Opiniões

Chequinho: certeza de condenação em WhatsApp atribuído a Garotinho

 

Charge do José Renato publicada hoje (21) na Folha

 

 

 

 

“Serei condenado”

Em grupo de WhatsApp entre dos áulicos do ex-governador Anthony Garotinho (PR), uma mensagem a ele atribuída circulou ontem. Nela, o autor se colocou como quem terá que vir a Campos na próxima terça, dia 27, prestar depoimento como réu do julgamento criminal da Chequinho. Não se pode dizer se foi o próprio Garotinho quem escreveu ou não a mensagem, mas o mi-mi-mi parece familiar: “Serei condenado. Minha culpa, acusado de ajudar a colocar comida na mesa dos mais pobres, desde 1999, quando foi criado o Cheque Cidadão”.

 

O fato

Definido como “prefeito de fato” pela Justiça Eleitoral de Campos durante o governo Rosinha Garotinho (PR), seu marido é também apontado como chefe do “escandaloso esquema” da troca de Cheque Cidadão por voto, na eleição municipal de 2016. Seja dele ou não, a mensagem de WhatsApp de ontem só esqueceu de dizer que a acusação não criminaliza o Cheque Cidadão, apenas o fato do benefício ter passado dos 11,5 mil atendidos, até junho do ano passado, para 30,5 mil em setembro — quase triplicou nos três meses anteriores à eleição. E a denúncia foi feita à Polícia Federal (PF) pelas assistentes sociais da própria Prefeitura.

 

Profeta desastrado

Não há como saber se a mensagem de WhatsApp é ou não de Garotinho. Tampouco se a decisão do juiz Ralph Manhães, da 100ª Zona Eleitoral (ZE), será pela condenação do réu. Mesmo porque, embora possa sair na terça, a sentença poderia ser dada outro dia. De qualquer maneira, caso e a previsão fosse mesmo do ex-governador, a julgar pelas últimas, ele estaria mais uma vez errado.

 

Erros e aposta

Garotinho errou quando apostou em ser governador em 2014 e não chegou nem ao segundo turno. Errou quando apostou em Dr. Chicão (PR) e, na reta final, numa aliança por baixo dos panos com Caio Vianna (PDT), na eleição a prefeito de Campos, vencida em turno único por Rafael Diniz (PPS). Errou ao publicamente profetizar a anulação daquele peito e uma nova eleição em maio. Mas seus liderados ainda acreditam que ele acerta quando aposta em reverter qualquer decisão desfavorável da Chequinho no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). E, apesar de tantos erros, a análise fria dos fatos mostra que, neste particular, podem ter razão.

 

Boi voador

Ainda na tal mensagem de WhatsApp atribuída a Garotinho, há um trecho em que se afirma na primeira pessoa: “Em um país onde tudo é possível ao ricos (…) eu mereço ser condenado”. Como a maior esperança no TSE é o bom trânsito que nele goza o advogado Fernando Augusto Fernandes, que cobrou a bagatela de R$ 5 milhões para defender o delator da Lava Jato e ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, é mesmo possível se imaginar que “tudo é possível aos ricos”. Para um TSE que já inocentou a chapa Dilma Rousseff (PT)/Michel Temer (PMDB), na frase celebrizada pelo deputado federal Paulo Feijó (PR): “Só falta boi voar”.

 

Arraiá Solidário

Um dos setores da Uenf que está sendo fortemente afetado pela falta de repasse do governo estadual é o Hospital Veterinário (HV). Para arrecadar produtos de limpeza para a unidade, a comunidade acadêmica tem se mobilizado nos preparativos do II Arraiá do HV. O evento, mobilizado através das redes sociais, acontece nesta sexta-feira (23), a partir das 19h, no estacionamento do hospital. A entrada é apenas a doação de um produto de limpeza, de rodos e vassouras até detergente, sabão em pó e pano de chão.

 

Mobilização

A população atafonense foi às ruas e tem demonstrado garra para conseguir mobilizar todo o município e também pessoas de cidades vizinhas. Além de se reunirem em movimentos como o “SOS Atafona” e “Atafona resiste”, um abaixo-assinado foi lançado em apoio à contenção do mar de Atafona e Barra do Açu. Em quatro dias de coleta de assinaturas mais de duas mil pessoas se manifestaram a favor da causa. O objetivo é enviar o documento para os governos federal e estadual, e autoridades responsáveis pela costa brasileira, em caráter de extrema urgência, para uma visita in loco e obras emergenciais de contenção marítima. Oxalá o objetivo seja alcançado o mais rápido possível, antes de novas destruições.

 

Com a colaboração do jornalista Mário Sérgio

 

Publicado hoje (21) na Folha da Manhã

 

Ricardo André Vasconcelos — Temer e a lei da sobrevivência

 

Principal aliado de Temer no PSDB, Aécio foi afastado do mandato por causa da deleção do mesmo Joesley Batista que delatou o presidente

 

 

Os tucanos, que nasceram de uma costela do PMDB ou, sendo mais justo, de uma depuração do PMDB de José Sarney e assemelhados, têm hoje em suas mãos o destino do governo, mas com papel diferente do que tiveram quando governaram o país de 1995 a 2002. Agora não são protagonistas, mas fiadores de uma administração que caminha numa corda bamba. Apesar de ter seu principal líder (Aécio Neves) pilhado com a boca na botija e na constrangedora condição de “senador afastado do mandato por decisão judicial”, o PSDB ainda empresta alguma credibilidade ao que resta do governo Temer, ao lado, é claro do ministro da Fazenda Henrique Meirelles, preposto que é do “grande capital” dentro do governo. Aliás, o foi também nos oito anos da administração petista como presidente do Banco Central.

São o PSDB e a economia aparentemente sob controle, as frágeis vigas de sustentação de Temer na Presidência da República. Os deputados do baixo clero que lhe garantem os votos necessários para barrar a iminente denúncia da Procuradoria-Geral da República não são suficientes para aprovar as reformas que os patrões de Meirelles exigem. Sendo assim, o descarte de um presidente que se tornou, além de incômodo, incapaz de produzir os frutos que os patrocinadores esperam, é destino líquido e certo.

Revendo antecedentes de crises políticas anteriores, é possível constatar, na atual, a ausência do segmento da sociedade que as protagonizou, como causa ou solução (ou ambas) — os militares —, e a presença de outro — o Poder Judiciário. Tanto em 1945, no golpe que derrubou Getúlio Vargas depois de 15 anos no poder; em 1954, com o suicídio do caudilho gaúcho que quatro anos antes voltara ao poder pelo voto direto, quanto em 1964, as Formas Armadas desempenharam papel fundamental, seja para o bem ou para o mal, dependendo do gosto de quem analisa. Já neste 2017, quase três décadas de vigência da mais democrática de nossas oito constituições, é o Poder Judiciário que tem, pela vulnerabilidade evidente dos outros dois poderes, a oportunidade de exercer o papel literal de juiz para arbitrar um caminho.

Há duas semanas, no entanto, o TSE, se apequenou e deu sobrevida ao governo moribundo ao absolver a chapa Dilma-Temer. No Supremo Tribunal Federal a iminente denúncia da PGR contra Temer somente vira ação penal (e o imediato afastamento do presidente por 180 dias) com a concordância de 342 deputados federais, ou seja, basta que 172 não concordem para a denúncia ser arquivada. Portanto, a solução para a crise há de ser encontrada dentro do regime democrático e no âmbito da mais natural das leis, a da sobrevivência. A pouco mais de um ano das eleições de 2018, deputados e senadores em busca da reeleição e do abrigo do foro privilegiado, hão de achar um caminho nem que sejam apenas compelidos pelo instinto da sobrevivência. A começar pelos tucanos, que são a opção natural na próxima disputa presidencial e precisam, por isso mesmo, se descolar da figura de Temer, a quem se atribui a cada dia mais atos de corrupção.

Em 1961, é bom que se lembre, foi o Parlamento quem resolveu a crise aberta com a renúncia de Jânio. O vice, João Goulart, estava na China e os militares não admitiam sua posse como presidente da República e o Congresso Nacional em 48 horas aprovou mudança na forma de governo e adotou o Parlamentarismo. Durou pouco, mas adiou o golpe militar por alguns meses. O atual Congresso, com grande parte de seus membros de quase todos os partidos investigados nas mesmas falcatruas que envolvem o atual e todos os ex-presidentes da República vivos, tem legitimidade para pouca coisa ou quase nada.

E não é só: além do problema Temer e outras centenas de picaretas envolvidos em corrupção, o país ainda não decidiu como quer financiar a democracia. A doação de pessoas jurídicas foi proibida e as regras das eleições de 2018 precisam estar aprovadas um ano antes, ou seja, até o próximo 07 de outubro. Mas aí é outro assunto…

 

Das hiprocrisias que se criam em Campos, a burguesinha do lanche sem Toddynho

 

 

 

Há algum tempo, o amigo Geraldo Machado, comunista histórico, conceituado advogado e ex-presidente da OAB/Campos, definiu um seu colega de lida, mas reputação duvidosa: “É um analfabeto de pai, mãe e parteira. Só em Campos uma figura dessas se cria”.

Com o passar dos anos, sobretudo a partir da democracia irrefreável das redes sociais, fui constatando serem muitos os exemplos, alguns hereditários, que julgam ter “se criado” nesta planície de hipocrisias cortada pelo rio Paraíba.

O que dizer da típica menina mimada de classe média campista, cujo hobby é posar de defensora dos “frascos e comprimidos”, como diria Didi Mocó, enquanto seu genitor se destacava em alguns governos municipais recentes como um dos mais perniciosos e amorais parasitas do poder?

Certo dia, numa conversa pessoal, perguntei à moça como levava para dentro de casa sua retórica questionadora das ruas. Ao que, num rasgo raro de sinceridade, talvez amolecida pelas cervejas anteriores, ela respondeu: “Uma vez perguntei e ele me disse: Filhinha, não pergunte como papai faz para pagar o seu Toddynho”.

Na dúvida se existe exemplificação mais clara do conceito marxista de pequeno burguês, a certeza ecoa ao canto de Seu Jorge: “Burguesinha, burguesinha, burguesinha, burguesinha, burguesinha/ Só no filé”.

Quem não tem filé, nem Toddynho, que se contente com a distribuição de lanche e café no Centro de Campos, em ato político partidário travestido de caridade. Tudo a mando de quem, além de quebrar a cidade e ser o empregador do papai, municipalizou o Restaurante Popular sem deixar para ele nenhuma previsão orçamentária.

E, no cocho mal disfarçado em prato raso, a distribuição de lanche — sem Toddynho — só durou um dia…

Nem é preciso perguntar como essa gente dorme. Afinal, ausência de noção de ridículo pode ter propriedades mais poderosas que o Rivotril achocolatado do chefe.

Como por exemplo definir a dondoca capaz de ligar para colunista social e questionar que o convidado de honra não foi proibido pela Justiça de ir ao casamento da filha do seu áulico, mas d’ELA? Megalomania pura e simples? Viuvez judicial de luz própria?

Na paráfrase politicamente correta do conhecido dito popular: filhx de sapo, girino é.

 

 

 

Ocinei Trindade — Receita para geleias e felicidades

 

Geleias de cascas de frutas

 

 

 

Sou contra desperdiçar qualquer coisa, desde o tempo até a água e a comida. Por outro lado, consumir em excesso tudo que nos oferecem também sou contra. Nem sempre pratico o que penso e concordo, é fato. Sei que não dispomos de todo o tempo, água e comida, mas quando os temos em abundância, aparentemente, fica aquela impressão de que estas coisas nunca se esgotam. Nem o tempo, nem a água, nem a comida que, para mim, são três sinônimos de felicidade. Às vezes, a gente joga a felicidade no lixo e nem se dá conta de tamanho desperdício.

Acabei de chegar de uma viagem ao Sul do Brasil que durou uma semana. Foi o suficiente para sair da rotina pesada, ficar contente, e também para voltar à realidade que quase sempre queremos escapar, mas que insiste em se mostrar com toda a verdade que lhe convém.  Não se pode fugir de todos e de tudo por muito tempo. Principalmente, de nós mesmos.  Mesmo quando se viaja até os confins do mundo, levamos o nosso próprio corpo, nossa própria mente e visão para a diversão e para o choque de realidade que cedo ou tarde nos estapeia com uma certa fúria e pressa.

Assim que voltei à casa, fui logo em direção à vassoura, sacos plásticos, lixeira, balde, rodo, mangueira. A sujeira dos cães espalhada pelo quintal dava a certeza de como a inspiração de Rita Lee está correta em transformar pelo menos estrume em arte e melodia: tudo vira bosta. As paisagens lindas do Paraná e do Rio de Janeiro precisam esperar em algum canto da memória para darem lugar à faxina necessária no lugar onde habito e vivo quase a metade do tempo diário. Partidas e chegadas têm dessas coisas. Que dirão aqueles que nunca viajam?

A casa vazia e silenciosa tem lá suas vantagens para prestarmos mais atenção em certas coisas, além de nós mesmos. Na fruteira da cozinha, recolhi banana, tangerina, limão e laranja que não foram consumidos e que acabaram se estragando. Pena. Algumas tangerinas e maçãs poderiam ser aproveitadas se cortassem as partes deterioradas. Cortei. Na geladeira, carambolas e cajás estavam na mesma situação. Ia jogar tudo fora, mas bateu aquela dor de consciência do desperdício e da fome mundial. Alimento é coisa sagrada e cara, cada vez mais em tempos de crises e incertezas.

Tive a ideia de fazer geleias e sucos com o que podia aproveitar. O suco é fácil, mas geleia nunca tinha feito. Viva a Internet e suas receitas! Panela, frutas batidas no liquidificador, açúcar, suco de limão, fogo baixo, retirando espumas por quase trinta minutos, vidros esterilizados, e de repente, virei doceiro na emergência. Que seja doce!  Mas a geleia de tangerina com maçã ficou amarga. Descobri tarde que não se pode cozinhar a parte branca da tangerina em nenhuma hipótese, pois ficará com gosto de xarope expectorante. Enfim, é assim a vida. Mesmo com receita nem sempre dá certo. No entanto, se a gente não tentar ou não experimentar, felicidade e geleia dificilmente se tornarão reais.

Transformar o tempo, a água, a comida e as frutas maduras demais em geleia exige uma certa boa vontade. Entretanto, ser feliz exige também algum tipo de esforço e dedicação. Constato que a era dos culinaristas de televisão também me afetou. A gente pode nem ter toda a felicidade do mundo o tempo todo, mas pelo menos parte dela passa e passeia pela cozinha ou por algum alimento. Felicidade é também para se comer. Já a receita, …

 

Delírio sob encomenda de Garotinho é tratado com a seriedade que merece

 

Charge do José Renato publicada hoje (20) na Folha da Manhã

 

 

 

 

 

Delírio sob encomenda

Ontem, em seu blog, hospedado na Folha Online, o jornalista Esdras Pereira registrou (aqui) mais um fruto do desespero que tomou conta do ex-governador Anthony Garotinho (PR), desde que foi fragorosamente derrotado em todas as sete Zonas Eleitorais de Campos, na última eleição municipal de Campos. Segundo Esdras, o novo delírio do político da Lapa, embora reflita sua ausência de responsabilidade ou escrúpulos morais, além de “uma obra de ficção muito mal construída, está sendo creditada a advogado e jornalista ligados ao grupo que foi ejetado do poder em Campos”.

 

Triste fim!

De fato, o cheiro ruim lembra a ação de dois profissionais conhecidos e reconhecidos em suas áreas pela venalidade do caráter. Como ambos foram responsáveis pelo final melancólico do governo Alexandre Mocaiber — considerado o pior da história de Campos, ao lado da segunda administração municipal Rosinha Garotinho (PR) —, o papel que a patética dupla hoje parece desempenhar junto ao marido da ex-prefeita evidencia a vertiginosa decadência de quem, um dia, chegou a ter 15 milhões de votos à Presidência da República.

 

Crime

Na democracia irrefreável das redes sociais, a jornalista da Folha Suzy Monteiro fez (aqui) uma pertinente observação sobre a ficção de péssima qualidade que Garotinho se prestou a reproduzir, dizendo se tratar de uma gravação, que teria destruído para preservar a “fonte”: “A qualquer jornalista é garantido o sigilo da fonte. O que não significa dizer destruição de ‘provas’. Destruir ‘provas’ é crime. Assim como calúnia, injúria e difamação. Isso aqui ou em qualquer lugar do mundo”.

 

Assombração

Em comentário à postagem de Suzy no Facebook, o jornalista Alexandre Bastos, chefe de gabinete do governo Rafael Diniz (PPS), observou (aqui): “Já que o mundo real não lhe oferece boas perspectivas, o chefe de quadrilha resolveu apelar para a ficção. Após errar todas as previsões (nova eleição em maio, prefeito afastado, secretários pedindo demissão), ele agora inventa (…) Só Freud explica a falta de limite deste senhor…”. Em outro comentário, o Waldemar Soares, presidente da Cooperativa de Caminhoneiros, foi sucinto para tratar (aqui) a questão com a seriedade que ela merece: “Insanidade aguda. Em breve começa a ver assombração. Aguarde”.

 

Desacreditado

A situação da Uenf tem se agravado a cada dia. Ontem, o reitor Luis Passoni, convocou uma coletiva de imprensa para falar sobre sua insatisfação com o descumprimento da promessa do governador Pezão que se comprometeu a regularizar os pagamentos futuros dos servidores e alunos bolsistas das universidades estaduais a partir do 14º dia útil de cada mês, a contar de maio, caso o plano de recuperação fiscal fosse aprovado. Isso chegou a acontecer, mas até agora os servidores só receberam R$ 700 na semana passada e R$ 300 ontem. Agora, o reitor tenta uma nova reunião com o governador, mas até isso acontecer e a situação se regularizar, muitos servidores já estão encarnando o apóstolo São Tomé e sua máxima do “só acredito vendo”.

 

Ajuda

Não é apenas a Uenf que passa por momentos críticos, outros servidores estaduais também tem passado por dificuldades, principalmente os inativos. Pensando nisso, um evento foi realizado no último domingo, no Jardim do Liceu, para arrecadas alimentos não perecíveis. O Domingo Solidário foi um sucesso e, segundo o Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação (Sepe), 66 cestas básicas foram montadas e serão entregues amanhã, na sede do Sindicato. Quem ainda deseja fazer sua doação, o Sepe ainda recebe doações de arroz, óleo e açúcar para completar algumas cestas. O Sepe fica no edifício Ninho das Águias, sala 513, no Centro de Campos.

 

Representação

No encontro realizado na manhã desta segunda-feira, 19, com a ministra Cármen Lúcia, presidente do STF, no Tribunal de Justiça do Rio, o deputado Bruno Dauaire (PR) foi escolhido para representar a Alerj. Advogado, Bruno, com base no Norte Fluminense, é um dos parlamentares que mais atua em questões jurídicas, com embasamento técnico que respalda uma série de proposições e discussões na Casa.

 

Com a colaboração dos jornalistas Mário Sérgio e Suzy Monteiro

 

Publicado hoje (20) na Folha da Manhã

 

Igor Franco — Lava Jato F. C.

 

(Foto: WallPaper Safari)

 

 

Há alguns dias, acompanhamos o histórico voto do Ministro Herman Benjamin, do TSE, no processo de cassação da chapa Dilma-Temer. Perdidas no meio da leitura que durou dez horas havia frases primorosas pela condenação de uma eleição às custas de todas ilegalidades possíveis. Quanto desperdício de energia: o relator poderia tê-las dito, apenas. O belo deve ser simples. Também o feio deve sê-lo: 95% dos trabalhos acadêmicos da área de humanas, por exemplo, com toda sua inutilidade em linguagem ininteligível, poderiam ser descartados. Firmo o compromisso ser sempre direto. Em qual dos adjetivos o texto se enquadrará, deixarei a cargo do leitor.

Busquei alguma outra pauta para o primeiro texto, mas a tentativa foi vã. Em qualquer ponto do tempo, nos últimos três anos tornou-se impossível não falar da Lava Jato e seus desdobramentos. A cada semana nos defrontamos com mais detalhes escabrosos de velhos e novos enredos. Alguém se lembra do temor de Marcelo Odebrecht implodir a república? Isso é notícia velha. A tremenda incompetência política e econômica de Dilma a fez cair antes de ser alvejada pelos relatos de corrupção. Quis o destino que o inverso acontecesse com seu sucessor. Do alto de sua maestria para domar nossos parlamentares e da sensibilidade para entender a urgência das reformas fiscais, Temer foi abatido pela escandalosa gravação de Joesley Batista.

O mesmo Joesley foi capa da Época desta semana com uma contundente entrevista em que afunda ainda mais o punhal cravado no peito do presidente. O relato é cristalino: Temer é corrupto e comandava o esquema de propinas do PMDB. A internet rapidamente foi tomada por grandes manifestações de delírio de parte da esquerda, que enxerga nisso uma espécie de absolvição do grande comandante do Petrolão, e de protestos de parte da direita, que cobra a Joesley a mesma contundência em relação ao chefe da seita petista.

Substituindo Moro por Janot, esses últimos, ao fazerem isso, embarcam nas mais fantasiosas narrativas de conspirações armadas para favorecer Lula às custas de Temer. Tolinhos: um Estado operado para satisfazer seus próprios operadores, que arrecada R$ 2 trilhões em impostos, tem espaço suficiente para muitos ladrões de grande porte. Lula, aliás, foi acusado pelo dono da JBS de institucionalizar a corrupção como a conhecemos hoje o que, convenhamos, não é nenhuma novidade para qualquer pessoa não adepta à seita petista. Ao trilhar caminho pela mesma estrada que exauriu o que restava de dignidade ao discurso petista, a direita da teoria conspiratória contribui para diminuir os ganhos recentes de credibilidade no renascimento do seu discurso.

Temer tende a sangrar por um longo período. Mantendo sua sustentação no Congresso através da base parlamentar oriunda da viciada eleição de 2014, o presidente permanece no poder, ainda que refém do mais descarado fisiologismo que nos remete ao pré-impeachment dilmista. Fora de Brasília, Temer confia nos últimos iludidos em sua capacidade de aprovar as necessárias reformas fiscais. As outrora poderosas manifestações de rua eram movidas por um sentimento — sepultado em 17 de maio último — de que uma mudança de poder não era apenas eticamente necessária, mas minimamente eficaz em moralizar as instituições políticas. Obviamente, não estou considerando as fracassadas e sucessivas edições da Marcha da Mortadela.

As contas com nossos erros passados somente poderão ser quitadas em 2018. Para mim, não há qualquer outra escolha digna que não seja rejeitar projetos populistas e, principalmente, apoiar candidatos que sejam apoiadores inabaláveis da Lava Jato. A sobrevivência inexplicável dos procuradores e juízes — leia-se Moro — até aqui só pode ser entendido como um sinal de boa vontade divina ao povo brasileiro. De Lula, passando por Dilma a Temer, que seja preso cada um que se mostrar maculado pelos pecados da corrupção. Estou com a Lava Jato até pelo impeachment do Papa Francisco, se preciso (e isso não seria má ideia!).

Entre a desonra e a instabilidade, não podemos escolher a desonra, pois a instabilidade não se resolverá no curto prazo. A saída de Temer do poder é imperativa, ainda que precisemos enxotar um Rodrigo Maia da vida daqui a seis meses.

 

Dois anos após seu desaparecimento, onde hoje habita o Neivaldo?

 

Em 28 de julho de 2012, Neivaldo observa seu bar ser tomado pelas águas nas quais ele mesmo desapareceria, três anos depois (Foto: Mariana Ricci – Folha da Manhã)

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Poet de vie (“poeta de vida”). É a expressão criada pelos franceses para definir quem, mais do que escrever versos, é capaz de converter a própria vida em poesia. Entre outras tantas classificações, é o que se pode dizer não só dos 54 anos de vida do comerciante, publicitário e “filósofo” autodidata Neivaldo Paes Soares, como da sua suposta morte na foz do rio Paraíba do Sul. Na próxima quarta-feira, dia 21, se completarão exatos dois anos daquele domingo de junho de 2015, quando ele foi visto pela última sobre as águas do rio que gerou e corta a Planície Goitacá.

No cair de uma noite fria, Neivaldo saiu sozinho do cais do Restaurante do Ricardinho, tradicional estabelecimento de Atafona, ao lado da Igreja Nossa Senhora da Penha, e iniciou a travessia do Paraíba em sua canoa a motor, rumo à ilha do Peçanha, onde residia e costumava receber os amigos. Dali, onde o rio deságua no Oceano Atlântico, ele nunca mais seria visto. Apesar das várias buscas da Marinha, Bombeiros, Polícia e amigos, com mergulhadores e cães farejadores, seu corpo nunca foi encontrado.

Campista, Neivaldo atuou em várias funções em sua cidade natal, inclusive na Folha da Manhã, nos anos 1990, onde costumava colaborar com artigos, geralmente criticando o sistema manicomial brasileiro, e atuou como publicitário. Também tentou a sorte na política, sendo candidato a vereador pelo PT e depois pelo PFL, evidenciando a “metamorfose ambulante” dos seus pensamentos e atos. Mas se sua figura alta e esguia já era bastante conhecida pelo jeitão hiperbólico, questionador e um tanto excêntrico, foi em Atafona que Neivaldo passaria a ser conhecido como “Bambu”, se tornando referência para sanjoanenses, campistas e quaisquer passantes atraídos pelas belezas naturais da foz do Paraíba.

Era 2007 quando ele ocupou a antiga garagem de barcos da família Aquino, no Pontal de Atafona, e retirou sozinho toda a areia que já tomava a sólida construção, para fazer do local seu bar e casa. No verão de 2010, apesar do acesso difícil pela areia e a ausência de luz elétrica, o Bar do Bambu atingiria seu auge de popularidade, quando foi palco para a peça “Pontal”, dirigida por Antonio Roberto de Góis Cavalcanti, o Kapi (1955/2015). Em apresentações que reuniram entre 80 a 120 espectadores por noite, sob a luz bruxuleante da fogueira, lamparinas e lampiões, os poemas sobre Atafona de Aluysio Abreu Barbosa, Artur Gomes, Adriana Medeiros e do próprio Kapi eram contados como causos de pescadores, na interpretação dos atores Yve Carvalho e Sidney Navarro, além de Artur.

No último poema do espetáculo, “Manchete de jornal”, Yve se virava para o dono do bar e declamava em voz alta os versos de Adriana: “Ainda freamos o mar/ Com o nosso tesão molhado./ Ainda sentimos frio lá na curva,/ Onde hoje habita o Neivaldo”. E, em cada apresentação, essa era a senha para que a face do homenageado se abrisse em riso e seus olhos lacrimejassem, sempre como se fosse a primeira vez. Sensibilidade à parte, o sucesso inesperado de público, elevando à décima potência as vendas do bar, foi a oportunidade para que seu proprietário fizesse um pé de meia.

Depois de ter sido o anfitrião orgulhoso daquele que talvez tenha sido o último grande momento do Pontal, Neivaldo permaneceria lá até julho de 2012, quando o avanço do mar atingiu seu bar e residência. Como já tinha comprado uma casa na Ilha do Peçanha, ele atravessou suas coisas pelo Paraíba e passou a residir lá, onde o isolamento era quebrado pela manutenção do hábito de receber amigos e curiosos pelo bucolismo do local, além do jeito extravagante, mas sempre acolhedor, do seu novo habitante. Qualquer “lamparão de bico” que aparecesse era recebido com as “iguarias inigualáveis” de quem aprendeu a misturar tinta marrom de rio e verde de mar para escrever poesia com sua própria vida.

Ao desaparecer, Neivaldo encarnou mais do que qualquer um o destino das referências humanas na foz do Paraíba.

 

 

Depoimentos:

Elvio Paes Soares

 

É aquela velha história: caiu no esquecimento. A Marinha não fez mais nada para saber o que aconteceu. Na época do desaparecimento, com a cobertura da Folha em cima, fizemos tudo que poderia ser feito. Mas é uma sensação horrível não achar e poder enterrar o corpo do seu irmão. Foi ainda pior para o nosso pai, que morreu de infarto um mês e meio depois de Neivaldo sumir. Tenho certeza que não ter a resposta sobre o que aconteceu com o próprio filho contribuiu muito para isso. Seu coração não aguentou. E o de que pai aguentaria? As duas mortes seguidas desestruturam muito a nossa família. Minha mãe não passa um dia sem se lamentar. Ela sempre liga para mim para saber se acharam alguma coisa.

(Elvio Paes Soares, comerciante e irmão de Neivaldo)

 

 

Auxiliadora Cassiano

 

“O dia amanheceu, os pássaros cantam! Mova-se, abra a casa e espera a luz da vida, deixando o sol entrar”.

(Neivaldo)

Continuo me movendo no tempo; na vida; “degustando iguarias inigualáveis”; em sabores e paisagens que você rinha o prazer que todos sentissem.

O mar continua vindo, numa mudança infinita. Hoje o pesadelo do seu desaparecimento/morte deu lugar a uma infinita saudade que traz para a vida essa “existência humana” que você tanto respeitava.

(Auxiliadora Cassiano, bancária)

 

 

Guilerme Bousquet

 

Eu conheci Neivaldo, o “Bambu”, no final dos anos 80, na mesma época em que ele se candidatou ao cargo de vereador, depois o encontrava esporadicamente em Campos ou Atafona. Já fui atendido por ele no UTI, bar de comida árabe de propriedade da família “Knifis”, em Atafona, e no Bar do Estranho, em Campos.

Mas foi quando ele transformou uma garagem de barcos em bar no Pontal, que o conheci melhor e passei a ir frequentemente para apreciar o espetáculo da natureza, no encontro do rio Paraíba com o mar. Lá, no Pontal, Bambu sempre me recebia com aquele sorriso estampado no rosto e abria as portas do seu cantinho para eu entrar, colocando o velho fogão à minha disposição para preparar as famosas peixadas e galinha ao molho pardo. Mas a fúria do mar levou o seu cantinho para as profundezas e ele teve que se mudar para uma casinha na Ilha do Pessanha. Nessa aconchegante ilha, eu, minha família e amigos, passamos a frequentar e continuar a apreciar a natureza do outro lado do Paraíba.

Mas, em meados de 2015, recebi a fatídica notícia dando conta de que Bambu estava sumido há uns quatro dias. De imediato procurei saber o que havia acontecido e acionei alguns parceiros de profissão para irmos até a ilha, local onde ele morava. Chegando lá, ao entrar no pequeno quarto, que sempre ficava arrumado e impecável, me deparei com livros no chão, lençóis retorcidos na cama e travesseiros espalhados. Ao olhar no varal do lado de fora do casebre, constatei que a mesma sunga azul que falaram que ele vestia no último dia em que foi visto, estava pendurada junto com outras roupas. Nesse momento, tive a certeza que Bambu não havia morrido afogado…

A partir daí, comecei a fazer contato com parceiros do Corpo de Bombeiros, altamente qualificados, para iniciarmos as buscas pelo corpo. No primeiro dia de buscas acompanhei os mergulhadores do CBMERJ para tentar localizar o corpo em torno das Ilhas do Peçanha e da Convivência, mas não lograram êxito. Poucos dias depois acompanhei novas buscas, dessa vez nas terras das ilhas com o auxílio de cães farejadores que vieram de Magé somente para essa empreitada. Caminhamos horas pelas ilhas e, mais uma vez, nem sinal do corpo de meu amigo Bambu.

Agora restaram a saudade e a lembrança dos excelentes papos, sempre degustando as “iguarias”, como ele mesmo gostava de falar, apreciando a natureza de Atafona.

(Guilherme Bousquet, inspetor de Polícia Civil)

 

 

Luiz Henrique Araújo

 

Conheci Neivaldo em 1980, num show de rock no Automóvel Club Fluminense de Campos. Através dessa e tantas outras identificações, nossa amizade se consolidou na loucura, na crítica aos padrões vigentes, n psicologia e na filosofia, apesar das minhas limitações. Bebemos muito Nietzsche, Kafka, Carlos Castaneda e tantas outras maravilhas nos bares da Pelinca.

Em 1988, selamos nossa amizade, como fazem alguns índios, com uma troca de camisa num campeonato de surfe no Farol de São Thomé. A camisa que ficou comigo desintegrou 20 anos depois, na foz do rio Paraíba, surfando. Local onde nossa amizade chegaria ao ápice da maturidade, crescimento e harmonia, pois nos aceitávamos com todos os defeitos e virtudes.

Nos últimos anos, nos encontrávamos sempre no meio do Paraíba: ele de canoa, eu de barco a remo. E ríamos porque a vida nos tirou a Pelinca. E, em troca, nos deu inteiramente o Paraíba. E ali, naquele mesmo lugar, eu me sinto absolutamente vivo! E ali, naquele mesmo lugar, ele “morreu”…

“Herdei” sua canoa, sua casa na Ilha do Peçanha, 20 dos seus mais de mil livros e, acima de tudo, uma vida inteira de alegria, de loucura, de lucidez e a certeza de que tudo continua valendo a pena.

Vai, meu amigo, pois só os loucos, os artistas e os anjos atravessam a existência do “Portal de Atafona”.

(Luiz Henrique Araújo, fiscal de Meio Ambiente)

 

 

Filipe Estefan

 

Lembro-me de Neivaldo nos idos de 80/90, quando, em conversas informais, discorria sobre humanismo e política, com percepções profundas sobre a vida e a história do mundo e do Brasil. Exercia a profissão de publicitário, era autodidata, erudito e desfrutava de bons relacionamentos em todas as camadas sociais. Ainda naquele período, me lembro de Neivaldo fazendo campanha como candidato a vereador em Campos, com discursos progressistas e voltados para o homem e a natureza.

Passaram-se anos sem encontrar Neivaldo, até que, em um verão em Atafona, fui acompanhado de um amigo em comum, Carlos Américo, visitar o bar de Neivaldo no Pontal de Atafona, justamente ali no encontro do rio Paraíba do sul e o Oceano Atlântico. Com o avanço impiedoso do mar, e a destruição do bar, Neivaldo se mudou e foi morar na ilha do Peçanha, onde remontou seu bar, e, onde por inúmeras vezes para lá naveguei em companhia de esposa e amigos para beber uma cerveja gelada e desfrutar das iguarias por ele servidas. Bem como para um bate papo descontraído ao sabor do ventos uivantes e da bela paisagem da ilha.

Grande abraço amigo! Que Deus lhe conceda a Paz eterna!

(Filipe Estefan, procurador de São João da Barra)

 

 

Pedro Henrique Motta

 

Lembro quando fui chamado pelo amigo Cyro Poppe para conhecer um bar em Atafona, o bar do Neivaldo. Em um lugar fascinante, com uma energia fora do comum, fomos recebidos por um anfitrião de risada extravagante com uma cachacinha na mão, descalço, fritando um peixe, receptivo, carismático, com o riso fácil; um malucão. Difícil ser indiferente à sua irreverência e espontaneidade.

Voltei tantas vezes que logo fizemos amizade, acredito que cada um que retornava tinha um lado Neivaldo, desprendido, à beira do rio, descalço, e ali se libertava nas rodas de violão dando boas risadas, declamando poesia, filosofando à luz do lampião, virando noites vendo a lua, tocando mais uma canção.

Essa época marcou a minha vida, tanto que hoje junto com o amigo Guilherme Lenga, que também participou dessa fase, abrimos o Eremita Bar, cujo nome, artigos de decoração e pratos do cardápio, têm influencia direta do nosso amigo que um dia morou numa ilha.

Dias antes de seu desaparecimento, avisei que lhe faria uma visita. Ele disse que me esperaria com um peixe. Não deu tempo. Ele se foi, desapareceu como uma lenda, “a lenda do Pontal”. Saudade é a palavra dessa época que não volta mais, da nossa amizade, de tudo que o mar engoliu e ficou pra trás.

(Pedro Henrique Motta, empresário)

 

 

José Cunha Filho

 

Ah, o Neivaldo! Não tinha o hábito de frequentar o seu bar em terras além do Pontal, tinha não. Visitei, várias vezes, o antigo botequim que agora é ponto de parada de sereias e outros viventes do mar. Da última vez que o vi, alegre estava e disputamos três partidas de xadrez enquanto degustávamos uma cervejinha.

Aonde você foi, menino levado?

A gente se conhecia desde os idos em que ele frequentava a Folha da Manhã, sempre prestativo, sem função definida, mas querido por todos, sempre sorridente e jovial. Gente boa, gente boa! Bom caráter nato! Agora, saiu para passear e não voltou. O seu barco a motor, leso de saudades, ficou a rodopiar a meio caminho entre o Pontal e Convivência.

Como pião sem guia, girando sem parar, sem mão segura no leme que o conduzisse aos portos da aurora.

Saiu a navegar o Neivaldo, mal saída a noite e cadê?

Nós, amigos e amigas, torcemos para que retorne de sua viagem por mares nunca dantes navegados como queria o Camões que recitava por desfastio, noites de plenilúnio.

É possível, contudo, que o guardião da Árvore Que Anda esteja adormecido nos braços de Iemanjá, que a encantada elege os seus preferidos, mantém em sua corte aventureiros e gente do bem.

Quem sabe ainda nos encontremos, Neivaldo, para mover aquela torre e deixar órfão o rei?

(José Cunha Filho, jornalista e escritor)

 

 

Diva Abreu Barbosa

 

Como me esquecer de você, Neivaldo, com sua postura ereta, suas divagações, seu buscar incessante, desde o tempo em que trabalhava na Folha da Manhã, vendendo anúncios, morando na casa em Cantagalo, onde está sediado o transmissor da Rádio Continental, com sua horta plantada naquele espaço, que quase acabou com nossos radiais, tirando a rádio do ar, no afã de arar a terra?

E, por final, na sua metáfora como abrigo, o seu bar, o “Pontal” de Kapi e Aluysio, as estrelas como céu e o Paraíba como colchão, até desaparecer em suas águas — ou não…

Mistérios de Neivaldo e sua saga…

Sem Ponto Final!

(Diva Abreu Barbosa, professora e empresária)

 

 

Aristides Soffitai

 

Neivaldo entrou na minha vida assim como saiu: do nada. Ele tinha uma grande qualidade. Conseguia os mais mais reservados documentos. Com eles, podíamos trabalhar com provas na nossa luta ambiental. Mas ele também era mestre em me causar problemas. Um dia, um marido enfurecido me ligou reclamando que Neivaldo cortejava sua mulher. Perguntei-lhe o que eu tinha a ver com o caso. Ele me pediu que eu o controlasse. Neivaldo era incontrolável. Em outra ocasião, ele envolveu o nome do Centro Norte Fluminense para a Conservação da Natureza num encontro regional sobre a liberação da maconha. Ecologista já não tinha boa reputação, ainda mais se envolvendo com drogas.

Ele acabou sendo afastado da nossa associação por vontade da maioria. Fui seu advogado de defesa invocando a importância do seu caráter de espião. De nada adiantou. Neivaldo sumiu. Anos depois, veio a notícia que ele havia sumido da vida. Seu corpo nunca foi encontrado.

(Aristides Soffiati, historiador, escritor e ambientalista)

 

 

Página 5 da ediçao de hoje (18) da Folha

 

 

Publicado hoje (18) na Folha da Manhã

 

Pitbull Rosa revela o outro lado da Chequinho e ameaça morder na Câmara

 

Por Aluysio Abreu Barbosa e Paula Vigneron

 

Um bloco de oposição com até 10 vereadores e participação direta nas CPIs da Lava Jato e das Rosas, já publicadas em Diário Oficial. Conhecido em seu mandato anterior como “Pitbull Rosa”, o vereador Thiago Virgílio (PTC) chegou à Câmara Municipal ameaçando morder com boca larga. Ele também revelou a visão que os acusados têm da operação Chequinho, questionou os cinco dias que passou na cadeia por conta dela e fez críticas aos métodos de investigação. Embora ressalte que torcer contra o governo Rafael Diniz (PPS) é torcer contra Campos, além de admitir seu canal aberto com o chefe de gabinete Alexandre Bastos, Thiago promete não dar facilidades na missão de fiscalizar os atos do prefeito e do presidente da Casa de Leis goitacá, vereador Marcão (Rede). Se vai só rosnar ou de fato morder, os próximos dias dirão.

 

(Foto de Antonio Leudo – Folha da Manhã)

 

 

Folha da Manhã — Apesar de condenado pela Justiça Eleitoral de Campos na Ação de Investigação Judicial Eleitoral (Aije), você conseguiu assumir seu mandato com um recurso no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) a partir da concessão de um habeas corpus criminal no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Seu recurso na condenação eleitoral ainda não foi julgado no TRE, que já condenou Jorge Magal (PSD) e Vinícius Madureira (PRP). Qual sua estratégia para não seguir o mesmo caminho deles, já que as acusações na Chequinho são basicamente as mesmas?

Thiago Virgílio — Pelo que os nossos advogados vêm falando, as estratégias serão diferentes das que foram usadas pelos vereadores Magal e Vinícius Madureira. Nosso jurídico acha que houve alguns equívocos nas estratégias dos advogados deles, sem querer fazer nenhuma crítica, até por questão de ética.

 

Folha — Mas você pode dizer qual é a diferença dessa estratégia?

Thiago — Não. Eu não sei. Não tenho conhecimento porque os advogados não abriram isso para a gente. Mas a gente confia que terá êxito no TSE. Eu entendo ali, por exemplo, no caso do Madureira, pelo que a gente soube, parece que teve uma tentativa de supressão de instância. Antes de ele pedir a cautelar no TSE, deveria ter uma declaração de admissibilidade do TRE. Parece. Não sou advogado. Tanto é que Magal ainda não entrou. Estão trabalhando para que tenha essa declaração de admissibilidade do TRE, para que, assim, ele possa tentar. Pesquisei com vereadores que são advogados, como Thiago Ferrugem e Vinícius Madureira, e eles mostraram que, praticamente, todo mundo que entrou com uma cautelar, neste sentido, consegue êxito. Até porque o TSE, no julgamento do nosso habeas corpus, deixou claro que entende que vereador tem que ficar no cargo até a última instância.

 

Folha — Além da Aije, seu envolvimento na Chequinho, como o de todos os demais candidatos beneficiados no “escandaloso esquema” da troca de Cheque Cidadão por votos na eleição de 2016 gerou também ação criminal na 100ª Zona Eleitoral de Campos, ainda não julgada. Qual sua expectativa?

Thiago — Eu participei de uma audiência até agora. Doutor Ralph até dispensou os réus. Estávamos eu, Linda Mara (PTC), Jorge Rangel (PTB) e Kellinho (PR). Logo que chegamos, ele liberou. Os réus poderiam sair da sala. Não precisavam participar. No primeiro depoimento, que foi da Beth Megafone, ele perguntou a ela: “Só tem um réu na sala. Quer falar na presença dele ou não?”. Ela ficou sem responder por uns 30 segundos. Eu levantei e falei que estava saindo para não atrapalhar. Eu poderia ter ficado, mas não quis. E, agora, tem uma audiência marcada para o dia 26. Eu também estou muito confiante porque, pelas provas que têm, no meu caso, acho que não são consistentes para poder me condenar. Mas cabe ao juiz. Não sei qual é o entendimento dele. Tiveram o entendimento sobre Magal. Nem aceitaram a denúncia dele. Dá uma esperança de que eles possam rever com calma. Como no caso do Cláudio Andrade (PSDC). Ele também respondeu e foi arquivado. O Ministério Público entrou…

 

Folha — Cláudio Andrade na Chequinho?

Thiago — Cláudio Andrade na Chequinho. Foi o único caso em que teve acareação. Nenhum outro teve. Eu tenho o processo e posso te fornecer aqui mesmo. São 84 páginas. Na Chequinho. Foi arquivado.

 

Folha — Qual seria o envolvimento de Cláudio Andrade?

Thiago — Uma das assistentes sociais o beneficiou. Teria pedido. Só que teve acareação. Ele também foi denunciado.

 

Folha — Uma daquelas assistentes sociais, que fizeram denúncia inicial à Polícia Federal PF), teria falado que beneficiou Cláudio Andrade também? Mesmo ele sendo oposição?

Thiago — É. Porque o contato dele seria com a assistente social. Seria pessoal. E, aí, houve uma acareação com as três pessoas. Elas falaram que não teve isso. E foi simplesmente arquivado. Então, a gente fica com esperança. Algumas pessoas estão sendo absolvidas; de outras, nem a denúncia está sendo aceita. A gente acredita que possa ter uma decisão favorável na criminal.

 

Folha — Ainda no ano passado, você foi afastado do seu mandato anterior e depois preso por cinco dias, pelo envolvimento na Chequinho. Chegou a pensar em fazer delação premiada enquanto esteve na Casa de Custódia?

Thiago — Nunca cheguei a pensar.

 

Folha — O Ministério Público ou a PF chegaram a propor a delação?

Thiago — Não. No dia, não foi formal, mas um dos agentes disse: “Rapaz, você tem que pensar na sua família. Você é casado. Estou vendo a aliança no seu dedo. Deve ter filho”. Eu disse que tenho três.

 

Folha — Sabe qual o nome do agente?

Thiago — Não. Se eu encontrar, hoje em dia, até sei reconhecer.

 

Folha — Então não pensou em fazer delação?

Thiago — Hora nenhuma. E também não tive proposta.

 

Folha — E se tivesse?

Thiago — Com certeza, não faria. Eu sou totalmente contra a delação premiada.

 

Folha — Mas você acha possível fazer uma operação como a Lava Jato, que já recuperou R$ 10,3 bilhões desviados dos cofres públicos, sem delação premiada?

Thiago — Não é questão de ser possível. É questão de que não tem para onde correr. É diferente do meu caso. Eu não tinha nada para entregar.

 

Folha — E se fosse executivo da Odebrecht, você falaria?

Thiago — Ali, acho que não tem para onde correr. Com as provas, não tem para onde.

 

Folha — Depois de assumir seu novo mandato, você disse na tribuna da Câmara que chegou a pensar em desistir. Por quê?

Thiago — Em alguns momentos, porque foi muito difícil. A meu ver, criaram um clima de terrorismo.

 

Folha — Quem criou?

Thiago — Acredito que a Polícia Federal, a própria mídia e o Ministério Público. Para você ter ideia, os dias em que eu fiquei mais tranquilo, desde quando estourou a Operação Chequinho, foram os dias em que eu fiquei preso. Eu sabia que, pelo menos, minha mãe, meu pai e minha esposa sabiam que não tinha mais nada para acontecer comigo. Porque (diziam): “olha, vai prender; no dia da eleição, prende todo mundo”. A gente ouvia dizer que, no dia da diplomação, não dariam o diploma; que, no dia da posse, caso diplomados, não tomaríamos posse. Ali, eu fui muito prejudicado porque todo mundo sabe que eu era o candidato (à presidência da Câmara) do grupo da época, da prefeita. Pela composição e pelo trabalho feito, a gente acreditava que tinha chance de ganhar pela conversa que tínhamos com vereadores e partidos. Com a canetada que nós tomamos, deixaram de fora seis vereadores, alguns com experiência, como Jorge Rangel e Kellinho. Isso aí desarticulou. As pessoas falavam: “aqui, não vai dar mais”. E começaram a conversar com o pessoal de Marcão (Rede). Então, acreditamos que isso foi primordial para que Marcão levasse a (presidência da) Mesa.

 

Folha — Então, esse foi o clima de terrorismo do qual você falou?

Thiago — É. Terrorismo de “vai prender”, de Polícia Federal. E ainda acontece. Em minha opinião, não há necessidade. Até as testemunhas, hoje, estão sendo notificadas para uma audiência pela Polícia Federal. Isso já assusta as pessoas. O cara está na casa dele e chega a Polícia Federal. Existem os oficiais de Justiça para isso. Então, para que isso?

 

Folha — Você falou que um clima de terrorismo foi criado pelo Ministério Público, Polícia Federal e imprensa. Você acha que imprensa, MP e PF se juntaram?

Thiago — Não. Em minha opinião, não houve uma aliança. Mas houve cada um atuando dentro do que cabia. Vou dar um exemplo da minha prisão. Primeiro, me chamaram lá, em um dia de sábado, jogo do Flamengo. A mesma pessoa, o policial federal Alessandro, me ligou na quinta-feira, dizendo: “Eu preciso que você tome ciência de que está sendo afastado da Câmara”. Ele me ligou em um dia de sábado e falou: “Você precisa vir à Polícia Federal para poder assinar novamente”. Eu disse que tinha assinado. Ele disse: “Mas o cara encrespou com sua assinatura”. Isso no WhatsApp. Tenho essa conversa salva até hoje. Ele disse: “Calma aí. Não é isso. Ele quer que você coloque o seu CPF com sua letra”. Perguntei que horas. “Às 15h”. Cheguei. Avisei que estava lá na frente. Entrei. Deu meia hora, 40 minutos. Tinha um primo meu lá fora, no carro. Pedi para pegar a minha filha, que estuda no Auxiliadora. Tinha que pegar às 16h. Acho que, pela câmera, eles viram que fui até o portão e pensaram que eu ia embora. Porque não falei com ninguém. Estava sentado no pátio. Aí, desceu outro delegado, meio ofegante. Ele me puxou para o canto e disse: “Infelizmente, o documento que tem para você aqui não é para você assinar. Tem um mandado de prisão para você”. Eu perguntei: “Mandado de prisão? Mas pediram para eu vir aqui assinar”. Liguei ao advogado da Câmara e falei que não tinha dez minutos que eu havia sido comunicado sobre a prisão. Ele disse: “Não, eu vi há 20 minutos, no blog da Suzy” (Monteiro). Então, a Polícia Federal, no meu entendimento, era o tempo todo querendo mídia. Não sei se a Lava Jato estimulou. E todo mundo nesse clima, o Judiciário abusando. Em minha opinião, no Brasil inteiro, existem vários abusos ocorrendo, e nós vivemos uma ditadura do Judiciário. Não falo em Campos, mas de modo geral. E nós temos que enfrentá-la. O cara chega à sua casa, às 6h da manhã, e te leva em uma condução coercitiva. Ou te leva preso porque ouviu dizer ou porque você pode vir a atrapalhar as investigações. Eles falaram que pelos cargos que eu tinha, de vereador e vice-presidente da Câmara, eu poderia atrapalhar. Qual o indício tinha? Será que eu não tinha, primeiro, que ter atrapalhado alguém? Ou ter ido em cima de alguém? Não houve nada disso. Então, não tinha motivo para a prisão. Eles vêm, jogam a gente para dentro de uma cela por cinco dias, sujam o nosso nome, desgastam a nossa imagem. Eu estava no meu primeiro mandato. São questões irreparáveis.

 

Folha — Você ainda pensa em desistir?

Thiago — Não. Foram alguns momentos. Não foi um só. Minha família não estava suportando mais. Eu era estudante de Direito. Meus amigos diziam para eu voltar a estudar, largar política. Ouço isso, às vezes, de político experiente. Paulo Feijó falou: “Thiaguinho, não dá mais”. Então, políticos experientes acham que não dá mais para tocar a política. Acho que, hoje, é a atividade mais perigosa que tem. O policial, que trabalha na UPP, trabalha mais tranquilo do que uma pessoa que trabalha em cargo eletivo. Se chegar uma pessoa e disser que eu fui ao prefeito e pediu isso, eles estão levando. Prendem. Não param mais para ouvir os dois lados. Está cada vez mais difícil por conta do Judiciário.

 

(Foto: Antonio Leudo – Folha da Manhã)

 

Folha — Antes de assumir seu mandato, você fez críticas (aqui) à posição do presidente Marcão, pela postura deles em relação aos condenados na Chequinho. Você o acusou de ser parcial e de usar “dois pesos e duas medidas”, em relação aos vereadores garotistas que migraram à bancada governista, como Magal, e os que permanecem no grupo do ex-governador, como você, Kellinho, Jorge Rangel, Linda Mara e Miguelito (PSL). Mantém essas críticas?

Thiago — Em minha opinião, existe, na condução da Casa, um tratamento diferente. A gente fala isso desde assessorias. Inclusive, nesta terça-feira (20), nós vamos dar entrada na Câmara, com um documento que já preparei, porque a Câmara foi oficiada, esta semana, pela Prefeitura. Marcão até alega que houve um erro de Suledil Bernardino em cima de um orçamento que aprovamos na Câmara, de R$ 31 milhões. Discordo dele porque não é erro. Orçamento é previsão. Então, se neste primeiro quadrimestre, nós não tivemos a receita que esperávamos, não foi um erro de cálculo. Orçamento, todo mundo sabe, é uma previsão. E a gente acredita que vai ter que ter corte. Então, estamos propondo a criação de uma comissão para estudar. Pode ser com vereadores da situação e da oposição. Para que a gente possa estar ali vendo onde pode cortar na Câmara. Eu acho que os vereadores, por exemplo, já vêm sofrendo muitos cortes. Não acredito que Marcão vá querer, até porque vem candidato a deputado ano que vem, desgaste com os vereadores. Então, nós vamos ajudar Marcão para ver de onde ele vai cortar. Nós vamos propor a criação de uma comissão. Agora, a questão da diferença de tratamento é nítida. Na Casa, não tenho nem uma semana lá, ouvi relatos de vereadores. Mas, hoje, tranquilamente, a gente sabe que é desde as assessorias.

 

Folha — Como é esse tratamento diferenciado?

Thiago — Por exemplo, eu tenho seis assessorias. Tem vereador que tem oito, nove. A mesa é que tem dez. Tem que ter porque trabalha mais. Mas e os outros vereadores? Foram acordos políticos? É normal que tenha, mas vamos precisar rever essa questão por causa do orçamento da Câmara, que tinha uma previsão e, agora, está sendo outra. E, por exemplo, vereadores reclamam comigo que podem usar o carro da Câmara para cinco viagens por mês. E a gente sabe que têm vereadores que são ilimitados.

 

Folha — Quais vereadores, por exemplo?

Thiago — Os vereadores da base.

 

Folha — Todos eles?

Thiago — Todos eles. Eles não têm problemas em relação a viagens. E nós, vereadores da oposição, temos cinco. O líder da situação (Fred Machado, PPS) tem um carro próprio da Câmara para seu atendimento. Fred Machado não faz parte da Mesa. Então, se ele tem um carro à disposição para trabalhar como liderança dos vereadores da sua base, será que, assim que for formado nosso bloco, teremos um carro para a liderança trabalhar para os nossos vereadores? Porque o líder trabalha para a bancada. São questões que a gente precisa rever. Assessoria, eu falo de cara. Tem vereador que tem oito, nove, e nós temos seis.

 

Folha — Quais vereadores têm oito, nove?

Thiago — Os vereadores fora da Mesa têm oito. Alguns têm nove.

 

Folha — Todos eles?

Thiago — Todos eles. Nenhum tem menos de oito. Os do G5 (grupo “independente”) principalmente. E nós, da oposição, temos seis. Então, a gente pensa que o presidente da Câmara tem que ser presidente de todos os vereadores, como foram Marcos Bacellar (hoje, PDT), à sua época, e o próprio dr. Edson (PTB). Você vê que não tinha oposição dos vereadores a dr. Edson. Vez ou outra, tinha discussão, mas ninguém entrava com requerimento para ele, querendo saber quais os contratos vigentes da Casa. O que ele faz com contrato de publicidade, quem está fornecendo o buffet da casa. São questionamentos que nem aconteciam porque era o presidente de todos. Então, a gente precisa que o presidente seja isento, que seja o presidente de todos os vereadores. Isso não vem acontecendo na Casa e nós vamos cobrar dela, sem sombra de dúvidas.

 

Folha — Você também chegou a ameaçar Marcão: “Se o presidente não quer ser imparcial, não tenha dúvida: nós vamos para dentro dele! Vamos querer saber como anda a Casa, as finanças da Casa”. O Pit Bull Rosa só latiu ou vai morder?

Thiago — Na segunda-feira (amanhã, dia 19), está garantido que serão protocolados vários requerimentos. Inclusive, a gente quer cópia de todos os editais para saber o que tem na Casa, como a Casa está funcionando, como está sendo paga. Porque a gente não vê licitação. A gente vai precisar saber, até porque Marcão sempre defendeu a transparência. Eu não acredito que ele vá ter dificuldade em nos responder. Vamos cobrar, também, o balancete trimestral, que tem que ser feito no plenário. No primeiro trimestre, não aconteceu. No segundo, vai acontecer porque nós vamos cobrar.

 

Folha — A sessão da última terça-feira (13) foi tensa. Os vereadores governistas Cláudio Andrade, Neném (PTB) e José Carlos (PSDC) responderam (aqui) críticas pessoais feitas publicamente por Garotinho. O primeiro, inclusive, reagiu descendo ao mesmo nível, chegando a falar de uma crise conjugal entre o casal de ex-governadores. O que acha dessa característica do seu líder de sempre atacar pessoalmente os adversários políticos? Você aprova?

Thiago — Não concordo com ataques pessoais. Já tentamos conversar, algumas vezes, com Garotinho sobre isso. Mas, nesta altura do campeonato, ninguém muda. A gente tem que ver o outro lado também. Eu vejo, muitas vezes, ele sendo atacado na área pessoal. Tem gente que diz que ele é atacado na área pessoal porque também ataca. Eu não sei. A gente também vê que ele sofre muito ataque pessoal. Muitas covardias que sua família sofre. Então, acredito que ele possa estar, de repente, revidando. Mas eu não concordo com esse tipo de atitude.

 

Folha — Você acha que o adversário político tem que ser inimigo pessoal?

Thiago — Não precisa. Não há necessidade nenhuma. Na Câmara mesmo, às vezes, foge um pouco da discussão de ideias e acaba em pessoas. Por exemplo, teve caso em que vereador falou: “Está em casa esperando a tornozeleira chegar”. Se eu estivesse na tribuna, ia dizer: “Rapaz, você tira do seu filho e empresta ela”.

 

Folha — Está falando de Zé Carlos?

Thiago — De Zé Carlos. Se eu estivesse ali, daria essa resposta. Foi como quando eu cheguei à Casa e me falaram: “Thiago, como vai ser?”. Respondi: “Vocês que vão tocar. Se quiserem tocar na ideia, vamos tocar na ideia; se quiserem tocar no pessoal, vamos tocar no pessoal”. Eu sei de coisas desde antes de ser vereador. E não tenha dúvida: na hora que ciscar ao meu lado, eu vou entrar para o lado pessoal. Até brinquei na Câmara, essa semana, que o fotógrafo é Jocelino Rocha. Mas tem o apelido de Checkinho (Check). Eu falei: “A partir de hoje, vou pedir a você. É Jocelino. Jocelino Rocha”. Eles deram risada, brincaram. Mas foi brincadeira. Neném logo me chamou no canto: “Não entra nessa. Nós somos amigos. Eu estava viajando com família. Já viajei para caramba com você. Você sabe que nada a ver o que ele (Garotinho) fez”. Falei com ele: “Neném, só não toca em Chequinho”.

 

Folha — Mas Neném respondeu a Garotinho sem baixar o nível.

Thiago — Até que ele foi calmo. Eu falei com ele: “Neném, vai devagar. Você, nervoso, vai acabar falando coisa de Chequinho”. Ele deu risada e disse que não. Aí, eu falei: “Mas até uma semana atrás, você estava falando”. Mas, se eu for atacado pessoalmente, vou responder. Acho que não tem que entrar, mas eu não vou aceitar uma pessoa chegar e atacar meu lado pessoal. Eu não vou ficar quieto. Vou responder à altura. Marcão sempre falava sobre o sumiço de R$ 110 milhões. E eu falei o que falei o mandato todo: “foram dos sete meses em que a prefeita foi afastada e (Nelson) Nahim (PMDB) assumiu”. Agora, ele tem condições. Tem documento, entrada lá. Está mandando no governo. Entra lá e vê.

 

Folha — Marcão está mandando no governo?

Thiago — Está mandando no governo.

 

Folha — Por que diz isso?

Thiago — Tudo que a gente vê, Marcão pega o telefone, liga e resolve. E tem coisa que eu não vejo passar pelo prefeito.

 

Folha — Nos bastidores da Câmara, muito se comenta do seu bom trânsito com o jornalista Alexandre Bastos, chefe de gabinete do prefeito Rafael Diniz (PPS). Há quem especule que isso poderia ser uma ponte para sua mudança de lado. Procede?

Thiago — Eu e Alexandre Bastos já tivemos várias conversas. Não é de hoje. A gente está sempre conversando. E, como vereador, até mesmo nesse período em que eu fiquei afastado, várias demandas que chegavam para mim, eu ligava para ele. Na mesma hora, ele entrava. De repente, eu resolvi mais coisas nesses cinco meses do que os vereadores que estavam lá. Porque eu não estava ali pedindo cargo a ninguém. Quando via problema no meu bairro, como a academia do idoso, na Praça do IPS, tinha um dos aparelhos que precisava de uma pequena soldagem. Liguei para Alexandre. No mesmo dia, foram lá e soldaram. Nós nunca conversamos sobre composição, mas, toda vez que eu preciso de alguma coisa, eu peço ao chefe de gabinete de Rafael, que é meu amigo. E, pelo que sei, Rafael tem ciência disso. Pelo discurso que ele vem fazendo, é para atender todo mundo. Independente.

 

Folha — Isso quer dizer que o governo está aberto a atender pedidos dos vereadores da oposição?

Thiago — Pelo menos, no meu caso, tenho comprovado via Alexandre Bastos. Muita demanda minha, muitas coisas que chegam a mim, principalmente na área de saúde. A gente dá nossa colaboração. De repente, um vereador na oposição ajuda mais um prefeito do que um na situação. Um vereador na situação está mais preocupado em cumprir seus compromissos de campanha, de empregar. E a gente não sabe. A gente vê, hoje, na Câmara, muita conversa de emprego. Mandei até outro ofício para a secretaria de Gestão, para saber, por documento, porque existem algumas dúvidas sobre qual é o número de RPAs no governo do Rafael. A gente precisa saber. É importante que a gente tenha essa informação. Estamos fazendo o papel de fiscalizar. Falei na tribuna que não torço contra minha cidade. Torcer contra o governo do Rafael é torcer contra a cidade. Mas não vamos deixar de exercer nossa função, que é fiscalizar e cobrar. Temos que fazer ajuste, mas a gente tem uma crítica: por que começar esses cortes logo na área social? Não teriam outros contratos? Que os cortes têm que ser feitos, a gente entende. Mas a gente queria entender qual é o cronograma disso.

 

Folha — Como você avalia esses cinco meses e meio do governo Rafael? 

Thiago — Temos que ser sinceros. A gente não pode cobrar muito, mas pode analisar. O governo diz que não houve transição. Eu discordo disso. Participei de algumas reuniões. De repente, não foram muito produtivas como eles acharam que ia ser. Mas, para mim, eles mentem quando dizem que não houve transição. E está tendo muito “oba, oba” dentro do governo. Está faltando alguém bater na mesa e cobrar dos secretários.

 

Folha — Há uma polêmica entre você e Marcão em relação às CPIs da Lava Jato e das Rosas. A questão da proporcionalidade. Um alega bancada, outro alega partido. Como isso vai ficar?

Thiago — Eu não tenho dúvida de que eles cometeram um equívoco. Prefiro chamar assim, de equívoco, seja da Procuradoria, da mesa, do presidente. No debate meu com Marcão, ele falou que na letra fria diz que é proporcionalidade de partidos. Realmente, é assim que diz. Mas vamos discutir o que é proporcionalidade de partido. É claro em qualquer lugar: é o número de assentos que cada partido tem. Seja na Alerj, na Câmara, no Senado. Então, estou muito tranquilo porque pedi a palavra a ele e a usei humildemente. Pedi para não publicar (em Diário Oficial). No outro dia (14), ele publicou. Eu sabia que ele estava correndo para publicar. Vamos bater uma bola. Vamos conversar sobre isso, os líderes das bancadas. Chama todos os vereadores, e a gente vê. Deixei claro que não sou contra a CPI.

 

Folha — Não pode parecer que você não quer investigar?

Thiago — Não. Pelo contrário. Quero investigar e quero fazer parte. E acredito, pela bancada que eu tenho, que posso ser o relator da CPI. Eu (PTC) tenho três vereadores. O PSDC tem dois. Eu estou com uma carta do PSDC, que mandaram para mim, do partido parabenizando o PSDC por ter dois relatores. Com dois vereadores na Casa e com outros três partidos com três vereadores. Então, vai com muita fome e sede. Tem que fazer o negócio devagar. Eu não tenho dúvida de que teremos três vereadores, do nosso bloco, na CPI. A gente vai oficializar nesta semana ainda.

 

Folha — Que bloco é esse?

Thiago — A gente tem uma reunião amanhã (a entrevista foi feita na quinta) e teremos outra na terça (20) para definir. E, na terça, vamos oficiar ao Marcão e à mesa sobre nosso bloco. Não sei se vai ser G7, G8, bancada de independentes, bancada de oposição. Tem gente que acha que é cedo criar uma bancada de oposição. Tem gente que acha que já passou da hora.

 

Folha — Quem seriam os vereadores do bloco?

Thiago — Eu, Linda Mara, Miguelito, Ozéias, Thiago Ferrugem, Josiane; no caso hoje, mas, voltando, será Vinícius Madureira; Jorge Rangel, que deve estar chegando nesta semana, e Kellinho. No caso dele, foi só pedindo aumento dos efeitos extensivos. Então, teríamos um G8. Estamos conversando com outros vereadores também. Daqui a pouco, teremos um G9. Aí, dá para fazer um trabalho.

 

Folha — Quer puxar alguém do G5?

Thiago — Pode ser do G5. Tenho conversado com alguém do G5. Há outros vereadores também articulando. Estão insatisfeitos, dizendo que não foi cumprido o combinado.

 

Folha — O que teria sido combinado?

Thiago — Não tenho detalhes do que foi combinado. Falaram de cargo, espaço dentro do governo. E, até dentro da Câmara mesmo, parece que algumas coisas não estão sendo cumpridas. Existe insatisfação de vereador que procura. Só que a gente toma muito cuidado para não deixar esse vereador querer se valorizar em cima da gente. Daqui a pouco, o cara vem, ameaça, manda letra na tribuna. A gente tem que tomar cuidado. Mas estamos muito perto de virar G9 e até G10. Dentro da Câmara, já estou ouvindo conversa de eleição da mesa no ano que vem.

 

página 2 da edição de hoje (18) da Folha

 

 

Página 3 da edição de hoje (18) da Folha

 

 

Publicado hoje (18) na Folha da Manhã

 

Fechar Menu