Opiniões

Chequinho: mais 5 vereadores afastados, Ferrugem em prisão domiciliar

 

 

 

Em decisão cautelar de hoje relativa à operação Chequinho, da Polícia Federal, o juiz da 100ª Zona Eleitoral (ZE) de Campos, Ralph Manhães, determinou o afastamento de Roberto Pinto (PTC), Vinícius Madureira (PRP), Cecília Ribeiro Gomes (PT do B), Jorge Magal (PST) e Thiago Ferrugem (PR) das funções de vereador. A decisão também determina a prisão domiciliar de Ferrugem, até que lhe seja afixada uma tornozeleira eletrônica.

Veja abaixo o que determinou o juízo da 100ª ZE:

 

1 – Os réus compareçam a todos os atos do processo quando devidamente intimados;

2 – Proibição de se ausentarem desta Comarca por mais de 8 dias, sem autorização deste juízo;

3 – Proibição de manterem contato com as testemunhas desta Ação Penal e também com aqueles que prestaram depoimento no Inquérito Policial na condição de testemunha, bem como as demais testemunhas das outras ações penais envolvendo este mesmo caso, ficando, ainda, expressamente impedidos de manterem qualquer contato, de que forma seja, com os demais réus das outras ações penais oriundas do IPF 236/2016, que deverá ser fiscalizado pela polícia federal, podendo, para tanto, requerer providências diretamente a este juízo para tal fim;

4 – Fica suspenso o exercício da função pública do cargo de vereador deste município até que seja proferida decisão definitiva nos autos das ações de investigação judicial eleitoral em face dos cinco primeiros réus, cujo processo tramita na 76ª Zona Eleitoral, sob a responsabilidade do juízo da 99ª Zona Eleitoral.

5 – Com relação ao quinto denunciado, Thiago Cerqueira Ferrugem, ante a sua participação de maior destaque no esquema que ora se apura, eis que o mesmo foi secretário de promoção social do governo anterior, sendo substituído pela Ana Alice pouco antes de vir à tona todo esquema criminoso do programa cheque cidadão, tal como se vê dos depoimentos prestados no IPF 236/16 e também dos depoimentos colhidos em juízo em ações penais correlatas, indicando, a princípio, a sua proeminência na cadeia de comando daquela organização criminosa, aplico também, em razão do princípio da isonomia, as medidas cautelares previstas nos incisos V e IX, do art. 319 do CPP, devendo, enquanto não se viabilizar o monitoramento eletrônico pela utilização da tornozeleira eletrônica, ser o recolhimento domiciliar de forma integral, até o término da inquirição das testemunhas de acusação.

O não cumprimento de qualquer das determinações supra importará em revogação das medidas cautelares com a imediata expedição do mandado de prisão preventiva em face dos réus.

Citem-se e oficiem-se, com urgência, à Delegacia da Polícia Federal para o cumprimento desta decisão, devendo ser os réus intimados das medidas a eles impostas, bem como a Presidência da Câmara Municipal e a Secretaria daquela casa, servindo a presente decisão como mandado. Defiro também o pedido do Ministério Público para que os autos do inquérito policial federal 236/2016 fiquem sobrestados em cartório, eis que o mesmo instrui a presente ação penal como as demais que já foram ajuizadas com base naquele inquérito, ficando, portanto, sua prova compartilhada com as demais ações.

 

Quer saber quem entra no lugar dos cinco vereadores afastados? Então leia na edição de amanhã (18) na Folha da Manhã.

 

Fernando Leite — Digo NÃO!

 

 

 

Pesei e ponderei o que vos adianto, como minha modesta opinião, ante a avassaladora cachoeira de lama que corre sobre a Pátria brasileira, a partir do rompimento das barragens da corrupção oficial. Uma nação devastada, levada aos trambolhos ribanceira abaixo, desfigurada na sua altivez, reduzida a uma republiqueta de bananas podres. Do presidente ao vereador, uma caterva.

Paira aterradora sobre todos os atores da cena política, ou quase, a sombra fria da suspeição. Os delatores viraram estrelas do horário nobre das TVs e explicam, em detalhes, como corrompiam mandatários e eleitos pelo voto soberano do povo, como se estivessem num programa vespertino ensinando uma nova receita de bolo. Os espectadores,se não sabiam da trama, em suas dobras mais sórdidas, já desconfiavam de longe. Afinal ali está a representação legítima da sociedade.

Não houve perplexidade. Houve resignação.Nenhum vidro quebrado, nenhum soco no ar. “É assim, comadre”.

Por isso, minha inquietude. O que será que será? Alguns serão presos, outros defenestrados, a maioria ficará atada a uma tornozeleira eletrônica e uma parte do dinheiro público voltará ao tesouro saqueado. Outra parte é vertigem. Nenhum castigo capaz de limpar o lodaçal. Nenhuma medida profilática que transforme, radicalmente, o ambiente da política nacional.

A política nacional, senhores, é essa! E não mudou.

Em minha mísera insignifância  resolvi dizer NÃO. Nas próximas eleições voto NULO. Não há em quem votar porque seja lá quem for, o ambiente dos parlamentos e dos palácios ainda será o mesmo. Sei que parecerei alienado, parceiro do sistema, na medida em que somos as nossas escolhas. Mas, lembro aos que me censuram que os rastejantes se antecipam aos temporais. Já está no forno da reforma política, o voto no partido, que, ao cabo, escolherá os ungidos numa lista de domínio doméstico.

Voto NULO até que o cenário seja outro e os eleitos, por mais bem intencionados que sejam, não saiam das ruas para um mundo irreal, onde grassa a corrupção e as práticas mais perniciosas da convivência humana.

Digo NÃO!

 

Arnaldo Vianna: “A Lava Jato e a ‘venda do futuro’ se encaixam”

 

Por Aluysio Abreu Barbosa e Paula Vigneron

 

Arnaldo Vianna assumiu o governo de Campos em 1998, quando Anthony Garotinho deixou a Prefeitura para se eleger governador. Depois, além de se reeleger por conta própria ao cargo, ainda no primeiro turno de 2000, foi talvez o único que chegou a superar o antigo líder em popularidade, quando passou a ser considerado inimigo do garotismo. Após várias pendências jurídicas que lhe causaram problemas nos pleitos de 2006, 08, 12 e 14, ele não apoiou o filho, Caio Vianna (PDT), na eleição a prefeito vencida ano passado por Rafael Diniz (PPS), por quem agora pede tempo. Ao falar do “quadro tenebroso” deixado pelo antigo governo municipal, Arnaldo diz que as questões da Lava Jato — na qual o casal Garotinho foi delatado (aqui e aqui) por executivos da Odebrecht — e da “venda do futuro” se encaixam.

 

 

(Foto: Paulo S. Pinheiro – Folha da Manhã)

 

 

Folha da Manhã — Como você analisa os 100 primeiros dias do governo de Rafael Diniz?

Arnaldo Vianna — Parabenizo Rafael pela vitória. Uma vitória incontestável que ele teve, no primeiro turno. Agora, é o que eu digo sempre, para quem foi prefeito duas vezes, vereador e deputado (federal): a eleição acabou. Agora, começa outra etapa. E há que se tomar muito cuidado, tanto quem vence a eleição e assume, como os críticos. Temos que dar tempo ao tempo. É uma fase em que ele enfrenta uma situação difícil, porque não houve transição efetiva. E ainda bem que não houve. Quero dizer para Rafael, quando ele ler isso: foi bom não ter havido, Rafael! Porque, na minha época, na transição, em 98, com o mesmo grupo…

 

Folha — Garotinho saiu para governador, se elegeu, e você, vice-prefeito, assumiu Campos.

Arnaldo — Passou para mim. Me deu documentos dizendo que nós tínhamos, em caixa, uma quantia que animaria qualquer um que estivesse iniciando o mandato. Mas só que ele se esqueceu de dizer que aquela quantia que ele dizia ter deixado em caixa não era crédito. Era dívida, que levei o meu primeiro ano de governo só para pagar. E hoje a gente vê com preocupação o que pode vir a acontecer com Rafael. Ele tem que se cercar de pessoas boas, focar no principal. Olha, eu tenho acompanhado muito, tanto na mídia social, mas, sobretudo, o que tem acontecido, o que vocês têm colocado na Folha, e vendo com o que a população está preocupada, eu diria para Rafael: inicie pensando em três coisas básicas. A primeira é a Saúde. Estou militando na Saúde ativamente e estou vendo a Saúde de Campos em uma situação muito grave, difícil para a população. Hoje, nós temos que ver qual é a realidade da Saúde. Quem tem plano de saúde se vira com ele. Quem não tem plano de saúde, e tem dinheiro, vai para a medicina privada. Agora, quem depende do SUS, é triste. Eu digo isso porque estou atendendo o SUS, além de atender no meu consultório e no social. E vejo essa situação. Então, eu digo: Rafael, cuide dessa parte.

 

Folha — Você falou que tem três pontos. E os outros dois?

Arnaldo — Outro ponto é a Educação. Eu sempre pregava uma coisa: eu não vou promover a Saúde se eu não promover a educação. Através da Educação, a gente pode mudar muitas coisas, inclusive na questão da Saúde. Não muda na questão da doença, mas muda na questão da Saúde. Tem que usar a rede pública municipal de ensino como agente promotor da Saúde. Isso é fácil de fazer. Eu lembro que, quando prefeito, nós fazíamos esse trabalho com os professores, da saúde preventiva, de evitar doenças.

 

Folha — E o terceiro ponto?

Arnaldo — Saúde, Educação e o terceiro ponto é o funcionalismo público. Depois dessa experiência que eu passei, como prefeito, se você não tiver o funcionalismo público trabalhando em consonância com quem está no comando, não anda. A máquina para, emperra. Os processos, que têm que passar em cada secretaria, não andam. Não dependem do prefeito, do vice-prefeito, dos secretários e dos vereadores, mas daqueles funcionários anônimos que estão ali, que têm que preparar o projeto, fazer com que aquilo ande. E esses funcionários nem sempre são valorizados. Acho que está no momento do Rafael avaliar o plano de cargo, carreira e salário do servidor. Para valorizar essa massa importante que toca a Prefeitura.

 

Folha — Você falou, há pouco, que Rafael tinha que se cercar de pessoas boas. A equipe de governo dele tem sofrido alguns questionamentos, sobretudo por falta de experiência. Qual é a sua opinião?

Arnaldo — Olha, essa questão de falta de experiência, você vence com a garra, com a vontade, com a determinação. E com uma coisa muito importante: com o conhecimento. Se as pessoas não têm experiência em determinado setor, mas detêm conhecimento da matéria, elas vão desenvolver bem. A experiência vai vir. Mas ele também tem, na sua equipe, pessoas experientes.

 

Folha — Especificamente em relação à Saúde, você é médico, um neurocirurgião muito conceituado em Campos, e foi um elogiado secretário de Saúde quando acumulou a pasta com a vice-prefeitura, no segundo governo de Garotinho. Como você vê a indicação de Fabiana Catalani à pasta?

Arnaldo — Eu conheço bastante a Fabiana. Ela conhece muito essa questão. Sobretudo, ela conhece muito a questão de captação de recursos. Talvez seja o ponto em que Catalani seja mais forte, na captação de recursos para a área da Saúde. E me preocupa saber que, talvez, ela não fique.

 

Folha — Essa informação é nova.

Arnaldo — Me preocupa saber isso. Eu já escutei isso. Não escutei nem em Campos, foi fora. Ela também trabalhava fora de Campos. Há uma expectativa até muito grande de que ela possa voltar e assumir a Santa Casa de São João da Barra.

 

Folha — Mas isso, por enquanto,  é só especulação?

Arnaldo — É especulação. Especulação que não escutei nem dela, nem aqui em Campos. Escutei fora de Campos. Em São João da Barra.

 

Folha — Qual a sua opinião sobre a operação Chequinho, que já levou a condenações de envolvidos em primeira e segunda instâncias na Justiça Eleitoral?

Arnaldo — Esse é um ponto que está dominando o momento político. A gente sabia disso. A gente sabia que muita coisa errada estava acontecendo naquela campanha. Hoje, a gente fica vendo quantos já foram presos, condenados, citados, investigados. Mas, se não chegar ao principal, não resolve.

 

Folha — Mas o principal (Garotinho) chegou a ser preso também.

Arnaldo — Foi preso, mas precisa ser devidamente esclarecido porque, senão, só as piabas vão pagar e os tubarões continuam armando.

 

Folha — Vê similaridade entre as denúncias de troca de Cheque Cidadão por voto, na Chequinho, além da contratação ilegal de RPAs, que teriam sido comandadas por Garotinho em 2016, com as buscas na sua secretaria municipal de Administração, em 2004, onde foram apreendidos documentos que comprovaram ilícito eleitoral na contratação de servidores, que depois custariam o mandato de prefeito de Carlos Alberto Campista?

Arnaldo — Total. Além de ver a similaridade… hoje, eu volto atrás…

 

Folha — Mas, então, houve ilícito eleitoral no seu governo? Se há similaridade…

Arnaldo — Há similaridade nos fatos. Eu quero voltar atrás, quando eu disputei uma eleição contra Rosinha.

 

Folha — Em 2008 ou 2012?

Arnaldo — Em 2008. Eu lembro que foi uma eleição muito difícil. Difícil para mim, no plano pessoal, pois eu vinha de um problema de saúde muito sério e disputei aquela eleição. Eu lembro que, logo assim que acabou a votação, eu fui para o hospital para ser operado. Foi um problema de vesícula e pancreatite. Fui para lá para ser operado. Graças a Deus, correu tudo bem. Mas aquilo, durante a campanha, me prejudicou muito. Mas o que mais me prejudicou, eu fui saber agora. Eu, com poucos recursos, porque eu não tinha apoio da Odebrecht. Fui saber, pelas delações dos executivos da Odebrecht (Benedicto Barbosa da Silva Júnior e Leandro Andrade Azevedo, que denunciaram o casal Garotinho na Lava Jato) que…

 

Folha — A Odebrecht deu dinheiro, na campanha de 2008, para Rosinha.

Arnaldo — Eu fui prejudicado por todo esse esquema.

 

Folha — E você acha que esse dinheiro da Odebrecht foi fundamental na sua derrota?

Arnaldo — Com certeza. Além do problema de saúde que eu passava na época, eu estava com recursos minguados, disputando. Hoje, eu vejo como era o poder financeiro daquela campanha. Isso realmente é preocupante. É uma coisa que eu digo sempre: nós tínhamos que voltar à política de tempos atrás, em que você não tinha tanta rede social, não tinha internet, não tinha nada disso. Era no convencimento. Você convencia as pessoas de que você seria um bom candidato pela sua história e pelo que você poderia fazer.

 

Folha — Qual sua opinião sobre a antecipação de royalties, mais conhecida como “venda do futuro”? No contrato celebrado pelo casal Garotinho com a Caixa Econômica Federal, no apagar das luzes do governo Dilma Rousseff (PT), foi excedido o comprometimento de 10% dos royalties, limite definido pela lei municipal que autorizou a transação. Na sua opinião, o governo Rafael tem que discutir ou pagar? 

Arnaldo — Bom, quando a gente deve, a gente não discute. A gente paga e, depois, vai para a discussão. Acho que o governo Rafael deve lutar para tentar reverter, para ver que manobra usaram para aprovar isso. Não é fácil reverter. Porque vão chegar e dizer que tem uma lei da Câmara Municipal que autoriza. Qual Câmara? Quem comandava a Câmara? Não falo só dos vereadores. Quem tinha o poder de influência sobre a Câmara para que isso acontecesse? Eu já fui vereador, já fui deputado. Então, sei como funciona o processo legislativo, sobretudo na hora dessas aprovações. Acho que ele deve lutar, sim. Mas, além de lutar, eu acho que ele tem, com sua equipe, que preparar um plano de recuperação econômica e recuperação do crédito para Campos. Nós temos, em Campos, excelentes cabeças que podem ajudar.  A economia de Campos está triste. A gente vê lojas fechadas. E isso nos preocupa porque o poder local, é uma coisa em que eu bato há muito tempo, não é a Prefeitura e a Câmara só. É Prefeitura, Câmara, OAB, CDL, Acic, associações de classe, de bairro. Nós temos que juntar tudo isso. E, quando falo isso, é porque temos uma experiência, no passado, do Fundecam. Era o Fundo de Desenvolvimento de Campos, criado no meu governo, em que retirávamos uma parte do dinheiro dos royalties e aplicávamos ali, para garantir o futuro, para quando os royalties acabarem. E vão acabar um dia.

 

Folha — A “venda do futuro” integra uma dívida de R$ 2,4 bilhões legada pelo governo Rosinha. Hoje, a Prefeitura de Campos opera com um déficit de R$ 40 milhões/mês entre receita e despesa. O que acha do quadro deixado?

Arnaldo — O quadro é tenebroso. É terrível. A dívida deixada é terrível. Olha só a questão da Lava Jato e a questão da “venda do futuro”. As coisas se encaixam. São muito próximas. Eu lembro, quando saiu essa “venda do futuro”, naquela época, eu falava: “não permitam isso porque vai ser a quebradeira de Campos”. E realmente é a quebradeira de Campos. É difícil sair disso. Mas se todos se unirem em favor de Campos. Não em favor do partido “A”, do partido “B”, ou da corrente política “tal”. Não! Em favor de Campos. A questão, hoje, é salvar Campos, e não o governo de Rafael, que ainda está começando. Temos que dar tempo a ele para mostrar a que veio.

 

Folha — Você foi amigo do pai dele (o ex-deputado Sérgio Diniz)?

Arnaldo — Muito. Fui colega, amigo do avô dele (o ex-prefeito Zezé Barbosa). Uma pessoa fantástica. Uma pessoa que a gente sempre se lembra de coisas boas que ele fez. Eu me lembro de quantas vezes fui à casa dele para conversar, para ele me orientar, mesmo que o grupo ao qual eu pertencia não pudesse ouvir falar no nome de Zezé Barbosa. O grupo do senhor Anthony William não podia falar do Zezé.

 

Folha — Você não fala Garotinho? Você fala Anthony William?

Arnaldo — Ele já cresceu. Ele já está idoso para ser chamado de Garotinho. É Anthony William. Tem que assumir o que a gente é. Ele não assume nem o nome dele. Vai assumir mais o quê?

 

 

(Foto: Paulo S. Pinheiro – Folha da Manhã)

 

 

Folha —  O garotismo e o arnaldismo, como o próprio lulopetismo, são movimentos marcados pela política social para uns, assistencialista para outros, da população mais carente. O que acha de quem afirma que precisam do pobre para sobreviver politicamente? É mais difícil de mantê-los em período de recessão econômica, como vivem o Brasil, o Estado do Rio e Campos?

Arnaldo — A gente fala, nesta questão, dividindo por classes econômicas. Mas vamos dividir, também, pela classe cultural. Porque, hoje, mesmo aqueles que pertencem a uma classe econômica de nível mais baixo, eles estão adquirindo conhecimento. E, daqui a pouco, não vão acreditar na política do R$ 1, na política do pão e circo. Não vão acreditar mais na política do “dá lá, toma cá”. Eu sempre falei uma coisa: eu posso, hoje, dar uma bolsa de estudos para os filhos; posso dar o Cheque Cidadão. Posso dar tudo isso. Mas, se eu tiver uma política que gere trabalho e renda, eu não vou precisar mais dar isso. E o cidadão vai ser mais feliz. Ele vai ver que não está ganhando benesse de governo nenhum, seja federal, estadual ou municipal. Eu estou ganhando o produto do meu trabalho. Mas, para isso, vamos voltar lá atrás. E, para isso, eu digo ao Rafael: use a história da sua família. Invista na Educação, sobretudo na educação profissionalizante, para que a gente possa preparar uma massa, em Campos, de pessoas que governem a cidade junto com os eleitos. Aí, volto há um tempo, em que escutei, quando o presidente Kennedy, dos EUA, disse: “Não pergunte o que seu país pode fazer por você, mas o que você pode fazer pelo seu país”. É hora, também, de a gente perguntar: além do que Rafael pode fazer por nós, o que nós podemos fazer por Campos?

 

Folha —  O arnaldismo morreu em Campos? E o garotismo?

Arnaldo — Eu nunca vi essa questão do arnaldismo. Até porque eu sempre tratei as pessoas que trabalhavam comigo com muita responsabilidade, com muito respeito. O garotismo, na verdade, o mentor do garotismo tinha uma inveja do (ex-governador) Brizola muito grande. Brizola foi um cara fantástico, independente de posições políticas. Era um cara de um pensamento político adiante. E existia, na época, o brizolismo. E, quando houve a ruptura dele com Brizola, ele quis pegar até o jeito de falar do Brizola. Ele imitava em tudo Brizola. Mas ele se esqueceu das coisas boas que Brizola fez por ele e das coisas ruins que ele fez por Brizola. Mas ele tinha essa fixação por Brizola e criou o garotismo. Mas o garotismo era assim: ou faz o que eu quero ou está fora; ou me segue ou não presta. Todos aqueles que, um dia, não concordaram com ele viraram seus adversários. Adversários quando se fala na boa política. Pior é quando se tornam inimigos, malvados, perversos. Eu tenho adversários políticos, é lógico, mas evito ter inimigos. Por exemplo, Anthony William se declara meu inimigo. Mas a família dele não é minha inimiga. Muito pelo contrário. Eu tenho ligações com pessoas da família dele. De amizade, profissionais e de respeito, o que ele não tem com a minha. Ele não sabe separar política da vida pessoal. Eu acho que este é o grande ponto do garotismo: eles não separam a política da vida pessoal, em todos os aspectos.

 

Folha — Aquele que seria seu herdeiro político, e filho único, Caio Vianna (PDT) não teve seu apoio em 2016. Quando você apoiou a candidatura a prefeito de Geraldo Pudim (PMDB), chegou a dizer publicamente: “Caio precisa estudar, amadurecer. Eu lutei muito para me formar. Já meu filho ouviu algumas pessoas e trancou a faculdade para entrar em uma aventura. Quando ele voltar aos estudos e concluir a faculdade, darei a ele meu apoio político”. Mudou ou mantém a opinião?

Arnaldo — Mantenho. Mantenho porque fui criado dessa forma. Quando eu tinha 11 anos, meu pai faleceu, e eu fui criado pela minha mãe, professora da rede estadual. Com muita dificuldade, ela criou os cinco filhos. Mas ela sempre usava uma coisa com a gente: estude. Nós tínhamos uma história política na família. Meu pai fazia parte do antigo PTB, que deu origem, depois, ao PDT, na época do Getúlio (Vargas, ex-presidente). Ele era amigo do Brizola. Eu me lembro. Tem uma foto, na casa da minha mãe, do meu pai, minha mãe, Brizola de cabelo pretinho e bigodão, e eu no colo dele. É uma história que vem de lá. Aí, eu digo para o meu filho: “estude, se forme, porque política não é profissão”.

 

Folha — Ele ouve você?

Arnaldo — Ele ouve os dois lados. E, quando eu digo os dois lados, muitos vão pensar que são a mãe (a ex-vereadora Ilsan Vianna) e o pai. Não. Os dois lados são o quê? Eu, que falo com o coração e a responsabilidade de pai, e outros que se acercam. E que se acercaram de mim também, quando eu estava no poder, mas não conseguiram muitas vantagens comigo. E passaram a olhar para Caio com uma perspectiva de ele ser mais novo, com menos experiência do que eu tinha, para eles poderem levar vantagem. E isso me preocupava.

 

Folha — No início da última campanha a prefeito, Caio chegou a liderar a série histórica das pesquisas Pro4/Folha, mas entrou em derrocada tão logo você não deu a ele seu apoio. Considera que sua posição definiu os rumos da candidatura dele?

Arnaldo — O que definiu a derrota dele, naquele momento, não foi meu apoio a outro candidato. Não foi a idade do Caio. Eu acho que se deveu muito mais a duas coisas: às pessoas ainda não terem tido noção do que Caio tinha feito e do que poderia fazer. Tinha, ao lado dele, uma pessoa, e aí não vai crítica pessoal, mas que trabalhou no meu governo também…

 

Folha — Quem?

Arnaldo — A mãe dele. Que foi prejudicial para ele. Ela é uma pessoa que, administrativamente, tem um potencial muito grande. Não vou negar isso. Mas, politicamente, é o inverso. Talvez pelo seu jeito de ser, de conversar com as pessoas. Então, não agrega. Mas gosta da política. E, naquele momento, além disso, eu tinha saído do PDT. Fui para o PEN, em uma passagem rápida. Esse grupo mesmo manipulou para tirar o PEN do Arnaldo. Eles fizeram uma tramoia para me tirar o PEN. Foi terrível isso. Até que me surge, o filho do Paulo Moraes, o deputado Lazaroni, e acabamos indo para o PMDB.

 

Folha — Depois que definiu seu apoio a Pudim, você não conseguiu transferir a ele a sua popularidade. Você acha que isso se deveu a quê?

Arnaldo — Estou até querendo, um dia, sentar com Pudim e mais alguns membros do grupo dele para conversar sobre isso. Acho que é um exercício muito bom para o futuro. O que houve? Eu não conseguia transferir para ele a minha popularidade. Não conseguia fazer com que seus votos aumentassem. Mas lembro que, na campanha, muitas vezes, eu ainda com gás para continuar as caminhadas, o grupo de militantes dispersava. Era aquele contato muito superficial e muito rápido com o eleitor. E faltava garra, determinação. Faltava enfrentar o que eu enfrentei em várias campanhas: comprar, no Camelódromo, uma capinha de chuva e, mesmo no dia de chuva, fazer caminhada. Faltava gastar sola de sapato, convencimento. E não aquelas, desculpe o termo que vou usar, reuniões de baba-ovo, em que meia dúzia vai lá bater palma, para aparecer. Faltava aquele que ficava lá atrás. Faltava esse cara, que é o que ganha a eleição. O cara que vai para a rua e ganha.

 

Folha — Na reta final da campanha municipal de 2016, depois que Rafael passou a liderar as pesquisas, começou a circular com força nos bastidores que Caio teria feito uma aliança por baixo dos panos com Garotinho. Hoje, entre os próprios garotistas, é dito abertamente que, em caso de nova eleição, Caio seria o candidato o candidato do grupo. Como político e pai, qual a sua visão?

Arnaldo — Terrível. O que existe, na verdade, é que Caio mora no prédio em que mora Chicão. Eu lembro que foi publicada uma foto dos dois conversando. Isso não tem nada demais. Mas, depois que começa a surgir tudo isso e eu vejo até uma discussão em que o grupo estava querendo observar minha posição, o que eu ia fazer na política, se resolvia as minhas pendências. Se eu fosse candidato a deputado federal, eles lançariam Caio a deputado federal; se eu fosse candidato a deputado estadual, eles lançariam Caio a deputado estadual.

 

Folha — Eles quem? Garotinho?

Arnaldo — O grupo de Anthony William. Na pescaria, a gente usava muito isso. Você joga o engodo para pegar o peixe.

 

Folha — O peixe é você?

Arnaldo — É. Eles fazem isso como uma maneira de provocação para ver se eu entro em rota de colisão com meu filho. Eles apostam no seguinte: Arnaldo teve esse problema com Caio. E eles não vão entender isso nunca porque não tem valor para eles eu dizer que queria que meu filho estudasse, que queria o melhor para o meu filho. Eles nunca vão acreditar nisso. É o que eu penso até hoje. Disse naquela época e reafirmo: no dia em que Caio terminar os estudos dele, e se ele optar pela vida pública, pela política, eu serei o primeiro a apoiá-lo. Ele estava na faculdade, no Rio. Gostava do que estava fazendo. Não era na minha área. Era na área tecnológica. Mas ia muito bem ali. Eu dou meu exemplo: fui vereador, deputado, vice-prefeito e prefeito duas vezes. Hoje, sou médico. E se eu não tivesse uma profissão? Seria o que hoje? Ia estar atrás dos políticos eleitos, pedindo cargo?

 

Folha — Em passado recente, quando Garotinho sugeriu que você teria contas no exterior em nome de Caio, sua posição foi veemente na defesa do seu filho: “Garotinho desperta meus instintos mais primitivos”. Como convive agora com essa possibilidade de aliança de Caio com seu maior inimigo político, que várias vezes o chamou publicamente de ladrão?

Arnaldo — Eu prefiro acreditar que isso não vai prosperar. É o coração do pai falando. Mas se prosperar, eu vou lamentar muito. Torcer e rezar para o futuro do meu filho. Porque ele será massacrado pelo Garotinho. Garotinho tem essa prática.

 

Folha — Como ele fez com você.

Arnaldo — Fez com vários.

 

Folha — Mas você foi, talvez, o que mais tenha incomodado ele pela popularidade que alcançou.

Arnaldo — Mas ele tentou fazer isso com Sérgio Mendes, Campista, Fernando Leite, Pudim. Todos eles. É um sofrimento muito grande. Com todos. Caio não seria diferente. Seria massacrado. Aí, entra o meu sentimento como alguém que milita na política, mas, sobretudo, de um pai, vendo o filho ser massacrado por alguém que você tinha convicção de que faria isso. E eu não ter tido a competência de impedir que meu filho seguisse aquele caminho.

 

Folha — Isso angustia você?

Arnaldo — Angustia. Muito!

 

Folha — Após sua ruptura política e pessoal com Garotinho, você várias vezes o desafiou publicamente a disputarem juntos uma eleição em Campos, para que a população da cidade definisse no voto o vencedor. Ele nunca aceitou. Acredita que isso ainda vai acontecer um dia?

Arnaldo — Seria ótimo. Mas não. Nunca vai acontecer. Ele nunca vai aceitar. Eu aceito. O desafio está de pé, mas ele nunca vai aceitar. Eu acho que ele fica com medo. Nelson Nahim sobe ao palanque do irmão ou do amigo? A mãe (dona Samira) sobe ao palanque do médico dela ou do filho que a esquece? É muito difícil. São todas essas conjunturas. Eu não falo isso para provocar. É o dia a dia, a realidade. Não posso esconder o passado. Eu tive uma grande ligação com a família de Garotinho, inclusive com ele.

 

Folha — Você foi médico dele.

Arnaldo — Inclusive com ele. Hoje, continuo tendo relação de amizade e respeito com várias pessoas da família dele. Mas ele não tem essa relação com nenhuma pessoa da minha família, a não ser no interesse político de cooptar meu filho. Não por ver valores nele, mas por ver uma forma de me provocar.

 

Folha — Seu último mandato foi de deputado federal, eleito em 2006. De lá para cá, concorreu com problemas na Justiça a prefeito em 2008 e 2012. E chegou a pensar em disputar para deputado estadual em 2014 e a prefeito, em 2016, mas retirou as candidaturas. Quando vai concorrer de novo a uma eleição? Quando vai poder fazê-lo sem problemas jurídicos?

Arnaldo — Eu acho que não estarei problemas jurídicos já a partir da próxima eleição. Digo isso baseado nos encontros que tenho feito com o setor jurídico, com advogados que estão me ajudando nisso. Agora, quando eu vou querer disputar uma nova eleição? Eu, primeiro, preciso ter uma conversa com Edilene (esposa). Preciso conversar com várias pessoas, que trabalham comigo desde o início da minha carreira política, quando fui vereador, e com novas pessoas, que surgiram agora. Pessoas que têm me ajudado muito. Preciso ter toda essa conversa, mas, sobretudo, fazer uma análise do quadro político. Para não entrar em nenhuma aventura e nem tumultuar o processo. Eu sei que, às vezes, até a minha entrada fez isso. E eu não quero isso. Eu quero o melhor para Campos. Eu sempre digo uma coisa: eu nasci em Campos, estudei em Campos. Depois de um período, saí para me especializar, no Rio e fora do Brasil. Mas, na realidade, minha vida toda é focada em Campos. E eu quero o melhor. Quero poder dizer, um dia, quando não estiver nem conseguindo andar, só dentro de casa: eu contribuí. Contribuí de forma positiva. Quero olhar para o meu passado e não ter vergonha. Quero ter orgulho das coisas que fiz. Sei que falar isso, quando a gente está envolvido na política, é difícil porque a política é perversa. É muito dura. Hoje, eu falo isso para você. Amanhã, senta outro aqui, que é meu adversário, e não vai me chamar de bonito. Não vai dizer que sou bom. Mas, primeiro, preciso ter uma prestação de contas comigo mesmo. Depois, a prestação de contas é com minha família. E não é família de esposa, filho, irmãos. É mais ampla. É a família que você cria no seu dia a dia.

 

Folha — Queria colocar mais alguma coisa?

Arnaldo — É um momento de muita cautela. Eu ressalto e digo um conselho para Rafael, um conselho de alguém que sempre admirou sua família: cautela! Use as pessoas do bem e que querem o bem de Campos. Você tem várias dessas pessoas ao seu lado. Procure as entidades que podem te ajudar. Transforme Campos, não por você, mas por todos nós. Precisamos que você seja o prefeito da mudança. Campos precisa romper com essa história.

 

Página 2 da edição de hoje (16) da Folha

 

 

Página 3 da edição de hoje (16) da Folha

 

 

Publicado hoje (16) na Folha da Manhã

 

Artigo do domingo — Da função do eco

 

Aristóteles, segundo cantou Caetano: “cuja cabeça sustenta ainda hoje o Ocidente”

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

O maior problema de se escrever por duas semanas sobre um tema pré-determinado é fazê-lo numa cidade, num Estado, num país e mundo onde os fatos relevantes se atropelam em sucessão tão espantosa. Como escrever um texto de opinião para este domingo sem falar da guerra civil na Síria, tomando proporções geopolíticas cada vez mais preocupantes? Ou sem citar a utilização inédita pelos EUA (aqui), sobre o Afeganistão, da mais poderosa bomba não nuclear do seu vasto arsenal, capaz, como o da Rússia, de varrer a espécie humana da Terra algumas vezes? Aliás, bastaria mais de uma?

Em termos locais, nem por isso menos destrutivos, como escrever para hoje sem falar sobre a “delação do fim do mundo”, feita por 77 executivos da Odebrecht, a eviscerar a podridão da prática política brasileira desde os tempos da Ditadura Militar (1964/85)? Para quem não é caso clínico da teoria freudiana da negação, saber que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebia da construtora para agir em seu favor desde os tempos de sindicalista do ABC paulista, ainda nos anos 1970, causa menos espanto do que constatar que não escapou nem o ex-governador Leonel de Moura Brizola (1922/2004), outro figura emblemática da esquerda brasileira e cuja probidade sempre pareceu inquestionável, com a revelação de que o Sambóbromo e os Cieps não foram erguidos como exceções à promiscuidade nada republicana entre poder público e empreiteiras.

De fato, nem o atual presidente Michel Temer (PMDB), nem nenhum dos seus antecessores vivos — Dilma Rousseff (PT), Lula, Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Fernando Collor de Mello (PTC) e, lógico, José Sarney (PMDB) — ficaram de fora. E, como a Folha indicava (aqui) desde 29 de maio de 2009, quando a coluna “Ponto Final” antecipou em quase quatro meses a licitação do “Morar Feliz” vencida pela Odebrecht, no valor total de quase R$ 1 bilhão, maior contrato dos 182 anos de história de Campos, os ex-prefeitos Rosinha e Anthony Garotinho (PR) também foram alvos da delação. Em troca, receberam (aqui) repasses às campanhas dela a prefeita em 2008 e 2012, e dele, a governador, em 2014, segundo Benedicto Barbosa da Silva Júnior e Leandro Andrade de Azevedo denunciaram a Lava Jato. Ironicamente, foram os mesmos dois executivos da Odebrecht que assinaram (aqui) com Rosinha o primeiro contrato do “Morar Feliz” — com a Folha também noticiou com exclusividade, em 03 de abril de 2016.

Mas o assunto que determinou a primeira rodada temática de duas semanas dos colaboradores do blog “Opiniões”, com a qual os dois últimos artigos (aqui e aqui) deste espaço dominical também dialogaram, foram os 100 primeiros dias do governo municipal Rafael Diniz, do PPS — cujo presidente nacional, o ministro Roberto Freire, decepcionou muita gente ao aparecer na “delação do fim do mundo”. Os 100 dias de Rafael se completaram na segunda-feira, dia 10. Foi quando o tradutor Marcelo Amoy abriu (aqui) a última semana de análise do tema coletivo. Uma semana em que o tom da cobrança de alguns colaboradores parece ter subido, em relação à semana anterior.

Ao falar das “demandas reprimidas” do campista, Marcelo ressalvou: “Esperamos que o governo Diniz as atenda, mas ficamos impacientes que ainda não pareça que tudo já começou a deslanchar. Sei que há necessidades urgentíssimas, que não podiam esperar nem um dia, quanto mais cem ou mais, mas… até que ponto estamos cobrando o impossível dado o ‘pouco’ tempo até agora transcorrido? Por outro lado: você tem certeza que não dá pro governo acelerar um pouco o ritmo e demonstrar que já sabe o que pode e vai fazer – e de que forma?”.

Na terça (11), o jornalista e poeta Ocinei Trindade começou falando (aqui) das suas impressões pessoais a partir de um encontro com Rafael em Atafona, para depois passear pelas interpretações da astrologia, numerologia e tarô sobre a data de nascimento do prefeito, nas mesmas data e mês do líder cubano Fidel Castro (1926/2016), não sem antes advertir: “Nas redes sociais vemos uma ciberinquisição, e pelas ruas, uma neo-inquisição surgindo. Descontentes a fim de desconstruir, de algum jeito, a imagem do novo governo. Nas mídias digitais são frequentes”.

O jornalista e servidor federal Ricardo André Vasconcelos, que foi secretário municipal de Comunicação nos governos Garotinho (1989/92) e Sérgio Mendes (1993/96), usou a quarta (12) para questionar (aqui) os rumos da nova administração municipal entre a “ruptura” e a “velha política”. E avaliou criticamente o canal de interlocução entre governo e cidadão: “alguém tem que dialogar com a sociedade que comprou a ideia de um ‘governo diferente’ (…) o prefeito deveria (…) manter atualizado o discurso da diferença, enquanto sua equipe elabora o que será diferente na prática (…) Se a demanda reprimida não pode ser atendida, é preciso que se leve ao conhecimento da população os motivos, as dificuldades e as soluções viáveis. É preciso reconectar o cidadão que cobra soluções ao eleitor que apostou na mudança”.

Fora de Campos há 10 anos, a antropóloga e poeta Manuela usou da crônica, na quinta (13), para lembrar (aqui) seu passado comum com o prefeito, nos tempos de ambos estudantes do Auxiliadora, quando ela já podia observar a capacidade de liderança de Rafael. Ao saudar a presença da atriz Lúcia Talabi e da socióloga Sana Gimenes na equipe de governo, Manuela apostou numa lembrança comum: “Passados os primeiros cem dias e com a sensação de mudança não tão latente, mesmo para alguns de seus próprios eleitores, permanece a confiança na competência do atual prefeito e de todo seu grupo. Particularmente para mim, ainda ecoa a continuidade do hino da escola, pertinente, para a atualidade dos caminhos de Rafael: ‘Queremos ser promessa no futuro/ Luz no escuro, solução!’”.

Na sexta (14), talvez tenham se dado (aqui) os questionamentos mais duros, entre os colaboradores do blog, aos 100 dias do novo governo de Campos. Apesar das críticas severas quanto ao “desGoverno” rosáceo e de se assumir eleitor de Rafael, o professor e comunicador visual Sérgio Provisano foi enfático: “Chega do ‘blá-blá-blá de paciência’, de que herdamos uma cidade falida, sem orçamento e coisa e tal. Disso todos sabíamos, não era nenhuma novidade tanto que decidimos mudar tudo e mudamos no primeiro turno das eleições”. Antes de fazer críticas diretas ao Transporte Público, Educação e Saúde, ele afirmou: “não observei, até o presente momento, mudanças significativas em relação ao governo anterior, os serviços públicos continuam com sérios problemas estruturais”.

Por fim, ontem, no sábado (15), foi a vez da cientista social Vanessa Henriques usar seu espaço para fazer (aqui) um balanço não dos 100 dias governo Rafael, mas especificamente da secretaria de Desenvolvimento Humano e Social, capitaneada pela mesma Sana Gimenes saudada por Manuela. Integrante da secretaria, Vanessa resumiu: “como foi apontado por muitos dos colaboradores deste blog, este primeiro momento está sendo marcado pela análise da situação encontrada e pela reorganização e reestruturação dos serviços prestados à população campista (…) Transformar este cenário será uma tarefa hercúlea (…) Os profissionais que trabalham na ponta, que muitas vezes sentem-se incapacitados diante da grandeza da missão, (…)  são verdadeiros heróis que, a cada atendimento prestado aos munícipes, dão um passo na direção da reconstrução da nossa cidade”.

Comparadas todas as análises sobre os 100 dias do novo governo de Campos, não só da última semana, como da anterior, percebe-se que a “tarefa hercúlea” não se atém a quem vê o governo de dentro. Mais difícil ainda pode ser tirar uma conclusão de tudo que foi dito. A defesa da manutenção da assistência das “13 mil famílias que recebem o Cheque Cidadão e cerca de 30 mil famílias que recebem o Bolsa Família”, contabilizadas pela Vanessa, se choca, por exemplo, com a advertência do Marcelo: “O velho assistencialismo da mão estendida e dos favores a retribuir tem que morrer nesta cidade (…) Acreditem: dinheiro não cai do céu. Juro!”.

Da mesma maneira, quando o jornalista e poeta Fernando Leite abriu (aqui) a rodada temática de análises, no último dia 3, pregou: “Querem alguns que o prefeito repita o modus operandi do adversário vencido, que expunha as vísceras dos seus inimigos, ao sol, na praça central da cidade. Tolos! (…) O prefeito venceu esse modelo próprio dos carniceiros. Repetir o contendor tombado seria o maior de todos os equívocos”. E a fala é diametralmente oposta à cobrança feita, nove dias depois, pelo Ricardo André, antes da notícia (aqui) das CPIs das Rosas e da Lava Jato na Câmara de Campos: “É preciso que se conheça o que foi apurado nas auditorias e trazer à luz os malfeitos de um governo que foi escorraçado nas urnas justamente porque sobre ele pairavam todas as suspeitas. E, se nada vem à tona, anistiam-se todos os dias um governo que acabou em caso de polícia”. Como Fernando e Ricardo, depois convertidos em desafetos, estavam na gênese do garotismo, nota-se que a discordância de método não é de hoje.

Num país em que 200,4 milhões de pessoas se convertem em técnicos de futebol, no ufanismo cometa que nos visita de quatro em quatro anos, a cada Copa de Mundo de futebol, tão importante quanto ouvir, é saber fazê-lo criticamente. Na ágora ateniense, berço da democracia, o filósofo grego Aristóteles (384/322 a.C.) ressalvou que o limite daquele então revolucionário sistema de governo deveria ser: “kêryx mè stentóreios” (“um orador sem megafone”). Abraçada a premissa clássica, a Folha e o “Opiniões” se orgulham, independente da concordância, por se prestarem à função do eco.

 

Publicado hoje (16) na Folha da Manhã

 

Vanessa Henriques — Arrumando a casa

 

 

 

No presente artigo, me afastarei ligeiramente do esquema adotado pelos demais colaboradores do blog Opiniões que, cada um segundo seu ponto de vista, apontaram os pecados e as virtudes destes cem primeiros dias da gestão Rafael Diniz. Digo isso porque, visto que integro a equipe de funcionários da secretaria municipal de Desenvolvimento Humano e Social, penso que seria útil aos leitores do blog e à população em geral, utilizar este espaço para fazer ecoar o trabalho que foi realizado na secretaria nestes primeiros cem dias da atual administração capitaneada pela secretária Sana Gimenes.

Em primeiro lugar, creio que seja importante ressaltar a importância do trabalho realizado pela SMDHS tendo em vista que é imenso o contingente de pessoas que se encontram em situação de vulnerabilidade social na nossa cidade. Existem em Campos cerca de 31 mil famílias em condição de extrema pobreza, ou seja, que possuem renda familiar per capita inferior a 85 reais por mês, segundo o último censo realizado em 2010. São aproximadamente 13 mil famílias que recebem o Cheque Cidadão e cerca de 30 mil famílias que recebem o Bolsa Família. O que é fácil constatar ao observarmos a nossa realidade social, é que mesmo tendo sido responsável por administrar um dos orçamentos mais polpudos da União nos últimos anos, a gestão anterior avançou muito pouco no combate à pobreza.

A maior ação executada na secretaria nestes pouco mais de três meses foi a operação de recadastramento dos beneficiários do Cheque Cidadão incluídos no programa no período anterior a junho de 2016. Esse recadastramento possuiu como objetivo assegurar que o benefício fosse concedido somente aos assistidos que realmente se encaixassem no perfil técnico estabelecido por lei. Como demonstraram as ações judiciais a respeito do tema, o Programa Cheque Cidadão vinha sendo utilizado para a concretização de objetivos políticos escusos. Neste sentido, uma importante mudança implementada pela atual gestão foi a atribuição de uma maior autonomia aos assistentes sociais na decisão de conceder ou não os benefícios ao usuário. Desta forma, o saber técnico dos funcionários da ponta é respeitado e a concessão de todos os benefícios não fica dependente do gabinete. A decisão visa garantir a impessoalidade e o universalismo de procedimentos necessários para a justa implementação dessa política, garantindo que as famílias em situação de vulnerabilidade social tenham acesso ao benefício, sem que o mesmo torne-se instrumento de barganhas políticas.

Assim, outros programas de concessão de benefícios também foram reorganizados neste começo de mandato. Este é o caso do “Aluguel Social” que também vinha sendo disposto de maneira equivocada, e que agora passa a seguir o que prevê a lei, a saber, que este seja um benefício concedido a cidadãos cuja moradia encontre-se em situação de risco. A concessão do seguro-defeso também foi regularizada. Para quem não sabe, este é um benefício que é uma espécie de seguro-desemprego dos pescadores artesanais, uma assistência financeira temporária concedida nos períodos legalmente estabelecidos em que os pescadores precisam paralisar suas atividades para a preservação de várias espécies. Cabe também ressaltar que o valor dos benefícios pagos foram corrigidos em relação ao valor atual do salário mínimo, mesmo apesar da atual crise financeira.

Além da reorganização dos programas de benefícios sociais, a atual gestão também realizou mudanças significativas na estrutura da secretaria, visando melhorias nas condições de trabalho dos funcionários e a redução dos custos operacionais e relativos à folha de pagamentos. Sendo assim, foram realizados consertos em veículos que há tempos encontravam-se abandonados no pátio da Secretaria, bem como o reaproveitamento de material físico que encontrava-se deteriorado. Também houve um significativo enxugamento dos recursos humanos, no que se refere aos cargos de DAS e RPA, estes últimos sendo reduzidos em quase 50%. Estes cortes resultaram em uma economia de cerca de 250 mil reais mensais. Houve também revisão de contratos estabelecidos entre a Secretaria e entes privados, buscando aumento das vantagens financeiras sem a perda de qualidade dos serviços prestados. Além disso, uma das prioridades da atual administração é aprimorar a comunicação entre os setores internos da Secretaria e acelerar a velocidade de resolução dos processos que envolvem o setor de Proteção Social Especial no Ministério Público. Para tanto, inúmeras reuniões foram realizadas com promotores do órgão.

É igualmente importante destacar a reorganização e a formulação de um projeto pedagógico — até então inexistente — dos Serviços de Convivência e Fortalecimento de Vínculos coordenados pela Secretaria, que objetivam prestar assistência a crianças, adolescentes, idosos e seus familiares. Além disso, o programa de Inclusão Produtiva, que visa incluir cidadãos no mercado de trabalho através de cursos de capacitação profissional, contará com cursos mais atrativos e que melhor alcancem o objetivo de conferir autonomia aos usuários. E em termos de qualificação do capital humano, foram oferecidos cursos de capacitação para os técnicos e gestores dos equipamentos da assistência social, tais como o Capacita Suas e a Capacitação sobre Violência Doméstica.

Outra marca da atual gestão é a ênfase no tema dos Direitos Humanos, que conta com um setor dedicado à matéria dentro da Secretaria. O objetivo é ampliar as políticas e as discussões em torno do assunto, até mesmo desmistificando algumas concepções enviesadas sobre a questão que são irresponsavelmente disseminadas para a população. Neste escopo, a Política da Mulher é uma área considerada estratégica na gestão da atual Secretária, que luta para a abertura de um Centro Especializado de Atendimento à Mulher (Ceam) no município, órgão que é um equipamento responsável pelo atendimento especializado às mulheres vítimas de violência de gênero. A gestão atual tem estreitado a comunicação com a secretaria estadual de Assistência Social e Direitos Humanos no sentido de viabilizar a implementação do equipamento ainda este ano. A secretaria estadual há tempos já havia disponibilizado material físico que não chegou sequer a ser buscado na capital do Estado pelos responsáveis da gestão anterior.

E como a atuação das secretarias do município será pautada por um Plano de Metas, eis os projetos que estão previstos para a pasta do Desenvolvimento Humano e Social: a criação de dois novos Cras, um em Farol – região parcamente assistida pelo programa de Proteção Básica – e outro localizado no praticamente finalizado “Centro de Artes e Esportes Unificados” (CEU), localizado entre os Parques Eldorado e Santa Rosa, em Guarus; a reestruturação dos abrigos voltados para a população idosa; a criação de um Centro Dia para pessoas deficientes; a reorganização da Política de Segurança Alimentar, o que inclui a criação de um Banco de Alimentos; dentre outras metas.

De fato, como foi apontado por muitos dos colaboradores deste blog, este primeiro momento está sendo marcado pela análise da situação encontrada e pela reorganização e reestruturação dos serviços prestados à população campista. Como se vê, são muitos os equipamentos que precisam ser administrados e é grande o contingente de pessoas em situação de vulnerabilidade. Transformar este cenário será uma tarefa hercúlea que tem mobilizado intensamente todo o corpo de funcionários subordinados à secretaria. Os profissionais que trabalham na ponta, que muitas vezes sentem-se incapacitados diante da grandeza da missão de levar cidadania e dignidade à população de Campos, sobretudo frente à atual escassez de recursos, são verdadeiros heróis que, a cada atendimento prestado aos munícipes, dão um passo na direção da reconstrução da nossa cidade.

Esta missão grandiosa não permite a inexistência de perseverança e criatividade para driblar os obstáculos materiais e imateriais que se impõem diante de todo o quadro de funcionários. É claro que, quando se trata de um trabalho de tamanhas proporções, erros podem ser cometidos durante o processo. E é por isso que a população assistida está coberta de razão ao reivindicar que o trabalho siga sempre se aprimorando. Afinal, não foram poucos os anos de negligência, desrespeito e má utilização dos nossos recursos.

 

Entrevista de Arnaldo Vianna no Domingo de Páscoa

 

Ontem, dia 13, Arnaldo Vianna na Folha entre sua esposa Edilene e os jornalistas Paula Vigneron e Aluysio Abreu Barbosa (Foto: Paulo Pinheiro – Folha da Manhã)

 

 

Na manhã de ontem, quinta-feira (13), o ex-prefeito Arnaldo Vianna (PMDB) deu uma entrevista na Folha da Manhã, feita pela jornalista Paula Vigneron e por mim. Nela, o experiente médico e político revelou histórias do passado e fez insitigantes análises do quadro presente no município.

Após esta Sexta da Paixão (14) e do Sábado de Aleluia de amanhã (15), a publicação da entrevista virá como presente da edição da Folha no Domingo de Páscoa (16). Vale a pena conferir.

 

Sérgio Provisano — Governabilidade e governança: Rafael e os 100 dias

 

 

 

No início das novas administrações municipais, ocorreu uma expectativa de reais mudanças, mas imediatamente as cobranças foram refreadas e embarreiradas pelo discurso da crise. A propalada crise. Seria  uma negação do óbvio se, não conhecêssemos a História da Humanidade e ignorássemos que o mundo em algum momento não estivesse passando por crises… É assim desde quando nos tornamos “civilizados”.

Nossa aldeia goitacá, “umbigo do mundo”, como costumo dizer, não está imune. Somos o tambor do planeta e aqui as coisas ecoam com mais intensidade e vamos combinar só entre nós que as cobranças ecoam com mais intensidade. E esse é o principal desafio que o prefeito Rafael Diniz vai enfrentar em sua gestão.

Somos cerca de meio milhão de cidadãos, estamos com uma infraestrutra administrativa que foi depauperada ao longo de oito anos de desGoverno de uma “gestão” — e sendo eufêmico — “desastrosa, que promoveu um desmonte da máquina administrativa”. Mas vou encerrar essa fala, pois foi exaustivamente repetida durante a campanha eleitoral e já passou da hora de desmontarmos os palanques e começar a dar respostas às demandas da população.

Chega do “blá-blá-blá de paciência”, de que herdamos uma cidade falida, sem orçamento e coisa e tal. Disso todos sabíamos, não era nenhuma novidade tanto que decidimos mudar tudo e mudamos no primeiro turno das eleições.

Com o devido respeito que o prefeito Rafael Diniz merece (e todos sabem que foi dele o meu voto), mas não observei, até o presente momento, mudanças significativas em relação ao governo anterior, os serviços públicos continuam com sérios problemas estruturais. Vejamos por exemplo o transporte público, estamos aquém do ideal não houve melhoria, ampliação da frota e já ocorreram greves prejudicando a população e o comércio e as desculpas foram as mesmas do desGoverno anterior.

Na área da Educação — e disso posso falar de cadeira, pois sou um educador concursado que pensa e discute Educação sob o prisma da Educação de Qualidade e Transformadora — e posso afirmar com todas as letras, não houve nenhuma mudança tanto no que tange à questão pedagógica, quanto às condições físicas em que se encontram as unidades de ensino do município. E olha que estamos às portas da mudança da Base Curricular Nacional, mas mudemos de assunto vamos falar de outras áreas…

A Saúde continua com muitos problemas pois o desGoverno anterior não priorizou as demandas dos cidadãos e consequentemente as urgências ficam difíceis de serem sanadas: ambulâncias, UBSs e Unidades Hospitalares sucateadas, medicações básicas em falta. E a administração atual passa mais tempo administrando o caos. Realmente é complicado trabalhar e temos que dar o devido desconto, mas não podemos deixar de cobrar mais eficiência nas ações, a população quer soluções imediatas e não desculpas.

Existem soluções para as questões que estão aí e passam por uma participação popular, por fóruns de discussão coletivas, diálogos abertos dos dirigentes com a população e não assessores que permanecem sentados em seus gabinetes.

 

Manuela Cordeiro — Promessa no presente

 

 

 

Assim que recebi o convite para escrever a respeito dos primeiros cem dias do governo de Rafael Diniz, tive imediatamente duas reações opostas – senti grande responsabilidade, já que morando fora de Campos há dez anos não me familiarizo com a cena política do jeito que gostaria. Por outro lado, me senti feliz, pois pensei que poderia falar sobre aquele que hoje ocupa o cargo de prefeito da cidade de Campos como uma pessoa que transitou em alguns mesmos espaços de formação que eu. Conheci Rafael Diniz desde a infância, pois estudamos juntos no Auxiliadora.

Sendo dois anos mais velho do que eu, compartilhávamos os espaços fora da sala de aula, principalmente em uma escola na qual as atividades culturais eram intensas. Certo ano, lembro-me de uma edição dos Jogos Mazzarello, competição de esportes entre escolas da congregação salesiana, que foi realizada no Censa. As lembranças trazem o hino do Auxiliadora: “Nós somos de Dom Bosco a juventude/Nós somos da escola o coração…”

Nos idos de fim da década de 1990, pude perceber de longe o protagonismo de Rafael na condução de uma equipe, não me lembro o esporte. Mas certamente o olhar assertivo e o sorriso confiante chamaram a minha atenção e dos outros colegas que vibravam juntos no ginásio com a sua liderança. Em consonância com a lembrança do som da borracha das bolas que batiam no chão em harmonia com a gritaria animada dos adolescentes.

Certamente se ainda morasse em Campos, teria votado em Rafael. De maneira clara e conforme o tom dos textos dos outros colaboradores desse blog, os desafios são imensos com uma herança tão, no mínimo, mal planejada dos governos anteriores da planície goitacá. Mas a equipe de trabalho do atual prefeito também deve ser recordada.

Procuro não utilizar argumentos pessoalizados, mas tive a oportunidade de conviver com a respeitadíssima Lúcia Talabi, atriz e diretora de teatro, que é superintendente da secretaria de igualdade racial. Também com a competente advogada e socióloga Sana Gimenes, de quem fui caloura na Uenf, no curso de ciências sociais. Apenas para nomear duas pessoas que compõem uma equipe mais do que respeitada para a condução das pastas do governo.

Olhando de longe, parece-me que as eleições de Rafael driblaram maniqueísmos em virtude da necessidade e da crença na mudança. Essa sensação de que poderia de fato haver alguma mudança concreta nos rumos de Campos dos Goytacazes era perceptível mesmo aqui do extremo norte do país.

Os meus amigos que se consideram mais ‘progressistas’, na falta de termo mais adequado, bem como parte considerável da elite da cidade apostou em Rafael. Não sou afeita a ingenuidades e, com o perdão de essa análise ser uma delas, esse é um grande estímulo que não tem a ver não somente com a formação sólida e a preparação para o cargo político, mas claramente com um cenário favorável na política campista e uma saída não tão cegamente unilateral, pendente para um dos dois extremos, por assim dizer.

De breve passagem a Campos no final do ano, estive em um restaurante no qual soube que Rafael estava se reunindo com a sua equipe. Logo pensei que seria uma oportunidade para desejar pessoalmente a ele toda a sorte na empreitada que se iniciaria dali a poucos dias. Apesar de ele ter sido uma figura marcante para mim nos eventos do Auxiliadora, não tinha certeza que se lembraria de mim. Assim que ele saiu de onde se reunia, cumprimentou as pessoas ao redor e quando me viu me abraçou com um sorridente Manu. Tive então a oportunidade de desejá-lo sorte na gestão da cidade nos próximos anos.

Passados os primeiros cem dias e com a sensação de mudança não tão latente, mesmo para alguns de seus próprios eleitores, permanece a confiança na competência do atual prefeito e de todo seu grupo. Particularmente para mim, ainda ecoa a continuidade do hino da escola, pertinente, para a atualidade dos caminhos de Rafael: “Queremos ser promessa no futuro/ Luz no escuro, solução!”

 

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