Opiniões

Fabio Bottrel — Sábado com Cecília

 

Sugestão de música: Leonard Cohen – Come Healing

 

 

 

 

 

 

Buscando nos espelhos a face perdida ou nos anseios o reflexo outrora esquecido, compartilho nesse sábado o Retrato de Cecília Meireles, poetisa da minha predileção por sua sonoridade e ritmo, que a vida siga num compasso com mais afinco:

 

“Eu não tinha este rosto de hoje,

Assim calmo, assim triste, assim magro,

Nem estes olhos tão vazios,

Nem o lábio amargo.

 

Eu não tinha estas mãos sem força,

Tão paradas e frias e mortas;

Eu não tinha este coração

Que nem se mostra.

 

Eu não dei por esta mudança,

Tão simples, tão certa, tão fácil:

— Em que espelho ficou perdida

a minha face?”

 

Recado aos Amigos Distantes, nas palavras de Cecília,  que minha frase homônima ao título seja carregada numa brisa leve de vida para outras bocas e outros ouvidos até o amigos de outrora jamais esquecidos, que fiz antes de pousar na planície goitacá:

 

“Meus companheiros amados,

não vos espero nem chamo:

porque vou para outros lados.

Mas é certo que vos amo.

 

Nem sempre os que estão mais perto

fazem melhor companhia.

Mesmo com sol encoberto,

todos sabem quando é dia.

 

Pelo vosso campo imenso,

vou cortando meus atalhos.

Por vosso amor é que penso

e me dou tantos trabalhos.

 

Não condeneis, por enquanto,

minha rebelde maneira.

Para libertar-me tanto,

fico vossa prisioneira.

 

Por mais que longe pareça,

ides na minha lembrança,

ides na minha cabeça,

valeis a minha Esperança.”

 

“Pontal” e suas muitas histórias reestreiam no Teatro de Bolso, às margens do Paraíba

 

 

 

De 2010, quando “Pontal” estreou numa noite de verão no Pontal de Atafona, muita coisa mudou nos sete últimos anos. A começar pelo próprio palco da peça, no antigo Bar do Bambu — “que agora é ponto de parada de sereias e outros viventes do mar”, como definiu o jornalista José Cunha Filho. Dono do bar, conhecido como “Bambu”, Neivaldo Paes Soares (aqui) desapareceria misteriosamente após sair navegando sozinho pelo foz do rio Paraíba do Sul, numa noite fria de 21 de junho de 2015. Um pouco antes, quem também desapareceu atrás das cortinas foi o genial diretor e um dos autores da peça: Antonio Roberto de Góis Cavalcanti, o Kapi (aqui), morto por complicações do HIV em 2 de abril de 2015.

Fiel ao lema “o espetáculo não pode parar”, “Pontal” foi encenada nestes anos seguintes em vários outros palcos, entre São João da Barra e Campos. Antes de voltar à cena a partir das 20h de hoje (30), no Teatro de Bolso (TB) Procópio Ferreira, às margens do mesmo rio Paraíba véio de guerra, a última apresentação da peça não poderia ter sido mais emblemática: no mesmo palco, durante o Ocupa TB, movimento que durou entre 9 de maio e 6 de junho de 2016, quando os artistas de Campos tomaram para si (aqui) as rédeas abandonadas do mais tradicional espaço cultural da cidade. Fechado desde 2014 pela gestão Rosinha Garotinho (PR), o TB só seria reaberto (aqui) em 27 de março de 2017, no governo Rafael Diniz (PPS).

Composta de poemas de Aluysio Abreu Barbosa, Kapi, Artur Gomes e Adriana Medeiros sobre Atafona, contados como causos entre pescadores do tradicional balneário sanjoanense, “Pontal” apresentou nessa última encenação, em pleno Ocupa TB, o mesmo elenco que hoje volta ao mesmo palco: os atores Yve Carvalho (que assumiu a direção, após a morte de Kapi), Saullo Oliveira e Jota Z — os dois últimos estavam entre os artistas que participaram da ocupação. Quando o Ocupa TB completou um ano (aqui), em maio deste ano, outro jovem ator e ocupante do teatro, Átalo Willian Sirius, registrou (aqui) em suas memórias do histórico movimento das artes goitacá:

— Enquanto estávamos ocupados, organizamos e participamos de oficinas, shows, aulas, inclusive organizamos o espaço para uma peça, “Pontal”, reabrindo o palco do Teatro de Bolso, que, de conhecimento público, estava fechado há mais de dois anos.

Nestes sete anos, no palco e fora dele, são muitas as histórias que poderiam ser contadas sobre “Pontal”. Muitas delas certamente renderiam outros poemas e peças. Quem ainda não tem as suas, terá chance de escrevê-las por conta própria hoje, nos próximos sábado (01/07) e domingo (02), e na quinta (06), sexta (07), sábado (08) e domigo (09) da semana seguinte, sempre às 20h. O ingresso pode ser comprado no próprio TB e sai por R$ 20 a inteira e R$ 10, a meia.

A benção, Kapi e Neivaldo!

 

 

Pontal na boca da foz do Paraíba aberta ao Atlântico, em 19/06/17 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

muda(*)

 

a memória sai da toca

sobe pela palafita

ainda escorrendo lama

e me fita

com olhos de caranguejo

entre as tábuas do piso

do bar do espanhol

quando o pontal era ponta

tinha fé de igreja

e luz de farol

 

na boca do mangue

passei minha rede de arrasto

mas só peguei filhotes de bagre

que me ferraram o pé

ao chutá-los de volta à água

até que pedro me ensinou

a pegar pitu de mão

entre raízes do mato

na beira do alagadiço

 

hoje passo no mangue

e não piso na lama

mas na asfixia lenta

dos aterros do homem

e do avanço do mar

perto das ilhas da convivência e peçanha

siamesas da mesma terra

onde ficou minha casca da muda

de caranguejo a espera-maré

 

atafona, 06/2000

 

 

(*) Poema de Aluysio Abreu Barbosa, vencedor do FestCampos de Poesia de 2007 e parte da peça “Pontal”

 

Guilherme Carvalhal — Placebos

 

 

 

Onório assistiu uma palestra motivacional. O palestrante falou sobre a importância de superar seus próprios limites, de enxergar a si mesmo sempre como a um vencedor. Disse que pessoas proativas sempre estão um passo adiante em relação às outras. Depois dessa enxurrada de conteúdo, trabalhou com mais motivação do que nunca. Ao contrário de suas expectativas, seu chefe não lhe deu aumento.

Flávia recebeu o panfleto de um vinho francês. A vinícola de três séculos de tradição colhia uvas semi-amarelas, garantindo um tom suave à bebida devido à maturação incompleta. A fermentação matizada gerava uma quantidade maior de açúcares, o que formava seu sabor singular. Ela comprou uma garrafa e a bebeu concluindo jamais ter provado um vinho de tamanha qualidade. Mal sabia que a contrabandearam pelo Paraguai após encherem a garrafa com uma sangria qualquer.

Joca foi assistir ao filme do Capitão Pedrada. Toda a crítica o considerou um grande filme de ação, um dos melhores do gênero já realizados. Apesar de preferir comédias românticas, optou por ele. Vibrou, torceu, até suou. Saiu da sala de cinema realizado diante de tantas aventuras. No outro hemisfério do mundo, críticos que torceram o nariz ao ver o filme torravam os milhares de dólares distribuídos pela produtora para melhorar a imagem da obra.

Américo se desesperou com a falta de chuva e a perda de sua lavoura. Recorreu a um pastor que assentou pela vila uns meses antes, a quem todos atribuíam fama de milagreiro. Entrou na igreja, depositou vários de seus bens no altar, ajoelhou e orou em voz alta. Dois dias depois começou uma forte tempestade que salvaria seu ano. Infelizmente não acessou os relatórios meteorológicos de duas semanas atrás, que já previam a mudança de tempo, nem imaginava a viagem do pastor pela Europa usufruindo o dinheiro dos fiéis.

Mariana deu ré no carro e bateu no que estava estacionado logo atrás. Ele tem mais que eu, pensou na hora que decidiu fugir ao invés de assumir sua responsabilidade. No mais, todo mundo agiria assim, e se escafedeu do local. Deixou um prejuízo de 2 mil reais para o outro proprietário, este em vias de vender o carro para custear o tratamento de câncer do filho de quatro anos, e dormiu tranquilamente à noite.

Joaquim arrumou uma namorada virtual. Trocavam juras de amor todos os dias, conversavam por videoconferência, pareciam fisicamente próximos. Combinavam de se encontrar pessoalmente, aguardando as férias. Enquanto isso ele dormia com a foto dela embaixo do travesseiro, enquanto ela mais uma vez seguia aos clubes de swing que tanto a divertiam.

Roberta se propôs a conhecer os candidatos no horário eleitoral gratuito. E votou em um deles.

 

Gustavo Alejandro Oviedo — O futuro chegou

 

(Foto: Filipe Lemos – Campos 24H)

 

 

“Eu não disse?” Talvez esta seja uma das frases mais odiosas que possam existir. O sujeito se espatifa no chão, se da mal, se lasca, se ferra, etc. Ai vem outro e lhe espeta: “Eu não disse?”. Dá vontade de mandá-lo para algum lugar.

Portanto, desculpem de antemão. Mas, infelizmente, nos não dissemos?

O desembargador Marcelo Pereira da Silva do TRF do Rio de Janeiro derrubou a liminar que mantinha a obrigação do Municipio de Campos de pagar o empréstimo contraído pelos Garotinho em até o limite de 10% das receitas provindas dos royalties e participações especiais. Por enquanto, existe a obrigação de devolver o dinheiro tal e como foi contratado.

É bom recordar que o ex secretario de Rosinha Garotinho conseguiu, graças ao seu amigo Crivella, que o Senado flexibilize a regra de concessão de empréstimos em troca das receitas futuras. Antes da Resolução 002/2015, o prazo para a devolução do dinheiro não podia ultrapassar o mandato da gestão do administrador que pedia emprestado. Após sua aprovação, essa limitação temporal foi relaxada – agora, outros governos podem continuar pagando. Porém, há na norma uma limitação que estabelece que o máximo que pode ser pago é 10% do que entrar nos cofres da prefeitura, por ano.

Essa limitação de devolução do empréstimo com apenas 10% dos royalties recebidos foi muito explorada por Garotinho, dando a entender que o pagamento ia ser quase insignificante. No seu programa de rádio ‘Entrevista Coletiva’ do dia 17 de outubro de 2015, Garotinho explicou (mal) que esse 10% ia significar um sobrecusto de ‘menos de 1% ao mês’, confundindo o teto com a taxa de juros.

Curiosamente, após ter tranquilizado a população indicando que a quantia a restituir seria um décimo do que for recebido de royalties, o co-prefeito  combinou com a Caixa Econômica Federal em devolver muito mais do que isso. Em fevereiro deste ano, a CEF ficou com quase 50% do que o município deveria receber, apesar da resolução do Senado. Isso é o que hoje está sendo discutido na justiça.

Só para lembrar: Garotinho pegou emprestado 562 milhões, e comprometeu os futuros gestores (e a população campista) a devolver 1,34 bilhão, até 2026.

Na edição da Folha da Manhã do dia 17 de outubro de 2015, referindo-me as absurdas desculpas dadas por Garotinho para justificar a operação de crédito, escrevi:

“Tudo o exposto não pode menos do que inquietar qualquer campista com um mínimo de preocupação em relação ao futuro do município. Ainda mais quando o governo municipal se nega a explicar com transparência uma operação financeira que será suportada em mais de 90% pelas próximas administrações- pensando bem, talvez a falta de esclarecimento se deva precisamente a isso.”

A Folha da Manhã batizou as operações financeiras que os Garotinho fizeram desde 2015 como ‘A Venda do Futuro’, o que provocou, à época, o protesto de vereadores, de funcionários da prefeitura e até de jornalistas de outras mídias, que se apresavam a esclarecer que o termo era um subjetivismo do jornal. A foto que encabeça este texto mostra alguns legisladores zoando com a frase.

Caso não se consiga reconhecer as pessoas da fotografia, são eles: Dona Penha , Cecília Ribeiro Gomes, Fábio Ribeiro, Ozéias, Thiago Virgílio, Albertinho,  Neném, Miguelito, Paulo Hirano, Abdu Neme, Mauro Silva, e Edson Batista. Não estão na foto Álvaro César, Auxiliadora Freitas e Altamir Bárbara. Todos eles autorizaram a ‘Venda do Futuro’.

 

Prefeitura vai denunciar governo Rosinha pela destinação da “venda do futuro”

 

Charge do José Renato publicada hoje (28) na Folha

 

 

Ainda esta semana a procuradoria geral de Campos vai denunciar a gestão anterior do município, de Rosinha Garotinho (PR), pela não destinação dos recursos da antecipação dos royalties com a Caixa Econômica Federal (CEF) naquilo previsto pela resolução nº 43 do Senado e na Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). De acordo com o procurador José Paes, um levantamento da secretaria de Transparência e Controle constatou que os recursos teriam sido aplicados pelos Garotinho em despesas de custeio e obras que estavam paradas:

— A resolução do Senado e a LRF determinam que o dinheiro dessas operações teriam que ser aplicados no PreviCampos e em investimentos novos. Não em custeio ou em obras que estavam paradas por falta de previsão orçamentária ou prévio empenho. E, quanto ao PreviCampos, todos sabem que o governo anterior, no lugar de colocar, tirou dinheiro da previdência do servidor.

José Paes também disse que se darão em duas frentes a reação jurídica da Prefeitura de Campos contra a decisão do desembargador Marcelo Pereira da Silva, do Tribunal Federal do Estado do Rio de Janeiro (TRF-RJ), que na última segunda (26) derrubou a liminar anterior, da Justiça Federal do Rio, que garantia ao município pagar à Caixa apenas os 10% dos royalties previstos na resolução do Senado. Os recursos serão feitos tanto no TRF-RJ, quanto no Superior Tribunal de Justiça (STJ) em Brasília:

—  Estamos fechando o levantamento das secretarias de Controle e Ciência e Tecnologia (que engola a antiga pasta do Petróleo) para mostrar ao desembargador, ao TRF e ao STJ que essa decisão inviabiliza financeiramente o município. E estou esperançoso de que tenhamos êxito — disse o procurador do município.

A assessoria de Rosinha se manifestou sobre a ameaça da administração dela ser denunciada pelo governo Rafael Diniz (PPS):

— A ex-prefeita Rosinha Garotinho afirma que agiu estritamente dentro da lei. Diz ainda que já passou da hora de o atual prefeito parar de arrumar desculpas e começar finalmente a governar a cidade de Campos.

 

Atualização às 20h26 para correção

 

Atualização às 20h34 para incluir a resposta de Rosinha 

 

Leia a matéria completa na edição de amanhã (29) da Folha

 

Caos à vista: Caixa liberada para cobrar “venda do futuro” nos termos de Rosinha

 

Em 12 de abril de 2016, Garotinho, Rosinha e a presidente da Caixa de Dilma, Miriam Belchior, quando venderam o futuro de Campos (Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

 

Desde ontem à noite, caiu a liminar da Jutiça Federal que impedia Campos de pagar a “venda do futuro” nos termos do contrato celebrado entre o governo Rosinha Garotinho (PR) e a Caixa Econômica Federal (CEF), no apagar das luzes do governo petista de Dilma Rousseff (relembre aqui). A decisão suspensiva ao agravo que a CEF interpôs foi dada pelo desembargador Marcelo Pereira da Silva, do Truibunal Federal do Estado do Rio (TRF-RJ).

Na prática, não há mais nada que impeça a Caixa de cobrar bem mais do que os 10% dos royalties do petróleo recebidos por Campos, além da integralidade das suas Participações Especiais (PEs).  Desde fevereiro  deste ano, o governo Rafael Diniz (PPS) se recusou a pagar além dos 10% dos royalties fixados na lei que autorizou a “venda do futuro”, aprovada pelo então senador Marcelo Crivella (PRB), num acordo com o ex-governador Anthony Garotinho (PR). Mas a recusa só teve respaldo jurídico em abril, com a liminar favorável a Campos concedida pelo juiz Julio Abranches, titular da 14ª Vara Federal do Rio de Janeiro. Com a decisão de ontem do TRF-RJ, isso deixa de existir.

O procurador geral do município José Paes Neto informou ao blog que irá tentar restabelecer no TRF-RJ a liminar. Caso não seja exitoso, as perspectivas financeiras do município, que já não eram boas, se tornarão alarmantes.

 

Confira a reportagem completa na edição de amanhã (28) da Folha da Manhã

 

Manuela Cordeiro — Moradas

 

 

 

Tinha aberto a porta da sacada da frente da casa da avó e se debruçado. Lembrava quando era criança de sentar no mármore frio do parapeito, junto com a sensação de liberdade que vinha ao somente mudar a perspectiva do olhar. E ver, do alto, a rosa vermelha do jardim que tanto admirava.

Contemplava pela porta de vidro da frente da casa o cenário da vida pacata da roça. O cavalo que gostava de chamar de seu, o pequeno aglomerado de árvores. Sentia-se extremamente feliz com o cheiro da terra molhada e os limites serem traçados só com arame farpado. Ao fundo, o pé de ingá e o balanço de criança sempre afagavam suas tardes.

Ao receber as chaves da quitinete, saberia que muitas outras portas serão abertas. Mesmo sem divisão nenhuma no espaço, conseguia organizar os seus sonhos entre a mesa de estudos, o lugar de dormir e a geladeira emprestada. O cheiro da tinta barata recém aplicada não se comparava ao alto preço da novidade de morar sozinha.

Gostava mesmo do burburinho. Abria a porta de entrada do prédio antigo, estilo português para adentrar um pouco a vida dos outros, o aroma do alho fritando para o almoço. Depois dos três lances de escada, ficava um pouco atordoada com a divisão esquisita dos espaços do apartamento, mas adorava a possibilidade de ter um cantinho na metrópole.

O apartamento não era tão grande, mas talvez a maior viagem de sua vida tenha mudado tudo de perspectiva. Tratou de juntar as malas no quarto que seria seu, com mobília nova, estrear a roupa de cama e apagou. Ao acordar, olhou ainda sonolenta para o pátio e se surpreendeu com a neve. Parecia um quadro emoldurado pela janela hermeticamente fechada por conta do frio. Branco e sereno.

A casa estalava de nova. Em seus planos de vida, fazia parte aquele momento de começar absolutamente do zero e imprimir sua personalidade a um espaço. Se orgulhava de cuidar imaculadamente da mesa de vidro, dos moveis com os tons corretos. Era como se vangloriava de encaminhar a sua vida. Até que os copos começaram a quebrar.

Nos sonhos, as casas tinham grandes corredores com inúmeros armários. Cada pequeno compartimento poderia revelar um segredo, uma pequena lembrança. As casas também geralmente eram perto de água e tinham vários andares. Um empilhar de coisas, fluxos e memórias.

Eram casas muito engraçadas. Tinham teto, tinham coisas, abrigavam sonhos e choros. Ao longo do tempo, percebeu que deveriam ser cuidadas com grande esmero, para que pudesse sentir amparada. Em cada espaço, podia limpar o espelho aos poucos, deixando cada vez mais nítida sua própria imagem. E se perguntava, olhando nos seus olhos: “Quantas casas para ensinar ser o seu coração sua verdadeira morada”.

 

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