Opiniões

Orávio de Campos — Santo Antonio de Tahy

 

Os primeiros 10 anos deste milênio, de evoluções científicas e tecnológicas, bem como de problemas nos campos das transgressões étnicas e de gêneros, não faltando o retorno de recomposições políticas de direita e o radicalismo moral e religioso, foram, também, auspiciosos para o avanço das pesquisas sob a égide da saudosa Faculdade de Filosofia de Campos (Fafic), com o apoio financeiro da Fenorte (Fundação Estadual do Norte Fluminense).

O Núcleo de Iniciação à Pesquisa Científica em Comunicação, criada em 2002 na Fafic, por inspiração do Dr. José Marques de Melo, titular da Cátedra da Unesco e emérito fundador da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom), realizou vários projetos importantes, alguns ainda esperando por publicação, com ênfase para “O Inventário de Igrejas e Capelas da Região Açucareira de Campos dos Goytacazes”.

Durante as pesquisas de campo, com um grupo de alunos-pesquisadores, mapeamos as formas com que os católicos organizaram a cobertura religiosa da região, através de curatos e organismos administrativos, de forma a atender ao contexto dos meios de produção capitalista, desde a colonização, compreendidos pelos banguês, engenhos e usinas, além de outras atividades agrícolas e pastoris muito apropriadas aos massapês da Baixada, quando o Município mantinha maior parte de sua população produzindo no interior.

O trabalho começou pelas trilhas do Coronel Ponciano de Azeredo Furtado, figura viva (e ficcional) criada pelo preclaro escritor campista (e universal) José Cândido de Carvalho. Para investigar os caminhos e estradas, bem como visando o inteiramento antropológico, contamos com a presença do memorialista Geraldo Anjinho, um profundo conhecer daquelas glebas, de Donana ao Farol de São Tomé. O mapa da Baixada da Égua está impresso na memória prodigiosa desse apaixonado pelas histórias de jongos, manas-chicas, lobisomens…

Como era de se esperar, encontramos igrejas e capelas em ruínas pela imensa vastidão — da Lagoa Feia à Barra do jacaré — como resultado da degenerência das atividades econômicas: falência de usinas e fechamento de fazendas, algumas retalhadas por inventários dolorosos, com a consequente migração do povo para as franjas da cidade. Dentre outras, a Capela de Santo Antonio de Tahy, uma construção eclética inaugurada, em 1919, como referência da época de fartura da usina, uma das primeiras a ceder à ordenação dos novos tempos.

Quando chegamos à secretaria de Cultura do município e à presidência do Conselho de Preservação do Patrimônio Histórico e Cultural (Coppam), em 2009, no governo da prefeita Rosinha Garotinho, levamos o projeto para a Prefeitura, porque somente lá poderia, cumprindo o Plano Diretor, cuidar do tombamento dos templos como riqueza cultural dos munícipes, negociando com seus proprietários meios legais para a realização dos restauros necessários.

Com a empresa Tahy Agropecuária, dirigido pelo empresário Gonçalo de La Riva, não tivemos problemas para reivindicar a restauração. Começamos a conversar em março de 2014 e, em junho do mesmo ano, as obras tiveram início para alegria dos católicos da localidade e, principalmente, do Espinho, onde as ternas lembranças ainda mantém, com saudades, os cenários dos atos religiosos produzidos naquele templo de orações.

No último final de semana, recebemos a grata notícia, através das líderes Derlange Barros e Maria das Graças, da (re) inauguração da Capela de Santo Antonio, totalmente restaurada, ocasião marcada pela sua ressacralização com a missa solene, ato que não acontecia há mais de 20 anos. Não pudemos —  eu e o Geraldo Anjinho — estar presentes, mas ficamos altamente emocionados. Afinal a luta em favor da Capela não foi em vão.

Vale, finalmente, um agradecimento (e um elogio) ao Gonçalo de La Riva pelo cumprimento da palavra e, sobretudo, pela demonstração de apreço às tradições, sempre vivas, de uma comunidade que, apesar do avanço das tecnologias, não perdeu suas mais sentidas referências culturais. E, quem sabe (?), a partir de agora, com a Capela branca pairando no espaço da antiga usina, a produção não retorne ao seu tempo mágico de pujança…

Ave, Santo Antonio.

 

Igor Franco — Feliz Ano Velho!

 

 

 

Fosse eu desenvolto nas ciências naturais, há tempos teria proposto o Teorema da Relatividade do Tempo: a velocidade com que correm os dias é diretamente proporcional à idade do observador. A sensação, cada ano mais presente, é a de que o ano passou em alguns piscares de olhos. Não há jeito: como nação, temos uma vocação inequívoca para a postergação. 2017 se vai e deixa para 2018 uma série de problemas sérios a serem solvidos.

A dificuldade em cumprir suas obrigações ainda assombra a administração municipal. A penúltima tentativa de buscar equacionar o perrengue financeiro foi o reajuste do IPTU de determinadas áreas da cidade. É bastante questionável a iniciativa de onerar os já combalidos contribuintes municipais e a medida pode acabar por retardar a ainda tímida retomada do mercado imobiliário da cidade. A expectativa de incremento na arrecadação é da ordem de R$ 60 milhões, o que seria insuficiente para arcar, por exemplo, com um mês sequer de pagamento dos servidores – este, sim, o grande problema dos cofres municipais. Com uma folha praticamente bilionária, nenhuma outra medida que não passe por uma alteração na política de pessoal vigente nos últimos anos será capaz de melhorar o balanço público da cidade.

No estado, a situação é ainda mais desesperadora. Com seu grupo político devastado por denúncias de corrupção, o governador segue a sina fluminense de penhorar o almoço para, com certa dificuldade, garantir a janta. Enquanto sacrifica o custeio da máquina e o investimento para tentar deixar em dia o pagamento dos servidores, a educação e a saúde dos órgãos estaduais encontram-se na UTI. Recente estudo da FIRJAN demonstrou que as contas estaduais só fecharam nos últimos anos devido a operações dessa natureza. Como o aprendizado com erros passados não parece figurar no repertório dos políticos brasileiros, mais uma operação de crédito está a caminho para quitação da folha de pagamento. O estado aprofunda o problema financeiro pela incapacidade – legal e política – de enfrentar um problema semelhante ao da planície: sua folha de pagamento, agravada pelo número de inativos.

O governo federal, desmoralizado ainda antes do fim do primeiro semestre pela delação da JBS, foi incapaz de tirar do papel uma série de propostas que melhorariam a situação brasileira pelos próximos anos. A tímida mudança no marco trabalhista ainda demorará a mostrar seus benefícios concretos. Por outro lado, privatizações, concessões e a mãe de todas as medidas – a Reforma da Previdência – não saíram do papel graças à prioridade do governo de reunir sua maioria para garantir a permanência do presidente no poder. Décadas de benevolência e populismo fiscal no RJ dão uma mostra ao país do que ocorrerá se continuarmos a empurrar nossos graves problemas financeiros para debaixo do tapete.

Nesta semana natalina, não gostaria de ser desagradável e cansar o leitor, portanto, vou interromper minha retrospectiva atendo-me apenas ao risco financeiro que correm as finanças públicas nos mais variados níveis de governo. Deixo para outro momento as lamentações a respeito do aumento da violência, do acirramento da radicalização ideológica, da inércia e submissão da Justiça aos desejos dos poderosos etc.

O simbolismo da renovação proposta pelo Natal encontra eco nas resoluções de Ano Novo. De alguma forma, somos levados a acreditar que, diferentemente de todos os anos anteriores, quando falhamos miseravelmente, ano que vem estaremos prontos para fazer tudo diferente.

Os estoicos classificavam o símbolo (ou signo) como algo que parecia revelar algo obscuro, não manifesto. Seria essa força propulsora o “algo obscuro” do estoicismo? Como bom cético, dada a pequena experiência em Brasil que o tempo me trouxe, já me contentaria o fato de o “não manifesto” não ser mais um pepino a descascar.

Boas Festas!

 

Sérgio Moro agradece, mas evita responder críticas de Lula

 

Ontem, mantive contato por telefone, com a jornalista Christianne Machiavelli, prestativa assessora de imprensa da 13ª Vara Federal de Curitiba. Apresentei-me como autor da entrevista feita (aqui e aqui) no último dia 6 com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que gerou repercussão nacional (aqui, aqui, aqui e aqui) e na qual o juiz titular daquela Vara, Sérgio Moro, foi alvo de críticas.

Pelo princípio ético da busca do contraditório, conceito caro e comum ao jornalismo e ao Direito, tentei agendar uma entrevista também com o juiz federal Sérgio Moro, pessoalmente ou por e-mail. Conhecido pelo estilo reservado e por conceder poucas entrevistas, hoje sua assessora me respondeu declinando do convite, com uma mensagem do magistrado, que registro abaixo:

 

Juiz titular da 13ª Vara Federal de Curitiba, Sérgio Fernando Moro

 

“Agradeço o gentil  convite para a entrevista, mas infelizmente tenho por política não responder publicamente às críticas do Sr. ex-Presidente ou de sua Defesa, já que essas questões devem ser enfrentadas nos autos. Além disso, o momento, com trabalho intenso, dificulta entrevistas. Cordiais saudações, SFM”.

 

Paula Vigneron lança “Entre Outros” às 20h de hoje no Boulevard

 

 

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

“Para te contar um pouco sobre as histórias. Tantas. Os detalhes perdidos de uma vida”. É a abertura do último texto do livro “Entre Outros”, da jovem escritora e jornalista Paula Vigneron, que talvez melhor resuma o que há de comum em seus 33 contos. Transformados pela editora Mucufo em livro, ele será lançado hoje (15), às 20h. A noite de autógrafos será na livraria Leitura, no Boulevard Shopping.

Aos 24 anos, há três como jornalista da Folha da Manhã, Paula já está em seu segundo livro. O primeiro, “Sete balas ao luar”, foi lançado em setembro de 2015. Aquela obra foi produto de uma autora em formação, com textos escritos dos seus 15 aos 22 anos. E já dava algumas pistas valiosas sobre a autora e sua obra.

Na matéria desta mesma Folha Dois que anunciou seu primeiro livro, foi registrado: “escritora em semeadura precoce, Paula apresenta muitas influências em seus contos; e não só literárias. Do cinema, por exemplo, a jovem escritora assumidamente ecoa do sueco Ingmar Bergman (1918/2007) e do estadunidense Woody Allen — o diretor de drama, não o comediante — alguns questionamentos existenciais primários da humanidade: Quem sou? De onde vim? Para onde vou? Quanto tempo tenho? Que diabos estou fazendo aqui?

De lá para cá, 33 contos e dois anos se passaram. Até que, ao eco claustrofóbico de “A canção silenciosa”, um dos textos escritos entre os 22 e 24 anos na composição do novo livro:

— A casa, tão sua em outros tempos, parecia prestes a devorá-la. Sem mastigar. Engolir de uma só vez a mulher solitária.

Com a leitura de “Entre Outros” contraposta à de “Sete balas ao luar”, algumas coisas se assemelham. Em boa parte das histórias dos dois livros, um passado geralmente mais feliz é contraposto ao presente de desencanto, causado por alguma perda ou traição, algum tipo de tragédia humana quase sempre fadada a gerar outra, tão grave ou mais, ao final. E, única certeza da vida, a morte parece estar à espreita nas esquinas dos parágrafos.

Como diferença talvez mais relevante, é perceptível em “Entre Outros” o exercício de carpintaria no estilo, desenvolvida sobre a sintaxe e em frases mais curtas. O cinzel entalha a prosa sem maneirismos, na busca com aparência de encontro: voz própria. Conto de exceção, “Manchete” estofa a literatura com a experiência da repórter, em transição que não faria feio a nenhum Ernest Hemingway (1899/1961). E lança as indagações:

— De onde vieram estas pessoas? Eu não as notei. Por que estão todas concentradas em torno de uma história que não é sua?

A resposta, leitor, cabe a você.

Na bola rolada pela escritora:

— “Entre outros” traz 33 histórias, com personagens de diferentes perfis, vivências, idades e expectativas. Eles vivem e revivem, por meio de memórias, suas trajetórias. São homens e mulheres com os quais podemos nos identificar. São histórias que refletem o cotidiano, com seus caminhos de altos e baixos.

 

Capa de hoje (15) da Folha Dois

 

Publicado hoje (15) na Folha Dois

 

Guiomar Valdez — Em tempos de intolerância e desmedidos, é possível pensar também a realidade através da relação psicanálise e política?

 

 

 

Fiz esta pergunta a mim, a partir do conhecimento das ideias, de alguns poucos artigos e de um livro, do psicanalista brasileiro Christian Ingo Lenz Dunker**. Portanto, ainda é muito embrionário o meu aprendizado (sempre aberto ao diálogo e ao debate, é claro!). Para mim, que assumo, por livre opção, a análise do mundo, preferencialmente, a partir do campo da teoria social crítica, em especial, o materialismo histórico-dialético, foi estimulante conhecer esta relação, que parecia algo impossível, até, então.

Encontrei neste aprendizado uma articulação e sintonia com o tema ‘Crise’, que vem me ocupando há algum tempo, e, que cheguei a apresentar por aqui alguns apontamentos. Ou seja, os campos da Psicanálise, da Política e a Crise (pessoal e/ou social que estamos imersos), se relacionam, em busca de respostas para os desafios contemporâneos, em especial, para as Dores, para os Sofrimentos, e, por que não, para a Felicidade.

Aprendi que entre a Psicanálise e a Política, existem conexões e similaridades orientadas para a transformação social, não somente individual, a partir de alguns conceitos e/ou categorias comuns aos dois campos do conhecimento, como a ‘Palavra’, o ‘Conflito’, a ‘Associação livre’, a ‘Liberdade’, a Resistência’ e a ‘Censura’, por exemplo.

Segundo Dunker, esta aproximação se deu de maneira mais sistematizada e de alcance Político, a partir do desafio de pensar ‘a psicanálise de massa do fascismo’, considerado o primeiro momento desta relação, especialmente sobre o tema ‘passividade’ no contexto deste fenômeno histórico. O segundo ‘capítulo’ desta conexão, se desenvolve na riquíssima ‘Escola de Frankfurt’, que contribui, dentre outros aspectos, no repensar, no reteorizar as ideias de ‘Dominação’, de ‘Corpo’, de ‘Consciência’, de ‘Alienação Cultural’. O ‘Maio de 1968’ ou o ‘Marxismo francês’, é considerado o terceiro momento, especialmente quando se dá a aproximação do psicanalista francês, Jacques-Marie Émile Lacan com algumas ideias de Marx, em especial, sobre a ‘Alienação’, articulando-a com os ‘Estranhamentos de nossos desejos’, como desafio pensante, bem como, o tema ‘Fetichismo da mercadoria’.

Pois é, reconheci, então, que esta relação já faz parte consistente da História do Pensamento ocidental, que, esta, não é linear, nem harmônica, mas de uma livre e rica ‘tensão positiva’, de ‘conflito transformador’!

Aproximando Psicanálise e Política (Brasileira), com todo o ‘pacote de maldades de todo tipo’, que desesperança, e, se, isso for verdadeiro, alimenta o fenômeno do ‘desespero’, solo fértil para as relações de intolerância, de violência, de inconsistência, de desumanidade, e, paradoxalmente, em atitudes de ‘passividade’, tudo isso, ricamente exemplificados, nas diversas ‘redes’ sociais e na vida não virtual, aquele, do ‘olho a olho’.

Duas questões compartilho com vocês, a luz dos estudos do psicanalista Dunker, sobre o nosso Brasil de hoje. Vamos lá! Primeira:  Como explicar a passividade das pessoas, diante de todas as medidas altamente rejeitadas pela população, como mostram as pesquisas, e vindas de um governo, segundo os mesmos levantamentos, tido como o mais impopular da história?

Segundo ele, se dá por causa da VERGONHA, e que isso vale tanto para a direita como para esquerda.

A gente tem vergonha de ser enganado. De ter entrado em uma “conversinha” e depois perceber que em nome da redução da corrupção, um princípio do qual ninguém diverge, fomos levados a decisões altamente contrárias ao que as pessoas comuns pensam. O que acontece quando a gente é enganado? A gente sente vergonha. E a vergonha é um afeto extremamente transformativo, potente, muito mais potente que a culpa porque a culpa você faz a penitência e pode pecar de novo. A vergonha paralisa. Inibe. Diz assim: “não vou voltar mais lá, não quero saber desse assunto, não quero opinar sobre esse ponto, não quero mais saber de política”… É o que está acontecendo. Você entrega a coisa para a barbárie. Há um sentimento – e a gente escuta isso no divã, na cultura – de uma coisa impronunciável. O que a pessoa vai dizer? Vestiu a camisa da seleção, bateu panelas… E não são idiotas. Não são pessoas de má-fé, mas estavam acreditando no que estavam fazendo e no momento seguinte percebem que seu tio perdeu o emprego, sua filha não tem mais educação, que não vai mais se aposentar, e o que a pessoa vai dizer? “Ah, fui enganado, estou com vergonha disso.” Muito difícil, especialmente no Brasil praticar este ato simbólico. A gente passa anos para tentar fazer uma pessoa aprender isso, que é voltar atrás. “Olha, eu pensava de um jeito e agora penso de outro, e sim, me deixei levar”. Você não é um idiota porque volta atrás, porque pede desculpas, mas no Brasil inventamos esse jeito e a vergonha, em vez de me reposicionar, fazer com que me reinvente, produz inibição, silenciamento, passividade, faz com que as pessoas se retirem da conversa e não que permaneçam com outra posição. (***)

Quanto à esquerda ele afirma que, “durante anos boa parte dela olhava para o que estava acontecendo e dizia que não estava, mas vamos apoiar. Essa vergonha acumulada implica em descrença, dificuldade de implicação.” Daí chego à segunda questão a compartilhar: Como explicar a sua crise política a partir de 2015, que chegou ao impeachment? De acordo com Dunker, é pelo fato de não se ter feito o LUTO PELA DERROTA.

A esquerda tem que fazer o luto. O luto de não ter se posicionado, ter corroborado com certas coisas, estamos unidos por uma espécie de perda dos dois lados que no fundo é a perda do Brasil, do que tínhamos em mente, seja de um lado, seja de outro. Freud descrevia o luto em três tempos. Primeiro, você tem que admitir que perdeu. Segundo, é preciso pesquisar o que se foi com a perda, o que foi embora com essa pessoa que me deixou, quais os traços, experiências, memória. Depois desse trabalho, você vai comprimindo, reduzindo a coisa, até que um pedacinho daquilo que foi perdido se integra dentro de você. E então segue a vida com aquela lembrança daquilo que você deixou para trás.

O que acontece quando a gente, primeiro, não admite que perdeu, não se dá ao trabalho ao que chamamos na teoria social do trabalho da crítica? Perdi porque não amei o suficiente, porque o outro não me amou, perdi e vivo isso como culpa ou como vergonha. Quando não fazemos isso, surgem respostas maníacas. “Opa, agora posso pular esse processo doloroso e vou para o último capítulo, inventar um estado total de felicidade, um início do zero, glorioso, eufórico.” Esse é o perigo representado pelo populismo de direita, conservador. Parece que a nossa tolerância com o Temer imaginariamente tem a ver com isso. Mais um motivo para entender nossa vergonha, era uma euforia com um negócio que era péssimo. Mas quando não fazemos um luto, vem a mania. Esse é um quadro em que venceria alguém que conseguisse capitalizar melhor a mania, mas acho que não vai vir. Não teremos uma eleição maníaca, é mais possível que tenhamos uma eleição depressiva, que é a segunda patologia do luto. Se você não faz o luto pode cair na melancolia, na depressão, na indiferença, no “eu não quero mais saber”. (***)

Estas foram algumas aproximações de minha aprendizagem embrionária sobre a relação Psicanálise e Política, na busca de compreender o tempo em que vivemos. Meu objetivo, não sei se alcancei, seria de contribuir na reflexão de que as perguntas que fazemos e as respostas que buscamos não estão apenas circunscritas numa área do conhecimento, muito pelo contrário! Mas estão nas relações, nos diálogos, nas conexões, na interdependência. Nada mais próximo das características de uma natureza humana livre e de uma humanidade emancipada.

Gostei muito desse aprendizado! Estou mais esperançosa em pensar o mundo, com mais fôlego, apesar do domínio no presente das patologias sociais do ‘maníaco’ e da ‘depressão’. Farei de tudo para não esquecer a nossa História, triste ou alegre, não importa, poderemos fazer novas sínteses com as desilusões e ruínas do presente.

 

(**) é psicanalista, professor Livre-Docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Analista Membro de Escola (A.M.E.) do Fórum do Campo Lacaniano e fundador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP. Desde 2008 coordena, junto com Vladimir Safatle e Nelson da Silva Junior, o projeto de pesquisa Patologias do Social: crítica da razão diagnóstica em psicanálise.

(***) trechos retirados da Entrevista à Revista ‘Caros Amigos’, em 11/12/2017 : “O neoliberalismo não só reduz proteções como cria sofrimento para aumentar a produtividade.” (https://www.carosamigos.com.br)

Sugestões de leituras (livros desse autor): a) Mal-estar, sofrimento e sintoma: Uma psicopatologia do Brasil entre muros. (Boitempo – 2015); b) Reinvenção da Intimidade – Políticas do Sofrimento Cotidiano. (Boitempo – 2017).

 

Paula Vigneron lança livro de contos nesta sexta no Shopping Boulevard

 

“Um meio-dia à beira-mar, entre lembranças; a entrada em um apartamento recentemente abandonado; a cena de um espetáculo teatral desnudando sua vida; vozes, jeitos, odores que desaparecem lentamente; o desencanto de outros corpos sobre o dela contra a sua vontade. Encontros e desencontros marcam as 33 narrativas de Entre outros. Personagens de diferentes perfis, vivências, idades e expectativas contam e revivem, por meio da memória, suas trajetórias, erros e acertos, confrontando-se com a própria essência e solidão.”

Na noite desta sexta-feira (15), acontecerá o lançamento de “Entre outros”. “Epitáfio” é um dos textos do livro, escrito entre 2015 e 2017. Convido você, leitor do blog Opiniões, a conhecer um pouco da obra e participar do evento, que será às 20h, na livraria Leitura, no Boulevard Shopping.

 

 

 

 

Epitáfio

 

No dia em que eu partir, não chore. Sorria! Permitirei apenas lágrimas vertidas entre risadas pelas lembranças inventadas de um dia de sol que não vivemos. Aquelas histórias, contadas por outros, sobre os momentos em que dividimos cervejas e memórias, vãs memórias, das horas passadas em lugares distantes. Perdidos entre árvores, músicas e beijos.

Não chore! Recorde-se das horas que não passei falando sobre nós. Os abraços nunca dados. Que permaneceram em sonhos contados às três da manhã, em uma noite fria de um domingo de maio. Se vier a angústia, apague-a com as palavras imaginadas. E, também, com as ditas. Creia-me. Não menti em nenhuma ocasião. Exceto quando neguei um sentimento. Ou uma verdade. Duas ou três mentiras entre tantas frases claras.

O som da voz. Por ora, ligue-se a ela. Em breve, meus tons sumirão no meio de outros que surgirão em seu caminho. Mas não deixe que eu parta com eles por toda a estranha eternidade. Não imediatamente. Não. Mantenha meu jeito de falar, o mexer dos lábios, em sua mente enquanto ainda me despeço dia a dia. É nossa fonte de união.

Quando vier a dor da ausência, sinta-me ao seu lado. Na cama. No travesseiro. Nas roupas jogadas no chão. Naquela toalha de banho velha que deixei sobre a cama. Toque meus livros e sinta os meus toques nos seus. Os dedos cansados que folhearam tantas páginas da vida. Há resquícios de minha fisionomia perdidos em seu rosto sombrio.

Não deixe que o tic-tac dos relógios te torne exausto. Ele será o barulho do meu silêncio. Você se lembra do quanto eu gostava de acompanhar os ponteiros? Olhe-os. Ali, estarei. Siga os meus passos em todos os cômodos. Em cada canto de nossos cantos, encontrará meu sorriso. Se procurar pela casa, restam os bilhetes que deixei naquela noite. E os que não deixei. Nem tudo precisa ser claramente dito. Você também me achará na escuridão.

Na solidão.

No apagar das luzes da cidade.

Das nossas luzes.

Das suas luzes.

E, quando elas sumirem vagarosamente, estarei ali, do outro lado, para te contar sobre um dia de sol que não vivemos. Para lembrar aquelas histórias, inventadas por outros, sobre os momentos em que dividimos cervejas e memórias das horas passadas em lugares distantes. Detalhar o tempo que não passei falando sobre nós. Os abraços nunca dados. Os beijos perdidos entre árvores e músicas. E revertê-los em vidas quase vividas.

 

Gustavo Alejandro Oviedo — The Room

 

 

 

IT’S NOT ART UNLESS IT HAS THE POTENTIAL TO BE A DISASTER. NÃO É ARTE A MENOS QUE POSSA SER UM DESASTRE. A frase que rola pela internet há alguns anos é uma fantástica e precisa definição, pois indica que a audácia e o risco são parte essencial do artista. Audácia e risco para defender sua obra, ainda que ela possa ser incompreendida ou até rechaçada.

Exemplos de artistas corajosos – ou apenas artistas – foram Van Gogh e Picasso, por exemplo. Ambos decidiram romper com as escolas pictóricas dos seus respectivos momentos abraçando novos estilos – Van Gogh com o expressionismo, Picasso com o cubismo. Os dois decidiram, em algum momento de suas vidas, queimar as naves da tradição. Um se deu muito mal, e morreu na miséria; o outro obteve reconhecimento e fortuna desde cedo.

Então, se não é arte a menos que possa ser um desastre, o que acontece quando a obra é efetivamente um desastre? A pergunta me veio à cabeça ao saber que nos Estados Unidos foi lançado, semana passada, o filme The Disaster Artist (Artista do Desastre), de James Franco. O filme conta a historia da realização de outro filme, The Room (2003), que é considerado o ‘Cidadão Kane’ dos filmes ruins, desbancando do pódio o lendário “Plan 9 do Espaço Sideral” de Ed Wood.

‘The Room’ é tão ruim que inevitavelmente fascina. Atuações risíveis, edição tosca, roteiro simplório que conta o melodrama de um triangulo amoroso com pretensões literárias alla Tenessee Williams. Subtramas paralelas à historia principal que são iniciadas, mas nunca tem desfecho. Diálogos impossíveis (após um dos personagens dizer que foi ao hospital visitar uma amiga que foi severamente machucada pelo namorado, o protagonista ri e responde “Oh, what a story, Mark!”).  Não há uma única situação onde os comportamentos dos personagens não contrariem a lógica. É como se o filme tivesse sido criado por um alienígena que acha que sabe como são os humanos – mas não sabe.

O diretor de ‘The Room’ é um sujeito muito singular chamado Tommy Wiseau, que também produz, escreve e protagoniza o filme. Wiseau, cujo sotaque parece indicar que é um imigrante da Europa Oriental, não tinha experiência alguma na indústria do cinema, mas ainda assim cismou em filmar um roteiro derivado de um romance de 500 páginas que ele mesmo tinha escrito. Gastou na realização entre 5 e 6 milhões de dólares, já que fez questão de gravar com duas unidades de filmagem, em 35 mm, e recriar todos os ambientes internos em estúdio, quando podia ter filmado tranquilamente numa casa de verdade, a um custo muitíssimo menor. À época da estreia, Wiseau fez colocar um cartaz do filme num dos outdoors mais caros de Los Angeles (foto acima) a um custo de 5.000 dólares por mês, e o manteve durante 5 anos! The Room arrecadou oficialmente US$ 1.800.

O filme foi massacrado pela crítica. No entanto, Nick Shrager, do site The Daily Beast, resume: “É o ‘ne plus ultra’ do lixo. Uma obra prima do trash”.

Shrager acertou na mosca: uma obra prima do trash. Com o passar de uns poucos anos, The Room se transformou em objeto de apreciação irônica. Virou Cult. Celebridades de Hollywood como Judd Apatow, Paul Rudd, e Kristen Bell promoveram sessões especiais, as quais vem acontecendo às meias noites em muitos cinemas dos Estados Unidos, e onde milhares de fãs criaram a estranha costume de arremessar colheres de plástico para a tela durante os créditos iniciais, para depois rir de cada um dos diálogos daquilo que pretendia ser um drama existencial.

Tommy Wiseau passou a ser uma celebridade. Nas ultimas semanas, apareceu em varias entrevistas junto com James Franco, por ocasião da estreia de ‘The Disaster Artist’. Suas declarações são tão estranhas quando os diálogos do seu filme. Está convencido de The Room é magnífico, e aproveita as ocasiões para promover o seu site (https://www.tommywiseau.com/) onde vende cuecas boxer com o seu nome impresso.

Voltando ao questionamento inicial, pode ser considerado Wiseau um artista, apesar do desastre de sua obra, e do involuntário sucesso posterior? Bem, por minha parte, não tenho dúvidas de que ele o é, da mesma forma de que foram Van Gogh, Ed Wood, Picasso, Andy Warhol ou John Kennedy Toole (o autor da ‘Confraria de Tolos’ que se suicidou depois de não achar editor para seu romance). Para mim, artista é aquele que dá um passo à frente, sem saber se lá adiante há um precipício ou uma estrada.

Um engraçadíssimo trailer/crítica de The Room, legendado, pode ser assistido neste link. Enjoy.

 

Carol Poesia — O óbvio sobre o natal

 

Negro.

Branco.

Trans.

 

Homo.

Hetero.

Trans.

 

Pobre.

Rico.

Trans.

 

Empregado.

Desempregado.

Trans.

 

Ando pensando em religião. É tanto protesto que me cansei das redes sociais. Os protestos são todos necessários, finalmente as minorias têm voz! Mas é que eu me identifico com todos eles, e sofro cada vez mais. Ouvir os gritos e gritar junto é minha obrigação. Mas, confesso, estou cansada.

O tempo todo, todos os dias, leio sobre racismo, homofobia, corrupção… Não preciso buscar os textos/vídeos, eles chegam, e arrebatam. Sem pedir licença, alteram minha respiração. Eu concordo, compartilho e fico extremamente angustiada por não fazer mais. Parece que é minha culpa a pobreza, a corrupção, a homofobia, o racismo e todos os absurdos que a humanidade não conseguiu resolver, desde sempre.

“Você nunca vai entender, porque você não é negra.”

“Você nunca vai entender, porque você não é gay.”

“Você nunca vai entender, porque você não é pobre.”

As pessoas não percebem que a energia que essas falas carregam é uma energia de exclusão, de segregação. É como se elas dissessem “Não vem querer comprar essa briga não, porque essa briga é minha”. Então qual é o sentido da divulgação? Não seria sensibilizar as pessoas, “contaminá-las” para que levantem bandeira contra esses males?

E as mesmas pessoas que falam assim (Não são poucas não!), compartilham:

 

 

Eu já disse uma vez aqui que o maior desafio da humanidade, atualmente, não é acabar com o racismo, com a fome, com a homofobia, nem com o machismo; o maior desafio da humanidade, atualmente, é ser coerente. [Diga-se de passagem, se eu não sou pobre sou o quê? Rica? Sou empregada, assalariada. Isso é um fato, os rótulos são uma necessidade do outro.]

Por falar em rótulos, tenho pensado em religião. Tenho pensado no que as religiões têm em comum. E reparei que todas elas defendem a existência do espírito. O espírito, em tese, não é rico nem pobre, não é branco nem negro, não é homossexual nem heterossexual, não é patrão nem empregado. O espírito, inclusive, não tem religião. Jesus, este de que tanto falamos nesta época do ano, modelo para os cristãos e exemplo a ser seguido, olhava as pessoas e via seres humanos. Jesus não segmentava as pessoas nessas caixas, nesses rótulos chatíssimos, rasos e dicotômicos. Jesus via o espírito.

[Pasmem! Jesus não estava nem aí para o fato do coleguinha ser ativo ou passivo.]

Ontem eu estava lendo o livro do Lázaro Ramos – Na minha pele –, estou gostando muito por sinal. Em uma determinada passagem, ele conta que quando foi capa de revista pela primeira vez (Revista VIP), implicou com o fato de ter sido explorado, na matéria, como “ator negro” e não como “ator”. Ele conta que chegou a enviar uma carta para a revista, chateado principalmente com o que eles escreveram na placa segurada por ele na foto – “Não vai comprar por que ele é negro?”. Lázaro esclarece que sua chateação veio do fato de perceber que a cor da sua pele foi mais explorada na entrevista do que o seu trabalho como ator, e chegou a reclamar com a jornalista que o entrevistara, dizendo não comentaria mais nada que não fosse o seu trabalho cênico, afinal esse era, em tese, o objetivo da entrevista.

É mais ou menos por aí. O olhar está equivocado, para todos, e com todos – um olhar materialista, que fica na matéria, que permanece na superfície. De fato, o mundo seria mais humano se tivéssemos o olhar de Jesus (Não temo ser piegas, o rótulo é uma necessidade sua, leitor, não minha). Seríamos mais humanos se víssemos o espírito (Olha que contradição linda!). Sem contar que a humanidade seria menos chata, sem essa necessidade megalomaníaca de encaixotar todo mundo em algum segmento.

Para todos os efeitos, sou trans. E tenho certeza de que Jesus me entenderia.

 

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