Opiniões

Manuela Cordeiro – Freedom fries: a liberdade fast food das redes sociais

Quis sair da zona de conforto poética e também acadêmica para escrever uma pretensa crônica abordando assuntos pertinentes no momento. Há apenas um dia de assumir o governo da maior potência mundial, assistimos com uma boa dose incredulidade Donald Trump se tornar presidente dos Estados Unidos. Mais uma das barbáries que procuramos (re)significar nesses dias. Os recentes massacres nos presídios federais, incluindo Roraima, são de outra ordem, mas podem ser incluídos na lista do que procuramos digerir nesses primeiros dias de 2017. Na medida em que essa notícia foi ganhando repercussão nacional, procurei notar qual era a reação das pessoas no sudeste ao ouvir falar no estado do extremo norte do país. Pude perceber algumas constatações – Boa Vista não é capital do Acre, o constante questionamento sobre qual lugar Roraima está localizado no mapa e, particularmente para mim, estranhei a pronúncia com “a” anasalado, já aqui no norte se fala “Roráima”.
Nos dias seguintes, recebi em uma das redes sociais de três diferentes amigos uma mensagem que começou a circular por conta da atenção voltada ao estado. Trata-se de uma opinião pessoal (assim vem propriamente assinada, diga-se de passagem) de uma recém contratada, à época, servidora pública a respeito de sua chegada e estabelecimento em Roraima. Esses mesmos amigos quiseram saber a minha reação sobre tal “textão”, como se diz desses comentários longos que invadem a internet, geralmente com bastante assertividade do autor.
Teria muitas observações a serem feitas, mas me aterei a pelo menos duas principais. Logo no início do “textão”, a servidora pública explica que o mais difícil que tem por aqui é encontrar um roraimense, emendando com essa constatação que falta uma “identidade com a terra”. Ora, sem levar em conta a população indígena, sendo que se trata do estado do país com a maior proporção desta (segundo o Atlas Brasil do IBGE de 2016, mais de oitenta por cento da população indígena de Roraima vive em áreas demarcadas), mas somente a zona ‘nobre’, desprezando os ‘bairros’ – parte mais recente da cidade ou periferia, certamente só encontrará outros servidores públicos como quem escreve o texto, que vem de inúmeras partes do Brasil. Mas isso não é suficiente para concluir que falte uma identidade com a terra – seja cearense, maranhense, gaúcho ou carioca, muitos e muitas, inclusive servidores públicos, já adotaram o estado de Roraima como a sua casa. Em termos de construção de uma identidade local, há inclusive um movimento cultural chamado Roraimeira que foi iniciado em 1984 por músicos e poetas locais que se inspiram em três matrizes – a cultura indígena, a proximidade com os países caribenhos (Guiana e Venezuelana) e também a presença maciça nordestina.
Seguindo adiante, há uma afirmação de que setenta por cento do estado é coberto por áreas indígenas, restando “apenas 30%, descontando rios e as terras improdutivas que são muitas” para a agricultura e as cidades. De fato, as terras indígenas cobrem boa parte do estado, mas somam pouco mais de quarenta por cento da área e, ainda assim, existem muitas terras que podem ser denominadas produtivas localizadas em antigos projetos de colonização, assentamentos de reforma agrárias e áreas privadas. Além disso, o clima do norte do estado é similar ao cerrado, por estarmos numa área de transição entre a floresta ombrófila densa e o lavrado, isto é, a savana. Inclusive por isso o cultivo de soja vem ganhando força, sobretudo, na área de Boa Vista e outros municípios localizados na porção norte de Roraima. Aliás, ontem o ministro da Justiça Alexandre de Moraes publicou uma portaria que altera o sistema de demarcação de terras indígenas no país, em vigor desde a década de 1990. Com esta medida, o ministério da Justiça passa a poder rever todo o processo de demarcação realizado pela FUNAI, fragilizando o trabalho técnico realizado pela Fundação, para dizer o mínimo. Então, os reducionismos não tem muito espaço – nem tanto à terra improdutiva e muito menos a “muita terra pra pouca gente”.
O título dessa curta crônica se refere a uma frase que ouvi no seriado Mr. Robot. Trata-se de uma série que aborda uma sociedade hackativista que procura desmontar o sistema de bancos, órgãos federais e outras importantes instituições do mundo ocidental. Freedom fries pode ser explicado como uma mistura do item mais comum da comida fast food americana – as batatas fritas (french fries em inglês) e a liberdade, um dos itens mais comuns, e diga-se de passagem, celebrados no estilo de vida americano. As redes sociais possibilitam a divulgação de vozes que antes não eram ouvidas, inclusive de “áreas remotas”, como o extremo norte do país. Mas, ao mesmo tempo, garante a liberdade do quase anonimato e o não debate de ideias que, com a rápida disseminação, podem se tornar “verdade” seja pelo desconhecimento ou pela repetição. Liberdade de expressão, sim, mas com menos gordura no texto, por favor.

Salvar

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Poema molhado de chuva

 

Atafona, 13/11/16 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

outros blues

 

cego ao cheiro da folha da figueira

e às lembranças doces de fruta

o homem sentou ao final do caminho

farto da semeadura dos seus erros

dessa amargura na mina da saliva

desse cansaço que nem a chuva lava

 

atafona, 14/11/16

 

 

 

Artigo do domingo — Para quem lutou lado a lado na mesma linha

Criança em Termópilas (Foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Menino diante a Leônidas em Termópilas (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

“Venha buscá-las!”

 

Para quem só conhece Grécia Antiga a partir do filme “300” (2007), de Zack Znyder, pode parecer que a força física, habilidade e coragem individuais fizeram com que um pequeno contingente de helenos, liderado por 300 espartanos, conseguisse resistir por três dias, na Batalha de Termópilas (480 a.C.), à invasão do Império Persa contabilizada em 1 milhão de soldados. Mas quem conheceu o episódio por Heródoto (484/425 a.C.), em sua “História” (livro que batiza a ciência, não o contrário), ou por seus companheiros de lida subsequentes, sabe que a grande responsável pela façanha foi a tática coletiva dos gregos.

Com cerca de 35 kg de bronze sobre o corpo, entre armadura, elmo, caneleiras, braceletes e o escudo redondo (hóplon, daí o soldado de infantaria ser chamado de hoplita), mais a lança longa (sarissa) e uma espada curta, só usada como último recurso, um único soldado grego era pesado, lento e desajeitado. Todavia, a partir da coesão numa mesma linha, cada hoplita tinha o peito protegido pelo escudo erguido pelo braço canhoto do companheiro à sua direita, enquanto fazia o mesmo com quem estava à esquerda. E, a despeito da aparência coletiva de um porco espinho na batalha, unidos no compromisso de defesa das suas cidades, os gregos foram quase imbatíveis.

Treinados desde muito jovens na sua arte da guerra, no atletismo e na filosofia (saber ainda não compartimentado em ciências particulares) todo soldado grego era um cidadão, treinado para lutar e ciente do por quê. E há quem afirme, como o historiador francês Fernand Braudel (1902/85), que a democracia teve parto natural, sobretudo na Atenas cosmopolita e mercantil, quando essa tática de paridade coletiva da linha de hoplitas migrou do campo de batalha à vida civil. Um escudo erguido sobre o peito do companheiro em defesa da cidade na guerra, um voto para definir seus rumos na ágora.

Na última semana, o jornalista e blogueiro Alexandre Bastos se despediu da Folha da Manhã. Agora, responde pela coordenação da Chefia de Gabinete do governo eleito Rafael Diniz (PPS), que assume o poder em 1º de janeiro de 2017. Mas foi neste jornal que, entre vindas e idas, Bastos passou quase metade da sua vida. Em 2001, aos 19 anos, teria sua primeira experiência profissional na Folha, como corretor de anúncios, por indicação da sua tia materna, a saudosa jornalista Ângela Bastos (1946/2007), que fez história no jornalismo campista e na Folha.

Na redação do jornal, Bastos iniciaria em 2004, aos 22 anos. Após ter estreado como jornalista na revista “Caraca”, dos publicitários Gustavo Alejandro Oviedo e José Ronaldo, ele enviou um artigo intitulado “A Terra do Nunca”. O texto crítico sobre a mentalidade tacanha de alguns setores da sociedade goitacá abriu as portas para que se tornasse articulista da Folha, onde passou a opinar semanalmente sobre política, esporte e cultura.

No ano seguinte, em 2005, aceitou o convite para trabalhar como repórter da Folha Dois, onde foi colocado como “foca” do jornalista Aloysio Balbi, com quem já comungava a mesma criatividade superlativa no texto. Sete meses depois, mesmo a contragosto, foi posto na editoria de política, até deixar a Folha pela segunda vez em 2006, ano de eleição municipal suplementar, na qual atuou pela primeira vez como assessor de imprensa.

Em 2007, Bastos voltou ao jornal como editor da Folha Dois, função na qual permaneceu até o fim daquele ano, quando atuou novamente como assessor de imprensa. Por fim, retornou à Folha em novembro de 2008, onde ficou até agora. Nestes últimos oito anos, foi repórter e editor (novamente contra a vontade) de política, repórter e editor interino de esportes, colaborador do “Ponto Final”, colunista social e blogueiro — função na qual se revelou um fenômeno de popularidade inédito e ainda sem par na mídia virtual goitacá.

Piadista talentoso, quase sempre capaz de arrancar uma gargalhada de quem chegaria com uma queixa, Bastos padece assumidamente da mesma contradição do coelho Pernalonga: adora brincar, mas se revela pouco paciente quando alvo da brincadeira. Como jornalista, além da criatividade no texto, tem perspicácia incomum na apuração. Se às vezes “morcega” no meio de campo, como o ex-craque francês Zinedine Zidane, é capaz de sair da aparente letargia, quando a cobrança se impõe, para produzir de relance uma sequência de jogadas inesperadas e, não raro, definir a partida.

Mais do que ele possa ter aprendido em nosso convívio, Bastos foi para mim um “professor” generoso do jogo jogado da política, do qual se tornou antes melhor leitor, apesar de uma década mais novo. Tivemos nossos problemas, sobretudo no entrechoque de vaidades. Mas soubemos superá-los e, penso, construímos uma sólida amizade, sobretudo quando a idade revelou a ambos que produzíamos um melhor jornalismo atuando na mesma linha, um ao lado do outro e de todos os demais — sem ninguém à frente ou deixado para trás.

Sobre seu novo desafio no governo de Campos, respondeu quem antes vivia de indagar: “Agora, quando a nossa cidade vive o fim de um ciclo, vejo que também é o momento de iniciar um novo momento em minha vida. Deixar o papel de narrador e entrar em campo. Unir aquela vontade de mudar o mundo, que estava presente nos primeiros artigos, com o lado mais pragmático de quem já é pai de família e sabe que os grandes feitos dependem mais de transpiração do que de inspiração”.

Da lição final de João Cabral de Melo Neto (1920/99) aplicada da poesia ao jornalismo e à própria vida, agora em campos diferentes na defesa da mesma cidade, redefinida em rumo pela democracia conquistada ao custo de tantas batalhas perdidas e ganhas ao longo da história, desejo, em nome da redação da Folha, toda a sorte do mundo a um dos seus nomes mais talentosos. No que há de particular, destaco: ter atuado profissionalmente ao lado de Bastos é dos orgulhos que levarei destes 26 anos de jornalismo.

Ao futuro, ecoa a resposta do rei Leônidas (540/480 a.C.), comandante espartano morto em Termópilas, ao persa que lhe ofereceu ouro para entregar as armas: “Malon lave!” (“Venha buscá-las!”).

 

Publicado hoje (13) na Folha da Manhã

 

Após nocaute das urnas de Campos, onde está Michael Spinks?

 

Onde está Michael Spinks?

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Tyson vs Spinks 1Era 27 de junho de 1988, poucos meses antes do garotismo chegar ao poder em Campos pela primeira vez. Foi quando um jovem de então, com apenas 28 anos, derrotou nas urnas a velha liderança do ex-prefeito Zezé Barbosa (1930/2011). Já em Atlantic City, alguém ainda mais jovem deveria enfrentar seu grande teste.

“Iron” Mike Tyson já tinha impressionado o mundo, ao ser o campeão de boxe peso pesado mais jovem da história. Tinha apenas 20 anos, quando derrotou o campeão Trevor Berbick (1954/2006) em 22 de novembro de 1986, em Las Vegas. A agressividade do estilo de Tyson fez com que o Berbick tivesse quatro quedas consecutivas no mesmo nocaute final, caindo e tentando se levantar para cair de novo, bêbado pela potência destruidora de uma força da natureza.

Conquistado o cinturão do Conselho Mundial de Boxe, Tyson trabalharia no ano seguinte para unificar o título da categoria mais importante do boxe profissional. Em 7 de março de 1987, contra James “Quebra Ossos” Smith, e em 1º de agosto do mesmo ano, contra Tony Tucker, o jovem campeão se tornou dono também dos cinturões da Associação Mundial de Boxe e da Federação Internacional de Boxe.

Mas, nos dois combates, o “baixinho” Tyson (1,78m) teve sua temida fúria em parte contida pela envergadura maior dos oponentes. Ganhou de Smith (1,93m) e Tucker (1,96m) por pontos, na decisão dos jurados, não com os nocautes brutais pelos quais se notabilizara.

Não por outro motivo, com apenas 21 anos, Tyson começou a ser questionado por parte do público e da mídia especializada. Ambos iniciaram uma campanha para lembrar ao jovem fenômeno que ainda havia outro campeão na categoria, igualmente invicto: Michael “Jinx” Spinks.

Campeão olímpico em Montreal-1976, na verdade Michael Spinks não só nunca havia perdido uma luta em sua carreira profissional, como sequer tinha sofrido uma queda, até seus 31 anos. Pugilista técnico, veio da categoria dos meio pesados. Era considerado o irmão “ajuizado” do errático Leon Spinks, que por sua vez ganhara e perdera o cinturão dos pesos pesados em 1978, em dois combates decididos por pontos, contra o legendário campeão Muhammad Ali (1942/2016), maior lutador de todos os tempos.

Por conta do seu respeitável cartel de 31 lutas, 31 vitórias e 21 nocautes, Michael Spinks se tornou um mantra na boca dos detratores de Mike Tyson. Até entrar no ringue naquela noite de junho de 1988, para defender seu cinturão, Tyson teve que ouvir durante todo o ano anterior a advertência, transformada em campanha para provocá-lo: “Mas tem o Michael Spinks! Mas tem o Michael Spinks!”.

No Trump Plaza Cassino, com a presença do proprietário Donald Trump, hoje candidato republicano a presidente dos EUA, espécie de “Bolsonaro” acima do Equador, o clima era de tensão e expectativa. E, soado o gongo inicial, a luta durou exatamente 91 segundos.

Após aguardar um ano por aquele combate, transmitido ao vivo pela TV para todo o mundo, o desavisado saiu da sala para pegar uma cerveja na geladeira da cozinha. E se surpreendeu quando voltou para constatar, incrédulo, um Spinks humilhantemente atirado fora das cordas do ringue, com as órbitas perdidas dos olhos em direções opostas ao mesmo nada.

Após encerrar a luta com um gancho de direita devastador contra a testa do desafiante, ainda na metade do primeiro assalto, Tyson abriu os dois braços e repetiu ao mundo sua indagação: “Where’s Michael Spinks? Where’s Michael Spinks?” (“Onde está Michael Spinks? Onde está Michael Spinks?”).

Depois do resultado das urnas de Campos no último domingo, com uma vitória avassaladora de Rafael Diniz (PPS) nas sete Zonas Eleitorais do município, ainda no primeiro turno, na qual o jovem neto de Zezé Barbosa derrotou 28 anos depois o envelhecido algoz do seu avô, tem muita gente até agora perguntando a mesma coisa.

 

Publicado hoje (09) na Folha da Manhã

 

Confira no vídeo abaixo o massacre de Tyson sobre Spinks:

 

 

 

O homem e o mar — Atafona de dentro do Atlântico

Nadinho 1
Sobre as águas azuis do oceano, o “Paleta de Ouro” recebe visita (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Atafona vista do Atlântico (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Atafona vista do mar barrento já próximo da foz (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

O pescador se chamava Nadinho. Alto, ombros largos, alourado, pele clara curtida de sol, era um muxuango descrito por Alberto Lamego em “O homem e a restinga”. Levava os genes de corsários holandeses e ingleses que, em passado remoto, teriam encalhado próximos à foz do rio Paraíba do Sul.

No vingar desse sangue europeu setentrional pelas gerações, mesmo misturado ao de portugueses, negros e índios, a Ilha da Convivência passaria a ser também conhecida como “Ilha dos Olhos Azuis”. Foi nela que Nadinho nasceu e aos 10 anos aprendeu a pescar com o pai, Arnaldo — que lhe deu nome, repetido depois no neto, e ofício.

Às 4 da manhã, na escuridão do inverno antes do sábado nascer, o pescador levava passageiro ao navegar mais uma vez pela foz do Paraíba rumo ao Atlântico, na lida à qual se acostumou com menos companhia:

— Só eu e Deus! E quem está com Deus, não está sozinho!

Nadinho conduzia com segurança a roda do leme do “Paleta de Ouro”, dentro da cabine do barco de madeira de 11,2 metros, homônimo a um barco antigo do pai — como o filho era deste. O passageiro, atrás da cabine, olhava sobre esta e a proa para o oceano enegrecido de noite. Sentia na face o vento frio e úmido, enquanto aferia a linha do horizonte pelas luzes dos barcos saídos antes.

Com mar muito mexido a partir da pororoca — gerúndio em tupi do verbo estrondar — na boca da foz, as ondas grandes eram literalmente surfadas, uma a uma, com habilidade, pelo condutor do barco. Com um passado de intimidade com Iemanjá, o passageiro foi salgado no presente pela onda que lhe molhou a face e a máquina fotográfica pendurada ao pescoço.

Sentou-se na entrada da cabine e abriu o casaco impermeável para expor a malha de algodão da blusa. Enquanto limpava com ela a câmera, seus olhos agora voltados à popa fotografavam as aparições do dorso negro das grandes ondas deixadas para trás. Eram desveladas por instantes no contraste com as luzes do continente, que se distanciavam lentamente no mesmo sentido.

Após uma hora e 10 minutos surfando ondas, chegaram num ponto para pesca de peroá (Balistes capriscus) conhecido de Nadinho, como se fosse qualquer outro lugar de terra em Atafona. Jogou a âncora de 20 kg, cuja corda revelou a profundidade de 10 metros.

Antes do dia nascer, lançadas da popa, já estavam nas águas ainda escuras três linhas de nylon 0,100 mm, cada uma com doze anzóis, seis de cada lado. Espetados neles eram intercalados metades de siris, como engodo para atrair os peroás, e camarões, aos quais os peixes morderiam para iniciar uma luta de vida e morte contra a fisga trespassada à própria boca.

Nos dois cantos extremos da popa, iam linhas cujas boias de garrafa pet, pela forma e função, lembravam os barris arpoados ao aterrorizante grande peixe do filme “Tubarão” (1975), de Steven Spielberg. Do lado direito do “Paleta de Ouro”, na altura da porta traseira da sua cabine, ia mais uma linha de fundo.

Quando o sol nasceu, parido pelo mesmo horizonte em que pescador e seu passageiro balançavam como crianças impotentes no berço, se deram a ver, algumas centenas de metros adiante, dois grandes cargueiros dos mares do mundo. Ancorados, esperavam a vez para se abastecerem de minério de ferro no Porto do Açu.

 

(Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Algumas centenas de metros adiante, após as aves marinhas, os cargueiros do mundo (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

Com o dia, vieram os primeiros peroás negros, embora apresentem cor cinza. O pescador explica que, embora ele próprio goste mais do sabor da carne destes, não são tão valorizados quanto os azuis e geralmente mais graúdos peroás do leste.

A maioria dos peixes era puxada do mar pela linha com boia da esquerda:

— Nunca que vou entender isso. Como pode com a linha do lado da outra, uma pegar tanto peixe e a outra não? — questionou Nadinho.

— Vai ver os peroás gostam mais de guaraná Tobi do que de Coca-Cola! — brincou o passageiro, em referência ao rótulo que ainda sobrevivia na garrafa pet verde da sortuda linha canhota, em contraste com a similar de plástico transparente e tampa vermelha, sinalizando como boia o azar da direita.

 

(Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Linha sortuda da esquerda com cinco peroás fisgados de vez (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

Enquanto os peroás eram fisgados, às vezes cinco na mesma linha, o passageiro não pôde deixar de notar o constrangedor contraste entre sua própria movimentação dentro do barco e a do pescador. Enquanto o primeiro só conseguia caminhar, ao balanço das ondas, se apoiando com as mãos, Nadinho o fazia com tanta naturalidade dos passos, equilíbrio do tronco e liberdade dos punhos, que lembrava um pugilista de maturidade técnica dentro do ringue.

Embora os peróas compusessem a grande maioria do pescado que foi enchendo as caixas de frigorífico, dois baiacus arara (Lagocephalus laevigatus) também foram capturados. Um deles após cortar a tal linha esquerda e arrancar com suas poderosas mandíbulas o lombo de um xarelete (Caranx hippos) fisgado ao anzol.

Após limpar o baiacu arara, separando sua parte comestível da cabeça e vísceras, Nadinho exibe na mão esquerda a glândula venenosa de cor verde que, se cortada, envenena a carne do peixe (Foto : Aluysio Abreu Barbosa)

Por experiência própria, o passageiro já sabia que aquela espécie de baiacu era não só comestível, desde que corretamente limpo, como delicioso. Conhecimento que Nadinho acresceu da malandragem de pescador:

— Tem dono de peixaria que compra baiacu e vende em posta, dizendo ser garoupa (Epinephelus marginatus), porque têm a mesma carne branca. A nós, não conseguem enganar. Mas para quem não conhece direito…

Entre um peroá e outro, sobrou espaço para o pescador falar sobre sua experiência com outro tipo de vida marinha. Do peixe mais temido do mar, disse que nunca cruzou com um tubarão branco (Carcharodon carcharias), personagem do filme de Spielberg.

Mas, com malhão (rede de malha larga, para prender peixes maiores), já pescou outras espécies de tubarão bastante agressivas, como o cabeça chata (Carcharhinus leucas), responsável pelo maior número de ataques a seres humanos no litoral brasileiro, e o tigre ou tintureira (Galeocerdo cuvier).

Da última espécie, lembra já ter pescado um tubarão tigre que deu 198 kg depois de limpo:

— Mas foi até difícil de vender, porque o tintureira não tem a carne boa — ressalvou, ao esclarecer que a maior parte do cação vendido em Atafona vem daquele que ele e os demais pescadores chamam de “torce torce” (pelo hábito de rodar sobre seu eixo quando capturado, como todo tubarão), também conhecido como caçonete (Mustelus norrisi).

Nadinho cabine
Com a mão na roda do leme e o corpo para fora da cabine, Nadinho conduz o “Paleta de Ouro” na reentrada pela foz do Paraíba (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

Uma história violenta com tubarões foi vivida não por Nadinho, mas por um primo que é seu vizinho no Pontal de Atafona, para onde se mudou ao sair da Convivência, há quase 30 anos:

— Uns 10 anos depois, meu primo, o Genilto estava recolhendo uma rede mijuada (ancorada). Um cação marimbondo (Lamna nasus, conhecido como marracho), que eles já tinham recolhido, estava no chão do barco. Quando ele cruzou na frente, o cação deu o bote e arrancou a barriga da perna dele. Quando abriram o bicho, acharam o pedaço da perna dentro do seu bucho. E Genilto ficou com aquela roda pra dentro da perna.

Já com o maior de todos os peixes, o encontro foi pacífico. Apesar de atingir até 20 metros e 13 toneladas, o dócil tubarão baleia (Rhincodon typus) se alimenta só de plâncton (microorganismos) e outros invertebrados, que filtra na água com sua boca imensa, enquanto nada lentamente:

Nadinho limpa alguns dos peroás maiores ainda dentro do barco (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Nadinho limpa alguns dos peroás maiores ainda dentro do barco (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

— Estava no “Paleta de Ouro”, mais dois companheiros, pescando de caída (rede para peixes que fica flutuando ao sabor da corrente marinha), no mar de Quissamã. Ele era um pouco maior que o barco (11,2 m). Devia ter uns 12 metros. Nadava devagar, com as costas todas pintadas de branco (característica do dorso do animal). Um amigo encostou nele com o bicheiro (haste com um anzol grande na ponta, usado para ajudar a trazer os peixes ao barcos) e ele afundou.

Foi também no seu próprio barco que Nadinho encontrou os maiores seres do mar, as baleias de verdade, mamíferos, não peixes, que costumam aparecer no litoral de Atafona nos meses invernais de junho e julho. Um desses encontros, poderia ser narrado nas páginas de “Moby Dick” (1851), clássico romance de Herman Melville (1819/91):

— Estava com mais dois companheiros, pescando de malhão. De repente uma baleia se embolou na rede e começou a puxá-la, arrastando o “Paleta de Ouro” com se fosse um barco de papel. Durou cinco minutos, mas foi muita tensão. Acho que elas nem sabem a força que têm. Aí, quando íamos cortar a corda da rede, para nos soltar, a baleia pocou ela.

Entre histórias do mar, seus homens e outros seres, três caixas de frigorífico foram cheias, cada uma com 25 kg de pescado. Vendida por R$ 3 o quilo para os frigoríficos, chegam ao consumidor final, nas peixarias de Atafona, a R$ 9; ou R$ 10, no Mercado de Campos. R$ 225 pelas três caixas de peixe, menos R$ 100 do diesel e das iscas, dão um lucro líquido como o mar — mas bem menor — de R$ 125.

 

Cara-ventos de Gargaú nascem na parte direita da proa (Foto; Aluysio Abreu Barbosa)
Cara-ventos de Gargaú florescem entre céu e mar, à direita da proa (Foto; Aluysio Abreu Barbosa)

 

Foi o que deu, até por volta das 14h, quando os peroás pararam de bater, mesmo na linha sortuda da esquerda, da boia verde de guaraná Tobi. Após Nadinho recolher linhas e âncora, com mar bem mais calmo, o retorno durou 40 minutos. Cada segundo deles na proa, a ver nascerem e crescerem lentamente no horizonte os cata-ventos da usina eólica de Gargaú, à direita, e Atafona, à esquerda, com suas ruínas e casuarinas.

Num cenário tão íntimo ao pescador, o passageiro viu pela primeira vez a foz do Paraíba e seu litoral de dentro do Atlântico. Era fisgada para desaguar a vida inteira.

 

Nadinho Atafona 1
No caminho de volta, Atafona nasce à esquerda do horizonte (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

 

Página 5 da edição de hoje (14) da Folha
Página 5 da edição de hoje (14) da Folha

 

Publicado hoje (14) na Folha da Manhã

 

Virá impávido que nem George Steiner

Sujeito que conheci pessolmente há muito pouco tempo, mas que não dá para deixar de causar (boa) impressão pelo brilho da carreira acadêmica e envergadura do raciocínio, mesmo quando diametralmente oposto ao nosso, o sociólogo Brand Arenari, estreou hoje como colaborador da Folha. A partir desses contatos, ele me enviou pela democracia irrefreável das redes sociais uma entrevista com George Steiner, feita pelo jornalista Borja Hermoso e publicada em El Pais.

Escritor, filósofo e professor das universidade de Cambridge e Genebra, judeu francês de 87 anos, criança refugiada da expansão no nazismo (1933/45) pela Europa, Steiner não perdeu o humor, tratando grandes gênios da história como referências cotidianas, para falar de questões muito sérias. Daquilo que Sigmund Freud (1856/1939) não previu na sexualidade humana, à gangrena do dinheiro no caráter do homem antevista por Karl Marx (1818/83), sem perdoar os grandes erros da espécie contra si no nazifascismo e no comunismo, ele centrou fogo na péssima formação cultural que o atual sistema de ensino impõe universalmente aos nossos filhos e netos.

Por motivos pessoais, de memória afetiva, mas também da razão, por endossar um raciocínio próprio sobre o qual cheguei a escrever (aqui) antes de lê-lo nas palavras do mestre, segue abaixo um pequeno trecho — na intersecção entre as ditas “baixa” e “alta” culturas — da entrevista que merece ser lida na íntegra aqui:

 

George Steiner em sua casa em Cambridge (foto de Antonio Olmos - El Pais)
George Steiner em sua casa em Cambridge (foto de Antonio Olmos – El Pais)

 

P. O senhor diferencia a “alta” cultura e a “baixa” cultura, como fazem alguns intelectuais de renome, visivelmente incomodados com formas da cultura popular como os quadrinhos, a arte urbana, o pop ou o rock, para as quais se chegou a criar o rótulo de “civilização do espetáculo”?

R. Vou lhe dizer uma coisa: Shakespeare teria adorado a televisão. Ele escreveria para a televisão. E não, eu não faço esse tipo de distinção. O que realmente me entristece é que as pequenas livrarias, os teatros de bairro e as lojas de discos estejam fechando. Por outro lado, os museus estão cada vez mais cheios, as multidões lotam as grandes exposições, as salas de concerto estão cheias… Portanto, cuidado, porque esses processos são muito complexos e diversificados para se querer fazer julgamentos generalizantes. O senhor Muhammad Ali era também um fenômeno estético. Como um deus grego. Homero teria entendido perfeitamente Muhammad Ali.

 

Das lágrimas, versos ao campeão

Ocinei Trindade
Ocinei Trindade

Quando Muhammad Ali morreu, na noite de 3 de junho, alguma coisa em mim se quebrou. Talvez porque Ali fosse a maior referência ainda viva do meu pai sobre mim. Não por outro motivo, escrevi sobre ele (aqui), no artigo do domingo seguinte. E depois aqui, na terça sequente, para anunciar a exibição e debate do documentário “Quando éramos reis”, de Leon Gast, sobre a disputa de título entre Ali e George Foreman, em Kinshasa, capital do Zaire, hoje República Demorática do Congo, pulsando no coração da África e no Cineclube Goitacá.

Após o filme, na última quarta (aqui), em meio ao debate, confesso que o mais comovente, para mim, foi perceber o poeta e jornalista Ocinei Trindade em meio às lágrimas, pelo que acabara de assistir. Longe de um entusiasta, como eu, do mundo das lutas, o pranto alheio (e comum) confirmou aquilo que o comediante judeu Billy Crystal disse (para quem entende inglês, aqui) no belo discurso funerário sobre o mitológico campeão de boxe, seu “big brother” muçulmano: “Ele tinha a capacidade de extrair, sempre, o melhor de todos nós”.

Lembro que, no correr do debate, Ocinei comentou que o título do filme era equivocado: “Com B. B. King, James Brown, George Foreman e Muhammad Ali, o nome desse filme não deveria ser ‘Quando éramos reis’, mas ‘Quando éramos deuses’”. Como entre os antigos gregos que criaram o pugilato e uma tal Civilização Ocidental, aqueles deuses descidos em 1974, na África que pariu o homem, eram mais divinos, justamente por humanos.

Nos versos escritos hoje (aqui) pelo poeta, a intersecção que há entre homens e deuses:

 

 

 

 

Quando Muhammad Ali me fez chorar

 

Não era só um filme, era uma vida.

Não era uma despedida, era um encontro.

Não era só uma luta, era missão.

Não era só uns milhões de dólares, era tudo.

Não era só um espetáculo, eram ossos e músculos.

 

Havia sangue e suor escorrendo pelo meu corpo.

Existe ainda alguém desafiando deuses e heróis?

Senti um aperto no peito, desses que corrói.

Destruir gigantes no Olimpo não é fácil.

Imagina só o Titã que sabe na alma onde dói.

 

Toda a beleza que sua realeza invoca.

Não sei bem o que provoca aqui dentro.

Só sei que estou dentro de um ringue de lutas.

É uma estranheza assim meio filha da puta

que não quer me parir, não quer sair, nem partir.

 

Desconfio que Muhammad Ali é um puro pretexto.

Serve para me levar aos lugares sombrios onde nunca vou.

Ajuda-me a imaginar o rei ou o homem que eu sempre sou:

Vencido, desiludido, impedido, sentido.

Amargurado, angustiado, atribulado, atrelado ao show.

 

Quando o outro importa mais que eu, onde me ponho?

Um mundo cercado de mediocridade e casebres medonhos.

Não sei bem onde se esconderam aqueles antigos e alegres sonhos.

É uma multidão a repetir palavras, frases e sons enfadonhos

Um homem tristonho e vazio não merece muito além de rima feia.

 

Chicoteia a minha pele que não para de ressecar e murchar.

Será que a velhice não passa de uma outra combatida ilusão?

Percebo mais perto a morte rondando o jardim sem flores.

Pressinto, decerto, a vida mais ávida por idiotices e dissabores.

É a melancolia, sim, instalada entre o umbigo e a garganta.

 

Não sei se adianta muito eu chorar ou lágrimas disfarçar.

Só sei que ali diante de Ali, eu me senti ainda mais diminuído.

Fui engolido por todos os fanáticos estúpidos maometanos.

Fui devorado por todos os cristãos imbecis e profanos.

Fui esmagado por judeus intolerantes, gananciosos e insanos.

 

Antes de estar ali com Ali, encontrei Jesus no templo.

Não muito tempo ali permaneci, mas sei que o vi e ele a mim.

Estava disfarçado em mortalha e capuz escondido atrás da palavra.

Pediu para que eu orasse e não me comportasse como hipócritas exibidos.

Obedeci, mas depois, talvez, percebi que não o atendi tão bem assim, remido.

 

Eu menti para os meus seguidores e seus fingidores.

Omiti a verdade de mim mesmo provavelmente,  receio.

Clamei ao Tempo uma pausa, uma outra ilusão, mas ela não veio.

Talvez precisasse de uma mão sem luvas para me esbofetear.

O soco de Ali para me nocautear além do Oceano e eu afogar certeiro.

 

Creio que todo aquele gozo foi deveras insuficiente para toda a gente.

Deveria eu ter sido bem mais pecador e, quem sabe, ainda mais indecente.

Poderia me desnudar inteiro, sóbrio ou ébrio, pelas ruas de Kinshasa.

Não fiz tudo, nem tudo chorei, nem toquei Maomé, nem Jesus, nem Ali.

Voltei sozinho e tocado por eles para a casa onde moram palavras cheias de si.

 

Campos, 17.06.2016

 

“Quando éramos reis”, nesta quarta, no Cineclube Goitacá

Ali x Foreman

 

 

Num ano de perdas, algumas irreparáveis, o que nos resta é manter vivo o legado. Neste sentido, nessa quarta (15/06), na sala 507 do edifício Medical Center, no cruzamento da rua Conselheiro Otaviano com avenida 13 de Maio, o Cineclube Goitacá vai exibir e debater o filme “Quando éramos reis”, de Leon Gast. Oscar de melhor documentário em 1997, narra em detalhes um evento de 23 anos antes. “The rumble in the jungle” (“A luta na selva”), foi o título promocional dado à disputa do título profissional peso pesado de boxe, na África, entre o jovem campeão George Foreman e seu desafiante, Muhammad Ali, considerado antes e depois o maior pugilista de todos os tempos — morto (aqui), aos 74 anos, na noite do último dia 3 de junho.

Caetano Veloso admitiu não gostar de boxe, mas escreveu “virá impávido que nem Muhammad Ali”, na música “Um índio”. E “Quando éramos reis” é uma oportunidade documental única para constatar o encontro da cultura black em sua explosão nos EUA dos anos 1970, sendo levada de avião ao coração da África, às margens do legendário rio Congo, em Kinshasa, capital do então Zaire, hoje República Democrática do Congo. Emblematicamente, era a primeira vez que dois campeões negros de boxe, esporte majoritariamente dominado por atletas negros, decidiriam o cinturão de todos os pesos na África.

Ao velho continente que pariu a espécie humana, voltavam como reis os descendentes daqueles que séculos antes saíram acorrentados como escravos. Neste sentido pascal de retorno, foram promovidos shows com estrelas negras da black music dos EUA, como o mestre do blues B. B. King (aqui) e o rei do soul James Brown. No estádio de futebol de Kinshasa, onde seria realizada a luta, os músicos negros estadunidenses se apresentaram para dezenas de milhares de africanos, dançando e cantando juntos como a mesma tribo.

Mesmo de pele mais clara do que Foreman, Ali era adorado pelos africanos muito antes de lá disputar um título de boxe. Na África e no planeta, sua fama já havia conquistado fãs, sobretudo nos países do terceiro mundo, não só pela técnica exuberante do pugilista, mas por conta da sua luta pelos direitos civis dos negros nos EUA, da sua conversão ao islamismo, quando trocou o nome de Cassius Clay para Muhammad Ali, e da sua recusa em lutar na Guerra do Vietnã (1955/75), quando teve seu título de campeão revogado pelo governo dos EUA, quase acabou preso e foi impedido de boxear por três anos e meio. Roubaram aquele que seria o período áureo da carreira de qualquer atleta.

Foi dessa empatia com o povo africano que Ali se valeu, extraindo do coro “Ali, buma ye! Ali, buma ye!” (“Ali, mata ele!”) a força para fazer o impossível, chocando mesmo jornalistas experientes como Norman Mailer e George Plimpton, que dão seus depoimentos no documentário, assim como o cineasta e ativista do movimento negro Spike Lee. Como este diz em determinado momento do filme, independente do tempo em que se viva, é muito difícil se ter a oportunidade de poder conviver com heróis de verdade.

É que quando Ali lutava, dentro ou fora dos ringues, todos éramos reis.

 

Confira nos vídeos abaixo a música de Caetano e o trailer do filme de Leon Gast:

 

 

 

 

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