Opiniões

Virá impávido que nem George Steiner

Sujeito que conheci pessolmente há muito pouco tempo, mas que não dá para deixar de causar (boa) impressão pelo brilho da carreira acadêmica e envergadura do raciocínio, mesmo quando diametralmente oposto ao nosso, o sociólogo Brand Arenari, estreou hoje como colaborador da Folha. A partir desses contatos, ele me enviou pela democracia irrefreável das redes sociais uma entrevista com George Steiner, feita pelo jornalista Borja Hermoso e publicada em El Pais.

Escritor, filósofo e professor das universidade de Cambridge e Genebra, judeu francês de 87 anos, criança refugiada da expansão no nazismo (1933/45) pela Europa, Steiner não perdeu o humor, tratando grandes gênios da história como referências cotidianas, para falar de questões muito sérias. Daquilo que Sigmund Freud (1856/1939) não previu na sexualidade humana, à gangrena do dinheiro no caráter do homem antevista por Karl Marx (1818/83), sem perdoar os grandes erros da espécie contra si no nazifascismo e no comunismo, ele centrou fogo na péssima formação cultural que o atual sistema de ensino impõe universalmente aos nossos filhos e netos.

Por motivos pessoais, de memória afetiva, mas também da razão, por endossar um raciocínio próprio sobre o qual cheguei a escrever (aqui) antes de lê-lo nas palavras do mestre, segue abaixo um pequeno trecho — na intersecção entre as ditas “baixa” e “alta” culturas — da entrevista que merece ser lida na íntegra aqui:

 

George Steiner em sua casa em Cambridge (foto de Antonio Olmos - El Pais)
George Steiner em sua casa em Cambridge (foto de Antonio Olmos – El Pais)

 

P. O senhor diferencia a “alta” cultura e a “baixa” cultura, como fazem alguns intelectuais de renome, visivelmente incomodados com formas da cultura popular como os quadrinhos, a arte urbana, o pop ou o rock, para as quais se chegou a criar o rótulo de “civilização do espetáculo”?

R. Vou lhe dizer uma coisa: Shakespeare teria adorado a televisão. Ele escreveria para a televisão. E não, eu não faço esse tipo de distinção. O que realmente me entristece é que as pequenas livrarias, os teatros de bairro e as lojas de discos estejam fechando. Por outro lado, os museus estão cada vez mais cheios, as multidões lotam as grandes exposições, as salas de concerto estão cheias… Portanto, cuidado, porque esses processos são muito complexos e diversificados para se querer fazer julgamentos generalizantes. O senhor Muhammad Ali era também um fenômeno estético. Como um deus grego. Homero teria entendido perfeitamente Muhammad Ali.

 

Das lágrimas, versos ao campeão

Ocinei Trindade
Ocinei Trindade

Quando Muhammad Ali morreu, na noite de 3 de junho, alguma coisa em mim se quebrou. Talvez porque Ali fosse a maior referência ainda viva do meu pai sobre mim. Não por outro motivo, escrevi sobre ele (aqui), no artigo do domingo seguinte. E depois aqui, na terça sequente, para anunciar a exibição e debate do documentário “Quando éramos reis”, de Leon Gast, sobre a disputa de título entre Ali e George Foreman, em Kinshasa, capital do Zaire, hoje República Demorática do Congo, pulsando no coração da África e no Cineclube Goitacá.

Após o filme, na última quarta (aqui), em meio ao debate, confesso que o mais comovente, para mim, foi perceber o poeta e jornalista Ocinei Trindade em meio às lágrimas, pelo que acabara de assistir. Longe de um entusiasta, como eu, do mundo das lutas, o pranto alheio (e comum) confirmou aquilo que o comediante judeu Billy Crystal disse (para quem entende inglês, aqui) no belo discurso funerário sobre o mitológico campeão de boxe, seu “big brother” muçulmano: “Ele tinha a capacidade de extrair, sempre, o melhor de todos nós”.

Lembro que, no correr do debate, Ocinei comentou que o título do filme era equivocado: “Com B. B. King, James Brown, George Foreman e Muhammad Ali, o nome desse filme não deveria ser ‘Quando éramos reis’, mas ‘Quando éramos deuses’”. Como entre os antigos gregos que criaram o pugilato e uma tal Civilização Ocidental, aqueles deuses descidos em 1974, na África que pariu o homem, eram mais divinos, justamente por humanos.

Nos versos escritos hoje (aqui) pelo poeta, a intersecção que há entre homens e deuses:

 

 

 

 

Quando Muhammad Ali me fez chorar

 

Não era só um filme, era uma vida.

Não era uma despedida, era um encontro.

Não era só uma luta, era missão.

Não era só uns milhões de dólares, era tudo.

Não era só um espetáculo, eram ossos e músculos.

 

Havia sangue e suor escorrendo pelo meu corpo.

Existe ainda alguém desafiando deuses e heróis?

Senti um aperto no peito, desses que corrói.

Destruir gigantes no Olimpo não é fácil.

Imagina só o Titã que sabe na alma onde dói.

 

Toda a beleza que sua realeza invoca.

Não sei bem o que provoca aqui dentro.

Só sei que estou dentro de um ringue de lutas.

É uma estranheza assim meio filha da puta

que não quer me parir, não quer sair, nem partir.

 

Desconfio que Muhammad Ali é um puro pretexto.

Serve para me levar aos lugares sombrios onde nunca vou.

Ajuda-me a imaginar o rei ou o homem que eu sempre sou:

Vencido, desiludido, impedido, sentido.

Amargurado, angustiado, atribulado, atrelado ao show.

 

Quando o outro importa mais que eu, onde me ponho?

Um mundo cercado de mediocridade e casebres medonhos.

Não sei bem onde se esconderam aqueles antigos e alegres sonhos.

É uma multidão a repetir palavras, frases e sons enfadonhos

Um homem tristonho e vazio não merece muito além de rima feia.

 

Chicoteia a minha pele que não para de ressecar e murchar.

Será que a velhice não passa de uma outra combatida ilusão?

Percebo mais perto a morte rondando o jardim sem flores.

Pressinto, decerto, a vida mais ávida por idiotices e dissabores.

É a melancolia, sim, instalada entre o umbigo e a garganta.

 

Não sei se adianta muito eu chorar ou lágrimas disfarçar.

Só sei que ali diante de Ali, eu me senti ainda mais diminuído.

Fui engolido por todos os fanáticos estúpidos maometanos.

Fui devorado por todos os cristãos imbecis e profanos.

Fui esmagado por judeus intolerantes, gananciosos e insanos.

 

Antes de estar ali com Ali, encontrei Jesus no templo.

Não muito tempo ali permaneci, mas sei que o vi e ele a mim.

Estava disfarçado em mortalha e capuz escondido atrás da palavra.

Pediu para que eu orasse e não me comportasse como hipócritas exibidos.

Obedeci, mas depois, talvez, percebi que não o atendi tão bem assim, remido.

 

Eu menti para os meus seguidores e seus fingidores.

Omiti a verdade de mim mesmo provavelmente,  receio.

Clamei ao Tempo uma pausa, uma outra ilusão, mas ela não veio.

Talvez precisasse de uma mão sem luvas para me esbofetear.

O soco de Ali para me nocautear além do Oceano e eu afogar certeiro.

 

Creio que todo aquele gozo foi deveras insuficiente para toda a gente.

Deveria eu ter sido bem mais pecador e, quem sabe, ainda mais indecente.

Poderia me desnudar inteiro, sóbrio ou ébrio, pelas ruas de Kinshasa.

Não fiz tudo, nem tudo chorei, nem toquei Maomé, nem Jesus, nem Ali.

Voltei sozinho e tocado por eles para a casa onde moram palavras cheias de si.

 

Campos, 17.06.2016

 

“Quando éramos reis”, nesta quarta, no Cineclube Goitacá

Ali x Foreman

 

 

Num ano de perdas, algumas irreparáveis, o que nos resta é manter vivo o legado. Neste sentido, nessa quarta (15/06), na sala 507 do edifício Medical Center, no cruzamento da rua Conselheiro Otaviano com avenida 13 de Maio, o Cineclube Goitacá vai exibir e debater o filme “Quando éramos reis”, de Leon Gast. Oscar de melhor documentário em 1997, narra em detalhes um evento de 23 anos antes. “The rumble in the jungle” (“A luta na selva”), foi o título promocional dado à disputa do título profissional peso pesado de boxe, na África, entre o jovem campeão George Foreman e seu desafiante, Muhammad Ali, considerado antes e depois o maior pugilista de todos os tempos — morto (aqui), aos 74 anos, na noite do último dia 3 de junho.

Caetano Veloso admitiu não gostar de boxe, mas escreveu “virá impávido que nem Muhammad Ali”, na música “Um índio”. E “Quando éramos reis” é uma oportunidade documental única para constatar o encontro da cultura black em sua explosão nos EUA dos anos 1970, sendo levada de avião ao coração da África, às margens do legendário rio Congo, em Kinshasa, capital do então Zaire, hoje República Democrática do Congo. Emblematicamente, era a primeira vez que dois campeões negros de boxe, esporte majoritariamente dominado por atletas negros, decidiriam o cinturão de todos os pesos na África.

Ao velho continente que pariu a espécie humana, voltavam como reis os descendentes daqueles que séculos antes saíram acorrentados como escravos. Neste sentido pascal de retorno, foram promovidos shows com estrelas negras da black music dos EUA, como o mestre do blues B. B. King (aqui) e o rei do soul James Brown. No estádio de futebol de Kinshasa, onde seria realizada a luta, os músicos negros estadunidenses se apresentaram para dezenas de milhares de africanos, dançando e cantando juntos como a mesma tribo.

Mesmo de pele mais clara do que Foreman, Ali era adorado pelos africanos muito antes de lá disputar um título de boxe. Na África e no planeta, sua fama já havia conquistado fãs, sobretudo nos países do terceiro mundo, não só pela técnica exuberante do pugilista, mas por conta da sua luta pelos direitos civis dos negros nos EUA, da sua conversão ao islamismo, quando trocou o nome de Cassius Clay para Muhammad Ali, e da sua recusa em lutar na Guerra do Vietnã (1955/75), quando teve seu título de campeão revogado pelo governo dos EUA, quase acabou preso e foi impedido de boxear por três anos e meio. Roubaram aquele que seria o período áureo da carreira de qualquer atleta.

Foi dessa empatia com o povo africano que Ali se valeu, extraindo do coro “Ali, buma ye! Ali, buma ye!” (“Ali, mata ele!”) a força para fazer o impossível, chocando mesmo jornalistas experientes como Norman Mailer e George Plimpton, que dão seus depoimentos no documentário, assim como o cineasta e ativista do movimento negro Spike Lee. Como este diz em determinado momento do filme, independente do tempo em que se viva, é muito difícil se ter a oportunidade de poder conviver com heróis de verdade.

É que quando Ali lutava, dentro ou fora dos ringues, todos éramos reis.

 

Confira nos vídeos abaixo a música de Caetano e o trailer do filme de Leon Gast:

 

 

 

 

Artigo do domingo — Nos versos do campeão

 

“Muhammad Ali chocou o mundo. E o mundo é melhor por causa disso. Nós somos melhores por isso”.

(Barack Obama)

 

 

Ali: “Impossível é apenas uma grande palavra usada por gente fraca, que prefere viver no mundo como ele está, em vez de usar o poder que tem para mudá-lo, melhorá-lo. Impossível não é um fato. É uma opinião. Impossível não é uma declaração. É um desafio. Impossível é hipotético. Impossível é temporário. O impossível não existe”.
Ali: “Impossível é apenas uma grande palavra usada por gente fraca, que prefere viver no mundo como ele está, em vez de usar o poder que tem para mudá-lo, melhorá-lo. Impossível não é um fato. É uma opinião. Impossível não é uma declaração. É um desafio. Impossível é hipotético. Impossível é temporário. O impossível não existe”.

 

 

Na sexta, o editor de esportes da Folha, Antunis Clayton, me disse que Muhammad Ali havia sido internado em Phoenix, no Arizona, onde residia, por conta de problemas respiratórios. No sábado, acordei tarde com o registro de várias ligações do meu filho, Ícaro, perdidas no celular. Retornei a ele para saber que a perda era pessoal: ainda na noite anterior, Muhammad Ali havia morrido, aos 74 anos.

Ex-campeão olímpico (meio pesado, em Roma-1960) e profissional (peso pesado em 1964, 74 e 78) de boxe, era considerado o maior pugilista de todos os tempos. Com seu jeito todo próprio de lutar, sua onipotência técnica só seria depois reeditada dentro do boxe pelo campeão peso médio Sugar Ray Leonard e, no MMA, pelo campeão brasileiro Anderson Silva. Mas Ali teve um cartel respeitável também como ativista político. Lutou pelos direitos civis dos negros e minorias nos conturbados anos 1960/70 — sobretudo depois que teve seu cinturão roubado pelo governo dos EUA e quase acabar preso. Recusou-se a lutar na Guerra do Vietnã (1955/75).

Na dimensão trágica dada à palavra pelos antigos gregos, que também inventaram o pugilato, Ali foi um herói. Apesar da geração distinta, foi também o meu, legado por outro, meu pai. Desde criança, ele me contava, com o entusiasmo de devoto de tempo presente, cada gesto ousado das suas muitas lutas, dentro e fora dos ringues. Bonito, inteligente, articulado, audaz, divertido, defensor do seu povo, amante de lindas mulheres, viril e feminino, Ali foi o maior lutador de todos os tempos. E, nesta condição, derrotou o maior poder de todos os tempos — seu próprio país — quando se recusou a lutar.

Vários de seus combates têm lugar cativo na antologia do boxe. A vitória por nocaute técnico sobre Cleveland Williams (aqui), em 14 de novembro de 1966, considerada tecnicamente como a mais perfeita da história, porque não errou ou levou um soco sequer em seus três assaltos de duração. A vitória por pontos na luta seguinte, em 6 de fevereiro de 1967, contra Ernie Terrell (aqui), a quem surrou da maneira mais cruel, com dolo de ferir sem derrubar, enquanto perguntava “Wat’s my name?” (“Qual é meu nome?”), depois que o adversário o chamou de Cassius Clay, seu nome cristão de batismo, trocado por Muhammad Ali na conversão ao islamismo. A derrota (aqui) para Ken Norton, em 31 de março de 1973, por decisão médica, considerada fenômeno de resistência, por ter lutado 12 assaltos mesmo após ter o maxilar quebrado no primeiro.

E o que dizer das três lutas titânicas contra o também campeão Joe Frazier (em 1971, 74 e 75, aqui, aqui e aqui), seu maior adversário (relembre aqui), nas quais Ali perdeu a primeira e venceu as duas outras, numa trilogia violentíssima da qual ambos levariam consequências neurológicas para o resto das suas vidas? Como o Parkinson contra o qual Muhammad lutou por três décadas e que acabou por derrotá-lo na noite de sexta.

Mas se Ali tivesse que ser lembrado por uma única luta, talvez seja “The rumble in the jungle” (“A luta na selva”), realizada (aqui) em 30 de outubro de 1974. O título promocional fazia referência ao local da peleja, em Kinshasa, capital do então Zaire, atual República Democrática do Congo. Magistralmente registrado no documentário “Quando éramos reis”, de Leon Gast, o evento foi emblemático: primeiro título mundial peso pesado de boxe, esporte majoritariamente dominado por atletas negros, a ser disputado no coração da África, em plena selva equatorial.

Já aos 32 anos, Ali não era o campeão, mas desafiante do dono do cinturão de 25, sete anos mais novo. Não fosse apenas isso, George Foreman, dono do direto de direita mais devastador da história do boxe, havia antes massacrado Joe Frazier, a quem nocauteou cinco vezes ao lhe roubar o título, e Ken Norton. E Frazier e Norton haviam derrotado Ali, muito embora este tivesse vencido a ambos nas revanches.

Pelo retrospecto, a verdade é que ninguém, nem mesmo entre os segundos de Ali, achava que ele tivesse chance contra Foreman. Muitos temiam inclusive que, pelo seu destemor, ele acabasse morto no ringue pelo jovem e hercúleo campeão. Julgava-se que sua única alternativa seria tentar dançar em torno do adversário, sua arte (aqui), evitando o combate franco.

Soado o gongo inicial, Ali surpreendeu a todos e partiu para dentro do “monstro”. Na franqueza de uma briga de rua, se valeu da sua técnica exuberante para acertar 12 diretos de direita na cara do campeão. Uma dúzia exata e certeira do soco mais forte que um pugilista destro é capaz de desferir. E Foreman só virou o rosto após cada um deles, como se nada tivesse acontecido.

Certo de que, na briga, não teria chance, aquele intervalo entre o primeiro e segundo assaltos é a única vez na carreira de Ali que se pôde ver o medo estampado em sua face. Temor pior do que o de quem apanhou: a paúra de quem bateu com tudo que tinha e viu que não fazia qualquer diferença. Depois, quem temeu disse ter olhado o objeto do seu medo, no canto oposto do ringue, e mentalizado:

— Você é mais jovem do que eu, maior, mais forte, mais rápido. Mas você está disposto a quebrar costelas, seios da face, dentes, maxilar? Está disposto a morrer aqui, dentro deste ringue? Porque eu estou! E, se não estiver, você vai perder!

Após ter refeito sua convicção em si, o desafiante se virou para os 100 mil africanos que torciam declaradamente por ele e regeu o coro: “Ali, buma ye! Ali, buma ye!” (“Ali, mata ele!”).

Se tinha espantado a todos ao partir para o combate franco no primeiro assalto, Ali voltou a surpreender do segundo ao quinto, quando foi para as cordas, fechou-se na guarda e aceitou passivamente ser o saco de pancadas para o pugilista mais forte que já existiu. Isso, enquanto provocava o tempo inteiro, no combate psicológico que sempre impunha aos adversários:

— Ei, George, me disseram que você batia forte! Assim você me decepciona! Você não quebra nem amendoim assim, George! Cadê sua força, garoto?

Qualquer um que já tenha lutado, sabe que bater cansa muito mais do que apanhar. Tanto mais na umidade do clima de uma selva equatorial. Confiante no seu encaixe — no jargão do pugilismo, a capacidade de absorver golpes —, Ali foi minando as reservas do gigante, esvaído em golpes fortíssimos, como faz o mar com as construções humanas em Atafona. A partir do quinto round, o desafiante voltou também a agredir, até que numa sequência certeira de golpes no oitavo, um Foreman exausto e cambaleante desabou em câmara lenta, como um prédio.

Feito o impossível, diante do mundo que deixou mais uma vez atônito, Ali subiu nas cordas e ergueu os dois punhos à multidão reunida onde a espécie humana nasceu. E, naquele exato segundo de epifania coletiva entre o campeão e seu povo, como numa cena bíblica do Velho Testamento, desabaram as monções africanas.

Ali era disléxico. Por isso, fez uso da rima e da métrica, como um precursor dos rappers, para se tornar um grande aforista. Seu lema era: “float like a butterfly sting like a bee” (“voar como borboleta e picar como abelha”).

Certa vez, na universidade de Harvard, quando passou a viver de palestras, após ter sido impedido de boxear por três anos e meio por conta da recusa em lutar na Guerra do Vietnã, os estudantes lhe pediram em coro:“Give us a poem!” (“Dê-nos um poema”).

Após pensar um segundo, o campeão disse: “Me, we” (“Eu, nós”).

Com a humanidade a reboque, difícil pensar numa vida tão bem resumida em verso. E, como meu pai me ensinou, eu o amei por isso.

 

 

“virá impávido que nem muhammad ali

virá que eu vi”

(caetano veloso)

 

 

paixão a palo seco

 

o punho esquerdo vivo, arauto ativo

da direita dissimulada em guarda baixa,

guardada ao avessar da face que o encara

pendularmente, lado a lado, pela cartilha,

não para frente e trás, como seria

recuar nos trilhos do trem que avança,

só não alcança quando lá está ali,

feminino nos gestos de um felino.

 

a delicadeza florescida em oposição,

por oposto o soco ao giro da ponta do pé,

na lona plantado à picada da abelha,

mas de raiz aérea, de vôo de borboleta

— belo ao reinventar o mundo que abalou,

ao derrubar homens e se arrogar rei,

negou ser soldado de matar alguém,

para afirmar sua raça: homens também;

eu, nós, nos versos do campeão.

 

campos, 22/03/07

 

Artigo do domingo — Até o sol nascer

Atafona, aurora de 26/02/16 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Atafona, aurora de 26/02/16 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Beque de roça tecnológico, pedi a Antunis Clayton que levasse um gravador e me emprestasse para a entrevista. Ao contrário do hábito, não preparei pauta, nem estudei vida e carreira do entrevistado. Julgava ser capaz de fazê-la bem, só batendo de prima da memória.

“Entre as curvas da estrada e do rio” encarnado verso em “epifania”, ouvíamos a guitarra de blues do inglês Matt Scofield e subíamos o Paraíba do Sul. Já escrevi (aqui) que a RJ 158, entre Campos e São Fidélis, está entre as mais lindas que conheço, junto da Turmalina/Diamantina, trecho da BR 367 no norte de Minas Gerais; da Esparta/Olímpia, no Peloponeso (GRE); e todos os caminhos das Highlands (“Terras Altas”) da Escócia e do sul da Toscana (ITA), que chegam e saem de Siena — linda cidade que batiza um carro feio.

Chegados ao sítio do deputado federal Paulo Feijó (PR), Antunis saca da sua mochila o gravador. Eu me espanto e Tércio Teixeira, o repórter fotográfico, ri, ao perceber que se trata de um daqueles antigos “tijolões” de fita cassete. Completava o anacronismo o elástico improvisado no lugar da tampa, para as pilhas não caírem.

Após pensar, constatei que o tempo do qual falaríamos era o mesmo da tecnologia que nos gravaria o som. E por isso ri também, num alívio curioso e involuntário. Entramos e caminhamos ao longo da antiga linha de trem e do rio, até avistar homens de meia idade brincando como crianças dentro e ao redor da quadra de futevôlei, enquanto crianças de verdade corriam alheias ao entorno.

A primeira entrevista, no deck da piscina ao lado da quadra de areia, foi com o ex-atacante Cláudio Adão. Meu pai me dizia que, quando ele surgiu, ainda garoto, no Santos dos anos 1970, era apontado como o sucessor de Pelé, que ainda jogava, já perto de encerrar a carreira. Ademais, me lembro com vista própria de Adão jogando no Flamengo de Zico, entre o final dos anos 70 e início dos 80, no qual se notabilizaria outro centro-avante de menos técnica, mas decisivo: Nunes.

Lançado também no Flamengo, ainda com Zico, Leandro e Andrade, na segunda metade dos anos 1980, meu objetivo se mostrou à primeira vista esquivo e tímido, como sempre me pareceu ser nos tempos de jogador. A impressão foi reforçada quando começamos a entrevista, onde aos poucos, ao perceber o conhecimento de pormenores das suas jogadas e carreira, foi se soltando o ex-zagueiro Aldair, do Flamengo, Benfica (POR), Roma (ITA) e Seleção Brasileira, Tetracampeão do Mundo na Copa de 1994, na qual foi um dos destaques.

Acabamos a entrevista (aqui), apertei sua mão e disse: “Você foi o maior zagueiro que vi jogar!”. Despedimos-nos dele e dos demais, e saímos logo depois. Como estávamos já no início de tarde de sábado, sabia que a entrevista só daria para ser degravada e editada no correr da semana seguinte.

São engraçadas as impressões de uma entrevista que fizemos. Geralmente temos uma opinião sobre ela quando a acabamos, outra depois que a tiramos do gravador e uma terceira após a lermos impressa. Com Aldair, me valeu como segurança o que disse o Tércio logo depois da entrevista, que acompanhou com olhos atentos na câmera e ouvidos ao papo: “Vocês foram ficando visivelmente emocionados, principalmente quando começou a relembrar nas suas perguntas os detalhes dos lances dele no campo”.

Com a semana seguinte cheia de trabalho laico, apesar de santa, aproveitei o feriado da Páscoa para ir a Atafona, com meu filho e seu cão, um buldogue francês tigrado chamado Zidane, desde a noite da Quinta-Feira da Ceia. Na Sexta da Paixão, dediquei manhã e início da tarde à pauta de outra entrevista (aqui), mais técnica, mas também mais prática, porque por e-mail, sobre o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), com o advogado tributarista Carlos Alexandre de Azevedo Campos, ex-assessor do Supremo Tribunal Federal.

No resto da tarde de sexta, noite e início da madrugada, tirei do gravador, editei e fiz a abertura da entrevista com Aldair. Irônico, mas de crença difícil, foi o fato que, no mesmo quarto onde meu filho já dormia, ao final da degravação, exatamente quando Aldair falava da falha da marcação coletiva na final da Copa de 98 (França 3 a 0 Brasil), na qual a Seleção Brasileira sofreu dois gols de cabeça do craque Zidane, em cobranças de escanteio, o cachorro Zidane passou a me lamber.

Acabei a entrevista, desci à área externa e fui tomar sozinho, já na madrugada do Sábado de Aleluia, a primeira cerveja daquela semana santa. Cercado por muitos ídolos dos campos citados por outro, todos revisitados no encanto de quem passeia entre os heróis homéricos da sua juventude, o primeiro casco vazio de cerveja ganhou companhia na celebração do trabalho.

Até a “aurora de dedos róseos” anunciar o sol.

 

 

Aldair dos Santos Nascimento e Aluysio Abreu Barbosa, em 19/03/16 (foto de Tércio Teixeira - Folha da Manhã)
Aldair dos Santos Nascimento e Aluysio Abreu Barbosa, em 19/03/16 (foto de Tércio Teixeira – Folha da Manhã)

 

 

Publicado hoje (03/04) na Folha da Manhã

 

Craque do Tetra na linha da zaga

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

“Nos preocupamos em marcar seus atacantes (Bebeto e Romário). E acho que fizemos isso bem. Aí vem um zagueiro, rouba a bola, dá um passe daqueles e desarma todo meu esquema defensivo. O que posso fazer?” Lamentou-se Dick Advocaat, treinador da Holanda, na coletiva após as quartas-de-final da Copa de 1994, nos EUA. Tentava explicar a derrota do seu time por de 3 a 2, no jogo mais duro do Brasil (reveja-o aqui) naquele Mundial, cujo placar foi aberto quando Aldair Santos do Nascimento interceptou um passe de Frank Rikjaard e fez um lançamento preciso de 60 metros na ponta esquerda a Bebeto, que cruzou na área para Romário marcar.

Baiano de Ilhéus, campeão brasileiro no Flamengo (1987) e italiano no Roma (2000/01), Aldair esteve na semana passada em Campos, no sítio do deputado federal Paulo Feijó, para um torneio de futevôlei, esporte no qual hoje desfila a mesma técnica que sempre o distinguiu entre os zagueiros do mundo. Com a forma física dos tempos de jogador, ele falou da carreira desde os campos de pelada no time do pai, até sua maior conquista: o Tetra de 94, primeira Copa do Mundo para a Seleção Brasileira, após um hiato de 24 anos. Indagado sobre o que guarda com mais carinho da sua carreira, ele se antecipou ao lance no verbo, na mesma classe que tinha com a bola nos campos: “somos só pessoas normais, seres humanos”.

 

Com a mesma forma física e categoria dos tempos de zagueiro, Aldair hoje se dedica ao futevôlei (foto: Satiro Sodré - Agif)
Com a mesma forma física e categoria dos tempos de zagueiro, Aldair hoje se dedica ao futevôlei (foto: Satiro Sodré – Agif)

 

Folha da Manhã – Natural de Ilhéus (BA), você foi cria das divisões de base do Flamengo. Você começou lá com que idade?

Aldair do Nascimento – Eu fui para o Flamengo com 16 anos. Fiz quatro anos de categoria de base, com o professor Carlinhos (aqui, ex-craque rubro-negro dos anos 50 e 60, que seria depois treinador dos profissionais no Tetra Brasileiro do clube em 1987)…

 

Folha – Você foi reserva de Leandro como zagueiro central (pela direita) naquele time campeão de 87, não é isso?

Aldair – Eu subi em 86. Ganhamos o Campeonato Carioca de 86.

 

Folha – Aí, em 87, você estava na reserva. Você e o Zé Carlos II. Na zaga titular do Tetra estavam Leandro e Edinho.

Aldair – Eu e Zé Carlos II. Nós jogamos bastante jogos, mas na final (1 a 0 contra o Internacional) quem jogou foi o Leandro e o Edinho. Eu participei, peguei um pouco da experiência dessa galera aí (Edinho disputou as Copas de 1978, 82 e 86, enquanto Leandro, a de 82).

 

Folha – Você ainda pegou remanescentes daquela geração do Flamengo de Zico, campeã da Libertadores da América e do Mundial Interclubes em 81. Além dele e Leandro, o volante Andrade também estava naquele time de 87. Mas o grande craque era Zico (Copas de 1978, 82 e 86). Foi o maior que você viu jogar?

Aldair – Olha, eu tive a sorte de também jogar com grandes campeões depois. Mas eu sempre coloco o Galo (pelo físico franzino, Zico era chamado de Galinho de Quintino, bairro da periferia carioca onde nasceu e cresceu) como primeiro da lista, por tudo que ele fez no futebol, pelo que ele é para o Flamengo. Então, mesmo em relação a outros grandes jogadores com os quais eu joguei, eu boto sempre o Galo à frente. Eu acho que faltou a ele aquilo que nós conquistamos em 1994 (Tetra na Copa do Mundo, com a Seleção Brasileira). Mas ele foi um jogador e uma pessoa espetacular.

 

Folha – Em relação ao Tetra em 94, fala-se muito de Romário (Copas de 1990 e 94). Cobri pela TV todos os jogos do Brasil naquela Copa e, particularmente, acho que você, Bebeto (Copas de 90, 94 e 98) e Mauro Silva foram igualmente fundamentais à conquista. Como avalia sua participação naquele Mundial?

Aldair – Eu estava muito bem preparado naquela Copa. Eu tinha saído, oito meses antes, de uma operação. Então tive tempo de trabalhar muito a parte física. E depois a sorte de estar num grupo forte e de machucar um Ricardo (Gomes, Copa de 1990), depois machucar o outro Ricardo (Rocha). Eu e Márcio Santos (inicialmente reservas) estávamos sempre bem, jogando contra o time titular. Seleção é isso: temos que estar todos bem preparados e aproveitar o momento. Nós aproveitamos o nosso. Aquilo que você falou de mim, o Bebeto e o Mauro Silva, mas o Romário realmente estava voando e fez uma grande diferença. O time estava bem montado, bem entrosado. É claro que uma decisão por pênaltis (após o 0 a 0 no tempo normal e na prorrogação contra a Itália) é sempre emocionante. Mas nós conseguimos levar depois de 24 anos.

 

Folha – Você não bateu. Se chegássemos à segunda rodada das cobranças, qual seria sua posição?

Aldair – Eu seria o sexto batedor, depois do Bebeto. Mas nem chegou no Bebeto, todos sabem o que aconteceu (o Brasil foi campeão após Roberto Baggio desperdiçar sua cobrança). Bater um pênalti naquelas condições (Baggio jogou contundido) não é fácil. Você vê que um dos maiores jogadores do futebol italiano perder o pênalti na final da Copa do Mundo. Isso acontece.

 

Folha – Sim, se fala muito no Romário, mas Baggio (Copas de 1990, 94 e 98) também jogou muito naquela Copa, apesar do pênalti decisivo perdido. Já nos descontos do primeiro tempo da final, me lembro uma jogada em que Massaro (Copas de 82 e 94) toca de calcanhar para Baggio, que iria partir sozinho contra Taffarel (Copas de 90, 94 e 98), e você antecipa o lance. Depois, já na prorrogação, você sai driblando Massaro dentro da área. A bola é rebatida na frente, volta e você repete o feito em cima de Baggio. Na verdade, você não perdeu uma disputa de bola naquela final (reveja o jogo aqui). De onde tirou tanta confiança?

Aldair – A gente jogava juntos há alguns anos e já se conhecia (Massaro, no Milan; Baggio, na Juventus; Aldair, no Roma). Estava com confiança ali. Tivemos a sorte também de que o Baggio não estava 100%, teve problemas no jogo antes (Itália 2 a 1 Bulgária, na semifinal) e entrou à meia boca. Mas, mesmo assim, sempre perigoso. Ele teve uma bola boa no primeiro tempo, mas nós conseguimos bem, com Mauro (Silva) à nossa frente, eu e Márcio (Santos) conseguimos controlar bem a situação. Mas o horário do jogo (começou às 12h35 na cidade de Pasadena, na Califórnia, no verão dos EUA), eu acho que estava muito mais quente que este dia de hoje, aqui. Então, era um jogo muito difícil.

 

Folha – Falamos de Romário, Bebeto, Baggio e Massaro. Quem foi o melhor atacante que você enfrentou dentro do campo, o mais difícil de marcar?

Aldair – Como atacante de primeira, assim, centroavante, acho que o que me colocava mais dificuldade era o Ronaldo Fenômeno (Copas de 1994, 98, 2002 e 2006). Pegamos ele na Inter (de Milão) em grande forma (1997/2002), grande aceleração, troca de ritmo. Então era muita dificuldade para marcar o Ronaldo.

 

Folha – E dos zagueiros com os quais você jogou? Com quem compôs a melhor dupla de zaga?

Aldair – Assim, eu tive a sorte de jogar com grandes zagueiros. Joguei um ano com o Ricardo…

 

Folha – Ricardo Gomes, no Benfica de Portugal.

Aldair – É, joguei um ano com o Ricardo. Joguei com o (Mauro) Galvão (Copa de 90), com o Mozer (Copa de 90), com o Júlio César (Copa de 86). Então é difícil. Aprendi com todos eles. Eu tive a sorte de começar no Flamengo, tinha o Edinho, tinha o Dario Pereira (Copa de 86, pelo Uruguai), que tinha vindo do São Paulo. Tinha o Leandro. Mas eu procurava pegar uma coisa de cada um. Mas na Copa de 82, eu via muito o Luizinho jogar, tentava fazer o que o Luizinho fazia. Então peguei muito coisa do Luizinho.

 

Folha – Sua referência, então, foi o Luizinho?

Aldair – Foi o Luizinho. Como zagueiro, sim.

 

Folha – Esses dias, ouvindo Toninho Cerezzo (Copas de 78 e 82) falar numa entrevista daquele grande Atlético Mineiro do fim dos anos 1970 e começo dos anos 80, do qual foi um dos craques: “O quarto zagueiro (pela esquerda) daquele time era o Luizinho. Meu Deus! O Luizinho era tão técnico que poderia jogar de meia esquerda”.

Aldair — Sim, ele era muito técnico.

 

Folha — Sim, como você, ele era muito técnico. E como, sendo tão técnicos, vocês acabaram virando zagueiros?

Aldair – (Risos) Eu, na verdade, virei zagueiro por oportunidade. Eu estava no Rio e jogava pelada no Rio de Janeiro. E um ex-jogador do Flamengo perguntou se eu queria ir para o Flamengo como zagueiro, e eu falei que queria. Mas antes disso, eu jogava nas peladas como atacante, antes de ir para o Rio, na Bahia, com o timezinho do meu pai lá em Ilhéus.

 

Folha – Seu pai é vivo?

Aldair – Não, é falecido. Mas eu jogava no time dele.

 

Folha – Era boleiro também?

Aldair – Era boleiro, boleiro também. E também era atacante. Mas eu tive essa oportunidade de ir para o Flamengo como zagueiro e a coisa deu certo.

 

Folha – Mas você era um zagueiro que fazia gols. Quantos fez na carreira profissional?

Aldair – Não fiz muitos, não. Marquei mais pelo Flamengo. No Roma, muito pouco. Acho que não supera os 30 gols, mais ou menos.

 

Folha – Você era um zagueiro que terminava o jogo de calção limpo, não dava carrinho. Dos que vi jogar, você talvez tenha sido o defensor com maior senso de antecipação, com o qual evitava o combate mais brusco. Como fazia isso? Antevia os lances?

Aldair – Então, acho que você tem que ter uma leitura boa de jogo lá atrás. Porque você jogar contra grandes atacantes, não é fácil você competir contra um Van Basten (Copa de 1990, pela Holanda) ou um Ronaldo. Então você tem que ter uma leitura muito boa de jogo, de antecipação, para cortar os caminhos. Se não fica muito difícil você marcar esses grandes jogadores. Eu tinha essa visão, essa vantagem, que me fez subir na carreira e chegar aonde cheguei.

 

Folha – No Brasil, as pessoas talvez não tenham a noção exata da sua condição de ídolo do Roma, clube tradicional da Itália. Mesmo tendo saído de um time de torcida tão apaixonada como o Flamengo, impressiona assistir em vídeo à devoção romanista por você, com os tiffosi giallorossi (torcida do Roma) cantando seu nome em coro (aqui) no estádio.

Aldair – Eu fiquei bastante tempo lá. Joguei 13 anos lá.

 

Folha – Aposentaram sua camisa no Roma, não foi?

Aldair – Por um bom tempo. Até o ano passado. Era a número 6. O clube me chamou, para ver se eu deixaria voltar essa camisa e foi o que aconteceu. Mas acho que existe um acolhimento, uma paixão imensa comigo e com a torcida do Roma. Foi muito legal. A gente teve durante dois ou três anos um time muito forte (campeão da Itália e da Supercopa da Itália na temporada 2000/01), com Batistuta (Copas de 1994, 98 e 2002 pela Argentina), com (o brasileiro) Antônio Carlos, o Montela (Copa de 2002 pela Itália) e o Cafu (Copas de 94, 98, 2002 e 2006). Não ganhamos tudo que eu acho que poderíamos ter ganhado, mas foram anos maravilhosos.

 

Folha – Das coisas boas às não tão boas: o que aconteceu naquela final da Copa de 98 (França 3 a 0 Brasil)?

Aldair – Em 98 aconteceu tudo aquilo que todos sabem. Primeiro, o início foi muito ruim. Porque aquela desconvocação do Romário, eu acho que o grupo rachou um pouco. Uma parte, do lado do Romário. A outra, não. Fomos pegos de surpresa, quando Romário saiu. Na minha opinião, se Romário estivesse, a Seleção iria render mais. Fica difícil falar se a gente iria ganhar o Mundial ou não, mas acho que teríamos grande chance. E depois teve a final.

 

Folha – Deu um apagão no time?

Aldair – Eu acho que foi o que aconteceu com o Ronaldo. Mudou muito o comportamento do time no campo. Alguns momentos, algumas horas antes do jogo, o Ronie apagou, o homem que levou a gente à final muito bem. Apesar disso, eu reclamo sempre da falta de atenção que nós tivemos na marcação, de levar dois gols de cabeça de escanteio.

 

Folha – Dois gols de um cara que, embora craque, não era bom cabeceador. Zidane (Copas de 1998, 2002 e 2006) nunca havia feito um gol de cabeça.

Aldair – Nunca tinha feito um gol de cabeça. Mas não me surpreendo, não. Um dia antes eu pedi para a gente treinar escanteio. O pessoal disse: “Não, cada um já sabe o que faz”. E aconteceu aquilo ali. Você vai para uma final de Copa, você leva dois gols de cabeça. Então, foi uma falta de atenção de alguém ali, que tinha que marcar o Zidane e ficou na dúvida: o Zidane ia bater escanteio, daqui a pouco estava dentro da área. Acabou que perdemos o jogo. Mas, assim, o Brasil não fez um grande Mundial, teve altos e baixos, oscilou muito.

 

Folha – E de todos os títulos que conquistou, todos os jogos que disputou, o que você leva para sua vida pessoal com mais carinho, com mais emoção?

Aldair – Se eu falar de título, será sempre do Mundial (94), porque ganhamos para a gente e para uma nação. Então, é uma responsabilidade muito grande. Como título, certamente aquele pela Seleção Brasileira. Mas o que a gente leva é a amizade. Você vê, hoje, estamos aqui com vários amigos, pessoas que conheci muito depois. E estamos bem juntos. É isso que a gente tem que levar. E essa foi minha vida até quando jogava. Porque muitas vezes os jogadores pensam só no momento, ali, em que estão jogando, e esquecem que somos pessoas normais, seres humanos. Temos só uma oportunidade de representar um país, um clube cheio de torcida, de grande responsabilidade. Mas somos só pessoas normais, seres humanos.

 

Página 11 da edição de hoje (27/03) da Folha
Página 11 da edição de hoje (27/03) da Folha

 

Publicado hoje (27/03) na Folha da Manhã

 

Poema do domingo — As meninas de Adriana

Conheci Adriana Medeiros, se não me falha a memória, no FestCampos de Poesia Falada de 2004. Eu era jurado e ela concorria com dois poemas, defendendo-os com brilho como intérprete. Nunca lhe disse, mas me impressionei à primeira vista com sua intensidade dramática, com aquele desabrir uterino com jeito de coisa casual, oximoro refletido também em seus versos. Se foi eleita, com endosso do meu voto, a melhor intérprete daquele festival, ela perpetraria a façanha de vencer como poeta outras duas edições: de 2006, com “Descobrimento de mim”, e de 2009, com “Imagens e versos”.

Falando aqui sobre Castro Alves (1847/71), nosso maior romântico e para quem o ritmo era o “talismã da verdadeira poesia”, disse que via em Campos dois poetas reverberados ao eco da mesma oralidade, tão egressa dos palcos quanto Apolo e Dionísio: Antonio Roberto Kapi e Artur Gomes. E tenho dito!

 

“La hamaca” (1956), óleo e têmpera sobre tela de Diego Rivera (1886/1957)
“La hamaca” (1956), óleo e têmpera sobre tela de Diego Rivera (1886/1957) – foto de Aluysio Abreu Barbosa

 

“La hamaca” (1956), óleo e têmpera sobre tela de Diego Rivera (1886/1957)
“La hamaca” (1956), óleo e têmpera sobre tela de Diego Rivera (1886/1957) – foto de Aluysio Abreu Barbosa

 

As Meninas

 

Como quem

Convém a dois

Estavam as duas

Quase nuas

Em primícias

De carícias

Estavam elas

Duas e uma

Completamente

Ausentes

Pareciam únicas

As meninas

Douradas

Escancaradas

Sem vergonha

De serem

Inocentes

Como convém

A Deus.

Era um recreio

Meninos empinavam

Suas pipas

Como quem só queria

o céu

E elas estão… lá

Elas… como nuvens

Que no céu flutuam

Estacionando

Nos desejos do meu

Emblema

O que significa

Farme em Ipanema

As meninas juntas

Eram a minha

Incapacidade

De lhes escrever

Um digno poema.

 

Poema do domingo — Antonio Roberto Kapi

Kapi 5
(Foto de César Ferreira)

 

 

ACENOS

 

Quem parte

deixa saudade,

deixa acenos,

esquece livros.

Deixa tolhido

um mundo de desejos,

vida desarrumada

e a gente sem prumos.

Quem fica

fica de lembranças,

fica mais criança,

fica solidão.

Quem parte,

parte inteiramente,

parte de repente

sem um avisar.

Quem fica

fica de inocente

regando as sementes

de um tal regressar.

Quem fica

fica sem despedida

fica sem guarida

e morre um pouco em vida

pois quem parte

parte corações

mata as ilusões

e parte.

 

Kapi, Antonio Roberto. “Manual da criação de ratos”, com Eloah Marconi de Souza, edição de Carlos Araújo, Edições Clarear (1984), pág. 18

 

 

 

Um beijo pelo dia

“La columna rota” (1944), óleo de Frida Kahlo (1907/54) — Museu Dolores Olmedo
“La columna rota” (1944), óleo de Frida Kahlo (1907/54) — Museu Dolores Olmedo (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

No meu primeiro poema feito para uma mulher, lá se vão quase 20 anos, quando para mim elas ainda eram menos carne que imaginação, o desejo do melhor dos dias a todas…

 

beijo

 

beijo beijado na mente mil vezes

em década de desejo resignado

consumado quando menos se espera

sem saber se de alô ou adeus

sem certeza ou finalidade

apenas línguas roçando nervosas

como pipas cruzando no espaço

 

campos, 12/01/96

 

 

 

Escrita do Brasil contra fase da Colômbia por uma vaga à semifinal da Copa

Daniel Alves e Neymar apertam a marcação sobre James Rodríguez, no último jogo entre Brasil e Colômbia, em 15 de novembro de 2012, em Nova Jersey (EUA), que terminou empatado em 1 a 1. Os gols foram de Cuadrado e Neymar, que depois perdeu um pênalti
Daniel Alves e Neymar apertam a marcação sobre James Rodríguez, no último jogo entre Brasil e Colômbia, em 15 de novembro de 2012, em Nova Jersey (EUA), que terminou empatado em 1 a 1. Os gols foram de Cuadrado e Neymar, que depois perdeu um pênalti

 

Os únicos números que ganham um jogo de futebol são aqueles marcados no placar final. No caso de jogo eliminatório, como o que Brasil e Colômbia disputa hoje por uma vaga a semifinal da Copa do Mundo, eles podem ser definidos após os 90 minutos, ou mais 30 de prorrogação ou ainda disputa de pênaltis. Mas antes da bola começar rolar, a partir das 17h, na arena Castelão, em Fortaleza, todos os números indicam um confronto clássico entre uma seleção que atravessa um momento melhor, contra outra de mais tradição e vantagem esmagadora nos confrontos diretos.

Entre os oito times que chegaram às quartas de final deste Mundial, a Colômbia tem o maior número de vitórias (4, junto com a Holanda), o segundo melhor ataque (11 gols, atrás da mesma Holanda, com 12), o melhor saldo de gols (9), a defesa menos vazada (apenas 2 gols sofridos, junto com França, Bélgica e Costa Rica), o artilheiro isolado (James Rodríguez, com 5 gols) e o melhor passador (Juan Cuadrado, com 4 assistências a gol) da competição. Por sua vez, com uma campanha irregular e gerando dúvidas sobre sua própria estabilidade emocional, a Seleção Brasileira ostenta na sua história diante dos colombianos um cartel de 14 vitórias, cinco empates e apenas duas derrotas. Destas, nenhuma dentro de casa. E nesse total de 21 jogos, nunca por Copa do Mundo.

Sem o primeiro volante Luiz Gustavo, suspenso pelo segundo cartão amarelo, é quase certo que o treinador Luiz Felipe Scolari vá promover a volta de Paulinho ao time titular, como segundo volante. Fernandinho, que havia roubado na Seleção a vaga do jogador do Tottenham, será recuado para primeiro volante, posição em que atua no Manchester City. Embora, no treino coletivo de quarta-feira, Felipão tenha também a opção de jogar sem centroavante, dada a péssima fase do titular Fred e a incapacidade do reserva Jô de fazer-lhe sombra, isso só deve ser usado como opção no correr do jogo, caso o atacante do Fluminense seja novamente figura nula em campo.

Nesse esquema tático alternativo, que o técnico brasileiro só deixou para treinar às vésperas da quarta de final da Copa, o reserva Henrique seria adaptado à função executada por Edmilson em 2002, num misto de primeiro volante e terceiro zagueiro, quando o Brasil foi pentacampeão com o mesmo Felipão. Todavia, diferente de 12 anos atrás, quando tinha Ronaldo Fenômeno como centroavante, além de Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho também em grande fase, a possível novidade tática só seria adotada para que a Seleção de hoje jogasse sem homem fixo de área.  Neymar, craque solitário do presente, atuaria como falso 9.

Outras duas possibilidades testadas no coletivo da Granja Comary foram a entrada do volante Ramires e do lateral Maicon. O primeiro, seria uma opção mais defensiva pela direita, para o lugar do atacante do atacante Hulk, alteração já testada sem grande êxito no empate sem gols contra o México. Já a substituição de Daniel Alves por Maicon é uma mudança que já havia sido cogitada para o jogo com o Chile, por conta do baixo rendimento do titular da lateral direita, mas até agora não se consumou.

Bom, e a Colômbia? Apontado como um dos craques da Copa, o artilheiro James Rodríguez costuma habitar a faixa de campo entre as linhas de defesa e meio campo, justamente onde o Brasil tem apresentado problemas crônicos na saída de bola, como no gol de empate do Chile. Foi nesse espaço que o camisa 10 da Colômbia recebeu o passe pelo alto e de costas para o gol, nas quartas de final contra o Uruguai, matou no peito, girou o corpo e, sem deixar a bola cair, emendou de canhota o chute certeiro.

Um dos mais belos gols da Copa, o que a maioria talvez não tenha notado é que, antes de chegar a Rodríguez, o time da Colômbia já tinha contabilizado 15 trocas de passe, numa posse de bola de 50 segundos. Esse trabalho coletivo revela a mão do treinador argentino José Pékerman, que chega pela segunda vez às quartas de final de uma Copa do Mundo. Em 2006, no comando da seleção de seu país, ele empatou no tempo normal e na prorrogação contra a Alemanha, antes de perder na disputa de pênaltis.

Para tentar melhor sorte no jogo de hoje, outra das armas de Pékerman é o habilidoso Juan Cuadrado, que nesta Copa já empatou em número de passes a gol com legendas como Tostão (1970), Zico (1982) e Riquelme (2006, naquele time de Pékerman). Meia que joga como ala pelos lados do campo, preferencialmente pela direita, deve dar grande trabalho aos laterais Daniel Alves e sobretudo Marcelo, que não são conhecidos por suas virtudes defensivas e precisarão da cobertura dos volantes e zagueiros.

Diante do Brasil, a Colômbia deverá ceder a posse de bola, mas diferente da sua brilhante geração de 1994, de Freddy Rincón, Carlos Valderrama e Faustino Asprilla, hoje não faz questão de mantê-la, explorando os contra-ataques com rapidez e objetividade, concluindo até pouco a gol, mas com excelente pontaria até aqui. O Brasil, cujo meio de campo parece incapaz de fazer a bola chegar ao ataque, abastecido apenas na ligação direta dos chutões desde a defesa, tem na retomada de bola no seu setor ofensivo a melhor maneira de tentar surpreender os colombianos, cuja defesa, embora pouco vazada, não inspira assim tanta confiança.

Apesar da boa campanha, inclusive diante de um Uruguai combalido pela suspensão do atacante Luisito Suárez, a Colômbia não teve ainda um teste de peso. Se não tremer hoje, continuar jogando bem e bater pela primeira vez o Brasil, dentro do Brasil, dará um passo fundamental à construção de uma tradição no futebol mundial. Não só para manter a sua, como para evitar o que todo o mundo considerará um vexame dentro da sua própria casa, ao Brasil não resta alternativa se não vencer os colombianos hoje — o que não consegue fazer desde 7 de setembro de 2003, há mais de 10 anos.

Depois, que venha Alemanha ou França!

 

Brasil x Colômbia

 

 

Publicado hoje, na edição impressa da Folha.

 

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