fora em todos os demais eventos de grande proporção e repercussão internacional visita do Papa, Copa do Mundo, Olimpíada…

Estatíticas oficiais da expansão das milícias pelo Estado do Rio

O desespero do cidadão fluminense com a escalada de violência é tamanho que quando do surgimento das milícias houve comoção social, as matérias na imprensa noticiavam que militares aposentados ou de folga estavam fazendo o que o Estado não fazia, tinham se unido para expulsar os traficantes das favelas… deu no que deu. Boa parte de nosso legislativo, alguns falam em 38%, tem ligação com grupos criminosos (milicianos). Por falar em deputados, onde eles estavam nos últimos 30 anos? Temos deputados que se reelegem para a Alerj ao longo de boa parte dessas três décadas, são sócios de todos os governos desde lá, são cúmplices das mazelas por que passa o Rio, mas agora posam indignados com dedos apontados ao governador.

Estados vizinhos já temem pelo resultado da intervenção federal, que apesar de necessária, não sana os problemas. Assim como a ação conjunta de Colômbia e Estados Unidos enfraqueceu os cartéis colombianos, mas fortaleceu os mexicanos. A atuação pontual no Rio pode favorecer facções criminosas de outros estados, mesmo dentro do Rio isso já acontece, a atuação policial numa favela a faz ser em seguida tomada por membros de outra quadrilha ou por milicianos.

Quem, como eu, se emocionou com o hasteamento da bandeira do Brasil no topo do Morro do Alemão espera por soluções, mas com a safra de políticos que temos, tenho medo de que a resposta à pergunta do título “E agora, quem poderá nos defender?” seja respondida com “ Eu, o Chapolin Colorado!”

 

Cineclube Goitacá reabre nesta quarta com “Dunkirk”, indicado ao Oscar

 

(Arte de Gustavo Alejandro Oviedo)

 

 

O Cineclube Goitacá abre sua programação de 2018 nesta quarta-feira (21/02). Sempre a partir das 19h, na sala 507 do edifício Medical Center, no cruzamento das ruas Conselheiro Otaviano e 13 de Maio. Por conta da expectativa pela entrega do Oscar, no próximo 4 de março, decidi apresentar “Dunkirk”, de Cristopher Nolan, que recebeu oito indicações, incluindo melhor filme e diretor. A entrada à sessão, assim como a participação no debate de depois, é livre.

Para quem ainda não assistiu ao filme, ou quiser revê-lo, fique abaixo com a reprodução da crítica publicada na Folha da Manhã e (aqui) neste Opiniões, no último 30 de julho :

 

 

 

 

“Dunkirk” — Grandes vencedores da II Guerra Mundial (1939/45), EUA e Rússia (herdeira majoritária da extinta União Soviética) são ainda hoje, 72 anos depois, com razão considerados os dois países belicamente mais poderosos do mundo. E o que você, leitor, diria se os dois juntos fossem derrotados em campo de batalha por uma outra nação da Terra, sozinha, com direito à conquista de Washington ou Moscou? E se tudo isso acontecesse no espaço de apenas cinco semanas?

Talvez só através desse paralelo se possa hoje dimensionar o que sentiu quem vivia no mundo em 1940, quando os exércitos da Alemanha entraram em Paris como conquistadores, marchando vitoriosos sob o Arco do Triunfo construído por Napoleão. Era 14 de junho daquele ano, exatos 35 dias após os alemães iniciaram a “Batalha da França”, na qual, além desta, tomaram Bélgica, Holanda e Luxemburgo, derrotando a reboque a BEF (British Expedicionary Force, Força Expedicionária Britânica).

Grandes vencedoras da I Guerra Mundial (1914/18), França e Grã-Bretanha eram consideradas em 1940, com igual razão, o que hoje são EUA e Rússia. Mas diante da revolucionária “blitzkrieg”, a “guerra relâmpago” baseada em mobilidade desenvolvida pela Alemanha, seus mais poderosos adversários, preparados para uma anacrônica guerra de trincheiras, não deram nem para a saída na Batalha da França.

Como, cinco anos depois, os alemães sobreviventes cruzariam a fita de chegada da II Guerra Mundial como perdedores, há que se supor que erros foram cometidos pela nação comandada pelo líder nazista Adolf Hitler. E o primeiro deles talvez tenha sido permitir a evacuação à Inglaterra, pelo Canal da Mancha, de quase 340 mil soldados aliados, ainda atônitos pela velocidade da sua contundente derrota inicial, encurralados sob bombardeio na praia francesa de Dunquerque. Se não fosse a retirada em segurança desses soldados, na “Operação Dínamo”, o resultado final do maior conflito da história humana poderia ter sido outro.

Se nunca saberemos, o certo é que o espírito cívico britânico foi fundamental ao resgate dos soldados presos na França. Com receio de perder seus navios de guerra necessários à resistência contra a invasão alemã considerada inevitável, mas que nunca houve (em outro erro capital de Hitler), a Grã-Bretanha segurou o leme da sua armada rumo ao único atracadouro de Dunquerque, alvo fácil para os bombardeios e torpedos inimigos.

Como a Inglaterra é uma ilha, numerosas eram suas pequenas embarcações civis, capazes de navegar sem problema nas águas rasas à beira mar. E, voluntariamente, cerca de 700 atenderam à demanda de sobrevivência militar do país. Vários foram os casos de barcos não maiores que uma sala que cruzaram o Canal da Mancha para resgatar os soldados aliados presos em Dunquerque. Sua única cobertura era dada pelo ar com os caças Sptifire da RAF (Royal Air Force, Real Força Aérea Britânica) que travaram combates encarniçados contra os caças Messerschmitt Bf 109 da Luftwaffe (Força Aérea da Alemanha) nos céus da França.

Por terra, ar e mar se desenvolvem e entrecruzam as células narrativas de “Dunkirk”. E se basear em dramas individuais, ou de pequenos grupos, para neles evidenciar os aspetos mais trágicos do evento, é a grande virtude do diretor e roteirista anglo-estadunidense Chistopher Nolan, mais conhecido pela trilogia recente de “Batman” (2005, 2008 e 2012).

Se não há super-heróis em “Dunkirk”, o filme exemplifica o que há de melhor e pior no homem, de acordo com as circunstâncias extremas da guerra. Mais referências individuais nos três palcos da batalha, do que propriamente protagonistas, o jovem soldado britânico Tommy (Fion Whitehead) é o fio condutor da ação por terra, enquanto outro jovem, o piloto da RAF Collins (Jack Lowden), o faz pelo ar; cabendo o mar ao veterano navegador civil Mr. Dawson, interpretado por Mark Rylance — Oscar de ator coadjuvante por “A ponte dos espiões” (2015), de Steven Spielberg.

Dado interessante no uso de atores é o papel destinado ao talentoso Tom Hardy, mais conhecido como o protagonista de “Mad Max: Estrada da fúria” (2015), de George Miller. Se já estava irreconhecível ao ser dirigido por Nolan em “Batman: o Cavaleiro das Trevas ressurge”, quando o britânico engordou 14 kg para interpretar o vilão Bane, Hardy atua em “Dunkirk” com o rosto coberto quase o tempo inteiro, na pele do altruísta aviador da RAF Farrier.

Essa curiosidade no ocultar ocorre também com os “vilões” do novo filme: a não ser quando suas silhuetas surgem anônimas no horizonte de Dunquerque, para capturar o Farrier já desvelado na face de Tom Hardy, os alemães não são dados a ver em nenhum outro momento. E, como acontece antes do peixe assassino de Spielberg finalmente se revelar em “Tubarão” (1975), o suspense do desconhecido torna ainda mais temíveis os guerreiros do nazismo.

Como já deu inúmeras provas em sua filmografia, Nolan é capaz de prender o espectador na poltrona do cinema nos momentos de tensão. E a “cola” ainda parece mais forte quando se dimensiona que tudo aquilo, sob bombardeio nas areias desesperançadas de Dunquerque, no porão escuro e inundado de um navio torpedeado, ou na claustrofóbica cabine de um avião metralhado, aconteceu de verdade. E, em sua grande maioria, com jovens entre 18 e 20 e poucos anos. Seja pela excelência técnica do diretor, ou do roteiro que ele amarrou na tessitura do evento real, é difícil desviar os olhos da tela nos 106 minutos de “Dunkirk”.

No competente uso ficcional da realidade por Nolan, talvez caiba ressaltar o impacto psicológico causado pelo ecoar estridente da sirene no bico dos bombardeiros de mergulho Stuka. Pensado pelos alemães para levar terror ao inimigo antes mesmo das bombas caírem, com êxito fartamente testemunhado nos relatos dos sobreviventes, é uma viagem no tempo intimidante, mesmo a quem assiste em segurança no outro lado da tela.

O hábito do cineasta em trabalhar com atores veteranos, em papeis aparentemente menores, se mantém com o ator e diretor shakespeariano Kenneth Branagh na pele do comandante Bolton, baseado no capitão britânico William Tennant, personagem capital e real na retirada de Dunquerque. Como também aconteceu de fato uma das muitas cenas marcantes do filme: quando um soldado entra caminhando no mar, até sumir nas ondas de desespero da praia francesa.

Há quem não goste de filmes de guerra. Mas “Dunkirk” é, sobretudo, uma história de sobrevivência. De quase 340 mil jovens soldados e do mundo que suas vidas construíram.

 

Confira o trailer do filme: